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Fausto Wolff 

 
 
 
 
 

O acrobata 

pede 
desculpas 
e cai 

 
 
 
 
 
 

2

a

. EDIÇÃO 

 
 
 
 
 
 

CODECRI  

Rio de Janeiro 

1980 

 
 
 
 
 
 

O ACROBATA PEDE DESCULPAS E CAI  

© 1980 Fausto Wolff 

1º edição - 1966 - José Álvaro 

2º edição – 1980 - Codecri 

 
 
 
 
 
 
 

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Orelha (Capa) 

A literatura de Fausto Wolff é subjetivista, esse modo de escrever tão maltratado por um pensamento 

crítico que durante as últimas décadas julgou que realismo fosse reportagem da sociedade, e que o homem 
e suas emoções nenhum interesse apresentavam, uma vez que a única verdade eram "os homens". Hoje, 
felizmente,  aqueles  mesmos  críticos  se  voltam  para  Joyce,  Kafka,  Hesse,  e  atentam  para  o  fato  de  que 
subjetivismo é também realismo e, na maior parte das vezes, muito mais realismo que muitos dos escritos 
chamados objetivos. 

Partindo de um único personagem — medida de todas as emoções e valores - Fausto Wolff exprime 

com calor e violência uma sociedade cruel e hostil que massacra, impiedosa, a individualização do ser. 

O  personagem  não  é  um  revolucionário,  ele  não  se  antepõe  à  sociedade,  não  quer  modificá-la,  ao 

contrário  ensaia  todos  os  esforços  para  coexistir  nela,  mas  é  ela,  por  toda  a  sua  inautenticidade,  que  o 
repele, o expele, o expulsa. 

A nossa ficção não é rica de posições assim. Salvo as grandes exceções, tem tomado o caminho fácil 

do naturalismo descritivo. São narrativas de episódios urbanos ou regionais onde quase ninguém existe. 
Os  "heróis"  pretendem  ser  "livres"  ou  "revolucionários",  mas  liberdade  e  revolução  permanecem 
aprisionados nos limites de um condicionamento pequeno-burguês, inconformista. 

Fausto Wolff não quer ensinar, não faz proselitismo, não pretende demonstrar. Ele exprime. Por isso 

faz literatura. 

João Rui Medeiros 

 
Orelha (Contracapa) 

No seu livro O Acrobata  Pede Desculpas e Cai

Fausto Wolff se rebela contra um mundo que ele 

não sonhou e ao qual foi condenado. Ator e platéia ao mesmo tempo, ele acumula e experiência dos que 
se expõem e dos que assistem... Sei que muita gente vai ficar irritada com a linguagem crua de Fausto 
Wolff. Eu mesmo me irrito. Sua revolta me lembra a de Ferreira Gullar na fase mais aguda da sua

 

Luta 

Corporal.  Fausto  trata  os  seus  cordiais  inimigos  com  aquela  franqueza  pornográfica  com  que  Gullar 
invoca  o  inventor  da  roda...  Da  primeira  à  última  página  Fausto  Wolff  nos  transmite  essa  angustiante 
sensação de animal acuado... Um livro sério, sincero, bem escrito. 

Lago Burnetti 

 

O  Acrobata 

  Pede  Desculpas  e  Cai  ou  o  anjo  pede  desculpas  e  desce  aos  infernos  é  a  visão  que 

permanece, após a releitura desta obra pungente, escrita e lançada há 15 anos. 

Um jovem busca um lugar ao sol na grande cidade c esta condenado às trevas: ele não pode perceber 

a crueldade e a cupidez de uma sociedade que estruturou seus valores sobre os símbolos do Poder e da 
Riqueza.  Este  mundo  é  para  ele,  de  fato,  um  mundo  animalesco.  Como  quem  contempla  uma  tela  de 
Ieronimus Bosch, o jovem irá assistir, ao final, o triunfo da morte e da loucura. Não obstante, o jovem, 
iluminado pela chama de uma vela em seu quarto — qual Jonas no ventre da baleia —, clama por Deus. E 
clama por pão e amor, o que Fausto Wolff faz, neste romance-depoimento, com um timbre poético que 
ilumina suas páginas de angústia e alucinação. 

Ferdy Carneiro 

 
Contracapa 

Fausto Wolff 

O anônimo brasiliano 

Sem documentos, atestado de ideologia ou checápi moral, o  acrobata  -  acusado de  acrobata  como 

bátavo sempre foi suspeito de batavo - invade grotescamente a reserva dos javalis e encontra o absurdo 
zoológico  do  mundo  em  que  vivemos.  0  acrobata,  como  tantos,  tem  fome,  fome  mortal,  e  na  reserva 
comida é o que não falta. Nem comida, nem bebida, nem mulheres tratadas, nem prêmios e tributos. Tem 
tudo lá. Mas isso só é dado a quem paga o preço devido - em dinheiro não se fala - que é deixar a pele de 
sua individualidade e vestir o couro da pequena comuna (valha o nome para todas as máfias) que detêm o 
poder. O acrobata, por um momento - anos - pensa que pode; caminhando no arame, no ar, no alto, no 
perigo, no acima, sustentado por uma desesperada ânsia de sobrevivência como ser uno. Mas a atração do 
abismo,  do  vácuo,  do  reles,  do  desumano-coletivo  é  demasiado  forte  e  ele  cai.  Uma  queda  que  não 

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termina no chão. É mais uma queda  escatológica, no duplo sentido da palavra. Antes, porém, ele pede 
desculpas. Se entendi bem, uma ironia. 

Trata-se de um desesperado, o acrobata, como poucos o são. Não há convívio possível entre ele e a 

manada feroz, embora haja uma estranha atração mútua para o encontro permanentemente frustrado. A 
pureza  que  se  compraz  em  chafurdar  num  lodo  que  sabe  inexpurgável,  e  se  alimenta  de  ratos  porque 
menos nojentos do que as pitanças dos que pretendem cooptá-lo. Não afina com os cooptadores, leprosos 
envolvidos em roupas de cristal, vampiros alimentados com plasmas importados, funcionando na sina dos 
que,  maldidos,  só  se  salvam  com  a  maldição  dos  poucos  que  escaparam.  Um  choque  que,  nos  últimos 
milhares de anos, não trouxe qualquer proveito à perfeição do ser humano. O Acrobata Pede Desculpas e 
Cai: 

uma terrível angústia que se passa em porões podres, antros grã-finos eticamente deliqüescentes, e 

em pesadelos que se confundem com a realidade o tempo todo. Tem saída? 

Na novela de Fausto Wolff o personagem não tem nome. Talvez o seu nome seja o da capa do livro. 

Talvez não seja. 

Millôr Fernandes 

 
 
 
 
 

Este é para  
Sarinha, 
Urbano 
 e Diana 

 
 
 
 
 

 
 
 
 

“E JÁ TARDE DA NOITE 

VOLTA MEU ELEFANTE, 
MAS VOLTA FATIGADO, 

AS PATAS VACILANTES 

SE DESMANCHAM NO PÓ. 

ELE NÃO ENCONTROU 

O DE QUE CARECIA, 

O DE QUE CARECEMOS, 

EU E MEU ELEFANTE 

EM QUE AMO DISFARÇAR-ME. 

EXAUSTO DA PESQUISA, 

CAIU-LHE UM VASTO ENGENHO 

COMO SIMPLES PAPEL. 

A COLA SE DISSOLVE 

E TODO O SEU CONTEÚDO 

DE PERDÃO, DE CARÍCIA, 

DE PLUMAS, DE ALGODÃO, 

JORRA SOBRE O TAPETE 

QUAL MITO DESMONTADO. 

AMANHàRECOMEÇO.” 

 

Carlos Drummond de Andrade 

 

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Um 

 

O lugar não é alegre e nem eu. O samba vindo da mesa ao fundo é música de repetição aos meus 

ouvidos. Uma aranha tece um fio naturalmente invisível e por ele vem a melodia que entra no labirinto e 
lá  faz  o  seu  carnaval.  “Se  você  jurar  que  me  tem  amor,  eu  posso  me  regenerar...”  Meus  dedos  estão 
sensíveis. Viro-me e me encontro no espelho. Pelo menos, o que eu suponho ser eu. À minha frente, as 
mãos  sobre  as  minhas,  a  moça  fala.  Longe,  muito  longe.  Diz  que  eu  vou  conseguir.  Diz  que  eu  tenho 
possibilidades. Diz que eu devo parar de me destruir. 

A  moça  fala  e  penso  em  meu  quarto.  Teto  vermelho  e  esperma  no  chão.  (Certas  noites  eu  me 

masturbo  para  vir  o  sono.)  Não  há  luz,  pois  eu  não  pago  as  contas.  Provavelmente,  me  obriguei  à 
escuridão. Se houvesse luz não precisaria masturbar-me. Às vezes compro velas, mas esses tempos quase 
queimei a casa e eu tenho medo da dor física. Tem sebo por todo o lado e sei que à noite vêm as baratas. 
E vêm os ratos, também. Alguns têm olhos azuis, outros, olhos cinzas. Em verdade nunca me interessei 
muito pela cor dos olhos dos ratos, embora nossos movimentos se assemelhem muito. À noite, quando eu 
estou dormindo, eles vêm me olhar mas eu estou sonhando comigo. Às  vezes eles comem a ponta dos 
meus dedos enquanto as baratas passeiam pelos meus cabelos. No armário tenho uma camisa muito cara. 
Dizem que só existem outras cinco na cidade. Ganhei de uma senhora que freqüenta vernissages. Jesus 
Cristo  está  na  parede.  Até  hoje  não  sei  por  que  não  o  retirei  ainda.  Mas  o  que  vou  colocar  no  lugar? 
Também não sei por que devo retirá-lo. A moça entretanto continua falando e pede que eu lhe prometa 
que  vou  dar  um  jeito.  A  moça  sabe  afirmar,  inclusive,  pois  diz  que  é  um  absurdo  a  vida  que  eu  levo. 
Pessoalmente, acho esta vida uma merda. 
 

Dois 

 

Tem uma mulher que vem sempre apanhar a minha roupa. Mas não respeita o meu sono. Bate na 

porta  com  muita  força  e  a  minha  cabeça  dói.  Viro  para  o  lado  e  continuo  dormindo  e  ela  continua 
batendo. Ontem acendi uma vela e ela derreteu sobre a mesinha de cabeceira. O sol passa pela cortina que 
está suja há mais de um ano. Agora foi o despertador que tocou e a minha cabeça doeu de novo. Batem na 
porta, o despertador toca, o sol entra dentro do meu rosto. Me chamam, pois eu faço parte deles. Não sei 
fingir que não jogo o mesmo jogo. Eles acham que eu jogo; que assinamos o mesmo contrato. Preciso 
obedecer. Minhas mãos conseguem parar o relógio mas não o tempo nem a massa de que sou feito. A 
mulher que vem com duas acompanhantes, pois não sabe se eu sou “de confiança”, diz que eu gasto os 
panos  “até  feder”.  Descubro  que  fedo.  Preciso  tratar  dos  preparativos.  No  armário  o  meu  único  terno 
decente. Foi com ele que me casei. O pai da minha mulher foi quem indicou o alfaiate. Depois ela foi 
embora. Meu terno foi feito para ser usado no inverno mas na cidade só há verão. Sei que vou suar, mas 
antes  eu  devo  tomar  um  banho.  Água  quente,  cabeça  quente  e  cara  fria.  Consegui  uma  garrafinha  de 
uísque que já não lembro mais quem deu. Ponho a  garrafa, pela metade, no bolso. Algumas pílulas na 
garganta.  O  mundo  já  se  aproxima  e  eu  preciso  entrar  dentro  dele.  Antes  tenho  que  pedir  o  dinheiro 
emprestado para o porteiro. Sei que não perdi a vergonha, mas como explicar-lhe? Poderia, talvez, mas 
levaria muito tempo e no meio do caminho eu sentiria fome. Sou quase um rapaz circunspecto. Ontem eu 
não tive coragem de me matar. Talvez não fosse falta de coragem mas não teria graça. Talvez um dia eu 
ainda me mate. Talvez um dia, quando eu acabar de escrever este livro. Ou talvez não me mate. Confesso 
que não sei. Mas hoje eu preciso viver pois bateram no meu quarto. Vou andando. Passo pelo botequim, 
ligeiro. O dono vê e, certamente, lembra da conta. Será que ele não sabe que eu gostaria de pagá-la? Ou 
será que ele pensa que eu sou um desses estranhos seres que adoram andar fugindo? Autômato, mas com 
muito sangue por dentro, eu apanho o ônibus. De uma certa forma, fujo, pois quando viajo de ônibus eu 
conto números, ruas, anúncios comerciais, louras, morenas. Fujo em busca da realidade à qual preciso me 
acostumar. Sinto que vou vomitar mas não comi nada ontem. Depois não ficaria bem eu vomitar dentro 
do ônibus. O motorista me botaria para fora. E ele já me olha com cara de quem está muito atarefado. 
Não, não vomitarei. Ficarei olhando para a realidade do estômago e das unhas sujas. 
 

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Três 

 

Estou agora no meu trabalho. Trabalharei em muitos outros lugares. 
Faço um parágrafo para explicar: escrevo no presente mas isto tudo se passou há algum tempo e 

eu não me matei, inclusive. 

Mas  agora  estou  no  trabalho.  E  —  engraçado  —  todos  me  olham.  Dizem  "mas  que  elegância!" 

para mim e eu não compreendo a brincadeira. Um sujeito que há muitos anos vem gastando as pontas dos 
dedos  em  sujas  máquinas  de  escrever  me  explica  que  todos  estão  olhando  para  mim  porque  eu  estou 
penteado.  Não  é  interessante?  Dizem,  também,  que  eu  estou  penteado  e  de  terno.  Mas  o  que  é  que  eu 
posso dizer para eles? Não tenho nada para dizer a eles mas sorrio e  falo até sobre futebol. Começo  a 
escrever  e  as  palavras  saem.  “X  é  o  chocolate  que  faz  as  delícias  da  família.”  Paro.  Mas  parar  ou 
continuar dá na mesma.  Nada importa muito. Apenas o tempo e depois o fato.  Ás vezes  eu penso que 
gostaria de participar mas não consigo. Escuto vozes que vêm do meio da redação. Falam do Ministério 
de Viação e Obras Públicas, dum convite para um baile de carnaval, dum golpe para garantir um posto, 
dum apartamento emprestado para uma trepada, duma desculpa para a esposa, duma gravata, de um terno 
e de um sorriso escroto no rosto. Com algum talento pode-se ser escroto, mas eles logo descobrem. Olho 
para o relógio que está funcionando. Está na hora. Sou obrigado a dizer que vou sair mais cedo para me 
desquitar. Apanho o elevador e bato o cartão do ponto. Como descontam horas de mim! Almoço café com 
pão e pouca manteiga. A garrafinha de uísque está no meu bolso. As pílulas estão no bolso direito. Cabelo 
penteado  e  sorriso  na  cara.  Nenhum  amigo,  nenhum  advogado  do  lado.  Nenhum  tostão  no  bolso. 
Representemos. Uma mulher salta do ônibus comigo. Sinto os lábios nas suas coxas. Fico de pau duro 
mas ele vai amolecer logo. Isso também passa. 
 

Quatro 

 

Minha  primeira  impressão  é  de  que  só  os  miseráveis  se  separam.  Talvez  pelo  fato  da  miséria 

preferir a lucidez da solidão. Paro no meio da escada do que me informam ser a quarta ou quinta vara 
familiar. Identifico os seres humanos pelos seus trajes. Quase todos são pobres, embora haja alguns que 
melhor  disfarcem.  Considero-me  um  homem  bem  vestido  e  o  impressionante  é  que,  apesar  dessa 
consideração,  não  tenho  nada  nos  bolsos,  exceto  um  par  de  óculos  escuros  que  no  futuro  nem  saberei 
onde os terei deixado. A multidão se comprime e sofre apesar de tomar refrigerantes. E se tivessem que ir 
para um campo de concentração ao som das marchas militares? Mas o sofrimento existe na razão direta 
da  sua  proposição.  Todos  em  fila.  Pessoas  que  um  dia  se  conheceram  e  que,  por  não  saberem  dançar 
direito, um dia passaram a não se conhecer. De repente, empurrado para um lado e para o outro, me dá 
vontade de fazer um comício: "Vamos reinventar as palavras. Existe uma moral? De que tamanho? Qual a 
minha  parcela  dentro  dela?  Quem  presta  e  quem  não  presta?  Em  que  tubos  de  ensaio  devo  colocar  o 
caráter?" Imagino uma cena: o Antoninho presta, o Joãozinho não presta; o Antoninho vai ser padre, o 
Joãozinho,  ladrão  e  o  Pedrinho,  puto.  O  ladrão,  o  padre  e  o  puto.  Pura  abstração.  Mas  não  posso  me 
preocupar com essas coisas, pois também sou uma roda da engrenagem e no momento me chamam para 
rodar.  E  aí  vem  o  oficial  de  justiça  vestido  de  preto.  Dou  um  beliscão  no  meu  braço  e  me  mostro 
interessado. Ele fala; os advogados também. As vozes se misturam. 

Enquanto eles falam em pensões, adultérios, gravidez e tantas outras palavras novas para mim; eu 

me pergunto: por que não me deram costumes? Por que não fizeram uma estrutura para mim? Por que fui 
sempre obrigado a copiá-los? Obrigado a fingir que acreditava? Por que tiram essa mulherzinha de mim? 
Eu  não  era  feliz,  é  claro,  mas  me  bastava.  A  ela,  talvez  não,  mas  que  seios  bonitos!  Concordo  com  a 
minha culpa e eles param de falar. Faz dois meses que não a vejo e ela acaba de entrar na sala. Levanta os 
olhos para mim mas a sua atenção se volta para um oficial de justiça que informa ao pedreiro crioulo que 
ele  tem  dois  meses  para  se  reconciliar  com  a  mulher.  Mas  se  o  mundo não  se  reconcilia  como  pode  o 
negro reconciliar-se? Antropologia não é matéria para ser analisada neste momento, penso. Um advogado 
fala baixinho, gordinho  coerente, e me informa  que pode salvar o meu  casamento.  Fala em seguida de 
dinheiro, de muito dinheiro para mim. Mas eu nunca soube mexer com dinheiro. Aprendi, porém, desde 
cedo,  que  é  necessário  concordar  com  as  pessoas  coerentes.  Elas  acham  que  eu  sou  talentoso;  elas  me 
julgam igual. Mas no futuro eu descobrirei que não sou. Descobrirei que tenho que retirar o meu próprio 
pus.  Pus  que  não  fui  eu  que  fabriquei.  Estão  todos  parados  à  minha  volta;  todos  ganhando  a  vida  e 
provavelmente vencendo na vida. Querem uma palavra minha. No ventre da menina, outra criança cresce 

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e eu não consigo lembrar em que noite isso se passou. Mas a criança cresce e até que ponto não estarei 
maltratando os seus nervos em formação com o meu silêncio? Até que ponto? Ela é uma pasta gelatinosa 
cujo corpo não tem fim e que repousa sobre si mesma. Não sei se já a amo. E se a amo não será nunca o 
suficiente. Sempre amei demasiado; sempre amei pouco. Nunca o bastante. O jardim zoológico, à minha 
volta,  grunhe.  Estranhos  latidos  podem  sair  das  bocas  dos  homens.  Infelizmente  só  eu  sou  obrigado  a 
ouvi-los. Querem que eu assine um documento. Assino. Ela assina também. Penso que, quando garoto, 
um  pouco  menor  do  que  hoje,  ainda  enganado  pelo  contrato  que  assinaram  sem  a  minha  permissão, 
imaginei  que  um  dia  a  minha  assinatura  valeria  alguma  coisa.  Hoje  vale.  Como  a  minha  vida,  como  a 
minha passagem, a minha assinatura, também, não tem uma forma fixa. 

Ela  não  olhou  para  mim.  Eu,  porém,  não  posso  deixar  de  sorrir.  Sorrir,  como  sempre  faço. 

Ensinaram-me  a  sorrir  muito  cedo.  Ela  está  com  um  vestidinho  cor-de-rosa,  de  grávida.  Sapatinhos 
baixos, cabelos negros. Rosto de criança. Uma criança será mãe de outra criança. Eu também sou criança. 
Não posso deixar de pensar em Renoir. A adolescente grávida e o pôr do Sol. Mas não tenho nada que 
pensar em Renoir nesse momento. Estou aqui para tentar um exorcismo que não pedi, e não para deixar-
me embalar por tintas, telas e pincéis. De repente, ela vai embora. Deixa-me gente no meio da selva. Ou, 
talvez, animal no meio da gente. 
 

Cinco 

 

Estou  andando  em  busca  de  um  novo  emprego.  Atrás  de  uma  vitrina  vejo  moças  e  rapazes 

vendendo sapatos. Todos os dias, no mundo inteiro, moças e rapazes vendem sapatos. Os pés são os mais 
diversos. O que as moças e rapazes têm de fazer é sorrir; apanhar um par de sapatos e calçar num par de 
pés. Milhões de vezes eles fazem isso durante anos. Tento descobrir um parafuso, tento descobrir algum 
sangue, nada. São apenas moças e rapazes que vendem sapatos. Certamente, também, têm seus mistérios, 
mas  não  são  pagos  para  se  preocupar  com  eles.  Vendem  sapatos  e  dizem  que  também  amam.  Mas  eu 
preciso arranjar um emprego e não me preocupar com as moças e rapazes que vendem sapatos. Na minha 
frente há um prédio e um enorme relógio marca as horas. Se eu não me apressar elas passarão e ninguém 
me deu licença para parar. Subo as escadas para ir áo encontro de um rapaz que conheço e que subiu na 
vida. O rapaz talvez me dê um emprego. Eu não vendo sapatos mas poderei ser aceito de alguma forma. 
Eu  escrevo.  Isso  não  é  nada  mas  há  quem  pague.  Falta-me  sofrimento  para  atingir  o  olho,  o  nervo  do 
desespero. Falta-me talento para continuar sorrindo. Prefiro escrever um bilhete para o rapaz que vence na 
vida e desempenha essa função muito bem. O bilhete. 

"Preciso ganhar mais dinheiro. Ajude-me. Você é um cara realizado. (No fundo isso é um insulto 

mas não quero pensar nisso; quero participar.) Chega de puxação de saco. Ou isso ou o suicídio." 

Assino e penso por um momento que sou capaz de ganhar o emprego, pois meu bilhete é bem-

humorado. Mais tarde descobrirei a minha total incapacidade humorística. 

Depois  de  ler  o  bilhete  o  rapaz  feliz,  pois  dizem  que  ele  é  bem-posto  na  vida,  que  tem  alguns 

filhos, um automóvel e uma mulher que dizem ser adorável, sorri para mim que estou infeliz. Diz que é 
favorável  ao  meu  suicídio.  Insulta-me  bastante;  mas  eu  preciso  do  dinheiro  e  há  pouco  aprendi  que  é 
preciso ouvir insultos dos participantes. Ouço e sorrio. Voltarei todos os dias. Ouvirei tudo novamente. 
Vão me chamar de  covarde mas isso é fácil. Talvez eu consiga o  emprego.  Na saída, passo por  várias 
pessoas que dirigem a opinião pública. Interessante: sempre há quem dirija o opinião pública. 
 

Seis 

 

Estou de novo no meio da rua. Um ar quente, pesado, quase uma bofetada, bate em meu rosto. Um 

cego se aproxima de mim. Será um cego medíocre ou conseguirá ele ensinar-me novas cores? Como eu, 
porém,  ele  só  quer  dinheiro.  Eu  poderia  desmaiar.  Sempre  há  alguém  que  nos  leve  para  algum  lugar. 
Teria, porém, que despertar novamente e eu não possuo asas. Em algum lugar, talvez nos Estados Unidos, 
um  moço  morre  de  fome  numa  praça  pública.  "Voa  no  espaço  imenso  o  ousado  rapaz  do  trapézio 
suspenso."  Sinto  medo.  Medo  da  aranha  que  pulou  no  meu  pescoço  há  muitos  anos.  Nem  sei  mais 
quantos. Deve ter sido uma aranha grávida. Deve ter depositado muitos ovos dentro das minhas veias. Os 
ovos se transformaram em novas aranhas e o meu sangue lhes serve de alimento. São as condições. Não 
posso pensar nisso. Preciso continuar andando. Preocupar-me. Leio um anúncio numa esquina: "segredos 

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sexuais, só para homens". Entro e perco-me entre os gritos de buceta cabeluda! Que bundão!, etc. Na tela 
um cidadão fala dos malefícios da gonorréia. Roseira dá-me uma rosa. Craveiro dá-me um botão. Criança, 
choro no meio do cinema. Criança, choro no meio do mundo, enquanto os edifícios desabam sobre mim. 

De olhos fechados, em outro universo, compreendo que preciso escrever uma história e que para 

tanto  preciso  exorci-sar-me.  E  uma  forma  de  lição  e  de  testemunho.  Preciso  compreender  a  minha 
colocação  na  engrenagem  mas,  talvez,  escrevendo,  eu  possa  me  libertar  da  engrenagem.  Analiso-me: 
nasci  torto.  Nem  comunista  sou  mais  e  não  o  sou  há  algum  tempo.  Soube  um  dia  (e  creio  que  isso 
ninguém me ensinou) que Deus era feito de capim, de leite e das bobagens que Kant escrevera sem uma 
certa humildade de superfície. Neste momento, porém, quero que Deus vá à merda. Vou me arrepender 
disso quando sentir dor de dentes novamente. Apesar da fome, da tontura e da ânsia de vômitos, sentado 
dentro  de  um  cinema,  compreendo  que  uma  cultura  estomacal  é  tiranizante  e  que  antes  de  mais  nada 
preciso  fazer  as  pazes  comigo  mesmo  e  que  isso  só  será  possível  através  da  confissão.  Serei  o  meu 
próprio  Deus:  pecador  e  confessor,  mas  ainda  não  sei  se  me  perdoarei.  Preciso  socorrer-me.  Amar  ou 
pegar. Agredir ou sorrir mas, antes de tudo, socorrer-me. 
 

Sete 

 

"Da vez primeira em que me assassinaram perdi um jeito de sorrir que eu tinha." Mas ninguém me 

assassinou nunca. Eu apenas vivo e não aceito. Vivo e não aprendo. Amo e não a-credito. Puxo-me pelos 
cabelos e espero ver alguém como eu passando-me as mãos pelos cabelos. O suor desce pelo meu rosto. 
Com as unhas procuro  machucar-me. Preciso limpar-me. Tomar um banho. Mas a água, onde  achá-la? 
Estou no lugar onde moro mas quero tomar banho. Já não tenho mais compromissos com ninguém e por 
isso  mesmo  tenho  o  direito  de  tomar  banho.  Peço  um  pedaço  de  sabão  ao  porteiro  e  vou  andando  em 
direção ao mar. Passa por mim uma menina. Vai espantada, maravilhada com a primeira menstruação. 
Nada temos para nos dizer. O porteiro me previne que a água do mar não faz espuma. Jogo-me na areia, 
enterro-me  na  areia.  Tento  achar  pedaços  do  meu  corpo  na  areia.  Mas  sei  que  nada  me  falta. 
Envergonhado escondo-me na água do mar e passo o sabão por todo o corpo. Constato que, realmente, 
não faz espuma. Depois fico olhando para o sol. Tento compreender o seu ciclo. Sentir o seu calor. Já não 
sei mais ficar maravilhado. Não lembro de haver aprendido alguma vez. 

Os  homens  que  moram  no  Sol  resistem  ao  calor  do  Sol  e  ao  mau  cheiro  da  Terra.  No  Sol  os 

homens não têm cor e ninguém lhes dá pedras para jogarem qualquer jogo. Eles são raios em constante 
vida e em constante amor. O Sol joga-os fora do seu útero mas não os deixa sozinhos. O calor é o cordão 
umbilical e os homens-raios se atravessam uns aos outros com amor. A areia se desfaz sob os meus pés e 
uma onda joga-me com a cara para baixo. Levanto-me magnetizado por um par de coxas e por um ventre 
redondo. Longe, em algum lugar, outro ventre cresce, mas isso, agora, eu já esqueci. 

Milhares de grãos de areia grudam-se aos meus pés molhados. A alguns metros de distância, ela 

está deitada sobre uma toalha. Gostaria de saber sobre o que pensa. Inútil descrevê-la. Basta dizer que se 
trata de uma mulher. As coxas estão abertas e por entre as calças do biquíni deixam entrever alguns pêlos. 
A mulher é razoavelmente loura, mas os pêlos são pretos. Respiro sexo e estamos sozinhos na praia. Eu e 
a  mulher.  Devo  falar  com  ela?  Mas  o  que  dizer-lhe?  Gostaria  de  foder  contigo?  Ela,  certamente,  não 
entenderia  e  me  mandaria  passear  ou  —  quem  sabe  —  diria:  você  não  se  enxerga?  E,  em  verdade,  eu 
pouco  me  enxergo,  pelo  menos  neste  momento.  Mas  por  que  fica  assim,  de  pernas  abertas  na  minha 
frente? Será que não percebe que isso me interessa? É um pouco gorda, mas não muito. Não reparo muito 
no seu rosto, mas não é feia. Mas o que dizer-lhe? Está fazendo calor, não? Ela roça uma coxa contra a 
outra. Ela fala. Diz que me conhece; que eu andava sempre com uma mulher grávida na praia. Mas por 
que  é  que  essa  puta  tinha  que  falar  logo  agora  na  minha  mulher?  Já  não  tenho  emprego,  já  não  tenho 
mulher, já não tenho mais talento para viver. Quando estou pensando na única coisa que tem princípio, 
meio, fim e  eu  entendo  e  gosto, esta vaca tem que me lembrar. Que merda! Mas não digo nada  disso. 
Simplesmente, deito-me na sua toalha e prossigo olhando para as suas coxas num vaivém que passa pela 
bunda  e  vai  até  o  soutien  do  biquíni  que,  por  sua  vez,  está  aberto.  E  a  mulher  fala.  Tem  um  amante, 
lógico. Velho, lógico. Que a persegue, lógico. Tem ciúmes. Mas o que fazer com os velhos? Incinerá-los? 
Remoçá-los?  Meto-lhe  a  mão  por  entre  as  calças  e  descubro,  entre  uma  piada  e  outra,  a  sua  buceta. 
Caímos na água. Quer foder na água. De pé. Eu vou mas não consigo gozar na água. faltamos à areia. 
Gozo um gozo de merda. A mulher quer carinho. Mas que carinho tenho para lhe dar? Ela que busque 
carinho na sua tradição  de hábitos e costumes; vá à missa, se suicide. Eu não tenho tradição, missa ou 
talento  para  o  suicídio. Não  tenho  nada  para  lhe  dizer.  Cheio  de  esperma  vou  andando  para  a  calçada. 

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Paro em frente uma loja de discos e ouço uma antiga melodia. Na praia ficou a mulher. Certamente tem 
um nome mas o que é que eu tenho com isso? Também tenho um nome e ninguém chama por ele. 
 

Oito 

 

Ainda  tenho  um  emprego  que,  certamente,  não  vai  durar  muito.  Estou  reescrevendo  fatos  e 

mentiras que nada têm a ver com a vida quando vêm me dar a notícia. 

— Seu filho nasceu sexta-feira. 
Era segunda. Na quinta me desquitei e na sexta estive na praia com as mãos entre as coxas de uma 

mulher (“você sabe fazer um ziriguidum tão gostoso meu bem”) enquanto ela me masturbava. A explosão 
foi um pouco violenta demais para o meu gosto, se é que tenho algum. Quero acreditar que acredito no 
que penso e às vezes digo. Que o que sinto neste momento (se é que sinto alguma coisa) me faz feliz. 
Examinemos essa felicidade. Feliz pelo fato de um médico ter tirado uma criança de dentro da barriga de 
uma jovem? Feliz por ter filho? Talvez feliz pelo fato de haver acontecido alguma coisa. Talvez isso seja 
a antítese. Mas a antítese de que tese? Hegel explica esse conflito mas é possível que alguém pense em 
Hegel  enquanto  lhe  informam  o  nascimento  do  filho?  Enfim,  alguma  coisa  de  diferente  acontece.  É 
preciso tomar uma atitude. Eu não tenho dinheiro mas muita gente também não tem. Não é hora de me 
preocupar  com  quem  rouba.  Os  políticos,  os  comerciantes,  os  ricos,  enfim,  têm  algo  em  comum:  são 
todos  ladrões.  Dia  chegará  em  que  os  ladrões  não  mais  existirão.  Nem  o  vocábulo  existirá.  Apenas  o 
roubo. Mas eu já não estarei mais vivo. E esses merdas sem moral, sem dignidade, fora da vida e dentro 
do  contrato  social  que  eles  entendem  e  adoram  (embota  ele  vá  lhes  capando  a  sensibilidade  dia  a  dia) 
ficam me felicitando. São, porém, incapazes de me pagar um almoço. E me licitam. Afinal, sou pai. O que 
querem que eu faça? Que compre charutos e uma garrafa de Curvoisier (que anos depois eu viria a beber) 
e distribua sorriso e diga piadas? Preciso evitar que um dia meu filho me interrogue com o seu olhar e é 
nisso que penso. Como poderei explicar-lhe toda uma questão social? Este menino, meu filho, vai querer 
ouvir a minha palavra. Certamente que vai. E a minha palavra doente irá de mim direta para o seu ouvido. 
E nesta viagem de anos perderá todo o seu sentido. Um sentido fabricado por uma falsa lucidez. O que é 
que eu farei então? Compro-lhe um revólver, se tiver dinheiro; digo para ele que está muito elegante, se 
estiver vivo? Falarei marciano com o menino da Terra? O menino meu filho vai me interrogar com os 
seus olhos. E fui eu que construí essa interrogação. Fui eu que a fiz numa noite que já não lembro. E ele 
aguardará  quieto.  Nasceu  há  dias  e  junto  com  ele  nasceu  o  silêncio  do  seu  olhar  que  prolongará  meu 
castigo. 
     Mas agora é preciso tomar uma atitude. Engraçado: sempre fui um homem de atitudes e agora estou 
aqui pensando no que acontecerá: no medo que está no passo que ficou atrás e no medo que continuará 
preso ao passo que darei a seguir. Uma atitude. Falar com o patrão. Já como pão sem manteiga de manhã, 
de tarde e de noite. Agora nem isso. Retiro todo o meu salário e compro uma dúzia de rosas. As rosas são 
bonitas. Uma ou duas dúzias, já não me lembro. Pouco importa. Flor é flor. Sangue é sangue. Vou para a 
maternidade mas não sem antes ouvir a exclamação do gerente (deve haver um curso para gerentes — são 
crianças que já nascem gerentes) da maior revista de um país de merda. 

— Mas você poderia ter se prevenido. Essas coisas não acontecem de repente. 
Como  posso  dizer-lhe  que  eu  não  sabia  quando  o  meu  filho  iria  nascer?  Como  posso  dizer  que 

tenho medo de ter colocado nesse mundo uma engrenagem perfeita que logo estará doente por respirar o 
mesmo  ar  que  os  gerentes  respiram?  Mas  nâo  digo  nada.  Retiro  o  dinheiro  e  vou  embora.  Os  cabelos 
compridos  e  a  barba  por  fazer.  Também  tenho  pouca  barba.  Vai,  Carlos,  ser  gauche  na  vida.  Neste 
momento,  até  mesmo  o  conformismo  do  maior  poeta  do  mundo  (o  poeta  que  respeita,  que  limpa,  que 
cuida com carinho cada uma das suas palavras) me irrita. 
 

Nove 

 

As  palavras  formam  frases  que  lutam  entre  si  num  quarto  pequeno  e  este  quarto  pequeno  é  a 

minha cabeça. Preciso ordená-la e a ordeno com cachaça e limão antes de subir à maternidade. Não posso 
deixar  de  ser  igual  aos  outros.  O  dinheiro,  embora  fique  por  pouco  tempo  no  meu  bolso,  me  dá  uma 
sensação tranqüila e, além disso, a bebida ajuda. As frases se ordenam na mesa do botequim. 

Foi pelo telefone que recebi a notícia de que eu ia ser pai. Uma voz quase infantil anunciou: você 

vai ser pai — confirmou. Quando garoto assisti muitos filmes americanos desses em que - de repente - a 

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mulher informa a "novidade" ao marido e ele sai dando pulos pela casa. Confesso que não dei pulos. Seria 
pai, e daí? Contei o fato aos circunstantes. Rápidas felicitações que saem da boca, tão rapidamente quanto 
um  peão  come  uma  dama  quando  esta  se  deixa  ficar  distraída  à  sua  frente.  Comida  a  dama,  todos 
voltaram à anedota inacabada. Senti-me como um clown sem graça que pede desculpas pelo repertório 
que chegou ao fim, enquanto a platéia mastiga a espera. Olhei para os lados e já ninguém mais olhava 
para mim. Minha mulher me aguardava em casa de sua mãe. Mãe que — como convém - entregara a filha 
ao jovem intelectual. No caso, o jovem intelectual sou eu. 

Lembro dos dias que se seguiram e continuaram seguindo: 
— Mamãe deu a fraldinha para o nenê. Titia deu o lençol. Papai está preocupado. E você? 
Eu também estava preocupado mas não conseguia racionalizar a preocupação. Ou então: 
— Você chegou atrasado hoje. Vamos tomar ânimo. Você é um excelente profissional. 
Como poderia ser excelente profissional se teimava em não enquadrar-me na engranagem? Se não 

conseguia escrever fatos que nada tinham em comum com a vida? 

Em casa: quarto, cozinha e banheiro. Todas as peças abafadas e um aluguel maior que a metade do 

meu salário. 

—  Você  precisa  arranjar  outro  emprego.  Eu  não  peço  por  mim  mas  sim  pelo  menino  que  vai 

nascer. Não quero ir ao papai. Não quero pedir leite na casa da mamãe. Você precisa se preocupar. 

E eu me preocupava. 
No trabalho: dezenas de patrões e outros tantos empregados: 
— O senhor precisa trabalhar. Não, não precisa falar. Já sei. Vai dizer que não faz outra coisa que 

não seja escrever. Não quero saber de nada. Não quero saber de nada. Não quero saber de nada. 

Lembro que, após um desses monólogos patronais, tentei estabelecer um diálogo. Julguei que seria 

possível explicar alguma coisa. Comecei a falar: 

— Mas vocês só sabem dizer piadas. Mesmo o amor virou manipulação egoística a dois. Vocês 

não vivem e querem me ensinar a viver. Vocês por acaso são felizes? Felicidade para vocês é dinheiro e 
sucesso. Vocês agem na ilusão de que as ações de vocês beneficiam a vocês mesmos. Mas vocês atendem 
a todas as necessidades menos a do eu real de vocês. Vocês são a favor de tudo, exceto de vocês mesmos. 
Será que vocês não entendem que eu sou um fim para mim mesmo e não um meio para uma autoridade 
transcendental? 

Mas, evidentemente, as autoridades transcendentais não entenderam, pois tinham muito dinheiro 

para tentar entender, a arte de afastamento vivencial prosseguia. Em casa: 

— O quilo de carne está custando X. O leite em pó está muito caro. Quando a criança nascer, não 

poderemos continuar misturando água com leite. 

Os meses passavam rápido. Tão rápidos como o dinheiro que saía do meu bolso para o bolso dos 

açougueiros, médicos, dentistas, cobradores. Os cobradores, de um modo geral, eram de livro. E era tão 
fácil  vender-me  livros.  Eles  viam  como  eu  os  namorava.  Diziam  que  era  fácil  pagar.  E  eu  acreditava. 
Dinheiro. 

Às  vezes  chegava  em  casa  tarde  da  noite  e  encontrava  a  minha  mulherzinha  dormindo.  Uma 

criança de menos de 20 anos. Lindas pernas, lindo busto, querendo apenas aprender a arte de viver mais 
simplesmente; não querendo atacar convenções, mas aceitando verdades absolutas que ainda não haviam 
começado a esquartejá-la. Eu tirava o meu terno suado. Tentava lavar-me mas faltava água. Em silêncio, 
para não acordá-la, deitava-me na cama. Ela precisava de amor e de carinho. Mas estaria eu em condições 
de dar? Também eu era uma criança tentando jogar um jogo perigoso para mim, fora de casa. E era eu 
quem ela pretendia ter como professor de vida. Como ousar beijá-la, se durante todo o dia eu nada mais 
fizera senão fracassar no jogo da vida? Como ousar ter desejo? Sentir o sexo, com tanta culpa e tanta falta 
de talento para o jogo da vida sobre os ombros? Medo de tocá-la. Medo de não poder amá-la  e, ainda 
assim,  amando-a  com  toda  a  intensidade.  Sua  fragilidade,  porém,  era  o  espelho  da  minha  própria 
fragilidade. Como explicar-lhe a minha falta de condições para o jogo do dinheiro que é o jogo da vida? 

Naquele silêncio, feito de calor, suor e noite, eu sentia intensamente a ausência de Deus e sofria 

com essa ausência, pois toda a responsabilidade do que ocorreria daquele momento em diante era minha. 
E faltava-me força para suportar o peso da minha ignorância. Chorar, também não podia, pois ela acabaria 
acordando e como explicar as minhas lágrimas, se elas existiam alheias à minha vontade? 

Como  dizer-lhe:  meu  amor  a  culpa  é  desses  filhosdasputas  que  tiveram  a  sorte  de  nascerem 

filhosdasputas; que tiveram a sorte de nascerem acreditando que o mundo é assim mesmo. 
Dinheiro, meu amor, é a palavra de ordem, e para não chorar agora é necessário acreditar nele. É por falta 
de dinheiro que estou brocha nessa noite. 

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Também não podia dizer-lhe isso, pois ouviria a sua verdade adolescente e justa: 
—  Mas,  meu  amor,  você  não  pode  brigar  com  todos.  O  dinheiro  não  faz  mal  algum.  Papai 

trabalha, todos trabalham. 

Como explicar-lhe que bem cedo deixei de aceitar porradas? Como explicar-lhe que bem cedo eu 

tentei estabelecer um valor ético próprio para a criança que fui anteontem, para a criança que era ontem e 
para a criança que sou hoje? Como explicar-lhe que não aceitei que me ensinassem o que era bom e ruim 
antes  que  eu  mesmo  pudesse  distinguir  o  bom  do  mau?  Os  adultos  muito  cedo  tentaram  me  enganar. 
Estúpidos animais fabricados numa clicheria de carne, eles aprenderam o que é bom sem nunca haverem 
sentido isso. E tentaram ensinar também a mim que, para meu azar, bem cedo descobri suas manobras. 

Na  escola  —  meu  primeiro  contato  com  a  sociedade  —  tentaram  ensinar-me  que  bom  é  aquilo 

pelo qual a gente é elogiada. Mau é aquilo que faz com que a gente receba puxões de orelha. E as minhas 
estão tortas até hoje. 

Sim, eu também precisava de aprovação, embora não acreditasse nela. Mas o que devia fazer se 

fui feito de outro barro, mais frágil e sensível, apesar de minha natural indiscrição? Mas, infelizmente, eu 
tive o azar de, apesar da pressão emocional dos adultos, crescer me interrogando. Crescer perguntando a 
mim  mesmo.  Eu  tive  o  azar  que  até  hoje  me  acompanha  de  saber  que  o  que  é  bom  para  a  autoridade 
transcendental,  seja  ela  pai,  mãe,  professor  ou  patrão,  não  é  bom  para  mim.  Não  me  deixaram  ser  um 
cachorro; alguma autoridade transcendental que dorme dentro de mim não me deixou ser í um cachorro, 
eu queria tanto ser um. Um bom cachorro, um cachorro bem vestido, um cachorro fodedor, um cachorro 
gigolô; um cachorro de automóvel e com algumas viagens a Paris. Um cachorro bom para a autoridade 
pois que serve à autoridade. Mas eu mordo, sou um mau cachorro e depois falta-me talento para pedir 
desculpas. 

Deus  me  faltou  quando  lhe  pedi  que  me  transformasse  num  cachorro  como  os  outros.  Deus 

condenou-me à humanidade. 
 

Dez 

 

Mas  volto  ao  botequim  onde  procuro  organizar  a  minha  culpa.  Um  botequim  sórdido  de  um 

cachorro que encontrou essa forma de viver. Preciso organizar a culpa do cachorro obediente que eu não 
soube ser. Meus olhos já vislumbram a beleza das formas de uma suja cortina, tentando estabelecer com 
as cores e com as linhas uma simetria que traduz um diálogo subconsciente. As lembranças merdais de 
um passado próximo já se afiguram. Beberei mais um cálice de cachaça para ter a coragem de entrar na 
maternidade. 

O que eu não podia lhe perdoar era o fato dela acreditar em mim. O que eu não podia suportar era 

o seu olhar que olhava um Super-Homem. Um Super-Homem com hemorróidas e que gostava de putas, 
pois, apesar delas, sofria com elas. 

— Não se preocupe, meu amor, um dia tem que melhorar. Vai melhorar. Eu tenho certeza que vai 

melhorar. 

Teria eu certeza de que algum dia alguma coisa melhoraria? Eu ia de casa para o trabalho. Voltava 

do trabalho e para me enganar lecionava filosofia para meninas que achavam o professor bonito mas que 
não tinham por que preocupar-se com a filosofia, pois voltavam de Paris adorando o New Jimmy's. E eu 
vivia  tentando  explicar  que  é  necessário  explicar  a  vida,  procurando  a  vida  que  passou  dentro  de  nós. 
Voltava cansado. Os enormes pés doendo. 

Um dia descobri um diário: 
“Já não amo mais o meu marido como no primeiro dia. Ele é tão sonhador. Tão desanimado. Não 

cuida das roupas que veste. Há muito não corta o cabelo.” 

O homem que nunca existiu começava a acabar. E faltava a mágica. Faltava o dinheiro. 
— Mas há o Instituto. 
Sim, havia o Instituto, mas eu não queria entregar a carteira profissional para o cachorro assinar, 

pois havia, também, a promessa de um aumento. Se ele assinasse a carteira, jamais me daria um aumento. 
E dez mil cruzeiros resolveriam. 

A doença também ataca as boas crianças (e choro enquanto escrevo, pois estou sozinho e hoje em 

dia a situação mudou, embora eu ainda não esteja num canil). 

— Meu amor, eu estou com febre. 
Minha mulherzinha estava com febre. O ventre grande, os lindos cabelos suados contra a nuca e o 

constante esfregar o chão do sórdido apartamento para onde ela fora comigo. 

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— Onde está o termômetro? 
— Nós não temos termômetro. 
E o médico? E vinha o cachorro médico e se ia o cachorro médico com o dinheiro. E as contas? E 

os empréstimos com os cachorros colegas de profissão. 

— Essa conversa de médico é velha, meu chapa! 
Sim, a conversa de médico era velha. Eu mesmo já a havia contado antes quando perdera dinheiro 

no pôquer e nas corridas. 

Um cachorro explicara: 
— É a chance. E a chance de tirar o pé da merda. Um dia: 
— Chamam o senhor na seção do pessoal. 
Fui com um sorriso feito de sangue desenhado no rosto. 
— Estão fazendo uns cortes. O papel aumentou. Mas não se preocupe que foram outros. Foram 

outros. Quatro, cinco, seis, sete. 

Senti que perturbava o trabalho dos patrões. Discutiram sobre o problema da portaria nº 4. 
Não  me  ensinaram  o  exercício  da  humildade  e  eu  sorri,  fingindo  que  compreendia  tudo  bem. 

Minha  vontade  era  gritar  chorando,  e  duas  quadras  adiante  gritei  e  um  guarda  me  prendeu.  O  guarda 
soubera cumprir seu dever. O mundo tem guardas para prender as pessoas que gritam, e eu gritei: 

— Como pode a minha mulherzinha ter orgulho de um homem sem emprego, seus filhosdasputas? 

Como pode? E o meu filho que vai nascer? 

Mas, ainda assim: 
— Tudo vai melhorar, meu amor. Você precisa fazer amizades, sorrir. Vista um terno. 
Que terno? Que sapatos? 
—  Você  precisa  ir  a  festas,  fazer  amigos.  Fingir  que  está  trabalhando  mesmo  quando  não  está. 

Papai não precisa saber de nada. 
 

Onze 

 

Mas eu não fui a festas e não fiz amigos. Fui por aí fingindo-me Carlitos com folhas de árvores no 

ombro, sem coragem para jogá-las fora. Agora já não tenho mulher mas sou impelido a ver o filho que 
nasceu. Difícil deixar o botequim, pois já estou cantando uma canção vienense para espanto dos bêbados 
das três da tarde. Deixo-os para trás, eles me julgando um bosta, e vice-versa, e dirijo-me para o portão da 
maternidade. Vivo o momento com a intensidade que o fabriquei. Meus pés abrem pequenos sulcos nas 
pedras do jardim e, por covardia, deixo de misturar-me a elas numa tentativa de integrar-me ao objeto à 
espera de um artesão que me remodele a forma. Levo flores (porra, não comi, mas levo flores) numa das 
mãos e na outra, mistura de suor, vergonha e medo. A enfermeira deixa-me imaginar como serão os bicos 
dos seus seios, sob o avental branco, e, em seguida, interroga-me. Peço a informação. O espanto deixa-me 
satisfeito. 

- Sim, donzelas, sou pai. Acreditem que não foi muito difícil: bastou abrir as pernas da moça e 

deixar cair dentro dela um líquido viscoso numa dança de milhões de espermatozóides. Pronto. 

Mas não digo nada. Deixo-me ficar parado e pergunto quanto devo. Sei que todo o meu salário 

não  pagará  o  parto.  Imagino  quantos  nomes  tem  o  dinheiro:  erva,  capim,  fumo,  trigo,  milho,  grana. 
Arrasto-me  até  o  elevador.  Fecho  os  olhos  e  vou  contando  até  cem.  Atinjo  o  quarto  antes  de  atingir  a 
realidade. Pelo menos a realidade aparente, aquela que é real porque a vivemos. Esta é a que corta com 
mais esportividade. Tenho certeza de que milhões de lâminas de barbear dançam no meu estômago. 

E  foda!  O  negócio  é  ter  o  dinheiro  ou  ir  à  merda.  Eu  vou  à  merda.  Enquanto  assim  penso  não 

posso  evitar  as  lágrimas.  Toda  a  minha  vida  misturei  lágrimas  com  merda.  Levanto  a  cabeça  e  vejo  a 
minha  sogra.  Tento  imaginar  rapidamente  os  seus  pensamentos  mas  em  seguida  lembro-me  que  ela  já 
deixou de pensar há muito tempo. 

- Você tem um filho lindo. 
Eu quis reclamar; quis perguntar por que não me informaram da data certa. Mas nada adiantaria. 

Eu não choro o momento, choro a vida. 

- Não chore, meu filho. 
Não sei por que penso em Kipling caçando leões na África ou na Índia a dar conselhos ao filho. 

Sempre há alguém para nos dar conselhos o resto da vida depois de nos pagar um bife. Kipling e o filho 
desaparecem  e  eu  vivo  uma  eternidade  até  atingir  a  maçaneta  da  porta  do  quarto.  Inicia-se  a 
representação. Acendem-se os refletores. Spotlights a focalizar o ator central. Edmond Kean vai entrar no 

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palco. Através das lágrimas vejo a minha mulherzinha deitada sobre a cama. Ao seu lado, o meu filho. 
"Que  mão  viciosa  rasgou,  estúpida,  a  tua  pureza?  Estás  perdida  no  país  das  maravilhas  e  cem  bruxos 
feiticeiros te espiam para te transformar na máscara fria e inexpressiva da antiga menina que ainda és." 

O menino está no meu colo. A família assiste ao ato. Devo matar o meu filho, pois muito o amo? 

Minhas mãos enormes aproximam-se do seu pescoço recém-moldado. Paro para imaginar as manchetes 
dos  jornais  no  dia  seguinte.  Certamente,  ninguém  compreenderia  o  fato  de  eu  evitar  que  meu  filho 
participe do cego estágio que logo virá. Neste momento eu também quero a minha mãe. A minha mãe 
bonita  e  inteligente  que  fabriquei  durante  a  minha  infância.  Devolvo  meu  filho  ao  leito  e  desmaio.  Eu 
deveria  ter  guardado  cem  cruzeiros  do  meu  salário  para  comer  um  pouco.  De  qualquer  forma,  alguma 
coisa aconteceu. 
 

Doze 

 

Bois de Boulougne, o Sena sujo mas os bons pratos do La Tour D'Argent, o Rockefeller Center, 

Beatrice que possui os seios grandes, mas nem por isso caídos e que adora trepar em inglês, o P. J. Clark's 
e  os  hambúrgueres  jumbo,  o  negro  senegalês  que  consegue  gozar  sem  tocar  no  pau,  enquanto  que 
senhoras da sociedade deliram diante do feito em Saint German de Près, e que eu a levei ao rio pensando 
que era donzela e ela tinha marido, nas últimas esquinas toquei seus seios dormidos que se abriram de 
repente como ramos de jacinto, o banho de sol em Marbella, o congresso from peace and friendship em 
Praga, a sensação de nada sobre a eternidade. 

Não  quero  sonhar  este  sonho  nem  voltar  para  a  minha  cidade,  o  porto  mais  triste  e  cruel  do 

mundo. Já conheci a outros, como o de Sidney ou o de Bonifácio. Tenho que sonhar o sonho. Faz muitos 
anos e são cinco horas da manhã. Tenho uma vaga noção de que devo acordar-me mas meus ossos dizem 
que lá fora faz frio. Sempre sentirei raiva do frio por causa da falta de roupas convenientes. Levanto e vou 
gelar meus dedinhos. (Também só tenho seis anos.) Vou gelar meus dedinhos lavando vidros de farmácia. 
(Mas não quero sonhar este sonho.) O dono da farmácia bate na minha boca e nunca mais desaparecerá o 
gosto do sangue escorrendo pelas gengivas. A boca de uma criança não foi feita para ser maltratada. As 
mãos  de  uma  criança  não  foram  feitas  para  gelar  na  água  fria.  Eu  sangro  e  calo,  me  ensinaram  que  o 
importante é comer e sofrer. Calo e aos domingos vou assistir a um seriado completo e levando escondido 
no bolso das calças um revólver de metal vagabundo, vou matando os donos de farmácia que Buck Jones 
persegue. A saída do cinema, calo novamente. Mas, agora, sonhando, eu  grito. Grito a fraude que sou. 
Grito  a  morte  que  um  dia  terei  coragem  de  me  proporcionar.  Grito  o  revólver  de  verdade  que  um  dia 
possuirei. Grito que minto e que as mentiras vão me levando à lucidez só conseguida pela loucura. Grito o 
medo da velhice e da velha criança covarde que serei. Grito o mundo que esporra e mija sobre mim. Grito 
pelas  vezes  em  que  morreria  por  meu  pai,  pelas  vezes  em  que  o  matei  e  pelas  vezes  em  que  ele  me 
assassinou. 

A  Torre  Eiffell,  Ezra  Pound,  Vent-Vert,  belas  coxas  ostentando  pêlos  que  lembram  pêssegos 

maduros  acariciados  contra  o  caminho  do  vento.  Mordo  o  pêssego  e  acordo  na  masmorra,  no  meu 
apartamento, fora do Hospital, longe de Paris. Com fome. O pêssego destila sangue. 
 

Treze 

 

Estou de volta ao meu cenário, tendo como envolvimento este calor filhodaputa. Tenho que achar 

graça da própria expressão: o calor é filho do tempo que, por sua vez, tem uma companheira que possui 
uma enorme vagina por onde entram os raios do sol. No lado mais quente desta vagina é o meu quarto. É 
onde faz mais calor. Divirto-me pensando no tempo em que estive desmaiado. Pelo menos, umas duas 
horas, o suficiente para que me trouxessem da maternidade para este fétido buraco sem luz. Com a mão 
esquerda, bato no ombro esquerdo e certifico-me que ainda continuo existindo. Talvez não mais como ser 
humano, mas, ainda assim, como uma atitude diante de uma situação de fato. Desmaiei junto da cama da 
minha  ex-mulher  na  maternidade.  Posteriormente  o  porteiro  do  edifício  me  diria  que  um  general  e  um 
paisano trouxeram-me para casa dentro de um táxi e enquanto me empurravam para dentro do elevador 
travaram um diálogo bem pouco singular. 

— Porra, este sacana só dá vexame. 
Deitado sobre o meu vexame (a cama está toda vomitada e eu tenho certeza de que não comi nada; 

é o estômago se iludindo) vou tentando fugir à análise que se me apresenta. O momento mais uma vez 

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exige um gesto. Lá fora, ao som de uma subconsciente música circense, os homens vencem na vida. Aqui 
dentro,  luto  contra  o  inevitável.  E  o  mais  terrível  é  que  neste  instante  vem-me  a  certeza  de  que  o 
inevitável sou eu. Ao lado da cama há uma revista chamada Busty que um sujeito trouxe para mim dos 
Estados Unidos, e na página aberta há uma mulher com uma enorme peitaria para fora de uma camisa. 
Um título encabeça a foto: How much is to much? Seios, está aí uma coisa que gosto. Há também um gibi 
antigo, contando as histórias do Super-Homem. Não posso deixar de achar engraçado um sujeito que é 
super em tudo. Só não é homem. Sim, pois como pode foder com um pau de ferro? Mas o momento exige 
um gesto. Ora, não finjamos. E preciso descer ao circo, escrever. Mas, se preciso escrever, por que fico 
pensando em seios gigantes e em gibis? Se preciso trabalhar, por que fico assim deitado? Por que não saio 
de cima desta cama, deste fedor, destas moscas que andam por cima da minha cara? Todas as mulheres 
que conhecerei no futuro, depois da foda dirão: "Mas você não se esforça? Todos estão trabalhando, todos 
estão tentando, e você?" Será possível que elas jamais compreenderão que me custa muito ficar deitado 
sobre o vômito? Que me custa muito ficar imaginando se a mão que está presa ao meu braço, realmente, 
me pertence? Mas não — isso aos já habituados ao canil — deve ser preguiça. Interessante, sempre há 
alguém para o cargo de herói e para me dizer que eu não sou herói. Quando desmaiei, um bravo cidadão, 
acompanhado  de  outro  bravo  cidadão,  carregou-me,  provavelmente,  até  a  minha  casa.  Os  comentários 
gerais: "Mas que homem humano. Está carregando o infeliz nos braços." Ora, pois se fui eu que desmaiei 
de fome, fui eu que consegui fazer com que a vida do bravo cidadão tivesse algum sentido. Se eu não 
houvesse  desmaiado,  ele  não  poderia  ter  alimentado  o  seu  superego  com  os  comentários  sobre  o  seu 
humanismo. Depois o bravo cidadão de merda ainda diz que eu só dou vexame. Pergunto: meu vexame 
fere  a  ele  ou  fere  a  mim?  Quem  é  o  benfeitor?  Ele  ou  eu?  Quem  está  ao  lado  de  sua  mulherzinha, 
enquanto ela raspa as pernas, contando como ajudou um infeliz? Eu ou o bravo cidadão de merda? Quem 
é o infeliz, porra? Logo, alguém deveria pagar-me alguma coisa pelos atos de heroísmo que proporciono 
aos bravos cidadãos, ou não? 

Mas vou ficando deitado entre o vômito, os seios impressos, a mosca e o gibi. É a curiosidade do 

homem sobre as suas sensações. Trabalho inútil, gratuito, mas — no momento atual — obrigatório. Vou 
ficando assim deitado para melhor ver-me (verme) existir. Uma das minhas mãos cresce e torna-se mais 
pesada. No fundo estou consciente dessa transformação. Fico, entretanto, de olhos fechados, com medo 
de que a minha mão, agora independente, torne-se novamente apenas um meu objeto ao ser surpreendida 
pelos meus outros sentidos. Deixemo-la crescer à vontade para ver o que fará. Pelo tato, acompanho o seu 
crescimento  e  o  seu  peso.  Agora,  embora  colada  ao  meu  braço,  sei  que  já  não  me  pertence.  Sei  que  a 
estou  a  enganar,  fingindo  que  durmo.  Ela  faz  um  carinho  forte  no  meu  rosto,  de  outra  mão  que  não  a 
minha.  Como  um  ser  vivo,  ela  se  aproxima  da  outra  mão  que  permanece  dormindo,  incapaz  de  um 
movimento.  Parece  possuir  um  frágil  coração  de  borboleta  que  posso  matar  apenas  com  o  barulho  das 
pálpebras se abrindo. Mas uma buzinada vinda do meio da rua obriga-me a abrir os olhos e eis que as 
surpreende, exercendo o mais puro amor. A esquerda, leprosa, doentia, amarela; a direita, branca, enorme, 
forte. Aos meus olhos, porém, a direita se esmilingüe, morre tal qual uma hidra fora da água, enquanto 
que a esquerda cresce em doença, em pus e em fedor. Aproxima-se do meu pescoço, quando eu paro a 
brincadeira, um tanto impressionado. Lembro-me de uma jovem psicanalista que um dia, enquanto lavava 
a bucetinha no bidê do meu apartamento, com pouca água, declarou-me: "Esta aparente fortaleza exterior 
busca  proteger  uma  evidente  fragilidade  interior."  Enquanto  eu  a  fodia,  momentos  antes,  entretanto, 
pedia-me chorando que eu a chamasse de puta. Eu a chamei, é óbvio, pois tal elogio não me custa nada 
fazer. Embora ela não fosse, exatamente, o que se poderia classificar como uma mulher boa de cama. 
 

Quatorze 

 

Consegui levantar-me da cama e dei início ao exorcismo do banho. De um modo geral não gosto 

nem da noite nem do dia. Faltam-me sugestões e apelos. Mas não gosto, principalmente, desta hora em 
que vivo. Esta hora em que o tempo se faz hermafrodita e adquire uma coloração menstrual sob a minha 
cabeça e sob a cabeça da lua que não vejo, mas pressinto. Agora, por exemplo, faz uma boa meia-hora 
que  estou  metido  numa  posição  ridícula,  dentro  desta  minúscula  banheira.  Faz  frio  e  não  paguei  o  gás 
para  ter  água  quente.  Se  no  banheiro  está  meio  escuro,  esta  água  pode  bem  ser  de  um  açude,  pois,  se 
assim a imagino, também tenho o direito de julgar que assim é (aliás, direito, tenho-os todos, enquanto 
estou só). O fato é que estou acocorado dentro de um estúpido monte de água. Eu poderia tentar sair daqui 
de dentro. Já o consegui outras vezes. Mas — e isso deve ter acontecido antes — meus ombros não me 
obedecem. Deixo-me ficar sentado e já não tento mais. Transformo-me em raiz feita de dor dentro de um 

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sulco  e  observo.  Confesso  que  esta  calma  feita  de  nervos,  depois  de  tudo  que  vem  acontecendo,  me 
inquieta um pouco. Neste momento, o mundo já esqueceu que estou dentro da banheira. E há a certeza de 
que  ninguém  me  tirará  dela;  de  que  serei  obrigado  a  sair  por  meus  próprios  esforços.  E  se  eu  me 
transformasse na banheira? Seria apenas mais um objeto: eu, e o vaso sanitário, o sabonete, as moscas. 
Depois  de  algum  tempo  eu  deixaria  de  saber  como  era  antes.  Como  era  antes  de  me  transformar  num 
objeto. Saberia apenas da minha necessidade de permanecer. Talvez assim, azulejo de gesso, areia e cal, 
eu conseguisse a calma e a resignação da imobilidade. Mas meu braço já apanha a toalha (lembro-me que 
é a última limpa e só tenho duas) e começo a enxugar-me. O gesto. 
 

Quinze 

 

Uma das formas de enganar a fome é ler. Nego-me a ler o gibi outra vez, depois, se começar, não 

pararei  mais.  Sartre  diz  que  os  demônios  são  os  outros  e  em  torno  disso  escreve  toda  uma  obra.  Mas 
Sartre é vesgo e Simone de Bouvoir jamais pensaria em escrever um volume de ensaios chatíssimos sobre 
a mulher se não houvesse sido apanhada pela menopausa. Nietzsche não  escreveria  e cantaria o super-
homem caso não quisesse ser escravo dele; se não fosse um talentoso bosta de meio-quilo. Mas eu que 
não  sou  vesgo,  não  sou  puto,  nada  tenho  contra  a  menstruação,  também  acho  que  o  demônio  são  os 
outros.  Os  demônios  são  os  outros,  pois  os  outros  são  dinheiro.  Em  sendo  os  outros,  por  que  devo 
procurá-los? Eu mesmo respondo: porque tenho fome e porque tenho medo e nada existe de mais forte, 
heróico e pouco sutil que a fome e o medo. A propósito, agora torço-me de fome e — entretanto — tenho 
medo de pedir fiado mais uma vez ao homem do botequim. Tenho medo que ele me mande à "puta que o 
pariu". Tenho medo de sentar-lhe o braço e de que ele chame a polícia, pois já tive experiências anteriores 
com ela. Não há ninguém que lute mais contra qualquer coisa do que eu contra o meu medo e, no entanto, 
ele  aqui  está,  sorrindo  para  mim.  Zombando  dos  meus  esforços.  Posso  adivinhar-lhe  a  cara,  pois  é  a 
mesma com a qual me apareceu quando recebi a primeira porrada por não trabalhar direito. Depois da 
primeira vieram outras. Creio, porém, que com o decorrer dos anos ou das porradas fui fabricando uma 
calma para ser usada às vésperas do desespero. Sim, pois tenho certeza de que esta calma, com que agora 
me enfrento, com fome após o banho, não nasceu de repente. Nem me foi dada de presente por algum 
parente  distante  e  predestinado.  Tenho  mesmo  a  impressão  de  que  se  trata  de  uma  calma  quase 
transcendental.  Não  sei,  porém,  quanto  tempo  nos  agüentaremos,  pois  a  imagino  como  uma  granada 
dentro de um jardim de infância em manhã de inverno. Com a calma, tento enfrentar o medo que sorri e 
aqui está ela, comigo, junto ao silêncio e à noite. A calma à luz de um cotoco de vela que pedi à garotinha 
do  apartamento  503.  (Se  ela  contar  para  a  mãe,  estamos  todos  perdidos,  pois  que  há  muito  ela  me 
pergunta por que não pago a luz.) Comigo a calma desmembra a noite e tal qual um modelo de George de 
la Tour quase que posso enxergar através das minhas mãos junto ao cotoco de vela. Da rua vêm ruídos 
sem importância — por isso mesmo perdidos — e por isso mesmo viajando até mim que também estou. 
Tenho, porém, a certeza de que a calma não me pertence. E uma espécie de acessório com o qual consigo 
manter  todos  os  meus  membros  grudados  ao  corpo.  Uma  espécie  de  fio  com  o  qual  são  costuradas  as 
marionetes. Mas, apesar disso, não me pertence e nem faz parte de mim, embora seja minha a matéria-
prima. Para conseguir participar do cego estágio (inútil esforço), eu a construí com pílulas muitas, com 
pilhas,  líquidos,  carne  e  um  estúpido  sorriso  desenhado  a  brasa  sobre  os  lábios.  Para  que  o  medo  não 
percebesse,  dei-lhe,  também,  uma  certa  desatenção  —  daí  por  que  ela  às  vezes  me  abandona  e  me  faz 
perder empregos. A calma, porém, é uma granada frágil pois que a fabriquei com os meus nervos doentes. 
Agora,  tenho  a  impressão  de  que,  cansada,  ela  me  desafia  à  espera  da  sua  morte  que  também  será  a 
minha. A calma definha, enquanto desenho a canivete dentro dela a madrugada do meu passado. Mas a 
madrugada é escura e ninguém espera que eu me vista com ela. Os ponteiros da calma arranham o tempo, 
tal  qual  a  farpa  arranha  a  unha,  e  me  obrigam  a  tentar  vislumbrar,  tal  qual  um  raquítico  Rei  Lear,  um 
futuro que ainda não moldei. 

A  terrível  música  que  fala  de  uma  estrutura  de  facilidades  e  que  vem  do  apartamento  ao  lado 

coloca-me dentro desta mentirosa realidade, o que me faz lembrar que, se quero comer, devo botar um 
smoking

, apanhar um ônibus e dirigir-me a uma vernissage onde servem um uísque vagabundo e — para 

quem chega cedo — alguns sanduíches de pão de ontem. 
 

Dezesseis 

 

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Cá estamos eu, a minha calma e o meu medo em mais uma aventura, ou seja, na vernissagem que 

não é bem uma vernissagem mas uma exposição de retratos de Proust (um cidadão que morria de amores 
pelo  chofer  que,  posteriormente,  achou  por  bem  chamar  de  Albertine,  numa  demonstração  de  pouca 
sutileza). Cumprimento senhoras e senhores e só ouço grunhidos neste zoológico de traje de gala. Não sei 
bem se as pessoas que trocam palavras comigo o fazem para olhar mais de perto o meu surrado smoking 
(em verdade não é meu, pois o aluguei um dia e nunca mais o devolvi); para verificar como eu consigo 
comer  três  sanduíches  de  uma  só  vez,  ou,  simplesmente,  para  perguntar  a  minha  opinião  sobre  a 
exposição do hall do teatro e sobre a peça que será apresentada a seguir. Enfim, agora com o estômago 
razoavelmente  cheio  —  parece  que  resolveram  botar  uma  máquina  de  costurar  dentro  dele  —  nada  ou 
quase  nada  me  importa.  Deixo-me  ficar  instalado  numa  cadeira  na  certeza  de  que  conheço  a 
circunferência  da  minha  dor.  Gostaria  de  falar  sobre  ela,  mas  quem  me  escutaria  neste  momento? 
Deixemos para a posteridade a dor dos heróis, pois a dos poetas — e bem alimentado me sinto um — 
prescinde de explicação. Mas, passada a fome, vem a vergonha pequeno-burguesa e — passada a fome, 
eu  também  me  sinto  pequeno-burguês  —  o  medo  aumenta  e  a  calma  torna-se  saudável.  Fora  da 
masmorra,  sinto  que  devo  participar.  Resultado:  neste  momento,  entre  a  sociedade  local,  meus  ossos 
transformam-se em escamas e o meu sorriso, antes brasa, agora nada mais é do que uma pasta gelatinosa. 
Na medida em que me curvo para beijar as mãos das senhoras que ousam se aproximar de mim, sinto que 
os donos do circo começam a cobrar os sanduíches.  

Cobram  dando-me  corda  para  sorrir,  para  andar,  para  comer  e,  como  pude  perceber  há  pouco 

tempo na praia, até mesmo para foder. O que deveria ser um ato de amor, lentamente os donos do circo ao 
qual estou aprisionado transformaram em uma manipulação egoística a dois. Estou sufocando e esta falta 
de ar que me foi legada, como a calma, não me pertence. Sou um absurdo Dom Quixote lutando contra as 
legislações e os manuais. Mas o que posso fazer se — mal escritos — eles se transformam em verdades 
absolutas? Eu, também, gostaria de amar estas verdades — penso — enquanto observo as coxas de uma 
gorda senhora que olha para a cara efeminada de Proust. Também gostaria de amá-las, mas, sem dinheiro, 
como haver amor? 

Neste momento, centenas de pessoas bem vestidas passam — algumas com ridículos binóculos em 

punho  —  pela  minha  cadeira,  prontas  para  assistirem  a  uma  peça  de  Racine.  Tenho  certeza  de  que 
ninguém sabe se Racine é uma avestruz amestrada, um jogador de futebol ou um dramaturgo. Mas eis que 
se  aproxima  de  mim  um  veado.  Sempre  que  vou  a  esses  lugares,  distraidamente,  ele  deixa  cair  a  mão 
sobre o meu pau. Quem sou eu para tirar-lhe esse prazer pelo qual ele, inclusive, se arrisca a levar uma 
porrada? Mas hoje não estou com paciência. Observem o trivial simples: 

— Mas olhem quem está aí? Tem andado desaparecido (mão no pau). Racine é divino, não? 
— Em primeiro lugar, tire a mão do meu pau, pois eu ainda não aderi. Em segundo lugar, Racine é 

uma bosta e representa o pior do teatro francês. Sua única virtude foi ter botado os cornos no seu rei que, 
por sua vez, não estava muito preocupado com isso. Nem eu. 
     O puto vai embora um tanto humilhado. Porra, mas que culpa eu tenho? A humilhação passará logo 
que ele conseguir catar outro pau. Além do mais é um veado bem-posto no zoológico. Os animais, em 
fila, dirigem-se para a entrada do teatro, impulsionados pela vaidade. Apesar disso, estão bem estribados 
sobre o contrato social inventado pelo Poder. Estrangeiro neste jogo, sem hábitos e costumes legados e 
aprendidos, sinto o pavor que me distorce a visão, já normalmente distorcida. Os comentários e sorrisos 
dos componentes do zoo são feitos de navalha. Esta navalha consegue tirar sangue do meu silêncio e eu 
tremo por trás do sorriso. Meu silêncio paralítico tem mãos de ferro que atravessam a minha garganta e 
com  um  único  puxão  rasgam  as  minhas  vísceras  num  sinistro  bailado  interior.  E  eu  —  numa  última 
tentativa  de  disfarce  —  continuo  sorrindo  —  tal  qual  um  magro  clown,  enquanto  os  belos  lábios,  os 
lindos vestidos, os smokings reluzentes, as conversas sobre grandes empreendimentos vão transformando 
aqueles que deveriam ser seres humanos em enormes aranhas, rinocerontes e javalis de verde baba. E nem 
entre esses estúpidos animais (que entretanto aprenderam o código da traição a serviço do nada) consigo 
sentir-me superior. Também quero, aranha perdida, juntar-me às minhas irmãs, mas que estranhas forças 
superiores  são  estas  que  agem  pelos  animais  e  não  podem  agir  por  mim?  Quererão  enviar-me  alguma 
mensagem salvadora? Mas aqui, neste teatro? E esta» mensagem? Conduzir-me-á à salvação? À loucura? 
Ou à salvação pela loucura? Será que somente dentro da loucura conseguirei fazer o mundo compreender 
que estes olhos, os de hoje, os de cera, não são reais e retratam apenas uma realidade de superfície? Que, 
entretanto, corta a carne rente aos ossos. 
 

Dezessete 

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À saída do teatro um cidadão me dá uma carona no seu automóvel. Ele é dono de uma das mais 

poderosas agências de publicidade dessa cidade. Um dos, seus prazeres é saber que eu estou na merda, 
pois  estando  nela  ele  sabe  que  pode  me  obrigar  a  dizer  frases  grandiloqüentes  vazias,  mas  muito 
divertidas  (para  ele)  sobre  a  situação  do  país,  a  burguesia,  o  comunismo  e  outros  ismos.  Ele,  então,  ri 
muito  e  informa  aos  circunstantes  que  eu  sou  um  sujeito  inteligentíssimo  mas,  infelizmente,  perdido. 
Aliás, ele raciona logicamente: sou inteligente porque sou perdido e estou sempre na merda. Se ganhasse 
dinheiro não teria tempo para ser inteligente e deixaria de ser divertido. Ele me explica, enquanto saímos 
do teatro: 

-  Eu,  por  exemplo,  poderia  te  dar  um  emprego.  Mas  se  te  desse  o  emprego,  deixaria  de  ser  teu 

amigo para ser teu patrão, e os meus empregados são todos uns merdas. Sei que você se transformaria em 
merda  para  ganhar  um  bom  salário,  mas  eu  gosto  de  você  assim  como  você  é,  ou  seja,  um  fodido 
brilhante. 

Aí eu rio e digo outras frases. Insulto ele bastante e ele me paga o jantar, me promove e — quando 

está de muito bom humor — até me paga uns uísques. Se eu, porém, resolver contar-lhe a minha situação, 
ele se irrita: 

- Porra, será possível que não pode deixar de pensar em dinheiro? Será possível que você tem que 

estragar a noite? Olham as mulheres em volta. Olha só a bunda daquela ali, o que é que você me diz? 

Eu  volto  a  fazer  piada  e  ele  conta  das  aventuras  que  teve  em  Paris  há  dias;  dos  quadros  que 

comprou; do filho que mandou estudar na Inglaterra “pois o desgraçado aqui só me atrapalhava”. 

Este é um meu amigo que se diverte com a minha merda. Sou uma espécie de bufão à espera dos 

ossos que caem da mesa. Agora, por exemplo, o meu amigo me leva para o seu clube. E o mais fechado 
da cidade. Estamos numa mesa enorme, ao lado pessoas trajadas a  rigor que também saíram do teatro. 
Para comer, tenho que trabalhar. Pergunto, então: 

- Como é mesmo o nome deste clube? Preciso tomar nota para entrar de sócio, pois se há coisa que 

eu gosto são de sociedades populares. 

Aí  então  uma  puta  das  mais  conhecidas  (quer  dizer,  ela  não  é  exatamente  uma  puta,  pois  para 

tanto teria que imprimir um certo espírito de missão ao seu trabalho; ela simplesmente tem um contrato 
com o marido que lhe permite foder com um político que volta e meia aparece nas colunas sociais e é 
muito parecido com um porco que eu vi certa vez quando fui visitar um parente meu no interior) dá um 
enorme sorriso: 
- Mas ele não é divino? 

E eu passo, então, a ser divino, também. Depois de tomar uns três ou quatro uísques e de dizer 

muitas besteiras bate-me na cara a certeza de que eu não faço parte do clube e nada tenho a ver com os 
homens fortes sentados à minha volta e que se divertem com as minhas frases (eu tenho é que arranjar 
dinheiro para comprar uma roupa para o meu filho). Eles — os outros — estão unidos num mesmo jogo 
social.  São  homens  fortes  que  dormem  com  mocinhas  que  precisam  de  dinheiro.  Homens  fortes  que 
contam aos gritos que pagam para comer uma bunda. São homens fortes que jogam golfe e vão juntos à 
sauna onde tentam tirar a sujeira de corpo embora não possam tirar as fezes que fedem no cérebro. São 
homens fortes que se protegem. Homens fortes que acreditam que, se fizerem parte de algo grande e forte, 
também  eles  se  tornarão  grandes  e  fortes.  E  eu  estou  aqui  vendo  eles  baterem  punheta  num  monstro 
chamado Poder que eles pressentem mas que só eu consigo enxergar. O poder é o minotauro invisível que 
com seu enorme caralho funciona como uma távola redonda pra os homens fortes que precisam viver em 
função do falus do Poder para existirem. Eu não tenho nada a ver com esse jogo mas não posso deixar de 
revelar  a  minha  descoberta  para  eles.  Mas  eles  só  riem  e  dizem  que  eu  sou  um  cara  brilhante.  Mas 
enquanto isso ganham dinheiro e vão matando como me matam agora, enquanto sorriem vendo-me beber 
uísque. E eu, medroso, permaneço só, pensando em meter uma coroa de espinhos na cabeça, do que logo 
desisto, uma vez que eles também julgariam isso gozado. 

Uma  rápida  olhada  em  torno  da  mesa,  porém,  vinga-me  por  alguns  instantes.  Já  comi  algumas 

mulheres dos homens fortes que discutem entre si a última moda de Cardin, Balenciaga e outros veados. 
Sim, comamos as mulheres dos homens fortes, enquanto eles bulinam o Poder. Para elas, eu sou apenas 
um desprotegido . . . mas com o caralho suficientemente grande. 

Já estou bastante bêbado e paro de falar. Os homens fortes, a esta altura, não se apercebem disso, 

pois  precisam  salvar  o  país  e  roubar.  Não  que  eles  sejam  ladrões,  pois  esse  vocábulo  não  pode  ser 
aplicado  a  eles.  Eles  apenas  roubam.  Depois  de  um  estágio,  desaparece  o  adjetivo  qualificativo, 
permanecendo apenas o verbo. Afasto-me o mais discretamente possível para um canto e de lá observo a 

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cena. Finjo-me distraído mas por mais que eu pretenda viver aquele momento só para mim, por mais que 
eu  tente  matá-los  dentro  de  mim,  não  posso  ignorar  que  eles  existem.  Sim,  os  javalis  existem  e  estão 
reunidos no outro canto. Apelo para a minha calma, agora já robusta, graças ao uísque ingerido, e tento 
desconhecer a existência dos animais. Mas, para desconhecê-los, sou obrigado a fechar os olhos, a deixar 
de respirar, pois eles fedem e esse cheiro não é humano. Imbecilmente, tento um poema que poderia vir a 
ser  no  futuro  uma  forma  de  aproximar-me  novamente  da  minha  mulherzinha:  “tenha  apenas  um 
pensamento puro...” Mas tenho medo e não consigo achar a unidade da poesia. Tenho certeza de que já 
não são homens: são javalis confabulando, refabulando, fabulando. E por alguns instantes o tempo morre 
enquanto eles dançam sobre a mesa de mármore. Com negras casacas sobre o pêlo eles decidem sobre o 
destino  que  um  dia  darão  ao  meu  destino  isolado.  Mas,  agora,  tento  convencer-me  de  que  eles  estão 
distraídos:  discutem  sobre  os  dentes  que  mandaram  tratar  em  Paris,  sobre  o  bigode  que  vão  cortar,  e, 
quem sabe, até sobre o  amor que os javalis devem, também, praticar. Eu deveria fugir. Passo por eles, 
tomando  todo  o  cuidado  para  não  pisar-lhes  os  dentes,  as  caudas  ou  mesmo  os  cornos.  Inútil  esforço. 
Rápido eles me descobrem com o seu faro de aço e vêm em galopada sobre mim, tentando comer meu 
rosto feito de espanto. Eu sou, então, obrigado a lhes mostrar os meus dentes que nasceram de repente e 
que, muito estranhamente, são dentes de javali. 

— Mas, como é que é? Estamos sentindo a sua ausência. 
—  Há  muito  tempo  que  eu  estou  para  dizer  uma  coisa  para  vocês.  Agradeceria,  portanto,  se 

suspendessem  os  debates  e  ouvissem.  As  mulheres  são  todas  putas  e  só  por  isso  merecem  perdão.  Os 
homens são ladrões. Eu gostaria muito de ser, também, ladrão como vocês mas, confesso, me falta talento 
e tradição. 

Eles ficam desconsertados e só se dão conta que não brinco quando invisto contra todos com uma 

garrafa em cada mão. 

-  Então,  javalis?  Não  planejavam  atacar-me?  Não  planejavam  comer  o  meu  rosto  com  os  seus 

dentes de aço? Agora dou-lhes um bom motivo. 

Dou-lhes o motivo e eles atacam. 

 

Dezoito 

 

Há muito que os javalis pedem um motivo. Creio que desde que me farejaram pela primeira vez. 

Certamente não podem mais suportar a minha arrogante humildade. O momento exige um gesto. O meu 
medo fabrica o gesto e a resposta do gesto não tarda. Várias mãos fechadas batem contra o meu rosto; 
contra a minha boca; contra o meu nariz; e eu sangro. Sangro e ouço os adjetivos comuns que eu deveria 
esperar ao fim da perigosa coexistência pacífica com os animais. 
- Moleque, desordeiro, vagabundo, ralé, gentinha. Ou: 

- Eu não sabia que este menino quando bebia ficava tão chato. 
A  morte,  imenso  rato  negro,  devora  o  meu  coração,  e  a  imagem  desse  quadro  resume-se  numa 

palavra:  chato;  importuno.  Entre  porradas  e  sangue  descubro  aquilo  que  nunca  suspeitei:  eu  os  odeio 
porque não posso ser como eles mas eles também me odeiam. E — ironicamente — me odeiam porque eu 
represento  a  culpa  de  todos.  Somente  através  de  mim  é  que  eles  podem  descobrir-se  javalis.  Eu  sou  o 
espelho maldito que precisa ser destruído, mesmo que a porradas. 
    Mas  esses  desgraçados  não  param  de  bater  e  ninguém  faz  nada!  —  Parem  de  bater.  Mas  eles  estão 
rindo. As esposas, as amantes, as filhas, as namoradas, eu não  as vejo mas pressinto os olhos. Sei que 
estão  a  um  canto  vendo-me  apanhar  e,  apesar  do  horror  que  estampam  nos  olhos,  conforme  viram  Liz 
Taylor fazer no cinema, elas se divertem com o meu sangue. O estrangeiro precisa morrer e elas sabem 
disso,  pois  —  caso  contrário  —  como  poderão  rezar  em  paz  esta  noite?  Sei  que  daqui  a  pouco  vou 
desmaiar. Mas não posso! E o grito sai, explode nascido no sangue: 

- Meu Deus, eu não posso desmaiar! 
No  mesmo  momento  me  dou  conta  do  apelo  ao  absoluto.  E  o  absoluto  sou  eu,  embora  me 

desconheça: 

- Deus que vá à merda! 
Agora já não são os javalis-pais que me maltratam, mas os javalis-filhos. Garotos de 18, 19, 20 

anos que saíram de dentro do clube onde dançavam hully-gullys e twists e agora dançam outra dança. Esta 
bem mais esportiva. Aos socos vão me empurrando para fora, mas o que posso fazer se estou só? Através 
do sangue que sai dos meus olhos descubro os olhos de uma jovem; uma menina que há dias perguntava-
me se devia estudar em Paris ou em Londres. Ela tenta um gesto apesar das escamas que já nascem em 

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seus braços. Mas do desenho do gesto fica apenas um esboço que os que batem tratam logo de apagar. 
Quero  pedir  que  parem  de  bater  mas  sinto  vergonha.  Quero  que  tenham  pena  mas  sinto  vergonha.  E 
preciso  bater,  portanto,  mas  o  meu  braço  pesa.  É  difícil  levantá-lo.  Levanta  braço!  Machuca  braço!  E, 
nesta viagem de agressão e vergonha, lembro de outra moça, numa época em que eu ainda não me sabia 
maldito. Foi numa época em que eu ainda tentava participar. Já não sinto a dor dos socos. Apenas a dor da 
lembrança que me impede de cair; de rastejar. Mas há a possibilidade deles me matarem. É preciso. Eu 
quero que eles me matem. 

 

Dezenove 

 

Eu  estava  com  a  minha  namoradinha  num  café  quando  entraram  dois  javalis  (naquela  época  eu 

ainda  não  sabia  identificá-los).  A  menina  precisava  acreditar  em  alguém  e  acreditava  em  mim.  Pelo 
menos esforçava-se para tanto. Eu era — e durante algum tempo, à custa de verdadeiras mentiras, cheguei 
a  acreditar  nisso  —  um  personagem.  Os  dois  javalis  sentaram-se  numa  mesa  ao  lado  da  nossa.  Eram 
jovens e falavam alto. Eu também era jovem. Havia um homem alto e magro sentado na mesa por eles 
escolhida. O mais forte dos javalis rosnou: 

— O amigo enganou-se de mesa. Esta é nossa. 
O homem alto e magro não entendeu e antes que indagasse qualquer coisa foi atirado no chão. Em 

seguida jogaram o jornal que ele lia sobre a sua cara. A moça que acreditava em mim olhava para mim. 

O homem alto e magro tentou reagir mas bateram com a sua cabeça contra os ladrilhos do chão e 

— em seguida — jogaram-no para fora do restaurante. A moça que acreditava em mim olhava para mim. 
O garçom reclamou e as poucas pessoas que se encontravam no local aproveitaram para sair. A moça que 
acreditava  em  mim  olhava  para  mim  e  o  seu  olhar  doía.  Os  javalis  bateram  no  garçom,  um  refugiado 
húngaro que eu conhecia há tempos e de cuja mulher outros animais cortaram há anos, por brincadeira, 
um dos seios. Os javalis bateram no garçom. 
    A  moça  que  acreditava  em  mim  olhava  para  mim.  De  repente  ela  disse  que  não  agüentava  mais  e 
insultou os javalis. Estes bateram na moça e perguntaram para mim se eu tinha alguma coisa a declarar. 
Eu olhava para os javalis. As mãos fechadas dentro dos bolsos; a respiração cortada. Mandaram que eu 
levantasse a moça que estava no chão. Quando me curvei, jogaram-me sobre ela. Fiquei deitado no chão 
olhando para os olhos da moça que acreditava em mim. Outros javalis menos violentos aproximaram-se 
para olhar a cena. Os javalis beliscaram as nádegas da moça que acreditava em mim. Disseram que ela era 
puta e eu, corno. E não era verdade. Depois se retiraram do restaurante. Levantei-me. Ajudei a moça que 
acreditava em mim a se levantar. O mundo olhava este reerguimento artificial. Deus não fez nada. 

— Eu não podia fazer nada. 
— Não se preocupe, meu amor. Eu sei. 
Fazia calor quando saímos do restaurante. Tentei reencetar, com a moça, a conversa alegre de 15 

minutos  atrás:  o  noivado,  a  viagem  de  luta-de-mel,  a  possibilidade  do  emprego  e  os  muitos  filhos  que 
teríamos. 

Mas  alguma  coisa  havia  mudado:  alguma  coisa  fedia  dentro  de  mim.  Pensei  nos  heróis  e, 

principalmente,  naquele  que  estava  morto;  o  cadáver  que  eu  via  nos  olhos  da  moça  que  acreditava  em 
mim. 
 

Vinte 

 
 
 

Isto não pode acontecer novamente. Minha carne está rasgada mas eu estou de pé. Deixo-me ficar 

cambaleante — navalha torpor — no espaço. Arrastam-me e meu sangue acompanha-me, tal qual sarna 
fiel. Pegam a mangueira e jogam água sobre mim. Por que esta água não entra dentro da minha cabeça? 
Tento falar com o porteiro mas o sangue atrapalha. Falo baixo para que eles não ouçam: 

— Eu já apanhei que  chega. Já aprendi a lição.  Não deixe que eles continuem batendo. Você  é 

como eu. Não compreende isso? Você é um bosta igual a mim. Nós somos irmãos. Nós não fazemos parte 
do clube. Por favor, ajude. Mas diante do nojo que vejo nos olhos do porteiro sei que ele não me ajudará. 
As  lágrimas  misturaram-se  com  o  sangue.  Sinto  a  mão  do  porteiro  entrar  dentro  do  meu  rosto.  Já  não 

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posso falar. Dos dentes quebrados faço um pensamento. O remorso do mundo é pesado demais para as 
minhas mãos e eu não pedi o remorso do mundo. Eu quero ir para casa. Eu quero procurar a minha casa 
embora não a reconheça mais. Os javalis sabem quem sou eu e eu não tenho casa. Mas deve haver um 
caminho fatal para conduzir-me à casa. Deve haver uma estrada crepúsculo interior. Onde está a minha 
casa frágil vigiada pelos precipícios? 

Amanhã  a  chuva  varrerá  o  meu  sangue,  penso  enquanto  caio.  Bato  com  o  rosto  no  cordão  da 

calçada. Já não ouço mais risos. Creio que já os diverti bastante. Deixam o acrobata descansar. Ele está 
cansado.  Ele  pede  desculpas  mas  está  cansado.  Ele  pede  desculpas  mas  a  cabeça  lhe  dói.  Ele  pede 
desculpas  por  ter  dado  tanto  trabalho  por  alguns  sanduíches.  Mas  sei  que  ninguém  ouve  as  minhas 
desculpas que fenecem entre irônicos aplausos de vidro; entre os risos de ferro, pois o sangue impede a 
fuga do perdão. Sei que ninguém vê minhas lágrimas. Apenas eu vejo os confetes de aço, os balões de 
pavor. Apenas eu sinto os monstros mastigarem a espera. O acrobata sangra, pede desculpas e gostaria de 
morrer. O sangue pinga na água estagnada da sarjeta. Olhando para a água que reflete a massa disforme 
que é o meu rosto, vem-me a certeza terrível de que continuarei vivendo a vida que fizeram para mim. 

De  uma  cidade  qualquer,  talvez  a  minha  cidade,  vem  o  cheiro  da  lareira;  vem  o  cheiro  do 

chocolate e o cheiro dos contos de Grimm. O menino foi abandonado na floresta mas algum demônio fez 
uma trilha de pão. Quem me levará para algum lugar desta vez? — penso, antes de desmaiar. 
 

Vinte e Um 

 

Creio que ninguém me achou. Certamente ninguém me achou. Ridículo, acordar na esperança de 

que  alguém  me  ache.  Mas  sempre  foi  assim.  As  pesadas  voltas  para  casa  e  a  esperança  de  encontrar 
algum  recado  debaixo  da  porta.  A  esperança  mesmo  dentro  da  certeza  de  que  nada  acontecerá.  A 
esperança maltratada de tão gasta e diariamente repolida, limpa e enxugada. A esperança de uma visita. 
Uma visita, não importa de quem. Uma visita mesmo de fingimento, como a não-vida posta sobre a vida 
nos  obriga  a  proceder.  Uma  visita  para  a  qual  possamos  mentir  e  dizer  que  mudamos  muito  pouco, 
embora continuemos com alguns vícios e ligeiramente irresponsáveis. Mas que nada acontece. Uma visita 
para quem possamos mentir que temos informações seguras de que o tempo continua passando e de que 
há quem fale em outros mundos e elogie o potencial energético do homem. Mas que nada acontece. Uma 
visita para a qual a gente possa mentir; possa mesmo pedir mentindo que não se preocupe; uma visita que 
sorria e dê conselhos ao ser informada de que a vida continua nos poupando de tragédias. E se a visita 
quiser ir embora tranqüila, nós sempre poderemos dizer a ela que a não-vida tem nos fornecido alguns 
dramas de difícil digestão no trivial diário. Mas que, apesar disso, nada acontece. Uma visita para a qual 
possamos  dizer  que  sentimos  saudades,  frisando,  também,  que  isso  é  natural,  pois  é  bonito  sentir 
saudades. Uma visita para a qual a gente possa mentir que vai vivendo e que já consegue contar até dois 
mil e que — dia chegará — se contará até 10 mil sem nada acontecer. Mas não há visita nem recados. 
Não há visita para quem eu, agora, possa sorrir naturalmente e dizer — mesmo estirado na calçada cheia 
de barro e sangue, como me encontro neste momento — que o que ela está vendo é muito normal: um 
homem que não consegue morrer nem viver. 

A verdade é que não há ninguém na rua, e não sei quanto tempo fiquei atirado, sem sentidos, na 

calçada depois das porradas. O clube já  fechou e o mundo prepara-se para abrir. No momento,  apenas 
raiva por não poder integrar-me ao barro e ao sangue. Alguns pássaros cantam e isso não muda em nada a 
situação. Se eu fosse um detetive particular, com dois tapas limparia o meu terno, passaria a mão pelo 
cabelo e sairia à procura do chefe da gang. Se eu fosse um jovem líder político em defesa da liberdade e 
do fim das diferenças sociais, eu iria procurar meus companheiros e — sob aplausos gerais — escreveria 
um panfleto contra o governo e depois esperaria até transformar-me em governo também, ocasião em que 
riria de outros panfletos escritos por outros jovens. Se eu fosse um milionário, instalar-me-ia numa clínica 
de repouso onde receberia a visita dos meus amigos fiéis que contar-me-iam dos editoriais dos jornais, 
das minhas amantes; das ações da Bolsa que subiram. Eu, entediado, cocaria a barriga e descobriria que 
estou  ficando  gordo,  o  que  me  irritaria  muito  e  —  certamente  —  faria  com  que  eu  deixasse  de  me 
preocupar com os jovens que morrem no Vietnã. 

Mas não sou um detetive e faz muito tempo que deixei de acreditar neles. O smoking que visto 

tem muito sangue para que eu possa limpá-lo com duas palmadas. Não tenho a consoladora esperança de 
lutar em favor de uma lei e de uma ordem nas quais não acredito e que sempre estiveram contra mim. A 
gang é pesada demais para os meus ombros cansados, e dar bofetadas num Deus que se tornou sócio de 
um grande mercado, participante desta gang feroz, é pedir demais para quem nada recebeu. Tampouco 

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sou um jovem político. Odeio a autoridade e há pouco descobri estarrecido que ela também me odeia e o 
fato de eu estar aqui atirado na calçada, enquanto sol se aproxima é uma prova, talvez não verdadeira, 
mas visual deste ódio. Não há pelo que julgar, mas eu não pretendo fazer as pazes com a autoridade. Já 
que não posso matá-la, que — pelo menos — ela me mate. Não quero namorar o Poder, aninhar-me sob 
as suas asas sufocantes ou beijar o seu bico venenoso e putrefato. Trago dois tiros na perna, lembrança de 
um antigo namoro com o Poder. Dois tiros que nada representam diante do nada de ferro descarregado 
sobre as minhas costas. Também um dia busquei o Poder na esperança de encontrar esta paz sempre surda 
aos meus apelos e muda às minhas perguntas. Esta nojenta paz mutilada que me mutila também. Agora 
quero batalhar, mesmo jogado ao chão. Batalharei — espero — passivamente. Não quero mais ser lúcido, 
pois  sendo  tal,  qual  a  lição  que  poderei  deixar  a  outros  —  como  eu  —  surpreendidos  neste  jogo  que 
ninguém pediu para jogar. Quero a liberdade da falta de dignidade que é a dignidade total. A liberdade de 
ser jogado de um lado para outro. A liberdade do inválido. A liberdade, mesmo que à custa de porradas. 
Fazer da minha dependência a minha independência e da minha prisão, a minha liberdade. Ser o oposto, o 
contrário.  Não  quero  estar  ligado  simbolicamente  aos  animais  que  ocupam  posições.  Quero  ser  o 
antônimo  dos  impotentes  fortes  que  dançam  a  ciranda  em  volta  do  falus  do  poderoso  minotauro:  os 
homens que dirigem a opinião pública e a própria opinião pública dirigida. Não quero mais a segurança 
perdida,  mas  sim  perder  e  confundir  a  amada  segurança  deste  Mundo  de  imitação.  Não  buscarei  mais 
auxílio, pois o preço a pagar é muito alto: é o preço da sempre fingida independência dependente de um 
beijo, de um pedaço de pão, de uma punheta ou de uma oração. Não mais emprestarei nem tomarei de 
empréstimo os pensamentos. Nem tampouco me levantarei desta poça de sangue e sujeira, pois se Deus 
está dentro de mim, espero que também esteja sujo, sangrento e ferido. Se há uma humanidade com a qual 
preciso identificar-me, que venha ela ao meu encontro, pois eu estou muito fraco para persegui-la; muito 
humano para aceitá-la com esta fantasia de louca prostituta com que a vestiram. Que a humanidade afaste 
esta sociedade que pinta um sorriso de mel sobre a lepra e venha buscar o seu filho pois ele não sairá 
daqui. Já houve alguém que tentou caminhar depois do flagelo e o que conseguiu foi fazer com que os 
peixeiros vendessem mais peixe. Já não posso mais olhar para a vida que se joga vence e perde. Estou tão 
atolado  nela  que  lhe  reconheço  todas  as  promessas.  Ainda  resta  —  confesso  —  o  temor  que  me  foi 
legado, mas — neste instante —, na postura mais indigna, espero que ele morra e deixe de sacudir a sua 
venenosa  cauda  de  espinhos  que  ainda  me  machuca  um  pouco.  Prefiro  olhar  o  rato  que  passa  neste 
momento  pelo  meu  nariz  e  me  olha,  sem  medo,  com  reconhecimento.  Ele  sabe  que  os  gatos  são  seus 
inimigos e eu sei que os homens são meus inimigos, e nós os ratos não combatemos. 

Mais eis que Deus se aproxima descansando sobre as suas cem patas. 

 

Vinte e Dois 

 

Dos edifícios que, agora, tenho certeza, não desabarão jamais sobre mim, abrem-se as primeiras 

janelas para mais uma função. Enquanto isso Deus se aproxima de mim. Vem devagar andando sobre as 
suas cem patas. Como sempre, não toma conhecimento da minha presença. Está a poucos centímetros da 
minha boca e vai caminhando. Há uma perfeita harmonia no seu andar. Embora as suas cem patas estejam 
praticamente grudadas umas às outras, jamais se embaraçam. Ao mexer com uma das mãos percebo que 
deve estar quebrada. Ela dói, mas a dor é um acontecimento. Levo algum tempo até conseguir alcançar 
um pedaço de fósforo, gasto ou jogado fora, como eu, no meio da calçada. Coloco o pedaço de fósforo 
diante de Deus e ele, imperturbável, prepara-se para ultrapassá-lo. Quando todo o seu corpo está sobre o 
pequeno pedaço de madeira, levanto-o do chão. Agora deixei Deus encrencado, penso. Em verdade, Deus 
movimenta as suas patas até o fim do pedaço de fósforo e percebe — quem sabe? — que está no ar. Dá a 
volta  sobre  o  seu  próprio  corpo  e  retoma  até  o  outro  extremo  do  palito,  ocasião  em  que,  novamente, 
verifica que falta-lhe o chão. Não há nada a fazer senão ficar aqui estendido na calçada e ver Deus andar 
de um lado para outro. Poderia matá-lo, como fiz outro dia com uma lagartixa que achei em casa. Apertei 
o meu sapato contra o seu rabo e ele partiu-se. Depois olhei para trás à procura do grito de dor. Mas a 
lagartixa não gritou. Tive a impressão de que olhou para mim, surpresa, como que perguntando-me, por 
quê? Mas sei eu lá falar a língua das lagartixas? Como, então, poderei falar a língua de Deus? Me diverte 
a idéia de fazer Deus andar até morrer, de um lado para outro num espaço de 5 centímetros, condenando-
o como ele me condenou. Mas Deus ama as suas criaturas — penso — pois que ao fim de alguns minutos 
ele pára no meio do fósforo. Dou-lhe uma cotucada para fazê-lo andar. Mas ele morreu. Ele está morto. 
Enroscou-se  sobre  si  mesmo  e  caiu  ao  chão.  Eu  estou  vivo  e  só.  Enquanto  nada  acontecer,  resta-me  o 
consolo de saber que — no mundo inteiro — somente eu soube da morte de Deus e fui eu o causador. 

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Resta-me  também  o  consolo  de  saber  que  os  cogumelos  continuam  crescendo  no  jardim  da  minha 
infância.  Mas  o  que  é  que  eu  tenho  a  ver  com  os  cogumelos?  Alguma  coisa,  evidentemente,  caso 
contrário não estaria dissertando sobre eles. Deixo-me ficar deitado na certeza de que lá fora, sem que o 
Mundo  perceba,  os  cogumelos  continuam  crescendo.  Talvez  outros  saibam,  pois,  uma  vez  vivos,  os 
cogumelos crescem. Mas — neste momento — só eu sei que os cogumelos crescem no jardim e somente 
eu  estou  preocupado  com  eles.  Quem  sabe  que  eu  estou  aqui  atirado  no  chão  sem  poder  e  sem  querer 
levantar-me? Quem se preocupa com isso? Deus? Mas ele morreu há pouco e, se não morreu, por que não 
me mata? Mas eis que se aproximam criaturas de Deus. Tenho medo. 
 

Vinte e Três 

 

Não adianta eu me encolher, pois não desaparecerei. Não passarei desapercebido. As criaturas de 

Deus andam aos pares. 

- Que porre, hein, meu chapa? 
O  que  será  que  eles  querem  que  eu  responda?  Será  que  eles  vão  levantar-me?  Para  onde  me 

levarão? 

- Como é que é? Vamos levantar? 
Limito-me a olhar para eles. Preciso dizer alguma coisa. Explicar alguma coisa. Mas o quê? 
- Eu acabo de matar Deus. 
Mas eles riem. Sinto que vão perder a paciência comigo. 
- Como é que é? Vai levantar sozinho ou prefere que nós ajudemos. 
- Mas eu estou aqui atirado por causa de vocês. Eles não entendem. Os dois levantam-me do chão. 
- Que merda, sujei a farda toda de vômito. 
- É sempre assim com esses grã-finos que não sabem beber. Devíamos era deixá-lo atirado aí até a 

hora da feira. 

Enquanto os dois guardas me arrastam ouço o ruído de caminhões que vêm instalar a feira-livre na 

rua. Ouço a voz das primeiras mulheres que saem dos edifícios para as compras. Também eu estou na 
feira  sendo  exibido.  Passa  por  mim  uma  linda  menina  dos  seus  16  anos.  Olha-me  e,  também,  não 
compreende (não vende esta flor que nasce entre as coxas tão cedo, na feira, menina; estes milagres são 
como flores que aguardam o tempo de florescer). A mãe da menina puxou-a para um lado, como que a 
afastá-la  de  mim,  feroz  animal.  Tento  sorrir  para  a  mãe  —  pedir-lhe  desculpas  —  mas,  se  tivesse  um 
espelho,  certamente  também  eu  teria  medo  do  meu  sorriso.  A  mãe  eu    conheço.  Há  algum  tempo  dei 
algumas  conferências  sobre  jornalismo  —  notem  como  eu  tentava  —  e  ela  assistiu-as  todas  e  ganhou 
diploma  de  freqüência  e  um  dia  convidou-me  para  jantar  na  sua  casa.  Fui  apresentado  ao  seu  marido, 
engenheiro, e discutimos política, ocasião em que ele, sabiamente, disse que eu era utópico. A mulher já 
vai longe, puxando a filha. Creio que não me convidará mais para jantar na sua casa. Ela não sabe disso, 
mas  não  me  convidará  mais  porque  eu  não  jogo  mais  o  mesmo  jogo.  As  minhas  gracinhas  são  talvez 
violentas demais para uma senhora honesta. Tenho pena desta mulher que se afasta com a filha com nojo 
de  um  homem  ferido,  embriagado,  sujo  que  sofre.  O  fato  de  eu  sofrer  torna-me  indigno  do  zoológico. 
Neste momento, a filha, também, aprendeu a lição. 

As criaturas de Deus me empurram: 
— Vamos curar o porre na delegacia. 
Não  posso  conter  o  riso,  embora  saiba  que  cuspirei  sangue  por  todo  lado.  Finalmente,  estou 

obrigando o mundo a cuidar de mim.  
 

Vinte e Quatro 

 

Para  prender  as  pessoas  que  se  afastam  do  contrato  social,  a  coletividade  paga  outras  pessoas. 

Estas,  por  sua  vez,  vestem  uma  farda  a  fim  de  que  possam  ser  distinguidas  das  outras,  caso  contrário, 
também, correriam o risco de prisão. Aliás, a coletividade paga muito mal a esses cidadãos, haja visto a 
violência  com  que  me  empurram  para  dentro  de  uma  camioneta.  Durante  a  viagem  para  a  delegacia 
ponho-me a dizer versos de Baudelaire (versos que, por sinal, acho muito ruins, mas houve época em que 
decorá-los  me  parecia  necessário).  O  guarda,  ao  meu  lado,  porém,  logo  acaba  com  a  minha  recita, 
aplicando-me um violento cascudo. 

— Vê se fala na língua da gente, seu. 

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Bem que eu gostaria, bem que tenho tentado este tempo todo. Não há dúvida que o mundo toma 

conta  de  mim,  mas  com  força.  Como  a  camioneta  não  tem  janelas,  não  posso  contar  ruas,  números, 
louras, morenas, anúncios comerciais. Também não há nada para ver dentro de mim, penso. Não posso 
sentir  raiva  dos  policiais.  Afinal  eles  desempenham  a  sua  missão  dentro  da  engrenagem.  Eu  não 
desempenho missão alguma, uma vez que estou  fora do lar, da pátria  e  da família. Aliás, não sei nada 
sobre estes vocábulos que sempre me soaram mentirosos. Os que acreditam, vivem. Os que não acreditam 
inexistem como eu, neste momento, que — simplesmente — me deixo conduzir. E pensar que é preciso 
trilhar  um  longo  caminho  de  vaidade,  estudo  e  ambição  para  chegar  a  esse  estágio.  Não  há  dúvida, 
alguém colocou um pesado sobretudo sobre mim. Um pesado sobretudo invisível que — quem sabe? — 
eu próprio terei tecido com os meus pensamentos, com os quais não consigo formar uma perfeita ciranda, 
um  desenho  ou  uma  melodia  infantil.  Talvez  até  há  poucas  horas  atrás  o  sobretudo  tenha  me  abrigado 
como o hábito abriga o monge. O monge, porém, sabe por que usa o hábito. A mim, somente ensinaram a 
tecer o sobretudo, a vestir o sobretudo. Despi-lo, entretanto, sempre foi impossível. Ninguém ensinou-me 
a despi-lo. Rasgá-lo também não posso, pois está modelado ao meu corpo de tal forma que o confundo 
com a pele, apesar do peso. Agora sei que do homem já nada resta. Talvez apenas os meus movimentos. 
Do homem sobrou apenas o sobretudo que — agora vejo — jamais me abrigou. Ao contrário me obriga a 
andar agarrado à minha mortalha. 

- Chegamos à delegacia - diz a criatura de Deus, enquanto me empurra. 
Olho para o guarda e verifico que ele é preto. 
- Deve ser uma merda ser preto — penso. 

 

Vinte e Cinco 

 

Um  bosta,  bosta,  bosta,  covarde,  cretino  e  palhaço.  É  isso  que  eu  sou.  Então  o  sobretudo  é 

impermeável, é? Então, por que não mijo agora na cara do delegado? Por que não dou uma porrada na 
cara do guarda? Por que estou com vergonha? Sim, vergonha é tudo o que sinto. Por que briguei? Por que 
fiz questão de perder o meu último emprego? Afinal, o que é que eu pretendia? Amanhã todos estarão 
falando. Rindo, rindo! E se alguém me vir aqui dentro? Se alguém me vir aqui com assassinos, ladrões, 
prostitutas? Onde está o teu sobretudo impermeável que te arrancou para fora do mundo? Minha vergonha 
se  confunde.  Terei  vergonha  -  penso  -  por  estar  preso  num  xadrez  onde  nunca  pensei  entrar,  ou  tenho 
vergonha pelo fato de estar sentindo vergonha? Pelo fato de voltar ao medo tão poderoso? Como deixei 
que  ele  se  alojasse  novamente  dentro  de  mim?  E  tudo  aconteceu  no  momento  em  que  eu  saía  da 
camioneta.  Veio  tal  qual  verme.  E  eu  que  pensava  há  pouco  ter  me  livrado  desses  vermes  chamados 
condições. Mas eles voltaram para a minha vida que sempre esteve cheia de condições. Preciso escondê-
las mas elas - viscosas como lesmas - saem dos meus bolsos, risonhas, chorosas e de todas as cores. Olho 
para a minha roupa amarrotada, suja de sangue, terra e vômito e verifico que é impossível escondê-las. 
Quando me criaram, criaram-nas também e agora elas se apresentam crescidas, como testemunho vivo do 
meu ridículo pequeno-burguesismo fracassado. Estão presas na pele, no riso, no choro, no dente e na mão. 
Os vermes cansaram de amar entre as veias do meu pulso fraco e agora querem mostrar-se tal como são -  
nojentas lombrigas que precisam de dinheiro para manter-se em silêncio e dormir de bucho cheio - e estão 
fazendo todo o possível para mostrar-me qual sou. 

Ridículo  palhaço,  aqui  estou  eu  nesta  cela,  sem  talento  para  participar  dos  problemas  dos  meus 

companheiros. Sem talento para cantar com eles as suas alegrias e as suas tristezas. Por que não abraço 
este  bêbado  que  me  abraça  e  canto  com  ele  o  canto  que  ele  insiste  em cantar?  Por  que  não  enxugo  as 
lágrimas deste puto que perdeu a cabeleira e cujo batom sobre os lábios possui uma dimensão de tragédia 
em  contraste  com  a  barba  que  já  cresceu,  novamente?  Por  que  não  beijo  as  equimoses  desta  velha 
prostituta que solta palavrões, dizendo que lhe arrancaram o dinheiro que ela tão bem havia escondido na 
vagina?  Por  que  não  participo  deste  carnaval  que  poderia  ser  meu?  Mas,  mesmo  isso,  é  impossível. 
Apenas o medo, terrível granada, filho de todas as condições, se posta enorme ao meu lado. 

— E tu que pensaste que Deus era uma centopéia, imbecil! — grito. Mas ninguém presta atenção 

e o meu grito se perde entre as lamentações da prostituta, o samba do bêbado e o ar patético do puto. 

Sei que me chamarão daqui a pouco para o sucinto julgamento e com um pontapé na bunda atirar-

me-ão ao mundo. E o mais terrível é que eu não tenho coragem de ficar. 
 

Vinte e Seis 

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Já passaram-se algumas horas. Estou com a cabeça encostada nas grades e há um terrível cheiro de 

mijo dentro da cela. As lágrimas descem pelo meu rosto e fazem nascer novas condições. A loucura tão 
buscada dos últimos dias não passou de uma bebedeira. Eu pertenço ao jardim zoológico. Apenas a minha 
raça não se dá a conhecer: prefere cultivar vermes. Resta na cela apenas a prostituta que dorme. Daqui a 
pouco  o  delegado  mandará  me  buscar  para  o  julgamento.  Há  sempre  alguém  julgando  e  alguém  sendo 
julgado.  Há  juizes  no  mundo.  Não  terei  um  grande  tribunal.  Receberei  apenas  aquilo  que  os  homens 
lúcidos  classificam  como  lição  de  moral.  Mais  uma  lição  de  moral.  Serei  eu  um  amoral?  A  prostituta 
ronca, lixando-se para a minha amoralidade. Ronca, minha querida. Descansa. Você tem onde imprimir 
um espírito de missão. 

Sei  que  estou  sendo  julgado.  Mas,  ao  mesmo  tempo,  sei  que  não  estou  presente  ao  meu 

julgamento.  Sou  um  homem  ausente.  Os  punhais  atravessam  meu  corpo  mas  agora  já  não  mais 
encontram sangue. Assisto ao meu julgamento mas não estou presente, pois que não me vêem. São muitos 
os juizes. Todos idosos. Vestem belas fardas mas seus corpos são flácidos. Outros vestem longas batas e 
estão sentados em semicírculo com as bundas murchas sobre enormes cadeiras. Eles sabem que, quando 
dão uma volta rápida sobre seus próprios corpos, as togas flutuam no ar. E acham isso bonito. O povo 
bate palmas mas não me vê, embora eu seja o réu. À frente de cada um dos juizes há uma enorme pasta 
cheia  de  papéis  narrando,  certamente,  os  meus  crimes.  Um  juiz,  que  não  possui  uma  das  orelhas, 
conversa com outro em voz baixa. Este outro, por sua vez, é pequeno mas está permanentemente com o 
pescoço esticado. Um terceiro abana o presidente do Tribunal que dorme. Este possui uma longa barba 
branca enquanto que aquele que o abana com um diário oficial está sorrindo sempre mas eu não ouço as 
suas risadas. Há um último que não move a cabeça envolta numa misteriosa nuvem que me impede de 
ver o seu rosto. Aos poucos a nuvem se desfaz e descubro que ele não tem rosto. Tem apenas um elmo. 
Fico na dúvida: haverá uma cabeça dentro deste elmo? Há uma ponte entre o povo que aplaude e a mesa 
dos  juizes.  A  ponte  porém  está  podre  e  uma  mulher  insiste  em  passar  por  ela.  Um  guarda  a  impede  e 
distrai a sua atenção com uma revista. 

- Seu filho não está aqui minha senhora. 
Eu nunca estou onde a minha mãe me procura. Os juizes preparam-se para me julgar. Aguardam 

apenas  que  um  deles  termine  uma  anedota.  Todos  riem  e  eu  não  consigo  achar  graça.  Um  corcunda 
carrega  uma  cadeirinha  para  a  frente  do  presidente  do  Tribunal  para  que  ele  consiga  depositar  seus 
imensos ovos. Sei que falam sobre mim mas não posso entender a língua que falam. A mulher lê a revista 
enquanto que o público aplaude. Começo a gritar para chamar-lhes a atenção. 

- Os cogumelos crescem no jardim. A criança cresce no ventre da mãe. A aranha na teia que fez 

na árvore que as folhas balança. 

Mas eles não me ouvem. Eles nem me vêem. Eles apenas me julgam. 
- As formigas possuem uma cidade. As águias têm altos ninhos. Eu já tive uma namorada que não 

tinha nada mas olhava a tudo com atenção. 

Mas eles não me ouvem. Eles nem me vêem. Eles apenas me julgam. 
- O sol nasce sempre outra vez para a estética transcendental de Kant, para o vigor da idéia de 

Shopenhauer e até para o revólver que um dia comprarei para o meu filho. 

Mas eles não me ouvem. Eles nem me vêem. Eles apenas me julgam. 
-  Schweitzer  morreu  mas  eu  me  lembro.  Mayakowiski  morreu  mas  eu  me  lembro.  Drummond, 

porém, está vivo e os poetas ainda se reúnem à lareira de Pasternak. 

Mas eles não me ouvem. Eles nem me vêem. Eles apenas me julgam. 
 - A lua já brilha na índia, seus cachorros. Eu observo a mulher nua que perto descansa e que já é 

poesia e há muita gente se amando neste momento! 

 Mas eles não me ouvem. Eles nem me vêem. Eles apenas me julgam. 
Onde estão os rostos desses juizes? Mamãe pare de ler esta revista e olhe, pois quero enxergar 

com seus olhos. Um menino pequeno, em verdade um bebê, me informa. 

-  Eles  não  são  juizes.  São  apenas  corpos.  As  togas  comandam  os  seus  corpos.  São  togas  que 

jantam,  respiram  e  julgam.  As  agulhas  coseram  as  batas  à  carne.  Os  homens  morreram  para  a  lei 
nascer. Quem não for lei terá que ser julgado. 

Mas eles não me condenam nem me absolvem, meu filho. Eles apenas me julgam e continuarão 

me julgando sempre. 

- Como é que é, seu moleque? Tá pensando que isso aqui é hotel? 
As criaturas de Deus me tiram da cela, pois o delegado me espera. 

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Vinte e Sete 

 

O  delegado  é  um  desses  homens  que,  de  um  modo  geral,  classifica-se  como  um  bom  pai  de 

família. E não sei por que presto atenção em todos os detalhes: deve ter l,70m de altura; cerca de 45 anos; 
levemente  calvo;  razoavelmente  balofo;  veste  um  terno  azul-marinho  um  pouco  fora  de  moda  mas 
impecavelmente limpo e passado e sobre os olhos traz uns óculos de grau. Pelo anel no dedo anular da 
sua mão direita, vê-se que é advogado. Sua voz é levemente nasalada e seu corpo desprende um cheiro de 
água  de  colônia  terrivelmente  doce.  Deve  ter  sido  o  tipo  do  menino  dono  da  bola  que  só  deixava  a 
gurizada  da  rua  jogar  futebol  quando  ele,  também,  era  escalado,  embora  não  entendesse  nada  do  jogo. 
Engordou,  casou,  teve  três  filhos,  hoje  adolescentes,  que  ele  educa  de  maneira  espartana,  ou  seja: 
obrigação  de  primeiras  notas,  missa,  bênção,  delação.  À  noite  conta-lhes  as  suas  aventuras  policiais. 
Aliás, deve ter tido boas razões para entrar para a Polícia. Agora, diante de mim, que olho para a sua cara 
com um ar abobalhado que não posso reprimir, prepara-se, provavelmente, para uma nova aventura como 
bom defensor da lei e da ordem, prepara-se para enfrentar um inimigo público. Eu poderia mandá-lo à 
merda  mas  é  preciso  jogar.  Mandando-o  à  merda,  provavelmente  lucrarei  apenas  umas  cacetadas.  Mas 
não é delas que tenho medo. De que, então? Não sei. Sei apenas que o meu medo nada teme. E mais forte 
do que eu e obriga-me a me manter impassível, diante do defensor da lei. Ele olha para mim como quem 
diz: “Sim, senhor, hein?” Será que ele me castigará porque ainda há pouco descobriu que não consegue 
mais trepar com a sua mulher? Mas uma vez mais tento participar. 

-  Muito  prazer  em  conhecê-lo,  delegado.  Sinto  apenas  que  nos  conheçamos  em  situação  tão 

adversa para mim. Creio, porém, que o senhor  compreenderá que um sem-número de razões de  ordem 
pessoal e, conseqüentemente, emocional, conduziriam-me ao estado lamentável em que os seus guardas 
me encontraram ontem. 

Ele nada diz. Apenas olha para mim, enquanto abana a cabeça. Em verdade, a sua cabeça começa 

a  crescer;  as  bochechas  tornam-se  gordas  e  caem  sobre  o  rosto.  Duvido  dos  meus  olhos  mas  as  suas 
orelhas tornam-se enormes e pontudas, ao mesmo tempo em que a sua boca transforma-se num focinho. 
Um  focinho  de  onde  escorre  sangue.  O  delegado  transforma-se  num  porco  diante  dos  meus  olhos. 
Entretanto a sua voz continua perfeitamente nasalada. 

- O senhor que me parece um moço bem-educado deveria saber que um bêbado é pior do que um 

cachorro. O estado em que o senhor chegou é o último estágio da degradação social. 

Devo informar-lhe que ele se transformou num porco? Temo, porém, que ele não acredite e tome a 

minha informação como falta de respeito. 

- Seus pais devem ter lhe dado uma educação. Devem ter se esforçado para que o senhor cursasse 

os melhores colégios, e o que é que o senhor lhes dá em troca? E a sua mulher, o que pensaria ela se o 
visse nesse estado? 

Enquanto ele abre a boca, vejo restos do que deve ter sido uma mão de criança recém-nascida que 

ele mastiga ferozmente. Trata-se de um porco ogre. 

- E o senhor não tem nada para me dizer? 
Tento participar mais uma vez. 
- O senhor há de convir, delegado, que a minha defesa é praticamente impossível, uma vez que 

meu aspecto não é dos mais agradáveis. Creia-me, entretanto, que farei o possível para que isso não torne 
a acontecer. Em verdade, de hoje em diante, não matarei mais nenhuma centopéia. 

O porco, porém, não concorda comigo. Informa-me que as centopéias devem ser mortas, pois são 

animais  venenosos  e,  conseqüentemente,  nocivos  à  sociedade.  Ele  diz  que  poderia  deixar-me  passar 
algum  tempo  no  xadrez,  mas  que,  levando  em  conta  a  minha  condição  de  primário,  deixar-me-á  em 
liberdade. Exige, porém, que eu leia um livro de Cronin onde descobrirei — diz ele — a que ponto um 
homem pode chegar por causa do álcool. Prometo-lhe que vou ler o livro mas olhar para a sua cara de 
porco  dá-me  ânsias  de  vômito.  Eu  poderia  dizer-lhe  que  conheço  o  chefe  de  polícia,  mas  este  é  um 
porcalhão  ainda  maior.  Aliás,  conheci  muitos  porcalhões  e  sempre  lhes  fiz  reverência  sem  nada  lucrar 
com  isso.  O  porco  prossegue  mastigando  os  dedos  de  criança  e  —  estranho  —  quanto  mais  dedos  ele 
engole,  tantos  mais  nascem  para  ele  mastigar.  Manda-me  sentar  a  um  canto,  enquanto  que  os  seus 
auxiliares  registram  a  ocorrência  da  qual  eu  sou  o  protagonista.  Belisco-me  para  dizer  ao  porco  o  que 
penso mas não consigo. Poderia dizer a ele quão difícil é traçar um limite entre a culpa e a inocência que, 
de resto, são palavras sem cheiro e sem cor, feitas antes para tiranizar do que para humanizar. Humanizar 
— está aí um verbo para o qual ainda não encontrei um pronome adequado — penso. Entretanto, a tortura 

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persegue. Sei que o porco me mantém sentado bem à vista das pessoas que entram e saem da delegacia a 
fim de apanharem seus atestados de residência, pois todos moram em algum lugar. Sei que o porco me 
mantém em exibição. Como bom caçador, quer mostrar a sua presa aos circunstantes. E não há nada pior 
do  que  esta  tortura  mesquinha  e  sem  rumo  estabelecido  que  faz  de  mim  um  cartaz  do  Actualités  des 
spectacles

. Esta tortura que mais e mais me confina a ficar sentado a um canto distendendo os nervos à 

procura de um prolongamento corporal. Sei que as minhas mãos estão muito machucadas das porradas da 
noite anterior mas nem a dor me traz qualquer vantagem. Tenho medo de vomitar na frente de todas essas 
pessoas que me olham espantadas, mas tenho ainda mais nojo pela vergonha que sinto e que não deveria 
estar sentindo. E eu olho para as pessoas que me cercam como se nada estivesse acontecendo. Como se 
— apesar da minha barba, do sangue na minha roupa, do mau cheiro que desprendo — eu também fosse 
um cidadão comum em busca de um atestado de residência. Deve haver alguma razão para essa minha 
grosseira caricatura de coexistência pacífica. Mas eis que alguma coisa acontece. Uma jovem loura, com 
olhos curiosos, que não deve ter mais de 15 anos, apesar dos seios enormes e das belas coxas que imagino 
por  baixo  do  vestido,  olha-me  com  ar  piedoso  e  —  repentinamente  —  vejo-me  a  balançá-la  em  meus 
braços dentro da delegacia. Ouço a minha voz que grita: 

- Nós sabemos, não é meu amor? Nós sabemos que as grossas unhas calcificadas ferem a face das 

criancinhas que crescerão segundo a lei da navalha. Eu quero a coerência! 

E a coerência desce sobre mim. Ou melhor: descem sobre mim as mãos pesadas de duas criaturas 

de  Deus  que  afastam  a  moça  e  aos  empurrões  fazem-me  sentar  novamente  na  cadeira.  A  um  gesto  do 
porco, dois guardas empurram-me até a porta da rua. Descubro, então, que fiz mais um herói. Um deles 
me diz com ar cúmplice: 

- Você deu sorte, meu chapa. O filho do senador telefonou e pediu que o delegado te soltasse. Não 

fosse isso, você ia levar uma coca. 

Olho para os meus semelhantes e lhes digo: 
- Muito obrigado. 
Começo a andar mais uma vez por esta cela bem mais espaçosa que um humorista qualquer achou 

por bem chamar de liberdade. 
 

Vinte e Oito 

Cá estou eu exercendo a minha pesada liberdade. Caminho por uma das mais movimentadas ruas 

da cidade; a minha liberdade é a minha prisão. Não tenho dinheiro para apanhar o ônibus e ir para casa 
trocar de roupa depois de um banho. Também não tenho dinheiro para passar um telegrama e agradecer 
ao filho do senador pela minha liberdade. Isso faz com que as centenas de pessoas que andam pela rua 
parem para apreciar o jovem mendigo de smoking. Vem-me a idéia de pedir esmolas mas há o temor de 
ser reconhecido e eu — certamente — não desempenharia o papel com a mesma tranqüilidade com que os 
arqueiros chineses disparam os seus arcos. Mas se eu fosse um adorador de ídolos tudo seria diferente. Se 
eu, pelo menos, tivesse algum ídolo para adorar! Isso aproximar-me-ia dos meus circunstantes. Gostaria 
de gritar: 

— Eu sou uma mercadoria, senhoras e senhores! Se eu não sou uma mercadoria, ensinem-me a 

transformar-me  numa.  Eu  também  quero  transformar  a  minha  vida  num  capital.  Eu,  também,  quero 
investi-la com lucro. Se eu tiver lucro, então a minha vida, também, terá sentido como a de vocês. 

Mas eu sei que ninguém comprará o meu valor, pois este precisa ser reconhecido pelos outros e eu 

estou muito afastado da manada. E, mesmo que estivesse próximo, só receberia patadas, pois as manadas 
possuem um misterioso sentido que as faz pressentir a presença de um provocador. São bois com antenas 
invisíveis. Em direção à minha casa, passo por um grupo de pessoas que se acotovela enquanto olha para 
uma  vaca  mecânica  que  mexe  os  olhos  e  o  rabo,  dentro  de  uma  vitrina,  anunciando  as  vantagens  de 
determinada marca de leite em pó. (Meu filho deve estar precisando de leite.) Tento passar pela pequena 
multidão mas, ao tocar com as mãos o ombro de um cidadão, sinto ao contato que ele é frio como metal; 
como aço inoxidável, talvez. Infantilmente, penso que se trata do Super-Homem vestindo a sua roupa de 
mortal. Mas em seguida — verifico que não. À medida em que toco nas pessoas, vou descobrindo que 
todas,  embora  maleáveis,  embora  possuindo  rostos  iguais  ao  meu  e  pele  igual  à  minha,  são  feitas  de 
metal. Terá sido sempre assim? — penso — ou apenas hoje fiz a descoberta? Ou — quem sabe — tudo 
aconteceu  durante  o  tempo  em  que  estive  na  cadeia?  Mais  uma  vez  sinto-me  sacaneado.  Então,  houve 
uma transformação universal e deixaram-me fora dela para eu continuar diferente? Já não basta eu estar 
sujo, rasgado, cheio de marcas de sangue pela roupa, barbudo e fedorento? Agora me arranjam mais essa? 
Todos perfeitos, do mais puro aço, e apenas eu vestindo esta ridícula pele mortal? Sou invadido por um 

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pavor maior do que o meu corpo pode conter. E se eles me descobrirem? Sei como a coletividade reage 
para com os diferentes. Se eles descobrirem que eu não me transformei... procuro passar desapercebido 
mas  isso  é  quase  impossível.  Serei  eu  um  produto  de  ficção  científica?  Serão  eles  produtos  de  ficção 
científica? Estarão eles sonhando com um estranho homem de carne? Um sonho coletivo. Ou — talvez — 
eu  é  que  esteja  sonhando  com  um  mundo  de  super-homens?  Mas  a  minha  mão  dói  e  sinto  que  esta 
história eu não fabriquei. Meus passos conseguem conduzir-me até um beco sem saída onde poucos me 
vêem. Aqui esperarei até que venha a noite para, então, tentar chegar ao lugar onde durmo. Mas não terá a 
noite também desaparecido? E se de agora em diante só houver o dia para denunciar-me? Fico parado no 
beco olhando a manada que passa a alguns metros de distância. Um gato de carne e osso aninha-se aos 
meus pés. 
 

Vinte e Nove 

 

Um  homem  limpo  com  uma  pasta  na  mão  passa  por  mim.  Eu  gostaria  de  ser  como  ele.  Ele 

coopera facilmente dentro de grandes grupos que desejam consumir mais e mais e cujos gostos possam 
ser  facilmente  influenciados,  padronizados  e  previstos.  Eu  quero  cooperar,  quero  consumir,  quero  ser 
influenciado. O homem que se aproxima sente-se livre e independente, não sujeito a nenhuma autoridade, 
princípio ou consciência. Não obstante, ele está disposto a receber ordens, fazer o que dele se espera e 
enquadrar-se na máquina sem conflito. Eu, também, quero ser assim: livre e receber ordens. Ele — e vejo 
seu sorriso de satisfação — pode ser liderado sem líder; movido sem objetivo; guiado sem força. O seu 
objetivo é avançar sempre. Eu também quero ser assim. Eu também quero ser governado. Quero que as 
minhas ações estejam acima de mim. Quero que as forças da minha vida se transformem em instituição e 
— em seguida — em ídolos. Quero — como o patriota que se aproxima sorridente — cultuar o Estado; 
cultuar  os  seus  símbolos:  uma  suástica,  uma  foice  e  um  martelo,  uma  enorme  bunda.  Quero  um  ídolo, 
também.  O  homem  com  a  pasta  está  agora  a  poucos  passos  de  mim  e  posso  vê-lo  perfeitamente.  Ele, 
porém, não tem apenas um rosto. Em verdade, o seu rosto é uma tela cinematográfica por onde desfilam 
dezenas, centenas, milhares de rostos. E sobre cada um dos seus rostos quase que invisíveis manchas cor-
de-rosa.  A humanidade  está com lepra — penso. Mas a lepra é  curável.  Sabe-se disso há muitos anos. 
Também quero contagiar-me mas sei — de antemão — que isso é impossível. Por que não continuei no 
Partido  Comunista?  Ou  então  —  por  que  não  passei-me  para  a  direita?  Por  que  não  continuei  sócio 
daquele  clubinho  onde,  nas  tardes  de  sábados,  nós  moços  nos  reuníamos  para  dançar?  Qualquer  idiota 
sabe que tanto o comunismo como o capitalismo são sistemas de futuro. Ambos progredirão, avançarão e 
dentro  de  50  anos  (eu  ainda  estarei  vivo,  por  que  não?)  ambos  os  sistemas  estarão  transformados  em 
sociedades  administrativas  perfeitas  com  habitantes  bem  alimentados,  bem  vestidos,  com  seus  desejos 
satisfeitos e sem anseios que não possam ser atendidos. E meu filho poderia fazer parte dessa formidável 
sociedade de autômatos. 

Mas sei que estou me enganando. Sei que isso é impossível pois, se é verdade que os autômatos 

não  se  rebelam,  também  é  verdade  que  se  um  homem  viver  como  um  robô,  ele  não  pode  continuar 
mentalmente sadio. E há a bomba de 40 megatons e há a peste manejável! E quem maneja a bomba e a 
peste  são  robôs  débeis  mentais.  E  eu,  sujo,  saído  há  pouco  da  cadeia,  parado  neste  beco  enquanto  o 
crepúsculo se aproxima, nada posso fazer. Não posso impedir este irresponsável amor feito de bombas de 
nêutron. 
 

Trinta 

 

Não  há  o  que  fazer.  Se  me  falta  talento  para  viver  e  para  morrer,  melhor  optar  pela  solução 

covarde e continuar tentando. Para quem, como eu, vem tentando desde as amebas retirar um machado 
cravado entre o nariz e a boca, torna-se muito difícil e até mesmo irrelevante diante da dor preocupar-se 
com a coerência essencial. Se o mundo precisa  de robôs débeis mentais para  governá-lo, não sou eu o 
único a saber disso — certamente. Participemos mais uma vez. Enganemos o machado. Façamos com que 
ele  pense  que  nos  afeiçoamos  a  ele.  Ainda  tenho  algum  tempo.  Os  robôs  débeis  mentais  ainda  não 
descobriram que a não-vida não faz sentido. Enquanto não descobrirem isso, não destruirão a vida. Falo 
nesta  vida  de  merda  que  eu  vivo  mas  que  seria  maravilhosa,  sadia,  caso  todos  a  vivessem.  Digo:  caso 
parassem de aleijar a realidade verdadeira em favor de uma realidade real e, por isso mesmo, mentirosa. 

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Disseram-me  esses  tempos  que  o  mundo  tem  9  milhões  de  anos,  o  que  prova  a  diligência  das 

amebas.  A  certeza  da  matemática  deve  ser  confortadora  para  os  matemáticos.  Que  importa  errar  um 
bilhão de anos se não o viveremos. Diante dessa certeza divirto-me imaginando cenas. Já lhes disse que 
sou um imaginativo? Imagino, por exemplo, enquanto a noite não vem, se um desses autômatos débeis 
mentais  que  governam  esse  nosso  planetóide  de  quinta  categoria  chegasse  em  casa  mais  cedo  e 
encontrasse a sua mulher chupando o pau do seu secretário para assuntos intelectuais. Quanto tempo ele 
levaria para chegar até o botão que um dia fará explodir o mundo — e eu também e o meu filho também; 
eu que nada tenho a ver com a boca da mulher do autômato débil mental. Mas ainda não acabaram com a 
noite.  Aí  está  ela  e  junto  com  ela  vou  indo  para  casa.  Há  muita  gente  na  rua.  Para  comprovar  a  mim 
mesmo que nada mudou, toco o mais disfarçadamente que posso na bunda de uma mulher que caminha 
ao lado de um canal. Ah, como é bom sentir com os dedos uma bunda de carne e osso; uma bunda que 
afunda ao contato da mão. Ela vira-se para mim e sei que não entenderá que só fiz isso para ver se ela era 
de  carne  e  osso;  para  ver  se  o  mundo  ainda  tinha  possibilidade  de  recuperação.  Sei  que  ela  jamais 
entenderá o magnífico trabalho involuntário que prestou à ciência e à humanidade. Como explicar-lhe que 
a  bela  bunda  que  ela  esconde  tão  excitantemente  sob  o  vestido  de  seda  é  uma  bunda  salvadora? 
Evidentemente, não lhe digo nada disso, mas o medo de levar uma bofetada do homem que está ao seu 
lado, de voltar à cadeia e — então, tenho certeza — nunca mais sair faz com que eu lhe lance um olhar de 
cachorro  perdido  na  tempestade.  Ela  parece  compreender  e  perdoa  a  indignidade  que  cometi.  Sigo 
andando, pois pode ser que eu encontre um bilhete de loteria premiado e perdido no caminho. 
 

Trinta e Um 

 

Hoje  em  dia,  porém,  ninguém  perde  mais  bilhetes  premiados.  Aliás,  creio  que  nunca  ninguém 

perdeu bilhetes premiados. Ainda há muita gente pela rua. Nem perco tempo em verificar se são pessoas 
de  carne  e  osso  ou  de  aço  inoxidável.  Estou  próximo  da  minha  casa  e  —  dentro  dela  —  sei  de  um 
cantinho onde ninguém poderá perturbar-me. Ao atravessar a rua topo com uma igreja. Não há por que 
entrar dentro dela mas também não há por que não entrar. Dentro da igreja há cerca de 20 pessoas - que 
como eu procuram um milagre. Eu, entretanto, sei que não o encontrarei. Mas — que diabo! -por que não 
tentar? O silêncio é razoavelmente confortador. Procuro ajoelhar-me, mas a posição é incômoda. Cruzo as 
mãos,  sento  num  banco  e  fecho  os  olhos.  O  padre  fala  sobre  um  Deus  que  sofreu  e  eu  penso  na 
possibilidade de conseguir mais um emprego. Há aquele velho amigo que tão bem desempenha o papel do 
moço  que  vence  na  vida  e  que,  caso  eu  permita  que  ele  me  insulte  um  pouco  mais,  acabará  por  me 
arranjar alguma coisa. Há uma jovem que diz gostar de mim e que, certamente, me emprestará dinheiro 
para  o  ônibus.  Isso  não  lhe  custará  nada,  uma  vez  que  o  seu  pai  é  um  advogado  razoavelmente  bem 
sucedido.  Entende  muito  de  leis  e  até  mesmo  de  direito  internacional.  Para  a  jovem  também  será  bom 
fornecer-me o dinheiro, pois para ela é importante acreditar em mim. Abro os olhos e deparo com o velho 
Jesus pendurado numa bonita cruz lavrada em mármore. O padre continua falando num Deus que sofre. 
Jesus seria capaz de criar um tumulto neste tempo — penso — e acabaria no xadrez. Uma velhinha toda 
empoada, com um enorme véu negro de renda sobre a cabeça, senta-se o meu lado. De repente, pressente 
a minha presença, provavelmente pelo olfato, pois nem eu agüento o meu cheiro, e muda-se de banco. E 
nenhum  deles  sabe  que  eu  levantei  Deus  que  caminhava  sobre  um  palito  de  fósforo.  E  mesmo  que  eu 
dissesse eles não acreditariam. E não acreditariam pois o destino do homem que lentamente se automatiza 
encontra o seu protótipo na paixão por um Deus que sofre na Terra, morre e se eleva aos céus novamente. 
Esse  Deus  permitirá  que  todos  partilhem  da  abençoada  imortalidade.  Quero  dizer,  todos  não.  Apenas 
aqueles que se unirem a ele nos mistérios ou mesmo se identificarem com ele. Porra, mas onde é que eu 
vou pregar a sua religião? Nada mais tenho feito senão amar o meu próximo como a mim mesmo, e o que 
é  que  eu  tenho  conseguido?  Já  me  enchi  da  igreja  e  preciso  comer  alguma  coisa.  Em  casa  voltarei  a 
pensar  no  assunto  e  —  se  não  me  engano  —  guardei  alguns  tocos  de  vela  na  gaveta  da  mesinha  de 
cabeceira. O chato é que não tem vidro na janela do banheiro e sempre que levo uma vela acesa para lá, 
ela  acaba  apagando  e  eu  sou  obrigado  a  sair  debaixo  do  chuveiro  tantas  vezes  que  termino 
invariavelmente resfriado. Vou dando o fora da igreja. Na escada encontro um mendigo de longas mãos. 
O sacana está pedindo esmolas e me olha com uma cara de quem, realmente, precisa. Tento um papo: 

- Meu chapa, honestamente, se eu tivesse uma erva, eu dividia contigo. Mas não há de ser nada. 

Você pára aqui todo dia, não é? Amanhã talvez eu arranje um dinheiro e a gente. . . 

O mendigo não me deixa terminar: 
- Porra, vê se não aporrinha. 

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Vou  embora,  pois  o  sacana  tem  razão.  De  qualquer  maneira,  se  eu  arranjasse  um  dinheiro,  a 

primeira coisa que faria seria esquecer dele. 

- Uma esmolinha pelo amor de Jesus, Nosso Senhor! 
Ele, também, não sabe que Deus morreu. Engraçado: para os autômatos débeis mentais — penso, 

enquanto vou andando para o meu cubículo - a história em torno de Jesus não tem apenas uma função 
social. Ela ameniza também aquele pouco de sentimento de culpa que ainda resta aos robôs. O sentimento 
de culpa provocado pela desgraça e sofrimento do pessoal que precisa de ídolos, como eu. Se esse pessoal 
se  identifica  com  Jesus  sofredor,  os  autômatos  podem,  eles  mesmos,  se  penitenciar.  Podem  mesmo  se 
reconfortar com a idéia  de que, como o único filho de Deus sofreu voluntariamente, o sofrimento para 
mim é uma graça de Deus. Logo, eu não tenho razão de acusar ninguém. Nem os autômatos têm razão de 
acusarem-se por me causar esse sofrimento. Trata-se de uma política muito antiga, que ainda dá resultado, 
e até hoje os arrancadores de vísceras dormem descansados sobre o sangue dos inocentes. E quantos deles 
não têm lindas cabeleiras brancas? Quantos não são respeitáveis vovôs? E como sabem contar histórias 
divertidas dos bons tempos! Desço as escadas do templo pensando nas desvantagens que me tem trazido 
esta louca coerência de uma vida que ninguém vive. Mas ela está dentro de mim, apesar das condições. 
Está lá no centro nervoso do desespero: é a alma da minha calma feita de nervos. Não há como arrancá-la 
e renascer igual. Eu quero acreditar nesta vida-não-vida... Quero acreditar nas coisas ditas e proclamadas 
pela maioria. Quero torcer no futebol; pertencer a um partido; acreditar no anúncio que vejo na televisão e 
emocionar-me com o problema da mãe-solteira. É preciso amordaçar este estúpido espírito crítico sempre 
que eu ouvir a voz da maioria. A voz da maioria é a voz dos autômatos-reis e esta precisa ser a minha 
voz. Quando a minha primeira hipocrisia bem sucedida suceder; quando  eu deixar de vomitar sobre as 
tentativas, escreverei uma carta para a minha mãe. Como qualquer vagabundo que não tem o que fazer 
além de sustentar-se sobre as suas próprias pernas, vou formando frases enquanto caminho: 

“Perdoa, minha mãe, mas tenho uma notícia: seu filho já é um homem normal. Perdoa, mas faltou-

lhe masoquismo e dinheiro para deixar de ser normal. Seu filho, infelizmente, não é um cristão. Tentou, 
mas  não  é.  Tentou  muito  mas  lhe  faltou  talento.  Caso  contrário,  ele  continuaria  reagindo  contra  o 
horizonte de aço inoxidável que agora vê à sua frente. Continuaria gritando como Cristo, mas os tempos 
são  outros,  minha  mãe.  Eu  sou  suficientemente  esperto,  hoje  em  dia,  para  saber  que  se  eu  continuasse 
naquele  caminho  anormal,  somente  muito  depois  da  minha  morte,  quando  tivessem  certeza  de  que  eu 
estava mais do que suficientemente morto, os autômatos me reverenciariam. Somente depois da  minha 
morte poderei ser louvado sem risco. Mas,  então, haverá outro alguém se arriscando. Cantem hinos ao 
Senhor, minha mãe, meus irmãos, minha mulher, minha namorada. Hosanas, pois o filho é normal. E na 
trilha da normalidade acabará - quem sabe, com algum talento? — presidente do banco do seu país ou, até 
mesmo, adido cultural em Honduras.” 

Mas o modo com que o porteiro do meu edifício me encara bem demonstra que ainda não estou 

em condições de escrever a carta. Se eu já não grito, se eu já não reajo, minhas roupas manchadas e minha 
cara quebrada, reagem por mim. 
 

Trinta e Dois 

 

 
Procuro ver nos olhos do porteiro se há algum recado para mim; se fui procurado por alguém, mas 

ele  limita-se  a  olhar  para  um  lado,  ignorando  praticamente  a  minha  passagem.  Apanho  o  elevador  e 
verifico que é proibido fumar. De qualquer maneira, não tenho cigarros. Mas estou calmo e isso me irrita, 
pois a minha calma me faz tremer. Pergunto: o que eu faria, se, de repente, ganhasse uns 100 milhões de 
cruzeiros;  se,  de  repente,  me  convidassem  para  fazer  um  cruzeiro  pelas  Bahamas.  Depois  dos  últimos 
dias, creio que não faria nada. Quando sofremos, o próprio sofrimento torna-se um hábito. Enraiza-se na 
nossa  pele  e  mesmo  ao  baque  de  uma  alegre  notícia  não  desmorona.  Em  realidade,  creio  que  nos 
habituamos  ao  desespero,  embora  aguardemos  sempre  uma  notícia.  Agora,  por  exemplo,  eu  poderia 
apertar o botão de emergência e fazer o elevador parar entre um andar e outro. Para o mundo isso pode 
parecer uma anormalidade. Para mim, porém, trata-se de um acontecimento. Trata-se de um inesperado. 
Eu gostaria que o elevador parasse nesse instante, e mais, gostaria mesmo que ele caísse virtiginosamente. 
Isso  representaria  uma  trégua  entre  mim  e  o  mundo.  Uma  pausa  refrescante,  como  diz  o  anúncio 
publicitário. Sei, porém, que isso não acontecerá, a menos que eu aperte o botão de emergência. Logo, 
entretanto,  homens  e  mulheres  começarão  a  gritar,  reclamando  o  elevador  e  —  ato  contínuo  —  serei 
obrigado  a  fazê-lo  descer.  Descobrirão,  então,  que  fui  eu  o  responsável  voluntário  pelo  enguiço  e 
reclamarão  ao  síndico  que  reclamará  ao  meu  senhorio  que  por  sua  vez  reclamará  a  mim  e  como  estou 

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devendo alguns meses de aluguel facilmente botar-me-á no olho da rua. Não sem antes, é claro, comentar 
com a sua mulher: 

— Uma pena, um rapaz tão inteligente. Mas sou obrigado a fazer isso. 
A mulher, entretida com o programa de televisão, responderá que “é a vida, meu velho”; logo, não 

devo apertar o botão de emergência. 

Fecho os olhos enquanto abro a porta do apartamento. Ainda de olhos fechados descubro um papel 

no chão. Ainda de olhos fechados descubro, pelo formato, que se trata da conta do gás. Fecho a porta e 
continuo  de  olhos  fechados,  pois  mesmo  que  os  abrisse  quase  nada  veria,  uma  vez  que  não  há  luz  no 
apartamento.  Atravesso  a  pequena  sala  sem  esbarrar  em  nada  pois  sei  a  exata  colocação  dos  móveis, 
atravesso  o  quarto  e  abro  a  janela.  Medito  seriamente  sobre  a  possibilidade  de  atirar-me  ao  espaço  e 
descer seis andares. Relativamente jovem, relativamente culto e sem nenhum defeito físico. E, entrento, 
não há nada que me prenda à espécie humana. Nenhum contato com a vida e — ainda assim — persiste a 
teimosia de querer agarrar-me a alguma coisa. Não amo ninguém; tenho um filho que vi apenas uma vez e 
—  ainda  assim  —  procuro  encontrar  dentro  de  mim  alguma  esperança  antes  de  transformar-me  numa 
massa de sangue, carne, vísceras e ossos na calçada. A idéia não é agradável e há sempre a possibilidade 
de eu não morrer. Morre-se por amor; morre-se por falta de amor, mas ninguém morre por não gostar de 
viver, simplesmente. De olhos fechados, sento-me na janela e balanço o corpo para a frente e para trás. A 
princípio mais para trás do que para a frente. Agora, porém, mais para frente do que para trás. Sou uma 
avestruz que não vê o mundo pois está com a cabeça enterrada na areia e — como avestruz — penso que 
o mundo também não me vê. Acredito que não me veja. O acrobata pede desculpas mas está cansado. O 
corpo balançando muito para frente e um pouco para trás. Muito para frente, muito para a frente, muito 
para a frente. Daqui a pouco perderei o equilíbrio mas não posso deixar de imaginar os comentários das 
pessoas com que tentei dialogar nestes anos todos. Muito para a frente mas ainda tenho os dois pés firmes 
sobre uma estreita faixa de cimento e tijolos. Um dos meus pés resvala e jogo-me com violência, ânsia, 
desespero e covardia para o lado de dentro da janela, para dentro, para dentro, para dentro. Caio no meio 
do quarto e de olhos fechados vou rastejando até a cama que um dia foi de casal, onde me atiro e choro 
qual uma criança que jamais deixei de ser. Choro soluços que não tento abafar, alto. Muito alto. Mas de 
que me adianta chorar se não há ninguém para ver? Batem na porta; praticamente arrombam a porta. Não 
vou  abrir,  pois  sei  que  são  os  vizinhos,  os  pedestres,  os  autômatos  cujo  mecanismo  atrapalhei  com  a 
minha palhaçada; com a minha ridícula tentativa de dar fim a uma coisa que nem conheci. Chamam pelo 
meu nome e vou atender, tendo na cara o que me parece ser um ar despreocupado. E a moça que diz ser a 
minha namorada. Olha-me com o olhar que os adultos costumam lançar às crianças que eles nunca julgam 
como  crianças,  mas  como  retardadas  mentais.  Repreende-me.  Pergunta  onde  estive  esses  últimos  dias. 
Pergunta se quero deixá-la louca. Saio um pouco para fora do apartamento a fim de que a luz do corredor 
bata na minha cara e ela possa olhar os meus ferimentos. Ela, então, joga-se aos meus braços, pergunta o 
que houve e diz que me ama muito. 
 

Trinta E Três 

 

 
Estou pelado dentro da banheira. O homem pelado dentro da banheira numa noite de domingo. É 

bom  estar  dentro  da  água  morna.  Chato  é  que,  embora  haja  uma  janela  tapando  a  vidraça  quebrada, 
sempre entra um pouco de vento que bate sobre a parte do meu corpo que não está dentro da água. Faz-
me lembrar que a vida continua; que a vida me espreita por trás da janela. Além disso o fogo da vela pode 
apagar  de  uma  hora  para  outra  e  eu  terei  de  me  levantar  para  acendê-la.  O  medo  de  que  isso  possa 
acontecer não me deixa gozar inteiramente a paz líquida que me inunda enquanto me mantenho dentro da 
banheira bem menor do que eu, numa cômica posição. 

A moça que diz que me ama, que é um absurdo a vida que eu levo, que eu preciso parar com essa 

mania de autodestruição foi lá para baixo depois que eu prometi ficar quietinho na banheira. Ela prometeu 
que me daria um bom banho. Foi lá para baixo estacionar o seu carro direito, pois que subiu às pressas. 
Foi, também, comprar cigarros, uma garrafa de vodca e alguns sanduíches. Ela não me disse, mas sei que 
está preocupada, pois hoje há uma reunião de família em sua casa e ela não pode faltar. Ela costuma dizer 
que  não  casa  comigo  pois  eu  recém  me  desquitei  e  os  seus  pais  nunca  permitiriam.  Creio  que  ela  tem 
dúvidas  sobre  as  minhas  intenções.  Costuma  se  perguntar  se  eu  a  amo  ou  se  simplesmente  amo  o  seu 
dinheiro. Certamente eu não amo o seu dinheiro mas também tenho as minhas dúvidas. Penso, por um 
instante, como determinadas ridículas compensações fornecidas à minha vaidade macha podem confortar-
me. A moça que foi comprar sanduíches não pode participar da minha vida mas o meu sofrimento tem, 

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para ela, um lado romanesco que faz com que eu me torne, aos seus olhos, diferente dos outros homens. O 
meu sofrimento a atrai e — por outro lado — torna-me dependente dos seus favores. Aprendi há anos na 
universidade que a diferença entre os sexos é a base da mais antiga e elementar divisão da humanidade 
em  grupos  separados.  Homens  e  mulheres  precisam  uns  dos  outros  para  a  manutenção  da  raça  e  da 
família, bem como para a satisfação dos seus desejos sexuais. Mas em qualquer situação na qual os dois 
grupos diferentes se necessitem, haverá não só elementos de harmonia, cooperação e satisfação  mútua, 
mas de luta e desarmonia. É mais ou menos o meu caso neste momento. Muitas coisas morreram dentro 
de  mim,  ou  melhor,  muitas  coisas  morreram  dentro  do  mundo.  Morrem  os  homens  para  nascerem  as 
máquinas e as leis. Eu luto para amar as máquinas e as leis, mas o homem nega-se a morrer dentro de 
mim,  Estou,  portanto,  de  pau  duro  dentro  da  banheira  à  espera  da  jovem.  Isso  ainda  me  dá  satisfação, 
talvez mais à minha vaidade de que mesmo ao meu desejo sexual. Há alguém que trabalha em função do 
meu sofrimento e que daqui há pouco será devidamente fodida. Ora, o medo de falharem como homens 
fez com que estes se transformassem em máquinas, como há pouco tive oportunidade de constatar na rua. 
Uma das máquinas, porém, transformou-se em carne ao contato da minha mão. O medo de não conseguir 
comer a sua mulher direito faz com que o autômato busque proteção fora da vida. Nessas ocasiões, ele 
mata pessoas, rouba, mente e acaba conseguindo muito dinheiro. Tanto dinheiro que o fato de ser corno 
não  o  incomoda  absolutamente.  Quantas  mulheres  de  autômatos  eu  já  comi  com  o  meu  sofrimento 
charmoso! Ora, se falhei tentando a vida-não-vida, pelo menos dentro da vida satisfaço a minha vaidade. 
Não existe um diálogo interior entre eu e a moça que foi comprar sanduíches mas eu gosto de foder, pois 
é  uma  coisa  que  tem  princípio,  meio  e  fim  e  eu  a  compreendo,  pois  faz  parte  da  vida.  Este  medo  dos 
autômatos de falharem sexualmente fez até com que o mito bíblico invertesse as posições, fazendo com 
que  a  mulher  nascesse  do  homem.  Para  poder  superar,  portanto,  a  mulher  que  tem  a  capacidade  de 
produzir naturalmente, o homem resolveu produzir máquinas, ganhar dinheiro e acabar transformando-se 
numa máquina. Esta ânsia desesperada fez com que ele perdesse de vista o fim que lhe dá significado, 
esqueceu-se: de foder e de portar-se como homem. Eu não esqueci e preparo-me, portanto, para exercer a 
única das qualidades que me restou. 
 

Trinta e Quatro 

 

Já comi caviar e gosto de caviar. Também tenho um paladar muito apurado para o melhor uísque, 

assim  como  sei  distinguir  um  Romanée  Conti  de  um  Beaujolais.  O  sanduíche  que  comi  era  de  pão  de 
ontem.  Mas  uma  fome  antiga  e  boa  torna  bons  os  maus  alimentos.  A  jovem  me  deu  um  banho  e,  em 
silêncio, trocamos alguns beijos e eu gostei. Meu estômago está cheio. Não há por que querer investigar a 
vida se ainda há pouco resisti ao convite da morte que talvez desvendasse o meu mistério. Finjo procurar 
fósforos para acender a vela que se apagou. Sei que eles estão no bolso do meu pijama que há anos não 
visto. Quando me decidir apanharei os fósforos. Acenderei a vela e em seguida o cigarro. Por enquanto 
viajo no silêncio e finjo procurar os fósforos. Enquanto isso vou andando pelo quarto e aproveito para 
observar  as  reações  da  moça  que  está  nua  debaixo  do  meu  único  cobertor.  Daqui  a  pouco  vou  foder. 
Gosto muito de foder, embora foneticamente o verbo soe agressivamente aos meus ouvidos. Fazer amor, 
porém, parece-me hipócrita. Em todos os casos, pretendo abraçar-me a esta jovem e sei que ela também 
pretende que eu a abrace. Pretendo fazer-lhe muitos carinhos com a língua e com as mãos e sei que ela 
também me fará carinhos. Eu — penso — preciso de carinho. Pretendo penetrá-la e gozar muito e depois 
—  quem  sabe?  —  começar  tudo  novamente.  Talvez  isso  seja  amor.  Talvez  seja  um  amor  não  muito 
integrado  na  vida.  Neste  momento,  porém,  sei  que  poucos  estiveram  tão  perto.  Olho  para  os  olhos  da 
moça; olhos negros que refletem um pobre luar que atravessa a janela que ainda há pouco serviu de palco 
para  o  meu  número  do  suicídio.  Essa  espera  antes  do  ato,  confesso,  me  diverte  muito.  Sei  que  ela  — 
conscientemente — representa para mim. É o seu papel. Deve, neste momento, estar perguntando com os 
olhos por que não subo sobre a cama. Sei também que lá dentro na zona de luz mais clara do seu cérebro 
ela pede, ela quer. Ela precisa de mim. Precisa muito mais de mim do que da festa que a espera em casa. 
Para  a  festa  que  não  me  convidaram.  Ela  precisa  se  testar.  Precisa  acreditar  que  é  invulnerável.  Sabe, 
porém, que a sua vulnerabilidade é a minha dependência: ela quer ser penetrada e isto depende de mim. E 
eu estou seguro. Sei que não falharei pois a mulher nua sob os lençóis sabe que sofre e isso não a impede 
de  querer  ser  penetrada;  ela  sabe  que  eu  tenho  tentado  participar  e  isso  não  a  impede  de  querer  ser 
penetrada; ela sabe que eu não sou forte e talentoso e ainda assim quer ser penetrada; ela sabe que eu não 
lhe darei presentes, não farei dela uma lady e ainda assim quer. Ela quer o homem que sofre mas que vai 
possuí-la, e por isso espera. 

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Risco um fósforo e acendo a vela. Tiro o pijama e deito-me na cama. Ela olha para mim como 

uma cadelinha assustada. Uma cadelinha que eu criei quando era menino. Levantava a mão fingindo que 
a  espancaria  e  o  animalzinho  encolhia-se  todo  para  em  seguida  abrir  os  olhos  tranqüilos  ao  ver  que  a 
pancada transformara-se num afago no meio do caminho. A moça sabe que passarei a palma grande da 
minha mão sobre o seu corpo com toda a ternura que eu encontrar e sei que me sobrou alguma para essas 
ocasiões vitais. Ela acende o cigarro e em seguida apaga a vela. Isso faz parte da encenação. Ela vira-se 
de costas. Encolhida aguarda o sacrifício. Dá duas tímidas tragadas e apaga um cigarro contra o cinzeiro 
enquanto  que  acende  o  outro  contra  a  sua  mão  pequena  que  mal  consegue  agasalhá-lo.  Passo  uma  das 
minhas mãos por uma das suas coxas. Sinto um ser humano. Um ser humano que antes de  entrar aqui 
poderia ter escamas ou placas metálicas. Antes  de $ntrar aqui poderia estar com a boca cheia do barro 
fétido do pântano social. Mas que agora é mulher. E gosta de ser mulher. E eu gosto do bicho-mulher-nu. 
Minha língua toca levemente a ponta de um dos seus seios, um pouco mais que adolescentes. A mulher é 
irmã da terra. Ao  contato dos meus lábios a terra-mulher vive, existe. De seu interior pequenos  pontos 
entram em erupção e afloram à pele tal qual um canteiro de flores entre seus seios. Meus lábios acordam 
um vento preguiçoso que dormia dentro da terra-mulher e que agora levanta os pêlos das coxas. Os finos 
pêlos das suas coxas brincam ao vento como um trigal em fresca noite de verão. A terra prepara-se para 
ser semeada. Longe dos juizes, dos javalis, dos autômatos, eu e a mulher existimos fora do mundo real. 
Mergulhados no mundo verdadeiro. Neste tempo que vivi organizei um arquivo. Estranho a mim, talvez, 
mas não à vida. Ele está localizado numa ilha que não sei situar mas que conheço de cor. Neste tempo que 
vivi  tentei  com  mãos,  prego,  formão,  sorriso,  lágrima,  martelo  e  um  certo  sofrimento,  quase  sempre 
despercebido,  dar  estética  ao  vazio.  E  você  surgiu  sem  dizer  palavra.  E  nem  precisava.  Você  bastou 
aparecer. O tempo que vivi não cabe neste curto espaço etemo que vivemos. A dura retrospectiva você 
venceu com o olhar. Juntos, agora, afogamos a ilha e assistimos ao naufrágio das palavras. Não preciso 
delas para te testemunhar. Dentro de ti quero esquecer que amanhã ou daqui a pouco a ilha voltará para o 
seu lugar e um horizonte de máquinas e leis nos separará novamente. Daqui a pouco, eu sei, me faltará 
força e talento para te convencer a atravessar comigo este horizonte. Silêncio, amor. Não pense. 
 

Trinta e Cinco 

 

O tempo deve ser um grande mestre. Ontem, entretanto, quase matou este seu aluno. De qualquer 

forma, sobrevivi a ele. A moça foi embora mais ou menos à meia-noite e prometeu voltar hoje. Deixou 
comigo algum dinheiro para que eu pudesse tomar café ao acordar e apanhar condução. Mas, se eu não 
pedisse, ela não me daria o dinheiro. Senti-me prostituto ao olhar para o olhar da moça. Sei que ela não 
gostou  que  eu  lhe  pedisse  dinheiro.  O  dinheiro  não  lhe  faz  falta  mas  tenho  certeza  de  que  naquele 
momento ela sentiu-se explorada. Mas por que pensa ela que eu sofro? Para fazê-la feliz? Para que ela 
possa sentir-se uma amparadora dos aflitos? Acho isso tudo muito engraçado: eu pude desfazer com um 
beijo nos seios séculos de convenções pudicas tropicalmente enraizadas; pude penetrar no que de mais 
íntimo ela possui e isso não fez de mim um homem menor. Pedir-lhe dinheiro para apanhar um ônibus, 
porém, é um crime. É mais forte do que ela e faz de mim, subitamente, um homem que não venceu. A 
ilha  emerge  e  se  coloca  sólida  como  aço  diante  do  homem  e  da  mulher.  Ela  nada  disse  mas  há  outras 
formas de comunicação além das palavras. Voltou o velho cadáver aos olhos de outra moça. Cadáver que 
só morrerá quando ela sentir vontade de foder novamente. Depois do coito, ele ressuscitará. Mas ontem, 
quando ela estava acordada junto com o mundo; ontem, ao pensar na festa que a esperava em casa, não 
havia  como  explicar-lhe.  Não  havia  como  dizer-lhe  que  sem  dinheiro  eu não  tenho  possibilidades  para 
viver  a  não-vida  que  é  necessário  viver  e  que  o  mundo  espera  que  eu  viva.  Só  há  uma  forma  de 
transformar-me  numa  máquina  com  alguns  momentos  de  remorsos  antecipados  que  já  pressinto  e  que 
saberei  como  curar  ao  atingir  a  posição  humana:  ter  dinheiro.  Sem  sabão,  como  tomar  banho?  Sem 
dinheiro,  como  comprar  sabão?  Sem  banho  como  passar  normalmente  despercebido?  A  fita  da  minha 
máquina  está  cheia  de  furos.  Assim  não  posso  trabalhar.  Sem  dinheiro,  como  comprar  outra  fita  para 
escrever?  Para  procurar  emprego,  preciso  de  uma  camisa  limpa.  Eu  entreguei  todas  à  lavadeira.  Sem 
dinheiro,  como  fazer  com  que  ela  as  devolva?  Quero  fazer  com  que  a  minha  mulher  tenha  orgulho  de 
mim. Sem dinheiro, como comprar orgulho para ela? Sem dinheiro, como comprar presente para o meu 
filho?  Sem  presente  para  meu  filho,  como  arrancar  um  sorriso  da  minha  mulher?  Como  comprar  a 
confiança? Preciso procurar um  emprego e para tanto preciso apanhar um ônibus. Sem dinheiro, como 
apanhar um ônibus? Como falar, como comer, como dormir, como fumar, como andar, como beber, como 
pedir, como amar, sem dinheiro? 

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Mas  é  preciso  viver  o  momento  que  passará  —  isso  eu  sei  por  experiências  anteriores  —  tão 

rapidamente quanto o dinheiro no meu bolso. O mundo já se aproxima e eu preciso entrar dentro dele. 
Estou  cretinamente  conformado,  por  enquanto.  Já  não  sinto  as  pessoas  que  se  aproximam  diferentes. 
Estou, eu também, automatizado ou terão elas se humanizado? Nós todos temos dinheiro. O porteiro sorri 
quando lhe devolvo o que pedi há dias: dinheiro. O dono do botequim, também sorri ao ver o dinheiro. 
Vou fabricando sorrisos e ao entrar numa loja de brinquedos para crianças, faço a moça da caixa sorrir ao 
lhe exibir a mágica: dinheiro. Compro um boneco de borracha que possui um peso nos pés, o que faz com 
que, embora soqueado, empurrado, jogado para o alto, ele permaneça de pé, ele caia de pé: João Teimoso 
é o seu nome. Para espanto do dono da loja e para a sua repentina desconfiança, converso com ele. Digo-
lhe  que  faz  calor  e  ele  concorda.  Diz  que  ouviu  no  rádio  que  o  calor  continuará  por  um  bom  tempo. 
Pergunto para ele como vão os negócios. Ele diz que com a política atual vão muito mal. Os impostos 
estão altos. E eu concordo com ele. Digo-lhe que tenho um filho e ele responde que também tem um, mas 
já crescido: está estudando engenharia. Eu digo  que o país precisa de bons engenheiros e ele  concorda 
comigo  e  fala-me  do  último  treino  da  seleção  de  futebol:  trocamos  alguns      palpites.  Convido-o  para 
tomar um chope comigo na esquina, mas ele diz que não pode pois tem que atender os fregueses. Digo 
que  ele  pode  morrer  de  uma  hora  para  outra,  ter  um  enfarte  ou  sabe-se  lá  que  outra  doença  e  que, 
portanto, é melhor tomar um chope antes. Ele pensa que estou brincando e começa a falar de doenças. Diz 
que a sua mulher teve que fazer uma operação. Negócios de mulher, sabe como é? — pergunta ele. Eu 
digo  que  sei.  De  repente  —  como  que  impelido  por  um  destino  só  dele  —  diz  que  eu  fiz  uma  ótima 
compra. O João Teimoso é muito bom e barato. .. e que fiz bem em comprar agora, pois no mês que vem 
vai aumentar, o fabricante já disse. Olho para o João Teimoso: é um brinquedo interessante. Foi fabricado 
para levar porradas e tem um sorriso na cara, apesar delas. Não cai nunca no chão, está sempre de pé e 
sorrindo sempre. O homem pergunta se quero que ele embrulhe o presente. Digo que não precisa e saio da 
loja desejando melhoras para a mulher do comerciante. Aliás, saímos sorrindo, eu e o João Teimoso. 
 

Trinta e Seis 

 

Eu e João Teimoso vamos sorrindo pela rua movimentada. Minha mulher, certamente, já voltou da 

maternidade e está em casa dos pais. Esperam-me no emprego onde sou pago para tornar o mundo mais 
agradável: o automóvel X roda macio; o leite em pó Y desmancha sem bater; lembre-se do dia das mães. 
Pagam mal por essas mentiras mas há quem lucre com elas. Estou falando de dinheiro. Há quem fabrique 
placa de automóveis; há quem fabrique bisturis para arrancar tumores dos seios; há quem fabrique raios 
de bicicleta; há quem fabrique rosas de papel; há quem construa apartamentos; há quem fabrique pilhas 
de rádio e aparelhos de televisão. Eu burocrata sedentário estou alheio, sinto-me imprestável neste mundo 
de fabricantes. E agora, que a caricatura das pessoas que andam à minha volta parece-me mais razoável? 
Devo ir ao emprego mentir ou ver o meu filho que nasceu há dias e tentar mentir-lhe também? Tal qual o 
João  Teimoso  embaixo  do  meu  braço,  fabrico  um  sorriso  na  cara  e  vou  sorrindo  para  os  meus 
semelhantes que devo amar como a mim mesmo. Um ou outro sorri, também. Mas no meio do caminho 
me descobrem. No meio do caminho, deixam de acreditar no meu sorriso. Junto a um cinema está uma 
mulher com um véu preto sobre o rosto. Em verdade não é um véu. E uma espécie de saco preto com três 
buracos para os olhos e a boca. Sei que ela não é feia mas sei, também, que devo afastar-me; devo correr. 
Não consigo, entretanto. Ela se aproxima e tira a máscara. Há manchas marrons no seu rosto. Ela sorri e 
pergunta de onde roubei o boneco, o brinquedo, o João Teimoso. Tento explicar-lhe que não roubei nada; 
que recebi dinheiro emprestado e comprei o brinquedo para o meu filho que nasceu, numa loja há duas 
quadras e que o dono da loja falou-me, inclusive, que a sua mulher havia sido operada de uma doença de 
mulher. Mas a mulher de manchas marrons sobre o rosto sorri um sorriso cúmplice. Insiste em afirmar 
que  eu  roubei  o  brinquedo  e  aproxima  o  seu  rosto  do  meu.  Sobre  o  marrom,  agora,  nascem  pequenas 
estrias vermelhas. Afasto o meu rosto e ela apanha o João Teimoso e tenta tirá-lo debaixo do meu braço. 
Eu prendo o brinquedo insistentemente e tento fazê-la compreender: 

- Minha senhora, por favor, eu não roubei. Minto: 
- Eu sou um jornalista conhecido. Muitas pessoas podem depor a meu favor. Eu seria incapaz de 

roubá-lo. 

Imploro: 
- Cuidado que o brinquedo é de borracha. Se a senhora apertá-lo muito, ele estoura. 
A multidão fecha o cerco em torno de nós. A mulher aperta o brinquedo com as mãos. Seguro-lhe 

o pulso, tentando afastá-la, mas creio que uso muita força, pois sinto a sua carne desmanchar-se entre os 

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meus dedos. Horrorizado, olho para a minha mão e verifico que alguns pedaços de carne estão presos a 
ela.  A  mulher  não  grita.  Não  sente  dor.  Ela,  simplesmente,  ri  muito  alto,  enquanto  me  denuncia  à 
multidão: 

- Ele é um ladrão. Roubou o brinquedo. 
Eu ainda tento explicar. Tento encontrar compreensão nas centenas de olhos que se aproximam. 

Olho  para  as  árvores  onde  os  passarinhos  cantam  uma  canção  que  diz  que  a  terra  está  ficando  quente 
demais; que devemos todos emigrar para um lugar mais frio. 

- Meus senhores, francamente, olhem como estou vestido? Eu, por acaso, tenho cara de ladrão? 

Vocês  sabem  com  quem  estão  falando?  Olhem  para  mim,  eu  sou  um  homem  normal.  Eu  não  tenho 
necessidade de mentir. Afinal de contas, para que eu roubaria este brinquedo? Eu sou adulto. 

Diante dessa minha afirmativa, todos riem muito. Em seguida rasgam a carne dos seus próprios 

corpos e começam a jogar pedaços contra mim. Jogam-me pedaços de rosto, de mão, de braços, de seios. 
Neste momento, passa na rua um caminhão com um alto-falante, anunciando uma liquidação numa loja 
distante um ou dois quarteirões e a multidão se acalma. Uma criança magra e loura atravessa a multidão 
de pés descalços. Segura-me pela mão, enquanto a multidão se distrai com as vantagens anunciadas pelo 
alto-falante. O caminhão é dirigido por um robô, enquanto que um enorme e gordo boneco de celulóide 
fala ao microfone. A camisa do menino está remendada e ele usa calças curtas com um suspensório que 
sua  mãe  fez  para  ele.  Traz  a  tiracolo  uma  espécie  de  mochila  onde  guarda  o  seu  lanche  escolar. 
Caminhamos depressa e o menino, sem dizer palavra, indica-me uma escada. Mas a desgraçada da escada 
é pequena. E uma escada de criança. Como posso subir nela? E depois o que adianta uma escada se não 
temos onde encostá-la. Começo a correr. Tenho medo de olhar para trás. Atrás está o mundo. Na frente, 
também, mas deve haver um caminho. Quero gritar mas não sei o que dizer. Há alguma coisa para ser dita 
mas  sempre  que  abro  a  boca  saem  dos  meus  lábios  apenas  grunhidos  que  eu  mesmo  não  entendo.  A 
multidão,  agora,  está  na  minha  frente.  Atacam-me  por  dois  lados:  reconheço  deputados,  médicos, 
banqueiros, ministros, embaixadores, o porteiro do meu prédio, o simpático dono da loja, cuja mulher foi 
operada de um negócio de mulher, a moça que dormiu comigo ainda ontem e todos arrancam pedaços de 
carne  e  jogam  contra  mim,  enquanto  riem  e  gritam  que  eu  sou  um  ladrão.  O  menino  indica-me  uma 
pequena rua que nunca vi e em seguida faz com que eu o ajude a abrir a tampa de ferro de um bueiro. 
Enquanto  pulo  para  dentro  do  bueiro  olho  os  olhos  do  menino,  que  parecem  querer  dizer-me  alguma 
coisa. Digo para ele muito obrigado e pergunto o seu nome. Ele, entretanto, abre a boca e mostra-me que 
não possui língua. Passa-me a mão pelo rosto e afasta-se chorando. 

Dentro do bueiro os ratos e as baratas parecem não ligar à minha indiscreta presença. Ficarei aqui 

até que a multidão se acalme. Depois irei ver o meu filho. De qualquer maneira, não conseguiram tirar-me 
o João Teimoso. 
 

Trinta e Sete 

 

A  multidão  descarnada  corre  sobre  a  minha  cabeça.  Há,  porém,  uma  calçada  a  proteger  minha 

cabeça dos pés da multidão. Pouco há para fazer agora. E preciso aprender a esperar. Já tremem meus 
ossos e aqui dentro do esgoto está escuro. O medo ajudado pelo frio e mais os pingos de água suja que 
caem sobre mim, vindos talvez do barro que a chuva liquefez na calçada não permitem que pare o tremor. 
Meu filho também deve estar com frio — penso — pois o tempo que vivemos é muito traiçoeiro. A gente 
pensa  que  vai  fazer  calor  e  chove.  Mas  —  quem  sabe?  —  quando  eu me  dispuser  a  sair  daqui,  já  terá 
passado a raiva da multidão? Quem sabe aqueles que me perseguiam ainda há pouco já terão voltado para 
os seus lares ou para os seus negócios? Quem sabe haverá sol depois da calçada ou mesmo uma mulher e 
um país? Preciso ter um pouco de calma e aguardar e desta vez aproveitar o tempo; usar o tempo. É uma 
pena que aqui embaixo esteja tão escuro, pois, caso contrário, eu poderia ver o meu rosto refletido em 
alguma  poça  d'água.  Eu  poderia  treinar  os  mais  diversos  sorrisos  e  —  assim  —  quando  eu  subisse  de 
novo,  certamente  não  me  deixaria  trair.  Se  não  fosse  tão  escuro,  eu  poderia,  até  mesmo,  desenhar  um 
sorriso  sobre  o  rosto.  Assim  ninguém  se  zangaria  comigo.  Mas,  por  enquanto,  aguardo,  pois  falta-me 
coragem para botar o rosto para fora do esgoto. 

O menino andava por cima da vida e a cada passo que dava mais a vida lhe batia. Andando sem 

parar  o  menino  se  informava:  quando  chegaria  o  dia  dele  poder  descansar?  Ninguém  dizia  ao  menino 
onde  encontrar  seu  destino.  Às  vezes  o  sangue  indicava  uma  estrada.  Às  vezes  o  riso  mostrava  um 
caminho.  Mas  os  mapas  mudos  eram  todos  inúteis.  As  setas  de  hoje  mostravam  apenas  o  caminho  de 

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ontem. Às vezes buscava disfarce de flor, de pedra, de nuvem, de limo, vapor. E assim se deixava ficar a 
esperar, mas logo a vida o vinha acordar. 

Meu filho deve estar dormindo e é preciso encontrar um caminho para ele. Um caminho que eu 

ainda  não  tenha  trilhado.  Acendo  um  fósforo.  O  túnel  é  comprido.  Mas  por  que  fizeram  isso  comigo? 
Minha roupa está toda salpicada de barro. A roupa que eu vesti hoje com tanto cuidado. O que é que a 
minha mulher vai dizer quando me ver desse jeito? Como é que eu vou explicar a ela que andei pelos 
esgotos  da  cidade  em  pleno  dia?  Como  ela  poderá  confiar  em  mim  novamente  se  eu  aparecer  nesses 
trajes? Mas há uma poça d'água aos meus pés. Molho o lenço para passar sobre o meu terno mas a água 
está cheia de excrementos. Preciso ir embora daqui e tratar de inventar uma desculpa qualquer antes de 
chegar  à  casa  da  minha  mulher.  Quem  sabe  lá,  apesar  do  seu  olhar  acusador,  eu  estarei  seguro?  A 
multidão talvez tenha desistido de me caçar. Talvez já tenham falado com o dono da loja. Talvez ele haja 
explicado  tudo;  que  tudo  não  passou  de  um  equívoco;  que  eu  paguei  pelo  João  Teimoso  e  nem  tentei 
regatear? Mas será que, por azar, o dinheiro com que paguei era falso? Não. Não pode ser. A moça, a 
terra-mulher,  não  me  trairia.  Ela  não  me  emprestaria  dinheiro  falso.  Ah,  que  este  cheiro  aqui  embaixo 
sufoca. Preciso encontrar o ralo que vai dar na calçada. Preciso sair. Encontro, finalmente, uma escada de 
ferro. Subo os degraus e só paro quando as minhas mãos encontram o tampo do bueiro. Mas não! 0 tampo 
não abre mais. Eles o soldaram contra a calçada. Eu nunca mais poderei sair daqui. Nunca mais. Abro as 
duas mãos e bato violentamente com elas no meu rosto. É preciso descobrir a calma. É preciso vencer o 
medo, caso contrário estarei perdido. Caso contrário sairei correndo, possesso, por este esgoto, cairei no 
chão e sujarei a minha roupa. Poderei, até mesmo, furar o João Teimoso, e qual o pai que ousa aparecer 
diante do filho recém-nascido sem um presente? Eles jamais me perdoariam. Relaxo os músculos, uma 
vez que não posso relaxar o mundo. Preciso encontrar outra saída e isso requer calma. Calma. É preciso 
tratar a calma com cuidado. Senão ela pode explodir. É preciso ajustar os ponteiros para evitar que eles 
arranhem os nervos. Acendo outro fósforo e começo a investigar o labirinto. Nós somos todos do jardim 
da infância, crianças lindas da cabeça aos pés. As paredes são escorregadias e o chão do esgoto também. 
Mas — descubro espantado — a prefeitura desta cidade tem cada uma? Ao longe vislumbro uma casa. 
Uma casa de madeira de dois pavimentos dentro do esgoto. Deve ser para os operários — penso. Vou me 
aproximando. Apesar da sujeira, dos excrementos e dos ratos e das baratas, não há uma só mancha sobre a 
casa, imaculada. Ela é branca com riscas azuis e mesmo daqui posso ver a lareira,  a poltrona  e alguns 
livros. Quem sabe esqueceram-se da casa? Quem sabe, poderei entrar, tomar um banho, vestir uma roupa 
nova e depois avisar a minha mulher e ao meu filho de que já tenho uma casa? Poderei mesmo escrever 
em  paz.  Poderei  editar  um  livro  que  será  traduzido  em  várias  línguas  e  terei  —  finalmente  —  uma 
profissão. Ainda estou longe da casa e tenho certeza de que já a vi antes. Mas isso é ridículo. Na medida 
em  que  me  aproximo  da  casa,  ela  se  distancia.  Meus  pés  estão  sujos  e  cansados.  Mas  não,  agora  está 
perto.  O  telhado  é  de  telhas  vermelhas  e  —  apesar  da  escuridão  —  o  sol  bate  sobre  ela.  Vamos,  João 
Teimoso, mais um pouco e chegaremos lá. Mais um pouco, vamos. Estou me arrastando e os ratos riem, 
as  baratas  voam.  Nós  somos  todos  do  jardim  de  infância,  crianças  lindas  da  cabeça  aos  pés.  Mas  está 
acontecendo um fato terrível. A casa, agora, não se distancia mais, ao invés de crescer na medida em que 
me  aproximo,  ela  diminui.  Ela  sabe  que  eu  estou  indo  e  diminui.  Resvalo  numa  poça  d'agua  e  caio 
violentamente no chão. E preciso, porém, não surpreender a casa, João Teimoso. Vou me arrastando de 
gatinhas,  mas  ela  continua  diminuindo.  Já  posso  tocá-la,  mas  sou  maior  do  que  ela.  Mas  ainda  posso 
passar a cabeça pela porta e ver que os móveis são de brinquedo. A casa também é de brinquedo. Consigo 
fazer  com  que  João  Teimoso  atravesse  a  porta  da  minha  casa  de  brinquedo.  Eu  não  caibo  todo  dentro 
dela. Mas quem disse que é preciso caber inteiro dentro da casa? Basta que uma parte do meu corpo esteja 
dentro dela. Estou muito cansado para me preocupar com um assunto tão sem importância. Com a cabeça 
dentro da casa e a cabeça do João Teimoso esmagada contra o meu rosto, chorando para o seu sorriso, sou 
apanhado pelo sono. Amanhã acharei uma saída. Os ratos mordem as minhas pernas mas nem isso mais 
eu sinto. Vou ver se durmo um pouco e amanhã, depois de ver o meu filho que nasceu há dias, vou tratar 
de arranjar um emprego. O importante é que aqui, apesar de tudo, ninguém me descobrirá. 
 
:::: F I M