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Universidade do Estado do Rio de Janeiro 

Instituto de Medicina Social 

PÓS-GRADUAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA 

 

 

 

Alteridade e Diferença Sexual: considerações sobre o 

debate psicanalítico contemporâneo 

 

 

 

M

ARINA 

S

ODRÉ 

M

ENDES 

B

ARROS

 

 

 

 
 
Dissertação  apresentada  como  requisito  parcial  para 
obtenção de grau de Mestre em Saúde Coletiva, Curso de 
Pós-Graduação  em  Saúde  Coletiva,  Ciências  Humanas  e 
Saúde do Instituto de Medicina Social da Universidade do 
Estado do Rio de Janeiro. 

 

 

Orientadora:

 

M

ÁRCIA 

A

RÁN

 

 

Rio de Janeiro 

2009 

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Marina Sodré Mendes Barros 

 

 

Alteridade e Diferença Sexual: considerações sobre o debate psicanalítico 

contemporâneo 

 

 

Dissertação apresentada como requisito parcial para 

obtenção  de  grau  de  Mestre  em  Saúde  Coletiva, 

Curso  de  Pós-Graduação  em  Saúde  Coletiva, 

Ciências Humanas e Saúde do Instituto de Medicina 

Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 

 

 

Aprovado em 20 de Março de 2009. 

Banca examinadora: 

 

 

Prof

a

.

 

Dr

. Márcia Ramos Arán (Orientadora)

  

Instituto de Medicina Social da Uerj 

 

Prof. Dr. Joel Birman 

Instituto de Medicina Social da Uerj 

 

Prof

a

.

 

Dr

. Regina Alice Neri 

Faculdade de Direito da UCAM/RJ 

 

Prof. Dr. Carlos Augusto Peixoto Júnior 

Faculdade de Psicologia da Puc-Rio 

 

 

Rio de Janeiro 

2009 

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Para Pedro, pelas provocações. 

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AGRADECIMENTOS 

 

 

À CAPES, pelo financiamento da pesquisa. 

 

À Márcia Arán, agradeço principalmente por insistir que a psicanálise não deve ser intocável. 

 

Ao  meu  pai,  João,  e  à  minha  madrasta,  Marita,  que  são  companhias  fundamentais  nos 

momentos de tensão profissional. A esta última também pela tradução dos “palavrões”. 

 

À família Sodré, uma vez mais, agradeço por transmitir a curiosidade pelo sujeito. À minha 

mãe,  Sônia,  pelas  trocas,  pela  confiança  e  pelos  mais  variados  incentivos  profissionais.  À 

minha dinda, Marília, pelas conversas tão precisas, desde sempre.  

 

À Camila, pela generosidade que faz com que me apóie de diversas formas possíveis, ficando 

tão  perto,  mesmo  quando  longe.  Ao  Felipe,  que  não  poupou  esforços  para  sustentar  o  meu 

“verão  da  Travessa”  e  proporcionou  importantes  peças  da  bibliografia  deste  trabalho.  Ao 

Guilherme,  que  viu  as  visitas  de  sua  irmã  se  tornarem  cada  vez  mais  raras  nesses  últimos 

meses de mestrado e cujos recentes jogos de palavras fizeram com que eu voltasse mais feliz 

à pesquisa.  

 

À Sarita Gelbert, pelas apostas.  

 

À  Olívia  Von  der  Weid,  amiga  de  todas  as  horas,  e,  como  não  poderia  ser  surpreendente, 

amiga das melhores e das piores horas de uma mestranda. A surpresa ficou reservada ao fato 

de ter sido a maior apoiadora da escolha pelo IMS e pelo tema da pesquisa. Agradeço ainda as 

discussões travadas sobre Judith Butler pelos bares do bairro. Um último agradecimento, pela 

limpeza realizada no texto. 

 

Ao  Pedro,  que  sendo  o  maior  incentivador  dos  estudos  acadêmicos,  mas  esquecido  de  seus 

tempos de mestrando, nem sempre me deixou trabalhar. Agradeço por não me deixar esquecer 

da vida além do mestrado.  

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RESUMO 

 

Alteridade e Diferença Sexual: considerações sobre o debate psicanalítico 

contemporâneo 

 

A  partir  da  interface  entre  psicanálise  e  cultura,  este  trabalho  tem  como  objetivo  analisar  o 

debate  contemporâneo  acerca  das  noções  psicanalíticas  de  alteridade  e  diferença  sexual, 

instaurado pelos deslocamentos ocorridos no campo da sexualidade e pelos desafios que estes 

impõem  à  psicanálise.  Para  isso,  propõe-se,  em  um  primeiro  momento,  examinar  a  teoria 

freudiana sobre a diferença sexual, o que é realizado principalmente a partir das formulações 

acerca da sexualidade feminina. Como a construção do complexo de Édipo apresenta-se como 

uma tentativa de dar conta da constituição da identidade sexual e da diferença no processo de 

subjetivação, traça-se o trajeto do autor desde as primeiras menções ao Édipo até o encontro 

com  o  impasse  do  feminino,  passando  pela  teoria  das  identificações  como  mecanismo 

privilegiado de assunção sexual. Em seguida, investiga-se o pensamento de Lacan em relação 

ao tema da diferença sexual, desde o seu retorno ao complexo de Édipo e a sua estruturação 

em termos de linguagem até as propostas apresentadas em seu último ensino, em que sublinha 

o  aspecto  real  da  sexuação  assim  como  se  valoriza  a  diferença  sexual  em  termos  de  gozo. 

Finalmente,  tendo  como  pano  de  fundo  a  nova  cartografia  das  sexualidades,  e  como  fio 

condutor, o diálogo travado entre Judith Butler e Slavoj Žižek, considera-se em que medida a 

psicanálise  baseia  a  constituição  da  alteridade  no  modelo  binário  e  hierárquico  da  divisão 

sexual, contribuindo para a manutenção normativa do sistema sexo-gênero ou em que medida 

a  teoria  psicanalítica  proporciona  um  deslocamento  da  alteridade  do  modelo  de  diferença 

sexual, contribuindo para a sua compreensão enquanto indeterminação e contingência.  

 

Palavras-chave: alteridade – diferença sexual – cultura - subjetividade  

 

                                              

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ABSTRACT 

 

Otherness and Sexual Difference: considerations about the contemporary psychoanalitic 

debate  

 

 

 

This work aims to analyze the current debate about the psychoanalitics concepts of difference 

and sexual difference introduced by displacements occurring in the field of sexuality and the 

challenges  they  impose  on  psychoanalysis  from  the  interface  between  psychoanalysis  and 

culture. In order to achieve that it proposes as a beginning to the task to examine the freudian 

theory  on  sexual  difference,  which  the  main  approach  is  from  the  formulations  about  of 

female sexuality. Then, it investigates the thinking of Lacan in relation to the issue of sexual 

difference, since its return to Oedipus complex until the proposals presented in his last work. 

Finally, taking as background the new cartography of sexualities, and like a thread, the dialog 

braked  between  Judith  Butler  and  Slavoj  Žižek,  it  considers  to  which  extent  the 

psychoanalysis  is  the  base  of  constitution  of  the  difference  in  the  binary  and  hierarchical 

division sexual model, contributing to the normative maintenance of sex-gender system or in 

which extent psychoanalytic theory provides a displacement of the otherness of the model of 

sexual difference, contributing to their understanding as indeterminacy and contingency. 

 

Key-words: otherness – sexual difference – culture - subjectivity  

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SUMÁRIO 

 

INTRODUÇÃO.........................................................................................................................1 

CAPÍTULO 1: A NOÇÃO DE DIFERENÇA SEXUAL EM FREUD.................................7 

1.1 Da teoria da sedução aos primórdios do complexo de Édipo.........................................8 

1.2 O esboço de uma dissimetria entre os sexos...................................................................16 

1.3  A  teoria  das  identificações............................................................................................27 

1.4 A primazia do falo............................................................................................................30 

1.5 O feminino como impasse ...............................................................................................35 

CAPÍTULO 2: A TEORIA LACANIANA SOBRE O ÉDIPO E A SEXUAÇÃO............42 

2.1  Uma  breve  introdução  às  contribuições  de  Lacan....................................................43 

2.2 O Édipo como complexo familiar....................................................................................46 

2.3  Da  estrutura  ao  gozo  ....................................................................................................48 

2.4 As fórmulas da sexuação..................................................................................................61 

2.5 O real como alteridade radical........................................................................................68 

CAPÍTULO  3:  CONSIDERAÇÕES  SOBRE  AS  NOÇÕES  PSICANALÍTICAS  DE 

ALTERIDADE E DIFERENÇA SEXUAL: o debate contemporâneo entre Judith Butler 
e  Slavoj  Žižek
.......................................................................................................................75 

3.1  Controvérsias  acerca  do  complexo  de  Édipo  e  do  conceito  de  identificação  em 
Freud
........................................................................................................................................76 

3.2 Controvérsias acerca das noções de diferença sexual em Lacan................................90 

3.2.1  A  análise  crítica  do  simbólico  estrutural.....................................................................90 

3.2.2  A  problematização  das  fórmulas  da  sexuação............................................................97 

3.3  Diferença  sexual  formal  sem  conteúdo  e  normas  de  gênero  histórico-
contingentes
...........................................................................................................................101 

3.4 Ato ético e deslocamentos disruptivos biopolíticos......................................................109 

CONSIDERAÇÕES

 

FINAIS:

 

ALTERIDADE,

 

DIFERENÇA

 

E

 

SINGULARIDADE:

 

novos desafios para a psicanálise.........................................................................................115 

REFERÊNCIAS

 

BIBLIOGRÁFICAS................................................................................121

 

A

 

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INTRODUÇÃO 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O  presente  trabalho  tem  como  objetivo  analisar  o  debate  contemporâneo  sobre  as 

noções  psicanalíticas  de  alteridade  e  diferença  sexual,  instaurado  pelos  deslocamentos 

ocorridos desde a modernidade no campo da sexualidade e pelos desafios que estes impõem à 

psicanálise.  Para  tanto,  inicialmente,  apresentaremos  as  principais  teses  sobre  sexualidade  e 

diferença no pensamento de Freud e Lacan, apontando para as críticas realizadas no interior 

do  campo  psicanalítico  ao  modelo  tradicional  de  pensar  a  diferença.  Em  um  momento 

posterior, analisaremos as principais repercussões deste debate na interface entre psicanálise e 

cultura,  tendo  como  referência  o  diálogo  realizado  por  Judith  Butler  e  Slavoj  Žižek  sobre 

normas  de  gênero  e  sexuação.  Interessa-nos  questionar  se  o  modelo  da  diferença  da  teoria 

psicanalítica  deve  necessariamente  ficar  atrelado  à  questão  da  diferença  sexual  ou  se  é 

possível  realizar  um  deslocamento  no  interior  da  própria

 

psicanálise  para  pensar 

“diferentemente a diferença”

1

, ou seja, a partir da noção de alteridade. 

Vários  autores  (Birman,1999;  Arán,  2002;  Nunes,  2002;  Neri  2005)  têm  discutido 

como em alguma medida as teses clássicas da psicanálise equivalem a diferença à experiência 

do  feminino,  ao  serem  atravessadas  pela  divisão  de  gênero  vigente  na  sociedade  moderna.  

Nessa perspectiva, considera-se que as teorias psicanalíticas sobre  a sexualidade feminina e 

masculina, concebidas através do conceito de complexo de Édipo e de castração, reiteram o 

modelo do dimorfismo sexual, tal como descrito por Thomas Laqueur (2001). A compreensão 

da diferença em torno do princípio do “ter” e do “não ter” o falo corresponderia ao modelo 

binário e hierárquico dos dois sexos.  

 

                                                 

1

 Expressão utilizada por Arán (2008b), a partir da sugestão de Foucault. 

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  2 

Outra  característica  da  sexualidade  infantil  inicial  é  que  o  órgão 

sexual  feminino  propriamente  dito  ainda  não  desempenha  nela 

qualquer  papel:  a  criança  ainda  não  o  descobriu.  A  ênfase  recai 

inteiramente  no  órgão  masculino,  todo  o  interesse  da  criança  está 

dirigido  para  a  questão  de  se  ele  se  acha  presente  ou  não.  Sabemos 

menos acerca da vida sexual de meninas do que de meninos. Mas não 

é preciso envergonharmo-nos dessa distinção; afinal de contas, a vida 

sexual  das  mulheres  adultas  é  um  “continente  negro”  para  a 

psicologia.  Mas  aprendemos  que  as  meninas  sentem  profundamente 

falta de um órgão sexual que seja de igual valor ao masculino; elas se 

consideram  por  causa  disso  inferiores,  e  essa  “inveja  do  pênis”  é  a 

origem  de  todo  um  grande  número  de  reações  femininas 

características (Freud, 1996 [1926]: 205/206).  

 

Segundo  Laqueur  (2001),  o  modelo  dos  dois  sexos  surge  a  partir  do  século  XVIII,  com  o 

Iluminismo, para organizar a sociedade em torno das definições de homem - público e mulher 

- privado, rompendo com a concepção de sexo único que vigorou durante a Antiguidade até o 

século  XVII.  Baseado  em  um  paradigma  teológico  metafísico,  o  modelo  do  sexo  único 

compreendia o sexo feminino como homólogo ao masculino, só que imperfeito e inferior. A 

visão  dominante  era  a  de  que  a  mulher  possuía  os  mesmos  órgãos  que  o  homem,  porém 

internos. Tratado como uma inversão, tal concepção, foi explicada pela menor quantidade de 

calor corporal que possuía a mulher, sendo, por esse mesmo motivo, uma versão mais distante 

da perfeição do que a versão masculina. O calor, portanto, era tido como o responsável pela 

diferença entre homens e mulheres, que, apesar disso, compartilhavam uma única essência. 

Ainda  de  acordo  com  Laqueur  (2001),  a  partir  do  modelo  do  dimorfismo  sexual,  a 

modernidade  inaugura  a  associação  da  distinção  entre  homens  e  mulheres  com  a  diferença 

sexual. Baseado em um paradigma cientificista orgânico, o sexo anatômico e biológico passa 

a  determinar  a  diferença  entre  uma  essência  natural  do  sexo  masculino  e  outra  do  sexo 

feminino.  Os  novos  ideais  de  feminilidade  e  masculinidade  são  sustentados  a  partir  da 

transformação da antiga hierarquia entre os sexos em um discurso biológico e cientificamente 

fundado, tornando indistinguíveis a morfologia sexual e o gênero. Nas palavras de Birman, na 

modernidade,  “as  faculdades  morais  são  diretamente  derivadas  das  marcas  do  organismo” 

(Birman, 2002: 09). 

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  3 

  É  importante  destacar  que,  para  Arán  (2006),  a  lógica  do  dimorfismo  sexual  está 

associada  ao  princípio  da  identidade,  de  modo  que  a  diferença  não  é  abordada  em  sua 

dimensão  alteritária,  e  sim  apropriada  pela  lógica  do  mesmo.  Dessa  forma,  a  experiência 

moderna da constituição sócio-cultural do outro é caracterizada pela exclusão da diferença, de 

forma que a referência ao feminino é estabelecida de maneira restrita a partir do paradigma 

masculino. 

No  entanto,  segundo  Arán  (2008b),  nos  últimos  cinqüenta  anos,  vivemos 

deslocamentos  significativos  que  constituem  uma  nova  cartografia  da  sexualidade  e  da 

diferença.  Os  principais  fenômenos  constitutivos desta  mudança  seriam:  (1)  a  escolarização 

das  mulheres;  (2)  a  entrada  da  mulher  no  mercado  de  trabalho;  (3)  a  separação  entre 

sexualidade e reprodução; (4) a crise da forma burguesa da família nuclear; (5) uma política 

de  visibilidade  para  a  homossexualidade;  (6)  as  modificações  corporais  realizadas  por 

transgêneros,  transexuais  e  intersexuais  (Arán,  2008b:  02).  A  partir  desse  novo  cenário, 

algumas  questões  são  relançadas:  haveria  na  atualidade  uma  outra  concepção  de  diferença, 

não mais restrita à descrição do feminino realizada segundo a lógica do masculino? Entre os 

desdobramentos  dessa  nova  cartografia,  encontramos  espaço  para  pensar  “diferentemente  o 

diferente”, reconhecendo de fato seu estatuto alteritário? Em que medida a teoria psicanalítica 

estabelece uma relação produtiva com as novas formas de manifestação da sexualidade e de 

subjetivação e permite a incorporação de um novo modelo para pensar a diferença? 

Com as questões propostas, pretendemos desenvolver a pesquisa em três capítulos. No 

capítulo 1, iremos percorrer a elaboração da teoria freudiana do complexo de Édipo, tendo em 

vista que este conceito é uma resposta de Freud à questão do processo de sexualização e da 

constituição  do  outro  em  sua  diferença  no  desenvolvimento  psíquico  do  sujeito.  Dois 

impasses  motivam  a  evolução  teórica  do  complexo  desde  a  sua  primeira  aparição  entre  os 

conceitos psicanalíticos, quais sejam: o impasse da diferença sexual como anatômica e o da 

especificidade  da  sexualidade  feminina.  A  partir  desses  dois  pontos  de  investigação,  Freud 

compõe  um  quadro  teórico  em  que  as  noções  de  identificação  e  de  diferença  sexual  são 

fundamentais  para  a  formulação  de  uma  concepção  de  sexualidade  em  termos  psíquicos. 

Nesse  sentido,  propõe  que  a  sexualidade  não  é  instintiva  e  que  para  tornar-se  homem  ou 

mulher é necessário uma elaboração subjetiva.  

As  respostas  formuladas  por  Freud  em  relação  à  sexualidade  feminina  nos  serão  de 

grande  utilidade,  tendo  em  vista  que  esse  fio  teórico  se  confunde  com  o  desafio  de 

compreender a constituição da diferença em termos psíquicos. Tamanha indistinção entre os 

dois temas é, para alguns autores (Nunes, 2000; Néri, 2005; Arán, 2006), a evidência de que o 

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  4 

modelo freudiano da diferença coincide com o modelo do dimorfismo sexual, ou seja, a noção 

de  diferença  se  confunde  com  as  normas  hierárquicas  de  gênero,  o  que  traz  como 

consequência  a  reprodução  do  paradigma  masculino  e  a  impossibilidade  do  feminino  ser 

definido positivamente. 

O lugar crucial conferido por Freud à diferença sexual na constituição do sujeito sofre 

sua continuação mais evidente em Lacan, que, por esse mesmo motivo, será objeto de nosso 

estudo no segundo capítulo. Partiremos do momento em que o complexo de Édipo freudiano é 

revisado  pelo  autor,  adquirindo  o  status  de  complexo  familiar  universal  e  evidenciado  a 

reprodução da dominação masculina. Posteriormente, retomaremos o contexto teórico em que 

os  complexos  de  Édipo  e  de  castração  são  reformulados  em  termos  lógicos.  Lacan  passa  a 

defender que a sexualização tem duas possibilidades estruturais, uma posição sexual feminina 

e  outra  masculina,  e  que  essas  se  diferenciam  conforme  se  relacionam  com  o  significante 

fálico. Veremos como essa hipótese sugere um modelo transcendental do simbólico, em que 

diferença e alteridade ficam coladas ao dualismo masculino-feminino.  

A  travessia  que  Lacan  percorre  do  Édipo  ao  seu  “para-além”  também  será  analisada 

nesse  capítulo,  tendo  em  vista  que  o  autor  renuncia  ao  complexo  familiar,  adotando  uma 

formalização  do  processo  de  subjetivação  em  termos  de  estrutura  de  linguagem.  Nesse 

contexto, generaliza-se o fenômeno da castração, anteriormente caracterizado como feminina, 

para ambos os sexos, tendo em vista que o conceito passa a indicar a perda de gozo necessária 

a todo ser falante.  

Deixando  de  se  referir  ao  Édipo,  as  fórmulas  da  sexuação  radicalizam  a  idéia  de 

sexualidade,  rompendo  com  qualquer  concepção  biológico-orgânica  do  corpo  humano  e  da 

diferença sexual (Elia, 1995; Žižek, 1999; Soler, 2005). Segundo as proposições das fórmulas, 

os  sujeitos,  se  inseridos  na  linguagem,  devem  se  relacionar  com  a  lógica  da  castração.  No 

entanto,  há  duas  maneiras  de  se  relacionar  com  a  mesma.  O  modo  masculino  diz  respeito 

àquele que está todo na função fálica, enquanto que o modo feminino refere-se ao gozo não-

todo  inserido  na  lógica  fálica.  A  hipótese  fundamental  dessa  tese  refere-se  à  divisão  dos 

sujeitos  em  dois  modos  de  gozo  que  independem  de  suas  identidades  sexuais  ou  de  seus 

órgãos genitais.   

A  descrição  da  sexuação  em  termos  de  gozo  só  é  possível  a  partir  do  gradativo 

encobrimento teórico do registro simbólico pelo registro do real. A diferença sexual denotaria 

aquilo  que  faz  furo  na  lógica  fálica,  ou  seja,  aquilo  que  foge  à  articulação  simbólica  e 

imaginária. O real da diferença sexual é um argumento bastante explorado recentemente por 

Žižek (1999), em seu diálogo com Butler (2000). 

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  5 

As críticas quanto à repetição do modelo de diferença baseado no dimorfismo sexual 

também  recaem  sobre  o  pensamento  lacaniano.  Do  ponto  de  David-Ménard  (1998),  Butler 

(2002) e de Arán (2006), Lacan recairia em uma concepção universal da diferença sexual, não 

reconhecendo seu caráter histórico-contingente. A causa disso, segundo seus críticos, é que o 

autor  permaneceria  preso  tanto  ao  modo  masculino  de  encarar  a  diferença  quanto  ao 

binarismo hierárquico da divisão sexual. 

A  partir  dos  deslocamentos  ocorridos  desde  a  modernidade  e  do  estabelecimento  de 

uma cartografia contemporânea das sexualidades, foi relançado um campo de debate acerca 

do  estatuto  da  noção  de  diferença  sexual  na  psicanálise.  Torna-se  relevante  pensar  se  a 

diferença sexual é reconhecida pelas teorias freudiana e lacaniana enquanto uma formulação 

histórico-contingente ou enquanto um modelo transcendental da diferença. A relevância dessa 

interrogação  se  coloca  na  medida  em  que  a  segunda  proposição  tem  funcionado  como  um 

obstáculo às novas (re)configurações das relações sociais e subjetivas (Arán, 2008b).  

Ao tomar a psicanálise como objeto de leitura e as teses foucaultianas como referencial 

teórico,  Butler  (2002,  2003)  desconstrói  conceitos  caros  à  teoria  da  sexualidade, 

demonstrando que a noção de diferença sexual na psicanálise, seja em sua vertente anatômica 

ou estrutural, repete um modelo binário e hierárquico tradicional, cuja matriz de sustentação é 

a  heterossexualidade  normativa  e  as  normas  de  gênero  típicas  da  modernidade.  Como 

consequência,  a  constituição  do  outro  torna-se  submetida  à  diferença  sexual,  o  que 

fundamenta uma perspectiva patológica acerca das novas formas de subjetivação.  

Para  Butler  (2002,  2003),  a  psicanálise  é  um  dispositivo

2

  que  reinstaura  o  modelo 

essencialista da diferença sexual, ou seja, seu discurso é um operador de poder que fomenta 

formas  de  sujeição  segundo  o  estabelecimento  de  fronteiras  entre  “gêneros  inteligíveis”  e 

“não-inteligíveis”

3

.  O  mecanismo  de  transformar  modelos  histórico-contingentes  da 

sexualidade  em  modelos  universais  ou  transcendentais  demonstra  a  função  normativa  da 

psicanálise. 

Em contraposição às considerações de Butler (2002, 2003), Žižek (1999) defende que 

a  teoria  lacaniana  da  sexuação  rompe  com  qualquer  possibilidade  de  se  conceber  a 

sexualidade em termos normativos, tendo em vista que a relação do sujeito com seu próprio 

sexo e com o outro sexo é inserida no registro do real. 

                                                 

2

 Na presente pesquisa, o termo “dispositivo” se refere ao conceito foucaultiano. 

3

  Butler  (2002)  não  se  restringe  à  questão  da  desigualdade  entre  os  gêneros,  incluindo  em  seu  trabalho  a 

problemática da não-inteligibilidade cultural a qual alguns gêneros são submetidos.  

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  6 

O  autor  costura  sua  argumentação  baseando-se  no  mapeamento  do  que  entende  ser 

uma “confusão teórica” de Butler, qual seja: a confusão entre o imaginário, o simbólico e o 

real.  Defende,  assim, que a autora realiza sua interpretação acerca da psicanálise de  acordo 

com os sistemas simbólico e imaginário. Até aqui, percebe-se ao menos alguma concordância 

entre os autores, pois ambos entendem que a sexualidade se constitui a partir de uma condição 

de assujeitamento, com a ressalva de que, para Žižek (1999), essa condição não é exclusiva da 

heterossexualidade ou das normas de gênero tradicionais. 

Para além desse ponto de concordância, Žižek (1999) empenha-se em demonstrar que 

o imaginário e o simbólico não recobrem toda a sexualidade, deixando um furo descoberto, ao 

qual dá o nome de real. A seu ver, é nesse ponto, cuja condição é ser vazio de conteúdo, que 

podemos situar a diferença sexual. Tal tese sublinha a impossibilidade de se delimitar apenas 

simbólica e imaginariamente a diferença. A proposta de compreender a diferença sexual como 

real valoriza a parte irrealizável de qualquer operação normativa, de forma que a constituição 

da alteridade permanece atrelada à diferença sexual, só que esta tomada em sua vertente real, 

ou  seja,  enquanto  diferença  sem  conteúdo  ou,  em  outras  palavras,  enquanto  encontro  do 

sujeito com o limite do simbólico. 

Sendo  assim,  no  terceiro  capítulo,  nosso  objetivo  será  o  de  abarcar  as  questões 

debatidas entre ambos os autores, Butler e Žižek, com o intuito de aproveitar o que esse novo 

horizonte de discussão pode contribuir para uma dissociação entre as noções de alteridade e 

de  diferença  sexual  em  seu  aspecto  binário  e  hierárquico.  Tal  tarefa  se  impõe  a  partir  dos 

desafios  que  a  nova  cartografia  das  sexualidades  traz  à  psicanálise  e  da  conseqüente 

necessidade de construção de um novo destino para a diferença, que não o da exclusão. 

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CAPÍTULO 1 

A NOÇÃO DE DIFERENÇA SEXUAL EM FREUD 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde os primórdios da psicanálise, Freud conferiu grande importância à sexualidade 

para a constituição psíquica do sujeito. Também muito precocemente, passou a compreendê-la 

de uma forma pouco usual em seu tempo, não mais restringindo-a às atividades e ao prazer 

relacionados especificamente ao aparelho genital. As suas formulações sobre a sexualidade do 

ser humano atravessam toda a história do movimento psicanalítico, tendo sido motivadas pela 

clínica  e  pela  teoria,  em  constante  movimento.  Reconhecido  por  afastar  o  conceito  de 

sexualidade da noção de instinto da biologia, cujo sistema explicativo formula um quadro de 

expectativas  em  que  objeto  e  meta  são  fixamente  pré-concebidos,  o  autor  não  produz  sua 

concepção  em  uma  linha  reta  e  nem  evolucionista,  o  que  parece  gerar  diferentes 

interpretações por parte de seus comentadores. 

A  questão  da  diferença  sexual  inserida  na  obra  freudiana  é  um  retrato  fidedigno  do 

movimento  nada  regular  de  Freud  e  das  inúmeras  releituras  que  provoca  em  autores 

posteriores.  Como  o  próprio  autor  declara  em  1923,  sua  observação  do  desenvolvimento 

libidinal do sujeito localizou a preponderância de polaridades sexuais outras que não aquela 

da  diferença  sexual  anatômica  (Freud,  1996  [1923a]).  Mesmo  quando  a  percepção  dos 

diferentes órgãos genitais acontecia entre as crianças, Freud defendia que essa era objeto de 

interpretações  e  não  fonte  de  informações  biológicas  sobre  a  diferença  entre  homens  e 

mulheres. 

O  presente  capítulo  tem  como  objetivo  reconhecer  na  teoria  freudiana  as  diversas 

noções de diferença sexual, a fim de discutir o quanto se afastam ou se aproximam do modelo 

do  dimorfismo  sexual.  A  concepção  de  diferença  sexual  será  estudada  especificamente 

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  8 

quando  inserida  na  questão  edipiana,  o  que  nos  leva  a  trabalhar  também  a  teoria  das 

identificações. 

 

 

1.1 Da teoria da sedução aos primórdios do complexo de Édipo 

 

 

A expressão complexo de Édipo é publicada por Freud pela primeira vez em 1910, em 

seu artigo intitulado Um Tipo Especial de Escolha de Objeto Feita pelos Homens, para dar 

nome a uma situação emocional presente na puberdade do jovem do sexo masculino, em que 

esse deseja a própria mãe para si e odeia o seu pai como um rival que impede a realização 

desse  desejo.  Neste  artigo,  o  autor  descreve  um  tipo  de  amor  masculino,  cuja  compreensão 

viria da fixação das fantasias no complexo edipiano. 

A referência ao tema edipiano na psicanálise é, entretanto, anterior a 1910, aparecendo 

desde  o  seu  início,  e  sendo  o  complexo  concebido  principalmente  a  partir  de  descobertas 

clínicas e da auto-análise em que Freud se empenhou. Um passo importante para a formulação 

do  conflito  edipiano  é  a  passagem  da  teoria  da  sedução  para  a  priorização  das  fantasias 

inconscientes,  tendo  em  vista  que  o  que  antes  era  levado  em  conta  como  uma  realidade 

material, passa a ser compreendido como uma realidade psíquica. 

A  chamada  teoria  da  sedução  foi  formulada  por  Freud  a  partir  dos  relatos  de  seus 

pacientes  que  lembravam-se  de  experiências  em  que  sofriam  passivamente  investimentos 

sexuais vindos da parte de outro, geralmente de um adulto. Em 1893, Freud introduz a idéia 

de seduçãoatribuindo-lhe um lugar teórico importante até 1897 (Laplanche e Pontalis, 2001). 

Desde então, as cenas sexuais, tidas como realidade material, passaram a fazer parte de um 

modelo explicativo sobre a origem do mecanismo de recalque e do tratamento da histeria e da 

neurose obsessiva, visto que o analista deveria investigar tais vivências de sedução na história 

do sujeito. 

O  desconhecimento  sobre  a  existência  de  uma  sexualidade  infantil  permite  a 

formulação de que a cena relembrada em análise não havia sido objeto de recalque na época 

do seu acontecimento, porque tendo ocorrido na infância, seria da ordem do “pré-sexual”, ou 

seja, o seu cunho sexual seria trazido do exterior, sem que o sujeito pudesse ainda integrá-lo à 

experiência. O recalque se daria posteriormente, em um segundo momento, quando a partir de 

um novo acontecimento, a lembrança da primeira vivência é evocada e sofre o recalque. Em 

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  9 

outras palavras, a partir de uma excitação endógena desencadeada por um segundo momento, 

o primeiro seria objeto do recalque, transformando-se a posteriori em um trauma

4

.  

A partir do desenvolvimento progressivo da idéia de sexualidade infantil, o autor passa 

a  entender  as  cenas  de  sedução  relatadas  em  análise  como  reconstruções  fantasísticas  do 

sujeito; deslocamento decisivo para a história da psicanálise, pois coloca em primeiro plano 

noções caras à teoria e à clínica, como as de fantasia inconsciente e de realidade psíquica. Em 

uma  carta  a  Fliess,  de  21  de  Setembro  de  1897,  Freud  declara  já  não  mais  acreditar  na 

“neurótica”, referindo-se à explicação etiológica  baseada na teoria da sedução (Freud, 1996 

[1897a]); descrença que o leva a valorizar a qualidade fictícia do trauma. Observa, assim, que 

seus  pacientes  fantasiam  as  cenas  de  sedução,  de  forma  que  essas  últimas  passam  a  ser 

priorizadas como uma realidade psíquica. 

 

[...]  a  descoberta  comprovada  de  que,  no  inconsciente,  não  há 

indicações da realidade, de modo que não se consegue distinguir entre 

a verdade e a ficção que é catexizada com o afeto. (Assim, permanecia 

em  aberta  a  possibilidade  de  que  a  fantasia  sexual  tivesse 

invariavelmente  os  pais  como  tema)  [parênteses  do  autor]  (Freud, 

1996 [1897a]: 310). 

 

Se, por um lado, Freud deu um grande salto abandonando a teoria da sedução e adotando a 

idéia de realidade psíquica, por outro lado, elementos essenciais dessa primeira são retomados 

e reelaborados ao longo de toda a produção psicanalítica. Entre eles estão: (a) a idéia de que o 

trauma  só  adquire  tal  sentido  no  a  posteriori,  ou  seja,  a  partir  de  diversos  tempos,  sendo  o 

ulterior  aquele  que  retroativamente  ativa  o  recalque  das  cenas  anteriores;  (b)  na  teoria  da 

sedução,  mais  precisamente  na  idéia  de  que  é  a  “lembrança”  da  cena  que  desencadeia  o 

trauma,  e  não  o  acontecimento  em  si,  já  podemos  reconhecer  um  sentido  de  realidade 

psíquica;  (c)  a  existência  de  uma  realidade  por  trás  da  fantasia  é  um  ponto  ao  qual  Freud 

retornará muitas vezes ao longo de sua produção, através da noção de “cenas originárias” ou 

“fantasias  originárias”,  entendendo-as  como  restos  mnêmicos  de  experiências  vividas  na 

história da espécie humana; (d) o complexo de Édipo já estava sendo construído desde a idéia 

da fantasia de sedução (Laplanche e Pontalis, 2001: 471). 

                                                 

4

 A noção de trauma vai adquirir nova concepção após a segunda tópica. 

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  10 

O próprio Freud reconhece que, com as fantasias de sedução, tinha “pela primeira vez 

encontrado  o  complexo  de  Édipo”  (Freud,  1925  apud  Laplanche  e  Pontalis,  2001).  As 

primeiras menções a esse último são contemporâneas da descoberta da fantasia e do abandono 

da teoria da sedução, como podemos perceber pela curta distância cronológica entre a carta a 

Fliess  citada  anteriormente  e  a  de  15  de  Outubro  de  1897,  a  partir  da  qual  o  autor  passa  a 

utilizar  a  lenda  do  Rei  Édipo  de  Sófocles  em  analogia  a  uma  constelação  psíquica  de 

dimensão universal, no que diz respeito ao ser humano: sentir impulsos carinhosos em relação 

à mãe e hostis em relação ao pai (Freud, 1996 [1987b]). Desta data até a primeira aparição do 

termo complexo de Édipo em 1910, a forma inicial do conceito já era empregada clinicamente 

por Freud, inclusive em sua auto-análise. 

 

Verifiquei,  também  no  meu  caso,  a  paixão  pela  mãe  e  o  ciúme  pelo 

pai,  e  agora  considero  isso  como  um  evento  universal  do  início  da 

infância,  mesmo  que  não  tão  precoce  como  nas  crianças  que  se 

tornaram histéricas. [...] Mas a lenda grega capta uma compulsão que 

toda pessoa reconhece porque sente sua presença dentro de si mesma. 

Cada  pessoa  foi,  um  dia,  em  germe  ou  na  fantasia,  exatamente  um 

Édipo como esse, e cada qual recua, horrorizada, diante da realização 

de  sonho  aqui  transposta  para  a  realidade,  com  toda  a  carga  de 

recalcamento  que  separa  seu  estado  infantil  do  seu  estado  atual 

(Freud, 1996 [1897b]: 316). 

 

Mezan  (2006)  chama  a  atenção  para  o  fato  de  que  o  Édipo,  no  início  de  sua  elaboração 

conceitual,  é  reconhecido  como  uma  constelação  psíquica  ocorrida  na  puberdade,  pois 

enquanto a idéia de anarquia auto-erótica da sexualidade infantil se fez presente, a questão da 

escolha  de  objeto,  imbutida  na  noção  de  complexo  de  Édipo,  só  poderia  ser  localizada  no 

momento do advento da organização genital, ou seja, na puberdade.  

Em 1912, no texto Sobre a Tendência Universal à Depreciação na Esfera do Amor, 

Freud defende a dualidade pulsional da vida erótica, constituída por uma corrente carinhosa, 

decorrente da escolha de objeto infantil e da pulsão de auto-conservação, e pela sensual, que 

se  faz  conhecida  somente  a  partir  da  puberdade  e  que  toma  os  mesmos  objetos  da  infância 

com  a  diferença  de  ser  uma  pulsão  sensual,  e  não  mais  somente  amorosa.  Nesse  momento 

Freud dá continuidade à sua tese de 1905, em que a sexualidade infantil, sob o domínio do 

auto-erotismo, opõe-se à sexualidade da fase adulta, em que há escolha de objeto. No auto-

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  11 

erotismo, a pulsão, ainda parcial, está ligada ao funcionamento de um órgão ou à excitação de 

uma zona erógena, encontrando satisfação não no objeto, mas no próprio órgão. Nessa fase, as 

metas e as zonas sexuais são múltiplas, sem que se instaure o primado de uma delas ou de 

uma escolha de objeto.  

No entanto, no decorrer  de seu trabalho, o autor  faz um movimento de aproximação 

entre a sexualidade infantil e a pós-pubertária, chegando a admitir a existência de uma escolha 

de  objeto  ainda  na  infância.  Essa  mudança  vai  se  realizando  a  partir  da  elaboração  dos 

conceitos de identificação e de narcisismo que, segundo Mezan (2006), contribuiu para que o 

Édipo fosse pensado em relação aos desejos infantis e ganhasse o lugar de destaque na teoria 

psicanalítica. A constituição do ego e os aspectos edipianos vão de tal forma se entrelaçando, 

que  o  autor  realiza  uma  análise  da  elaboração  do  Édipo  em  Freud  tendo  como  eixo  de 

referência a construção do conceito de identificação. 

 

Com  o  surgimento  dos  conceitos  de  narcisismo  e  identificação,  o 

Édipo  passa  para  um  plano  de  maior  destaque,  pois  a  escolha 

narcisista  de  objeto,  pelas  próprias  condições  da  constelação 

narcisista,  reflete-se  sobre  o  ego,  enquanto  a  identificação,  que 

inicialmente  é  identificação  com  os  pais,  introduz  a  possibilidade  de 

traçar  a  gênese  do  ego,  na  qual  paulatinamente  os  fatores 

intersubjetivos  e  edipianos  vão  assumindo  o  papel  de  molas 

fundamentais. É no terreno do ego que o complexo de Édipo assumirá 

sua  significação  completa,  e  por  esta  razão,  estes  passos  iniciais  da 

vinculação  dos  dois  temas  revestem-se  de  importância  particular 

(Mezan, 2006: 194). 

 

Como veremos no segundo capítulo, Lacan cunhará o termo sexuação a fim de distanciar a 

questão da sexualização do registro do ego, de forma a privilegiar os paradoxos desta, e não 

os seus aspectos normativos. 

Na análise do distúrbio de Schreber, escrita em 1911, a partir de seu livro Memórias de 

um  Doente  dos  Nervos,

  Freud  se  refere  pela  primeira  vez  ao  aspecto  negativo  do  Édipo, 

colocando-o  no  cerne  da  questão  da  homossexualidade.  No  início  de  seu  quadro  clínico, 

Schreber faz um delírio paranóico e de caráter sexual, em que o seu psiquiatra aparece como 

figura  persecutória.  Mais  tarde,  o  delírio  passa  a  ser  de  grandeza  religiosa,  sendo  que  a 

imagem do perseguidor é deslocada do médico para Deus. A partir dessa substituição, o ego 

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  12 

se reconcilia com a fantasia homossexual, tendo em vista que, a partir de sua tarefa grandiosa, 

originaria uma nova raça humana, que estaria “de acordo com a Ordem das Coisas”. 

 

A  parte  mais  essencial  de  sua  missão  redentora  é  ela  ter  de  ser 

procedida por sua transformação em mulher. Não se deve supor que 

ele  deseje  ser  transformado  em  mulher;  trata-se  antes  de  um  ‘dever’ 

baseado na Ordem das Coisas, ao qual não há possibilidade de fugir, 

por  mais  que,  pessoalmente,  preferisse  permanecer  em  sua  própria 

honorável e masculina posição na vida [grifos do autor] (Freud, 1996 

[1911]: 27). 

  

A partir desse quadro, Freud coloca que tanto o psiquiatra quanto Deus apareciam nos delírios 

de Schreber como substitutos de seu pai, tese que o psicanalista defende a partir de uma série 

de  associações  entre  os  elementos  representativos  desse  último  e  o  Deus  do  delírio.  Mezan 

(2006) chama a atenção para uma nota de rodapé escrita por Freud, ainda nesse texto, em que 

este se referia à “fantasia feminina” de Shreber como uma das formas típicas assumidas pelo 

complexo  nuclear  infantil  (Freud,  1996  [1911],  nota  5,  p.  63/34).  Apesar  de  ser  apenas 

menção, a nota demonstra a valorização por parte de Freud da atitude feminina do paciente 

frente ao pai, ou seja, o Édipo negativo, como mola propulsora do distúrbio. 

 

Assim, no caso de Schreber, mais uma vez encontramo-nos no terreno 

familiar  do  complexo  paterno.  A  luta  do  paciente  com  Flechsig 

revelou-se  a  ele  como  um  conflito  com  Deus,  e  temos  portanto  de 

explicá-la  como  um  conflito  infantil  com  o  pai  que  amava.  [...]  No 

estágio  final  do  delírio  de  Schreber,  vitória  magnífica  foi  alcançada 

pelo impulso sexual infantil, pois a voluptuosidade tornou-se temente 

a  Deus  e  o  próprio  Deus  (o  pai)  nunca  se  cansava  de  exigi-la  dele 

[parênteses do autor] (Freud, 1996 [1911]: 63/64). 

 

Esse  trecho  da  interpretação  de  Freud  demonstra  que  o  Édipo  invertido  já  é  localizado  na 

infância  do  sujeito,  de  forma  que  a  homossexualidade  adulta  passa  a  ser  entendida  como 

conseqüência de uma fixação nessa fase.  

O caso Schreber se tornou referência de autores como Birman (1998) e Arán (2006) na 

discussão dos aspectos normativos do complexo de Édipo, tendo em vista que Freud explica o 

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  13 

desenvolvimento  da  paranóia  como  defesa  contra  o  que  seria  uma  posição  fantasmática 

homossexual.  O  quadro  patológico  é  colocado  como  um  dos  destinos  possíveis  para  a 

feminilidade,  pois  funcionaria  como  um  mecanismo  para  fazer  fracassar  a  sua  assunção, 

impossibilitando  também  a  constituição  da  alteridade.  Apesar  de,  mais  adiante,  Freud 

generalizar a vivência do Édipo invertido a todas as crianças, as qualificações “invertido” e 

“negativo”  subentendem  uma  formulação  evolucionista  do  sexual,  em  que  se  enfatiza  a 

possibilidade do recalque ou da superação da homossexualidade. 

Se em Schreber o destino da feminilidade é a paranóia, a análise de Freud em relação a 

Da Vinci (Freud, 1996 [1910a]) se coloca em outros termos. A ligação do artista com a figura 

materna possui um aspecto positivo a partir de um “tratamento” pelo recurso da sublimação. 

Ou  seja,  em  1910,  reconheceu-se  um  outro  destino  para  a  feminilidade,  qual  seja,  a 

sublimação. A importância dessa comparação é que, se por um lado, há uma concepção que 

coloca  a  feminilidade  como  um  aspecto  negativo  e  patogênico  para  o  processo  de 

subjetivação,  por  outro  lado,  há  outra  concepção  avessa,  em  que  a  feminilidade  erotizada 

possibilita  o  ato  criativo.  De  certa  forma  o  movimento  aqui  descrito  aparece  como  uma 

ambigüidade do texto freudiano em relação à feminilidade.  

A questão sobre a escolha de objeto nos homossexuais, em pauta desde a análise sobre 

Leonardo  Da  Vinci,  leva  Freud  a  propor  uma  etapa  narcísica  da  evolução  sexual, 

intermediária entre o auto-erotismo e o amor de objeto heterossexual, na qual o progenitor de 

mesmo sexo é investido libidinalmente.  

 

Na série das escolhas de objeto, assim, a homossexual é a primeira, e, 

dadas  as  condições  de  emergência  da  sexualidade  infantil,  o 

progenitor do mesmo sexo é o primeiro a ser investido com a libido 

homossexual (Mezan, 2006: 196). 

 

Apesar de considerar importante a elaboração do narcisismo para a teorização da neurose e da 

psicose, Arán (2008b) revela a conseqüência dessa teoria para uma concepção excludente da 

homossexualidade.  Enquanto  a  libido  objetal  é  colocada  em  termos  estritamente 

heterossexuais, a homossexualidade fica associada a uma fixação narcísica, o que confere a 

ela um estatuto patológico de impossibilidade de reconhecimento da diferença.  

Em 1914, no artigo Sobre o Narcisismo: uma introdução, o autor insere o conceito já 

trabalhado  clinicamente  no  conjunto  da  teoria  psicanalítica,  inaugurando  uma  nova 

formulação da dualidade pulsional. Se anteriormente as pulsões haviam sido divididas entre as 

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  14 

sexuais  e  as  de  autoconservação,  com  a  introdução  do  conceito  de  narcisismo,  é  a  própria 

idéia de pulsão sexual que é dividida entre duas escolhas de objeto e dois modos de satisfação 

da libido: 

 

Dizemos que um ser humano tem originalmente dois objetos sexuais – 

ele  próprio  e  a  mulher  que  cuida  dele  –  e  ao  fazê-lo  estamos 

postulando a existência de um narcisismo primário em todos, o qual, 

em  alguns  casos,  pode  manifestar-se  de  forma  dominante  em  sua 

escolha objetal (Freud, 1996[1914]: 95). 

 

Há, assim, a escolha objetal por apoio, resultante da transformação da necessidade orgânica 

em função sexual do desejo, e a escolha narcísica, em que a pulsão se volta para o eu, para a 

própria  imagem  do  sujeito.  Tal  divisão  é  a  base  em  que  se  apóia  outra  distinção,  a  libido 

objetal e a libido do ego, além de uma expansiva relação entre elas: 

 

[...] [O] ponto mais importante desta teoria do narcisismo não é tanto a 

divisão  que  ela  implica,  mas  a  ligação  indissolúvel  que  estabelece 

entre libido objetal e libido do eu (André, 1998:109). 

 

A  partir  da  análise  realizada  sobre  os  escritos  de  Schreber,  Freud  compreende  os 

investimentos libidinais segundo a forma como operam entre o mundo externo e o próprio ego 

do sujeito. No caso de uma psicose, ou neurose narcísica, por exemplo, a libido afastada dos 

objetos  externos  é  dirigida  para  o  ego,  enquanto  em  uma  pessoa  apaixonada  é  comum  o 

procedimento  inverso,  desinvestimento  do  ego  em  favor  de  uma  catexia  objetal.  O  autor 

anuncia, assim, uma espécie de antítese entre a libido do ego e a objetal: “Quanto mais uma é 

empregada, mais a outra se esvazia” (Freud, 1999 [1914]: 83).  

Em  1917,  a  partir  do  esclarecimento  da  dinâmica  do  processo  melancólico,  em  que 

uma  catexia  objetal  é  substituída  por  uma  identificação,  a  interação  entre  libido  objetal  e 

libido do eu se expande ainda mais, de modo que a idéia de narcisismo aparece estreitamente 

relacionada com a de identificação. Designando a tomada do ego como um objeto de amor, o 

narcisismo se dá em uma etapa contemporânea à formação do ego, que, por sua vez, em 1917, 

é  relacionada  com  o  conceito  de  identificação,  de  onde  se  conclui  que  “o  narcisismo  nada 

mais é do que uma identificação narcísica com o objeto” (Laplanche e Pontalis, 2001: 288). 

 

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  15 

Mostramos em outro ponto que a identificação é uma etapa preliminar 

da escolha objetal, que é a primeira forma – e uma forma expressa de 

maneira  ambivalente  –  pela  qual  o  ego  escolhe  um  objeto.  O  ego 

deseja incorporar a si esse objeto, e, em conformidade com a fase oral 

ou  canibalista  do  desenvolvimento  libidinal  em  que  se  acha,  deseja 

fazer isso devorando-o (Freud, 1996 [1917]: 255). 

 

Em  outras  palavras,  a  catexia  objetal  é  realizada sobre  uma  base  narcisista,  de  modo  que  o 

desinvestimento do objeto faz com que a libido livre se dirija ao ego, reativando o narcisismo. 

A  identificação  narcísica  é  um  substituto  da  catexia  objetal,  o  que  se  torna  possível  pela 

regressão dessa última à fase oral da libido. 

 

Freud conclui que em última instância a libido do eu envolve a libido 

de objeto, de tal modo que o sujeito só pode visar seu objeto sexual 

através de sua própria imagem (André,1998: 109). 

 

A  evolução  dos  conceitos  de  narcisismo  e  de  identificação  possibilita  uma  descrição  dos 

efeitos do complexo de Édipo em termos de substituição dos laços com os progenitores por 

identificações,  operações  que  vão  adquirindo  em  Freud  um  valor  central  na  constituição  do 

sujeito. 

Dando continuidade à análise de Mezan (2006), o texto do caso clínico do “Homem 

Dos Lobos” se torna essencial para visualizarmos esse movimento teórico em que se formula 

a substituição dos laços parentais por identificações. Freud valoriza na análise do caso o fato 

de que, aos três anos de idade o menino sofreu uma sedução por parte da irmã (Freud, 1996 

[1918]).  Apesar  de  ter  recusado  a  irmã  como  objeto,  reteve  dessa  experiência  a  atitude 

passiva. Somado a isso, um outro episódio ganha destaque no desenvolvimento do menino: 

em uma tentativa de seduzir a governanta, essa lhe repreende com uma ameaça de castração, o 

que provoca no desenvolvimento libidinal da criança um abandono da genitalidade na qual já 

estava  inserida,  e  um  retorno  à  fase  sádico-anal.  A  passagem  de  volta  a  uma  fase  mais 

primitiva  da  organização  sexual  fez  com  que  o  menino  investisse  libidinalmente  em  sua 

“primeira e mais primitiva escolha de objeto”: no pai (Freud, 1996 [1918]: 27).  

O  caso  clínico  é  esquematizado  pelo  psicanalista  da  seguinte  forma:  a  partir  da 

sedução  da  irmã,  a  libido  passiva  do  menino  se  tornou  característica,  deslocando-se  da 

governanta  até  seu  pai,  fazendo  preponderar  o  prazer  masoquista.  A  ameaça  de  castração 

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  16 

realizada pela governanta impediu que a tendência passiva do “Homem dos Lobos” frente ao 

pai  constituísse  uma  organização  genital  marcada  pela  feminilidade  e  pela  natureza 

homossexual.  Nesse  caso,  o  Édipo  invertido  foi  reprimido  pela  força  da  libido  narcísica,  já 

que a condição para obter a satisfação sexual do pai seria a castração, o que seria uma ferida 

narcísica. 

A ambigüidade do “Homem dos Lobos” em relação a seu pai é bastante ilustrada no 

caso  clínico  escrito  por  Freud:  por  um  lado,  o  vínculo  afetivo,  por  outro,  a  hostilidade  e  a 

rivalidade. Mesmo não priorizando a ambigüidade do vínculo materno, a análise do Édipo do 

“Homem dos Lobos” torna necessário seu formato completo; sobre um mesmo objeto recaem 

tanto os impulsos amorosos quanto os hostis.  

 

 

1.2 O esboço de uma dissimetria entre os sexos 

 

 

A  forma  completa  do  complexo  de  Édipo  traz  à  tona  a  questão  da  ambigüidade  da 

criança  frente  aos  progenitores,  visto  que  ambos  são  objetos  tanto  de  amor  quanto  de 

rivalidade,  o  que  acaba  por  complexificar  a  compreensão  dos  mecanismos  identificatórios 

pelos  quais  a  criança  passa.  É  justamente  em  torno  do  conceito  de  identificação,  ainda 

incipiente  na  teoria  freudiana,  que  Mezan  (2006)  trabalhará  a  questão  da  diferença  sexual 

compreendida no artigo sobre as fantasias sádicas. Se até aqui os elementos do Édipo foram 

retirados  da  sexualidade  masculina,  impasses  sobre  o  desenvolvimento  sexual  da  menina 

começam a se impor.  

O  comentador  divide  a  evolução  do  pensamento  freudiano  acerca  do  complexo  de 

Édipo  em  quatro  fases,  distinguindo  o  início  da  terceira  justamente  com  a  inauguração  das 

questões sobre a situação da menina no triângulo edipiano, destacadas em dois textos: Uma 

Criança é Espancada

 (1996 [1919]) A Psicogênese de um Caso de Homossexualismo numa 

Mulher

 (1996 [1920])Mais uma vez, os temas dos artigos são retirados da clínica.  

O primeiro texto é iniciado com a constatação de Freud de que é comum ouvir de seus 

pacientes o relato de que, por volta dos cinco anos de idade, eram tomados por uma fantasia 

em  que  assistiam  a  uma  criança  sendo  espancada.  A  comunicação  dessa  fantasia  não  era 

possível  sem  um  longo  processo  analítico,  em  que  resistências  deveriam  ser  ultrapassadas, 

inclusive  a  vergonha  em  relatá-la.  Esse  aspecto  de  resistência  que  necessariamente 

acompanhava  a  declaração  da  fantasia  fez  com  que  o  psicanalista  a  entendesse  como  um 

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  17 

substituto para o prazer que fora encoberto pela amnésia infantil, ou seja, um prazer associado 

ao  desenvolvimento  libidinal  do  sujeito  no  período  entre  dois  e  cinco  anos  de  idade.  A 

fantasia relembrada foi tratada por Freud como um relato indicativo da existência de outras 

fantasias reprimidas, o que o leva a iniciar uma recomposição da mesma em etapas.  

O trabalho realizado coloca em jogo muitas questões importantes à psicanálise, mas a 

descoberta de Freud que nos cabe nesse momento se refere ao fato de que o sexo do sujeito 

influencia  na  sua  constituição  fantasmática.  Nesse  sentido,  o  texto  abarca  a  questão  da 

diferença sexual. 

O autor inicia a reconstrução da fantasia a partir de suas pacientes do sexo feminino e a 

divide  em  três  etapas.  A  primeira  é  localizada  na  infância  precoce  do  sujeito  e  aparece  em 

análise  como  “uma  criança  é  espancada”.  Em  princípio  a  paciente  identifica  o  autor  da 

agressão  apenas  como  sendo  um  adulto  que,  com  o  trabalho  analítico,  é  reconhecido 

posteriormente como o seu próprio pai, transformando o relato em algo do tipo “o meu pai 

está batendo na criança”. Outra informação também se acrescenta em relação à criança que 

sofre a agressão: trata-se de uma criança odiada pela autora da fantasia. Nesse momento, não 

pode ser inferida nenhuma relação entre o sexo da criança que apanha com o sexo feminino 

da paciente, o que quer dizer que o primeiro variou sem grandes conseqüências.  

Freud se pergunta se a fantasia aqui pode ser considerada sádica, embora a autora não 

apareça  na  cena  praticando  a  agressão.  Por  outro  lado,  não  parece  ter  dúvidas  quanto  à 

natureza  sexual  presente  já  nessa  etapa.  Tal  observação  o  leva  a  associar  a  fantasia  de 

espancamento a uma escolha de objeto incestuosa, ou seja, ligada ao complexo parental, ao 

Édipo.  O  autor  interpreta  o  conteúdo  e  significado  da  fantasia  nessa  fase  como  “o  meu  pai 

bate na criança que eu odeio. O meu pai não ama essa criança, ama apenas a mim”. A afeição 

edipiana da menina ao próprio pai é gratificada pela fantasia de espancamento. 

 

A fantasia obviamente gratifica o ciúme da criança e depende do lado 

erótico  da  sua  vida:  mas  é,  também,  poderosamente  reforçada  pelos 

interesses egoístas da criança. Resta, portanto, a dúvida quanto a saber 

se  a  fantasia  pode  ser  descrita  como  puramente  ‘sexual’,  ou  se 

podemos arriscar-nos a chamá-la de ‘sádica’. Como é sabido, todos os 

sinais sobre os quais nos acostumamos a basear as nossas distinções, 

tendem  a  perder  a  clareza  à  medida  em  que  nos  aproximamos  da 

fonte.  Assim,  talvez  possamos  dizer,  em  termos  que  recordam  a 

profecia  feita  pelas  Três  Feiticeiras  a  Banquo:  ‘Não  claramente 

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  18 

sexual, nem sádica, em si, mas ainda assim a natureza da qual ambos 

os impulsos surgirão depois’ (Freud, 1996 [1919]: 202/203). 

 

Segundo  Mezan  (2006),  esse  trecho  do  texto  freudiano  indica  que  a  menina,  na  época  da 

primeira  fantasia,  encontra-se  ainda  sob  o  domínio  do  narcisismo,  visto  que  as  pulsões  de 

autoconservação  se  encontram  com  as  sexuais.  Por  outro  lado,  o  caráter  sádico  dessa  etapa 

provém da fase sádico-anal do desenvolvimento, que também já se faz presente, retratada na 

realização de uma escolha de objeto e nas manifestações de agressividade. 

Na segunda etapa da reconstituição o autor da agressão ainda é o pai da paciente, mas 

a criança em quem ele bate já não é mais a mesma. Aqui, a criança que sofre a agressão é a 

própria autora da fantasia, o que leva Freud a apontar para o caráter masoquista dessa fase. A 

fantasia  “estou  sendo  espancada  pelo  meu  pai”  é  tida  pelo  psicanalista  como  a  mais 

significativa  entre  as  outras  duas,  não  podendo  se  tornar  consciente,  sendo  considerada, 

portanto,  uma  construção  da  paciente  em  análise.  A  transformação  do  sadismo,  presente  na 

primeira etapa, em masoquismo, expresso aqui, é explicada por Freud da seguinte forma: há 

um sentimento de culpa por trás de qualquer conversão do sadismo em masoquismo. A partir 

desta tese sobre o sentimento de culpa, o autor coloca em questão o mecanismo da repressão e 

os seus motivos. 

“O meu pai me ama”, fantasia implícita na primeira fase, expressa a ligação afetiva e 

também genital da menina ao pai, situada em uma época precoce da infância. Trata-se, então, 

de  um  amor  incestuoso  da  criança,  cujo  destino,  pontua  Freud  nessa  época,  será  o  seu 

fracasso.  O  autor  afirma  não  saber  qual  motivo  específico  leva  à  repressão  da  ligação 

incestuosa, mas diz que é inevitável, por fatores externos e internos. Inclui entre tais fatores a 

repetição da história da humanidade no plano do desenvolvimento individual. 

 

O  mais  provável  é  que  eles  (os  casos  de  amor  incestuosos)  passem, 

porque  o  seu  período  acabou,  porque  as  crianças  ingressam  numa 

nova fase de desenvolvimento, na qual são compelidas a recapitular, a 

partir da história da humanidade, a repressão de uma escolha objetal 

incestuosa, tal como, numa etapa anterior, foram obrigadas a efetuar 

uma escolha objetal dessa mesma natureza [parênteses nossos] (Freud, 

1996 [1919]: 204). 

 

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  19 

No  entanto,  tais  desejos  da  menina  em  relação  ao  pai  permanecem  no  inconsciente,  o  que 

produz  o  sentimento  de  culpa  que  inverte  a  fantasia  “meu  pai  só  ama  a  mim,  pois  bate  em 

outra criança” para “meu pai não me ama, pois me bate”. A repressão que incide sobre o amor 

incestuoso  transforma  sua  representação  psíquica  em  um  significado  inconsciente  e,  em 

paralelo, ativa uma regressão da libido para uma organização sexual anterior à fase genital em 

que  se  encontrava,  ou  seja,  para  a  sádico-anal.  Isso  significa  dizer  que  a  fantasia  de 

espancamento  do  próprio  sujeito  está  a  serviço  do  sentimento  de  culpa  e  também  do  amor 

sexual, sendo fonte de excitação sexual para o sujeito. 

A terceira etapa da reconstituição de Freud corresponde à primeira versão da fantasia 

de  espancamento  trazida  à  análise.  Aqui,  o  autor  da  agressão  é  variável,  podendo  até  ser 

indeterminado, mas é um substituto do pai. Quem cria a fantasia aparece como espectador da 

cena,  em  que  meninos  estão  sendo  espancados.  A  fantasia  pode  ainda  estar  disfarçada  por 

outras elaborações, como por exemplo a substituição da agressão física por humilhações. O 

caráter desta etapa é sádico, embora a sua satisfação seja masoquista, tendo em vista que o 

masoquismo evidente na segunda etapa permanece ativo no inconsciente. Há, portanto, uma 

excitação sexual característica, que proporciona uma satisfação masturbartória ao sujeito.  

A fantasia de espancamento dos pacientes do sexo masculino e a sua reconstrução em 

análise são, em alguns aspectos, distintas às das mulheres. Freud acaba trabalhando a situação 

fantasmática dos meninos em referência à elaboração realizada do caso feminino, o que acaba 

por impossibilitar sua sistematização clara. Esta aparente “confusão” com a correspondência 

das fases masculinas e femininas se deve a algo que vai ficando cada vez mais evidente ao 

longo do texto: não há um paralelo completo entre a fantasia de espancamento nas meninas e 

nos meninos. 

No caso dos pacientes do sexo masculino, pode-se notar a existência de uma fantasia 

relembrada e de uma etapa preliminar a essa. O autor relata não ter notícias sobre um estágio 

sádico  da  fantasia  de  espancamento  no  menino  que  fizesse  paralelo  com  a  etapa  inicial  da 

fantasia feminina. O esquema masculino é colocado da seguinte maneira: a primeira fantasia a 

ser reconhecida é aquela trazida pelo paciente à análise, qual seja, a fantasia de ser espancado 

pela  própria  mãe.  No  entanto,  Freud  declara  a  existência  de  uma  outra  fantasia,  anterior  a 

relembrada, em que o menino está sendo agredido por seu pai. O conteúdo fantasmático que 

primeiro chega à análise é, na verdade, a segunda etapa da fantasia. 

A  origem  da  fantasia  masculina  é  a  cena  “sou  espancado  pelo  meu  pai”  e  o  seu 

significado  é  “sou  amado  pelo  meu  pai”.  Significado  e  conteúdo  se  relacionam  da  seguinte 

forma:  ser  espancado  equivale  a  ser  amado,  segundo  a  conversão  pela  via  regressiva  do 

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sentido  genital  para  o  sádico-anal.  Trata-se  de  uma  fantasia  inconsciente,  cujo  acesso  à 

consciência  se  dá  através  de  outro  formato,  qual  seja,  “sou  espancado  pela  minha  mãe”. 

Embora esta última dê continuidade ao caráter masoquista e ao significado genital da primeira 

fantasia, apresenta uma inovação, pois, havendo uma diferença sexual entre agressor e vítima, 

o  menino  aparece  em  uma  atitude  passiva  sem,  no  entanto,  realizar  uma  escolha  de  objeto 

homossexual.  “Estou  sendo  espancado  pelo  meu  pai”,  ao  significar  “sou  amado  pelo  meu 

pai”,  sofre  regressão  e  transforma-se  em  “estou  sendo  espancado  pela  minha  mãe”.  Freud 

conclui  que  a  fantasia  de  espancamento  do  menino  é  passiva  desde  a  sua  origem,  sendo 

ativada pela relação edipiana com o pai. 

A única etapa masoquista da fantasia feminina, por causa da intensidade da repressão 

do seu conteúdo incestuoso e genital - “sou espancada pelo meu pai equivale a dizer que sou 

amada por ele” -, permanece invariavelmente inconsciente, de forma que Freud tem acesso a 

ela pelas construções analíticas. O mesmo não é verdadeiro em relação à fantasia masoquista 

masculina  de  ser  espancado  pela  mãe,  o  que  Freud  explica  da  seguinte  forma:  no  caso  da 

menina, o sentimento de culpa pelo amor incestuoso seria satisfeito por sua repressão e pela 

regressão  da  libido  à  organização  sádico-anal;  já  no  caso  dos  meninos,  haveria  apenas  a 

necessidade  da  regressão.  Não  havendo  repressão,  a  fantasia  pode  se  tornar  consciente.  Por 

outro lado, a situação fantasmática em que o sujeito do sexo masculino é espancado pelo pai 

também  permanece  inconsciente.  O  desejo  do  menino  pelo  pai  só  aparece  na  fantasia 

modulado pela culpa e pelo masoquismo, fatores ocasionados pela ação, aí sim repressiva, da 

libido narcísica. 

 

A  fantasia  de  espancamento  no  menino  é,  portanto,  passiva  desde  o 

começo  e  deriva  de  uma  atitude  feminina  em  relação  ao  pai. 

Corresponde ao complexo de Édipo tal como a fantasia feminina (a da 

menina); apenas a relação paralela que esperávamos encontrar entre as 

duas,  deve  ser  abandonada  em  favor  de  um  caráter  comum  de  outra 

natureza.  Em  ambos  os  casos,  a  fantasia  de  espancamento  tem  sua 

origem  numa  relação  incestuosa  com  o  pai

  [grifo  e  parênteses  do 

autor] (Freud 1996 [1919]: 213). 

 

Como vimos, tanto na etapa original das mulheres quanto na dos homens, o autor da agressão 

é invariavelmente o pai do paciente, o que leva Freud à conclusão de que a fantasia tem como 

ponto de partida algo que não varia conforme o sexo de quem a produz: a ligação incestuosa 

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  21 

com  o  pai.  Este  ponto  em  comum  entre  as  fantasias  masculina  e  feminina  leva  Freud  a 

valorizar  uma  outra  diferença  entre  elas,  o  fato  de  que  se  uma  menina  toma  seu  pai  como 

objeto  amoroso,  trata-se  de  uma  situação  edipiana  positiva;  porém,  o  vínculo  amoroso  do 

menino com seu pai corresponde a uma atitude edipiana invertida. 

 

Ajudará  a  tornar  as  coisas  mais  claras  se,  nesse  ponto,  enumero  as 

demais similaridades e diferenças entre as fantasias de espancamento 

entre  ambos  os  sexos.  No  caso  da  menina,  a  fantasia  masoquista 

inconsciente  parte  da  atitude  edipiana  normal;  no  caso  do  menino, 

parte da atitude invertida, na qual o pai é tomado como objeto de amor 

(Freud, 1996 [1919]: 213).  

 

A  noção  de  Édipo  invertido  é  retomada  por  críticos  da  psicanálise  como  um  dos  aspectos 

normativos da concepção do complexo. Isto porque funda a relação edipiana da criança com o 

progenitor de sexo oposto como o protótipo de toda relação, o modelo. Já a relação do infante 

com o progenitor de mesmo sexo fica atrelada à noção de inversão ou de negatividade, o que 

confere a ela e aos seus possíveis efeitos para o processo subjetivo e para a identidade sexual, 

um lugar hierárquico inferior em relação à ligação edipiana positiva. Sob o ponto de vista de 

Butler  (2003),  a  teoria  do  complexo  de  Édipo  demonstraria  o  compromisso  ideológico  da 

psicanálise com a diferença sexual.  

Mezan (2006) defende que a inversão do objeto incestuoso, no caso do menino, deve 

ser explicada pelo papel desempenhado pela identificação na construção da fantasia. Embora 

o conceito de identificação ainda estivesse em elaboração no ano de 1919, o autor o localiza 

justamente naquilo que distingue as fantasias de meninos e meninas. 

 

A  discussão  das  fantasias  sádicas,  em  1919,  desemboca  na 

transposição  do  momento  edipiano  para  a  primeira  infância,  e  a 

identificação desempenha papel crucial na gênese da fantasia em cada 

um  dos  sexos:  presente  no  menino  e  ausente  na  menina,  é  em  torno 

dela que se pode construir o caminho da sexualidade infantil (Mezan, 

2006: 206). 

 

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  22 

A partir da análise de Schreber, o autor sinaliza que a escolha do pai como objeto de desejo 

pelo menino só se faz possível a partir de uma identificação primitiva,  mecanismo que não 

estaria presente no caso das fantasias femininas.  

Por  sua  vez,  a  fantasia  das  meninas  parece  ter  uma  complicação  a  mais  na  terceira 

etapa, quando elas mantêm o sexo de quem bate, mas mudam o sexo de quem é espancado: 

invariavelmente  são  crianças  do  sexo  masculino.  Partindo  da  idéia  de  que  as  crianças 

espancadas são substitutas daquela que produz a fantasia, então, as meninas “mudam de sexo” 

entre a segunda e a terceira fase. Ao se afastarem da afeição pelo pai e da organização genital, 

abandonam  o  papel  feminino,  adotando  o  que  Freud  denominou  de  complexo  de 

masculinidade. Em fantasia, a menina se transforma em homem, porém, sem se tornar ativa à 

maneira  masculina.  O  destino  desse  complexo  de  masculinidade  no  desenvolvimento  da 

sexualidade feminina passa a oferecer um enigma clínico e teórico à psicanálise. 

 

De fato, a partir de “Uma Criança é Espancada”, todo o problema é 

saber como a menina pode se orientar corretamente na sua vida sexual 

se  sua  fantasia,  cicatriz  do  Édipo,  a  conduz  para  uma  posição 

masculina, ou seja, lhe aponta a via da homossexualidade. Pois Freud 

é claro nesse ponto. No capítulo VI de “Uma Criança é Espancada”, 

ele escreve que é numa troca de sexo que resulta a fantasia feminina, 

troca que se opõe radicalmente à feminilidade que se julgava que as 

meninas faziam reconhecer pelo pai no Édipo [grifo do autor] (André, 

1998: 160). 

 

O  embaraço  freudiano  acerca  do  complexo  de  masculinidade  evidencia  a  suposição  de  que 

existe  uma  verdadeira  feminilidade  a  ser  atingida  pela  menina.  Tal  expectativa  dirige  o 

investimento  teórico  de  Freud  para  a  questão  da  diferença  sexual,  que  passa  a  ter  uma 

importância crucial para o desenvolvimento da neurose. A hipótese de que o Édipo da menina 

fosse  análogo  ao  do  menino,  invertendo-se  apenas  o  sexo  dos  progenitores,  vai-se 

falsificando,  e  o  formato  completo  do  complexo de  Édipo  vai  mostrando  os  seus  impasses: 

por que a fantasia da menina resulta em uma troca de sexo e qual é a dimensão dessa troca 

para a feminilização da mulher? 

Freud  sugere  que  as  sua  observações  clínicas  colocadas  no  texto  Uma  Criança  é 

Espancada 

poderiam ampliar a compreensão das perversões sexuais, tal como o subtítulo do 

artigo  faz  entender  –  “uma  contribuição  ao  estudo  da  origem  das  perversões  sexuais”.  Em 

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  23 

1919,  o  destino  normal  do  complexo  de  Édipo  era  tido  como  um  desaparecimento  sem 

resquícios, tese que confere um  caráter de relativa patologia à fantasia de espancamento. A 

ligação edipiana mal resolvida é substituída por essa, que por consistir em uma “cicatriz” da 

primeira,  é  inserida  no  âmbito  da  anormalidade.  Freud  traz  à  tona  a  questão  que  se  torna 

fundamental a partir daí sobre o papel do complexo de Édipo e da sexualidade infantil para o 

desenvolvimento tanto das neuroses quanto das perversões. 

Se  a  fantasia  sádica  é  entendida  como  um  resquício  do  complexo  parental,  este  já 

aparece  aqui  deslocado  para  a  infância  precoce  do  sujeito,  o  que  o  confere  um  valor 

estruturante  para  a  constituição  psíquica  do  sujeito,  seja  no  plano  pulsional  ou  no  plano  do 

ego.  Estando  o  ego  intrinsecamente  relacionado  ao  conceito  de  identificação,  torna-se 

imprescindível seu desenvolvimento, que, no que se refere ao complexo de Édipo, expande a 

relação  da  criança  com  seus  pais  para  além  da  escolha  de  objeto,  e  possibilita  ainda  o 

deslocamento  do  complexo  da  puberdade  para  a  infância.  Adquirindo  o  valor  de  elemento 

infantil, o Édipo passa ser considerado eixo fundamental da teoria psicanalítica. 

Para Tort (2005 apud Arán, 2008b), o  complexo de Édipo é uma noção  interessante 

enquanto pensado como um momento de passagem a ser ultrapassado e destruído pelo sujeito; 

formulação  feita  pelo  próprio  Freud  em  certos  contextos  teóricos.  Isso  porque  seu  efeito 

normativo  teria  menor  força  do  que  quando  adquire  uma  função  estrutural  que  permite  a 

entrada  do  sujeito  na  cultura  e  na  civilização,  ou  melhor,  do  que  quando  adquire  uma 

conotação  de  condição  para  a  subjetivação.  Como  veremos  no  segundo  capítulo,  essa 

concepção estrutural do complexo aparece mais evidente a partir do pensamento de Lacan.  

No ano de 1920, Freud escreve o caso clínico da jovem homossexual, publicado como 

A  Psicogênese  de  um  Caso  de  Homossexualismo  numa  Mulher. 

Esse artigo é um marco no 

que se refere à questão da sexualidade feminina, pois indica a existência e a importância de 

uma relação amorosa anterior ao Édipo constituída pela ligação primária da menina com sua 

mãe. Como de costume, Freud inicia a construção de uma tese generalizável a partir do que a 

dita  “patologia”  lhe  indica.  Apesar  do  diagnóstico  da  jovem  paciente  de  Freud  ser  bastante 

discutido  no  meio  psicanalítico,  nota-se  que  o  conhecimento  sobre  o  pré-édipo, 

posteriormente expandido para a totalidade da sexualidade feminina, é pinçado a partir de um 

caso  clínico  contemplado  pelo  psicanalista  segundo  a  questão  homossexual,  ou  o  Édipo 

invertido. 

A  jovem  em  questão  é  levada  a  Freud  pelo  pai,  cuja  queixa  residia  nas  tendências 

homossexuais da filha de dezoito anos, que se encontrava enamorada por uma dama dez anos 

mais  velha,  de  duvidosa  reputação.  Ocupando-se  em  bajular  a  dama,  a  jovem  realizava 

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  24 

atitudes  contraditórias  em  relação  aos  pais,  sendo  ora  indiferente  em  tornar  público  seu 

encantamento,  ora  escondendo  suas  intenções  em  encontrar  o  objeto  de  amor.  Por  sua  vez, 

seus  pais  reagem  a  tal  enamoramento  de  formas  bastante  distintas:  o  pai  se  mostrando 

bastante irritado e desagradado, enquanto sua mãe se mostra tolerante, chegando mesmo a ser 

confidente da filha.  

A procura pelo tratamento foi desencadeada por uma tentativa de suicídio por parte da 

jovem, suscitada por um encontro entre seu pai e ela, quando estava na companhia da dama. 

Essa última, ao saber de quem se tratava o senhor que passara por elas com olhar furioso, fez 

uma  tentativa  de  rompimento  com  a  paciente  de  Freud,  ordenando  a  esta  que  não  mais  a 

procurasse. Logo em seguida, a jovem se jogou em direção a um muro, saltando para a linha 

ferroviária. Tal atitude influencia tanto um abrandamento da oposição dos pais em relação ao 

enamoramento  da  filha,  como  também  uma  maior  simpatia  por  parte  da  dama,  que 

anteriormente não permitia grandes aproximações. 

Com  o  material  fornecido  pela  análise,  o  psicanalista  identifica  que,  na  infância,  a 

paciente  passou  pelo  complexo  de  Édipo  normal,  tomando  o  pai  como  objeto  de  amor. 

Posteriormente, substituiu o pai pelo irmão mais velho. Na puberdade, apresentara uma feição 

especial por um menino com idade inferior a três anos, o que proporcionou o estabelecimento 

de uma amizade entre os pais deste e a jovem. Freud explica o apego a essa criança como o 

representante de um desejo edipiano normal de ser mãe, o que para o psicanalista se esvai a 

partir  da  nova  gravidez  de  sua  mãe.  O  interesse  da  jovem  se  dirige,  então,  para  mulheres 

maduras e de aparência jovem. Inicialmente, era comum que fossem mães, condição que não 

se satisfez no caso da dama. De qualquer forma, Freud inicia sua explicação a partir de uma 

revelação  feita  pela  própria  paciente,  a  de  que  a  mulher  amada  era  uma  substituta  de  sua 

própria mãe. Ao mesmo tempo, indica ainda a paciente, a figura esbelta da dama fazia com 

que  ela  se  lembrasse  do  seu  irmão  mais  velho.  Trata-se,  então,  diz  Freud,  de  uma  escolha 

amorosa baseada tanto em um ideal feminino quanto masculino, o que demonstra uma certa 

conjugação das tendências homo e heterossexuais. 

O analista, a partir dessas indicações, bem como da influência da última gravidez da 

mãe para o desenvolvimento libidinal da filha, realiza a seguinte interpretação: 

 

No exato período em que a jovem experimentava a revivescência de 

seu  complexo  de  Édipo  infantil,  na  puberdade,  sofreu  seu  grande 

desapontamento.  Tornou-se  profundamente  cônscia  do  seu  desejo  de 

possuir um filho, um filho homem; seu desejo de ter o filho de seu pai 

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  25 

e  uma  imagem  dele,  na  consciência  ela  não  podia  conhecer.  Que 

sucedeu  depois?  Não  foi  ela  quem  teve  filho,  mas  sua  rival 

inconscientemente  odiada,  a  mãe.  Furiosamente  ressentida  e 

amargurada, afastou-se completamente do pai e dos homens. Passado 

esse  primeiro  grande  revés,  abjurou  de  sua  feminidade  e  procurou 

outro  objetivo  para  sua  libido  [grifo  do  autor]  (Freud,  1996  [1920]: 

169). 

 

O Édipo vivido na infância sofre uma inversão na puberdade a partir da decepção com o pai, 

ocasionando a transformação da menina em homem e a tomada da mãe como objeto de amor. 

Como  coloca  André  (1998),  a  gravidez  da  mãe  e  a  desilusão  frente  ao  pai  são  fatores  que 

transformam  não  só  a  identidade  sexual  e  o  objeto  amoroso  da  paciente,  como  também  o 

modo de amar, que se torna caracteristicamente masculino. Na terceira parte do artigo, Freud 

faz suas observações quanto às condições de amor da jovem, quer dizer, ocupa-se daquilo que 

parece se repetir em todos os objetos de amor que a paciente tivera até então, e insiste no fato 

de que a moça nunca se apaixonara por qualquer mulher homossexual, chegando até mesmo a 

negar  as  investidas  de  uma  amiga  de  sua  idade.  Por  outro  lado,  a  má  reputação  da  dama 

amada aparece para o analista como requisito para a admiração, levando-o a valorizar ainda as 

características da singela relação estabelecida entre as duas, tais como a humildade da jovem 

frente à amada, não pedindo nada a ela, e, ao mesmo tempo, ficando satisfeita com poucos e 

pequenos  sinais  de  apreço,  além  da  completa  não-realização  de  seus  desejos  mais  sensuais. 

Freud  qualifica  tais  atitudes  amorosas  da  jovem  como  o  “tipo  masculino  de  amor”. 

Retomando  o  texto  de  1910,  Um  Tipo  Especial  de  Escolha  de  Objeto  Feita  pelos  Homens, 

reconhece  nas  fantasias  amorosas  da  moça  o  mesmo  plano  de  resgatar  e  salvar  a  mulher-

objeto de amor da má reputação, importando menos ser amada do que o papel do amante. 

Mesmo hesitante entre a hipótese de uma homossexualidade congênita ou adquirida, o 

autor  vai  fundo  em  sua  interpretação  e,  da  mesma  forma  que  explicou  o  motivo  para  que 

alguns homens fizessem essa escolha amorosa por uma mulher “cocotte”, realizou-o para sua 

jovem paciente: a corrente homossexual, que a fazia amar como um homem, provinha de uma 

fixação infantil na mãe. Possivelmente, diz Freud, os fatores externos que contribuíram para a 

intensa  fixação  materna  podem  ser  localizados  nas  negligências  da  mãe,  que  ainda  jovem 

parecia pouco disposta a “abandonar seus próprios direitos à atração”, além de tratar a filha de 

forma  inteiramente  distinta  dos  filhos,  sendo  apenas  estes  os  merecedores  de  excessivas 

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indulgências,  e  ainda  na  forte  inveja  do  pênis  sentida  pela  moça,  quando  ainda  menina 

comparou seu órgão genital com o do irmão. 

O  pai  da  paciente  aparece  em  seu  relato  como  uma  figura  central,  fazendo  parecer 

muitas  vezes  a  Freud  que  a  homossexualidade  da  moça  escondia  uma  atitude  de  desafio  e 

vingança contra ele. Se por um lado a jovem expunha muito em análise a sua relação com o 

pai, por outro lado, mostrava-se bastante reservada quanto à sua mãe, o que mais tarde será 

tido  como  prova  de  que  a  inclinação  pelo  pai  oculta  um  amor  primordial  pela  mãe.  É  essa 

linha de raciocínio aberta no texto de 1920 que será cada vez mais desenvolvido por Freud, 

até a formalização, em 1925, da chama fase pré-edípica para a caracterização da sexualidade 

feminina. 

 

As reflexões a que Freud é conduzido por esse caso comportam uma 

modificação  fundamental  do  ponto  de  vista  defendido  em  “Uma 

Criança  é  Espancada”.  E  esta  modificação  vai  permitir  resolver  o 

ponto obscuro desse texto, ou seja, a ligação entre a posição edipiana 

inicial  e  a  identificação  masculina  final.  O  caso  da  jovem 

homossexual mostra que a perversão não é simplesmente derivada do 

complexo  de  Édipo,  enquanto  fixação  paterna,  mas  que  ela  se  apóia 

sobretudo numa fixação amorosa anterior, que Freud descobre aqui – 

a fixação primária com a mãe (André, 1998: 160).  

 

Outra via de reflexão inaugurada pelo texto da jovem homossexual diz respeito à distinção e a 

independência entre “hermafroditismo físico” e “mental”. Em outras palavras, Freud sublinha 

que  o  exame  da  vida  amorosa  do  sujeito  consta  de  três  conjuntos  de  características,  os 

caracteres sexuais físicos, os caracteres sexuais mentais e, ainda, o tipo de escolha de objeto. 

A “identidade sexual” dizendo respeito à posição que adota no amor, masculina ou feminina, 

e  a  “escolha  de  objeto”  referindo-se  à  questão  “o  sujeito  ama  um  objeto  masculino  ou 

feminino?” (André, 1998: 163). 

Para Arán (2006), o caso da jovem homossexual é trabalhado por Freud a partir de um 

modelo normativo da psicanálise, já que associa em última instância a “inversão” edipiana, ou 

seja,  a  tomada  da  mãe  como  objeto  de  amor  e  a  do  pai  como  objeto  identificatório,  à 

“perversão”.  A  autora  propõe  pensar  a  radicalidade  do  relato  de  caso  justamente  no  que 

evidencia da crise do modelo da diferença sexual, ou ainda, da crise da idéia de identidade 

fixa, fato que o próprio Freud indicaria ao abandonar a questão da dama ser um homem ou 

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  27 

uma mulher para a jovem e substituí-la pela ênfase na possível disposição bissexual dos seres 

humanos. 

A  importância  da  noção  de  bissexualidade  não  está,  para  a  autora,  na  suposição  da 

existência de forças pulsionais tanto ativas quanto passivas no processo de subjetivação que, 

em  última  instância,  acabam  repercutindo  na  associação  das  primeiras  com  a  idéia  de 

masculino e das segundas com a de feminino, mas justamente na problematização constante 

que  Freud  realiza  da  noção,  deixando-a  inacabada  ao  apontar  permanentemente  para  a  sua 

complexidade. 

No caso da jovem homossexual a sugestão de uma bissexualidade universal aos seres 

humanos  serve  à  indicação  de  que  as  formas  de  subjetivação  não  podem  ser  definidas  na 

psicanálise  de  acordo  com  o  objeto  amoroso  adotado  ou  de  acordo  com o  “ser  homem”  ou 

“ser  mulher”,  mas  que  “a  escolha  de  objeto  só  pode  ser  levada  em  conta  a  partir  da 

experiência de identidade e diferença em uma narrativa singular, e não segundo um modelo 

fixo, estabelecido a priori (Arán, 2006: 89). Em outras palavras, o texto freudiano tem seu 

valor por evidenciar a crise da expectativa prescrita pelo complexo de Édipo por uma “atitude 

normal” ao feminino.  

 

 

1.3 A teoria das identificações 

 

 

    Mezan  (2006)  utiliza  como  referência  o  texto  A  Psicogênese  de  um  Caso  de 

Homossexualismo numa Mulher

 (1996 [920]) para identificar o que enumera como a terceira 

fase da conceituação do complexo de Édipo, caracterizada pela consolidação da idéia de que o 

complexo ocorre na infância, sendo revivido na puberdade. A fase seguinte é inaugurada pela 

relação estabelecida entre o Édipo e a castração, ou seja, pela introdução do conceito de fase 

fálica,  em  A  Organização  Genital  Infantil,  de  1923.  A  grande  marca  dessa  evolução  de 

pensamento  é  o  rompimento  com  a  idéia  de  que  os  Édipos  masculino  e  feminino  são 

simétricos, tese que proporcionava a utilização do esquema masculino como modelo para o 

caso feminino, conforme o artifício do mutadis mutandis: a inversão do sexo do progenitor, 

repetindo-se a mesma estrutura. Segundo essa teoria que vai sendo ultrapassada, o complexo 

se  reduzia  a  um  primeiro  tempo,  de  identificação  com  o  progenitor  de  mesmo  sexo  e  um 

segundo  tempo,  em  que  ocorre  a  primeira  escolha  de  objeto,  sendo  esta  baseada  na 

“modalidade de apoio”, nas pulsões de autoconservação. 

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  28 

Desde  o  princípio,  a  identificação  comporta  uma  ambigüidade,  enfatizada  por  Freud 

em 1921 no texto Psicologia de Grupo e Análise do Ego, o que possibilita a sua manifestação 

de  duas  formas:  por  um  lado,  a  identificação  pode  ser  expressa  como  carinho,  caso  seja 

proveniente do Eros, ou como hostilidade, caso seja determinada pela pulsão de morte. Nesse 

último  caso  o  desejo  de  destruição  do  objeto,  com  base  na  incorporação,  envolve 

necessariamente a conservação do mesmo por ingestão. Assim, declara Freud, a rivalidade do 

menino frente ao pai não elimina o afeto, mas, pelo contrário, produz um conflito entre essas 

duas faces da identificação. 

 

A  identificação,  na  verdade,  é  ambivalente  desde  o  início;  pode 

tornar-se expressão de ternura com tanta facilidade quanto um desejo 

de  afastamento  de  alguém.  Comporta-se  como  um  derivado  da 

primeira fase da organização da libido, da fase oral, em que o objeto 

que prezamos e pelo qual ansiamos é assimilado pela ingestão, sendo 

dessa  maneira  aniquilado  como  tal  [grifo  do  autor]  (Freud,  1996 

[1921]: 115). 

 

A compreensão do quadro clínico da melancolia, descrito em 1917, em Luto e Melancolia, dá 

subsídios para o autor construir em 1923, em O Ego e o Id, um sistema explicativo acerca do 

modo como os investimentos da criança em relação aos pais são abandonados e substituídos 

por identificações que a estruturam psiquicamente.  

 

O Édipo aparece assim como o estruturador do caráter, o que equivale 

a dizer que, por meio da identificação – que o origina e que se segue a 

ele – impõe ao ego um destino peculiar (Mezan, 2006: 280). 

 

A  tese  central  de  Freud  em  1917  é  a  de  que  a  identificação  melancólica  ocorre  em 

conseqüência de uma perda objetal, em que a libido que esteve investida no objeto, a partir de 

sua perda, é retraída em direção ao ego. Trata-se de um mecanismo em que o objeto perdido é 

introjetado no ego, o que, em 1923, aparecerá como um destino possível às escolhas de objeto 

edipianas.  Em  O  Ego  e  o  Id,  o  autor  declara  que  o  “caráter  do  ego  é  um  precipitado  de 

catexias objetais abandonadas e que ele contém a história dessas escolhas de objeto (Freud, 

1996 [1923]: 42). O ego é moldado conforme aquele que foi tomado como modelo pela via da 

identificação. 

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  29 

Mezan  (2006)  indica  o  texto  O  Ego  e  o  Id  como  fundamental  para  a  introdução  da 

fratura  que  distingue  os  Édipos,  pois  aqui  Freud  trabalhou  a  diferença  sexual  segundo  a 

seguinte  elaboração:  a  identificação  presente  no  Édipo  masculino  não  coincide  com  o 

processo de “retenção de um objeto perdido”, a escolha do pai como modelo identificatório 

necessariamente  exclui  a  escolha  do  pai  como  objeto  de  desejo  e  vice-versa.  Isso  significa 

que, no caso masculino, há um entrecruzamento entre a identificação e o objeto de amor, sem 

a possibilidade de que coincidam sobre o mesmo progenitor. 

Tal  cruzamento  será  foco  de  críticas  por  parte  de  Butler  (2002),  pois,  a  seu  ver, 

evidencia a matriz heterossexual da teoria psicanalítica, que faz com que a diferença sexual 

entre o modelo identificatório e objeto de amor seja um pressuposto teórico. 

Já  no  Édipo  feminino  a  identificação,  cujo  processo  patológico  da  melancolia  é  o 

protótipo, não só é possível, como costuma ser freqüente. A perda de um objeto de amor pode 

promovê-lo  a  modelo  identificatório,  tese  que  poderia  supor  um  destino  homossexual  aos 

casos  em  que  o  pai  é  o  objeto  de  desejo  perdido,  porque  tal  perda  proporcionaria  uma 

identificação com o pai e uma conseqüente escolha de objeto segundo o modelo masculino de 

identidade.  

 

Juntamente com a demolição do complexo de Édipo, a catexia objetal 

da mãe, por parte do menino, deve ser abandonada. O seu lugar pode 

ser preenchido por uma de duas coisas: uma identificação com a mãe 

ou  uma  intensificação  de  sua  identificação  com  o  pai.  [...]  Essas 

identificações não são o que esperaríamos

5

, visto que não introduzem 

no  ego  o  objeto  abandonado,  mas  este  desfecho  alternativo  também 

pode  ocorrer,  sendo  mais  fácil  observá-lo  em  meninas  do  que  em 

meninos. A análise muito amiúde mostra que uma menininha, após ter 

de abandonar o pai como objeto de amor, colocará sua masculinidade 

em proeminência e identificar-se-á com seu pai (isto é, com o objeto 

que foi perdido), ao invés da mãe [parênteses do autor] (Freud, 1996 

[1923b]: 45). 

 

Mezan (2006) lembra que, segundo a tese das equivalências simbólicas de Freud descrita em 

1917, no texto As Transformações do Instinto Exemplificadas no Erotismo Anal, o desejo de 

                                                 

5

 O autor se refere às identificações tais como ocorrem na melancolia. 

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  30 

uma  mulher  de  ser  um  homem,  ou  de  ter  um  falo,  pode  ser  deslocado  para  os  desejos 

substitutivos  de  possuir um  homem  ou  de ter  um  filho,  ambos  equivalentes  a  ter  o  falo.  O 

autor localiza na relação entre o tipo de processo identificatório e o complexo de Édipo uma 

teoria que abarca a questão da diferença sexual, aqui enunciada a partir da constatação de que 

o modelo do mecanismo identificatório é distinto em cada um dos Édipos, o masculino e o 

feminino. 

Se essa conclusão não aparece tão claramente no texto freudiano, ou se Freud não lhe 

confere  tanto  valor  é  porque,  relata  Mezan  (2006),  a  introdução  da  questão  sobre  a 

bissexualidade  apaga  aquela  sobre  a  diferença  sexual.  Nesse  momento,  a  bissexualidade  se 

coloca como uma noção importante frente ao Édipo, primeiramente por causa do seu modelo 

completo,  em  que  o  amor  e  a  rivalidade  recaem  sobre  ambos  os  progenitores.  Ao  mesmo 

tempo,  Freud  se  utiliza  da  idéia  de  que  tendências  masculinas  e  femininas  se  equilibram 

através  do  privilégio  de  uma  sobre  a  outra  em  uma  tentativa  de  explicar  o  modo  como  um 

Édipo complexo se desenrola em uma identidade sexual definitiva. 

As  equivalências  simbólicas  que  parecem  dirigir  os  destinos  do  complexo  feminino 

são  identificadas  por  Butler  (2002)  como  um  modelo  prescritivo  de  comportamentos.  Se  a 

interpretação de Mezan (2006) pode ser levada adiante, então, a diferenciação entre os tipos 

de  mecanismos  identificatórios  acabam  por  prescrever  comportamentos  de  gêneros  sob  um 

discurso  baseado  na  diferença  sexual.  Tanto  é  que  os  destinos  traçados  para  a  sexualidade 

feminina correspondem aos ideais modernos de feminilidade, o casamento e a maternidade. 

 

 

1.4 A primazia do falo 

 

 

O deslocamento do complexo de Édipo para o período da primeira infância exige por 

parte de Freud uma reformulação sobre a sexualidade infantil, o que traz duas consequências 

interessantes  para  o  desenvolvimento  da  psicanálise.  Primeiramente,  assume-se  que  a 

sexualidade  infantil  não  se  exime  de  uma  escolha  de  objeto,  que  na  teoria  anterior  era 

reservada apenas à puberdade. Introduz-se também a idéia de que a criança apresenta desde 

cedo  interesse  pelos  órgãos  sexuais;  observação  que  levará  Freud  a  formular  considerações 

importantes sobre o encontro da criança com o outro sexo. A constatação de tal interesse pela 

genitalidade, ao contrário do que se possa supor, desencadeia uma releitura freudiana acerca 

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  31 

da noção de diferença sexual, dissociando-a da diferença simplesmente anatômica dos sexos, 

mas referindo-a primordialmente ao chamado complexo de castração. 

Freud inicia o artigo de 1923, A Organização Genital Infantil, situando as teses sobre 

as  quais  discorrerá  como  um  adendo  ao  trabalho  de  1905,  Três  Ensaios  sobre  a  Teoria  da 

Sexualidade.

  Rompendo  com  a  sua  posição  de  então,  provoca  uma  aproximação  das 

sexualidades infantil e adulta a partir de dois argumentos, um deles acrescentado por nota de 

rodapé às edições dos Três Ensaios posteriores a 1915; e que trata da constatação de que há 

escolha de objeto mesmo na infância. 

 

A  escolha  de  objeto,  tal  como  mostramos  ser  característica  da  fase 

puberal  do  desenvolvimento,  já  foi  freqüente  ou  habitualmente  feita 

durante os anos de infância: isto é, a totalidade das correntes sexuais 

passou  a  ser  dirigida  para  uma  única  pessoa  em  relação  à  qual  elas 

buscam  alcançar  seus  objetivos  (Freud,  1996  [1905]:  205;  [1923a]: 

157). 

  

As  formulações  em  torno  da  escolha  objetal  assumem  um  espaço  importante  no  debate 

contemporâneo  sobre  o  dispositivo  da  diferença  sexual,  pois,  para  alguns  autores,  é  em 

relação  à  questão  da  escolha  de  objeto  que  a  teoria  psicanalítica  adquire  sua  faceta  mais 

normativa, tendo em vista que prescreve uma coerência heterossexual entre identidade sexual 

e desejo.   

A outra observação que  coloca  em xeque a dualidade da sexualidade em  duas fases, 

uma infantil e outra adulta, é a de que as crianças demonstram ter interesses por seus órgãos 

genitais  e  que  a  atividade  destes  adquire  uma  significação  dominante  para  elas.  A 

possibilidade dessa constatação, não reconhecida anteriormente, abre um novo caminho para a 

distinção sexual, pois, logo em seguida, Freud sustenta que 

 

[a]o  mesmo  tempo,  a  característica  principal  dessa  “organização 

genital infantil” é sua diferença da organização genital final do adulto. 

Ela  consiste  no  fato  de,  para  ambos  os  sexos,  [sic]  entra  em 

consideração  apenas  um  órgão  genital,  ou  seja,  o  masculino.  O  que 

está presente, portanto, não é a primazia dos órgãos genitais, mas uma 

primazia do falo [grifos do autor] (Freud, 1996 [1923a]: 158). 

 

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  32 

O  desconhecimento  sobre  os  “processos  correspondentes  na  menina”  justifica  a  restrição  à 

vivência  masculina  do  encontro  com  o  órgão  genital  feminino.  O  menino  entraria  na  fase 

fálica da seguinte forma: é natural que a criança presuma a existência de um órgão análogo ao 

seu  em  todos  os  seres,  vivos  ou  não.  Ao  se  deparar  com  a  ausência  de  pênis  da  menina, 

esforça-se  por  enquadrá-la  em  sua  preconcepção,  mesmo  que  isso  signifique  rejeitar  a 

observação da falta do pênis. Diz, então, que o pênis é pequeno e que ele crescerá. A partir de 

uma  elaboração  que  envolve  o  ego,  o  menino  passa  a  associar  a  ameaça  de  castração  que 

dirigem  a  ele  e  a  sua  atividade  masturbatória  à  imagem  da  ausência  do  pênis  da  menina, 

interpretando  que  essa  criança  teve  um  pênis,  mas  que,  por  punição,  esse  foi  retirado.  Ele 

passa a se defrontar, então, com a possibilidade de sua própria castração. 

Na fase fálica, o menino não reconhece o órgão genital de uma menina pela lógica da 

diferença de órgãos sexuais. Após elaborar a vivência de uma ameaça de castração, ou ainda a 

partir da constatação de que se encontra em um lugar de menor poder frente ao adulto, a visão 

do órgão feminino será reconhecido pelo menino como prova da castração. Neste momento, a 

criança do sexo masculino interpreta a distinção sexual a partir da polaridade fálico/castrado. 

A  impossibilidade  de  conceber  o  órgão  feminino  positivamente,  em  sua  diferença,  e 

não  apenas  em  referência  ao  falo,  faz  com  que o  menino  não  generalize  a  castração  para  o 

conjunto total das mulheres. Tem ainda a imagem de que sua mãe seja fálica e possuidora de 

pênis, enquanto que  as  mulheres que merecem  seu desprezo perderam  o pênis. A lógica da 

punição  não  leva  em  consideração  o  caráter  sexual  da  diferença  e  faz  com  que  o  menino 

divida os seres humanos em fálicos e castrados de forma que do primeiro podem participar 

tanto  homens  quanto  mulheres;  o  que  inaugura  na  teoria  freudiana  a  desigualdade  entre  as 

antíteses homem/mulher e fálico/castrado.  

 

As  mulheres  “boas”  possuem  pênis;  sobretudo  a  mãe  não  pode  ser 

concebida sem este atributo essencial da condição humana. As teorias 

sexuais  infantis  acerca  da  origem  dos  bebês  não  têm  lugar  para  o 

parto; como vimos, a criança é segundo elas expelida pelo ânus. Daí 

que a antítese essencial não seja a do masculino e do feminino, já que 

a mulher não é imaginada segundo um esquema corporal que lhe seja 

próprio;  a  oposição  só  pode  ser  colocada  em  termos  do  fálico  e  do 

castrado (Mezan, 2006: 283). 

 

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  33 

Como  vemos,  Freud  descreve  uma  impossibilidade  de  que  o  menino  generalize  o  sexo 

“castrado”  para  o  grupo  das  mulheres  como  um  todo.  Somente  mais  tarde,  quando  percebe 

que apenas as mulheres podem ter bebês é que sua mãe “perde o pênis”, gerando na criança 

idéias que subentendem uma troca entre pênis e bebê. A noção de castração, embora não seja 

nova em si, ganha a partir de então uma centralidade teórica importantíssima no que se refere 

à  vida  sexual  do  sujeito,  ressaltada  em  sua  articulação  com  a  fase  fálica  e  o  complexo 

edipiano. 

Para alguns autores (Birman, 1999; Arán, 2006), o complexo de castração sucumbe ao 

paradigma masculino da sexualidade, tendo em vista que a referência fálica para os dois sexos 

prescreve a crença em uma superioridade por parte daquele que possui o pênis, e o confunde 

com o falo, e uma inferioridade por parte das mulheres, fonte inesgotável da inveja do pênis. 

Ter  ou  não  ter  o  falo  e  os  seus  atributos,  seria  essa  a  questão  que  dividiria  o  mundo  dos 

sexos e dos gêneros” [grifos do autor] (Birman, 1999: 11). A polaridade fálico/castrado seria 

uma nova roupagem para o modelo do dimorfismo sexual, tal como delimitado por Laqueur 

(2001). 

Enquanto Freud insere a polaridade fálico/castrado no âmbito das explicações sexuais 

infantis, para Arán (2006), a ênfase freudiana na primazia do falo revela uma teoria em que 

não  se  reconhece  o  feminino  em  sua  diferença,  já  que  o  mesmo  ganha  sua  inteligibilidade 

sempre  em  uma  relação  de  dependência  ao  que  se  entende  como  sexo  masculino.  As 

conseqüências dessa teoria repercutem nas determinações negativas da sexualidade feminina, 

que não é pensada senão com a condição de concernir à outra posição sexuada.   

A  teorização  da  fase  fálica  e  do  complexo  de  castração  provoca  um  afastamento  da 

distinção  sexual  da  diferença  anatômica  entre  homens  e  mulheres,  o  que  gera  uma 

reformulação  das  teses  sobre  a  sexualidade  feminina.  Em  A  Dissolução  do  Complexo  de 

Édipo, 

de 1924, Freud se deterá com especial ênfase sobre os cursos distintos que seguem os 

meninos e as meninas quanto ao complexo de Édipo. 

O texto se inicia com o autor se questionando sobre quais fatores contribuem para a 

dissolução do Édipo, nesse sentido o artigo dá continuidade ao capítulo III do O Ego e o Id 

(1996  [1923b]).  Nesses  dois  momentos,  Freud  concebe  o  destino  do  complexo  edipiano 

através da idéia de dissolução, uma destruição completa que não necessita do mecanismo de 

repressão,  pois,  tendo  em  vista  que  este  é  sempre  ineficaz,  a  transferência  dos  conteúdos 

edipianos  para  o  domínio  do  inconsciente  subentende  a  possibilidade  de  seu  retorno.  Além 

disso,  uma  impossibilidade  teórica  se  coloca.  No  texto  de  1923,  o  autor  defende  que  as 

catexias  de  objeto  do  complexo  são  abandonadas  e  substituídas  por  identificações.  Através 

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  34 

destas, se forma o núcleo do superego, responsável a partir de então por assumir a severidade 

anteriormente atribuída ao pai e por garantir a proibição do incesto. Como sustentar que o ego 

se  afasta  dos  conflitos  edipianos  pela  via  da  repressão  se  foi  dito  que  esse  mecanismo  tem 

grande participação do superego que, no caso, está ainda em formação? Freud sustenta, assim, 

a idéia de que há esses dois destinos para o complexo, a dissolução e a repressão, sendo que a 

distância entre eles é pontuada como a distinção entre o normal e o patológico: “se o ego, na 

realidade, não conseguiu muito mais que uma repressão do complexo, este persiste em estado 

inconsciente no id e manifestará mais tarde seu efeito patogênico” (Freud: 1996 [1924]: 197). 

Como fatores que influenciam a dissolução do Édipo, Freud sinaliza a impossibilidade 

interna do complexo, a ausência da satisfação esperada, como também a hereditariedade. Não 

deixando de se questionar pelas variáveis onto e filogenéticas, em termos psíquicos, o autor 

coloca os termos da seguinte forma: a castração é o que destrói a fase fálica e o que permite 

ao Édipo sucumbir à regressão e ao período de latência.     

Segundo  Mezan  (2006),  o  complexo  de  castração  adquire  sua  importância  quando 

Freud inaugura a idéia de que o órgão masculino não é somente instrumento de diferenciação 

do menino entre si e os outros, mas adquire um valor simbólico de definir o sujeito. 

 

O pênis não pode ser visto como simples órgão reprodutor ou gerador 

de  prazer:  prova-o  a  cadeia  simbólica  que  o  toma  como  ponto  de 

partida  para  as  equivalências  inconscientes  (crianças,  fezes  e 

dinheiro). É na ordem simbólica que reside o sentido do complexo de 

castração,  como  o  de  complexo  de  Édipo  [parênteses  do  autor] 

(Mezan, 2006: 284). 

 

O pênis possui para o menino um valor narcisista e, por isso a conversão do órgão à idéia de 

falo. A ameaça de castração realizada por algum adulto coloca em xeque o interesse narcisista 

do  menino  por  seu  órgão  sexual,  fazendo  surgir  aí  um  conflito  pulsional:  por  um  lado,  a 

possibilidade da castração como ameaça de ferida narcísica, por outro lado, as pulsões do id 

do menino insistem nos investimentos libidinais dos objetos parentais. Trata-se, então, de um 

conflito  entre  o  narcisismo  do  ego,  interessado  em  manter  o  falo,  e  as  pulsões  do  id, 

expressando  os  desejos  incestuosos.  Como  escreve  Freud,  “nesse  conflito,  triunfa 

normalmente  a  primeira  dessas  forças:  o  ego  da  criança  volta  as  costas  ao  complexo  de 

Édipo” (Freud, 1996 [1924]: 196). 

 

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  35 

1.5 O feminino como impasse 

 

 

Tendo até aqui, mais uma vez, baseado-se no complexo edipiano masculino, Freud se 

pergunta o que esperar da fase fálica e do complexo de castração no caso da menina, tendo em 

vista  que  também  o  sexo  feminino  desenvolve  um  complexo  de  Édipo,  um  superego  e  um 

período de latência. O que está em jogo nessa indagação é o pressuposto de que a diferença 

anatômica  dos  sexos  acarreta  conseqüências  psíquicas  distintas,  que  podem  ser  melhor 

localizadas por Freud justamente na etapa da organização sexual infantil. 

Antes  do  encontro  da  menina  com  o  órgão  sexual  masculino,  o  clitóris  funciona  tal 

como  um  pênis.  A  partir  da  percepção  do  órgão  masculino,  a  menina  não  encontra  uma 

explicação  sexual  para  a  ausência  do  pênis  em  seu  corpo,  construindo  uma  primeira 

explicação em torno da idéia de que perdeu o órgão por punição. A criança do sexo feminino 

vive a etapa fálica da mesma forma que o menino, dividindo os seres humanos em fálicos e 

castrados,  sendo  que  essa  dualidade  se  baseia  em  uma  lógica  punitiva,  e  não  em  uma 

explicação sexual. No entanto, o que para o menino é apenas uma ameaça, para a menina é 

um fato consumado: a castração. 

Como Freud havia sinalizado, é o horror à castração suscitado pelo interesse narcisista 

em  manter  o  pênis,  que  provoca  o  afastamento  do  menino  de  seus  desejos  edipianos.  Se  a 

castração  é  vivida  como  uma  realidade  pela  menina,  como  explicar  a  dissolução  de  seu 

complexo pela via do medo da castração? 

 

Estando assim excluído, na menina, o temor da castração, cai também 

um motivo poderoso para o estabelecimento de um superego e para a 

interrupção  da  organização  genital  infantil.  Nela,  muito  mais  que  no 

menino,  essas  mudanças  parecem  ser  resultado  da  criação  e  de 

intimidação oriunda do exterior, as quais a ameaçam com uma perda 

de amor (Freud, 1996 [1924]: 198). 

  

Mesmo indicando aqui a função de ameaça da perda de amor para a interrupção da ligação 

incestuosa  da  menina,  em  1925,  no  artigo  Algumas  Conseqüências  Psíquicas  da  Distinção 

Anatômica entre os Sexos, 

Freud ainda questionará a motivação da menina para se afastar do 

complexo  edipiano,  tendo  em  vista  que  a  diferença  anatômica  entre  meninas  e  meninos 

provoca situações psíquicas distintas, uma ferida narcísica executada e outra ameaçada, que 

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  36 

não podem ser explicadas através de uma correspondência paralela. O autor sustenta, então, 

que  o  complexo  de  castração  na  menina  tem  uma  outra  função,  distinta  daquela 

desempenhada no modelo masculino. 

 

Enquanto,  nos  meninos,  o  complexo  de  Édipo  é  destruído  pelo 

complexo de castração, nas meninas ele se faz possível e é introduzido 

através do complexo de castração (Freud, 1996 [1925]: 285). 

 

A castração, no caso feminino, precede o Édipo e o prepara, o que, para Freud, indica que o 

complexo  edipiano,  no  caso  das  meninas,  é  uma  formação  secundária,  possui  uma  pré-

história.  A  construção  dessa  tese  é  justificada  também  por  uma  outra  característica  da 

sexualidade feminina, o deslocamento necessário do objeto de amor da mãe para o pai. 

O objeto a ser  catexizado pelo menino em sua situação edipiana, a mãe, assim o foi 

desde o período em que a criança era amamentada e cuidada. Por esse mesmo motivo, a mãe 

também é o objeto original ao qual a menina se vincula, período que constitui a pré-história 

do  Édipo  feminino  e  que  será  mais  enfaticamente  descrito  nos  anos  posteriores.  Nesse 

momento, Freud se empenha em relacionar a castração da menina a uma ferida narcísica que a 

leva à “inveja do pênis”. A menina, ao se deparar com o órgão masculino e ao perceber que 

não o possui, “toma sua decisão num instante” e “quer tê-lo”, o que deflagra um sentimento 

de desprezo pelo sexo feminino. 

Em contraposição às conseqüências da teoria da primazia do falo para a sexualidade 

feminina, David-Ménard (1998) defende que a lógica da castração não se aplica à sexualidade 

feminina.  Ou  melhor,  o  falo  não  pode  ser  definido  como  emblema  de  todo  acesso  à 

simbolização do desejo, pois a mulher simboliza a renúncia a um objeto não apenas através do 

cenário  da  castração  e  da  perda  de  uma  parte  do  corpo,  mas  também  a  partir  de  outras 

diferentes representações.  

A vivência do gozo feminino faz com que as mulheres saibam que o pênis não é o falo, 

enquanto que a confusão entre os dois é, de princípio, uma experiência masculina. A autora 

começa  a  delimitar,  assim,  uma  perspectiva  que,  por  não  recobrir  pênis  e  falo,  recoloca  a 

perda do processo de simbolização dissociada da problemática do objeto, o que permite uma 

leitura acerca do feminino independente de sua relação com o masculino. 

Enquanto  isso,  em  Freud,  a  inveja  do  pênis  aparece  como  um  fator  essencial  para  o 

afrouxamento  do  laço  da  menina  com  sua  mãe,  tendo  em  vista  que  essa  última  passa  a  ser 

responsabilizada pela sua falta do pênis. Mezan (2006) sinaliza que essa hipótese construída 

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  37 

pela filha ainda está de acordo com a teoria sexual infantil de que sua mãe possui um pênis, de 

forma que a ausência desse último ainda não está relacionada ao sexo das mulheres como um 

todo, não está relacionada a uma diferença de cunho sexual. Em princípio, a criança encara a 

castração como um infortúnio peculiar a ela própria, de forma que só mais tarde compreende 

que se trata de uma situação que se estende a outras crianças e também a adultos. 

A reivindicação de ser recompensada pela falta do pênis dirige a menina ao desejo de 

ter  um  filho;  finalidade  a  partir  da  qual  toma  o  pai  como  objeto  de  amor.  A  tomada  do 

progenitor  de  sexo  oposto  como  objeto  é  também  possível  porque  ele  é  percebido  como 

alguém  que  tem  o  pênis  e  que,  além  disso,  nada  tem  a  ver  com  a  formação  dos  bebês  e, 

conseqüentemente,  com  a  falta  de  pênis  que  ela  própria  carrega  (Mezan,  2006:  288).  É  o 

narcisismo  ferido  que  motiva  a  troca  objetal  e  que  transforma  a  menina  em  uma  pequena 

mulher. 

A crítica dos pós-freudianos aos destinos formulados por Freud em relação ao Édipo 

feminino parte da leitura de que corresponderiam aos ideais do gênero feminino vigentes na 

modernidade: o da maternidade e do casamento. A sexualidade feminina só é reconhecida no 

desejo  de  ter  um  filho  e  no  de  ter  um  homem,  sendo  os  demais  destinos  traçados  como 

patológicos.  

Nunes (2000) discute o quanto as noções de castração e de inveja do pênis colocam a 

mulher em uma posição inferior ao homem, ignorando os aspectos fecundo e criador do corpo 

feminino. Explicar o sentimento de menos-valia das mulheres e a desvalorização das mesmas 

pelos  homens  como  conseqüência  da  visão  do  órgão  feminino  é,  para  a  autora,  basear  a 

diferença  de  gênero  no  fator  da  distinção  sexual  anatômica.  Se,  por  um  lado,  Freud 

desnaturaliza o ser mulher, demonstrando que há um percurso importante até que a menina se 

constitua mulher e que tal destino não é garantido pela anatomia, por outro lado, adota como 

“verdadeiras” certas soluções para a inveja do pênis, o que adquire um aspecto normativo. 

Ainda em Freud, mais um deslocamento é necessário para que a menina caminhe em 

direção  à  feminilidade:  a  substituição  da  sexualidade  clitoridiana,  associada  por  Freud  à 

atividade e, conseqüentemente, à posição masculina, pela primazia da vagina, relacionada à 

passividade  e  à  feminilidade.  As  antíteses  clitóris/vagina,  atividade/passividade  e 

masculino/feminino  se  confundem,  traçando  uma  direção  pré-determinada  para  a 

feminilidade, a da “passivização”.  

A  tese  de  que,  na  puberdade,  a  repressão  afetaria  a  sexualidade  clitoridiana,  dando 

lugar  à  vagina  como  principal  órgão  sexual,  é  comentada  por  Laqueur  (2001)  como  uma 

formulação comprometida em defender a diferença a partir da complementaridade entre pênis 

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  38 

e vagina, além das finalidades sociais das mulheres e dos homens. A seu ver, Freud se esforça 

por disfarçar de discurso anatômico a diferença de gênero do século XIX. 

Em  1931,  em  Sexualidade  Feminina,  Freud  defende  mais  enfaticamente  que  a  vida 

sexual da mulher é dividida em duas fases, a primeira correspondendo à etapa pré-edipiana, 

em  que  a  mãe  é  objeto  de  amor,  e  a  segunda  correspondendo  ao  Édipo,  em  que  a  menina 

substitui a mãe como objeto pelo pai.  A menina  atravessa o Édipo  em seu caráter negativo 

para,  só  depois,  introduzir-se  em  seu  modelo  positivo.  A  clínica  de  Freud  o  auxiliou  a 

constatar  que  toda  a  intensidade  característica  do  vínculo  com  o  progenitor  paterno  é  uma 

herança  da  ligação  anterior  com  a  mãe.  Nesse  artigo,  o  autor  sublinha  a  relevância  dessa 

ligação  originária  da  menina  tanto  em  força  quando  em  seu  tempo  de  duração,  mas  é  na 

Conferência  XXXIII 

(Freud,  1996  [1933])  que  Freud  melhor  sistematiza  toda  a  sua 

compreensão sobre a sexualidade feminina, embora ainda declare considerar tal conhecimento 

incompleto. 

A fase fálica é caracterizada por um paralelo entre meninos e meninas, pois a atividade 

masturbatória do clitóris, típica dessa etapa do desenvolvimento libidinal, equivale ao pênis, 

enquanto a vagina se encontra desconhecida para ambos os sexos. Freud chega a dizer que a 

menina  é,  nesse  momento,  um  homenzinho,  e  que  a  diferença  sexual  ainda  está  eclipsada 

pelas semelhanças (Freud, 1996 [1933]: 118). Outra aproximação entre os sexos encontrada é 

o  tipo  de  catexia  objetal  realizada,  que  desde  o  início  e  até  então  ocorre  em  função  das 

necessidades vitais, as crianças de ambos os sexos iniciam suas catexias tomando a mãe como 

escolha objetal. 

 Enquanto o menino precisa apenas manter sua mãe como objeto e o pênis como zona 

erógena  privilegiada  desde  suas  primeiras  catexias  objetais,  para  atingir  a  feminilidade,  a 

menina  deve,  por  sua  vez,  realizar  duas  substituições:  a  de  zona  erógena  e  a  de  objeto.  A 

menina precisa, diz Freud, mudar de sexo; e, ao mudar de sexo, muda também o sexo de seu 

objeto de desejo. Fazendo uma escolha de objeto paterna, a menina se transforma, assim, em 

uma pequena mulher e entra no Édipo. Mais uma vez, vemos Freud reforçar  a idéia de um 

destino verdadeiramente feminino. 

A  motivação  para  tais  substituições,  sinaliza  Freud,  é  justamente  a  vivência  do 

complexo  de  castração,  ou  seja,  a  expressão  psíquica  da  diferença  sexual  anatômica.  Ao 

perceber  a  falta  de  pênis  que  lhe  cabe,  sente-se  injustiçada  e  responsabiliza  a  mãe  por  tal 

injustiça. Até esse momento, entende a ausência de pênis como uma deficiência própria, pois 

crê ainda que sua mãe seja fálica. Ao perceber que sua mãe é castrada, afasta-se dela e toma o 

pai,  fálico,  como  objeto  de  amor,  desejando  receber  dele  o  pênis  que  sua  mãe  lhe  recusou. 

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Através de uma equivalência simbólica primitiva, a menina substitui o desejo de receber um 

pênis pelo desejo de receber um bebê. E aí se inicia a situação edipiana da menina. 

 

Num  menino,  o  complexo  de  Édipo,  no  qual  ele  deseja  a  mãe  e 

gostaria de eliminar o pai, por ser este um rival, evolui naturalmente 

da fase de sexualidade fálica. A ameaça de castração, porém, impele-o 

a abandonar essa atitude. Sob a impressão do perigo de perder o pênis, 

o  complexo  de  Édipo  é  abandonado,  reprimido  e,  na  maioria  dos 

casos,  inteiramente  destruído,  e  um  severo  superego  instala-se  como 

seu herdeiro. O que acontece à menina é quase o oposto. O complexo 

de castração prepara para o complexo de Édipo, em vez de destruí-lo; 

a  menina  é  forçada  a  abandonar  a  ligação  com  a  mãe  através  da 

influência de sua inveja do pênis, e entra na situação edipiana como se 

esta fora um refúgio (Freud, 1996 [1933]: 128/129). 

 

Motivado pelo material clínico de suas pacientes mulheres, o autor se detém sobre a qualidade 

da  relação  pré-edipiana  da  menina  com  sua  mãe,  sublinhando  o  quanto  essa  etapa  deixa 

grandes  oportunidades  para  fixações  e  disposições,  inclusive  marcando  com  sua  impressão 

não só a relação edipiana da menina com seu pai, mas também com seu marido. 

A relação pré-edipiana atravessa as três fases da sexualidade infantil, constituindo-se 

tanto de desejos orais, quanto sádico-anais e fálicos. Em paralelo, há tantos impulsos ativos 

quanto  passivos  atravessando  tal  relação  e,  principalmente,  uma  grande  quantidade  de 

ambivalência.  Tal  quadro  faz  com  que  Freud  relembre  a  época  dos  seus  estudos  sobre  a 

histeria,  quando  todas  as  suas  pacientes  relatavam  ter  sofrido  uma  sedução  por  parte  do 

próprio pai. Agora, o analista coloca a fase pré-edipiana da menina como o ponto em que a 

fantasia “toca o chão da realidade”. 

 

E  agora  encontramos  mais  uma  vez  a  fantasia  de  sedução  na  pré-

história pré-edipiana das meninas; contudo, o sedutor é regularmente a 

mãe.  Aqui,  a  fantasia  toca  o  chão  da  realidade,  pois  foi  realmente  a 

mãe  quem,  por  suas  atividades  concernentes  à  higiene  corporal  da 

criança,  inevitavelmente  estimulou  e,  talvez,  até  mesmo  despertou, 

pela  primeira  vez,  sensações  prazerosas  nos  genitais  da  menina 

(Freud, 1996 [1933]: 121). 

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Não é à toa que a experiência de sedução retorna incessantemente na clínica de Freud. Mas, 

agora, após um longo percurso teórico e clínico, o autor pode colocá-la em outros termos: “as 

primeiras  experiências  sexuais  e  sexualmente  coloridas  que  uma  criança  tem  em  relação  à 

mãe  são,  naturalmente,  de  caráter  passivo”  (Freud,  1996  [1931]:  244).  Ao  ser  alimentada, 

vestida  e  limpa  pela  mãe,  a  criança  desfruta  de  satisfações,  ao  mesmo  tempo  em  que  uma 

parte de sua libido se esforça por transformá-las em atividade. E, aqui, a vivência da menina 

encontra  uma  certa  similaridade  com  a  vivência  masculina,  não  havendo,  então,  nessa  fase 

libidinal oral uma distinção entre masculino e feminino. 

Segundo  Freud  relata  em  1923,  no  texto  A  Organização  Genital  Infantil,  é  somente 

com o advento da puberdade que a oposição sexual coincide com a divisão entre masculino e 

feminino,  encontrando-se  relacionada  a  outras  polaridades  conforme  a  etapa  do 

desenvolvimento  libidinal  infantil.  Se  na  fase  oral  não  há  representação  para  a  diferença 

sexual,  na  etapa  sádico-anal  ela  aparece  em  torno  do  dualismo  atividade/passividade. 

Posteriormente,  na  fase  fálica,  a  polaridade  sexual  representa-se  a  partir  do  par 

fálico/castrado,  para,  só  em  seguida,  na  puberdade,  relacionar-se  com  o  masculino  e  o 

feminino. 

De  acordo  com  essa  declaração,  a  anatomia  sexual  não  se  configura  como  o  fator 

preponderante para o desenvolvimento sexual do sujeito e para a aquisição de uma identidade 

sexual, tese especialmente divulgada na obra freudiana a partir da sexualidade feminina. Se, 

em  1919,  o  autor  se  surpreendia  com  a  feminilidade  sucumbindo  ao  complexo  de 

masculinidade  no  quadro  fantasmático  das  meninas,  em  1933,  o  autor  declara  ser  a  menina 

pequena um homenzinho para, só posteriormente, trocar de sexo e tornar-se mulher. A idéia 

de que não se nasce mulher, mas de que torna-se mulher é reconhecida no meio psicanalítico 

por indicar que a assunção da identidade sexual se dá a partir de elaborações psíquicas, não 

podendo ser pré-determinada pelo órgão sexual biológico. 

Mesmo  tendo  as  teorias  freudianas  em  torno  do  complexo  de  Édipo  o  mérito  de 

complexificar  o  conceito  de  sexualidade  e  de  demonstrá-la  como  uma  noção  polissêmica, 

guardam  resquícios  importantes  do  modelo  do  dimorfismo  sexual,  cujas  conseqüências 

passam  pela  reprodução  das  normas  de  gênero  tradicionais.  Nesse  sentido,  as  teses  que 

circundam o complexo edipiano vem sendo resgatadas por leituras críticas à psicanálise, tendo 

em vista que, em última instância, as mesmas promovem a hipótese de que a constituição do 

sujeito e da alteridade só é possível a partir da diferença sexual, ou, como vimos, a partir de 

uma diferença binária e hierárquica entre os sexos. 

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  41 

Por outro lado, a partir do debate que relança a questão sobre o estatuto da diferença 

sexual na psicanálise, autores têm sugerido novas leituras a partir do interior da própria teoria 

psicanalítica,  a  fim  de  proporcionar  um  deslocamento  da  questão  da  diferença  enquanto 

diferença  sexual  para  a  da  alteridade.  Birman  (1999),  David-Ménard  (2001)  e  Arán  (2006) 

defendem  a  retomada  do  conceito  de  pulsão  no  sentido  de  insistir  na  concepção  da 

experiência alteritária como o encontro do sujeito com o outro interno e externo a si.  Trata-se 

de  um  outro  estranho-familiar,  perspectiva  que  concebe  a  alteridade  como  tudo  aquilo  que 

subverte as fronteiras do eu. 

Essa perspectiva está baseada na observação de que o pensamento freudiano apresenta 

uma oscilação entre uma perspectiva normativa da diferença e uma outra, a leitura pulsional, 

que  impossibilita  qualquer  tentativa  de  pré-determinação  do  outro.  Essa  última  tem  sido 

apontada  como  uma  saída  da  teoria  psicanalítica  para  a  prescrição  de  modelos  universais  e 

hierárquicos da diferença e sua conseqüente prática exclusivista.  

   

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CAPÍTULO 2 

A TEORIA LACANIANA SOBRE O ÉDIPO E A SEXUAÇÃO 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se desde Freud a psicanálise ultrapassou o impasse biológico que equivalia o falo ao 

pênis  e  a  diferença  sexual  à  diferença  dos  órgãos  genitais

6

,  com  Lacan,  cunha-se  um  novo 

termo,  sexuação,  cuja  originalidade  corresponde  ao  deslocamento  da  problemática  da 

identidade sexual para a das posições sexuais. A relevância dessa mudança de direção para o 

presente  estudo  diz  respeito  aos  diversos  desdobramentos  teóricos  que  são  provocados  em 

relação  ao  tema  da  diferença  sexual  e  da  alteridade.  Até  chegar  à  concepção  das  posições 

sexuais como modos de gozo, Lacan realizou outras diversas formulações sobre a questão da 

diferença  sexual,  de  modo  que  este  capítulo  será  dedicado  a  retomar  suas  teses  desde  o 

retorno ao complexo de Édipo até o seu último ensino.  

Autores contemporâneos que trabalham a interface entre psicanálise e cultura têm se 

dedicado  a  analisar  a  teoria  de  Lacan  e  suas  repercussões  culturais.  Embora  reconheçam  o 

mérito  do  autor  em  ultrapassar  as  fronteiras  da  biologia  ou  de  qualquer  essencialismo 

filosófico, acabam questionando o que entendem como uma continuidade do modelo binário e 

hierárquico da diferença sexual. 

 

 

 

 

 

 

                                                 

6

 Embora, como veremos no terceiro capítulo, ainda se discuta o papel normativo das teorias freudianas da 

sexualidade. 

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  43 

2.1 Uma breve introdução às contribuições de Lacan 

 

 

A  partir  do  que  acompanhamos  no  capítulo  anterior,  podemos  dizer  que  Freud 

imprimiu um novo modo de compreender a sexualidade, subvertendo as idéias enraizadas na 

sexologia  ocidental  desde  a  segunda  metade  do  século  XIX

7

.  Entrelaçada  à  nova  teoria  do 

sujeito, a sexualidade passa a ser relacionada ao campo do inconsciente e da pulsão, de forma 

que a diferença sexual deixa de ter sua inteligibilidade calcada na suposição de uma ligação 

simétrica e complementar entre homens e mulheres. 

Todo o trajeto freudiano terá como destino a desconstrução de uma de suas primeiras 

teses, a de que, sob a perspectiva edipiana, o pai está para a menina tal como a mãe está para o 

menino. Ao final de sua obra, a mãe é vista como o objeto primordial  tanto para a menina 

quanto para o menino, assim como o pai é sujeito da identificação primordial para ambos os 

sexos. Freud acaba por sustentar a tese de que há apenas um ponto de partida para o processo 

de  sexualização,  que  independe  do  sexo  da  criança  que  nasce:  a  libido  é  masculina  para 

ambos os sexos. Sua concepção de que “a anatomia é o destino” (Freud, 1996 [1924]: 197) 

vem enfatizar que não é dela que se parte e que, se é freudiano dizer que muita coisa se passa 

entre os dois momentos (ponto de partida e destino), também o é entender que esse último não 

é  um  porto  seguro,  tendo  em  vista  que  as  declarações  “sou  homem”  e  “sou  mulher”  são 

sempre problemáticas e requerem que se indague ao que correspondem tais categorias. 

O complexo de Édipo vem designar justamente este processo de transformação de uma 

sexualidade  única  e  idêntica  para  os  dois  sexos,  a  sexualidade  fálica,  em  duas  posições 

subjetivas distintas. E se essa  é a sua  elaboração final,  Freud esbarrou  em dois importantes 

impasses: o biológico, fruto da confusão entre pênis e falo; e o feminino, devido à necessidade 

de  se  repensar  o  complexo  a  fim  de  dar  o  devido  valor  à  relação  da  menina  com  sua  mãe 

(Brousse, 2005). A superação de tais problemáticas dá espaço para o surgimento de uma outra 

interrogação  acerca  da  dissimetria  entre  homens  e  mulheres:  o  que  quer  a  mulher?  (Freud 

apud 

Gay, 1989: 455). 

 

Entonces, si la exigencia de falo no se resuelve ni por la vía del ser ni 

por la vía del tener, esto explica el desconcierto de Freud, quien sigue 

                                                 

7

 Segundo Birman (1999), a sexologia Ocidental da segunda  metade do século XIX se constituía de discursos 

biológicos  sobre  a  sexualidade  disfarçados  de  ciências  do  comportamento  sexual.  Tais  discursos  giravam  em 
torno da exigência primordial da reprodução biológica. 

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  44 

sin saber qué quiere una mujer. Sin embargo, de algo está seguro: la 

cuestión de la femineidad no se resuelve por la vía del falo (Recalde, 

2005:113)

8

 

É  a  partir  desse  impasse  acerca  das  mulheres  que  Lacan  proporá  que  a  feminilidade  é  a 

problemática de um ser que não pode assujeitar-se inteiramente ao Édipo e à lei da castração. 

Mas  essa  é  a  tese  pertinente  ao  seu  último  ensino.  O  conceito  de  falo  foi  retomado  e 

modificado pelo autor diversas vezes ao longo de sua produção, conforme a prevalência do 

imaginário,  do  simbólico  e  do  real.  Nesse  percurso,  acentua  cada  vez  menos  a  questão  da 

“identidade”  feminina  e  cada  vez  mais  a  idéia  de  “gozo”  feminino,  menos  a  castração  e  a 

reivindicação dela decorrente do que a “divisão” que o primado do falo introduz na menina 

(André,  1998:  209).  O  Édipo  passará  do  estatuto  de  complexo  familiar  à  dimensão  de 

estrutura,  para,  posteriormente,  ser  reconhecido  em  seu  mais-além.  Ao  mesmo  tempo,  o 

destino do sujeito passa a ser relacionado a suas eleições de gozo diante do confronto com a 

castração e com o desejo do Outro. 

Para seguir a sugestão de Elia (1995) e não deixar de inserir a teoria psicanalítica da 

sexualidade  no  campo  da  teoria  do  sujeito,  seguem  algumas  considerações  sobre  as  lógicas 

que perpassam o ensino de Lacan. 

O psicanalista pós-freudiano se debruçou sobre a tarefa de reformular o assujeitamento 

do  sujeito  às  leis  do  inconsciente  em  termos  de  linguagem.  Para  tal,  rompe  com  a  lógica 

formal aristotélica, segundo a qual os termos de uma relação são determinados por atributos e 

propriedades  em  um  momento  anterior  à  instituição  das  relações,  o  que  quer  dizer  que  são 

determinados por características de cunho essencialista. Em contraposição, o autor insere no 

campo da psicanálise  a lógica da dialética, pois  estabelece que a  relação precede os termos 

que a mesma constitui e determina. Sob a perspectiva de que não há termo anterior à relação, 

a noção de sujeito também se encontra subvertida, tendo em vista que passa a ser desatrelado 

do significado, mas submetido ao estabelecimento de determinadas relações (Elia, 1995). 

A  teoria  lacaniana  se  fez  sob  a  lógica  do  significante,  advinda  do  pensamento 

estruturalista. De acordo com tal lógica, deve-se formalizar a maneira pela qual os elementos 

se encontram organizados na estrutura, os lugares e as posições que cada termo ocupa diante 

de todos os outros que compõem o conjunto, independentemente de seu conteúdo. Para Elia 

                                                 

8

 O trecho correspondente na tradução é: “Então, se a exigência de falo não se resolve nem pela via do ser nem 

pela via do ter, isto explica o desconcerto de Freud, que segue sem saber o que quer uma mulher. Contudo, de 
algo está certo: a questão da feminilidade não se resolve pela via do falo”. 

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  45 

(1995),  parece  fundamental  desfazer  qualquer  possibilidade  de  má-compreensão  da  relação 

entre forma e conteúdo segundo a lógica do significante. 

 

Se a lógica do significante retoma a forma, desprezando o conteúdo, 

não é por um movimento de retrocesso ao procedimento essencialista 

da  abstração,  mas  por  um  salto  em  direção  aos  dispositivos  da 

estrutura

,  na  qual  não  se  trata  da  abstração  formal  do  que  eram 

anteriormente  os  termos  e  seus  conteúdos  particulares,  mas  da 

apreensão de uma rede de relações entre lugares, posições ocupadas 

por  termos,

  sendo  que  esses  lugares  assumem  valor  de  traços 

simbólicos

:  o  significante  só  é  apreensível  na  sua  independência  em 

face  dos  efeitos  de  significação  que  produz,  e,  nessa  medida,  tem 

valor de traço simbólico tomado numa rede relacional antes sintática 

do  que  semântica.  Não  se  retoma  a  velha  oposição  entre  forma  e 

conteúdo, destituída pela lógica dialética, mas afirma-se a primazia da 

letra

  como  marca,  traço,  sem  significação,  sendo  este  o  seu  estatuto 

próprio, seu ser de letra, se quisermos, seu conteúdo mesmo, e não a 

dimensão  formal  de  algo  que,  por  outro  lado,  deveria  encontrar  seu 

conteúdo.  O  conteúdo  será,  assim,  a  contrapartida  da  forma, 

identificada, pelo mesmo equívoco, com a letra ou o significante, mas 

o efeito de significação produzido pelas letras em seu estatuto literal 

concreto [grifos do autor] (Elia, 1995: 31/32)

9

 

A  linguagem,  nesse  contexto  lógico,  é  encarada  como  a  alteridade  frente  a  qual  nasce  o 

sujeito. Tal compreensão aponta para um além da constituição da subjetividade em relação a 

um outro sujeito tomado em sua objetividade e semelhança. A partir dessa postulação, torna-

se impensável qualquer binarismo da relação do sujeito com o outro, o que faz com que Elia 

(1995)  denomine  de  “Alteridade  radical”  a  estrutura  da  Linguagem  e  do  Significante  que 

determinam o advento do sujeito e que tornam o inconsciente um outro lugar psíquico. 

 

 

                                                 

9

 É interessante notar que essa questão da relação entre forma e conteúdo na psicanálise terá um lugar importante 

no  debate  entre  Butler  (2000)  e  Žižek  (1999),  já  que  esse  último  propõe  pensar  a  diferença  sexual  como  um 
“conceito formal sem conteúdo”. 

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  46 

2.2 O Édipo como complexo familiar 

 

 

A publicação de 1938 da VIII Encyclopédie Française trazia um texto de Lacan (1987 

[1938]),  ainda  um  jovem  psicanalista,  sobre  os  complexos  familiares  determinantes  para  a 

formação do indivíduo. A idéia de complexo como organizador do desenvolvimento psíquico 

vinha  excluir  qualquer  referência  orgânica  da  formação  da  personalidade,  sublinhando  a 

primazia  das  instâncias  culturais  sobre  as  naturais  no  que  diz  respeito  à  vida  mental  dos 

indivíduos. A definição de complexo ganhava importância para a ciência psicológica à medida 

em que estabelecia um contraponto à idéia de instinto, que ficava restrita ao comportamento 

animal. 

Por trás desse primeiro  entendimento lacaniano  sobre os complexos estava embutida 

uma concepção de família como estrutura na ordem da cultura. Quer dizer, a família teria, na 

formação  do  indivíduo,  o  papel  fundamental  de  transmissão  da  cultura,  incluindo  a 

comunicação para a geração mais nova de estruturas de comportamento e de representação. 

Os  processos  primordiais  do  desenvolvimento  psíquico  teriam  uma  continuidade  entre  as 

gerações, cuja causalidade é de ordem natural e o seu berço, a família. 

A  noção  de  cultura  é  um  ponto  chave  nesse  texto  de  Lacan,  tendo  em  vista  que  se 

refere  a  uma  dimensão  que  determina  a  família  e  todos  os  fenômenos  humanos.  Essa 

percepção da cultura como uma nova ordem que especifica a realidade social e a vida psíquica 

é vista pelos autores que comentam sua obra como um precursor do conceito de simbólico, 

que o psicanalista desenvolverá mais tarde. 

Nesse contexto teórico anterior à postulação do simbólico estruturalista, o complexo de 

Édipo  é  entendido  como  um  elemento  psicológico  universal,  ao  qual  todos  os  formatos  de 

família estariam submetidos. 

 

Não  apenas  a  interdição  do  incesto  com  a  mãe  tem  um  caráter 

universal, através das relações de parentesco infinitamente diversas e 

muitas vezes paradoxais que as culturas primitivas punem com o tabu 

do incesto, mas ainda, qualquer que seja o nível da consciência moral 

numa cultura, essa interdição está sempre expressamente formulada e 

                                                                                                                                                         

 

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  47 

sua transgressão é sempre alvo de uma reprovação constante (Lacan, 

1987 [1938]: 45). 

 

Tratava-se  de  entender  a  repressão  e  o  conformismo  sexuais  do  psiquismo  como  fatores 

importantes para a formação do indivíduo. Localizava-se o desenvolvimento do sexo psíquico 

na subordinação à regulação e aos acidentes de um drama psíquico familiar. Supunha-se que a 

criança alcançaria o conformismo sexual através da identificação com o progenitor do mesmo 

sexo,  destino  que  se  iniciaria  com  as  pulsões  da criança  dirigindo-se  ao  progenitor  do  sexo 

oposto. Sendo esse interesse pulsional frustrado, a criança culpabiliza o progenitor do mesmo 

sexo por ser agente da interdição de sua satisfação. 

Baseado em Freud, Lacan propunha que a frustração das pulsões era acompanhada de 

uma  repressão  educativa  da  sexualidade,  sendo  a  sua  dimensão  psicológica  reconhecida  na 

fantasia  de  castração  e  no  jogo  imaginário  que  a  condiciona.  Nesse  momento  teórico,  a 

castração  é  compreendida  tanto  como  uma  fantasia  de  mutilação  de  um  membro  do  corpo, 

quanto como uma ameaça real. Em ambos os casos, a castração diz respeito a uma tradução 

imaginária do dano causado ao narcisismo do indivíduo. 

 

A  frustração  que  ela  (as  pulsões  genitais  infantis)  sofre  é 

acompanhada,  com  efeito,  comumente,  de  uma  repressão  educativa 

que tem por finalidade impedir qualquer realização dessas pulsões e, 

especialmente, sua realização masturbatória. Por outro lado, a criança 

adquire uma certa intuição da situação que lhe é proibida, tanto pelos 

sinais discretos e difusos que traem, para sua sensibilidade, as relações 

parentais, quanto pelos acasos intempestivos que as desvelam para ela 

[parênteses nosso] (Lacan, 1987 [1938]:42).  

 

Tratava-se, portanto, de uma visão dinâmica do percurso que se supunha iniciar com o ápice 

da  sexualidade  infantil,  passando  pela  repressão  até  alcançar  o  estádio  de  latência  e  a 

sublimação. Como acabamentos da crise edipiana, o supereu e o ideal do eu são relacionados 

ao pai da família enquanto imago e sexo dominante. 

 

Elas (as formas designadas supereu ou ideal do eu) reproduzem, diz-

se, a imago do progenitor do mesmo sexo, o ideal do eu contribuindo 

assim para o conformismo sexual do psiquismo. Mas a imago do pai 

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  48 

teria,  segundo  a  doutrina,  nessas  duas  funções,  um  papel  prototípico 

em  virtude  da  dominação  do  sexo  masculino  [parênteses  nosso] 

(Lacan, 1987[1938]:49). 

 

A imago do pai, cuja função fica associada à repressão e à sublimação, é entendida aqui como 

um esquema imaginário do pai enquanto personagem real das primeiras relações familiares e 

sociais que envolvem a criança. A dimensão da imago do pai nessa concepção de complexo 

de  Édipo  valoriza  a  determinação  social  da  família  paternalista  na  explicação  dos  traços 

individuais da personalidade. 

A observação de que a fantasia de castração e a imagem da mãe fálica eram comuns 

aos dois sexos evidenciava, para Lacan, a existência de uma dominação masculina na ordem 

familiar e cultural. Ao apresentar as teses freudianas acerca do Édipo, o autor enfatiza uma 

perspectiva  do  complexo  sustentada  nas  bases  sociais  da  família  moderna,  cuja  função 

normativa aparece integrada aos seus outros efeitos. Por outro lado, através de um movimento 

ambíguo,  Lacan  conclui  o  papel  aleatório  do  complexo  na  adaptação  sexual,  além  de 

rascunhar a importância de se esclarecer a estrutura psicológica da família, objetivo sobre o 

qual se debruçaria por algum tempo. Trata-se de um deslocamento teórico da centralidade na 

dialética intersubjetiva para a valorização de um mecanismo anônimo que regula a interação 

dos sujeitos, o Outro como ordem simbólica estrutural. 

 

 

2.3 Da estrutura ao gozo 

 

 

A ruptura de Lacan com o conceito de complexo de Édipo descrito anteriormente diz 

respeito  à  introdução  da  lógica  dialética  no  campo  psicanalítico,  que  proporcionou  a 

superação de qualquer compreensão fenomenológica dos complexos familiares.   

Se  no  contexto  de  Os  Complexos  Familiares  é  conferido  ao  falo  um  caráter  de 

significado determinado pela imagem negativa na imagem especular, tanto no homem quanto 

na  mulher,  posteriormente,  Lacan  retoma  o  complexo  de  Édipo  freudiano  clareando  o 

conceito de falo através de uma progressiva diferenciação entre os domínios do imaginário e 

do simbólico. 

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  49 

A primazia teórica do simbólico revela o arbitrário da significação, demonstrando que 

o  falo  não  se  reduz  a  uma  imagem,  mas  que  deve  ser  compreendido  também  como  um 

significante. 

 

O que rege o inconsciente é a disjunção no interior da unidade sígnica, 

a quebra da correspondência entre significante e significado (unidos e 

correspondentes  no  signo  lingüístico  saussuriano)  e  a  assunção  da 

primazia  pelo  significante.  Os  elementos  materiais  da  linguagem 

(sons, traços, letras) detêm a primazia na organização inconsciente, na 

qual inexiste a significação [parênteses do autor] (Elia, 1995: 62). 

 

Nesse contexto teórico, o autor profere o seu quinto seminário, intitulado As Formações do 

Inconsciente

  (1999  [1957-1958]),  em  que  confere  à  lei  da  interdição  do  incesto  o  lugar  de 

fundamento da cultura. Através do que nomeou de “Nome-do-Pai”, o recalque originário da 

“Coisa” materna foi descrito em três tempos. 

 

Ora, trata-se menos das relações pessoais entre o pai e a mãe, ou de 

saber se ambos estão ou não à altura, do que de um momento que tem 

que  ser  vivido  como  tal,  e  que  concerne  às  relações  não  apenas  da 

pessoa da mãe com a pessoa do pai, mas da mãe com a palavra do pai 

– com o pai na medida em que o que ele diz não é, de modo algum, 

igual a zero. O que importa é a função na qual intervêm, primeiro, o 

Nome-do-Pai,  o  único  significante  do  pai,  segundo,  a  fala  articulada 

do pai, e terceiro, a lei, considerando que o pai está numa relação mais 

ou menos íntima com ela. O essencial é que a mãe funde o pai como 

mediador daquilo que está para além da lei dela e de seu capricho, ou 

seja, pura e simplesmente, a lei como tal (Lacan, 1999 [1957-1958]: 

197). 

 

O  primeiro  momento  corresponde  ao  tempo  do  pai  simbólico,  tendo  em  vista  que  o 

significante paterno é o suficiente para que se provenha a identificação da criança com o falo 

imaginário, ou seja, a relação da criança não é “com a mãe, como se costuma dizer, mas com 

o  desejo  da  mãe.  É  um  desejo  de  desejo”  (Lacan,  1999  [1957-1958]:  205).    Há,  portanto, 

nesse momento uma relação de espelho entre o desejo da mãe e o desejo do filho, em que esse 

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  50 

último preenche como objeto o desejo da primeira. A presença do pai é velada, de forma que 

o agente da metáfora paterna é o significante, e não o pai da realidade. 

O  segundo  tempo  compreende  a  quebra  dessa  identificação  da  criança  com  o  falo 

imaginário, que também prescinde da intervenção direta do pai, apesar da necessária função 

proibitiva  e  privadora  do  mesmo.  Não  se  trata  do  pai  da  realidade  na  proibição  do  incesto, 

tendo em vista que o pai interditor deve estar mediado pelo discurso da mãe, sendo então, um 

pai  imaginariamente  concebido  pela  criança  como  todo-poderoso,  interditor  e  privador  da 

mãe. 

O  terceiro  momento  diz  respeito  à  chave  e  à  saída  do  Édipo.  Se  no  tempo  anterior, 

tratava-se  do  pai  privador,  aqui  trata-se  do  pai  doador,  além  de  haver  a  necessidade  da 

intervenção  efetiva  do  pai,  não  sendo  mais  suficiente  o  caráter  simbólico  ou  imaginário  do 

mesmo. O pai, real e potente, tem que dar provas de que, o que a mãe deseja, ele o tem e dá a 

ela.  

O  menino  deve  identificar-se  com  o  pai,  de  forma  que  este  último  torna-se  doador 

também  em  relação  ao  filho,  pois  por  intermédio  do  dom  e  da  permissão  dada  à  mãe,  o 

menino obtém a permissão de ter um pênis mais tarde.  

 

Pero a su vez, este tercer tiempo, al negar el segundo, reinstaura algo 

del  primero:  lo  que  en  el  juego  perverso  el  niño  intentó  recibir  del 

mensaje  de  la  madre,  y  se  tornó  imposible  en  el  segundo  tiempo, 

ahora lo recibe efectivamente del mensage del padre. Es cierto que no 

bajo la forma del ser, pero sí en la del tener (Mazzuca, 2005: 94)

10

 

Lacan localiza o primeiro tempo no nível da frustração imaginária, enquanto que o segundo 

corresponde à privação real e o terceiro, à castração simbólica. A realização dessas distinções 

torna claro que o pai real é transmissor, e não autor da castração, de forma que, para Lacan, a 

castração  não  procede  do  pai,  mas  sim  da  linguagem.  Nesse  sentido,  o  complexo  de  Édipo 

traduziria a perda do gozo que afeta o sujeito enquanto sujeito da linguagem. Como efeito da 

linguagem, a castração deve ser mediada e transmitida pelo pai. Sendo ele mesmo castrado, 

trata-se, na verdade, da transmissão do desejo, de modo que a castração é uma operação sem a 

qual não há causa de desejo.  

                                                 

10

 O trecho correspondente na tradução é: “Por sua vez, este terceiro tempo, ao negar o segundo, reinstaura algo 

do  primeiro:  o  que  no  jogo  perverso  o  menino  tentou  receber  da  mensagem  mãe,  e  se  tornou  impossível  no 

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  51 

A partir desse ponto de vista a função do pai não é a de representar a lei do incesto, 

mas  a  de  articular  o  desejo  à  lei.  O  empenho  de  Lacan  é  o  de  demonstrar  que  o  pai  do 

complexo de Édipo é a própria linguagem, de modo que a primazia do falo deve ser entendida 

como um efeito de significação do significante do Nome-do-Pai. A função paterna, designada 

por  este  último,  é  toda  expressão  simbólica  que  representa  a  proibição  do  incesto,  isto  é, 

qualquer significante que ocupe o lugar da metáfora, privando o desejo da mãe e permitindo 

ao ser falante acender à significação fálica. O desejo da mãe não se atém ao corpo do filho, 

mas se dirige a um significante paterno, que não é redutível ao genitor. 

O Nome-do-Pai não pode deixar de ser articulado à prevalência fálica, porque a função 

fálica se define a partir da castração produzida pelo fato do sujeito habitar a linguagem. As 

funções fálica simbólica e da castração referem-se ambas ao que Lacan nomeou de “sacrifício 

de gozo”, enquanto o falo refere-se ao significante da falta. 

 

Esta  función  de  la  falta,  cuyo  símbolo  es  el  falo,  no  deriva  de  la 

diferencia anatómica de los sexos, sino de que el ser humano, hombre 

o mujer, debe inscribirse forzosamente en el que es su único ambiente 

natural, el lenguaje (Brousse, 2005:57)

11

 

Podemos dizer que a origem da castração é simbólica, mas que seus efeitos ocorrem no real: é 

o  efeito  da  linguagem  no  real  do  gozo  de  um  vivente.  A  gênese  da  castração  provém  do 

significante, o que nos permite pensar que não se requer o significante do Nome-do-Pai para 

que  a  castração  tenha  lugar,  já  que  qualquer  significante  pode  cobrir  a  posição  que  a 

determina,  desde  que  diga  respeito  à  interrupção  da  presença  da  mãe,  ou  ainda,  de  suas 

demandas. Essa perspectiva tem o mérito de romper com qualquer tentativa de localizar no 

pai enquanto pessoa do sexo masculino a instauração da diferença e da alteridade. 

Para autores como Tort (2005 apud Arán, 2008b) e Arán (2008b), o esquema edipiano 

que  restringe  a  mãe  à  alienação  e  o  pai  à  separação  se  funda  em  um  modelo  binário  e 

hierárquico da diferença. Isso porque a alienação, sendo supostamente o que impede a entrada 

do  sujeito  no  mundo  simbólico,  adquire  uma  conotação  patológica  da  qual  a  mãe  é  a 

responsável.  Por  outro  lado,  o  pai  torna-se  imprescindível  para  a  superação  da  ordem  da 

                                                                                                                                                         

segundo tempo, agora o recebe efetivamente da mensagem do pai. É certo que não sob a forma do ser, mas sim 
na do ter”. 

11

 O trecho correspondente na tradução é: “Esta função da falta, cujo símbolo é o falo, não deriva da diferença 

anatômica dos sexos, mas de que o ser humano, homem ou mulher, deve inscrever-se forçosamente naquele que 
é seu único ambiente natural, a linguagem”. 

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  52 

natureza.  Trata-se,  então,  de  uma  teoria  que  equivale  os  binarismos  feminino/masculino  e 

natureza/civilização, ou seja, que equivale o sistema de gênero à diferença sexual

12

.  

Ao mesmo tempo, o Édipo estrutural estabelece uma delimitação de fronteiras entre o 

“fora” ou “anterior” ao simbólico, o patológico, e o “dentro” ou “posterior” ao simbólico, o 

normal.  A  psicanálise  estabeleceria  uma  explicação  histórico-contingente  acerca  da 

subjetivação como estrutura universal e a-histórica, reproduzindo relações sociais normativas.  

Em  relação  ao  Édipo  feminino,  o  quinto  seminário  de  Lacan  gira  em  torno  das 

questões  deixadas  por  Freud  acerca  das  dificuldades  da  menina  em  passar  da  mãe  como 

objeto primordial ao pai como objeto de amor. A introdução da noção de privação no exame 

do  complexo  de  castração  da  menina,  que  não  existe  em  Freud,  destaca  o  que  para  Lacan 

esteve falho nos pós-freudianos: na substituição da mãe pelo pai, o desejo de filho não é mais 

o mesmo depois que passa a se dirigir ao pai, e não mais à mãe. 

 

Hay un olvido en el pasaje de uno a otro, el olvido de lo que quiere 

decir dirigirse hacia el padre, a saber, pedirle un objeto que no tiene 

otra existencia que la de poder ser demandado. Es un objeto que está 

integramente en la demanda, estrictamente definido por ser un objeto 

imposible.  Si  este  hijo  del  padre  es  rechazado,  es  que  apunta  a  un 

deseo inscripto totalmente en el plano de la demanda. A propósito de 

esto,  Lacan  utiliza  el  binario  fundamental  de  esos  años:  deseo  y 

demanda – deseo llevado a la potencia de la demanda y enteramente 

reducido  a  eso  –  para  interrogar  el  lugar  del  Edipo  (Laurent, 

2005:78)

13

 

A partir de Lacan, entende-se, então, que a privação do desejo não extrai a sua importância da 

existência do objeto privado, mas da aspiração do sujeito à algo que só pode ser demandado. 

Na perspectiva de Laurent (2005), Lacan acaba por desenvolver uma vertente “contra-Édipo” 

ao sustentar que a sexualidade feminina se ordena segundo um duplo registro, o da castração e 

                                                 

12

 Retomaremos esta discussão no terceiro capítulo, a partir de Judith Butler (2003). 

 

13

 O trecho correspondente na tradução é: “Há um esquecimento na passagem de um ao outro, o esquecimento do 

que quer dizer dirigir-se para o pai, a saber, pedir-lhe um objeto que não tem outra existência que a de poder ser 
demandado.  É  um  objeto  que  está  integralmente  na  demanda,  estritamente  definido  por  ser  um  objeto 
impossível. Se este filho do pai é rechaçado, é porque ele se direciona a um desejo inscrito totalmente no plano 
da  demanda.  A  propósito  disso,  Lacan  utiliza  o  binário  fundamental  desses  anos:  desejo  e  demanda  –  desejo 
levado à potência da demanda e inteiramente reduzido a isso – para interrogar o lugar do Édipo”. 

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  53 

o  da  privação,  e  que  isso  se  dá  não  a  partir  de  um  pai  e  de  uma  mãe,  mas  a  partir  do  falo 

enquanto significante do desejo. 

Já no texto A Significação do Falo (1998 [1958]), Lacan dá conta da primazia desse 

significante sem mais fazer referência ao complexo de Édipo. A definição simbólica do falo 

como significante do desejo vem indicar que a linguagem dá nascimento ao desejo, de modo 

que  esse  significante  deve  ser  colocado  como  denominador  comum  a  ambos  os  sexos.  A 

criança  deseja  ser  o  falo  da  mãe,  ao  mesmo  tempo  em  que  cai  regida  pelo  falo  enquanto 

significante do desejo da mãe. Tornam-se entrelaçados, assim, a linguagem e a sexualidade. 

 

Já se observou, com freqüência, que não se trata de uma castração que 

se dirija aos órgãos genitais em seu conjunto, e é por isso mesmo que 

ela  não  assume,  na  mulher,  a  aparência  de  uma  ameaça  contra  os 

órgãos  genitais  femininos  como  tais,  mas  de  uma  outra  coisa  – 

justamente,  como  o  falo.  Do  mesmo  modo,  pôde-se  levantar 

legitimamente  a  questão  de  saber  se,  no  homem,  convinha  isolar  na 

idéia  do  complexo  de  castração  o  pênis  como  tal,  ou  incluir  nela  o 

pênis e os testículos. Na verdade, essas discussões mostram bem que a 

coisa de que se trata não é nem isso nem aquilo. É algo que tem uma 

certa  relação  com  os  órgãos,  mas  uma  certa  relação  cujo  caráter 

significante,  desde  a  origem,  não  deixa  dúvidas.  É  o  caráter 

significante que predomina (Lacan, 1999 [1957-1958]: 319). 

 

O mérito da releitura de Lacan sobre a castração, neste momento de seu ensino, foi afastar a 

vinculação  dessa  operação  com  a  idéia  de  uma  mutilação  anatômica.  Enfatiza  a  castração 

como o encontro do sujeito com o mistério do falo, trata-se de quando a criança se dá conta de 

que o desejo materno se orienta para outro lado, para o Nome-do-Pai. Nesse sentido, o falo 

deve ser entendido como uma resposta contingente à pergunta do sujeito pela falta: “El falo es 

lo que demanda una madre, él permite nombrar el enigma de su deseo y, en este sentido, es 

diferente al miembro viril” (Pommier, 1986: 20). 

Butler  (2003)  e  Arán  (2008b)  defendem  que  a  lógica  significante,  mesmo  sendo  um 

instrumento de uma dissociação entre diferença e diferença sexual anatômica, acaba por nos 

conduzir  a  uma  concepção  formal  e  transcendental  da  diferença  sexual,  evidenciando  a 

necessidade  da  psicanálise  de  fundamentar  uma  organização  social  baseada  nas  normas 

tradicionais  de  gênero.  As  formulações  que  sustentam  a  diferença  sexual  como  requisito 

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  54 

imprescindível  para  a  constituição  da  cultura  demonstram  que  é  a  partir  dessa  noção  que  a 

própria  teoria  é  construída,  o  que  nos  remete  à  identificação  entre  diferença  sexual  e 

dispositivo de poder. O sistema sexo-gênero subentendido pelas autoras na teoria psicanalítica 

serve à regulação da sexualidade e da subjetividade em termos normativos. 

Em contraposição a essa perspectiva, Pommier (1986) considera o falo o significante 

da diferença pura, tendo em vista que sua posição é fundamentalmente correlativa ao desejo. 

O  falo  representaria  o  ponto  de  impossibilidade  de  todo  significante:  a  impossibilidade  de 

definir a si mesmo sozinho, tornando imprescindível a presença de um outro significante. 

 

O falo corresponde à demanda do Outro, e não ao órgão sexual masculino. Da mesma 

forma que o real do organismo é atravessado pelo sistema simbólico, também não é possível 

falar do ser humano segundo a noção biológica dos instintos. A demanda do Outro, na qual o 

sujeito  é  inserido  antes  mesmo  de  seu  nascimento,  provoca  a  instauração  da  pulsão  e  do 

registro do desejo. 

 

As  constatações  possíveis  de  se  fazer  pela  observação  do  exterior, 

bem  como  do  interior  do  corpo  humano,  permanecem  para  nós  sem 

valor,  pois  o  que  se  trata  de  apreender  não  é  uma  diferença  entre 

órgãos  ou  cromossomos  que  determinam  nossa  configuração,  mas 

uma  diferença  de  sexos  –  esse  termo  designando  aqui,  para  além  da 

materialidade da carne, o órgão enquanto aprisionado na dialética do 

desejo, e dessa forma “interpretado” pelo significante [grifo do autor] 

(André, 1998: 11).  

 

Ao introduzir a lógica do significante no inconsciente, o autor leva o “tornar-se mulher” da 

teoria  freudiana  de  uma  possível  leitura  desenvolvimentista  ao  ponto  de  vista  das 

conseqüências do significante para a assunção sexual do sujeito. André (1998) relê a teoria do 

recalque  de  Freud,  a  partir  de  Lacan,  compreendendo  como  função  desse  mecanismo  a 

substituição  de  uma  sexualidade  orgânica  por  uma  sexualidade  atravessada  pela 

representação,  pelo  significante.  O  recalque  teria  por  princípio  fornecer  o  significante,  ou 

melhor, o par de significantes (S

1

 e S

2

), a fim de fornecer um contorno para a experiência do 

real. Através do recalque, o significante delimitaria um contorno entre o real e o simbólico. 

 

No  homem,  pelo  fato  de  sua  dependência  da  linguagem,  a  função 

orgânica  se  acha  elevada,  numa  função  erótica  que  a  ultrapassa,  de 

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  55 

forma que tudo o que é da ordem da necessidade se vê subvertido e 

remanejado  no  registro  do  desejo.  A  partir  daí  a  função  orgânica  do 

ser falante se vê arrastada até um ponto-limite, num aquém do desejo, 

quase  fora  de  alcance.  Beber,  comer,  até  mesmo  respirar  –  como 

ilustra  o  ato  de  fumar  –  tornam-se  atividades  eróticas  que  o  corpo 

realiza  apoiando-se  mais  na  fantasia  sustentáculo  do  desejo  que  na 

exigência do organismo (André, 1998: 98). 

 

A  problemática  que  se  encontra  em  jogo  é  saber  como  a  sexualidade  atinge  o  corpo, 

separando-o  do  organismo.  O  recalque  teria  como  tarefa,  através  da  intervenção  do 

significante do falo, tornar o real uma realidade sexual, no sentido de que a linguagem esvazia 

o corpo de sua carnalidade.  

 

Na psicanálise a sexualidade é o próprio campo no interior do qual o 

sujeito (e não o indivíduo) advém, por ser falante, na medida em que a 

Linguagem  faz  suas  marcas  na  matéria  viva,  nela  inscrevendo  as 

insígnias de um desejo que não é, originariamente, do sujeito, pois que 

o sujeito será uma resposta a isso. Este desejo, do Outro, é sexual, e 

sexualiza  um  corpo  vivo,  previamente  não  sexualizado.  A 

sexualização significa precisamente que este corpo não era, no início, 

antes  de  tudo,  um  corpo  sexualizado  [parênteses  e  grifo  do  autor] 

(Elia, 1995: 93).  

 

Nesse  sentido,  a  sexualidade  não  tem  nada  de  “natural”,  ou  ainda,  não  tem  nada  de 

“primário”,  pois  é  compreendida  como  uma  constituição  “secundária”,  dependente  de 

significantes e desejos que lhe são  exteriores e que acabam por esvaziar  o corpo do sujeito 

que de sua carnalidade. Porém, mais adiante, apresentaremos a tese lacaniana sobre o registro 

do real, que coloca em xeque a idéia de que tudo é da ordem da linguagem. Nesse processo de 

sexualização  do  corpo,  na  articulação  entre  corpo  e  linguagem,  algo  se  precipita  fora  do 

horizonte da linguagem, fora da possibilidade de representação. 

A  noção  de  sexuação  em  Lacan  aparece  dependente  da  ação  do  significante  sobre  o 

sexo  biológico,  que  por  sua  vez,  deve  ser  localizado  sob  a  ordem  do  imaginário.  Sobre  o 

corpo imaginário, a ação do significante fálico inaugura todas as significações do ter e do não 

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  56 

ter, do ser e do não ser. A sexuação diz respeito à maneira como o sujeito se inscreve frente à 

castração e ao seu significante fálico (Φ). 

Ainda no texto A Significação do Falo (1998 [1958]), Lacan trata da dialética do ser e 

do  ter  na  vida  amorosa.  Apresenta  duas  modalidades  do  desejo  sexual  como  efeitos  das 

estruturas de linguagem, que acabam por instituir posições em seu interior: do lado masculino, 

trata-se de ter o falo, enquanto do lado feminino, trata-se de sê-lo, se colocarmos as posições 

sob a perspectiva simbólica.  

Já  a  relação  entre  os  sexos,  no  registro  do  imaginário,  insere-se  na  vertente  da 

aparência: tanto o homem quanto a mulher desempenham o papel de quem detém o falo, a fim 

de protegê-lo quando o possui ou para ocultar a sua falta quando não o possui. Proteger ou 

mascarar a falta do falo dá à relação entre as posições um tom cômico, em que manifestações 

ideais e típicas do comportamento de cada um dos sexos são, aparentemente, complementares 

e simétricas. 

 

Mas, atendo-nos à função do falo, podemos apontar as estruturas a que 

serão  submetidas  as  relações  entre  os  sexos.  Digamos  que  essas 

relações girarão em torno de um ser e de um ter que, por se reportarem 

a um significante, o falo, têm o efeito contrário de, por um lado, dar 

realidade  ao  sujeito  nesse  significante  e,  por  outro,  irrealizar  as 

relações a serem significadas. E isso pela intervenção de um parecer 

que substitui o ter, para, de um lado, protegê-lo e, de outro, mascarar 

sua  falta  no  outro,  e  que  tem  como  efeito  projetar  inteiramente  as 

manifestações  ideais  ou  típicas  do  comportamento  de  cada  um  dos 

sexos,  até  o  limite  do  ato  da  copulação,  na  comédia  (Lacan,  1998 

[1958]: 701). 

 

Brousse (2005) chama a atenção para o caráter substitutivo ao qual se submetem o ter e o ser 

o falo nesta citação de Lacan, o que leva à conclusão de que as posições sexuais são, de fato, 

metáforas sexuais. Com a autora, concorda André (1998), que comentando a multiplicidade 

de  nomes  dados  aos  órgãos  sexuais  no  uso  corrente  da  língua  francesa,  conclui  que  “o  ser 

falante se empenha em significar que o sexo é uma metáfora” (André, 1998: 11). 

Butler (2002) defende que a “comédia dos sexos” é um paradoxo que torna as posições 

sexuais excludentes e dependentes uma da outra. As hipóteses da assunção exclusiva de uma 

única  posição  e  da  ligação  de  dependência  de  uma  em  relação  à  outra  são  pressupostos  da 

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  57 

matriz  heterossexual,  que  prescreve  a  diferença  sexual  como  coerência  entre  identidade  e 

desejo.  A  autora  compreende,  ainda,  que  o  texto  “manifestações  ideais  e  típicas  do 

comportamento de cada um dos sexos” constrói a imposição de um ideal como enquadre. A 

referência a um ideal evidencia a submissão dos sujeitos às normas de gênero e a inadequação 

como fracasso. 

A  autora  demonstra  a  norma  de  gênero  implícita  na  descrição  da  posição  feminina. 

“Ser” o falo para quem o tem, garante a ilusão do sujeito masculino de “ter” o falo. Além de 

ser  determinado  por  aquilo  que  lhe  falta,  o  feminino  é  estabelecido  conforme  a  expectativa 

masculina.  Lacan  dá  continuidade  à  inteligibilidade  da  mulher  somente  enquanto  objeto  da 

fantasia masculina.  

A função do falo indica ainda que alguma coisa não deve ser desvelada, de forma que 

é  do  falo  enquanto  véu  que  Lacan  trata  neste  texto.  O  que  necessita  de  um  véu  não 

corresponde à zona anatômica do corpo humano em si, mas ao corpo enquanto não subvertido 

totalmente pela libido, enquanto um corpo que permanece orgânico. 

A subversão do corpo orgânico pela linguagem produz como efeito o fato de que os 

pares de sujeitos jamais se recobrem, devido à existência de um hiato entre eles. Ainda em 

Significação do Falo 

(1998 [1958]), Lacan retoma as condições do objeto de amor formuladas 

por  Freud.  A  divergência  masculina  entre  objeto  de  desejo  e  objeto  de  amor  ganha  uma 

redefinição  em  termos  de  “ter  o  falo”.  Se,  para  Lacan,  no  amor,  dá-se  o  que  não  se  tem,  o 

objeto  de  amor  escolhido  pelos  homens  é  castrado,  mesmo  que  a  falta  seja  velada  pelo 

fantasma. Já quanto ao objeto de desejo, vale a equação de equivalência entre mulher e falo 

(Tendlarz, 2005). 

O autor estende a duplicidade da vida amorosa também à mulher, que não pode amar 

ali onde deseja. Mesmo que o amor e o desejo convirjam para o mesmo objeto, o desejo se 

dirige  ao  órgão  do  parceiro  como  objeto  fetiche,  enquanto  que  a  demanda  de  amor  se 

direciona  àquele  que  está  na  posição  de  dar  o  que  não  tem,  ou  seja,  à  falta  do  Outro.  A 

duplicidade  feminina  está  em  exigir,  às  vezes  do  mesmo  homem,  tanto  o  portador  do  falo 

quanto aquele que, por não ter o falo, pode dá-lo no amor. A feminilidade estaria relacionada 

à prioridade de “fazer-se amar e desejar”, o que coloca a mulher em uma posição de maior 

dependência dos signos do amor. 

Sem abandonar a perspectiva de que a sexualidade se define a partir da função fálica e 

de que é atravessada pela primazia da castração simbólica, o percurso lacaniano alcança uma 

superação do modelo edipiano da sexuação, o que começará a aparecer com maior clareza no 

seminário O Avesso da Psicanálise (1992 [1969-1970]). 

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  58 

Para Ruiz (2005), a superação do Édipo enquanto saber mítico e o seu entendimento 

enquanto estrutura está sendo traçado desde a tese de que a castração independe da função do 

pai e depende da linguagem. O conceito de metáfora paterna, trabalhado em As Formações do 

Inconsciente

  (1999  [1957-1958]),  apesar  de  ser  uma  formalização  lógica  do  Édipo,  já 

demonstraria o mais-além do mito. 

 

Esta  orientación  se  reconoce,  por  ejemplo,  cuando  se  independiza  la 

castración  de  la  función  del  padre  al  hacerla  depender  de  la 

efectividad  del  lenguaje;  cuando  se  demuestra  la  evidencia  e 

importancia de la castración del padre, o se establece el objeto como 

perdido en lugar de prohibido, al hacer girar lo esencial de la estrutura 

del  sujeto  en  torno  a  la  falta  de  objeto  en  tanto  causa  y  no  a  la 

presencia prohibida (Ruiz, 2005:120)

14

 

No campo psicanalítico, trata-se de um movimento importante no entendimento da sexuação. 

O  hiato  que  se  abre  entre  o  Édipo  e  a  castração  rompe  com  qualquer  possibilidade  de  se 

pensar  o  sexo  sem  mergulhá-lo  na  linguagem  e  de  se  entender  a  relação  entre  os  sexos  em 

termos complementares ou simétricos.  

Em seu seminário O Avesso da Psicanálise (1992 [1969-1970]), Lacan analisou o mito 

do  Édipo  em  articulação  com  outro  mito  freudiano,  o  Totem  e  Tabu  (1996  [1913]).  

consequência  desse  trabalho  foi  a  explanação  da  contradição  entre  os  mitos  em  relação  aos 

efeitos do assassinato do pai para o gozo: enquanto no Édipo a morte do pai dá acesso ao gozo 

da mãe, no segundo mito, o assassinato do pai instaura a proibição do gozo e a culpa sobre a 

morte. 

Se na descrição do complexo de Édipo o gozo é proibido pelo pai, em Totem e Tabu 

(1996  [1913]),  a  perda  de  gozo  é  um  sacrifício  em  nome  do  amor  ao  pai  morto  pelo 

assassinato primordial. Entendendo que essas são as respostas de Freud à castração, Lacan irá 

reformular  a  noção  de  castração,  a  fim  de  advertir  que  não  é  o  pai  e  nem  a  lei  que  são 

responsáveis pela perda de gozo, mas a linguagem: o gozo está perdido a quem fala (Brodsky, 

1992 apud Slimobich, 2005). Como colocado por Ruiz (2005) na citação acima, a orientação 

se desloca a partir da distinção entre proibição e perda. 

                                                 

14

 O trecho correspondente na tradução é: “Esta orientação se reconhece, por exemplo, quando se faz a castração 

ser independente da função do pai e depender da efetividade da linguagem; quando se demonstra a evidência e 

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  59 

No  mito  criado  por  Freud,  os  irmãos  da  horda  primitiva  assassinam  o  Pai  que  os 

impedia tiranicamente de gozarem de todas as mulheres, acreditando que esse deveria ser um 

privilégio  seu.  No  entanto,  a  partir  de  seu  assassinato,  os  irmãos  não  têm  acesso  ao  gozo 

esperado. Ao invés disso, ingerem o Pai em um banquete totêmico e criam um pacto entre si 

que exclui a possibilidade de um gozo pleno. 

A  lógica  de  Totem  e  Tabu  (1996  [1913])  é  a  mesma  da  constituição  do  sujeito,  se 

pensamos que, em seu advento, esse último já é efeito de uma renúncia ao gozo pleno, cujo 

caráter é, na verdade, mítico. Para Lacan, a castração é um fato de estrutura. 

 

A  partir  da  instauração  desta  Lei,  que  não  é  outra  senão  a  Lei  da 

castração, todo gozo só é acessível como parcial, e mediante a ordem 

simbólica, a ordem do significante, portanto trata-se, precisamente, de 

uma Lei, e leis são da ordem do significante. Aliás, em favor do rigor, 

devemos dizer que a própria parcialidade deste gozo é outra forma de 

dizer que ele é mediatizado pela lei. Assim, em vez de dizermos que o 

gozo possível é parcial e mediatizado pela lei, seria mais correto dizer 

que ele é parcial porque mediatizado pela lei [grifos do autor] (Elia, 

1995: 88). 

 

O  seminário  O  Avesso  da  Psicanálise  (1992  [1969-1970])  constitui  um outro  deslocamento 

teórico realizado por Lacan. Enquanto em As Formações do Inconsciente (1999 [1957-1958]) 

a articulação entre as noções de privação e de castração ficou restrita ao complexo de Édipo 

feminino, mais tarde, a mesma adquire uma generalização. 

 

A partir de ese momento, el estatuto del sujeto y el estatuto del padre 

serán  considerados  –  sea  el  sujeto  femenino  o  no  –  a  partir  del 

complejo de castración en la niña tal como había sido trasmitido por 

Freud. Lacan lee la posición femenina de Dora como aquella que allí 

donde estaba el padre quiere poner de relieve lo que causaba su deseo, 

el de él (Laurent, 2005: 79)

15

                                                                                                                                                         

importância da castração do pai, ou se estabelece o objeto como perdido em lugar de proibido, ao fazer girar o 
essencial da estrutura do sujeito em torno da falta de objeto como causa e não da presença proibida”. 

15

 O trecho correspondente na tradução é: “A partir desse momento, o status do sujeito e o status do pai serão 

considerados – seja o sujeito feminino ou não – a partir do complexo de castração na menina tal como havia sido 

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  60 

 

A frustração desdobra-se, por um lado, na castração do pai idealizado, e, por outro lado, na 

privação.  Há  uma  assunção  por  parte  de  todo  sujeito,  feminino  ou  não,  do  gozo  de  ser 

privado. O pai, não mais como pai idealizado e morto, é tomado por sua causa sexual. 

O trajeto de Lacan é descrito por  Laurent (2005) como tendo início no complexo de 

castração feminino tal como Freud o colocou. A partir desse, foi destacada a necessidade de 

se  distinguir  o  pai  idealizado,  castrado  e  a  filha  privada.  Já  no  seminário  O  Avesso  da 

psicanálise

  (1992  [1969-1970]),  o  pai  idealizado  do  mito  freudiano,  que  como  exceção 

garante o universal da castração, é questionado. Relendo o caso Dora, Lacan demonstra que, 

apesar da produção do pai idealizado, o pai gira em torno de uma causa sexual. Esse percurso 

ao mais além do Édipo corresponde, segundo Laurent (2005), a destruição do pai como ideal 

ou como universal. Isto corresponde ao deslocamento da proibição da mãe para a questão do 

pai sustentar a sua existência no fato de haver se confrontado com o gozo de uma mulher. Há 

de ter feito de uma mulher sua causa. 

As  formulações  que  levam  Lacan  ao  mais  além  do  Édipo  são  inseparáveis  das 

interrogações  sobre  o  gozo  feminino.  A  mulher,  introduzindo  a  questão  do  sujeito  que  não 

está  todo  na  função  fálica,  inaugura  também  a  assunção  de  um  sujeito  que  goza  de  ser 

privado, e já não castrado. 

Segundo Miller (2005a), a união ao complexo de Édipo do mito de Totem e Tabu e do 

complexo de castração possibilita a introdução do pai real, mais além das suas coordenadas 

imaginária  e  simbólica.  Trata-se  da  grande  inauguração  lacaniana:  apontar  o  impossível  no 

centro da enunciação freudiana. O mito se apresenta como um enunciado do impossível, cuja 

impossibilidade representa o indomesticável do gozo mediante o discurso. 

 

Que  o  pai  morto  seja  o  gozo,  isto  se  apresenta  a  nós  como  sinal  do 

próprio  impossível.  E  é  nisso  mesmo  que  reencontramos  aqui  os 

termos  que  defini  como  aqueles  que  fixam  a  categoria  do  real,  na 

medida  em  que  ela  se  distingue  radicalmente,  no  que  articulo,  do 

simbólico e do imaginário – o real é o impossível. Não na qualidade 

de  simples  escolho  contra  o  qual  quebramos  a  cara,  mas  de  escolho 

lógico daquilo que, do simbólico, se enuncia como impossível. É daí 

que surge o real. Aí reconhecemos, com efeito, para além do mito de 

                                                                                                                                                         

transmitido por Freud. Lacan lê a posição feminina de Dora como aquela que, ali onde estava o pai, quer pôr em 
destaque o que causava seu desejo, o dele”.  

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  61 

Édipo,  um  operador  estrutural,  aquele  chamado  de  pai  real  (Lacan, 

1992 [1969-1970]:130).  

 

Enquanto  o  Édipo  permanece  reconhecido  como  um  mito,  a  castração  passa  a  ser 

compreendida como uma operação  real introduzida pela incidência de qualquer significante 

na relação do sexo; operação cujo agente é o pai real. Trata-se, portanto, de uma teoria que 

não pode ser reduzida a uma espécie de naturalismo, tendo em vista a sua percepção de que o 

ser humano pactua com a linguagem. 

2.4 As fórmulas da sexuação 

 

 

No texto Análise Terminável e Interminável (1996 [1937]), Freud recoloca o impasse 

acerca da sexualidade feminina: a análise de uma mulher não ultrapassaria um limite, a inveja 

do pênis. Lacan encara o impasse como teórico, e não só feminino: se o ser e o ter o falo não 

respondem ao que quer uma mulher, a questão da feminilidade não se encerra pela via do falo. 

O complexo de Édipo freudiano aparece como um obstáculo à análise psicanalítica, de 

forma que é justamente a partir da orientação clínica que Lacan abre a possibilidade do mais 

além do Édipo.  

 

Así,  si  Freud  merece  el  homenaje  de  Lacan  por  el  desciframiento 

fálico de la sexualidad femenina, es cierto que Lacan trata de conducir 

el psicoanálisis más allá del falo, hacia el objeto a, que es también la 

llave al más allá del principio del placer. Trata también de ir más allá 

del complejo de Edipo, de tal manera que el revés de Freud es un más 

allá de Freud (Miller, 1995: 30 apud Zack, 2005: 163)

16

 

O avanço lacaniano pode ser localizado na chamada segunda clínica ou clínica orientada pelo 

real,  que  permite  a  formulação  de  respostas  que  não  repousem  no  Édipo.  A  conclusão  da 

análise não é mais vista como uma impossibilidade e é remetida à tarefa analítica de ir mais 

além do pai, mais além do impasse que o mito edipiano impõe à clínica freudiana. 

                                                 

16

 O trecho correspondente na tradução é: “Assim, se Freud merece a homenagem de Lacan pelo deciframento 

fálico da sexualidade feminina, é certo que Lacan trata de conduzir a psicanálise mais além do falo, em direção 
ao  objeto  a,  que  é  também  a  chave  ao  mais  além  do  princípio  de  prazer.  Trata  também  de  ir  mais  além  do 
complexo de Édipo, de tal maneira que o avesso de Freud é um mais além de Freud”. 

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  62 

A  proposta  lacaniana  das  fórmulas  da  sexuação  desfaz  a  idéia  de  que  o  falo  e  a 

castração são obstáculos à feminilidade, pois as posições sexuadas são inseridas no âmbito do 

gozo  e  não  mais  do  sexo.  Esse  deslocamento  é  possibilitado  pela  distinção  articulada  por 

Lacan entre dois registros, o do gozo e o do significante. 

Não  é  apenas  em  relação  ao  seu  corpo  que  o  sujeito  sofre  os  efeitos  do  significante 

fálico.  Além  do  corpo  imaginário,  há  um  corpo  habitado  por  um  gozo,  que  também  deve 

inscrever-se na função fálica. Também há maneiras do sujeito localizar o seu gozo frente ao 

significante  fálico.  Isso  permite  Lacan  formular  a  sexuação  para  além  das  identificações 

imaginárias e simbólicas, colocando em jogo o sujeito e seu gozo. 

A partir desse movimento teórico, a feminilidade pode ser tomada em seu mais-além 

do falo e do objeto da fantasia masculina. A castração, tal como formulada por Freud, passa a 

ser  entendida  por  Lacan  como  um  “meio-dizer”,  como  um  conceito  que  evidencia  a 

impossibilidade da verdade ser dita “toda”. Na leitura de André (1998), a castração em Freud 

pode ser vista como tendo uma certa função para a teoria, a de proteger o lugar de mistério da 

feminilidade (André, 1998: 205). 

Se Freud apresenta em cada um dos mitos uma verdade sobre o gozo do sujeito, ora 

proibido, ora perdido em uma espécie de sacrifício, Lacan se empenhará em ultrapassar esse 

mesmo  impasse  através  de  uma  complexificação  do  conceito  de  gozo.  O  gozo  do  pai 

primitivo não pode ser identificado ao gozo sexual propriamente dito, tendo em vista que este 

é  uma  limitação  do  gozo  em  geral,  limitação  realizada  pelo  significante  que  introduz  a 

dimensão do sexual no ser humano, concebida como a organização fálica.  

A  organização  significante,  concentrada  sobre  um  órgão  que  a  lógica  fálica  isola  do 

corpo,  carrega  a  falta  de  um  significante  que  dê  conta  do  sexo  feminino.  Na  dimensão  do 

discurso  inconsciente,  não  há  relação  entre  dois  sexos,  porque  não  há  dois  sexos  opostos. 

Lacan declara, assim, a não existência da relação sexual, revelação que dá conta de mostrar os 

paradoxos constitutivos da sexuação. A relação sexo a sexo, marcada pela primazia do falo, 

torna-se impossível de se escrever, impossibilitando a realização de uma relação no sentido 

matemático do termo, mas apenas no registro do semblante. 

 

O Outro Sexo, o sexo d’ A Mulher, não existe, não faz complemento à 

sexualidade definida pelo falo, que vigora para ambos os sexos, mas 

que, por isso mesmo, não os faz simétricos (Elia, 1995: 74/75). 

 

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  63 

O  gozo sexual, sendo, em seu fundamento, articulado ao significante  fálico, impossibilita o 

dizer de um gozo propriamente feminino. Porém, ao mesmo tempo em o exclui, o permite, 

pois ao delimitar uma borda, o significante fálico produz o seu mais-além, introduzindo uma 

divisão do gozo que será desenvolvida no seminário Mais, Ainda (1993 [1972-1973]), através 

da delimitação do gozo do Outro e do fálico. 

O  gozo  fálico  é  o  efeito  da  incidência  da  castração  e  da  interdição  à 

complementaridade  sexual  na  subjetividade  do  sujeito.  É  o  resto  da  operação  de 

atravessamento da pulsão pela linguagem e, por isso, é mediatizado pela lei do significante, 

conseqüentemente,  concerne  à  ordem  fálica  e  sexual  marcada  pela  perda  do  gozo  mítico 

pleno. Por outro lado, há o gozo do Outro, que será desenvolvido no livro vinte do seminário 

como o gozo feminino, suplementar ao fálico. É caracterizado por ser o mais-além da lógica 

fálica.  

Nas  fórmulas,  o  autor  distribui  os  indivíduos  em  duas  metades  através  do  uso  de 

funções  proposicionais.  Ser  homem  ou  ser  mulher  é  definido  pela  posição  do  sujeito  em 

relação ao Outro e ao objeto, de modo que as fórmulas dizem respeito a formas particulares de 

viver a pulsão, cujo objeto, vale lembrar, é fundamentalmente assexuado. Isso significa dizer 

que, em sua origem, a sexualidade não está ligada a uma diferenciação dos sexos. 

 

 

 

As  “fórmulas  de  sexuação”,  escritas  no  seminário  XX,  Mais,  ainda  (1993  [1972-

1973]), são dividas em lado esquerdo, que seria o lado masculino, e o lado direito, feminino; 

sendo  que  cada  um  desses  lados  é  designado  por  duas  proposições.  Temos  para  a  posição 

masculina: (1) “para todo x PHI (x)”; e (2) “existe um x tal que não PHI (x)”. O lado esquerdo 

e masculino da fórmula considera, a partir da proposição na linha inferior, que todo homem 

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  64 

está no âmbito da castração, mas que tal característica só se faz reconhecida pela existência de 

uma exceção, escrita na linha superior: pelo menos um não é castrado. Lacan, inspirado pela 

função de desvio do pai da horda do texto freudiano Totem e Tabu (1996 [1913])formula que 

essa  exceção  é  justamente  a  função  do  pai,  que  subsistiria  no  inconsciente  masculino, 

reiterando a confirmação da regra geral de que o que torna alguém homem é a marca da falta 

(David-Ménard, 1998). 

Já para o lado feminino, pode-se ler: (1) “não existe x tal que não PHI (x)”; e (2) “não 

é para todo x que PHI (x)”. A fórmula indica que “não existe nenhuma mulher que não tenha 

relação com a lógica da castração” e, ainda, que “não é tudo, de uma mulher, que está ligado 

com esta função” (David-Ménard, 1998). A primeira proposição, a de que todas as mulheres 

estão  referidas  à  função  fálica,  é  verdadeira  porque  é  a  “definição  possível  [...]  para  o  que 

quer  que  se  encontre  na  posição  de  habitar  a  linguagem”  (Lacan,  1993  [1972-1973]:  107). 

Porém, tal função não esgota o destino feminino. Lacan fala em um “suplemento” de gozo, 

dimensão pela qual as mulheres se relacionam com o real, o que, por sua vez, os homens só 

estabelecem através da  mediação da fantasia. Estar “não toda” na função fálica enuncia um 

“gozo  a  mais”  para  além  do  simbólico,  denota  aquilo  que  escapa  ao  discurso,  mas  que,  ao 

mesmo tempo, se ancora nele assim como se sustenta na falta que lhe é inerente. 

O universal fundado a partir da referência ao falo inaugura a dissimetria entre os sexos, 

denotando que “homem” e “mulher” representam duas possibilidades do sujeito falante, duas 

vertentes  da  estrutura,  não  podendo  ser  entendidos  como  gênero.  Lacan  também  pretende 

romper  com  qualquer  tentativa  de  subentender  uma  essência  masculina  e  feminina.  A 

anatomia  sexual  pode  estar  implicada  na  questão  do  sexo  frente  ao  “eu”,  enquanto  síntese 

imaginária, porém, sob o ponto de vista do autor, o sexo é uma questão do sujeito, para quem 

a  vivência  empírica  dos  genitais  não  confere  obrigatoriedade.  A  este,  será  imputado  o 

significante  “homem”  caso  se  alinhe  na  função  fálica,  ou  “mulher”  caso  se  posicione  “não 

toda” na mesma. 

Não é a lógica fálica em si que faz a diferença entre os sujeito, mas a posição subjetiva 

pela  qual  os  sujeitos  se  colocam  submetidos  a  ela.  Para  os  falantes,  não  se  trata  tanto  de 

identidades sexuadas, mas de posições, como Lacan pôde valorizar cada vez mais ao longo de 

seu  ensino.  Cada  uma  das  posições  subjetivas  são  determinadas  no  próprio  discurso  do 

sujeito, podendo ir contra a sua própria anatomia. Isso porque, nesse contexto teórico, não há 

relação a priori entre um sexo biológico e uma posição sexuada. 

Butler  (2003)  reconhece  a  conquista  da  teoria  lacaniana  em  ultrapassar  uma  lógica 

essencialista sobre homens e mulheres. Porém, considera pertinente a colocação de algumas 

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  65 

indagações, tais como: por que se nomeia as fórmulas de “feminino” e “masculino”? Por que 

a  restrição  a  duas  posições  sexuais?  A  seu  ver,  Lacan  sucumbe  ao  modelo  do  dimorfismo 

sexual e continua determinando as mulheres somente em relação aos homens.   

Lacan recorre  ao mito de Tirésias para  evocar o gozo suplementar do lado feminino 

das fórmulas, que aparece também associado ao gozo do místico. O mito conta que Tirésias, 

ao  encontrar  duas  serpentes  copulando,  separou-as.  Por  ter  realizado  tal  ato,  troca  de  sexo, 

vivendo sete anos como sexo feminino. Só retorna a ser homem ao encontrar novamente duas 

serpentes copulando. A partir dessa travessia, adquire um saber sobre a diferença sexual. 

Por ter sido homem e mulher, Tirésias é consultado por Hera e Zeus, que divergiam 

quanto  à  resposta  sobre  quem  goza  mais,  o  homem  ou  a  mulher.  Afirma,  então,  que  quem 

goza  mais  é  a  mulher,  e  que  se  o  prazer  correspondesse  a  dez  partes,  nove  delas  seriam  o 

prazer feminino, enquanto que o masculino corresponderia a uma só parte. O dito de que a 

mulher  goza  nove  vezes  mais  do  que  o  homem  enfureceu  Hera,  que,  por  não  querer  ver 

revelado o segredo feminino, pune Tirésias com uma cegueira. 

Para Lacan, “A Mulher” é indizível porque seu gozo resiste às palavras, é o gozo do 

Outro,  para-sexuado,  fora-da-linguagem.  Sua  característica  é  escapar  do  domínio  do 

significante,  impossibilitando  que  se  possa  dele  falar.  Quem  dele  goza,  goza  de  si  mesmo 

enquanto Outro a si mesmo.  

No  entanto,  porque  fala,  a  mulher  entra  tanto  quanto  o  homem  no  gozo  fálico,  cuja 

condição é o acesso à palavra, já que o falo é o símbolo da falta que limita todas as demandas 

da mãe. Segundo Lacan, “podemos convir que, aparelho, não há outro senão a linguagem. É 

assim que, no ser falante, o gozo é aparelhado” (Lacan, 1993 [1972-1973]: 75). 

 

Las  palabras  son  los  instrumentos  de  un  goce  que  no  conoce  la 

diferencia de los sexos y se plantea idénticamente para todos los seres 

humanos (Pommier, 1986: 57)

17

 

O que divergirá entre os sexos será o gozo suplementar, tendo em vista que os sujeitos que se 

posicionam do lado direito das fórmulas são divididos diante da castração, colocando-se em 

parte  submetidos  ao  gozo  fálico  enquanto  a  outra  parte  situa-se  do  lado  do  gozo  do  Outro. 

Algo,  em  cada  mulher,  escapa  à  castração,  sendo  exatamente  isso  o  que  as  diferencia.  No 

                                                 

17

  O  trecho  correspondente  na  tradução  é:  “As  palavras  são  os  instrumentos  de  um  gozo  que  não  conhece  a 

diferença dos sexos e se coloca identicamente para todos os seres humanos”. 

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  66 

entanto, é importante enfatizar que Lacan se refere a uma divisão ao nível do gozo, e não da 

identidade.  

Para David-Ménard (1998) e Arán (2008b), Lacan não supera o tom de mistério que 

envolve a feminilidade desde Freud, tendo em vista que as fórmulas da sexuação, mais uma 

vez, impedem qualquer determinação do feminino positivada. Para os críticos do autor, resta 

uma dúvida: do que se trata, afinal, o gozo suplementar? Por que a idéia de um gozo não-todo 

fálico não é a oportunidade de se romper de vez com a lógica fálica? 

Arán (2008b) coloca que tomar o falo como significante a partir do qual toda a teoria é 

construída  é  uma  escolha  comprometida  em  conceber  o  feminino  segundo  o  princípio  da 

exclusão.  A  autora  entende  a  fundação  do  masculino  pelo  significante  como  uma  versão 

psicanalítica para a dominação masculina. 

Ainda em relação às fórmulas da sexuação, os escritos abaixo das proposições dizem 

respeito a uma divisão da mulher que não corresponde à divisão do inconsciente. O A quer 

dizer que uma mulher é dividida entre aquilo que ela é enquanto S e o que ela é enquanto não-

sujeito. O aspecto “não-toda” da feminilidade corresponde ainda a uma posição de “não-toda 

sujeito”, ou “não-toda” determinada pelo inconsciente, tendo em vista que, ocupando o lugar 

do Outro radical, não pode ser dita pelo inconsciente a não ser a sua falta. 

Apesar  de  nomear  as  fórmulas  do  lado  direito  de  femininas,  Lacan  não  pretende 

estabelecer o Outro  gozo como traço feminino por excelência, o que seria uma tentativa de 

delimitar um conjunto das mulheres, tarefa, para ele, impossível, pelo fato de que nenhuma 

mulher faz exceção à regra, de modo que também não a estabelece. Isso significa dizer que 

nenhuma mulher funda a existência de um sexo não fálico. Enquanto falta a exceção, falta a 

regra, e, dessa forma, Lacan propõe que as mulheres sejam inseridas em um conjunto aberto, 

ou melhor, que sejam contadas uma a uma, como em uma série. 

A partir do entendimento de que o gozo suplementar só pode ser evocado e situado a 

partir  da  castração  e  da  função  fálica,  torna-se  relevante  pensar  na  relação,  que,  como 

veremos, é entendida como uma não-relação, entre um gozo e outro. Em Mais, Ainda (1993 

[1972-1973]), o autor se utiliza de um paradoxo de Zenão, o de Aquiles e da tartaruga, para 

ilustrar  tal  tarefa.  O  argumento  lógico  diz  que,  apesar  de  Aquiles  ser  mais  veloz  do  que  a 

tartaruga,  nunca  a  alcançará,  porque  na  altura  em  que  atingir  o  ponto  de  onde  a  tartaruga 

partiu, a mesma já terá se deslocado para um ponto mais adiante. A tartaruga “não é toda, não 

toda 

dele. Ainda falta. E é preciso que Aquiles dê o segundo passo, e assim por diante” [grifo 

do autor] (Lacan, 1993 [1972-1973]: 16). Se a tartaruga tem uma vantagem sobre Aquiles, o 

mesmo só pode alcançá-la na infinitude, porque o espaço em que cada um deles se desloca é 

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  67 

diferente  do  espaço  do  outro,  de  forma  que  a  distância  que  separa  os  dois  estará  sempre 

dividida  em  dois.  Para  atingir  o  animal,  primeiro  é  preciso  que  se  percorra  essa  metade.  E, 

quando chegar lá, outras metades ainda faltarão. 

Trata-se de uma analogia para aquilo que ocorre entre um homem e uma mulher e a 

diferença entre seus gozos. Para Lacan, “o gozo não convém à relação sexual, por causa de ele 

falar, o tal gozo, ela, a relação sexual, não há” (Lacan, 1993 [1972-1973]: 83). O gozo fálico e 

o Outro gozo divergem em uma metade na qual não se unem, daí a afirmação lacaniana de 

que a relação sexual não existe. 

 

En  cada  etapa  del  razonamiento,  la  distancia  que  separa  a  los  dos 

protagonistas está dividida en dos. Esta mitad que los separa es la de 

sus fantasmas donde ellos no se encuentran, aunque sea sin embargo 

aquel en que ellos se buscan (Pommier, 1986: 82)

18

 

O  paradoxo  aparece  como  uma  tentativa  de  escrever  a  não  relação  sexual.  Trata-se  de  um 

encontro com o real impossível, ou seja, de demonstrar a dimensão de infinitude do não-todo, 

impossível de ser alcançada pela medida fálica, representada por Aquiles. 

A originalidade deste momento de seu ensino é o deslocamento da questão feminina 

do  campo  do  sexo  para  o  campo  do  gozo.  André  (1998)  defende  que  a  divisão  do  sujeito 

feminino entre a lógica fálica e a não-toda fálica, a divisão da libido em dois gozos, seria uma 

releitura  da  teoria  freudiana  da  bissexualidade  histérica,  que,  na  verdade,  diria  respeito 

justamente  a  dois  gozos.  A  bissexualidade  como  o  nome  do  desacordo  fundamental  que 

impede a totalização do indivíduo, como o nome da divisão irremediável da sexualidade da 

qual a fantasia histérica é porta-voz, é, para o autor, o precursor do lugar e do papel do Outro 

enquanto Outro sexo para a divisão do sujeito, já que a histérica  apresentava-se  conflituosa 

entre duas representações que procurava identificar com um sexo ou outro. 

Outra  formulação  proposta  acerca  da  mulher  é  a  de  que  ela  “não  existe”.  Essa 

afirmativa  de  Lacan  torna-se  mais  clara  a  partir  de  uma  segunda  tese,  a  de  que  não  há 

significante A Mulher.  Isso quer dizer que não há um significante específico para a mulher 

enquanto “um sexo sem outro”. Não há significante no Outro do sexo feminino enquanto tal 

que não esteja referido ao homem e à função fálica.  

                                                 

18

  O  trecho  correspondente  na  tradução  é:  “Em  cada  etapa  do  raciocínio,  a  distância  que  separa  os  dois 

protagonistas está dividida em dois. Esta metade que os separa é a de seus fantasmas onde eles não se encontram, 
ainda que, entretanto, seja aquilo em que se buscam”. 

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  68 

Essa  falta  de  significante  a  qual  o  autor  se  refere  diz  respeito  ao  âmbito  do 

inconsciente. Trata-se de uma falta considerada segundo o esquema fundamental de cada falta 

simbólica:  a  foraclusão.  Brousse  (2005)  propõe  que  os  efeitos  de  falta  de  significante  A 

Mulher são da mesma ordem dos efeitos da foraclusão, e não da repressão ou da denegação. A 

foraclusão  implica  em  um  furo  no  simbólico,  o  que  faz  as  soluções  para  essa  ausência  de 

significante  corresponderem  a  formas  de  fazer  suplência.  Para  a  autora,  devemos  falar  em 

“feminilidades”  no  plural,  já  que  os  modos  de  se  bordear  o  buraco  no  simbólico  são 

diversificadas  e  ocorrem  ao  nível  da  sexuação.  A  ausência  de  um  termo  adequado  deixa 

indeterminada  a  identificação,  de  modo  que  essa  inconsistência  dos  traços  identificatórios 

impossibilita a definição de um modelo feminino. 

Segundo  André  (1998),  o  impasse  freudiano  no  que  diz  respeito  à  sexualidade 

feminina está relacionado à tentativa de fazer das mulheres um conjunto, tarefa que Lacan põe 

em cheque ao longo de seu ensino. É justamente da falta de ponto de apoio para a identidade 

especificamente feminina que leva Lacan a formular que em uma mulher a imagem corporal 

não consegue revestir e erotizar por completo o real do corpo. A questão é que a resposta para 

o que seria esse real, em que a parte feminina abarcaria a feminilidade propriamente dita, é 

impossível  de  ser  formulada.  Segundo  o  ensino  de  Lacan,  nenhuma  resposta  positiva  pode 

resolver essa questão, pois significaria nomear um não-representável. 

 

O  corpo  dito  “feminino”  se  define  por  ser,  parcialmente  ao  menos, 

exterior  ao  saber,  nenhuma  articulação  significante  permitindo 

responder  pela  diferença  que  a  anatomia  nos  indica  (André,  1998: 

136). 

 

Se para Freud a anatomia é o ponto de chegada da sexualidade, os destinos sexuais do sujeito 

tornam-se  um  impasse  para  a  conclusão  da  análise.  Os  traços  próprios  a  sexualização  de 

homens e mulheres, a luta contra a posição passiva frente a outros homens e a inveja do pênis, 

reaparecem, obstacularizam a análise e determinam o seu caráter interminável. 

O percurso do ensino de Lacan trará a possibilidade do sujeito ir mais além do primado 

do  falo,  justamente  porque,  desde  Freud,  a  significação  fálica  é  o  ponto  de  partida  da 

constituição do sujeito, sem ser, necessariamente, o seu destino final. Trata-se de ir além do 

falo enquanto nome do ponto de apoio simbólico que liga o sujeito ao Outro. O mais-além do 

falo consiste no ponto de inconsistência do sistema simbólico.  

 

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  69 

 

2.5 O real como alteridade radical 

 

 

O que se torna inacessível para nós? Partindo dessa pergunta, Žižek (2008) desenvolve 

a noção de real da diferença sexual. Segundo o autor, para Lacan, não se trata do inacessível 

dos  erros  de  interpretação  e  das  ilusões  atrelados  ao  imaginário,  que  distorcem  o  que 

percebemos,  assim  como  também  não  vem  da  rede  simbólica  através  da  qual  nos 

relacionamos  com  a  realidade.  O  inacessível  é  o  real  inscrito  no  núcleo  da  sexualidade 

humana, o que o sujeito perde ao entrar no regime simbólico da diferença sexual. Freud deu o 

nome  de  “castração”  a  essa  perda.  Já  Lacan  preocupou-se  em  distinguir  as  noções  de 

castração e de real que, a seu ver, permaneceram confusas em Freud. O autor emprenha-se em 

demonstrar que a castração não coincide com o furo do simbólico, ou seja, há a castração, mas 

para além dela há o real.  

No  livro  O  Que  Quer  uma  Mulher?  (1998),  André  retoma  o  percurso  do  autor  em 

relação  à  elaboração  do  conceito  de  real,  que  ocupará  um  lugar  cada  vez  mais  especial  na 

teoria,  sendo  essencial,  por  exemplo,  nessa  nova  concepção  da  castração  e  da  diferença 

sexual. O autor inicia o trajeto com a noção de real trabalhada no seminário, livro II (1985a 

[1954-1955]), a partir de um sonho de Freud conhecido como o “sonho da injeção de Irma”, 

descrito e analisado pelo mesmo no texto A Interpretação dos Sonhos (1996 [1900]).  

 

O  sonho  corre  da  seguinte  forma:  Irma,  uma  amiga  doente  da  família  de  Freud, 

aparece sofrendo, de forma que Freud quer examinar a sua garganta. A mulher, em princípio 

resiste, mas nas palavras do sonhador: “em seguida, ela abriu a boca como devia e, no lado 

direito,  descobri  uma  grande  placa  branca;  em  outro  lugar,  vi  extensas  crostas  cinza-

esbranquiçadas sobre algumas notáveis estruturas recurvadas, que tinham evidentemente por 

modelo os ossos turbinados do nariz” (Freud, 1996 [1900]: 141). Três colegas são chamados a 

examiná-la; um deles conclui que se tratava de uma infecção. No sonho, a origem da doença é 

explicada  pelo  uso  que  Otto  faz  de  uma  seringa  suja  para  dar  a  Irma  uma  injeção  de  um 

preparado  de  trimetilamina.  A  fórmula  da  trimetilamina  aparece  nitidamente  impressa  em 

letras grandes. 

A  releitura  de  Lacan  sobre  o  sonho  freudiano  privilegiará  dois  pontos  que  se 

relacionam, o espetáculo assustador do fundo da garganta de Irma e a emergência da fórmula 

da trimetilamina. Sobre o primeiro, nos diz: 

 

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  70 

Eis aí uma descoberta horrível, a carne que jamais se vê, o fundo das 

coisas,  o  avesso  da  face,  do  rosto,  os  secretados  por  excelência,  a 

carne da qual tudo sai, até mesmo o íntimo do mistério, a carne, dado 

que  é  sofredora,  informe,  que  sua  própria  forma  é  algo  que  provoca 

angústia.  Visão  de  angústia,  identificação  de  angústia,  última 

revelação do és isto – és isto, que é o mais longínquo de ti, isto que é 

o mais informe 

[grifo do autor] (Lacan, 1985a [1954-1955]: 197/198). 

 

Freud  desaparece  no  sonho,  o  que  para  André  (1998),  permite  que  o  mesmo  prossiga,  pois 

Freud não precisa mais se a ver com o real. Começa a elaborar uma resposta a esse, que vai 

desembocar na fórmula enquanto escritura simbólica. 

 

Em sua leitura, Lacan articula tal sonho à própria forma como se deu a descoberta da 

psicanálise: o fato que se diga ou que se sonhe se revela causado por um real inominável, real 

que o inconsciente tenta delimitar como se bordeja um furo, pelo sistema do simbólico, pela 

cadeia significante, da mesma forma que o saber psicanalítico tenta designar essa instância do 

real com a ajuda de fórmulas ou matemas. 

 Uma outra temática é sublinhada por Lacan, o tema das três mulheres. Condensadas 

em  Irma,  há  três  mulheres  que  resistem  a  Freud,  ou  porque  nada  lhe  dizem,  ou  porque  se 

recusam a ser examinadas por ele, ou ainda porque tenham aderido para sempre ao mutismo 

da  morte.  A  figura  da  morte,  do  silêncio  e  do  feminino  se  articulam  em  outros  sonhos  de 

Freud e culminam na lembrança de sua mãe ensinando a ele que o homem é feito de terra e 

deve a ela retornar. Assim, a principal figura da feminilidade vai entrando em cena: a mãe, 

mas  ao  mesmo  tempo,  a  morte,  aquela  de  onde  se  vem,  mas  também  aquela  para  onde  se 

retorna, aquela que nos alimenta e que finalmente nos absorve, nutriz e devoradora ao mesmo 

tempo.  

 

Na revelação deste algo de inominável propriamente falando, o fundo 

desta  garganta,  cuja  forma  complexa,  insinuável,  faz  dela  tanto  o 

objeto primitivo por excelência, o abismo do órgão feminino, de onde 

sai  toda  vida,  quanto  o  vórtice  da  boca,  onde  tudo  é  tragado,  como 

ainda  a  imagem  da  morte  onde  tudo  vem-se  acabar  (Lacan,  1985b 

[1954-1955]: 208). 

 

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  71 

Aparece aí um implícito que guia Freud: há alguma coisa no corpo da mulher que resiste ao 

adorno fálico, alguma coisa que dele se destaca a própria morte, que é seu sexo propriamente 

dito. O real, o pedaço de carne não adornado pela imagem erotizada do corpo, aparece aqui 

estreitamente vinculado às noções de feminino e de morte, ambas saídas do gesto com o qual 

a mãe de Freud o inicia nos mistérios da morte: é de seu próprio corpo que alguma coisa se 

destaca, pequeno fragmento que se apresenta com o que há de mais real no corpo, encarnando 

a realização mesmo da morte. Este resto que se destaca do corpo para além de toda imagem 

nos  propõe  uma  figuração  cativante  daquilo  que  Lacan  chama  de  objeto  a,  e  devemos 

relacioná-lo com a mancha horrível percebida no fundo da garganta de  Irma. Os restos que 

caem da epiderme da mãe são os restos de real que caem de qualquer composição simbólico-

imaginária. 

 

As três inevitáveis relações que um homem tem com uma mulher – a 

mulher que o dá à luz, a mulher que é sua companheira e a mulher que 

o destrói; ou que elas são as três formas assumidas pela figura da mãe 

no  decorrer  da  vida  de  um  homem  –  a  própria  mãe,  a  amada  que  é 

escolhida  segundo  o  modelo  daquela  e,  por  fim,  a  Terra  Mãe,  que 

mais uma vez o recebe (Freud, 1996 [1913]: 325). 

 

É  a  Morte  a  palavra  pela  qual  Freud  significa  o  que  resta  da  mãe,  da  mãe  enquanto  real, 

enquanto proibida. Na medida em que uma parte dela fica sem significante, como uma zona 

de silêncio em relação àquilo que se nomeia, a mãe é um equivalente da morte, e só na morte 

é reencontrada.  

Lacan irá designar na morte uma das figuras do real. Se a morte tem tanta importância 

para nós, seres falantes, é porque ela nega o discurso; é o mutismo que quebra a espada da 

palavra.  Fica-se,  então,  menos  surpreso  de  reencontrá-la  no  inconsciente  como  um 

equivalente da mãe, até mesmo da feminilidade, na medida em que os desenvolvimentos da 

teoria  freudiana  nos  mostram  que  alguma  coisa  da  feminilidade  permanece  absolutamente 

fora do alcance da palavra, interdito no sentido mais forte do termo, quer dizer, presente no 

mutismo que se intercala entre os ditos. 

 

O  sonho  da  injeção  de  Irma  e  o  feminino  colocam  uma  outra  temática  para  a 

psicanálise:  a  do  umbigo,  do  não-cognoscível,  para  o  qual  converge  todo  o  sistema  de 

representações.  “Em  seguida,  ela  abriu  a  boca”  faz  com  que  Freud  distinga  duas  coisas:  a 

resistência do sujeito a abrir a boca,  a falar, e aquilo que, uma vez a boca aberta, revela-se 

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  72 

insondável. Que Irma se ponha a falar não implica em que vá dizer tudo, nem que Freud vá 

saber  de  tudo.  Persistirá  um  não-cognoscível.  A  noção  do  umbigo  torna  o  mutismo  mais 

complexo,  duplica-o:  existe  um  silêncio  no  exterior  da  fala,  que  se  opõe  a  esta,  mas  existe 

também no interior mesmo da fala. Eis aí mais uma forma de demarcar, no discurso, aquilo 

que constitui a realidade do sexo feminino: é o que vai se manifestar como furo no discurso, 

como lacuna no tecido significante.  

No  Rascunho  K  (1996  [1896]:  276),  Freud  passa  a  falar  do  fenômeno  primário  da 

histeria como “uma manifestação de susto com uma lacuna no psiquismo”, quer dizer, uma 

ausência de representação. A lacuna e o susto psíquico são, com efeito, anteriores ao sintoma 

histérico propriamente dito. É pelo recalcamento e pela repetição que a histeria vai se colocar, 

quando o sujeito encontrar uma representação que o remeta àquela lacuna e àquele susto, estes 

assumindo  seu  valor  num  “só-depois”.  Freud  diz  que  o  recalcamento  não  se  realiza  pela 

formação  de  uma  idéia  contrária  poderosa  demais,  mas  sim  pelo  reforço  de  uma 

representação-limite

, que, a partir de então, vai representar a lembrança recalcada. Nenhuma 

dessas  noções  –  a  de  lacuna  e  a  de  representação-limite  –  foram  retomadas  por  Freud.  No 

entanto,  para  André  (1998),  essas  noções  indicam  o  que  retornará  no  caso  do  Homem  dos 

Lobos

 (1996 [1918])a presença de um elemento real, fora do conhecimento porque fora do 

significante, no cerne do recalcamento significante que determina os sintomas – quer dizer a 

insistência  do  real  por  detrás  da  problemática  simbólico-imaginária  da  castração.  Ainda 

segundo André (1998), Freud segue falando da feminilidade por duas vertentes: a do real, a do 

não-reconhecível, do mutismo e da morte, em que vai se realizar o fenômeno da repulsa; e a 

vertente  da  castração,  do  primado  do  falo,  em  que  vai  se  realizar  o  fenômeno  do  horror.  A 

segunda orientação ganhará mais espaço em Freud até encobrir a primeira.  

Para o autor, trata-se de um movimento da obra freudiana observável especialmente no 

tratamento da questão da feminilidade: o inominável vai sendo integrado ao sistema simbólico 

até  desaparecer  completamente.  Assim,  se  Lacan  aparentemente  propõe  o  inverso,  não  faz 

mais do que restaurar uma verdade primeira da doutrina freudiana, verdade que foi eclipsada 

pela teoria da castração. 

O  percurso  lacaniano,  que  tem  início  no  conceito  de  castração,  tal  como  Freud  o 

deixou, atinge o seu ponto máximo ao alcançar o real. Revela que o sistema simbólico não é 

mais  do  que  uma  tentativa  de  recobrimento  daquilo  que  tende  a  escapar  ao  nome,  ao 

significante, e aos bordados da metonímia simbólica. As próprias composições simbólicas e 

imaginárias não deixam de produzir um resto real. Lacan esclareceria, assim, a existência de 

uma relação estrutural entre a feminilidade enquanto real e o falo enquanto significante. 

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  73 

Cronologicamente,  o  real  é  anterior  à  ordem  simbólica,  porém  possui  essa 

característica  condicional  de  só  poder  ser  designado  e  pensado  enquanto  tal  a  partir  dessa 

mesma ordem. O real pode ser entendido como efeito do simbólico, segundo a perspectiva de 

sua  função  de  causa.  Só  há  o  inominável  em  função  do  nome,  assim  como  só  há  o  real  do 

corpo em relação aos limites da simbolização. 

 

Algo no está incluido en el conjunto de las palabras, y esta ausencia se 

articula a la castración. La demanda, por una parte, y la cosa ausente, 

por  otra,  forman  un  todo  discordante  que  es  el  correlato  de  la 

inadecuación  de  Otro  a  la  persona  que  lo  soporta:  el  objeto  de  las 

demandas ocupa el lugar de esta inadecuación. Es por eso que la falta 

que es inhetente al lenguaje se refiere finalmente al cuerpo (Pommier, 

1986: 113)

19

 

O  corpo,  à  medida  em  que  existe  a  inconsistência  das  palavras,  adquire  uma  função  de 

suplência,  ocupando  o  lugar  daquilo  que  elas  falham  em  nomear.  O  genital  pode  ser 

compreendido  como  o  furo  na  consistência  fálica  da  ordem  simbólica,  o  ponto  de 

inconsistência simbólica, o ponto de real que fura o simbólico (Elia, 1995: 92).  

 

Finalmente,  o  corpo  é  também  real,  não  porque  ele  seja,  afinal  de 

contas,  também  orgânico

:  o  corpo  é  real  na  medida  em  que  não  é 

totalmente  imaginarizado  e  simbolizado,  ou,  antes,  porque  o  é  não-

todo

,  pois,  a  partir  do  corte  representado  por  sua  entrada  na  ordem 

simbólica,  que  toma  o  corpo  passível  de  recobrimento  imaginário,  o 

corpo  orgânico,  para  sempre  perdido  na  experiência  do  sujeito,  dá 

lugar  a  um  vazio  não  imaginarizável  nem  simbolizável,  lugar, 

inclusive,  que  se  constitui  como  furo  no  campo  das  representações 

[grifos do autor] (Elia, 1995: 107). 

 

Para  Elia  (1995),  se  por  um  lado  a  psicanálise  estabelece  que  a  sexualidade  é  absoluta,  no 

sentido de que nenhum sujeito escapa às evidências do sexual, por outro lado, sustenta que a 

                                                 

19

 O trecho correspondente na tradução é: “Algo não está incluído no conjunto das palavras, e esta ausência se 

articula à castração. A demanda, por uma parte, e a coisa ausente, por outra, formam um todo discordante que é o 

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  74 

mesma  é  não-toda,  isto  é,  não  diz  todo  o  sujeito.  Encobrir  a  totalidade  da  experiência 

subjetiva  em  torno  do  sexual  seria  eliminar  aquilo  que  escapa  à  significação  fálica,  seria 

recusar o mais-além do sexual. A psicanálise, portanto, afirma a exclusividade do sexual, sem, 

no  entanto,  ignorar  a  dimensão  de  furo  do  sexual,  a  impossibilidade  radical  e  estrutural  de 

significação. A noção de gozo em Lacan viria marcar a impossibilidade de subsunção total do 

real  pelo  simbólico,  garantindo  a  subjetividade  para  além  de  suas  representações 

inconscientes. 

A  partir  do  trajeto  realizado  por  Lacan  a  fim  de  estabelecer  a  noção  de  sexuação, 

podemos retirar conclusões cruciais para o tema da diferença sexual: a assunção do próprio 

sexo é acompanhada da admissão do sexo do Outro (Brodsky, 2005). Em termos lacanianos, 

isso  significa  priorizar  o  encontro  do  sujeito  com  a  existência  de  outra  posição  frente  à 

castração, frente ao desejo e ao Outro gozo, sobre o encontro, dito traumático por Freud, com 

a  diferença  sexual,  referente  à  primazia  da  perspectiva  imaginária  do  corpo.  A  sexuação, 

então, a recusa ou a assunção por parte do sujeito de seu próprio sexo caminha em paralelo ao 

reconhecimento da diferença sexual enquanto alteridade.  

As  teorias  lacanianas  da  sexualidade  dão  margem  a  interpretações  normativas,  por 

assinalarem o modelo binário e hierárquico dos sexos à constituição da alteridade. Por outro 

lado, a partir da interpretação normativa que Butler (2002, 2003) realiza sobre a psicanálise, 

Žižek  (1999)  sublinhará  no  pensamento  lacaniano  a  noção  de  diferença  sexual  como  real  e 

como  conceito  formal  sem  conteúdo.  Para  o  autor,  em  última  instância,  o  real  tem  que  ser 

completamente  dessubstancializado,  o  que  confere  uma  certa  radicalidade  à  noção  de 

diferença sexual. Empenha-se, assim, em descaracterizar a distinção dos sexos de seu caráter 

simbólico e imaginário. 

 

                                                                                                                                                         

correlato  da  inadequação  do  Outro  à  pessoa  que  o  suporta:  o  objeto  das  demandas  ocupa  o  lugar  desta 
inadequação. É por isso que a falta que é inerente à linguagem se refere finalmente ao corpo”. 

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CAPÍTULO 3 

CONSIDERAÇÕES SOBRE AS NOÇÕES PSICANALÍTICAS DE ALTERIDADE E 

DIFERENÇA SEXUAL: o debate contemporâneo entre Judith Butler e Slavoj Žižek 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como  vimos  nos  dois  capítulos  anteriores,  a  questão  da  sexualidade  e  da  diferença 

sexual  perpassa  de  forma  complexa  a  própria  história  do  movimento  psicanalítico. 

Recentemente, estas noções têm sido problematizadas por autores que partem do pressuposto 

de que, embora a sexualidade esteja estreitamente relacionada ao conceito de inconsciente e 

de  pulsão,  ela  não  deixa  de  ser  uma  noção  histórica  e  contingente.  Partindo  dessa 

problematização,  o  presente  capítulo  analisará  algumas  questões  que  vem  sendo  relançadas 

aos psicanalistas: a noção de diferença sexual deve se sustentar no modelo do dimorfismo? 

Mesmo  levando  em  consideração  o  modelo  simbólico  estruturalista  de  Lacan,  as  posições 

sexuadas devem corresponder a um modelo binário e hierárquico? E finalmente, existe outra 

possibilidade  de  pensar  a  noção  de  diferença  e  de  alteridade  na  psicanálise  para  além  do 

dispositivo  da  diferença  sexual?  O  que  está  em  jogo  nessas  perguntas,  para  aqueles  que 

interpelam a psicanálise, é a repercussão cultural das teses sobre a diferença, tendo em vista 

que  a  transformação  de  modelos  histórico-contingentes  da  diferença  sexual  em  um  único 

modelo universal caracterizaria uma teoria normativa, e, conseqüentemente, excludente.  

Com  o  objetivo  de  aprofundar  essas  questões,  analisaremos  as  críticas  e  as 

contribuições  de  Judith  Butler  para  a  teoria  psicanalítica  a  partir  de  sua  interlocução  com 

Slavoj  Žižek.  Deteremos-nos  especialmente  nesses  dois  autores  por  entender  que  ambos  se 

encontram  reconhecidamente  envolvidos  com  os  impasses  contemporâneos  que  assolam  a 

psicanálise.  Reconhecemos  também  que  tanto  um  quanto  o  outro  trazem  importantes 

contribuições ao pensamento psicanalítico.  

Judith  Bulter,  lingüista  norte-americana  movida  principalmente  por  uma  proposta 

política  de  inclusão  e  reconhecimento  dos  abjetos  e  dos  gêneros  não-inteligíveis  (2002), 

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  76 

empenha-se  em  localizar  nos  discursos  psicanalíticos  a  assunção  da  identidade  de  gênero, 

ainda que seus  autores não utilizem essa categoria conceitual. A partir da desconstrução de 

conceitos  caros  a  Freud  e  a  Lacan,  tais  como  complexo  de  Édipo,  identificação  e  posições 

sexuadasa autora pretende comprovar sua tese de que as psicanálises freudiana e lacaniana 

perpetuam  as  normas  de  gênero  e  da  heterossexualidade,  podendo  assim  ser  reconhecidas 

como um dispositivo de poder no sentido foucaultiano do termo. 

Slavoj  Žižek  discute  as  críticas  de  Butler  à  psicanálise,  empenhando-se  em  clarear 

argumentos internos à própria teoria psicanalítica que sejam eficientes em distingui-la de um 

saber  comprometido  com  a  normatividade.  Acaba  por  propor  uma  concepção  de  diferença 

sexual a partir do último ensino de Lacan, a de diferença sexual sem conteúdo. 

Em um primeiro momento, deteremos-nos na discussão que se dá em torno do ensino 

de Freud e, logo em seguida, na de Lacan. Além disso, ao focarmos o debate contemporâneo 

nos  pensamentos  de  Butler  e  Žižek,  direcionamos-nos  ainda  para  a  contribuição  dos  dois 

autores em relação à questão da subversão da ordem hegemônica. 

 

 

3.1 Controvérsias acerca do complexo de Édipo e do conceito de identificação em Freud 

 

 

O conceito de complexo de Édipo em Freud foi abordado no primeiro capítulo deste 

trabalho. Retomaremos aqui alguns aspectos importantes deste conceito para o debate atual da 

diferença  sexual  na  psicanálise  freudiana.  Iniciaremos  a  discussão  apresentando  a 

argumentação  de  Butler  (2003)  na  construção  de  uma  crítica  ao  complexo  enquanto  um 

modelo explicativo da subjetividade atravessado pelas normas heterossexistas de gênero. 

Em Problemas de Gênero (2003)a autora faz referência a dois textos freudianos, um 

de 1917, Luto e Melancolia, e outro de 1923, O Ego e o Id. Os dois escritos se associam da 

seguinte  forma:  se  no  primeiro  Freud  trabalha  o  processo  melancólico  como  patológico,  no 

segundo  aponta  para  o  fato  de  que  este  se  faz  tipicamente  presente  na  formação  das 

identificações  causadas  pela  dissolução  do  complexo  de  Édipo  e  formadoras  do  núcleo  do 

ideal do ego. Sendo  este último concebido por  Freud como uma  estrutura funcional do  ego 

que “visa o campo intersubjetivo e trabalha com modelos, normas e valores” (Mezan, 2006: 

294),  Butler  (2003)  conclui  que  é  a  partir  deste  que  se  constitui  a  identidade  de  gênero.  A 

partir do desenvolvimento de sua leitura, cunha o termo “melancolia de gênero” para designar 

o procedimento a partir do qual uma norma se torna psíquica. 

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  77 

Como  vimos  anteriormente,  o  complexo  de  Édipo  aparece  desde  o  início  da  obra 

psicanalítica,  sofrendo  muitas  modificações  até  a  sua  elaboração  definitiva

20

.  Isso  significa 

dizer que Butler (2003) tomou o conceito como objeto de trabalho em um certo momento de 

sua constituição, momento este que iremos tentar demarcar. 

Segundo  Mezan  (2006),  o  movimento  da  concepção  do  complexo  é  paralelo  ao  do 

conceito  de  identificação,  pois  enquanto  este  último  não  era  desenvolvido,  a  relação  da 

criança com seus pais adquiria relevância apenas no nível da escolha de objeto, a influência 

do triângulo edípico restringia-se ao “ato de eleger uma pessoa ou um tipo de pessoa como 

objeto de amor” (Laplanche e Pontalis: 2001: 154). A partir do relato do caso do Homem dos 

Lobos

 (1996 [1918]) e do texto sobre o luto e a melancolia (1996 [1917]), ambos redigidos ao 

mesmo tempo, o conceito de identificação ganha um formato mais preciso. Em O Ego e o Id, 

de 1923, novas elaborações em torno do conceito o colocaram numa dimensão edipiana, não 

mais sob a proteção do narcisismo. 

 

Para resumir numa fórmula a relação entre o Complexo de Édipo e a 

identificação,  tal  como  ela  se  apresenta  na  constelação  conceptual 

presente,  diremos  que  é  a  análise  da  identificação  que  fornece  a 

alavanca  para  o  deslocamento  do  complexo  da  puberdade  para  a 

infância. Esta modificação é crucial, já que, ocorrendo em época tão 

precoce, o Édipo passa  a ter  a importância dos  elementos infantis, o 

que,  segundo  uma  frase  que  citamos  anteriormente,  equivale  a 

equipará-los  às  pedras  fundamentais  da  psicanálise  (Mezan,  2006: 

206). 

  

As conseqüências do complexo na estruturação do sujeito passam a ser abarcadas por Freud 

em  termos  de  identificação:  os  investimentos  da  criança  em  relação  a  seus  pais  são 

abandonados e substituídos por identificações que a estruturam psiquicamente. As instâncias 

do sujeito passam a ser descritas como resquícios das diversas modalidades das relações de 

objeto.  A  psicanálise  acaba  por  conferir  ao  mecanismo  da  identificação  o  valor  central  de 

operação pela qual o sujeito se constitui a partir da assimilação do outro como modelo. 

                                                 

20

  Freud,  nos  seus  últimos  trabalhos  teóricos,  ainda  se  questionava  sobre  a  inteligibilidade  da  sexualidade 

feminina para a psicanálise, o que nos faz pensar o quanto o complexo de Édipo não teve um formato definitivo, 
permanecendo de certa forma com pontos de abertura, o que também contribuiu para que os pós-freudianos o 
retomassem. 
 

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  78 

Ainda com o intuito de melhor analisar as argumentações de Butler (2003) acerca do 

complexo de Édipo e do conceito de identificação, cabe aqui expor brevemente a tese central 

de  Freud sobre a melancolia no texto de 1917.  Do luto ao quadro clínico da melancolia há 

duas especificidades que fazem dessa última um processo patológico: (1) o objeto é perdido 

sem  que  o  sujeito  possa  precisar  no  que,  ou  do  que,  consiste  essa  perda;  (2)  ocorre  um 

empobrecimento  do  ego,  cujos  sintomas  são  as  críticas  e  as  humilhações  que  o  indivíduo 

dirige  a  si  próprio.  O  autor  explica  o  quadro  clínico  da  melancolia  através  do  conceito  de 

identificação:  a  libido  que  esteve  investida  no  objeto,  a  partir  da  perda  deste,  é  retraída  em 

direção ao ego. Tal processo justificaria o porquê das recriminações que o sujeito dirige a si 

mesmo, já que a identificação causaria uma coincidência entre o ego e o objeto, de modo que 

o ódio dirigido até então para o objeto passa a recair sobre o ego. Essa equivalência entre ego 

e objeto se dá porque a identificação típica da melancolia se apresenta segundo o modelo da 

“incorporação”,  segundo  “o  modo  de  relação  com  o  objeto  característico  da  fase  oral,  que 

consiste na sua ingestão e destruição simultâneas” (Mezan, 2006: 186). Trata-se, então, de um 

regresso  da  libido  a  uma  organização  pré-genital  e  narcísica,  em  que  o  objeto  perdido  é 

introjetado no próprio ego. 

Butler (2003) reconhece na articulação desses elementos teóricos o que considera ser 

uma  explicação,  baseada  em  Freud,  sobre  como  se  constitui  a  identidade  de  gênero. 

Valorizando a tese psicanalítica acerca do tabu do incesto, sua sugestão principal se torna: se 

a melancolia ocorre a partir da perda de um objeto de amor, então, nos é válida para pensar a 

formação de gênero, pois esta, segundo a autora, seria inaugurada por uma perda de objeto, 

aquele interditado pela proibição do incesto. O próprio Freud, em O Ego e o Id (1996 [1923]), 

identifica o processo melancólico, antes visto sob seu caráter patológico, com o procedimento 

típico  da  constituição  do  sujeito,  em  que  as  identificações  produzidas  pela  dissolução  do 

complexo de Édipo formam o núcleo do ideal do ego. 

 

Quando  acontece  uma  pessoa  ter  de  abandonar  um  objeto  sexual, 

muito  amiúde  se  segue  uma  alteração  de  seu  ego  que  só  pode  ser 

descrita como instalação do objeto dentro do ego, tal como ocorre na 

melancolia. [...] Pode ser que essa identificação seja a única condição 

em  que  o  id  pode  abandonar  seus  objetos.  De  qualquer  maneira,  o 

processo,  especialmente  nas  fases  primitivas  de  desenvolvimento,  é 

muito  freqüente,  e  torna  possível  supor  que  o  caráter  do  ego  é  um 

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  79 

precipitado  de  catexias  objetais  abandonadas  e  que  ele  contém  a 

história dessas escolhas de objeto (Freud, 1996 [1923]: 42).  

 

Essa é a ponte para Butler (2003) afirmar que, sendo tanto o complexo de Édipo quanto o seu 

herdeiro, o ideal do ego, instrumentos de consolidação da identidade masculina e feminina, a 

assunção do gênero, em Freud, se inicia com a perda de objeto de amor provocada pelo tabu 

do  incesto.  Sob  seu  ponto  de  vista,  a  interdição  do  incesto,  seja  em  Freud

21

  ou  em  Lévi-

Strauss

22

,  serve  à  naturalização  da  distinção  entre  a  natureza  e  a  cultura.  No  caso  da  teoria 

freudiana,  a  lei  que  proíbe  o  incesto  aparece  tanto  como  elemento  central  na  fundação  da 

civilização quanto na constituição do sujeito, tendo como função incidir sobre a sexualidade 

tida como “natural” e “irrestrita”. 

A autora critica o estatuto de universalidade conferido à proibição do incesto por Freud 

e  Lévi-Strauss.  Mezan  (2006),  referindo-se  a  uma  das  primeiras  menções  freudianas  ao 

conflito  edípico,  feita  em  uma  carta  a  Fliess  (Freud,  1996  [1987b])  destaca  como 

“surpreendente” a universalidade que Freud atribui a esta constelação de sentimentos retratada 

na  lenda  do  Rei  Édipo:  “Cada  pessoa  da  platéia  foi,  um  dia,  em  germe  ou  na  fantasia, 

exatamente um Édipo como esse” (Freud, 1996 [1978b]: 316). No entanto, o que para Mezan 

(2006) não se configura um problema, para Butler (2003), trata-se de negligenciar o que seria 

um fato: a perspectiva psicanalítica é baseada em um formato específico de sociedade, aquela 

que tem por norma a heterossexualidade e a opressão das mulheres. A idéia de que o tabu do 

incesto marca a inauguração da cultura e do sujeito seria uma comprovação de sua tese, pois 

através dele se estaria delimitando as formações sociais e subjetivas tal como quer a ideologia. 

  Butler  (2003) realiza uma releitura dessa interdição, cuja intenção é trazer à tona o 

que, segundo a autora, encontra-se implícito na teoria freudiana: a proibição, junto ao tabu do 

incesto,  da  modalidade  de  desejo  homossexual.  Ao  longo  da  construção  do  conceito  de 

complexo  de  Édipo,  Freud  evidenciaria  o  tabu  como  uma  lei  que  incide  sobre  a  criança 

interditando  o  seu  objeto  de  amor  parental,  seja  este  do  mesmo  ou  do  outro.  No  entanto, 

Butler (2003) acrescenta que, em se tratando de uma modalidade de desejo homossexual, não 

apenas o objeto de mesmo sexo ficaria interditado, mas também a modalidade de laço em si. 

Nesse sentido, Freud não negaria a existência de um laço primário da criança com o genitor 

do  mesmo  sexo,  tanto  que  admite  tanto  a  mãe  quanto  o  pai  como  objetos  de  desejo  para  o 

                                                 

21

 Os textos freudianos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, de 1905, e “Totem e Tabu”, de 1913, são 

os citados por Butler (2003) na discussão sobre a interdição do incesto. 

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  80 

menino. O seu equívoco estaria no desfecho que dá a cada um desses laços, momento em que 

recorreria  a  uma  distinção  entre  eles,  segundo  seu  cunho  homo  ou  heterossexual.  A 

modalidade  de  escolha  objetal  heterossexual  consolidaria  a  identidade  de  gênero, 

permanecendo presente em todo o desenvolvimento do sujeito, com a única diferença de que, 

com a dissolução do complexo, seria deslocada para outros objetos que não o progenitor. Ao 

contrário, a modalidade de desejo homossexual seria reprimida junto com o objeto do mesmo 

sexo. A relação primária de cunho homossexual seria recalcada na evolução do Édipo e na sua 

dissolução. 

Butler (2003) reconhece, assim, uma distinção quanto ao desfecho esperado por Freud 

da relação edípica de cunho homo ou heterossexual. Enquanto essa última dependeria de um 

processo  de  luto  normal,  em  que  a  libido  retirada  do  objeto  perdido  se  desloca  para  novos 

objetos,  a  primeira  seria  substituída  por  uma  identificação  melancólica,  em  que  o  objeto 

perdido  é  incorporado  ao  ego.  A  autora  defende  que  a  psicanálise  restringe  o  processo 

melancólico  ao  destino  da  escolha  objetal  homossexual,  identificando  a  exclusão  de  tal 

modalidade de relação através da sua transformação em um tipo especial de identificação. 

 

No  caso  de  uma  união  heterossexual  proibida,  é  o  objeto  que  é 

negado,  mas  não  a  modalidade  de  desejo,  de  modo  que  o  desejo  é 

desviado  desse  objeto  para  outros  objetos  do  sexo  oposto.  Mas  no 

caso de uma união homossexual proibida, é claro que tanto o desejo 

como o objeto requerem uma renúncia e, assim, se tornam sujeitos às 

estratégias de internalização da melancolia (Butler, 2003: 93).  

 

Em A Organização Genital Infantil, de 1923, Freud começa a valorizar o papel da castração 

para o complexo de Édipo, de forma que em 1924, no texto A Dissolução do Complexo de 

Édipo, 

sua tese central passa a ser a de que o complexo e a fase fálica sucumbem à ameaça de 

castração,  dando  origem  ao  período  de  latência.  O  complexo  de  castração  é  centrado  numa 

fantasia construída pela criança frente ao enigma da distinção anatômica dos sexos. O autor 

demonstra  a  significação  narcísica  que  o  pênis  adquire  nas  construções  fantasmáticas  tanto 

dos meninos quanto das meninas, pois ao mesmo tempo em que o menino teme a castração a 

partir da ameaça paterna frente à sua atividade sexual, a menina percebe a ausência do pênis 

como um dano sofrido, pretendendo negá-lo, compensá-lo ou repará-lo. Adquirindo ao longo 

                                                                                                                                                         

22

  A  referência  bibliográfica  em  que  Butler  (2003)  se  baseia  é:  LÉVI-STRAUSS,  Claude.  “The  Principles  of 

Kinship”. In: The Elementary Structures of Kindship. Boston: Beacon Press, 1969.   

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  81 

do  movimento  psicanalítico  um  caráter  fantasmático,  a  angústia  de  castração  pode  ser 

resultado de experiências traumáticas diversas, que intervém sob um  elemento de perda, de 

separação  de  um  objeto.  Nessa  direção,  adquire  uma  função  primordial  na  dissolução  do 

complexo de Édipo e sua substituição pelo ideal do eu. Tomando como ilustração o modelo 

masculino, o autor afirma: 

 

Se a satisfação do amor no campo do complexo de Édipo deve custar 

à criança o pênis, está fadado a surgir um conflito entre seu interesse 

narcísico nessa parte de seu corpo e a catexia libidinal de seus objetos 

parentais. Nesse conflito, triunfa normalmente a primeira dessa forças: 

o ego da criança volta as costas ao complexo de Édipo (Freud, 1996 

[1924]: 196).  

 

A articulação freudiana entre os complexos de Édipo e da castração é outro ponto de objeção 

de  Butler  (2003),  que  subentenderá  na  concepção  do  “medo  da  castração”  um  “medo  de 

castração”. Sua sugestão se inicia com a seguinte constatação: se Freud aponta que a criança 

será obrigada a fazer uma escolha entre dois tipos de objeto, ou mais precisamente, entre dois 

tipos de predisposições sexuais (masculina e feminina), também demonstra ser mais comum a 

escolha heterossexual. A autora propõe, a partir de então, que essa normalização da escolha 

heterossexual não pode ser explicada pelo medo do menino frente à ameaça da perda do pênis 

infligida pelo pai, mas sim pelo medo de castração, isto é: 

 

[d]o  medo  da  ‘feminização’,  associado  com  a  homossexualidade 

masculina  nas  culturais  heterossexuais.  Com  efeito,  não  é 

primordialmente o desejo heterossexual pela mãe que deve ser punido 

e  sublimado,  mas  é  o  investimento  homossexual  que  deve  ser 

subordinado  a  uma  heterossexualidade  culturalmente  sancionada 

(Butler, 2003: 94). 

 

Em  seu  livro  sobre  os  limites  materiais  e  discursivos  do  “sexo”,  Cuerpos  que  importan 

(2002),  a  autora  parte  da  distinção  própria  à  psicanálise  entre  repressão  e  foraclusão  para 

esclarecer o valor do assunção de gênero na obra freudiana. Anterior à repressão que incide 

sobre  o  vínculo  amoroso  da  criança  pelo  genitor  de  sexo  oposto  estaria  a  necessidade  de 

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  82 

foraclusão da união com o objeto de mesmo sexo, em que esse último conceito concebe uma 

outra ordem de proibição, que se constitui fora do circuito de auto-reflexão. 

A  autora  nos  confere,  então,  a  seguinte  leitura:  a  relação  objetal  cujo  objetivo  é 

heterossexual exige a repressão do objeto, que desencadeando um processo de luto, desloca a 

libido para outros objetos que não o interditado, mas de mesmo sexo que este. Já a relação 

objetal  cujo  objetivo  é  homossexual  exige  a  foraclusão  do  objetivo,  o  que  é  possível  pelo 

desenvolvimento de um processo melancólico, já que, como nos diz Freud, a transformação 

da  libido  do  objeto  em  libido  narcísica  “obviamente  implica  um  abandono  de  objetivos 

sexuais, uma dessexualização – uma espécie de sublimação, portanto” (Freud, 1996 [1923b]: 

43). 

A razão para que a psicanálise faça essa distinção entre o vínculo amoroso da criança 

com o genitor de mesmo sexo, que deve ser foracluído, e aquele com o de sexo oposto, que 

deve ser reprimido, é justamente o que relacionaria essa teoria a uma ideologia heterossexista. 

Butler  (2002)  pretende  demonstrar  que  a  teoria  acerca  da  identidade  sexual  em  Freud  não 

admite o fato de que tanto a heterossexualidade  quanto a dominação masculina são normas 

sociais e contingentes, vulneráveis ao campo histórico e passíveis de transformação. No seu 

entender, o saber psicanalítico acaba por apelar a uma anterioridade ao campo do social, cuja 

função  seria  impor  limites  nos  conformes  da  matriz  heterossexual.  A  crítica  recai,  assim, 

sobre  a  tendência  da  psicanálise  a  universalizar  identidades  sexuais  quando  as  normas  de 

gênero  são  contextuais.  O  conhecimento  psicanalítico  sobre  a  sexualidade  acabaria 

funcionando como um dispositivo de poder, no sentido foucaultiano do termo, pois 

 

[...] a lei repressiva efetivamente produz a heterossexualidade, e atua 

não como código meramente negativo ou excludente, mas como uma 

sanção e, mais apropriadamente, uma lei do discurso, distinguindo o 

que é dizível do que é indizível (delimitando e construindo o campo 

do  indizível),  o  que  é  legítimo  do  que  é  ilegítimo  [parênteses  da 

autora] (Butler, 2003: 101/102). 

 

A autora conclui que é o desejo da psicanálise pela diferença sexual que desvaloriza a função 

do mesmo no processo de constituição subjetiva. Enquanto dispositivo de saber, a psicanálise 

estaria toda marcada por esse “desejo”, tendo em vista a sua constituição como um a priori no 

qual  se  baseiam  posteriormente  as  construções  teóricas  subjetivas.  Ainda  baseada  em 

Foucault,  Butler  (2003)  leva  esse  raciocínio  adiante,  defendendo  que  as  teses  freudianas 

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  83 

acabam  por  modular  as  formações  de  gênero,  restringindo  e  delimitando  os  limites  do 

enunciável, como também produzindo o campo da visibilidade. 

A autora utiliza as categorias “gêneros inteligíveis” e “gêneros não inteligíveis”, cuja 

fronteira  seria  delimitada,  no  caso  da  psicanálise,  como  que  por  uma  fórmula:  a  de  que  os 

opostos  se  atraem.  Os  autores  psicanalíticos  atribuiriam  retroativamente  o  desejo  por  uma 

mulher  a  uma  posição  desejante  necessariamente  masculina.  Butler  (2002)  trata  essa 

formulação como uma conseqüência da lógica freudiana e aponta para mais outra, a de que, se 

através da identificação melancólica e de seu efeito de incorporação o objeto perdido acaba 

por ser introjetado ao ego, então, o sujeito deve escolher como objeto de amor aquilo no qual 

tem medo de tornar-se. 

Nesse  ponto  da  tese  de  Butler,  Žižek  (1999)  comenta  a  ambigüidade  inerente  a  seu 

argumento  que,  para  o  autor,  oscila  entre  duas  posições  subjetivas:  a  identidade  de  gênero 

assumida  através  da  incorporação  melancólica  do  mesmo  ou  como  defesa  contra  assumir  a 

posição subjetiva (a identidade de gênero) referente ao sexo oposto. O movimento pendular 

da autora se dá entre a idéia de que uma mulher ama um homem por este ser um homem e a 

hipótese  de  que  o  ama  justamente  para  tornar-se  uma  mulher  (desejante  por  um  homem  e 

desejada  por  ele).  Trata-se,  então,  de  uma  confusão  entre  a  noção  freudiana  de  escolha  de 

objeto e a teoria da identificação. 

O conceito inicial do complexo de Édipo ou a sua forma “simples e positiva” limitava-

se à dimensão das escolhas de objeto. Tanto o conflito edipiano masculino quanto o feminino 

eram descritos da mesma forma: a criança se sente atraída pelo progenitor do sexo oposto e 

hostiliza  o  do  mesmo  sexo.  Com  a  inexistência  dos  conceitos  de  identificação  e  das 

organizações  pré-genitais  da  libido,  o  complexo  edípico  era  localizado  no  momento  de 

subordinação  das  pulsões  parciais  à  zona  genital,  ou  seja,  na  puberdade.  A  partir  da 

elaboração das teses sobre o narcisismo, que tem uma face voltada para o ego e outra para o 

objeto,  e  sobre  a  identificação,  Freud  começa  a  traçar  a  gênese  do  ego,  na  qual  os  fatores 

intersubjetivos assumem um lugar central na estruturação do sujeito. É sob o ângulo do ego 

que o complexo passa a ter sua forma completa, com sentimentos ambivalentes frente aos dois 

genitores. Nesse contexto, Freud observa que 

 

[i]sso nos conduz de volta à origem do ideal do ego; por trás dele jaz 

oculta a primeira e mais importante identificação de um indivíduo, a 

sua identificação com o pai em sua própria pré-história pessoal. Isso 

aparentemente  não  é,  em  primeira  instância,  a  consequência  ou  o 

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  84 

resultado  de  uma  catexia  do  objeto;  trata-se  de  uma  identificação 

direta  e  imediata,  e  se  efetua  mais  primitivamente  do  que  qualquer 

catexia  do  objeto.  Mas  as  escolhas  objetais  pertencentes  ao  período 

sexual e relacionadas ao pai e à mãe parecem normalmente encontrar 

seu desfecho numa identificação desse tipo (melancólica), que assim 

reforçaria a primária [parênteses nosso] (Freud, 1996 [1923b]: 44). 

 

Como sugerido em nota de pé de página pelo editor, tomemos o capítulo sobre identificação 

do texto freudiano de 1921, Psicologia de Grupo e Análise do Ego, a fim de esclarecer do que 

se trata essa identificação “primária”. Nas palavras do próprio Freud: 

 

É fácil anunciar numa fórmula a distinção entre a identificação com o 

pai  e  a  escolha  deste  como  objeto.  No  primeiro  caso,  o  pai  é  o  que 

gostaríamos de ser; no segundo, o que gostaríamos de ter, ou seja, a 

distinção depende de o laço se ligar ao sujeito ou ao objeto do ego. O 

primeiro  tipo  de  laço,  portanto,  já  é  possível  antes  que  qualquer 

escolha sexual de objeto tenha sido feita. É muito mais difícil fornecer 

a  representação  metapsicológica  clara  da  distinção  [grifos  do  autor] 

(Freud, 1996 [1921]: 116).    

 

Este  texto  nos  interessa  aqui  na  medida  em  que  Freud  é  conclusivo  em  afirmar  que  a 

identificação  constitui  a  forma  original  de  laço  emocional  com  um  objeto,  de  modo  que  a 

vinculação  objetal  libidinal  lhe  é  posterior.  Essa  distinção  temporal  entre  identificação 

primária e escolha de objeto libidinal, não reconhecida por Butler, comporta a tese de que a 

primeira é um derivado da fase oral da organização libidinal, em que o objeto que prezamos é 

assimilado (e aniquilado como tal) por ingestão. 

Em contraposição ao esquema de Butler que vincula necessariamente a perda do objeto 

edípico do mesmo sexo à identificação melancólica, Freud, em O Ego e o Id (1996 [1923]), 

reconhece  uma  dissimetria  entre  a  evolução  do  processo  de  identificação  da  menina  e  do 

menino. No caso deste  último, a tomada do pai como modelo e como objeto de desejo são 

mutuamente excludentes, de forma que a identificação no menino não corresponde à retenção 

melancólica  do  objeto  perdido.  Esta  seria  mais  comum  no  Édipo  feminino,  já  que,  a 

identificação  da  menina  com  o  pai  reforçaria  os  traços  masculinos  de  seu  caráter,  sem,  no 

entanto, conduzir à homossexualidade. Essa distinção se dá porque, no caso da menina, há a 

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  85 

possibilidade do desejo de ser um homem ser substituído pelo desejo de possuir um homem, 

através  das  séries  de  equivalência  apresentadas  pelo  autor  em  1917,  no  texto  As 

Transformações do Instinto Exemplificadas no Erotismo Anal

. No entanto, o próprio Freud, 

em  O  Ego  e  o  Id  (1996  [1923]),  ainda  não  dá  a  devida  importância  a  dissimetria  entre  os 

Édipos  feminino  e  masculino,  acabando  por  enfocar  outra  reflexão,  aquela  acerca  da 

bissexualidade constitucional. 

Por outro lado, Freud reconhece o quanto é difícil obter uma inteligibilidade sobre as 

primitivas  escolhas  de  objeto  e  identificações,  afirmando  que  na  fase  oral  primitiva  do 

indivíduo, a catexia do objeto e a identificação são indistinguíveis. Atribuirá tal complicação à 

bissexualidade  original  e  constitucional  da  criança  e  à  sua  conseqüente  versão  completa  do 

Édipo, que faz com que um menino não tenha apenas uma relação ambivalente frente ao pai e 

uma escolha objetal afetuosa pela mãe, como também o inverso.  

Mais  complicado  ainda  se  torna  explicar  a  dissolução  do  complexo,  visto  que  a 

presença de duas disposições sexuais simultâneas dá origem a conflitos que complexificam a 

assunção  do  sexo.  O  autor  se  vê,  assim,  às  voltas  com  a  necessidade  de  explicar  como  as 

quatro  tendências  em  que  o  complexo  consiste  se  transformarão  de  forma  a  produzir  uma 

identificação  paterna  ou  uma  identificação  materna,  sendo  que  a  primeira  “preservará  a 

relação  de  objeto  com  a  mãe,  que  pertencia  ao  complexo  positivo  e,  ao  mesmo  tempo, 

substituirá a relação de objeto com o pai, que pertencia ao complexo invertido; o mesmo será 

verdade, mutatis mutandis, quanto à identificação materna” (Freud, 1996 [1923b]: 46). Ainda 

nesse texto, a contribuição do autor para o tema se refere à idéia de que uma das disposições 

sexuais prevalecerá em qualquer indivíduo, de forma que uma identificação se tornará mais 

intensa e consolidada. 

Quanto à noção de bissexualidade em Freud, Butler (2003) retoma sua crítica frente ao 

pressuposto psicanalítico de que apenas os opostos de atraem. 

 

A  conceituação  da  bissexualidade  em  termos  de  predisposições

feminina  e  masculina,  que  têm  objetivos  heterossexuais  como  seus 

correlatos  intencionais  sugere  que,  para  Freud,  a  bissexualidade  é  a 

coincidência  de  dois  desejos  heterossexuais  no  interior  de  um  só 

psiquismo. 

Com  efeito,  a  predisposição  masculina  nunca  se  orienta 

para o pai como objeto de amor sexual, e tampouco se orienta para a 

mãe a predisposição feminina (a menina pode assim se orientar, mas 

isso  antes  de  ter  renunciado  ao  lado  ‘masculino’  da  sua  natureza 

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  86 

disposicional).  Ao  repudiar  a  mãe  como  objeto  do  amor  sexual,  a 

menina  repudia  necessariamente  sua  masculinidade  e  ‘fixa’ 

paradoxalmente  sua  feminilidade,  como  uma  consequência.  Assim, 

não há homossexualidade na tese de bissexualidade primária de Freud, 

e só os opostos se atraem [grifos da autora] (Butler, 2003: 96). 

 

Como podemos ver, para a autora, a bissexualidade integra uma concepção maior que associa 

de  forma  rígida  e  a  priorística  identidade  e  objetivo  sexuais.  A  disposição  feminina  estaria 

condicionada a um objeto amoroso masculino e vice-versa. 

Outro ponto crucial para Butler (2003) em relação à tese da bissexualidade recai sobre 

os  momentos  em  que  Freud  não  abre  mão  da  idéia  de  que  existe  uma  “tendência”  ou  uma 

“predisposição” que acabará por provocar o recalque da bissexualidade primária em direção à 

consolidação identitária de gênero. A psicanálise freudiana estaria sugerindo a existência da 

bissexualidade  apenas  enquanto  uma  configuração  sexual  que  deve  ser  superada  pelo 

fortalecimento  de  uma  sexualidade  “secundária”,  limitando-se  a  uma  interpretação 

evolucionista da identidade de gênero, influenciada pelas normas hegemônicas. 

A  noção  de  bissexualidade  primária  é  criticada  por  referir-se  restritamente  a  um 

“antes”  da  inserção  do  indivíduo  na  cultura,  pressupondo  um  “depois”  e  servindo  à 

naturalização  da  distinção  entre  natureza  e  cultura.  Assim  como  o  complexo  de  Édipo,  as 

disposições bissexuais, oferecendo uma maneira de situar a construção primária de gênero, é 

alvo  de  contestações  quanto  à  fixidez  das  posições  masculina  e  feminina,  rigidez  que 

perpetuaria o modelo da diferença sexual anatômica para se pensar a questão da alteridade. 

 Esta leitura acerca das teses freudianas, segundo a qual a psicanálise é um dispositivo 

de poder que serve à reprodução da heterossexualidade compulsória, não é unânime. Alguns 

autores  se  empenham  em  demonstrar  o  equívoco  dessa  interpretação,  esclarecendo  os 

conceitos no interior da própria teoria.  

A  concepção  freudiana  de  que  existiria  uma  bissexualidade  original  em  todo  ser 

humano  é  uma  interpretação  reconhecidamente  influenciada  por  Wilhelm  Fliess,  de  quem 

Freud acaba se distanciando. O autor se mostra reticente quanto a sua posição frente à idéia de 

bissexualidade,  de  forma  que,  mesmo  afastando-se  dela  de  uma  maneira  geral,  em  alguns 

momentos a retoma. Por exemplo, torna-se difícil conciliar essa noção com a da primazia do 

falo,  tese  segundo  a  qual  este  prepondera  para  ambos  os  sexos.  Além  dessa  ambigüidade 

teórica, o termo também acaba por complicar o entendimento das reflexões de Freud, já que o 

que o autor pretende dizer, muitas vezes, se distancia daquilo que a palavra parece indicar. Já 

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  87 

em 1905, no texto Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, o conceito de bissexualidade 

designa uma monossexualidade inicial, a existência de uma só libido, a masculina. A questão 

da  bissexualidade  se  colocaria,  então,  apenas  para  as  mulheres  e  para  os  homens 

homossexuais. No entanto, nesse mesmo livro, em nota acrescentada em 1915, Freud sublinha 

a relevância para a psicanálise de se compreender o “masculino” e o “feminino” no sentido de 

“atividade” e “passividade”. 

André (1998) observa que essa nota  foi acrescentada por  Freud  aos Três Ensaios no 

momento em que está elaborando o conceito de pulsão, cuja originalidade é fundamental para 

distinguir  a  leitura  psicanalítica  da  sexualidade  das  demais;  questão  cara  àqueles  que  se 

empenham  em  defender  a  psicanálise  das  críticas  que  vem  recebendo  quanto  à  sua 

potencialidade  de  normatização.  A  pulsão  não  é  organizada  a  partir  do  pólo  macho/fêmea, 

mas sim em torno de oposições fundamentalmente assexuadas, como atividade/passividade e 

sujeito/objeto,  o  que  instaura  novos  entendimentos  acerca  da  diferença  sexual.  O 

deslocamento  que  Freud  faz  de  uma  visão  anatomo-biológica  da  sexualidade  e  do  corpo 

humano para uma teoria pulsional desemboca em um outro deslocamento, relevante ao nosso 

tema: a polaridade pulsional assume o lugar da diferença entre os sexos. Conseqüentemente, 

do ponto de vista do inconsciente, a atração entre homem e mulher não é um dado a priori

como faz entender Butler (2003) a partir da tese de que Freud normatiza as normas de gênero 

e a heterossexualidade. 

O conceito de pulsão passa a ser valorizado no debate contemporâneo por aqueles que 

se empenham em esclarecer os equívocos das leituras pós-freudianas no que se refere ao tema 

da sexualidade e da alteridade. Duas teses retiradas da teoria das pulsões são de grande valor 

nesse  sentido;  são  elas:  (1)  a  de  que  a  diferença  sexual  não  corresponde  à  diferença  sexual 

sustentada  pelo  modelo  do  dimorfismo  sexual,  segundo  o  qual  há  uma  divisão  binária  e 

hierárquica dos sexos e (2) não há objeto predeterminado da pulsão, de forma que esta não 

prescreve comportamentos individuais. 

Elia  (1995),  em  Corpo  e  Sexualidade  em  Freud  e  Lacan,  discorre  sobre  a  distinção 

metodológica  da  psicologia  e  da  psicanálise,  contribuindo  para  um  maior  esclarecimento 

acerca da novidade freudiana em relação ao corpo e à sexualidade. A primeira disciplina teria 

como  objeto  o  indivíduo,  categoria  cujo  estatuto  passa  pela  ontologia  e  cuja  lógica  insiste 

numa concepção psicobiológica do mesmo, pois depende da natureza e de suas regularidades 

reconhecidas.  Enquanto  isso,  o  campo  pulsional  teorizado  por  Freud  divide  o  espaço 

psicofísico,  rompendo  com  a  unidade  individual  e  trazendo  à  tona  o  fato  de  que  não  há 

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  88 

recobrimento do corpo orgânico pelo pulsional. A sexualidade não é apreensível no interior de 

um sistema psicobiológico, o que deixa de fora a própria diferença sexual anatômica.  

Na  dimensão  do  inconsciente,  não  há  representação  da  categoria  “homem”  ou 

“mulher”.  Isso  se  dá  na  dimensão  imaginária  e  mesmo  na  simbólica,  porém  a  sexualidade 

aparece como uma questão do sujeito, pois este se constitui de forma atrapalhada em relação a 

seu sexo. Na verdade, essa interpretação psicanalítica da sexualidade depende radicalmente da 

noção  de  sujeito  que  postula,  em  que  este  é  dividido  pelo  inconsciente.  A  postulação  de 

inconsciente traz uma conseqüência radical para a idéia de indivíduo, pois este nunca mais é 

visto pela psicanálise como tal. 

 

Freud  constata  que  a  diferença  de  órgãos  apresentada  pela  anatomia 

do corpo humano não significa, ao nível do inconsciente, como uma 

divisão  entre  dois  sexos.  [...]  Freud  chegará  –  em  vez  de  se  apoiar 

numa  clivagem  entre  dois  sexos  –  a  inscrever  a  divisão  que  se 

introduz com a sexualidade, no ich, no próprio sujeito do inconsciente 

(André, 1998: 21/22).    

  

Se, em 1905, Freud já apontava para a impertinência de se pensar “masculino” e “feminino” 

em 

seu 

sentido 

biológico 

ou 

sociológico, 

designando-os 

pela 

polaridade 

atividade/passividade,  postulará  a  partir  daí  uma  série  de  outras  oposições  até  anunciar  a 

primazia do falo para ambos os sexos e o complexo de castração. 

 

É  a  isso  que  Freud  chama  o  falo,  isto  é,  o  pênis  enquanto  podendo 

faltar.  Em  outras  palavras,  o  menino,  diante  do  órgão  genital 

feminino, vê alguma coisa, mas o que vê não é um sexo feminino, é a 

castração.  À  partição  masculino-feminino  que  a  anatomia  sexual 

parece colocar em evidência, o saber inconsciente prefere, de alguma 

forma, a oposição não-castrado/castrado (André, 1998: 22).  

 

A  partir  do  estudo  das  perversões,  Freud  reconhece  que  alguns  sujeitos,  diante  do  órgão 

genital feminino, têm duas reações contrárias e simultâneas, a de constatar a falta do pênis e a 

de pronunciar que ele está presente. Tal observação culmina na conclusão de que a polaridade 

não castrado/castrado pode se produzir no interior do sujeito. Ampliando essa tese para além 

do campo da perversão, o autor defende a existência de uma clivagem subjetiva em todos os 

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  89 

sujeitos, mesmo que as versões desta divisão entre o desejo e o real se dê de forma distinta em 

cada uma das estruturas clínicas. A diferença sexual em Freud deve ser localizada entre duas 

posições  do  sujeito,  sendo  estas  representadas  pela  clivagem  do  Id  e  pelos  pólos 

atividade/passividade e eu/objeto. 

Outra  contribuição  do  conceito  de  pulsão  para  o  debate  contemporâneo  acerca  da 

sexualidade em Freud se inicia a partir da noção de objeto. Enquanto o instinto designa um 

padrão  fixo  de  comportamento,  comum  a  todos  os  membros  de  uma  espécie,  e  exige  um 

objeto específico e pré-determinado de satisfação, a pulsão constitui-se como uma medida de 

trabalho imposta pela ligação do psiquismo com o corpo, impossibilitando a pré-determinação 

do  objeto.  A  pulsão  não  traz  consigo  um  objeto  específico  e  nem  adequado,  já  que  não  há 

recobrimento apropriado do corpo anatômico pelo pulsional. 

 

O  objeto  da  pulsão,  como  já  foi  claramente  demonstrado 

anteriormente,  é  o  que  há  de  mais  variável  numa  pulsão,  sendo 

escolhido  tão-somente  por  prestar-se  mais  proficientemente  à 

satisfação,  na  contingência  de  uma  dada  situação  singular  [grifo  do 

autor] (Elia, 1995: 47/48).    

 

Do ponto de vista pulsional não há prescrição de objeto e nem de comportamento individual, 

tese  que  vem  demonstrar  o  fracasso  das  possíveis  soluções  padronizadas  e  normativas  do 

Édipo  sublinhadas  por  Butler  (2002,  2003).  Soler  (2005)  chama  a  atenção  para  o  trio 

conceitual com o qual Freud explica a sexualidade humana: pulsão, identificação e escolha de 

objeto. Para a autora, através do complexo de Édipo e da teoria da identificação, o autor dá 

consistência às normas,  modelos, obrigações e proibições vindas do discurso do Outro com 

relação à identidade anatômica. Enquanto é conferida à fase edipiana a função de corrigir a 

sexualidade  infantil  pela  unificação,  através  do  processo  de  identificação,  das  pulsões 

perversas polimorfas, Freud descreve como a solução padronizada heterossexual se impõe ao 

complexo de castração, ao preço de sacrifícios e fiascos, além do caráter atípico conferido a 

outra  configuração.  No  entanto,  o  autor  reconhece  a  impossibilidade  da  saída  edípica  pré-

determinada  ser  realizada  plenamente,  tanto  que  demonstra  os  limites  que  lhe  impõe  as 

pulsões recalcadas, que não cessariam de retornar no sintoma. 

A  partir  do  texto  freudiano,  mas  indo  além  deste,  Lacan  cunha  o  termo  “sexuação” 

para  enfatizar  como  o  sexo  não  se  determina  segundo  um  dado  anatômico,  mas  segundo  a 

relação do sujeito com a castração, essa sim, reveladora de uma dissimetria entre homens e 

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  90 

mulheres.  O  deslocamento  realizado  por  Freud  da  questão  da  diferença  dos  sexos  para  a 

divisão do sujeito será ampliado em Lacan, para quem, o Édipo assume um caráter estrutural, 

como veremos a seguir. 

 

 

3.2 Controvérsias acerca das noções de diferença sexual em Lacan 

 

 

O  percurso  lacaniano  que  se  dá  em  torno  da  sexualidade  e  da  diferença  sexual  foi 

desenvolvido  no  segundo  capítulo  deste  trabalho.  Nosso  intuito,  nesse  momento,  é  o  de 

analisá-lo  a  partir  do  debate  atual  sobre  a  noção  de  alteridade  na  psicanálise.  Lacan  é 

referência  imprescindível  na  discussão  suscitada  pelo  contexto  contemporâneo  das  novas 

sexualidades, porque, ao mesmo em que deu continuidade ao pensamento de Freud, foi além 

deste,  propondo  teses  de  repercussões  polêmicas  tanto  dentro  da  comunidade  psicanalítica 

como  fora  dela.  Iremos  seguir  a  mesma  direção  de  seu  trabalho,  tomando  como  ponto  de 

partida conceitos originados em sua fase estruturalista até alcançar a sua tentativa de abarcar 

teoricamente  a  dimensão  do  real.  Para  melhor  apresentarmos  as  discussões  entre  os  autores 

contemporâneos  diante  das  formulações  lacanianas,  dividiremos  este  subcapítulo  em  dois 

eixos,  um  referente  ao  contexto  teórico  do  simbólico  estrutural  e  o  outro  às  fórmulas  da 

sexuação. Posteriormente, trabalharemos as propostas de Judith Butler e Slavoj Žižek que vão 

ganhando forma ao longo do debate: as normas de gênero histórico-contingentes e a diferença 

sexual formal sem conteúdo; o ato ético e os deslocamentos disruptivos biopolíticos. 

 

 

3.2.1 A análise crítica do simbólico estrutural 

 

 

A  quarta  concepção  do  complexo  de  Édipo  freudiano  ganha  em  Lacan  um  estatuto 

estrutural. Isso é possível porque é nesta passagem que o seu conteúdo empírico deixa de ser 

valorizado  como  determinante,  perdendo  importância  para  o  aspecto  simbólico  da  oposição 

presença/ausência  do  pênis.  A  divisão  dos  sexos  deixa  de  se  relacionar  com  o  par 

masculino/feminino quando Freud observa que o órgão genital da mulher não é representado 

por um esquema corporal que lhe seja próprio. A partir daí, o autor confere uma primazia ao 

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  91 

falo enquanto operador único para os dois sexos, desvalorizando a função da anatomia para a 

constituição da sexualidade. 

 

O  pênis,  porém,  não  é  somente  uma  parte  do  corpo;  como  elemento 

diferencial entre si e os outros, ele possui o valor simbólico de definir 

o sujeito; em outras palavras, um valor narcisista que o converte em 

Falo (Mezan, 2006: 284).   

 

Em termos lacanianos, não há significante que represente o órgão feminino, o que impede que 

a oposição se coloque em termos de masculino e feminino; esta passa a ser representada pelo 

par  fálico/castrado.  Como  efeito  desta  torção,  o  conceito  de  castração  freudiano  também  se 

desloca,  passando  a  ser  priorizado  em  sua  dimensão  fantasmática  e  não  em  suas  versões 

experimentais, o que, para Mezan (2006), suscita uma nova  elaboração sobre a sexualidade 

feminina em sua especificidade, visto que passa a ser reconhecida em sua não-simetria com a 

masculina. A quarta fase do complexo de Édipo inauguraria, assim, uma verdadeira tentativa 

de dar lugar à diferença. 

 

A  anatomia  é  o  destino,  mas  não  a  tragédia.  A  experiência  da 

diferença  sexual  anatômica  já  o  mostra,  pois  não  é  a  vagina,  como 

elemento  diferencial  positivo,  que  impressiona  a  criança,  mas  a 

ausência de um signo. 

Estamos, nunca é demais repeti-lo, no domínio 

simbólico, em que o Falo coincide com a Fala, jamais com a falha. O 

simbólico  concerne  à  constituição  do  sujeito,  independentemente  do 

sexo empírico ser o masculino ou o feminino. Como a repetição e o 

Édipo,  a  castração  é  da  ordem  do  transcendental,  dos  princípios 

fundadores,  nada  tendo  a  ver  com  a  vivência  psicológica  ou  com  a 

empiria genital [grifo do autor] (Mezan, 2006: 286).  

 

Lacan  enfatiza  no  Édipo  freudiano  seu  caráter  constituinte  para  o  sujeito,  estando  este  para 

além da imaginária relação afetiva da criança com os pais; que passa a ser entendida como a 

forma  fenomenal  do  complexo,  resultado  da  sua  forma  estrutural,  e  não  sua  condição. 

Adquirindo uma compreensão que não se esgota nos conteúdos genitais empíricos de homens 

e  mulheres  e  nem  no  triângulo  familiar,  o  Édipo  funciona  como  princípio  transcendental, 

aproximando-se a uma “categoria vazia” (Mezan, 2006: 287). 

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  92 

Segundo Lacan, o sujeito só passa a existir sob condição de um recalcamento primário 

dos  prazeres  incestuosos  e  pré-individuados  associados  ao  corpo  materno.  Recorrendo  à 

proibição do incesto e à exogamia de Lévi-Strauss, o autor pensa a cultura como um conjunto 

de  estruturas  e  significações  lingüísticas,  em  que  a  lei  do  incesto  institui  esse  recalque 

primário que funda o sujeito. Instaurando a perda do objeto e sua conseqüente insatisfação, a 

lei  paterna,  por  intermédio  da  linguagem,  propicia  a  busca  do  sujeito  pelo  prazer 

irrecuperável.  

Apesar de reconhecer o mérito de Lacan por romper com visões essencialistas sobre o 

sujeito e, conseqüentemente, sobre homens e mulheres, Butler (2003) considera que o autor 

constrói uma outra ontologia do ser, já que insiste em uma concepção do simbólico como uma 

estrutura  universal  que  precede  a  existência,  pré-determinando-a.  O  entendimento  de  que  o 

“ser”  é  produzido  pelas  estruturas  de  significação,  podendo  denotar  posições  e  funções 

variáveis, faz-se plausível a partir do apelo a conceitos transcendentais, qualidade que a autora 

questiona,  tendo  em  vista  a  sua  anterioridade  frente  às  subjetividades.  Ao  invés  de  conferir 

explicações, tais conceitos passam a fornecer e forçar as delimitações entre os campos do que 

é inteligível e do que não é. Assim, se a diferença sexual, sob o ponto de vista da psicanálise, 

não é a anatomo-biológica, é, no entanto, ainda restrita a duas outras posições do interior da 

linguagem: a de “ser” e a de “ter” o falo. 

Na visão de Butler (2003), os mecanismos de diferenciação descritos pelo autor ficam 

sempre  atrelados  à  figura  do  pai,  enquanto  à  mãe  é  conferido  o  poder  de  alienação,  de 

manutenção da indistinção entre ela e a criança. Se o Édipo prescreve duas funções, denotadas 

“paterna” e “materna”, a partir das quais o sujeito depende para a sua constituição e para a sua 

entrada no simbólico e na cultura, então, o raciocínio lacaniano normatiza a dualidade mulher-

natureza/homem-cultura.  Segundo  Arán  (2008b),  tomar  como  um  a  priori  transcendental  a 

equação  mãe-alienante/pai-separador  faz  da  psicanálise  um  saber  comprometido  com  as 

normas de gênero, tendo em vista que o simbólico e a diferença ficam localizados apenas no 

âmbito do “masculino”, associado à função “paterna”; enquanto que a dimensão “feminina” e 

“materna”  se  restringiria  ao  domínio  do  “fora”,  ou  ainda,  daquilo  que  é  “anterior”  (ao 

simbólico ou à cultura, ou ainda, à civilização). 

 

Não há portanto inquirição da ontologia per se, nenhum acesso ao ser, 

sem  uma  inquisição  prévia  do  ‘ser’  do  Falo,  a  significação 

autorizadora da lei que toma a diferença sexual como pressuposto de 

sua própria inteligibilidade [grifo da autora] (Butler, 2003: 74). 

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  93 

  

A  leitura  de  Butler  (2003)  enfatiza  que  o  discurso  psicanalítico  é  atravessado  pela  matriz 

heterossexual,  que  acaba  por  instaurar  a  diferença  sexual  como  um  pressuposto  da  lei 

simbólica, fazendo com que não haja acesso ao ‘ser’ sem o encontro com a diferença sexual. 

Até então, a autora está referida às idéias desenvolvidas no texto lacaniano A Significação do 

Falo

 (1998 [1958]) a fim de demonstrar como as versões estruturais do Édipo e da castração, 

ambos  centrados  no  falo  como  significante,  aproximam-se  de  uma  inteligibilidade 

heterossexista, cujo efeito é prescrever a dualidade dos sexos, ainda que disfarçada em outra 

roupagem, que não a do “masculino” e a do “feminino”. 

Neste trabalho, Lacan trata da relação do homem com a linguagem e dos seus efeitos 

sobre o primeiro. O atravessamento do sujeito pela estrutura da linguagem resulta no fato de 

que  o  falo  passa  a  ter  uma  função  de  significante,  que  é  o  ponto  de  partida  para  o  autor 

apontar  as  estruturas  sob  as  quais  serão  submetidas  as  relações  entre  os  sexos.  Descreve, 

assim,  duas  posições,  a  de  “ser”  e  a  de  “ter”  o  falo,  sendo  que  a  primeira  é  vista  como 

referência para se pensar a posição da mulher, enquanto a segunda fica associada à posição do 

homem. 

Onde  Lacan  diz  que  a  posição  das  mulheres  de  “ser”  o  falo  se  refere  a  “ser  o 

significante do desejo do Outro”, Butler (2003) lê que o “ser” feminino é ser objeto de um 

desejo  masculino  heterossexualizado.  Essa  definição  do  feminino,  em  sua  concepção,  não 

confere  a  ele  uma  dimensão  alteritária,  visto  que  é  atravessada  por  uma  interpretação 

masculina acerca das mulheres. Entender a mulher enquanto aquilo que ela é para o homem é 

uma  auto-elaboração  masculina  que  não  compreende  o  outro  em  sua  diferença,  mas  apenas 

em sua objetificação.  

 A autora chama a atenção ainda para a dialética conferida à identidade feminina: “ser” 

o falo e, ao mesmo tempo, ser seu Outro: a mulher, a quem falta o falo, é também quem é o 

falo.  Butler  (2003) sublinha como  efeito desse paradoxo a interpretação  de que as posições 

sexuadas são simultaneamente excludentes e dependentes entre si, visto que “ser” o falo para 

quem o tem garante a ilusão do sujeito masculino de “ter” o falo. “Ter” o falo é ter a ilusão de 

uma autonomia, sendo esta mascarada e desmascarada pela mulher a todo o momento. Esta, 

em sua posição de “ser” o falo, torna-se fundamental para o estabelecimento e a manutenção 

da  ilusória  autonomia  masculina,  mas  também  pode  revelar  sua  incoerência.  Segundo  a 

autora,  essa  relação  de  dependência  entre  as  posições  sexuadas  é  negada  e  afirmada  pela 

psicanálise  num  movimento  pendular  ininterrupto:  ora  o  sujeito  deve  ser  afastado  do  corpo 

materno,  recalcando  os  prazeres  incestuosos,  ora  o  corpo  materno  retorna  em  objetos 

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  94 

substitutivos,  como  deslocado  para  o  corpo  da  mulher-esposa.  As  mulheres,  a  partir  de  sua 

própria  falta,  acabam  por  estabelecer  a  função  essencial  dos  homens  de  “ter”  o  falo.  Para 

Butler (2003), “ser” o falo equivale a ser o emblema da circulação contínua da lei paterna, é 

ser objeto constituído de troca, através da qual a lei paterna estende o seu poder. Numa crítica 

que se desdobra a Lévi-Strauss, a autora defende que o intercâmbio de parentesco estruturado 

a partir da troca exogâmica de mulheres é relativo a um tipo específico de sociedade, em que 

se naturaliza a subordinação do desejo feminino à lei paterna.   

Se para Lacan as posições sexuais são estruturadas pela própria linguagem e instituídas 

por  demandas  simbólicas  através  das  relações  constitutivas  da  vida  cultural,  para  Butler 

(2002)  essa  construção  acaba  por  conferir  à  identidade  de  gênero  um  aspecto  fantasístico, 

visto que, identificar-se com uma posição simbólica implica em jamais alcançá-la. 

 

A posição feminina [...] vale como metáfora do Outro, na medida em 

que  este  é  impossível  de  ser  atingido,  enquanto  permanece  para 

sempre  Outro.  Uma  mulher  fica,  então,  enquanto  mulher, 

radicalmente  fora  do  alcance  do  sujeito,  inclusive  do  sujeito  que  se 

alinha na posição feminina (André, 1998: 169). 

   

“Ter” e “ser” o falo são, na verdade, posições idealizadas e impossíveis, estando fadadas ao 

fracasso  no  nível  da  experiência  subjetiva.  Nessa  leitura,  o  simbólico  lacaniano  é 

invariavelmente fantasístico, não compartilhando medidas com a realidade, o que passa a ser 

interpretado  como  o  próprio  propósito  de  uma  concepção  transcendental,  pois  a  distância 

inevitável entre a identificação imaginária e a posição simbólica é a ameaça que vem reforçar 

a importância de se ajustar ao modelo. 

 

Assim, verifica-se a impossibilidade necessária ou pressuposta de todo 

esforço para ocupar a posição de “ter” o Falo, com a consequência de 

que ambas as posições, a de “ter” ou a de “ser”, devem ser entendidas 

nos  termos  de  Lacan,  como  fracassos  cômicos,  todavia  obrigados  a 

articular e encenar essas impossibilidades repetidas (Butler, 2003: 77). 

 

Butler  (2002,  2003)  realiza  uma  nova  leitura  do  complexo  de  castração,  entendendo  que  a 

ameaça do castigo que acompanha a assunção do sexo na teoria psicanalítica do complexo de 

Édipo é justamente o temor de se ocupar as identidades não inteligíveis. A ameaça diante da 

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  95 

qual o Édipo sucumbe nada mais é do que a da homossexualidade abjeta, entende a autora. 

Enquanto  um  “dispositivo”  no  sentido  foucaultiano,  a  psicanálise

 

organiza-se  em  torno  de 

regimes de luz e de enunciação, distribuindo o visível e o invisível, o dizível e o indizível, de 

forma que a “assunção” de uma identidade necessariamente passa pela exclusão de outras. No 

âmbito  da  identidade  sexual,  delimita-se  a  fronteira  entre  os  sexos  inteligíveis  e  os  abjetos. 

Para Butler (2002), trata-se de uma lógica do repúdio, uma necessidade política de governar 

certas  posições  através  da  prática  da  exclusão.  A  psicanálise,  enquanto  teoria  sobre  a 

subjetividade, constitui-se às voltas com as suas restrições políticas, reconhecidas pela autora 

como as figuras do gay afeminado e da lésbica fálica. Através da identificação fantasmática, o 

simbólico  lacaniano  operaria  a  imposição  heterossexista,  tornando  a  homossexualidade  e  a 

heterossexualidade incompatíveis entre si. 

 

Si asumir un sexo es em cierto sentido uma “identificación”, pareceria 

que la identificación es un sitio en el qual se negocian insistentemente 

la prohibición y la desviación. Identificarse con un sexo es mantener 

cierta  relación  con  una  amenaza  imaginaria,  imaginaria  y  vigorosa, 

que  es  vigorosa  precisamente  porque  es  imaginaria  (Butler,  2002: 

153)

23

  

Como dito acima, a lei descrita pela psicanálise produz um corpo tenebroso e o rechaça como 

sendo  um  corpo  “anterior”  à  lei.  Tomando-o  como  ameaça  imaginária,  prescreve  uma 

identidade  de  gênero  fixa  e  coerente.  As  figuras  de  abjeto  da  psicanálise,  inseridas  no 

simbólico  apenas  como  exemplo  desse  corpo  tenebroso  de  “antes”  da  lei,  servem  à 

diferenciação e à organização hierárquica das posições sexuadas, de forma que “todo o resto, 

então, torna-se incompreensível caso não corresponda a este esquema binário hierárquico, e 

permanece como um excesso impossível de ser inscrito no âmbito simbólico” (Arán e Peixoto 

Júnior, 2007:13). 

Para defender sua hegemonia de gênero, a identificação prevista pela psicanálise inclui 

a  prescrição  de  certos  desejos  e  a  proteção  contra  outros.  No  entanto,  numa  análise 

foucaultiana, a proibição de certas posições sexuadas tem como efeito a produção ambivalente 

do desejo, contendo em si a possibilidade de resistência e transgressão do quadro binário caro 

                                                 

23

 O trecho correspondente na tradução é: “Se assumir um sexo é em certo sentido uma “identificação”, parece 

ser que a identificação é um lugar no qual se negociam insistentemente a proibição e o desvio. Identificar-se com 

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  96 

ao  paradigma  masculino  heterossexualizado.  A  impossibilidade  de  concretização  plena  das 

identificações  idealizadas  pela  lei  simbólica  da  psicanálise,  numa  perspectiva  foucaultiana, 

seria  a  evidência  da  própria  impropriedade  política  dessa  concepção  de  lei.  Valorizados 

enquanto resistência, os “fracassos” identificatórios seriam a direção mesma para alteração da 

lei. O fato de que o repúdio às figuras de abjeto deve ser reiteradamente reforçado através da 

ameaça de castigo, a fim de coibir o sujeito a se instalar dentro das fronteiras e a construir sua 

pretensa  “integridade”,  sinaliza  o  quanto  a  desestabilização  indentitária  também  funciona 

como ameaça. Isso sinaliza o quanto a idéia de uma identidade coerente e fixa é, na verdade, 

uma fantasia que nega sua originária (re)construção social pela complexidade discursiva.  

A uniformidade do gênero e da heterossexualidade é o pressuposto de uma teoria que 

acaba  por  tomar  o  sexo  como  idêntico  a  si  mesmo,  responsável  pela  masculinidade  e 

feminilidade. Porém, essa aparente unidade é construída por práticas reguladoras através da 

lei, que, num mecanismo de reafirmação de sua autoridade, deve reinvestir invariavelmente 

no  risco  de  seu  fracasso.  Se  o  simbólico  implica  na  desgraça  das  tarefas  que  ele  mesmo 

impõe,  seu  propósito  não  pode  ser  o  de  alcançar  um  objetivo,  visto  que  não  o  alcançaria 

jamais. Seu propósito, adianta Butler (2003), parece ser a escravização do sujeito frente a sua 

ordem, tendo em vista o fato de que a inevitabilidade do seu fracasso não leva a medidas de 

transformação da configuração da lei.   

Como  em  Lacan  é  o  simbólico  que  cria  a  cultura,  não  havendo  nada  pré-discursivo, 

como negar que é o discurso que demarca o domínio daquilo que é inteligível e do que não é? 

Tendo essa indagação como guia de análise, Butler (2002) busca comprovar que o recalque é 

secundário  à  exclusão,  estando  esta  sempre  a  delimitar  a  lei  simbólica  e  seus  objetos  de 

subordinação.  As  posições  sexuadas  não  seriam  anteriores  a  lei,  mas  fruto  dessa  enquanto 

ficção. Há uma reiteração dessa crítica ao simbólico a priorístico de Lacan numa referência à 

Genealogia da Moral

, de Nietzsche, quando este sugere que o Simbólico inacessível, no caso 

falava  de  Deus,  não  é  inacessível  por  si,  mas  é  assim  constituído  por  um  poder,  que  se 

apresenta  como  impotente  na  tentativa  de  mascarar  a  origem  de  tal  inacessibilidade.  A 

psicanálise  se  relacionaria  com  o  simbólico  tal  qual  com  um  deus,  conferindo-lhe  uma 

estrutura transcendental, invariável e determinante, como se tal transcendência não fosse sua 

própria  criação.  O  simbólico  da  psicanálise  é  definido  por  Butler  (2002)  como  a  própria 

dimensão  normativa  da  constituição  do  sujeito  sexuado,  que  através  de  sua  suposta 

transcendência, fundamenta e sustenta uma formulação sobre a diferença sexual específica de 

                                                                                                                                                         

um sexo é manter certa relação com uma ameaça imaginária, imaginária e vigorosa, que é vigorosa precisamente 
porque é imaginária”. 

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  97 

um  contexto  histórico-social.  No  estruturalismo  lacaniano  não  cabe  o  reconhecimento  das 

diversas  formas  de  constituição  das  subjetividades,  o  que  significa  também  um  não 

reconhecimento da alteridade. 

Žižek  (2008)  defenderá  que  Lacan  nunca  deixou  de  evidenciar  a  determinação 

histórica  do  simbólico  e  a  sua  dependência  aos  contextos  ideológicos  específicos,  de  modo 

que  o  mesmo  não  é  concebido  como  uma  rede  formal  dada  a  priori  que  limita  as  práticas 

humanas.  A  seu  ver,  o  autor  se  interessa  por  precisar  como  os  gestos  de  simbolização  se 

entrelaçam  com  e  se  inscrevem  na  práxis  coletiva.  No  entanto,  influenciada  pela  obra  de 

Foucault,  a  crítica  de  Butler  (2002)  à  psicanálise  lacaniana  recai  sobre  a  sua  produção  de 

universais.  Em  nome  da  “estrutura”,  Lacan  cria  universais  irredutíveis  a  transformações 

sociais,  o  que,  para  a  autora,  é  uma  construção  que  deve  ser  explicada,  ao  invés  de  tudo 

explicar.  As  posições  sexuadas  em  Lacan,  enquanto  forem  reconhecidas  como  modelo 

universal para explicar a assunção do sexo, ainda constituirão mecanismos de modulação das 

subjetividades.  A  autora  pretende  explicitar  que  o  simbólico  lacaniano  é  um  dispositivo  de 

poder  construído  social  e  historicamente  com  fins  políticos,  como  a  sustentação  da 

heterossexualidade  e  do  binarismo  masculino/feminino.  Arán  (2008b)  se  apropria  de  outra 

noção  foucaultiana,  a  de  “formas  de  subjetivação”,  para  justificar  a  necessidade  de  se 

abandonar o Édipo enquanto única forma de constituição do sujeito. Reconhecendo-o como 

apenas  uma  forma  possível  de  subjetivação,  a  autora  realiza  uma  abertura  para  outras 

diferentes possibilidades de constituição subjetiva. 

 

 

3.2.2 A problematização das fórmulas da sexuação 

 

 

Quando se encontra às voltas com o que denominou de “a não existência da relação 

sexual”, isto é, com o impacto dos paradoxos constitutivos da sexuação e com o deslocamento 

da  questão  do  desejo  para  a  do  gozo,  Lacan  propõe  as  fórmulas  da  sexuação  como  uma 

tentativa de dar inteligibilidade aos modos de gozo dos sujeitos inseridos na linguagem. Para 

isso,  recorreu  ao  falo,  enquanto  quantificador  universal,  que  é  conceituado  pelo  autor 

enquanto  significante  da  falta,  em  torno  do  qual  o  “masculino”  e  o  “feminino”  se  definem, 

visto  que  se  posicionam  de  maneira  distinta  em  relação  a  ele.  A  originalidade  presente  nas 

fórmulas  frente  às  posições  evocadas  anteriormente  diz  respeito  ao  reconhecimento  de  uma 

dimensão “para além da lógica fálica”. Já em uma passagem de valorização do real frente ao 

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  98 

simbólico e ao imaginário, Lacan nos fala de dois modos de gozo para indicar a constituição 

da sexuação do sujeito.  

Para os comentadores de Lacan, sob a ótica do gozo, a constituição sexual do sujeito 

se distanciaria tanto da materialidade do sexo quanto da idéia de gênero, pois refere-se a duas 

maneiras  a  partir  das  quais  os  sujeitos  falantes,  homens  e  mulheres,  se  inserem  na  função 

fálica. Não é a função em si que as faz diferentes; o que as faz diferentes é a posição subjetiva 

através  da  qual  os  sujeitos  se  anunciam  submetidos  a  ela.  Apesar  disso,  as  fórmulas  serão 

tomadas  por  autores  contemporâneos  como  uma  réplica  das  modalidades  hegemônicas  de 

gênero.  

O lado esquerdo e masculino da fórmula significa que todo homem está no âmbito da 

castração, mas que isso só se faz reconhecido pela existência de uma exceção: pelo menos um 

não é castrado. Inspirado pela função de desvio do pai da horda primitiva do texto freudiano 

Totem  e  Tabu, 

de  1913,  formula  que  a  exceção  subsiste  no  inconsciente  masculino, 

confirmando  a  regra  geral  de  que  o  que  torna  alguém  homem  é  a  marca  da  falta  (David-

Ménard, 1998). 

Em relação à formula feminina, a primeira proposição equivale a dizer que “não existe 

nenhuma mulher que não tenha relação com a lógica da castração”, enquanto que a segunda 

diz “não é tudo, de uma mulher, que está ligado com este função” (David-Ménard, 1998). A 

fórmula indica que a mulher está “não toda” na função fálica, o que aponta um “para além” do 

falo: 

 

Isso corresponde também à idéia de que as mulheres não são marcadas 

pela castração a propósito de tudo; algo do que as faz mulher joga-se 

no  excesso  com  relação  a  esta  determinação,  que  entretanto  lhes 

concerne também (David- Ménard, 1998: 99). 

 

Trata-se  justamente  de  uma  tentativa  lacaniana  de  ressituar  o  gozo  feminino  em  relação  à 

castração:  reconhece-se  que  a  feminilidade  se  coloca  para  aquele  que  não  se  assujeita 

inteiramente ao Édipo e à lei da castração. 

 

Com  este  objetivo,  Lacan  acentuará  menos  a  questão  da  identidade 

feminina  do  que  a  do  gozo  feminino,  e  menos  a  castração  e  a 

reivindicação dela decorrente do que a divisão que o primado do falo 

introduz na menina [grifos do autor] (André, 1998: 209). 

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  99 

 

Lacan defende a tese de que as mulheres não fazem um todo. Não há nada que as una num 

conjunto, tal como a função de exceção faz com os homens, fundamentando a regra masculina 

e possibilitando a descrição desses a partir de um certo compartilhamento. O lado direito das 

fórmulas conjuga-se, assim, com uma outra proposição, a de que “A mulher não existe”, o que 

reforça  a  idéia  de  que  elas  não  fazem  Um,  permanecendo  como  um  conjunto  aberto,  só 

podendo ser contadas uma a uma. Estar “não toda” na função fálica enuncia um “gozo a mais” 

feminino para além do simbólico, que estaria indissociável da idéia de que as mulheres não 

são  capazes  de  dizer  em  que  consiste  sua  posição  de  mulher,  visto  que,  não  se  inserindo 

“toda” no universal, não podem constituir uma classe. 

 Segundo  André  (1998),  o  gozo  feminino  lacaniano  é  uma  suposição  baseada  na 

experiência descrita por  algumas mulheres e  algumas místicas sobre um gozo para-além da 

linguagem. Reconhece, assim, a possibilidade de que se trate de uma “produção imaginária”, 

já  que,  situando-se  fora-da-linguagem,  seria  impossível  dizê-lo.  Essa  crença  em  um  outro 

gozo que não se pode definir vem da insatisfação do sujeito com o gozo fálico, visto que este 

não convém à relação sexual. 

 

Este a-mais só aparece como margem da castração: é preciso que se 

passe  por  esta  para  que  se  desenhe  um  bordo  para  além  do  qual  um 

lugar seja furado por um mais-além. Mas esse produto da castração é 

vazio,  inconsistente,  a  não  ser  que  se  lhe  dê  consistência  imaginária 

(André, 1998: 224). 

 

Esta “suposição” lacaniana coloca a mulher em afinidade com o ponto de falha do simbólico, 

de modo que se encontra, assim, fora do discurso, como um enigma para si mesma e para os 

homens. Para David-Ménard (1998), aqui fica claro o quanto Lacan constrói sua tese a partir 

de um paradigma da subjetividade masculino: “este último (o gozo feminino) só parece aos 

homens tão misterioso porque não tem como alavanca o único gozo representável para eles, 

do qual seu sexo é o emblema” (David-Ménard, 1998: 107). 

A construção sobre o feminino pela negativa – não toda na lógica fálica -, se levada a 

radicalidade, subverteria a lógica da primazia do falo e do simbólico, pois demonstraria seu 

ponto  de  basta  e  sua  insuficiência  para  a  reflexão  acerca  das  mulheres.  Segundo  Arán 

(2008b),  inscrever  o  feminino  como  “não  todo”  na  lógica  fálica  significa  transgredir  o 

“monismo  fálico”  e  demonstrar  sua  falência.  Afinal,  se  a  mulher  é  não-representável  pela 

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 100 

lógica  fálica,  isso  exigiria  o  reconhecimento  de  outras  lógicas  alteritárias  à  fálica.  O  que  a 

autora sugere é que Lacan não teve esse mesmo raciocínio, pois fica preso à idéia de que não 

há representação positiva que conceba a mulher. Em conseqüência, a negativa que descreve o 

feminino significa uma “falha” ou “falta”, sendo que estas ficam associadas à mulher em si, e 

não à lógica tipicamente masculina, conferindo à primeira um status pejorativo ou de menor 

valia.  

 

A positivação do feminino exigiria pressupor não apenas um além do 

falo, mas, antes de tudo, uma outra forma de erotismo, que não tenha 

no falo a sua referência (Arán, 2006: 137). 

   

Para os que defendem as fórmulas da sexuação, a lógica do gozo “a mais” não desconsidera as 

mulheres, pois confere a elas um gozo suplementar. Enquanto o sujeito do gozo fálico se sente 

frustrado, pode-se dizer que uma mulher “goza dela mesma enquanto Outra dela a ela mesma” 

(André,  1998:  224).  Além  disso,  o  dito  “lado  masculino”  das  fórmulas  não  abarcaria  o 

conjunto  dos  homens,  assim  como  o  “lado  feminino”  não  corresponderia  ao  conjunto  das 

mulheres.  Masculino  e  feminino,  aqui,  não  designam  a  anatomia  sexual,  mas  dois  modos 

possíveis do sujeito se inserir na lógica fálica. 

Arán (2006) dá continuidade às objeções às teses lacanianas  referindo-se à sexuação 

como  um  imperativo  categórico:  o  ser  humano  deve  se  determinar  como  homem  ou  como 

mulher, mesmo que se diga que tal determinação independe da anatomia. Mesmo que o autor 

não  associe  necessariamente  as  mulheres  ao  lado  direito  da  fórmula  e  os  homens  ao  lado 

esquerdo, resta ainda uma imposição: um lado ou outro. A sexuação descrita pelas fórmulas 

restringe  as  subjetividades,  não  fazendo  jus  a  sua  intenção  de  demonstrar  os  paradoxos  da 

constituição  sexual.  A  repartição  em  dois  aparece  para  os  críticos  de  Lacan  como  uma 

necessidade da teoria, uma necessidade pressuposta e imperativa, típica de um dispositivo de 

poder.  Outras  formas  de  sexuação,  que  não  se  enquadram  nessa  ordem,  trazem  à  tona  a 

artificialidade das categorias binárias.  

Butler (2002) também ressalta a prescrição da norma binária no interior da psicanálise, 

a  partir  do  que  denominou  de  uma  “compulsão”  teórica  pela  divisão  por  dois,  que  produz 

incessantemente  binarismos  que  se  equivalem  às  normas  hegemônicas  de  gênero.  O  que  a 

autora vem sublinhar é o fato de que não é só o gênero que é submetido à norma sexual, mas a 

própria  subjetivação.  Isso  se  torna  evidente  quando  se  percebe  que  toda  a  compreensão 

psicanalítica  sobre  o  sujeito  e  sua  constituição  é  atravessada  por  discursos  reguladores  que 

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 101 

formam  o  sujeito  “gendrado”.  A  “lógica  binária”  influenciaria  toda  a  teoria  da  formação 

subjetiva, subentendendo em seus meandros a lógica do repúdio da homossexualidade e dos 

abjetos.  Tanto  a  “sexuação”  quanto  a  “subjetivação”  são  teses  construídas  a  partir  de  um 

paradigma  masculino,  em  que  o  imperativo  lógico  é  o  da  manutenção  da  distinção  sexual 

anatômica. 

David-Ménard  (1998)  também  indica  que  no  discurso  psicanalítico  se  encontra  uma 

imposição  binária.  Para  fazer  um  contraponto  a  sexuação  lacaniana,  refere-se  à  psicanálise 

freudiana e à sua teoria acerca da sexualidade perversa polimorfa infantil. 

 

Não há terceiro sexo possível, mesmo que a sexualidade infantil possa 

forjar todas as espécies de representações fantasmáticas sobre os sexos 

e  sua  relação  com  a  existência  de  crianças  (David-Ménard,  1998: 

109).  

 

Como desenvolveremos em outro momento, a sexualidade infantil passa a ser enfocada por 

autores contemporâneos como uma abertura à sexualidade em seu estatuto singular. Aqui, o 

adjetivo  “infantil”  não  demarca  a  necessidade  evolutiva  de  uma  superação  pela  via  do 

recalque, mas qualifica a própria sexualidade humana e a sua inconsistência simbólica. 

Por sua vez,  Lacan também se empenha cada vez mais em sustentar que a sexuação 

aponta  para  a  inconsistência  simbólica  da  sexualidade,  tese  que  é  reapresentada  por  Žižek 

(1999) em seu debate com Butler, a partir da proposta de pensar a diferença sexual como o 

encontro com o real. 

 

 

3.3 Diferença sexual formal sem conteúdo e normas de gênero histórico-contingentes 

 

 

Na concepção de Butler (2002, 2003), o fato de existirem as ditas “perversões”, como 

a  homossexualidade  e  o  fetichismo,  apesar  da  heterossexualidade,  indica  o  status  de 

resistência  das  primeiras  frente  à  hegemonia  da  última.  Se  onde  há  resistência,  há  poder, 

então,  as  sexualidades  “perversas”  provam  o  fracasso  da  diferença  sexual  binária  enquanto 

injunção  social  normativa.  O  que  a  autora  pretende  sinalizar  através  dessa  observação  da 

“falha” da heterossexualidade é que esta corresponde a uma construção histórico-contingente 

que foi transformada em norma pelo exercício repetitivo do poder disciplinar. Procura, assim, 

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 102 

demonstrar que o  gênero é uma categoria suscetível a modificações, sendo sua constituição 

influenciada pelas contingências sócio-históricas. 

Žižek (1999) não compreende desta forma a “falha” do binarismo sexual. Empenha-se 

em demonstrar que este sempre tem um mau êxito, mesmo na heterossexualidade simbólica 

normativa.  O  fato  de  que  o  gozo  só  pode  ser  obtido  a  partir  de  uma  falta  fundamental 

demonstra que a sexualidade está marcada por um fracasso irredutível. A noção de sexuação 

precisa  da  existência  de  algo  que  sempre  falha  em  se  inscrever  tanto  imaginária  quanto 

simbolicamente, que corresponde justamente ao real da diferença sexual. Conforme esta tese, 

sempre  existe  uma  lacuna  entre  o  real  da  diferença  sexual  e  as  formas  simbólicas  da 

sexualidade, heterossexuais ou não. Respondendo a Butler, seu intuito é defender que não só a 

heterossexualidade  é  uma  articulação  simbólica,  como  também  o  são  as  práticas  sexuais 

referidas  pela  autora  de  “perversas”.  Toda  e  qualquer  identidade  simbólica  é  determinada 

historicamente  e  depende  de  um  contexto  ideológico  específico.  Ao  mesmo  tempo,  toda  e 

qualquer formulação sexual simbólica não dá conta de simbolizar o real da diferença sexual. 

Assim,  se  para  Butler  (2002,  2003)  o  que  foge  à  heterossexualidade  evidencia  a  condição 

histórico-contingente da diferença sexual, para Žižek (1999), trata-se de mais uma evidência 

de  que  a  diferença  sexual  é  impassível  de  simbolização.  O  autor  irá  contestar  as  críticas  à 

psicanálise a partir de um eixo argumentativo principal: a diferença sexual, para Lacan, é da 

ordem do real; onde este é concebido como o limite inerente à linguagem, um “miolo” que 

resiste à simbolização. Falar de diferença sexual produz sempre um resto inominável. 

Os efeitos do real sob a sexuação são explicitados, sob a ótica psicanalítica, através de 

um paradoxo: perder o próprio sexo para sê-lo.  Isso significa que para tornar-se mulher, não 

se renuncia à masculinidade, mas sim à feminilidade, enquanto algo que se completa. O que 

se  perde  no  “tornar-se  mulher”  é  a  própria  possibilidade  de  tornar-se  verdadeiramente  uma 

mulher;  fato  que  a  figura  da  “mascarada”

24

  representa  ao  mascarar  a  falha  em  ser  mulher. 

Com  o  homem  não  seria  diferente.  O  que  está  por  trás  dessa  tese  é  a  idéia  de  que  a  perda 

inserida no processo de sexuação não é externa, mas inerente e comum a ambos os sexos. A 

identidade de cada um deles é embaraçada no seu interior pela relação antagônica com o outro 

sexo,  fato  que  acaba  por  impedir  sua  completa  atualização.  Recorrendo  a  um  aforismo 

lacaniano, diz ele: 

 

                                                 

24

 Lacan realiza uma discussão sobre a mascarada, conceito retomado de Joan Riviere (1929), como designação 

da feminilidade, tendo em vista a sua proposição de que a mulher é a falta que encarna o falo. 

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 103 

‘There is no sexual relationship’ not because the other sex is too far 

away,  totally  strange  to  me,  but  because  it  is  too  close  to  me,  the 

foreign intruder at the very heart of my (impossible) identity [grifo do 

autor] (Žižek, 1999: 272/273)

25

 

A diferença sexual, sob a perspectiva lacaniana, não coincide com a diferença anatômica e/ou 

estrutural  entre  homem  e  mulher;  mas  está  inscrita  no  interior  do  “tornar-se  homem”  e  do 

“tornar-se  mulher”.  Trata-se  de  um  antagonismo  real,  e  não  de  uma  oposição  diferencial 

simbólica, pois esta última sim pode ser encarada como a responsável pela definição de um 

sexo em oposição ao outro. 

O autor apresenta ainda um outro eixo de discordância entre a sua leitura de Lacan e 

aquela  realizada  por  Butler  (2002,  2003),  que  considera  ser  o  grande  equívoco  sobre  a 

sexuação:  a  equivalência  que  se  faz  entre  as  noções  de  “diferença  sexual”  e  de  “norma 

simbólica heterossexual”. Empenha-se, então, em distinguir a diferença sexual como real e a 

heterossexualidade como simbólica. A psicanálise lacaniana anuncia a diferença sexual como 

real no sentido de que esta nunca pode ser simbolizada, não é passível de ser transposta para 

normas  simbólicas,  como,  por  exemplo,  para  a  divisão  de  gênero  em  masculino/feminino. 

Trata-se,  então,  de  uma  diferença  da  ordem  do  inominável,  que  o  inconsciente  tentará 

delimitar através da cadeia significante, tal como se rodeia a margem de um furo. Enquanto 

para Butler (2000), Lacan eleva a norma heterossexual histórico-contingente a uma categoria 

transhistórica,  para  Žižek  (1999),  o  estatuto  real  da  diferença  sexual  confere  a  esta  a 

impossibilidade de se enquadrar em normas simbólicas quaisquer. Argumenta que a noção de 

diferença sexual assim entendida não pode ser vista como uma função normativa justamente 

porque se refere a um limite da articulação simbólica. 

 

 

It  thus  seems  more  productive  to  posit  as  the  central  enigma  that  of 

sexual difference – not as the already established symbolic difference 

(heterosexual normativity) but, precisely, as that which forever eludes 

                                                 

25

 O trecho correspondente na tradução é: “ ‘Não há relação sexual’ não porque o outro sexo está muito longe, 

totalmente estranho a mim, mas porque ele está muito perto de mim, o estrangeiro intruso no coração da minha 
(impossível) identidade”. 

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 104 

the  grasp  of  normative  symbolization  [grifo  do  autor]  (Žižek,  1999: 

271)

26

 

A concepção de que a diferença sexual, mesmo quando simbolizada em termos de aspectos 

ideais,  contém  um  aspecto  não  simbolizável,  confere  a  esta  um  estatuto  distinto  das  outras 

diferenças,  tais  como  “classe”  ou  “nação”.  A  primeira  é  vista  como  a  mais  fundamental  de 

todas, sendo a ela conferida uma dimensão traumática e, por isso mesmo, não simbolizável. 

Para Butler (2000), esses aspectos que Žižek confere apenas à diferença sexual dão a ela um 

caráter estrutural e transcendental, o que a torna invulnerável às transformações históricas. A 

autora  critica  tal  estatuto  da  diferença  sexual,  pois  funciona  como  justificativa  para  a 

imposição  de  normas  contingentes  através  do  manejo  de  ideais  psíquicos.  O  dito  “não 

simbolizável” tem uma função especial no dispositivo psicanalítico, que é a de pré-figurar as 

privações  (leia-se,  exclusões)  como  uma  ameaça  (de  castração  ou  traumática).  Sob  o  seu 

ponto de vista, a fronteira entre o que é e o que não é simbolizável é pré-determinada por um 

conteúdo social. 

Em  resposta  à  autora,  Žižek  (1999)  propõe,  então,  que  a  diferença  sexual  em  Lacan 

deve ser lida como um “conceito vazio”, como um conceito que não pode ser todo recoberto 

por seu conteúdo, havendo sempre um “resto” irrepresentável. Trata-se de um termo que não 

representa  nada,  cujo  vazio  semântico  é  a  oportunidade  de  uma  série  de  investimentos 

fantasmáticos. A diferença sexual é justamente aquilo que escapa às imposições simbólicas e, 

ao  mesmo  tempo,  é  furo  em  torno  do  qual  a  prática  de  simbolização  se  torna  possível.  As 

articulações imaginárias e simbólicas, estas sim, históricas e contingentes, não recobrem tudo 

da distinção dos sexos, produzindo um resto de real. Esta dimensão da diferença sexual que 

escapa aos bordados simbólicos e imaginários é o que institui essa noção como um “conceito 

vazio”, o que enfatiza seu estatuto não-tematizável e, portanto, incontestável. 

Esse  raciocínio,  segundo  Butler  (2000),  recorre  a  uma  abstração  formal  kantiana, 

segundo a qual, a forma, a partir de uma sublimação perfeita, não pode ser identificada com 

seu  conteúdo.  Para  a  autora,  trata-se  do  mecanismo  utilizado  por  Lacan  quando  este  diz 

“masculino”  e  “feminino”  sem  querer,  no  entanto,  reconhecê-los  como  diferença  sexual. 

Inspirando-se  em  Hegel,  a  autora  argumenta  que  a  relação  entre  conteúdo  e  forma  não  é 

completamente externa, o que impossibilita uma sublimação perfeita de um para a outra. Em 

                                                 

26

 O trecho correspondente na  tradução é: “Parece  muito  mais produtivo posicionar como o enigma central da 

diferença  sexual  –  não  como  a  já  estabelecida  diferença  simbólica  (normatividade  heterossexual),  mas, 
precisamente, como aquilo que para sempre evita a compreensão da simbolização normativa”. 

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 105 

seus termos, todo formalismo, a fim de alcançar a abstração, omite um “resto” de conteúdo, 

que  é  recusado.  O  objetivo  de  Butler  (2000)  passa  a  ser,  então,  o  de  reconhecer  o  “resto” 

excluído na construção do conceito vazio da diferença sexual, para poder, num processo de 

desconstrução,  desembaraçar  a  sua  fundação.  Por  isso,  retoma  a  idéia  do  “fracasso  do 

binarismo”.  

Em alusão aos “corpos que não se enquadram” e ao sofrimento de sujeitos frente às 

normas  hegemônicas  de  gênero,  Butler  (2000)  coloca  em  xeque  o  estatuto  formal  e  sem 

conteúdo  da  diferença  sexual.  Assinala  que  o  formalismo  realizado  por  Lacan  é  um 

instrumento  para  assegurar  a  conteúdos  sociais  o  lugar  de  “real”,  o  lugar  de  indizível,  ou 

ainda,  de  impensável.  Na  medida  em  que  a  noção  de  diferença  sexual,  elevada  pela 

psicanálise  a  operador  incontestável,  prescreve  e  delimita  o  território  da  inteligibilidade, 

através  da  foraclusão  e  da  patologização  dos  gêneros  não  inteligíveis,  tal  teoria  confunde  o 

transcendental  e  o  social,  colocando  a  si  mesma  num  patamar  que  pretensamente  a  protege 

das críticas e das influências sócio-históricas. 

 

[...]  continúa  siendo  problemático  el  modo  en  que  la  teoria  fija  esos 

limites,  no  solo  porque  siempre  está  la  cuestión  de  saber  qué 

constituye  la  autoridad  del  que  escribe  tales  limites,  sino  además 

porque  el  establecimiento  de  tales  limites  está  vinculado  a  la 

regulación contingente de lo que se juzgará como un modo inteligible 

de ser y lo que no se considerará como tal. Además, la producción de 

lo  no  simbolizable,  de  lo  indecible,  lo  ilegible,  es  siempre  uma 

estratégia de abyección social [grifo da autora] (Butler, 2002, 271)

27

 

A  gravidade  das  teses  lacanianas  é  apontada  pela  autora  como  sendo  a  transformação  dos 

mecanismos contingentes de produção de sujeitos em leis universais, que se colocam imunes 

à  própria  articulação  discursiva  que  lhe  deu  origem.  O  dimorfismo  sexual  é  suposto  como 

transcendental  a  fim  de  fundamentar  formas  históricas  e  sociais  da  diferença  sexual.  Em 

Undoing Gender 

(2004), a autora demonstrará que a distinção lacaniana entre a lei simbólica 

                                                 

27

 O trecho correspondente na tradução é: “[...] continua sendo problemático o modo em que a teoria fixa esses 

limites,  não  somente  porque  sempre  está  a  questão  de  saber  que  constitui  a  autoridade  do  que  escreve  tais 
limites, mas, além disso, porque o estabelecimento de tais limites está vinculado à regulação contingente do que 
se julgará como um modo inteligível de ser e o que não se considerará como tal. Além disso, a produção do não 
simbolizável, do que não é dito, o ilegível, é sempre uma estratégia de abjeção social”. 

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 106 

e as leis sociais não se sustenta, comprovando que a primeira serve à sedimentação de práticas 

sociais.  

Enquanto  Žižek  confere  à  diferença  sexual  o  caráter  real  de  um  conceito  vazio, 

impassível  a  mudanças,  Butler  (2004)  sustentará  que  tal  dimorfismo  sexual  é  uma  norma  e 

que, enquanto norma, trata-se de uma ficção reguladora. Um ideal de gênero é naturalizado 

por  uma  rede  discursiva  complexa  como  sendo  uma  identidade  fixa  e  coerente.  Ao  mesmo 

tempo,  delimita-se  o  campo  da  diferença,  daquilo  que  tem  o  destino  certo  da  exclusão.  Ao 

contrário do que faz pensar a psicanálise, tanto o campo da identidade quanto o da diferença 

têm seus conteúdos delimitados por fatores contingentes e históricos, o que os faz expostos a 

influências  diversas.  A  negação  do  caráter  sócio-histórico  da  diferença  sexual  da  teoria 

lacaniana  é  interpretada  pela  autora  como  um  desejo  pela  perpetuação  da  matriz  da 

heterossexualidade e da dominação masculina. 

Žižek (1999) não reconhece essa associação entre o conceito vazio da diferença sexual 

e uma normatização social da idealização de gênero, questionando Butler e sua tese de que a 

psicanálise  participaria  na  construção  das  fronteiras  entre  os  “gêneros  inteligíveis  e  não 

inteligíveis”.  Lacan,  diz  o  autor,  não  correlaciona  a  priori  formas  e  práticas  sexuais  a 

economias subjetivas patológicas, de forma que a perversão não está referida necessariamente 

a violação das normas simbólicas. Enfatiza ainda que a dimensão real da sexuação tem como 

efeito o fato de que todos os neuróticos estão de certa forma “excluídos”, “de fora”, do âmbito 

do  simbólico,  seja  qual  for  seu  gênero  ou  modalidade  sexual.  Exatamente  porque  os 

neuróticos atualizam o que Freud chamou de “realidade psíquica”, há sempre um “resto”, que 

para  Lacan  corresponde  ao  peso  do  “vínculo  apaixonado”  primordial,  que  resiste  ao 

movimento  de  simbolização  e/ou  mediação  simbólica,  ou  seja,  o  próprio  real  da  sexuação. 

Desconstruindo  a  idéia  de  que  o  Édipo  direciona  necessariamente  o  sujeito  à 

heterossexualidade,  enquanto  o  narcisismo  à  homossexualidade,  Mezan  (2006)  supõe  o 

motivo para a  escolha  freudiana por dois mitos gregos para descrever  as transformações da 

libido. 

 

Narciso  e  Édipo  são  figuras  do  “amor  infeliz”,  se  nos  é  permetido 

parafrasear  o  conceito  hegeliano.  O  que  queremos  dizer  é  que,  para 

Freud  o  amor  se  configura  no  registro  do  conflito,  enquanto  que  a 

representação  usual  o  concebe  como  graciosa  harmonização. 

Impedida por sua própria natureza de  compreender a  gênese de suas 

representações, a ideologia faz com o indivíduo o mesmo que faz com 

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 107 

a  sociedade:  ignora  a  dimensão  dramática  e  conflituosa  da  sua 

constituição,  para  encobri-la  com  a  parvoíce  da  univocidade  e  da 

harmonia preestabelecida [grifo do autor] (Mezan, 2006: 194). 

 

Se  em  Freud  o  trânsito  libidinal  até  a  consolidação  da  identidade  sexual  aparece  como  um 

drama, e não como o melhor dos mundos, em Lacan a ênfase também recai no embaraço do 

sujeito  com  seu  sexo,  o  que  não  se  dá  sem  uma  certa  inquietação.  Essa  observação 

psicanalítica decorre do fato de que a diferença sexual não pode ser localizada no domínio do 

biológico e nem no do sócio-simbólico, pertencendo, então, ao campo do “entre”. A fim de 

exemplificar  sua  perspectiva  sobre  a  sexuação,  Žižek  (1999)  utiliza-se  de  uma  máxima 

lacaniana, segundo a qual, o louco não é apenas o indigente que pensa ser rei, mas também o 

rei que pensa ser rei (Lacan apud Žižek, 1999: 247). Isso significa dizer que é “louco” quem 

percebe seu mandato simbólico como diretamente baseado no real do seu corpo, e quem acaba 

por  confundir  a  distinção  entre  o  vazio  simbólico  e  a  lacuna  da  realidade,  a  ordem  das 

“palavras” e a ordem das “coisas”. 

O enunciado lacaniano nos é de grande utilidade para trabalhar o paradoxo dialético 

do que Lacan denominou de “castração simbólica”, o fato de que uma entidade torna-se X

apenas quando renuncia a ser X. Existe uma lacuna entre o lugar simbólico e o elemento que 

o  preenche,  de  forma  que  ocupa-se  um  lugar  exatamente  quando  não  se  é  esse  lugar.  A 

castração  se  dá  pelo  fato  de  que,  estando-se  sujeito  à  ordem  simbólica,  há  uma  distância 

intransponível entre o que se é no imediato e o título simbólico que se assume; o que revela a 

impossibilidade  do  sujeito  identificar-se  completa  e  imediatamente  com  sua  identidade 

simbólica. Privado de sua insígnia simbólica, a identidade “rei” “se derrete como um boneco 

de neve ao sol”

28

. Trata-se justamente de um corte, cuja função é sustentar o domínio do que 

está “entre”: o abismo intransponível que se faz entre o real e  as simbolizações, a partir de 

onde Lacan pensa a diferença sexual. Nesse sentido, a castração simbólica não é o nome do 

limite do simbólico no sentido daquilo que interrompe o fluxo das múltiplas simbolizações, 

mas  é  justamente  o  que  sustenta  um  espaço  para  estas.  O  fato  de  que  nenhum  conteúdo 

simbólico  preenche  por  completo  o  real  é  justamente  o  que  impede  que  a  corrente  das 

simbolizações se interrompa. 

 

                                                 

28

 O texto em língua estrangeira é “se derrite como un muñeco de nieve al sol” (Žižek, 2008: 44). 

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 108 

In  short:  yes,  of  course,  the  way  we  symbolize  sexuality  is  not 

determined by nature, it is the outcome of a complex and contingent 

socio-symbolic power struggle; however, this very space of contingent 

symbolization, this very gap between the Real and its symbolization, 

must be sustained by a cut, and ‘symbolic castration’ is the lacanian 

name for this cut. So ‘symbolic castration’ is not the ultimate point of 

symbolic  reference  which  somehow  limits  the  free  flow  of  the 

multitude  of  symbolizations:  on  the  contrary,  it  is  the  very  gesture 

which  sustains,  keeps  open,  the  space  of  contingente  symbolizations 

(Žižek, 1999: 275)

29

 

 

Nessa leitura, o simbólico lacaniano não é entendido como um vazio a priori e transcendental, 

sobre o qual as simbolizações se produzem. Não se trata de um vazio que pode ser preenchido 

por  um  objeto  contingente  e  positivo,  como  interpreta  Butler  (2000)  a  partir  de  um 

formalismo kantiano. Segundo Žižek (1999), a armação transcendental-formal do simbólico é 

estruturada por uma parte de seu próprio conteúdo, o que rompe com a idéia kantiana de uma 

sublimação  perfeita  do  conteúdo  para  a  forma.  Há  um  “resto  indivisível”  da  materialidade 

contingente  que  mancha  a  pretensa  universalidade  neutra  da  estrutura  simbólica  e  que 

funciona  como  um  cordão  umbilical  através  do  qual  a  estrutura  vazia  é  ancorada  em  seu 

conteúdo.    

A partir desse percurso argumentativo, Žižek (1999) retoma a crítica feita por Butler 

aos  construcionistas  sociais,  para  quem  o  campo  sócio-histórico  e  contingente  das 

simbolizações é dado como um a priori. Sob seu ponto de vista, o caráter histórico-contigente 

conferido  à  diferença  sexual  pela  autora  não  é  o  que  a  liberta  da  pré-determinação,  pois  a 

relação  direta  entre  norma  e  sexualidade  aparece,  em  Butler,  como  um  pressuposto  teórico 

fundamental. O autor enfatiza, assim, a ausência de uma proposta explicativa para o campo 

simbólico.  No  entanto,  mais  do  que  explicar  como  esse  espaço  se  sustenta  a  partir  da 

castração  simbólica,  em  Žižek  (1999),  torna-se  importante  discernir  em  cada  contingência 

                                                 

29

 O trecho correspondente na tradução é: “Em resumo: sim, claro, a maneira como simbolizamos a sexualidade 

não  é  determinada  pela  natureza,  ela  é  o  resultado  de  um  complexo  e  contingente  sócio-simbólico  poderoso 
estrangulamento; no entanto, esse mesmo espaço de simbolização contingente, essa brecha entre o Real e suas 
simbolizações,  deve  ser  sustentado  por  um  corte,  e  ‘castração  simbólica’  é  o  nome  lacaniano  para  esse  corte. 
Então, ‘castração simbólica’ não é o ponto final da referência simbólica que de certa forma limita o livre curso 
da multidão de simbolizações: pelo contrário, é o gesto que sustenta, mantém aberto, o espaço das simbolizações 
contingentes”. 

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 109 

histórica  aquilo  que  “re-desempenha”  a  lacuna  sobre  a  qual  se  abre  o  horizonte  da 

historicidade. 

 

 

3.4 Ato ético e deslocamentos disruptivos biopolíticos 

 

 

A  aproximação  realizada  por  Butler  entre  as  noções  de  “diferença  sexual”  e  de 

“normas  simbólicas”  coincide,  finalmente,  com  uma  outra  indistinção  entre  as  idéias  de 

“vínculo apaixonado” e de “identificação sócio-simbólica”. Essas aproximações influenciam a 

sua leitura da psicanálise, saber ao qual a autora recorre com a intenção de explicar como o 

poder social incide sobre as formas de subjetivação, restringindo-as e produzindo-as. 

A  partir  da  tese  de  Foucault,  segundo  a  qual  há  um  nível  de  subordinação 

imprescindível na formação do sujeito, Butler (1997) deseja esclarecer, com a contribuição da 

psicanálise,  como  a  relação  com  o  poder  transforma-se  em  condição  de  existência.  Em  seu 

trabalho  de  1997,  Mecanismos  Psíquicos  Del  Poder,  a  autora  se  utiliza  o  termo  “vínculo 

apaixonado”  para  designar  a  dependência  primária  do  sujeito  ao  outro;  relação  esta  que  o 

marca para sempre com uma certa dose de vulnerabilidade à exploração e regulação política. 

A  perspectiva  de  que  a  sujeição  consiste  nessa  dependência  fundamental  que  ao 

mesmo  tempo  nos  subordina  e  nos  torna  sujeitos  vai  ao  encontro  do  que  Lacan  chamou  de 

uma  “escolha  forçada”,  ou  ainda,  uma  escolha  impossível.  Lacan  e  Butler  (1997) 

compartilham da idéia de que há uma alienação  fundamental ao campo sócio-simbólico, ao 

qual  está  condicionada  a  existência  do  sujeito.  Apesar  de  tratar-se  de  um  ponto  de 

concordância pontual, esse também serve como lugar de partida para grandes debates teóricos 

entre  Butler  e  autores  lacanianos,  pois,  ao  longo  de  sua  produção,  a  autora  defende  que  a 

teoria lacaniana pode ser reconhecida como um dispositivo de poder que constitui estratégia 

de sujeição à matriz heterossexual da dominação masculina. Sua leitura sobre a psicanálise é 

atravessada por um objetivo principalmente político: como subverter a rede sócio-simbólica 

enquanto  aquilo  que  predetermina  e  limita  os  critérios  de  reconhecimento  da  existência  do 

sujeito? 

Em  contraposição  à  idéia  comumente  utilizada  de  que  o  sujeito  é  apaixonadamente 

apegado à sua própria subordinação, Butler (1997) sugere que tal fixação é ela mesma efeito 

do  poder.  Nenhum  indivíduo  torna-se  sujeito  sem  antes  assujeitar-se  a  um  outro  que  lhe 

confere  a  possibilidade  da  existência  e  que,  ao  mesmo  tempo,  lhe  marca  em  sua 

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 110 

vulnerabilidade frente às regulações sociais. O “vínculo apaixonado” equivale, nesta leitura, 

ao nível mais fundamental de sujeição, aquele que tem como função o suporte inconsciente do 

poder, mas que é por ele mesmo produzido. O apego à subordinação não é anterior ao poder, 

mas é seu próprio produto, noção que possibilita a indagação: qual injunção social forma tal 

“vínculo apaixonado” inconsciente e qual seria a possibilidade de fazer resistência a ela? 

 

Del mismo modo que el sujeto se deriva de condiciones de poder que 

lo preceden, el funcionamiento psíquico de la norma se deriva, si bien 

no de manera mecánica o predecile, de operaciones sociales anteriores 

(Butler, 1997: 32/33)

30

 

 

Butler (1997) realiza uma redescrição dessa subordinação psíquica que pretende dar conta da 

maneira  como  o  poder  social  produz  modos  de  reflexividade,  ao  mesmo  tempo  limitando 

formas de sociabilidade, restringindo e produzindo desejos singulares. 

Numa perspectiva lacaniana, o que Butler (1997) designou de “vínculo apaixonado”, 

aquilo  sobre  o  qual  a  consistência  subjetiva  se  articula,  é  a  cena  da  “fantasia  fundamental” 

masoquista, em que o sujeito vê a si mesmo sofrendo. Essa cena, foracluída, ao mesmo tempo 

em que sustenta a subjetividade, a ameaça, devendo manter-se desconhecida. Segundo Žižek 

(1999), a autora utiliza a noção de “vínculo apaixonado” ora para se referir ao suporte último 

do  ser  subjetivo,  à  fantasia  fundamental,  ora  para  designar  a  identificação  simbólica,  uma 

resposta  já  inserida  no  âmbito  do  simbólico  para  recobrir  um  certo  vazio.  Seu  intuito,  ao 

contrário,  é  o  de  valorizar  a  distinção  entre  o  “vínculo  primordial”,  em  que  o  sujeito  é 

compelido  a  foracluir  para  ganhar  uma  existência  simbólica,  e  a  sujeição  à  ordem  sócio-

simbólica, que interpela o sujeito. A relação entre essas duas noções passa pelo fato de que o 

sujeito  apenas  é  capaz  de  sustentar  uma  identificação  sócio-simbólica  se  mantém  um  não-

conhecimento sobre seu suporte fantasmático. 

A fantasia fundamental a que Žižek (1999) se refere coincide com o segundo momento 

da fantasia, descrito por Freud no texto Uma Criança é Espancada, de 1919, em que o sujeito 

se  imagina  apanhando  do  pai.  Nesse  trabalho,  o  autor  dedica-se  a  elucidar  o  problema  do 

masoquismo, além de expandir o conhecimento psicanalítico sobre as perversões de um modo 

geral.  Atribui-se  a  este  artigo  uma  considerável  importância  no  que  tange  a  questão  dos 

                                                 

30

 O trecho correspondente na tradução é: “Do mesmo modo que o sujeito se deriva de condições de poder que o 

precedem, o funcionamento psíquico da norma se deriva, se bem que não de maneira mecânica ou previsível, de 
operações sociais anteriores”. 

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 111 

motivos que conduzem à repressão. Como descrito anteriormente, Freud revela a recorrência 

de  um  tipo  especial  de  fantasia:  uma  criança  é  espancada.  Desdobrando-a  em  fases,  a 

segunda delas é uma construção analítica: “estou sendo espancado pelo meu pai”. A origem 

de tal fantasia é explicada por Freud através dos mecanismos de repressão e de regressão. Se a 

organização genital da criança, que ainda não a tem firmada, encontra-se com a repressão, a 

representação  psíquica  do  amor  incestuoso  se  torna  inconsciente,  além  do  que,  ocorre  uma 

regressão  a  um  nível  mais  baixo  da  organização  genital.  “  ‘O  meu  pai  me  ama’  queria 

expressar um sentido genital; devido à regressão, converte-se em ‘o meu pai está me batendo’ 

” (Freud, 1996 [1919]: 204/205).  

Caracterizada  por  Freud  como  permanentemente  inconsciente,  a  fantasia  de  ser 

espancado pelo pai leva Žižek (1999) à análise de que esta construção fantasmática deve ser 

entendida como a cena da submissão constitutiva do sujeito, aquela que confere suporte à sua 

existência e que, por isso mesmo, deve permanecer inacessível ao sujeito. Nesta compreensão, 

é  essa  fantasia  foracluída  que  nos  oferece  as  coordenadas  do  “vínculo  apaixonado” 

primordial.  Na  primeira,  a  oposição  entre  atividade  e  passividade  é  subvertida,  pois  na 

internalização da cena de apanhar de um outro, o sujeito se encontra tanto no lugar passivo de 

um observador fascinado como também na posição passiva de sofrimento e dor daquele que 

está  apanhando.  Essa  dupla  passividade  pressupõe  um  engajamento  ativo  do  sujeito, 

possibilitado pela consolidação do que o autor denomina de “volta reflexiva”: de forma auto-

erótica, o próprio sujeito (e não um agente externo) frustra a sua própria atividade e domina a 

si  mesmo.  Esta  volta  reflexiva  é  o  que  define  o  gesto  da  foraclusão  primordial  como  uma 

defesa contra o gozo excessivo e traumático, ou seja, contra a pulsão de morte.  

Se a fantasia sinaliza uma “formação defensiva” contra a pulsão de morte, garantindo 

minimamente a existência do sujeito, isso implica em pressupor que o sujeito já esteja lá. O 

que  Žižek  (1999)  irá  enfatizar  é  que  dizer  que  o  sujeito  já  está  lá  é  reconhecê-lo  em  sua 

existência “negativamente abstrata”, no gesto primordial de não-vínculo com o ambiente. A 

fantasia seria uma “formação defensiva” contra o abismo do não-vínculo, sendo esse último 

pura pulsão de morte. 

Essa leitura do “vínculo apaixonado” de Žižek (1999) se distancia daquela de Butler 

(1997), em que o sujeito emerge como sujeição no sentido de submeter-se à figura do Outro, 

como no tabu do incesto, por exemplo. Numa concepção lacaniana, a lacuna, que é o sujeito 

que já deve estar lá, é anterior à ligação primordial, possibilitando-a. O sujeito como lacuna, 

anterior ao vínculo primordial, é a experiência de um “corpo desmembrado” sob o domínio da 

pulsão de morte e seu conseqüente distúrbio do princípio de prazer.  

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 112 

At this point, then, Butler should be supplemented: the emergence of 

the  subject  is  not  strictly  equivalent  to  subjection  (in  the  sense  of 

‘passionate  attachment’,  of  submission  to  some  figure  of  the  Other), 

since  for  ‘passionate  attachment’  to  take  place  the  gap  that  ‘is’  the 

subject must already be there. Only if this gap is already there can we 

explain  how  it  is  possible  for  the  subject  to  escape  the  hold  of  the 

fundamental fantasy [parênteses do autor] (Žižek, 1999: 289)

31

 

Žižek (1999) insistirá que o sujeito é anterior a sujeição no sentido dado por Butler (1997), o 

que nos remete à distinção entre repressão e foraclusão. Enquanto o primeiro termo refere-se a 

um  ato  performado  pelo  sujeito  enquanto  um  agente  que  repreende  parte  de  seu  conteúdo 

psíquico, a foraclusão é um gesto negativo de exclusão que fundamenta o sujeito, um gesto 

que não pode ser assumido pelo sujeito, mas sobre o qual se articulará toda a consistência de 

sua  identidade  subjetiva.  A  Lei  interna  não  é  simplesmente  uma  “extensão”  ou 

“interiorização”  da  pressão  externa,  mas  emerge  a  partir  de  uma  “volta  reflexiva”,  de  uma 

foraclusão.  

O que Žižek (1999) defenderá é que, quando Butler confunde os dois processos, acaba 

não  sendo  radical  em  sua  proposta  de  deslocamento  da  ordem  simbólica  hegemônica,  pois 

supervaloriza  o  potencial  subversivo  das  práticas  performativas.  Retomemos,  então,  a 

proposta da autora.  

Butler (2002), em seu trabalho, se preocupa em produzir deslocamentos nas fronteiras 

normativas, a fim de possibilitar novos modos de vida. Faz-se necessário sublinhar que não é 

contra  o  poder  que  a  autora  se  coloca,  visto  que  considera  tal  feito  impossível,  mas  contra 

certos  efeitos  do  poder,  como  o  não  reconhecimento  social  de  algumas  formas  de 

subjetivação. No que se refere ao tema da sexualidade, por exemplo, a autora nega o efeito 

disruptivo da abolição da categoria de gênero. Ao contrário, apresenta uma nova concepção 

ligada à idéia “ato performativo”. Para desconstruir a idéia de que gênero é identidade fixa e 

rígida, a autora cunha este termo para designar o meio pelo qual se produz uma realidade, ou 

melhor,  uma  ilusão  de  substância.  Defende  que  o  sujeito  é  interpelado  e  produzido  por 

normas,  cujo  efeito  é  materialização  dos  corpos  e  da  própria  realidade.  Por  trás  da  norma 

                                                 

31

 O trecho correspondente na tradução é: “Nesse momento, então, Butler deve ser complementada: a emergência 

da subjetividade não é estritamente equivalente à sujeição (no sentido de ‘vínculo apaixonado’, de submissão a 
alguma  figura do Outro), desde que para o ‘vínculo apaixonado’ acontecer a brecha que ‘é’ a  subjetividade já 
deve  estar  lá.  Somente  se  a  brecha  já  está  lá  nós  podemos  explicar  como  é  possível  para  o  sujeito  escapar  do 
domínio da fantasia fundamental”. 

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 113 

haveria  um  poder  regulador,  cujo  funcionamento  se  dá  mediante  a  reiteração  da  primeira, 

além da  aplicação das  exclusões. Tal inteligibilidade é baseada no  conceito foucaultiano de 

“biopoder”, segundo o qual não há distância entre o poder e o indivíduo, sendo este último um 

efeito do primeiro.  No âmbito da norma sexual, por exemplo, o sujeito é “gendrado” desde 

sempre e isso se dá não só através dos dispositivos de  gênero, como pela própria  forma de 

subjetivação. 

Se gênero  é uma norma, não uma essência ou estrutura, é uma  construção histórico-

contingente, sendo suscetível a transformações. Não caracterizando-o como imutável, a autora 

destaca  a  possibilidade  de  realização  de  deslocamentos  disruptivos  biopolíticos,  pois  esta 

concepção normativa de gênero subentende a existência de uma potencialidade subversiva no 

próprio exercício do poder. Visto para se constituir uma realidade, a norma sexual depende da 

reiteração incessante, a autora conclui que é na própria prática repetitiva que se produz uma 

abertura  para  a  subversão.  Esta  é  concebida,  então,  como  uma  repetição  diferencial  que 

provoca deslocamentos nas fronteiras de inteligibilidade. 

 

Desta forma não seria fundamentalmente contra o poder que nascem 

as  possibilidades  de  resistência,  seja  ela  singular  ou  coletiva,  mas 

contra certos efeitos de poder num espaço paradoxalmente aberto na 

própria  estratégia  de  sua  constituição  (Arán  e  Peixoto  Júnior,  2007: 

06). 

    

A partir de uma concepção histórica e contingente das normas de gênero, Butler (2002, 2004) 

constrói sua proposta subversiva em termos de deslocamentos das fronteiras entre os gêneros 

inteligíveis e os abjetos. Tomando a psicanálise como um dispositivo de poder que delimita o 

campo do sujeito e o campo das identificações temidas, a autora passa a traduzir aquilo que é 

excluído  pela  teoria  sob  o  rótulo  de  “perversões”.  Prescrevendo  a  exclusão  recíproca  entre 

identificação  e desejo, a psicanálise transforma em patologia aquilo que não é da ordem da 

heterossexualidade e do binarismo sexual.   

A intenção transgressiva de Butler (2002, 2004), estando baseada no seu entendimento 

sobre o poder, a distancia mais uma vez de Žižek (1999), para quem a performatividade só faz 

reafirmar o sistema simbólico. Em torno da noção de perversão, os autores discutem sobre o 

que seria uma sexualidade disruptiva. Para o autor, Butler comete dois equívocos. Um deles é 

chamar  de  perversão  tudo  aquilo  que  considera  ser  excluído  pelo  dispositivo  psicanalítico, 

associando  ela  mesma  a  priori  práticas  sexuais  a  categorias  clínicas.  O  segundo  é  pré-

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 114 

conceber o que chamou de perversão como uma categoria necessariamente subversiva. Critica 

ainda seu gesto fundamental de desconstruir a idéia de identidade substancial, trocando-a pela 

concepção de uma rede de relações diferenciadas não substanciais. 

Segundo  Žižek  (1999),  o  deslocamento  de  fronteiras  a  partir  da  reconfiguração 

performativa  não  ocasiona  mudanças  no  campo  simbólico,  tendo  em  vista  que  a  “repetição 

diferenciada”  está  inserida  no  interior  do  campo  hegemônico.  Indica  que  a  idéia  de 

performatividade  é  uma  estratégia  de  transgressão  ainda  inserida  no  campo  do  Outro, 

decodificada  por  esse,  não  podendo  subvertê-lo,  portanto,  mas  reafirmá-lo.  O  projeto  da 

autora se restringiria a uma resistência imaginária, impedindo o verdadeiro deslocamento da 

rede sócio-simbólica. 

Sob  esse  ponto  de  vista,  a  perversão  não  pode  ser  subversiva,  já  que  é  uma  atitude 

socialmente construída e, por isso mesmo, não atrapalha o funcionamento do Outro. A única 

possibilidade de atingir o sistema simbólico e de modificá-lo seria, para Žižek (1999), através 

do “ato ético”. Para explicar a sua proposta, o autor recorre ao que entende ser um equívoco 

de Foucault e de Butler no que se refere à concepção de poder e de resistência. Esses termos 

são conceitualizados a partir de uma relação mútua circular, o que impossibilita essa última de 

solapar  o  sistema.  Partindo  dessa  tese  foucaultiana,  a  autora  negligenciaria  o  fato  de  que  o 

próprio mecanismo de poder torna-se erotizado, de que este se torna produtor de um excesso 

reflexivo.  Segundo  uma  leitura  lacaniana,  atentar  para  a  noção  dialética-materialista  de 

“efeito” é fundamental para explicar esse excesso reflexivo: se um “efeito” pode superar sua 

“causa”, esse é o caso do procedimento repressivo regulatório, que passa a ser libidinalmente 

investido e a funcionar como fonte de satisfação.  

Para  Žižek  (1999),  a  noção  de  subversão  relaciona-se  à  idéia  de  ato,  cujo  efeito 

consiste  em  fazer  cessar  a  articulação  simbólica.  Sua  perspectiva  indica  a  suspensão 

momentânea do Outro como única possibilidade de deslocar o campo sócio-simbólico e seus 

princípios  estruturantes.  Isso  só  seria  possível  por  um  gesto  não  mais  coberto  pelo  Outro 

simbólico,  ou  seja,  pela  intervenção  real  do  que  designou  de  ato  ético.  Este  último  é 

caracterizado  por  sua  irredutibilidade  ao  “ato  discursivo”  e  por  coincidir  com  a  forma 

elementar da pulsão de morte.  

O grande desentendimento entre os dois autores quanto à perspectiva de subversão do 

poder pode ser colocado em torno da seguinte controvérsia: para Butler, a subversão do poder 

só  pode  ser  exercida  no  interior  do  mesmo,  através  de  deslocamentos  biopolíticos;  já  para 

Žižek, o ato ético que subverte o sistema é somente aquele o interrompe. 

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CONSIDERAÇÕES

 

FINAIS 

 

ALTERIDADE,

 

DIFERENÇA

 

E

 

SINGULARIDADE:

 

novos

 

desafios para a psicanálise 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O  foco  de  reflexão  da  presente  pesquisa  foi  construído  a  partir  da  discussão 

contemporânea sobre  a  questão da diferença sexual na psicanálise, surgida em meio à nova 

cartografia das sexualidades: a teoria psicanalítica se limita a reproduzir a organização social, 

restringindo-se  à  descrição  da  aquisição  (normal  ou  problemática)  do  gênero  masculino  ou 

feminino  (Porchat,  2007)?  Ou  pode  ser  um  instrumento  valioso  na  fundamentação  de  uma 

nova proposta, a de pensar “diferentemente o diferente”?  

As  teorias  freudiana  e  lacaniana  têm  sido  interpeladas  por  representantes  feministas 

por reproduzir normas hegemônicas de gênero, e, conseqüentemente, por restringir ao terreno 

da invisibilidade os “gêneros não-inteligíveis”. A noção psicanalítica de diferença sexual está 

na  base  dessa  interpretação,  tendo  em  vista  o  lugar  crucial  que  é  dado  à  mesma  na 

constituição  do  sujeito.  Por  outro  lado,  psicanalistas  contemporâneos  sugerem  uma  nova 

leitura da psicanálise na intenção de deslocar a problemática da diferença da divisão binária 

sexual. 

A fim de analisar as duas hipóteses, realizou-se um retorno a Freud e a Lacan e às suas 

noções  de  sexualidade  e  de  diferença.  O  primeiro  capítulo  foi  dedicado,  especialmente  à 

evolução do conceito de complexo de Édipo. Foi em torno de tal conceito que Freud construiu 

um quadro explicativo sobre a assunção da identidade sexual e a constituição da diferença. 

Vimos como a diferença sexual, ou mais especificamente a sexualidade feminina, é um 

impasse em Freud. Se, por um lado, o autor  a distancia da  anatomia sexual, propondo uma 

fase  infantil  na  qual  o  monismo  sexual  fálico  é  prevalente  para  ambos  os  sexos,  por  outro 

lado, tropeça na tentativa de tornar inteligível a constituição da sexualidade feminina e repete 

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 116 

o modelo do dimorfismo sexual, de modo que o feminino adquire uma definição em termos 

de déficit, determinada pelo paradigma moderno de gênero. 

Butler (2003) reconhece na teoria das identificações a demanda teórica da psicanálise 

pela diferença sexual, que partiria do pressuposto de que o sexo do objeto de amor e o sexo do 

modelo identificatório jamais são os mesmos. Para a autora, mesmo na situação edipiana tida 

como invertida, a heterossexualidade aparece como uma condição determinada a priori

Em relação a Lacan, percebemos que, em sua vertente estruturalista, a diferença sexual 

adquire  um  status  transcendental,  operador  imprescindível  e  universal  para  a  entrada  no 

sujeito na cultura; hipótese que mantém  a problemática da diferença associada  ao dualismo 

hierárquico masculino/feminino.  

Por sua vez, a dimensão do para-além do Édipo denota a estrutura da castração como 

dependente da linguagem, e não mais da função paterna, o que, para os lacanianos, significa 

dizer que a perda do gozo se dá para todos aqueles que se inserem na linguagem. A castração, 

assim,  deixa  de  exprimir  um  dos  pólos  do  binarismo  sexual  e  passa  a  significar  o 

indomesticável do gozo mediante o discurso. Para além do imaginário e do simbólico, o sexo 

começa a ser compreendido em sua vertente real, de gozo. É a partir daí que Lacan indicará as 

fórmulas da sexuação, cuja exposição central é tese de que os sujeito podem ser divididos em 

dois  modos  de  gozo,  um  todo  fálico  e  outro  não-todo  fálico.  Se,  por  um  lado,  as  fórmulas 

deslocam a questão da sexualidade do âmbito da identificação e da anatomia genital, por outro 

lado,  a  sexuação  dita  feminina  permanece  descrita  segundo  o  paradigma  masculino,  cuja 

conseqüência  teórica  aparece  na  impossibilidade  de  qualquer  determinação  positivada  da 

mesma. 

O  estatuto  da  noção  de  diferença  sexual  na  psicanálise  é,  então,  problematizado  e 

ganha um vulto importante na atualidade na medida em que diz respeito a questões relativas à 

interface  entre  teoria  psicanalítica  e  cultura.  Através  das  leituras  de  Judith  Butler  e  Slavoj 

Žižek,  percorremos  os  principais  argumentos  que  giram  em  torno  do  caráter  normativo  das 

teorias da sexualidade. 

Para Butler (2002, 2004), os modelos de diferença sexual defendidos pela psicanálise 

são  normas  de  gênero  histórico-contingentes,  ou  seja,  são  injunções  sociais  normativas.  A 

autora  evidencia  sua  conclusão  a  partir  do  pressuposto  psicanalítico  de  que  deve  haver 

coerência  entre  sexo,  gênero,  desejo  e  prática  sexual,  o  que  faz  com  que  a  teoria  contribua 

para que alguns gêneros não tenham inteligibilidade cultural e se tornem relegados à esfera da 

não-aceitação. Nesse sentido, Freud e Lacan se limitaram a explicar a aquisição dos “gêneros 

inteligíveis”,  cooperando  para  a  manutenção  da  organização  social  baseada  no  binarismo 

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 117 

hierárquico. Até então, a psicanálise recuou diante da tarefa de analisar as relações de poder 

inseridas  nas  questões  de  gênero  e  diante  da  possibilidade  de  transformação  social.  Vimos 

como  no  trabalho  de  Butler  (2002)  há  uma  proposta  política  bastante  clara,  qual  seja,  a  de 

realizar  deslocamentos  disruptivos  biopolíticos  como  modo  de  subverter  o  poder.  O 

deslocamento das fronteiras de inteligibilidade seria uma potencialidade inerente  ao próprio 

exercício do poder, tendo em vista que a reiteração de normas inclui a possibilidade de uma 

repetição diferenciada. 

  Mesmo  considerando  que  a  teorização  de  Butler  (2000,  2002,  2003)  levaria  a  uma 

crítica  radical  da  diferença  sexual  em  psicanálise,  é  interessante  ressaltar  a  proposta  que 

realiza  no  capítulo  “The  End  of  Sexual  Difference?”,  do  livro  Undoing  Gender  (2004). 

Apesar  da  autora  insistir  na  importância  da  questão  da  diferença  sexual  permanecer  em 

aberto, não resolvida, empenha-se em pensar, através do conceito psicanalítico de pulsão, uma 

forma de desatrelar a diferença sexual da normatividade heterossexual. 

Uma  releitura  da  noção  psicanalítica  de  pulsão  seria  uma  tentativa  de  ultrapassar  a 

dificuldade  de  se  determinar,  em  relação  à  diferença  sexual,  onde  se  inicia  e  termina  o 

biológico, o psíquico e o social. Entendendo-a como o lugar de convergência entre a cultura e 

a biologia, porém distinta a ambas, a pulsão fundaria um campo de tematização daquilo que 

não  é  apreensível  na  sexualidade  e  que  provoca  o  fato  de  que  as  significações  do  corpo 

extrapolam as intenções do sujeito. A pulsão, assim, evidencia a dimensão corporal que não 

pode ser totalmente representada, mas que dirige todo sujeito sem, no entanto, que o mesmo 

possa conhecê-la. 

Butler (2004) faz questão de clarear as diferenças entre a sua proposta e a hipótese da 

diferença sexual como real de Žižek (1999). No entanto, esse cuidado parece demandar que 

nos  debrucemos  com  mais  atenção  sobre  as  possíveis  aproximações  entre  as  duas 

perspectivas, já que a noção de real também é uma tentativa de nomeação do inapreensível. O 

sentido de dizer que a diferença sexual é real está na impossibilidade da mesma ser captada 

pela  articulação  simbólica,  incluindo  aí  as  imposições  sociais  normativas.  Trata-se  de  uma 

diferença  da  ordem  do  inominável,  um  furo  do  simbólico  ao  redor  do  qual  as  cadeias 

significantes  são  produzidas.  Isso  se  aproxima  da  noção  de  pulsão  enquanto  dimensão 

corporal que não pode ser totalmente representada. 

Por  outro  lado,  não  nos  esqueçamos  daquilo  que  Butler  (2004)  coloca  como 

controverso  entre  a  sua  proposta  e  a  da  teoria  lacaniana.  No  seu  entendimento,  o  real  se 

configura  como  um  impedimento  lógico  do  registro  simbólico  e  se  esse  último  adquire  um 

caráter estrutural e transcendental, a diferença sexual como real também seria apreendida por 

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 118 

uma pretensa constância. Ao contrário, para a autora, a pulsão não deixa de estar relacionada 

ao biológico e ao social, de modo que o que chama de “inapreensível da dimensão corporal” 

também se move e se transforma. A discordância principal seria frente à idéia de simbólico 

como estrutura fixa, cuja repercussão produz uma diferença sexual também rígida e universal. 

Ao se elevar o real e a diferença sexual à condição de categorias transcendentais, garante-se a 

ilusória imunidade das mesmas às transformações sociais e o direito a prescrever fronteiras de 

inteligibilidade.  

O  intuito  da  autora  é  justamente  o  de  valorizar  a  possibilidade  de  transformação  da 

pulsão,  pois  se  a  mesma  se  desloca  e  se  transforma,  pode-se  supor  uma  pluralização  da 

diferença sexual (Porchat, 2007). A introdução do termo “diferenças sexuais” é uma tentativa 

de fazer jus à multiplicidade de identidades sexuais. Mais do que isso, trata-se de valorizar a 

flexibilidade  de  qualquer  postulação  identitária,  cuja  característica  primordial  é  a 

potencialidade de provocar deslocamentos biopolíticos. 

À medida em que foca as suas críticas ao real pela transcendentalidade da categoria, 

Butler (2000) parece se  referir novamente ao  contexto estruturalista da teoria lacaniana. No 

entanto,  a  proposta  de  Žižek  (1999)  se  insere  em  outro  contexto  teórico,  em  que  há  a 

prevalência do real sobre os demais registros, além do enlaçamento dos mesmos em um nó 

borromeano.  Dizer  que  a  diferença  sexual  é  sem  conteúdo  ou  real  significa  que  sua 

caracterização,  sua  divisão  em  estruturas,  é  o  resultado  da  ordem  simbólica,  e  que  essa,  de 

certa  forma,  aniquila  o  real.  O  real  é  não-substancializado.  Nessa  direção,  não  faz  sentido 

tornar plural a diferença sexual, pois “o real de Lacan é sem zonas, subdivisões, altos e baixos 

localizados  ou  lacunas  e  totalidades:  o  real  é  um  tipo  de  tecido  inteiro,  indiferenciado, 

entrelaçado de forma a ser completo em todos os lugares, não havendo espaço entre os fios 

que são sua ‘matéria’ ” (Fink, 1998: 44). 

A tentativa de aproximar os dois autores não pode trazer soluções para os impasses em 

que se desencontram. Acredita-se que Butler e Žižek sustentam pontos de vista diferentes, o 

que  contribui  para  o  caráter  infindável  do  debate  em  que  se  encontram.  Para  ir  além  do 

binarismo, o objetivo deste trabalho não foi escolher entre um pensamento ou outro, mas sim 

valorizar as releituras que estes impasses provocam dentro da própria psicanálise. 

Outros  autores,  em  estudos  recentes,  refletem  as  contradições  da  psicanálise  frente  à 

questão da diferença sexual e trazem novas provocações para o campo. David-Ménard (2001), 

por exemplo, é outra autora que comenta o inapreensível da sexualidade como o real da teoria 

lacaniana. A concepção de real sobre a qual se debruça diz respeito ao lugar ao redor do qual 

giram as características identificatórias com as quais o sujeito se define, mas que, ao mesmo 

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 119 

tempo  lhe  escapam.  Em  outras  palavras,  o  inapreensível  corresponde  ao  inassimilável  do 

Outro na constituição do sujeito. 

Nunes  (2000)  também  defende  que  a  sexuação  seja  colocada  no  terreno  daquilo  que 

tem sua produção na relação com o Outro, o que aponta para a influência do desejo dos pais 

nessa construção. Os caminhos da libido e a sexualidade do sujeito são determinados a partir 

da relação com o outro parental que a engendra. 

Esse campo de investigação vem sendo explorado por autores como Birman (1999), a 

própria David-Ménard (2001) e Arán (2006), a partir do intuito de construir um outro espaço 

sócio-simbólico para a alteridade. Para tanto, realizam novas leituras da teoria pulsional, de 

forma pensar a noção de diferença para além do dispositivo da diferença sexual. 

Trata-se  de  demonstrar  que  o  aparelho  psíquico  descrito  por  Freud  em  termos 

quantitativos, a partir de noções como força e excesso, revela-nos a possibilidade de pensar a 

sexualidade  como  algo  da  ordem  da  economia  e  a  alteridade  como  algo  interno  ao  sujeito. 

Essa perspectiva retoma as postulações freudianas em torno da necessidade imprescindível de 

um outro sujeito não só para a sobrevivência do ser humano, como também para a origem do 

processo de subjetivação. O desamparo biológico serve de metáfora para a relação do sujeito 

com o Outro, tendo em vista que a dependência do infante com a figura do outro promove a 

transmissão do erotismo das figuras parentais para o sujeito (Birman, 1999). 

O outro, ao inaugurar e modelar a economia pulsional do sujeito, contribuindo para as 

experiências de gozo e satisfação, libidiniza seu corpo. Nesse direção, David-Ménard (2001) 

equivale  sexuação  e  alteridade.  Por  que  não  acrescentar  aí  a  singularidade,  já  que  essa  diz 

respeito aos destinos pulsionais do sujeito? Birman (1999), a partir de uma releitura da noção 

de  feminilidade,  contribui  para  o  tema  da  diferença,  tornando  claro  que  a  esta  só  pode  ser 

reconhecida como alteridade quando articulada à singularidade. 

Outra  noção  freudiana  que  nos  leva  a  enfatizar  a  relação  entre  diferença  e 

singularidade  é  a  de  estranho-familiar  (Arán,  2006).  A  distinção  entre  um  “exterior 

irredutível” e um “interior-pulsional” é sempre provisória, o que nos permite compreender a 

diferença como aquilo que subverte os limites do eu em uma mescla pulsional. A sexuação, 

assim,  pode  ser  pensada  como  “algo  que  se  produz  a  cada  momento,  pois  sempre  se  faz 

provisoriamente a partir do encontro com o outro” (Arán, 2006: 215).  

Como  vemos,  a  partir  das  revisões  da  teoria  psicanalítica  que  conferem  destaque  às 

noções  de  força  e  economia,  podemos  romper  com  a  construção  de  modelos  universais  da 

diferença, em que o outro é determinado a priori. A narrativa pulsional interrompe a repetição 

do princípio de identidade, permitindo a compreensão da alteridade sem a transformação do 

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 120 

outro em uma alegoria,  como vimos fazer o pensamento tipicamente moderno. Ou seja, em 

direção  contrária  à  prescrição  de  modelos  universais,  transcendentais  e  hierárquicos  para  a 

diferença, chega-se à idéia de que o encontro com a alteridade, interna ou externa ao sujeito, é 

o encontro com a indeterminação e com a contingência. 

 

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