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Adeline_Yen_Mah_-_FOLHAS_CAIDAS

Folhas Caídas - ADELINE YEN MAH

FOLHAS CAÍDAS
A HISTÓRIA VERÍDICA DE UMA CRIANÇA CHINESA INDESEJADA
TRADUÇÃO
ELSA MARIA BOTÃO ALVES
gradiva

Título original inglês: Falling Leaves: The True Story of an Unwanted Chinese 
Daughter
(c) 1997, by Adeline Yen Mah Todos os direitos reservados Autorizada a tradução 
da edição em língua inglesa por John Wiley & Sons, Inc. Tradução: Elsa Maria 
Botão Alves
Revisão do texto: Manuel Joaquim Treira Capa: Armando Lopes
Fotocomposição: Gradiva
Impressão e acabamento: Gráfica Manuel Barbosa & Filhos, L.~ Reservados os 
direitos para Portugal por: Gradiva-Publicações, L.d°
Rua de Almeida e Sousa, 21, r/c, esq. - 1399-041 Lisboa Telefs. 397 40 67/8 - 
397 13 57 - 395 34 70
Fax 395 34 71- Email: gradiva@ip.pt i1RL: http://www.gradiva.pt
2.° edição: Dezembro de 1999 Depósito legal n.° 144283/99

Dedico esta história à minha tia Baba, cuja crença ina
balável no meu valor me amparou ao longo de uma infância angustiada. Dedico-a 
também ao meu marido, Bob, sem o amor do qual eu não poderia ter escrito este 
livro.
Veja o nosso site na Internet http://www.gradiva.pt
Nota da autora

Esta é uma história verdadeira, grande parte da qual escrita com dor e 
dificuldade. Senti, contudo, que esta era uma tarefa a cumprir. Continuo muito 
ligada a diversos membros da minha família e não desejo magoar nenhum deles 
desnecessariamente. Por essa razão, alterei os nomes próprios dos meus irmãos 
ainda vivos, das suas esposas e dos seus filhos. Os nomes dos meus pais são, 
todavia, reais, bem como todos os acontecimentos descritos nesta obra.

Indice

Prólogo: Hong-Kong, 19 de Maio de 1988.......................................13
1. Men Dang Hu Dui - A porta certa encaixa na ombreira da casa certa.........17

 

2. Dian Tie Cheng Jin - Transformar ferro em ouro ..........................
25

 

3. Ru Ying Sui Xing - Inseparáveis como a própria sombra....................
30
4. Xiu Se Ke Can - Encantos suficientemente surpreendentes para uma festa....37

 

5. Yi Chang Chun Meng - Um episódio de um sonho de Verão ..................
45

 

G. Jia Chou Bu Ke Wai Yang - Roupa suja lava-se em casa- ...................
53

 

7. Yuan Mu Qiu Yu - Subir às árvores para pescar............................

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8. Yi Shi Tong Ren - Tratamento igual para todos sem excepção ............. 101
9. Ren Jie Di Ling - Uma aluna brilhante numa terra maravilhosa ........... 109
10.Du Ri Ru Nian - Cada dia como um ano.................................... 116
11.Zi Chu Ji Zhu - Ideias originais para composições literárias ........... 121
12.Tong Chuang Yi Meng - Na mesma cama com sonhos diferentes ...............127
13.You He Bu Ke? - Haverá algo impossível? ................................ 131
14.Yi Qin Yi He - Um só canto, uma só garça ............................... 144
15.Fu Zhong You Yu - Um peixe a nadar num caldeirão ....................... 150
16.Pi Ma Dan Qiang - Um cavalo, uma só lança ...............................161
17.Jia Ji Shui Ji - Casa com uma galinha e seguirás uma galinha ............168
18.Zhong Gua De Gua - Colherás o que semeares ..............................177
19.Xin Ru Si Hui - Corações reduzidos a cinzas ............................ 187
20.Fu Zhong Lin Jia - Escamas e conchas dentro da barriga ................. 201
21.Tian Zuo Zhi He - União paradisíaca .................................... 213
22.Si Mian Chu Ge - Cercados por todos os lados ............................219
23.Chu Cha Dan Fan - Arroz branco e chá de má qualidade ................... 225
24.Yin Shui Si Yuan - Quando beberes da água, lembra-te da fonte .......... 233
25.Yi Dao Liang Duan - Cortar esta relação com um só golpe................. 240
26.Wu Feng Qi Lang - Fazer ondas sem vento ................................ 245
27.Jin Zhu Zhe Chi; Jin Mo Zhe Hei
Junto do vermelhão tornamo-nos avermelhados e junto da tinta [-da -china]       
      tornamo-nos enegrecidos ...............................................249
28.Jiu Rou Peng You - Amigos apenas para comer e beber ......................257
29.Wu Tou Gong Na - Um caso sem pés nem cabeça ............................. 266
30.Kai Meng Yi Dao - Abre a porta e saúda o ladrão ..........................270
31.Yan Er Dao Ling - Não querer ver o que é evidente.........................274
32.Luo Ye Gui Gen - As folhas que caem regressam às suas raízes .............277

PRÓLOGO
Hong-Kong, 19 de Maio de 1988

Não estaria a dizer toda a verdade se afirmasse que, em quarenta anos, era a 
primeira vez que estávamos todos reunidos. Cada um de nós, separadamente, tinha 
muitas vezes, algumas mesmo em segredo, participado em reuniões deste tipo, 
embora em todas elas tivesse havido um denominador comum: uma ausência. Hoje era
o pai que não estava presente.
Susan, a nossa irmã mais nova, figura bem conhecida na sociedade e mulher do 
banqueiro multimilionário Tony Liang, também não se encontrava entre nós. Não 
tinha sido convidada para o funeral do pai nem para a subsequente leitura do 
testamento. O seu nome não fora incluído no obituário publicado no Sotrth China 
Morni~ag Post'. "Joseph Tsi-rung Yen", podia ler-se na nota, "amado esposo de 
Jeanne Prosperi Yen, pai de Lydia, Gregory, Edgar, James e Adeline, expirou em 
paz a 13 de Maio de 1988 no Hong-Kong Sanatorium."
Na manhã em que falecéra, o pai tinha sido sepultado no cemitério católico de 
North Point, situado no lado oriental da ilha de Hong-Kong. Eram agora 4.30 da 
tarde e encontrávamo-nos reunidos nos espectaculares escritórios de advogados 
Johnson; Stokes & Masters, no

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Jornal diário em língua inglesa publicado em Hong-Kong. (N. da T.)
13
17.° andar do Prince's Building, em Hong-Kong, prontos a ouvir a leitura do 
testamento.
Ansiosos, aguardávamos na sala de conferências, sentados em volta de uma grande 
mesa oval com tampo de granito polido. Tal como o chão, também de granito, a 
condizer, a mesa brilhava ao sol da tarde, que inundava o aposento atravessando 
as enormes janelas sobre o porto. Lydia, a minha irmã mais velha, chegou-se a 
mim e, num gesto protector, passou-me o braço por cima do ombro. Os meus três 
irmãos mais velhos, Gregory, Edgar e James, encontravam-se sentados ao lado uns 
dos outros, de rosto sombrio. Louise, a bonita mulher de James, mirava 
solicitamente a nossa madrasta, sino-francesa, a quem chamávamos - Niang o termo
chinês que significa "mãe". Acompanhada pelo seu advogado, Niang ocupava o topo 
da mesa; uma nuvem de fumo libertava-se da boquilha de ouro que apertava entre 
os dedos, meticulosamente arranjados. A sala parecia-me enorme e eu sentia-me 
agoniada de desgosto.
O meu pai tinha sido um homem muito rico. Correra riscos no seu percurso, mas 
fora sem dúvida um dos homens de negócios mais bem sucedidos de Hong-Kong. 
Fugido de Xangai em 1949, fundara uma com panhia de importação-exportação, que 
diversificara posteriormente para os ramos de produção, construção, comércio e 
imobiliário, tendo mesmo chegado a indexá-la na Bolsa de Hong-Kong, conhecida 
pelo seu alto grau de competitividade. James e Niang tinham gerido as suas 
finanças a partir do momento em que a doença o impossibilitara de o fazer.
Niang apresentava-se impecavelmente vestida num dispendioso fato parisiense de 
seda preta. Na lapela ostentava um grande alfinete de diamantes que combinava 
com o anel que trazia no dedo. O cabelo,
pintado de preto azeviche, estava cuidadosamente penteado sobre a testa larga. 
De uma carteira preta de pele de crocodilo retirou um par de óculos de marca, 
que colocou sobre o nariz. Um sinal de cabeça ao advogado bastou para que, nesse
momento, cada um de nós recebesse uma cópia do testamento do pai.
O advogado pigarreou e disse:
- A mãe dos senhores, a minha cliente, Sra. Jeanne Yen, pede que não voltem a 
página neste momento. Mais tarde explicar-vos-á o porquê deste pedido.
Iniciou então a leitura da primeira página, cada um de nós suspenso das suas 
palavras. Senti-me como se tivesse 7 anos, quando vivia em Xangai.

"Eu, Joseph Yen, residente no n.° 18 de Magazine Gap Road, Magnolia Mansions, 
n.° 10a, Victoria, colónia de Hong-Kong, afirmo ser esta a minha última vontade 
e o meu testamento", assim se iniciava o documento. Seguia-se a fraseologia 
habitual sobre a revogação de todos os testamentos e aditamentos anteriormente 
lavrados. O pai apontava então sua mulher, Jeanne Yen, como testamenteira única.
"E a ela lego todos os meus bens, quaisquer que eles sejam e onde quer que se 
encontrem." Caso Niang não lhe sobrevivesse, continuou o advogado, James seria o
único beneficiário do testamento do pai.
O advogado chegara ao final da página. Tossiu nervosamente e afirmou:
- É meu dever informá-los de que recebi instruções da Sra. Jeanne Yen, mãe dos 
senhores, para vos dizer que não há dinheiro nenhum entre os bens deixados pelo 
vosso pai.
Cravámos nele os olhos com o maior dos espantos. Não há dinheiro nenhum? Todos 
os olhos se voltaram para Niang, a nossa madrasta. Fixou-nos um por um.
- Dado que não há dinheiro nenhum - disse ela -,não precisam de continuar a 
leitura do testamento. Não há nada que vos tenha sido atribuído. O vosso pai 

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morreu sem deixar um centavo.
Estendeu a mão e, vagarosa e relutantemente - obedecendo, contudo -, cada um de 
nós lhe entregou a respectiva cópia do testamento sem ler a página seguinte, 
exactamente como nos tinha sido pedido.
Ninguém proferiu palavra. O silêncio prolongado arrastava consigo uma atmosfera 
de mal-estar; entretanto, continuávamos a olhar para Niang, aguardando uma 
explicação.
- Nenhum de vocês parece compreender - disse Niang -, o testamento do vosso pai 
não faz qualquer sentido porque ele não tinha dinheiro nenhum.
Levantou-se e entregou ao advogado todas as cópias do testamento do pai. A 
leitura tinha terminado.
Ninguém pôs em causa a legitimidade das acções de Niang, do mesmo modo que 
ninguém voltou a primeira página para ver o conteúdo da página seguinte. 
Estupefactos e incapazes de qualquer reacção, acatámos as ordens de Niang. Não 
fazíamos ideia do modo como o pai desejara dispor da sua fortuna, nem de como 
imaginara o futuro da nossa família.
14
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O pai fora uma pessoa de grande fortuna e carácter. Por que razão todos nós 
devolvêramos o testamento sem o ler, como se fôssemos bonecos sem poder de 
decisão?
Para explicar a docilidade de todos nós nessa tarde terei de voltar ao 
princípio. Há um provérbio chinês que diz - ~,~~ luo ye gui gen ("as folhas que 
caem regressam às suas raízes"). As minhas raízes assentavam numa família de 
Xangai chefiada por um pai influente e pela sua mulher euro-asiática, num 
cenário de portos e tratados encaixados em concessões estrangeiras, envolvidos 
pela colisão do Ocidente com o Oriente, colisão essa que se deu dentro e fora da
minha própria casa. 
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1
Men Dang Hu Dui A porta certa encaixa na ombreira da casa certa
Quando tinha 3 anos, a minha tia-avó proclamou a sua independência, recusando 
categoricamente que lhe ligassem os pés e, por isso, rasgava decididamente as 
ligaduras assim que lhe eram colocadas. Nascera em Xangai (cidade à beira-mar), 
em 1886, durante a dinastia Qing, na época em que a China era governada pelo 
imperador-criança Kuang Hsu, que vivia lá muito ao norte na Cidade Proibida. 
Menina mimada da família, oito anos mais nova do que o meu avô,
~ Ye Ye, a tia-avó triunfou finalmente quando se recusou a comer e a beber até 
que os seus pés fossem, segundo as suas próprias palavras, "resgatados e 
libertados".
No final do século Fax, Xangai não tinha par entre as outras cidades da China. 
Constituía um dos cinco portos dos tratados abertos à GrãBretanha após a 
Primeira Guerra do Ópio, em 1842. Tornou-se, gradualmente, um intermediário 
gigante entre a China e o resto do mundo. Estrategicamente situada nas margens 
do rio Huangpu, 17 milhas acima do poderoso Yangtse, a cidade estava ligada por 
via marítima às pro
17
víncias ocidentais do interior. No outro extremo, mais para leste, o oceano 
Pacífico ficava apenas a uns 80 quilómetros de distância. A Grã-Bretanha, a 
França e os Estados Unidos da América estabeleceram concessões estrangeiras 

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dentro da própria cidade. E ainda hoje, por entre os novos arranha-céus, a 
arquitectura de Xangai reflecte a influência dos comerciantes estrangeiros. 
Algumas das grandes mansões, anteriormente residências de diplomatas e magnatas 
do comércio, ostentam a grandeza eduardina de qualquer casa senhorial nas 
margens do Tamisa, em Inglaterra, ou até mesmo o esplendor de uma vila no Loire,
em França.
O termo extraterritorialidade significava que, dentro das concessões 
estrangeiras, todos os súbditos, fossem eles estrangeiros ou chineses, eram 
governados pelas leis estrangeiras, não sendo abrangidos pela
aplicação das leis chinesas. Os estrangeiros possuíam o seu próprio governo 
municipal, polícia e tropas. Cada uma das concessões tornara-se uma cidade 
independente dentro da própria cidade: pequenos enclaves de solo estrangeiro 
situados nos portos abrangidos pelos tratados ao longo da linha costeira 
chinesa. A China era governada, não por leis escritas, mas por regulamentos 
provenientes de magistrados nomeados pelo imperador; tradicionalmente, os 
cidadãos viam estes mandarins como semideuses. Durante cerca de 100 anos (entre 
1842 e 1941), os Ocidentais foram vistos na China como seres superiores cujos 
desejos ultrapassavam mesmo os dos próprios mandarins. Os conquistadores brancos
eram tratados com reverência, temor e admiração pelo chinês médio.
Os casos legais eram julgados perante um magistrado chinês, presididos, porém, 
por um acessor consular estrangeiro com poder abroluto e a quem competia a 
decisão final. A população local sentia-se extremamente humilhada por lhe ser 
vedada a posse de ou mesmo o livre acesso a muitos dos sectores mais atraentes 
dentro da sua própria cidade. Discriminação, segregação e abusos coloriam a 
maior parte dos contactos inter-raciais, com os Ocidentais a considerarem os 
Chineses como inferiores e vencidos. De tudo isto emergia um amargo 
ressentimento.
A sul da Concessão Francesa de Xangai, o meu bisavô possuía uma casa de chá na 
velha cidade murada de Nantao. Estes bairros chineses, também designados por 
Cidade Velha, estavam apinhados de edifícios
baixos, pequenos mercados fervilhantes e pequenas alamedas salpica
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das de letreiros coloridos. O negócio era bem sucedido, apesar da competição dos
vendedores ambulantes, que transportavam os seus fogões com o auxílio de varas 
de bambu, vendas de berma de estrada e pequenos cafés de uma única sala. Quando 
a tia-avó tinha 7 anos, o pai mudou a casa de chá para um local mais na moda, 
situado na Concessão Internacional, resultado da fusão das Concessões Britânica 
e Americana. Nessa altura mudou-se com toda a família para uma casa situada a 
poucas ruas de distância, numa pacata zona residencial da Concessão Francesa.
Os Franceses construíam jardins, blocos de apartamentos, edifícios de 
escritórios e avenidas arborizadas, que baptizavam com os nomes dos dignitários 
franceses. Estas avenidas enchiam-se de cafés e automóveis importados, que 
coexistiam ao Lado de carrinhos de mão, riquexós e triciclos para transporte de 
passageiros. Xangai começou a ser conhecida como a Paris do Oriente, embora a 
tia-avó protestasse sempre que era a Paris que deveriam chamar Xangai da Europa.
Os irmãos mais velhos da tia-avó receberam pouca instrução, mas aprenderam a ler
e a escrever com um professor particular. Sendo a mais nova de cinco irmãos, a 
tia-avó foi o fruto de uma reflexão posterior. Quando chegou à idade escolar, o 
meu bisavô era já um homem próspero. Matriculou-a num estabelecimento de ensino 
caro e em voga na época, a McTyeire Christian Girls' School, dirigida por 
missionárias metodistas americanas. Foi ela a primeira criança da família Yen a 
receber uma educação estrangeira.

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Por essa altura Xangai tornara-se o centro do comércio e da indústria chineses. 
As oportunidades eram ilimitadas. O irmão mais velho da nossa tia-avó criara um 
negócio bem sucedido, ao produzir peças metálicas para riquexós, triciclos, 
bicicletas e alguns dos mais modernos electrodomésticos. Todavia, morreria ainda
novo, provavelmente de sífilis, uma vez que se deixara levar pelos três vícios 
mais comuns entre os Chineses naquela época: ópio, jogo e bordéis. As mulheres 
que dispunham de tempo para si próprias também jogavam e fumavam ópio, mas de 
uma forma mais discreta, nas suas próprias casas. O segundo irmão da tia-avó 
estabeleceu-se com um negócio promissor de importação e exportação de chá, mas 
também ele foi contaminado por uma doença venérea e, como tal, não pôde ter 
filhos. A outra irmã de ambos fez um casamento an-anjado, tendo morrido de 
tuberculose. O terceiro irmão da tia-avó, o meu avô Ye Ye, era meigo e 
tranquilo.
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Budista fervoroso, alto e magro, fazia tiradas poéticas e tinha maneiras gentis.
Não gostava do corte de cabelo manchu, obrigatório na época, que consistia em 
rapar a testa apanhando o resto do cabelo numa única e longa trança. Mesmo na 
sua juventude mantinha a cabeça rapada (a única alternativa permitida), usava um
chapéu redondo, ajustado à cabeça, e exibia um bigode rigorosamente aparado. 
Decidido a não seguir o caminho da ruína que os irmãos tinham levado, provou 
ser, de longe, mais capaz do que qualquer deles.
Durante o período em que foi aluna da McTyeire, a tia-avó desenvolveu uma paixão
pela equitação que a acompanharia ao longo de toda a sua vida. Tornou-se fluente
na língua inglesa, recebeu o baptismo cristão e travou amizades com ocidentais 
através da Igreja. Uma dessas amigas, membro da Associação contra os Pés 
Ligados, ofereceu-lhe um emprego como funcionária de escritório no departamento 
de poupanças do Banco de Xangai. Aí trabalhou durante vinte anos, tendo estudado
todos os aspectos da economia bancária. Ascendeu ao lugar de gerente da sua 
divisão.
A tia-avó nunca casou. Nesse tempo, a lei permitia ainda que as filhas fossem 
vendidas ou utilizadas como moeda de troca. A esposa era frequentemente tratada 
como uma escrava na casa do seu marido, especialmente perante a sogra. Se não 
fosse capaz de dar à luz um filho varão, uma ou várias concubinas eram trazidas 
para casa. O segundo casamento para os viúvos era considerado uma rotina, mas em
relação às viúvas era visto como falta de castidade. A maioria dos homens 
abastados frequentava habitualmente os bordéis, mas uma mulher que fosse infiel 
ao marido poderia ser punida com a morte.
Recordo-me da tia-avó como uma figura alta e imponente, tratada com grande 
estima por todos os membros da nossa família. Até Ye Ye e o próprio pai 
satisfaziam todos os seus desejos, o que era extraordinário numa sociedade onde 
as mulheres eram desprezadas. Por respeito, nós, as crianças, devíamos 
chamar-Ihe •~; ~~~ "Gong Gong", que significava tio-avô. Era prática comum as 
mulheres muito bem sucedidas assumirem, dentro do clã, o título masculino 
equivalente ao seu título feminino.
Com 1,67m de altura, aproximadamente, ela era apenas um pouco mais baixa do que 
Ye Ye. Direita, com uma postura digna, sem jamais ter tido os pés ligados, era 
uma presença admirável, que contrastava claramente com o solícito segundo plano 
característico das mulheres do
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seu tempo. O cabelo negro, cortado acima das orelhas, era penteado para trás, 
descobrindo uma testa suave acima de um rosto oval. Por detrás dos óculos 
redondos, com aros de metal pintados', uns grandes olhos penetrantes. Sempre 

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elegante, preferia os gipaos'- (vestidos chineses) de seda, escuros e de uma só 
cor, com colarinhos à mandarim e botões em forma de borboleta. De pele clara, 
tinha o nariz levemente salpicado de sardas. Aplicava habitualmente creme no 
rosto, íím pouco de roírge e um tudo nada de bâton, adornando as orelhas com 
brincos de jade ou pérolas cuidadosamente escolhidos. Movimentava-se com 
facilidade e uma graça atlética, montando a cavalo e jogando ténis depois de já 
ter entrado na casa dos 60. Guardo uma fotografia dela com um sorriso de 
confiança, montada num grande cavalo negro, vestida com uma blusa branca, 
gravata preta e calças de montar de bom corte.
Em 1924, a tia-avó fundou o seu próprio banco, o Shanghai Women's Bank. É 
impossível sobrestimar este seu empreendimento. Numa sociedade feudal, onde até 
a ideia de a mulher ser capaz de tomar as mais simples decisões do dia-a-dia era
motivo de troça (quanto mais de levar a cabo importantes negociações 
empresariais!), nessa mesma sociedade a coragem da tia-avó era algo de 
extraordinário.
A sua reputação era tão indiscutível, que ela conseguiu o financiamento para o 
seu banco sem encontrar dificuldades de maior. Emitiram-se acções, que foram 
compradas na sua totalidade. Todo o pessoal do banco era constituído por 
mulheres e organizado para responder aos requisitos das próprias mulheres. E 
elas foram surgindo: filhas solteiras, com as heranças e as poupanças que tinham
amealhado; primeiras mulheres (as chamadas grandes esposas), com os seus dotes e
o que tinham ganho a jogar mah jong'; concubinas (as chamadas pequenas esposas),
com presentes em dinheiro oferecidos pelos seus senhores; e outras mulheres, 
profissionais e instruídas, cansadas de serem amparadas em estabelecimentos 
dominados por homens. O Shanghai Women's Bank deu lucro desde o início e assim 
permaneceu até a tia-avó se ter reformado, em 1953.
Com os lucros obtidos empreendeu a construção de um edifício de seis andares 
para o seu banco, situado no n.° 480 da Rua de Nanquim,
2 Conforme o original. (1V. da T.)
' Jogo h~adicional chinês. (N. da T.)
que nos anos 20 e 30 era o mais prestigiado endereço empresarial na China. O 
banco localizava-se no centro nevrálgico da Concessão Internacional, adjacente 
aos maiores edifícios de escritórios e grandes armazéns, a cerca de 1500 metros 
do Bund (nome dado à Wall Street de Xangai), o famoso passeio junto ao rio, 
onde, nessa época, os Chineses não estavam autorizados a possuir propriedade 
horizontal. Todo o pessoal do banco vivia em confortáveis instalações nos 
andares mais elevados. Apenas os melhores materiais de construção foram 
utilizados. Instalaram-se elevadores e a mais moderna canalização, incluindo 
autoclismos, aquecimento central e água corrente quente e fria. A tia-avó 
ocupava um espaçoso apartamento no 6.° andar, que partilhava com uma amiga, Miss
Guang, conhecimento que travara através da igreja. Falava-se da relação entre 
ambas. Partilhavam o mesmo quarto e a mesma cama. Na China, a amizade íntima 
estabelecida entre mulheres solteiras era mal vista mas tolerada. Miss Guang, 
nascida em 1903, tinha dinheiro e era um dos maiores investidores da tia-avó. 
Tornou-se vice-presidente do banco. Mais tarde, a tia-avó adoptou uma filha. 
(Esta era uma prática comum em mulheres com meios, mas sem filhos, exigindo 
poucas formalidades.) O pessoal da casa era constituído por três criadas, um 
cozinheiro e um motorista. Recebiam muito. Muitas transacções eram negociadas 
durante o almoço, ao sabor de uma boa sopa de barbatana de tubarão, no 
apartamento da tia-avó.
Aos 26 anos, o terceiro irmão mais velho da tia-avó, o meu Ye Ye, contraiu um 
casamento arranjado através de uma mei por (casamenteira chinesa). A minha avó, 

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então com 15 anos, provinha de uma importante família' de Xangai. O casamento de
ambos foi um casamento men dang her fluis (a porta certa encaixa na ombreira da 
casa certa). Do outro lado da rua onde estava instalada a casa de chá do meu 
bisavô, o pai da noiva possuía uma pequena ervanária, cheia de folhas secas, 
raízes, pó de chifre de rinoceronte, haste de veado, vesícula de cobra seca e 
outras poções exóticas. Os noivos viram-se pela primeira vez no dia do seu 
casamento, em 1903.
Na véspera do casamento, a avó foi chamada à presença do pai. - Amanhã passarás 
a pertencer à família Yen - ouviu ela. - A partir de agora, esta já não é a tua 
casa e não poderás entrar em contacto
connosco sem autorização do teu marido. O teu dever é agradar ao teu esposo e 
aos teus parentes. Dá-lhe muitos filhos. Esconde os teus próprios desejos. 
Torna-te para os Yen o seu pote de cuspir e o seu bacio e sentiremos orgulho em 
ti.
No dia seguinte, uma noiva trémula, vestida de seda vermelha e de rosto coberto 
por um véu também de seda vermelha, foi depositada em casa da sua futura 
família, numa cadeirinha de seda vermelha e dourada , -previamente alugada numa 
loja especializada em casamentos e funerais- onde estavam pintados a fénix e o 
dragão. O cortejo do casamento foi colorido e bamlhento, ladeado de lanternas 
vermelhas, bandeiras, ao som das trombetas e do troar dos gongos. Constituía um 
ponto de honra para as famílias delapidarem o que tinham nestas ocasiões. 
Contudo, no caso dos meus avós, os amigos e parentes ofereceram inúmeros 
presentes de casamento, entre os quais se contavam grandes prendas em dinheiro 
para que pudessem fazer face às despesas.
Os receios da noiva não tinham razão de ser, pois Ye Ye provou ser meigo e 
atencioso. Por insistência dela, o casal quebrou a tradição e abandonou a casa 
da família Yen, mudando-se para uma casa própria, alugada na Concessão Francesa.
Autodidacticamente, a avó dedicou-se ao estudo da matemática e daí tirava grande
proveito nos jogos diários de mah-jong. Lembro-me dela como um espírito sagaz, 
com uma vontade de ferro, uma fumadora inveterada, de pés ligados, cabelo curto 
e uma língua cortante.
Aos 3 anos de idade, os pés da avó tinham sido fortemente apertados com 
ligaduras longas e estreitas, que comprimiam os quatro dedos menores por debaixo
da planta do pé, de tal modo que apenas o dedo grande se estendia. Estas 
ligaduras eram apertadas diariamente durante anos, esmagando dolorosamente os 
dedos e impedindo permanentemente o crescimento do pé, por forma a obter-se um 
pezinho minúsculo, tão do agrado do homem chinês. Na realidade, as mulheres eram
deliberadamente deformadas e a sua incapacidade para andarem com facilidade 
simbolizava tanto a subserviência como a riqueza da própria família. Os pés da 
avó foram, durante toda a sua vida, a causa de muitas dores. Mais tarde preferiu
enfrentar o ridículo aos olhos da sociedade a infligir à sua própria filha o 
mesmo sofrimento.
Os meus avós vieram a amar-se e tiveram sete filhos, uns a seguir aos outros. De
todos eles, só os dois mais velhos sobreviveram. A tia Baba, nascida em 1905, e 
o meu pai, que veio ao mundo dois anos mais tarde.
23
A 10 de Outubro de 1911, na altura em que a tia Baba tinha 6 anos, a dinastia 
manchu viu chegar o seu fim. O Dr. Sun Yat Sen, chefe dos revolucionários 
chineses, regressou a Xangai, vindo do exílio, triunfal mente aclamado no dia de
Natal desse mesmo ano. Foi nomeado presidente da República da China e um dos 
seus primeiros actos foi abolir o costume de ligar os pés das mulheres.
Ye Ye sustentava a família através da compra e aluguer de uma pequena frota de 

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sampanas 6 que cruzavam a superfície do rio Huangpu no bulício das águas de 
Xangai. As mercadorias eram transportadas de e para o interior da China, para 
serem depois carregadas nos cargueiros transoceânicos ancorados em frente do 
Bund. Ye Ye nunca jogava e jamais gastava o seu dinheiro em bordéis ou em ópio. 
Quando chegou aos 40 anos, já tinha acumulado uma riqueza considerável. Foi 
então abordado pelo jovem K. L. Li, o dinâmico proprietário de uma prometedora 
companhia de importação-exportação - a Hwa Chong Hong -, para que se tornasse 
gerente da companhia em Tianjin, uma cidade portuária a cerca de 1600 
quilómetros a norte de Xangai.
O certo é que Ye Ye tinha um segredo: enjoava sempre que viajava de barco e 
detestava pôr um pé que fosse nas suas próprias sampanas. Assim, e apesar de o 
seu próprio negócio estar em franco desenvolvi mento, decidiu vendê-lo e 
mudar-se para o Norte, deixando para trás a família, pois a tia Baba e o pai 
frequentavam ambos aquelas que eram consideradas das melhores escolas 
missionárias católicas na China e ele não desejava de modo algum perturbar-lhes 
os estudos.
6
Pequena embarcação chinesa usada no transporte de passageiros ou carga. (N. da 
T.)
2
Dian Tie Cheng Jin Transformar ferro em ouro
No ano de 1918, quando Ye Ye se mudou para ~ ;~ Tianjin (ou Átrio Celeste), o 
último imperador da dinastia Qing havia sido destituído e a China dividira-se em
pequenos feudos governados por senhores. Ao norte, o Japão tinha já a Coreia sob
controlo e voltava agora os olhos para a China. Na Conferência de Paz de 
Versalhes, no fim da primeira guerra mundial, o Japão recebera autorização da 
Grã-Bretanha e seus aliados para ficar com as colónias alemãs na província de 
Shandong, como recompensa por ter mantido a neutralidade. Assim encorajado, o 
Japão iniciava a sua marcha em direcção à Manchúria. Os soldados japoneses 
infiltraram-se depois no Sul, em direcção a Tianjin.
Situada nas longas e férteis planícies do Nordeste, Tianjin era o segundo maior 
porto dos tratados. Fora aberto ao comércio após a segunda derrota da China pela
Grã-Bretanha (e França) durante a Segunda Guerra do Ópio, em 1858. O Tratado de 
Tianjin acrescentara dez novos portos entre a Manchúria e Taiwan. A cidade 
enfermava de
24
25
Verões quentes e secos e de Invernos extremamente gelados. Em terreno plano, 
cruzado por diversos braços fluviais do rio Huai, era também dada a inundações. 
Entre Novembro e Março os rios estavam gelados e, ocasionalmente, havia 
tempestades de areia. Enquanto a arquitectura em Xangai reflectia 
primordialmente as influências inglesa e francesa, os edifícios de Tianjin 
formavam um espantoso caleidoscópio de estilos arquitectónicos, que eram em si 
mesmos a imagem dos países aliados na derrota da imperatriz Tsu Hsi durante a 
Revolta Boxer, em 1903. Além de edifícios de escritórios de traça vitoriana e de
igrejas francesas, havia também dachas russas, um castelo prussiano, vilas 
italianas, casas de chá japonesas e chalés alemães e austro-húngaros, todos eles
situados em concessões separadas, que se sucediam umas às outras, acompanhando a
curva do rio. Mais uma vez Ye Ye voltou a escolher a sua casa na Concessão 
Francesa, um enclave em forma de língua, espartilhado entre os Japoneses ao 
Norte, os Britânicos ao Sul e os Russos do outro lado do rio. A área da 
concessão estava cuidadosamente arranjada, com avenidas arborizadas, linhas de 

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Adeline_Yen_Mah_-_FOLHAS_CAIDAS

eléctricos, uma imponente igreja católica, escolas missionárias e alegres 
espaços verdes.
Entretanto, nunca os negócios tinham corrido tão bem. Tanto Tianjin como Xangai 
prosperavam. Dinheiro britânico, americano, europeu e japonês voltava a entrar 
na China com o final da primeira guerra mundial. Aço e cimento substituíam as 
anteriores estruturas vitorianas ao longo do rio. As fábricas surgiam nas áreas 
industriais para a produção têxtil em lã e algodão, tapetes, vidro, cimento, 
ladrilhos, papel, sabão, fósforos, pasta de dentes, farinha e outros produtos 
alimentares. Sob a gestão de Ye Ye, a Hwa Chong Hong conheceu a prosperidade. E 
ficou mesmo encantado quando verificou que o bónus que tradicionalmente lhe era 
concedido pela altura do Ano Novo chinês excedia largamente o seu salário anual.
Para celebrar a sua prosperidade, amigos e colegas de trabalho instavam-no a 
tomar uma concubina que o "servisse". Até o próprio patrão de Ye Ye, K. C. Li, 
que estudara em Londres, se prontificou alegremente a "oferecer-lhe" algumas 
raparigas juntamente com o seu bónus. De tudo isto Ye Ye deu parte à mulher numa
carta escrita com grande naturalidade, acrescentando ternamente que era um 
"homem de uma só mulher".
Pouco tempo depois de ter recebido esta carta, a avó e a tia Baba, então com 15 
anos, apressaram-se a ir ter com ele a Tianjin, deixando
26
para trás o meu pai, na altura com 13 anos, ao cuidado da minha tia-avó. A tia 
Baba recebeu instruções para deixar de estudar, pois os grandes estudos eram 
considerados prejudiciais ao bom casamento de uma jovem. Confúcio tinha afirmado
que "apenas as mulheres ignorantes eram virtuosas".
O pai ficou em Xangai e continuou a frequentar Chen Tien, uma escola católica 
para rapazes. O seu inglês era excelente e Ye Ye aconselhou-o a não deixar o 
óptimo professor que tinha na época, um missionário irlandês. O pai viveu com a 
tia-avó até ao final dos seus estudos secundários, cinco anos mais tarde. 
Durante esse tempo converteu-se ao catolicismo, recebendo o nome de Joseph. 
Desenvolveu também uma estreitâ relação com a tia-avó, que se tornou para ele um
exemplo a seguir.
Quando terminou o liceu, em 1924, o pai decidiu não ir para a universidade. 
Juntou-se à família em Tianjin e arranjou um emprego de paquete num escritório 
na firma Hwa Chong Hong, sob a supervisão de Ye Ye. Apesar de receber um magro 
salário e de ocupar um lugar sem qualquer importância, o pai afirmaria mais 
tarde ser essa a melhor educação para um adolescente inteligente e sem qualquer 
experiência. Aprendeu então na prática tudo o que se relacionava com o negócio 
de importação-exportação. Devido à sua fluência em inglês, K. C. Li depressa 
entregaria ao pai toda a correspondência da firma que era necessário redigir e 
traduzir.
O pai comprou uma máquina de escrever em segunda mão e muitas vezes, já em casa,
a seguir ao jantar, escrevia importantes cartas de negócios, com toda a família 
apinhada em redor da mesa de jantar na maior admiração. Certa vez, Ye Ye 
perguntou em voz alta como reagiriam os chefes dessas importantes companhias se 
algum dia descobrissem que documentos da maior importância e que valiam centenas
de milhares de taéis de prata estavam a ser martelados com um só dedo por um 
rapaz de 18 anos acabado de sair do liceu.
A Hwa Chong Hong desenvolveu relações lucrativas com importantes companhias 
farmacêuticas, incluindo a firma alemã Bayer. Grandes quantidades de uma planta 
chinesa chamada ma huartg' eram adquiridas pela Hwa Chong Hong para exportação. 
A mesma planta fora utilizada por ervanários chineses durante séculos no 
tratamento da

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Adeline_Yen_Mah_-_FOLHAS_CAIDAS

Conforme o original. (N. da T.)
27

asma e do mal-estar. Provavelmente, os cientistas ocidentais identificaram e 
extraíram a componente-chave da planta, a efedrina. Esta era então reimportada 
pela China na sua forma mais pura, para ser finalmente vendida nas farmácias de 
medicina ocidental.
Entretanto, fora das concessões estrangeiras, a presença militar japonesa em 
Tianjin tornava-se cada vez mais forte. Cruéis e bem armados, os soldados 
japoneses eram a lei e tratavam os Chineses com desprezo. A prosperidade da Hwa 
Chong Hong não passou despercebida aos Japoneses. A sede da companhia situava-se
no exterior da Concessão Francesa e, como tal, não era protegida pela lei 
francesa. K C. Li era insistentemente convidado a "colaborar". Não existiam 
ordens formais, apenas ameaças vagas que apontavam para a necessidade de 
"protecção contra elementos criminosos". Durante uma "visita" de rotina 
efectuada pelos inspectores japoneses, os empregados de K. C. foram 
indiscriminadamente espancados por não mostrarem respeito suficiente pelas 
fotografias do imperador do Japão existentes em jornais velhos, que eram 
cortados e usados como papel higiénico. K. C. apercebeu-se de que a situação 
poderia explodir a qualquer momento. Em vez de ceder à repressão japonesa, 
decidiu abandonar Tianjin.
O pai não seguiu a Hwa Chong Hong. Em vez disso, aos 19 anos, em 1926, iniciou a
sua própria firma dentro da Concessão Francesa de Tianjin: a Joseph Yen & 
Company.
Ye Ye acreditava de tal modo na oportunidade do negócio do pai que investiu 
todas as suas economias - cerca de 200 000 taéis de prata (o equivalente a mais 
de 1 milhão de dólares americanos em moeda actual) - na firma criada pelo seu 
filho. Ye Ye demitiu-se da Hwa Chong Hong e tornou-se o director financeiro da 
nova empresa. Não houve assinatura de contratos formais entre pai e filho. 
Também não ficou claro se o dinheiro investido era uma oferta ou um empréstimo. 
Todavia, Ye Ye tinha poder para assinar todos os cheques da companhia e 
conseguiu arrancar do pai uma promessa verbal de que olharia por todos os 
membros da família e pagaria todas as despesas, incluindo o dote da tia Baba, no
caso de ela vir a casar. Por esta altura a minha tia tinha já deixado Tianjin e 
estava a viver em Xangai. O banco da tia-avó, acabado de abrir, prosperava. 
Havia uma necessidade urgente de empregadas de confiança e a tia Baba foi 
enviada para trabalhar no banco.
A companhia fundada pelo pai prosperou desde o início, agarrando a maioria dos 
negócios deixados para trás pela Hwa Chong Hong.
28
A exportação de ma huang continuou e o mesmo aconteceu com a de sementes de noz,
chapéus de palha, cera para velas, cerda de porco e frutos secos; no ramo das 
importações contavam-se as bicicletas e os produtos farmacêuticos. Numa 
atmosfera de turbulência política e de uma presença japonesa cada vez mais 
dominante, muitos negócios surgiam no mercado a preços extremamente baixos e a 
companhia do pai expandiu-se rapidamente através da compra de acções. Em breve 
adquiria uma serração, uma fábrica de tecelagem e uma linha de montagem de 
acessórios para bicicletas. O pai conseguiu manter a lealdade do pessoal que 
estava em postos-chave através de incentivos sob a forma de acções das suas 
novas companhias. A tia-avó e o seu banco desempenharam um papel crucial no 
êxito inicial dos negócios do pai e no seu rápido desenvolvimento. Era ela quem 
tinha os contactos em Tianjin, entre os quais o gerente da sucursal local do 

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Banco de Xangai. Com a sua ajuda, a Joseph Yen & Company conseguiu emitir letras
de crédito no valor de meio milhão de dólares americanos garantidos pelo Women's
Bank, da tia-avó. O acordo que tinham entre ambos era a divisão dos lucros 
líquidos depois de deduzidas as despesas, na proporção de 70/30 a favor do pai. 
Centenas de milhares de taéis de prata mudavam de mãos a cada transacção 
efectuada. Todos os negócios davam lucro e em três anos nunca sofreram prejuízo.
O pai começou a ser conhecido no mundo dos negócios como o "rapaz maravilha" que
possuía o dom milagroso de dian tie cheng fin (transformar ferro em ouro).
As casamenteiras movimentavam-se à volta do jovem magnata. Contudo, com a mesma 
altivez que lhe trouxera vantagens nos negócios, declarava que não havia 
rapariga em Tianjin que não fosse tristonha e provinciana. Mostrava assim 
preferir o brilho e a sofisticação das jovens de Xangai.
29
3
Ru ying sui xing
Inseparáveis como a própria sombra
No final dos anos 20 Xangai era uma cidade inebriante para uma jovem como a tia 
Baba. Enquanto no resto da China se viajava ainda em carroças, cadeirinhas e 
canoagens puxadas por cavalos, em Xangai os automóveis importados corriam as 
avenidas pavimentadas ao lado de eléctricos e autocarros. Placares gigantes e 
coloridos anunciavam cigarros britânicos, filmes de Hollywood e produtos de 
beleza franceses ao longo de passeios apinhados de jovens de fato e gravata e de
raparigas de sapatos de salto alto vestidas com gipaos cheios de estilo. O Bund,
muito próximo do Women's Bank, na Rua de Nanquim, transformara-se num cenário de
edifícios majestosos que acompanhavam a margem do rio Huangpu. Barcos de guerra,
vapores, sampanas e rebocadores engrinaldavam as águas lamacentas. Armazéns de 
vários andares, como o Sincere, Wing-On, Dai-Sun e Sun-Sun, transbordavam de 
peles, jóias, brinquedos, artigos de casa, ornamentos e artigos que constituíam 
o último grito da moda parisiense. Suficientemente gran
30
des para rivalizarem com o Selfridges, de Londres, ou o Macy's, de Nova Iorque, 
estes empórios faziam saldos de fim de estação, distribuíam cupões e prémios e 
chegavam a realizar concertos e representações teatrais nos jardins dos seus 
terraços.
A tia Baba tornou-se amiga de uma rapariga um ano mais nova do que ela e que 
trabalhava no novo departamento de contabilidade. Miss Ren Yong-ping tinha a 
capacidade de efectuar de cabeça complicadas conversões cambiais com uma 
precisão e velocidade espantosas. Mesmo quando a tia-avó verificava os cálculos 
com o ábaco, chegava à conclusão de que ela nunca-se enganava. Brilhante, 
bem-disposta e cheia de vida, o sorriso fácil e meigo tornava-a atraente.
Miss Ren era oriunda de uma família da classe média de Xangai que lutara para 
singrar na vida depois do pai, um empregado dos correios, se ter viciado no ópio
e haver passado os últimos vinte anos da vida com o espírito nublado pela droga.
Única rapariga, tinha três irmãos mais novos, dois dos quais trabalhavam também 
nos correios, tendo chegado ao lugar de inspectores. Ela própria foi rapidamente
promovida pela tia-avó a chefe do novo departamento de contabilidade.
A trabalhar nos pisos inferiores e passando o seu tempo livre no dormitório, as 
duas raparigas depressa se tornaram grandes amigas. A tia Baba recorda-se de uma
altura em que ela e Miss Ren almoçaram sozinhas no restaurante dos armazéns 
Sincere, ao tempo conhecido como o "Harrod's de Xangai", porque o edificio era 
muito semelhante ao dos famosos armazéns londrinos. As duas amigas chamaram 
riquexós que as transportaram ao longo da movimentada Rua de Nanquim, onde os 

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semáforos eram controlados manualmente por polícias Sikh de turbantes vermelhos,
instalados em pequenas cabinas localizadas no topo de postes, cerca de três 
metros e meio acima do chão. O restaurante era elegante, as mesas tinham toalhas
brancas, flores naturais e copos de cristal. Nos menus havia apenas pratos 
ocidentais, desconhecidos de ambas. Não havia comida chinesa.
Um pouco intimidadas pelo empregado de mesa de fato escuro, perguntaram a medo 
se havia um prato do dia. Informada de que havia re gous (carne de cão, servida 
quente), a tia Baba não se atrapalhou muito. Já tinha ouvido dizer que em 
algumas províncias chinesas a carne de cão era considerada uma iguaria. Miss 
Ren, porém, estava
3
Ru Ying Sui Xing Inseparáveis como a própria sombra
a Conforme o original. (1V. da T.)
31
muito mais hesitante, porque se lembrava do cão que havia em casa da família. 
Muito despachada, observou que o "prato do dia" significava geralmente "restos 
do dia anterior".
O empregado estava a ficar impaciente. Era um daqueles chineses que tinham 
adoptado a arrogância dos estrangeiros e preferia servir à mesa quando os seus 
clientes eram brancos das concessões. Naquela ocasião, as duas raparigas eram as
únicas chinesas no restaurante. Começaram a sentir-se como duas simplórias e, 
mais para se verem livres do empregado do que por qualquer outro motivo, pediram
a carne de cão. A tia Baba foi agradavelmente surpreendida por uma salsicha, 
servida no pão, e comeu-a com apetite. Para Miss Ren, contudo, era impossível 
deixar de pensar no cãozinho que tinha em casa e não conseguiu passar da 
primeira dentada. Riram-se com gosto quando, finalmente, a tia-avó lhes explicou
que ~h ~~ re gott "carne de cão, servida quente" era, na realidade, o clássico 
cachorro quente americano.
Numa das inúmeras viagens de negócios que o pai fazia a Xangai, ao Women's Bank,
foi apresentado a Miss Ren. ~~• r~ ~ ~, Xiao giao lirtg loatg (pequenina, viva e
interessante) foi o veredicto do pai. Começaram a escrever-se. Cinco meses mais 
tarde estavam casados. Houve um enorme banquete oferecido no Restaurante Xin Ya 
(Nova Ásia), situado na Concessão Internacional, logo à saída da Rua de Nanquim.
Além dos familiares directos, foram convidados parceiros comerciais do pai e da 
tia-avó. Corria o ano de 1930.
O pai levou a noiva para Tianjin e comprou uma casa grande no n.° 40 da Rua 
Shandong, comodamente situada no centro da cidade da Concessão Francesa e muito 
perto de um jardim público. Do outro lado da rua situava-se o colégio católico 
masculino de St. Louis.
Foi um casamento feliz e em quatro anos tiveram quatro filhos. O jovem casal era
~¿u pi ~~s rtt yitag sui xing (inseparável como a própria sombra). Primeiro 
nasceu uma menina. O bebé era grande e a Dr.a Mary Mei-ing Ting, obstetra, teve 
de usar o fórceps durante um parto difícil. Foi necessário fazer força e o bebé 
(Jun-pei, a minha irmã mais velha) nasceu com o braço esquerdo parcialmente 
paralisado. Nasceram depois três filhos (Zi-jie, Zi-lin e Zi-jun). Passaram-se 
três anos antes que eu, Jun-ling, viesse ao mundo.
A casa onde vivia a nossa família era espaçosa, tinha dois andares e ainda um 
grande sótão, onde os criados dormiam. Com as suas

32
janelas em arco, varandas, um alpendre encantador e um bonito jardim, era 

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considerada ultramoderna, pois possuía casas de banho com autoclismo, água 
corrente e aquecimento central. Este último constituía o maior dos luxos: muitas
casas chinesas eram ainda aquecidas através de tijolos quentes, a que se dava o 
nome de kangs9.
O pai transformou o piso térreo em escritórios para alguns elementos do seu 
pessoal. O resto da família vivia com Ye Ye e a avó no 2.° andar. Sete criados 
cuidavam da vida doméstica. O pai comprou um grande Bttick preto para seu uso 
pessoal e um riquexó preto para a avó utilizar nas visitas aos amigos ou quando 
ia jogar mah jong.
Muitas vezes a tia Baba apanhava o comboio de Xangai para Tianjin - uma viagem 
que naqueles tempos demorava dois dias - e fazia longas visitas. O pai e a mãe 
iam buscá-la à estação no Buick e os três passavam horas a pôr a conversa em 
dia, tagarelando sobre as últimas novidades de Xangai ou sobre os últimos 
triunfos comerciais da tia-avó. Saíam para comer fora, ir ao cinema ou à ópera 
chinesa. Segundo a tia Baba, foi um tempo idílico para todos eles.
Na altura em que nasceram os meus três irmãos, a obstetra da mãe, a Dr.a Ting, 
era já quase um membro da família. Tal como a tia-avó, que tinha sido sua colega
de escola e amiga de infância, também ela tinha sido educada em Xangai, no 
colégio McTyeire. Convertera-se ao cristianismo e aos 15 anos fora rapidamente 
empurrada para um casamento arranjado. O noivo provinha de uma família rica, mas
estava já nessa altura doente, tinha acessos de dores e era viciado no ópio. No 
dia do casamento, a noiva desapareceu como que por encanto. Os pais foram 
processados e obrigados a pagar à família do noivo um elevado número de taéis de
prata como forma de compensação pela quebra da promessa, para além de terem 
perdido a face. Com a ajuda de um tio, Mary escapara para Hong-Kong, onde 
prosseguiria os estudos numa outra escola missionária. O tio de Mary seguiu-a 
para Hong-Kong, cortou a trança e enviou-a à família em Xangai em gesto de 
desafio. Tratava-se de um crime grave que correspondia a uma declaração pública 
de rebelião contra o imperador Qing. (Depois de os Manchus terem conquistado a 
China, em 1644, tinham imposto o uso de testa rapada e trança a todos os 
chineses, vincando assim o seu domínio). Mary e o tio foram ambos deserda

' Conforme o original. (N. da T.)
33
dos. Em Hong-Kong ele empregou-se para pagar os estudos de Mary. Mais tarde, ela
obteve uma bolsa para a Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan e 
especializou-se em Ginecologia e Obstetrícia. De regresso à China, preferiu 
estabelecer-se em Tianjin em vez de Xangai, onde a perseguiam recordações 
dolorosas. Fundou o seu Women's Hospital e tornou-se a melhor obstetra da 
cidade. A minha irmã e os meus três irmãos mais velhos nasceram todos no 
hospital da Dr.a Ting.
Quando a minha mãe ficou à espera de mim própria, a situação política na China 
tinha-se deteriorado drasticamente. Em 1928 o senhor da guerra manchu, Chang 
Tso-lin, foi assassinado pelos Japoneses enquanto viajava de comboio na sua 
carruagem privada. Nos anos seguintes a Manchúria seria invadida por soldados 
japoneses. Em 1932 estabeleceu-se um regime fantoche (Manchukuo ou Nação dos 
Manchus) sob o imperador Puyi, então uma criança. Os Estados Unidos recusaram um
envolvimento directo. A Grã-Bretanha voltou as costas e recomendou um acordo. A 
Liga das Nações prometeu investigar. Chiang Kai-shek, comandante-chefe do 
exército e chefe do Partido Nacionalista (Kuomitang), estava totalmente ocupado 
no combate aos comunistas; estes, por seu lado, tinham formado um exército 
próprio e um governo na cidadela rural de Yan'an, na região noroeste da China. 

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Animado, o Japão decidiu lançar um ataque em grande escala a Tianjin e Beijing 
em Julho de 1937. Foi este o início da Guerra SinoJaponesa, que durou oito 
longos anos.
Havia soldados japoneses por todo o lado, usando máscaras cirúrgicas, carregando
baionetas, exigindo vénias e obediência, aceitando subornos e ameaçando com 
violência. As concessões estrangeiras
mantiveram-se neutras, pequenos paraísos de independência instável num vasto mar
de terror japonês. O restante território de Tianjin vivia agora sob a enorme 
vaga de pavor dos Japoneses. Ao anoitecer havia black-outs e recolher 
obrigatório. Para cruzar determinados pontos durante a noite eram necessárias 
autorizações especiais, principalmente nas ruas e pontes que ligavam as 
concessões às áreas patrulhadas por japoneses.
A minha mãe entrou em trabalho de parto às 4 da manhã do dia 30 de Novembro de 
1937. O pai não tinha a autorização necessária para que ela atravessasse os 
postos de controlo japoneses em direcção ao
Women's Hospital. No entanto, a Dr.a Ting possuía um passe que lhe
34
permitia viajar livremente durante a noite. O seu Ford preto, conduzido por um 
motorista e ostentando uma bandeirinha dos Estados Unidos, chegou a casa dos 
meus pais uma hora mais tarde. Nasci sem novidade de maior.
A Dr.a Ting aconselhou o pai a transferir a mãe e o bebé para o seu hospital 
para um check-crp e alguns dias de descanso. O pai hesitou. O nascimento tinha 
sido tão suave e rápido que considerou a medida desnecessária. Também rejeitou o
conselho da Dr.a Ting para contratar uma enfermeira que cuidasse da minha mãe. 
Achava que ele próprio podia olhar por ela, com a preciosa ajuda da tia Baba, 
que, nessa altura, estava de visita. Além disso, as enfermeiras com experiência 
eram dispendiosas. À cabeceira da mãe foi colocada uma campainha especial para 
que pudesse chamar o pai sempre que precisasse. A mãe estava fraca e por isso, 
em vez de utilizar a casa de banho do corredor, era mais fácil colocar-lhe uma 
arrastadeira. Depois o pai vinha limpá-la com uma toalha, sem luvas e sem lavar 
previamente as mãos. A mãe achava que o pai sabia o que estava a fazer. O pai 
estava convencido de que sabia o que estava a fazer.
Três dias depois do meu nascimento começaram as dores de cabeça e a febre. A 
temperatura da mãe subiu acima de 40°C e aí ficou. Os lábios estavam ulcerados. 
O raciocínio turvou-se e ela tornou-se incoerente. A Dr.a Ting fez o 
diagnóstico: febre puerperal. Nesse tempo, quando a penicilina ainda não 
existia, este diagnóstico equivalia a uma sentença de morte.
A minha mãe deu entrada imediata no Women's Hospital. Puseram-na a soro e, por 
via intravenosa, administraram-lhe diversos medicamentos, numa tentativa 
desesperada para a salvar. A temperatura subiu a 41°C. Delirava, recusava todo o
tipo de alimentos e bebidas, tentou arrancar todos os tubos, proferindo 
acusações cruéis cóntra a Dr.a Ting, afirmando que estava a tentar prendê-la e 
envenená-la. A médica compreendeu que não havia qualquer esperança e autorizou 
que fosse para casa, para morrer.
O seu estado agravou-se. Os médicos vieram, uns após outros, mas em vão. Uma 
nuvem negra pairava sobre toda a família.
Com a aproximação do fim veio também um curto período de lucidez. Com o pai em 
lágrimas à cabeceira, ela falou aos seus sogros, observou as crianças uma por 
uma, chamando-as pelo nome com saudade. Quando a tia Baba se veio despedir, a 
mãe estava fraca,

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mas perfeitamente lúcida. Sorriu-lhe e pediu-lhe um cachorro quente. Depois 
acrescentou tristemente:
- O meu tempo chegou ao fim. Quando eu me for embora, por favor, olha por esta 
nossa amiguinha, que nunca conhecerá a mãe. A minha mãe morreu duas semanas 
depois de eu ter nascido, com cinco médicos à cabeceira. Tinha apenas 30 anos e 
não sei sequer como era o seu rosto. Nunca vi o seu retrato.
36
4
Xiu Se Ke Can Encantos suficientemente surpreendentes para uma festa

Após a morte da minha mãe, a avó e o pai convenceram a tia Baba a deixar o seu 
emprego no Women's Bank para ir para Tianjin tomar conta da casa. Foi assim que 
foi incluída na lista de pagamentos da Joseph Yen & Company, recebendo um 
salário igual ao que tinha quando trabalhava para a tia-avó. A tia Baba 
apressava os criados e resmungava com eles, assegurando que as lides domésticas 
decorressem conforme as directivas de outrora. Tornou-se uma mãe substituta, 
preocupada com as nossas refeições, roupas, a escola e a saúde. Assim, à volta 
dos seus pulsos voluntariosos foram colocadas como que umas algemas de seda, que
inviabilizaram todas as hipóteses de um casamento e da criação da sua própria 
família. Nesse tempo, na China, esperava-se que as mulheres sublimassem os seus 
desejos ao bem-estar da sua família. Em troca, os homens assumiam o compromisso 
de honra de as proteger e sustentar até ao fim da vida.
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As casamenteiras voltaram a surgir, não por causa da tia Baba, mas por causa do 
seu irmão, que acabara de enviuvar. Dois padrões diversos abrangiam homens e 
mulheres: as raparigas que ainda estivessem solteiras aos 30 anos deveriam 
permanecer como tal para o resto da vida, ao passo que dos homens se esperava 
que tomassem pelo menos uma esposa, independentemente da idade que tinham. O pai
tinha acabado de fazer 30 anos e dirigia a sua própria companhia, possuía 
propriedades, investimentos e os seus muitos negócios floresciam. Trabalhara 
arduamente para conseguir chegar onde chegara, colocando os negócios e o 
bem-estar da família à frente da sua realização pessoal. Agora estava decidido a
agradar a si próprio.
Um domingo à tarde, de passeio pela vizinhança com os filhos no vistoso Buick 
que possuía, avistou a sua secretária, Miss Wong, à porta de um modesto complexo
de apartamentos a conversar com uma amiga.
Reparou de imediato que se tratava de uma amiga muito jovem e que possuía xiu se
ke can (encantos suficientemente surpreendentes para uma festa).
Jeanne Virginie Prosperi tinha 17 anos e era filha de pai francês e mãe chinesa.
Os seus traços eram uma admirável mistura de delicadeza chinesa com sensualidade
francesa. Com o rosto oval, tinha a tez de um branco-porcelana, olhos escuros, 
grandes e brilhantes, completados por longas sobrancelhas. O rosto era coroado 
por uma cabeleira espessa e sedosa cor de azeviche. Naquele dia, aquela figura 
esguia usava uma simples blusa branca de decote quadrangular arredondado e saia 
azul-escura atada por um laço à cintura. Mais tarde, o pai viria a descobrir que
Jeanne era uma costureira exímia e que confeccionava as suas próprias roupas.
No dia seguinte, no escritório, o pai fez algumas perguntas discretas a Miss 
Wong e descobriu que Jeanne era sua colega de escola e tinha justamente começado
a trabalhar como dactilógrafa no consulado francês. Durante a hora do almoço 
dirigiu-se ao consulado sob pretexto de solicitar licenças de 
importação-exportação para França, encontrou-a e travou conhecimento com ela.
O pai de Jeanne fora militar no exército francês e trabalhara na construção dos 

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caminhos-de-ferro na China. Desposara uma mulher da província de Shandong. 
Tinham tido cinco filhos e pas
sado tempos difíceis. Ele deixara o exército e arranjara trabalho como segurança
numa firma da Concessão Francesa em Tianjin. Fale
cera subitamente em 1936, ao que parece, quando tentava impedir uma rixa de bar.
A viúva fez o melhor que pôde. Recebia uma pequena pensão de viuvez. Juntamente 
com uma irmã solteira, Lao Lao, dedicou-se à costura a fim de conseguir 
sustentar-se. Cidadãos franceses, as cinco crianças receberam bolsas de estudo 
especiais, atribuídas pelas escolas missionárias dentro da Concessão Francesa. 
Tanto Jeanne como a sua irmã mais velha, Reine, receberam o diploma da St 
Joseph's Catholic School for Girls, um colégio de freiras franciscanas.
Embora Jeanne não tivesse um estatuto social digno de nota, formara-se no melhor
colégio religioso de Tianjin, tendo adquirido alguns dotes que lhe permitiam 
brilhar socialmente. Além de mandarim, falava fluentemente francês e inglês. O 
pai ficou encantado com a sua beleza e o seu estilo. O facto de ter sangue 
europeu fazia dela um troféu que tinha de ser conquistado, aplaudido e exibido.
Durante os anos 30, nos portos dos tratados como Tianjin e Xangai, tudo o que 
era ocidental era considerado superior àquilo que era chinês. Uma esposa 
europeia jovem, bonita e instruída representava o nível máximo em termos de 
estatuto social. Jeanne Prosperi possuía, assim, um encanto considerável. Estava
sempre perfeitamente arranjada, uma característica que manteve ao longo de toda 
a sua vida. Ainda adolescente, mostrava todo o encanto da modéstia que lhe fora 
instigada no convento. Além disso, havia um brilho nos seus olhos, que revelava 
mais do que uma vulgar rapariga acabada de sair do colégio. O pai começou a 
desejar Jeanne desesperadamente, num desejo em que a atracção sexual se 
misturava com as suas aspirações sociais. Iniciou-se um namoro em conformidade 
com as leis do decoro.
Todos os dias o pai a ia buscar ao consulado francês para a levar a casa, 
poupando-a aos desconfortáveis apertos dos transportes públicos de Tianjin. 
Frequentavam restaurantes caros nos hotéis, dançavam no cottntry clttb e iam ao 
cinema. Tianjin orgulhava-se de possuir três cinemas - o Gaiety, o Empire e o 
Capitol -, que exibiam filmes românticos de Hollywood. Primeiro ele ofereceu-lhe
flores e bombons; depois pérolas, jade e diamantes. O valor das jóias aumentou 
progressivamente. Jeanne teve certamente uma ideia bastante clara acerca do rumo
que as coisas estavam a tomar no momento em que falou do seu desejo de possuir 
um casaco de zibelina russo no valor de 4000 taéis de prata. Embora Ye Ye 
tivesse objectado na presença de Jeanne,
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referindo-se ao facto como uma "extravagância sem sentido", o pai efectuou a 
compra e mandou entregar o casaco três dias mais tarde. O facto de o pai ter 
tido uma atitude tão pouco filial era um sinal claro da sua paixão por Jeanne. 
Tudo começou da mesma forma que iria continuar: Jeanne impunha as condições e o 
pai concordava com elas. Tal como dizem os Chineses: para o pai até os gases de 
Jeanne cheiravam bem.
O pai também soube tornar-se agradável para com a família dela. A casa de Jeanne
ficava apenas a acerca de um quilómetro e meio da Rua Shandong. Ciente de que a 
sua bonita filha estava prestes a entrar
num mundo muito mais luxuoso do que aquele que algum dia poderia 
proporcionar-lhe, a Sr.~ Prosperi encorajou o namoro. O pai suspeitava de que a 
Sra. Prosperi provinha de uma família de camponeses. No apartamento alugado e 
exíguo onde viviam, a conversa cingia-se aos temas ligeiros do dia-a-dia. O 

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Adeline_Yen_Mah_-_FOLHAS_CAIDAS

mandarim que falava era colorido por um forte sotaque de Shandong e o seu 
francês era apenas de nível elementar. Não sabia ler nem escrever nenhuma das 
línguas. O seu filho mais velho tinha tido problemas com a polícia e fora 
enviado para um campo de trabalho em Hanói. Quanto à filha mais velha, Reine, 
tinha casado havia pouco com um francês que trabalhava para as Nações Unidas. 
Havia ainda dois filhos mais novos. Mais tarde, o pai acabaria por dar um lugar 
na sua companhia ao rapaz mais velho, Pierre, enviando o mais novo, Jacques, 
para França, a fim de concluir os estudos.
Quando se tornaram noivos, vieram os brincos de diamantes, uma pulseira também 
de diamantes, um colar e um anel tão espectaculares como as restantes peças. 
Conforme a tradição, Jeanne não levou dote. A cerimónia do casamento teve lugar 
na igreja católica de Notre-Dame des Victoires. O pai estava nervoso no seu 
smoking de bom corte. Jeanne estava espectacular num vestido que acompanhava a 
forma do corpo, debruado a renda, resplandecente com todas as suas jóias. Nenhum
de nós, crianças, esteve presente. O clã Prosperi tinha muitos convidados, 
incluindo um bom número de crianças. Segundo a tia Baba, ela, Ye Ye e a avó 
tinham-se sentido um tanto ou quanto desconfortáveis durante a luxuosa recepção 
oferecida pelo pai no grande Astor House Hotel. Ye Ye acabou por ser um dos 
poucos convidados masculinos vestidos com a longa túnica chinesa a condizer com 
o casco de cetim ma-gua (casaco curto), chapéu ajustado à cabeça e sapatos de 
pano. Os restantes convidados vestiam à ocidental, de fato e gravata. Os 
convidados franceses pediam brindes sucessivos, ao passo que os chineses não 
estavam acostumados a beber tanto. A minha tia pensava poder ter envergonhado 
Jeanne e a sua família, pois por mais de uma vez se tinha retirado para vomitar.
Mais tarde, Jeanne queixou-se ao pai de que, durante o banquete nupcial, alguns 
dos seus parentes chineses tinham ofendido a sua família francesa pelo facto de 
falarem muito alto, chegando mesmo a ser estridentes. Contudo, ao dizer isto, a 
sua expressão era doce e aparentava modéstia. O pai estava completamente do lado
dela, ao ponto de começar a adoptar ideias ambíguas acerca da sua própria raça. 
Tendo crescido nos portos dos tratados, a observar diariamente os símbolos do 
poder estrangeiro, a viver dentro dos limites de uma concessão estrangeira no 
seu próprio país governado pela extraterritorialidade, o pai, como muitos outros
chineses, via os estrangeiros como mais espertos, mais fortes, maiores e 
melhores. Apesar de Jeanne ser fluente em três línguas, não sabia ler nem 
escrever em chinês, orgulhando-se deste facto, que demonstrava, uma vez mais, a 
sua herança ocidental.
O gosto de Jeanne era o reflexo da sua origem mista. Usava invariavelmente 
roupas ocidentais e sabia usá-las. Gostava de se ver rodeada por mobiliário 
francês, cortinas de veludo vermelho e papel de parede de textura rica. Ao mesmo
tempo, coleccionava porcelana antiga, quadros e cadeiras chinesas. Gostava de 
plantas e flores que perfumassem a entrada de casa, a sala de estar e o seu 
quarto. Tal como a avó, fumava sem parar.
Penso que, no início, Jeanne foi feliz. Ye Ye e a avó acolheram bem a ideia de o
pai se casar outra vez, pois não estava certo um homem jovem não ter uma esposa.
Além disso, a tia Baba foi parcialmente libertada das suas obrigações domésticas
e, teoricamente, poderia ter retomado o rumo da sua vida. Sobre a forma como a 
minha irmã e os meus irmãos reagiram ao casamento, pouco posso dizer, pois na 
época era apenas uma criança. Mas há um provérbio chinês que diz: se tiveres de 
ter só um dos teus pais, prefere uma mãe pobre a um pai imperador.
O pai comprou a casa ao lado da nossa na Rua Shandong, ofereceu-a como prenda de
casamento à sua noiva e os recém-casados mudaram-se sozinhos. O resto da família
e os criados permaneceram na casa antiga, local onde o pai continuava a manter 

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os seus escritórios. A fa
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mília reunia-se ao jantar todas as noites. O pai e Ye Ye continuaram a trabalhar
lado a lado no piso de baixo e o negócio prosperava. Como a minha irmã e os meus
irmãos mais velhos ainda falavam muitas vezes da nossa falecida mã.e, a quem 
chamavam ~-1~ Mama, a avó disse-nos que chamássemos a Jeanne ~~ Niang, uma outra
palavra que também significa mãe. Quanto a nós, Niang deu-nos novos nomes 
europeus. Da noite para o dia, a minha irmã Jun-per transformou-se em Lydia e os
meus três irmãos Zi jie, Zi-lin e Zi jun passaram a chamar-se Gregory, Edgar e 
James; eu, Jun-ling, recebi o nome de Adeline.
As tropas japonesas, que já ocupavam Tianjin e Beijing, movimentavam-se agora 
claramente em direcção ao sul. Surpreendentemente, encontraram uma forte 
resistência em Nanquim e, como forma de retaliação, empreenderam uma orgia de 
terror na qual se sucederam violações, saques e assassínios. Mais de 300 000 
civis e prisioneiros de guerra foram vítimas de tortura e morte durante a 
ocupação de Nanquim em 1937 e no início de 1938, quando a cidade foi capturada 
pelos Japoneses. Xangai capitulou e Chiang Kai-shek fugiu para o Ocidente 
através da China, ao longo do rio Yangtse, penetrando nas profundezas 
montanhosas da província de Sichuan. Foi nesse local, na cidade de Chongqing, 
que instalou o seu governo em tempo de guerra. Não é difícil imaginar-se toda a 
tensão e a agitação que as sublevações políticas do momento imprimiram na vida 
familiar chinesa.
Em 1939, repentinamente e sem qualquer aviso prévio, Tianjin foi apanhada por 
uma grande cheia. Foi um desastre de grandes proporções. Ye Ye chamou-lhe "A 
tristeza da China" e dirigiu-se ao templo
budista para queimar incenso e oferecer preces de su&ágio. Os jornais 
pró-japoneses impressos em Tianjin atribuíam as culpas da catástrofe a Chiang 
Kai-shek, enquanto a imprensa afecta ao Partido Nacionalista (Kuomitang) em 
Chongqing acusava os Japoneses. Os diques no rio Amarelo tinham sido 
deliberadamente dinamitados, libertando as águas do rio para que travassem o 
avanço das tropas. A cheia atingiu três províncias, destruindo todas as 
colheitas à sua passagem. Dois milhões de pessoas ficaram sem casa. Centenas de 
milhares morreram de fome e doenças. As escolas foram encerradas. Os negócios 
pararam. Contudo, a serração do pai atingiu um alto nível de laboração. O preço 
dos brocos a remos disparou de 100 para 800 yzzan", excluindo os remos.

" Unidade monetária da R. P. C. (N. da T.)
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Devido à cheia, o pai teve de construir uma alta plataforma de madeira que unia 
as suas duas casas. A travessia era escorregadia e perigosa, especialmente para 
a avó, que pululava em cima dos seus pezinhos ligados. Niang tinha acabado de 
dar à luz o nosso meio_irmão, Franklin, e estava ainda em convalescença. Na 
verdade, todas as noites, o pai tinha de a transportar para a "casa velha", de 
modo que a família jantasse reunida.
Niang pouco se preocupava com as dificuldades que os criados enfrentavam. Do 
cozinheiro esperava-se que fosse ao mercado todas as manhãs e que regressasse a 
casa com todos os artigos de mercearia, fazendo o percurso numa jangada frágil, 
feita de tábuas pregadas umas às outras. Quando Ye Ye falou dos perigos 
inerentes a estas idas às compras, Niang respondeu apenas que o cozinheiro 
nadava bem e que não achava apropriado colocar um barco a remos à sua 

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disposição. Quarenta dias mais tarde, quando as águas finalmente desceram, a avó
ordenou a construção de um quarto, sólido e coberto, que ligasse as duas casas. 
Lydia passou a chamar-lhe "a ponte", um lugar onde costumávamos brincar às 
escondidas.
A criança mais nova da nossa geração, a nossa meia-irmã Susan, nasceu em 
Novembro de 1941. Duas semanas mais tarde, no dia 7 de Dezembro, do outro lado 
do Pacífico, em Pearl Harbor, os bombardeiros japoneses atacaram a armada 
americana. Subitamente, o Japão tornou-se aliado da Alemanha e entrou em guerra 
contra a América e os seus aliados europeus. Nesse preciso momento (8 de 
Dezembro na China), os soldados japoneses, em carros blindados, receberam ordem 
de avançar contra as frágeis barricadas de arame farpado e de tomar posse das 
concessões estrangeiras situadas nos portos dos tratados na China. Ao mesmo 
tempo, a marinha japonesa invadia a Malásia e bombardeava Singapura. Num só dia,
o conflito sino-japonês fundia-se com a guerra na Europa, alastrava para a 
Malásia, envolvia a América e transformava-se na segunda guerra mundial.
Em Xangai e Tianjin, os colonos britânicos e americanos, antes poderosos e 
invencíveis, foram conduzidos em massa para campos de concentração japoneses. Da
noite para o dia, as Concessões Francesas foram transformadas em fantoches 
comandados pelos Japoneses. Todo o comércio, especialmente entre a China e o 
Ocidente, passou a ser controlado de perto pelos novos senhores. O tribunal 
francês de Vichy, que superintendia os negócios do pai, era agora encabeçado por
um
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novo juiz da Nova Ordem na Ásia oriental, um governo fantoche liderado pelo 
traidor Wang Jhing-wei durante a ocupação japonesa. Os poucos homens de negócios
americanos em Tianjin apressaram-se a fugir com as suas famílias e aquilo que 
puderam salvar de entre os seus haveres. Nessa altura veio para nossa casa uma 
robusta camponesa de 18 anos, apresentada por um dos colegas americanos do pai. 
Ela pretendia vir a ser a ama de peito de Susan e pedia um salário três vezes 
acima do habitual, fazendo notar que tinha estado ao serviço de um casal 
americano e estava habituada a "padrões mais elevados". O seu objectivo era 
economizar 500 y~~an até à altura em que Susan fosse desmamada, para poder 
comprar um boi, regressar à sua aldeia natal e criar o seu próprio filho ao lado
do marido.
O facto causou um reboliço terrível. Niang estava decidida a contratar a 
rapariga; ninguém mais lhe servia. Parecia pensar que só uma mulher que 
amamentara uma criança branca americana estava à altura de amamentar a sua 
própria filha. O pai acedeu aos seus desejos, embora o salário mensal de 30 
yaran que pagava à nova criada enfurecesse todos os outros empregados. Este 
ordenado era supostamente secreto, mas todo o pessoal da casa depressa se deu 
conta da discrepância. A ama de Franklin exigiu um salário igual para ela, bem 
como para todos os outros. Depois de acusar Niang cara a cara de discriminação 
injusta, esta voluntariosa empregada fez as malas e partiu.
A tia Baba teve então a tarefa adicional de cuidar de Franklin, que tinha na 
altura 2 anos e meio. Relutantemente, aceitou a tarefa, mas a avó fez notar que 
Franklin era tão seu sobrinho como nós todos. Foi então que o meu irmão se 
juntou a mim e à tia Baba no nosso quarto. Ela costumava comprar-nos "olhos de 
dragão", um fruto semelhante à líchia, que tinha fama de tornar os olhos das 
crianças grandes e brilhantes.
A tia Baba não se poupava a amabilidades connosco e começou a ensinar-nos os 
caracteres chineses elementares. A Lydia frequentava o colégio St. Joseph's, a 
mesma escola em que Niang se graduara em 1937. Eu passei também a frequentar o 

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mesmo jardim de infancia no Verão de 1941.
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5
Yi Chang Chun Meng Um episódio de um sonho de Verão
As memórias que tenho de Tianjin são nebulosas. Fotografias de quando era muito 
pequena mostram uma menininha com ar solene e punhos cerrados, lábios apertados 
e olhos sérios, vestida com lindos vestidos de corte ocidental enfeitados com 
fitas e laços. Eu gostava da escola e estava sempre desejosa de lá chegar. Lydia
e eu éramos levadas diariamente no riquexó negro e lustroso da avó e voltávamos 
para casa da mesma maneira. De cada um dos lados do carrinho havia uma lanterna 
de latão e uma campainha para ser tocada com os pés. Quando volteia Tianjin, em 
1987, fiquei surpreendida ao verificar que eram precisos apenas sete minutos 
para fazer o caminho a pé de nossa casa até St Joseph's.
Lembro-me de Lydia como uma figura altiva e que impunha bastante respeito. Entre
nós existiam três irmãos e um espaço de seis anos e meio. Havia um mundo que nos
separava.
Lydia gostava de exercer a sua autoridade e de exercitar os seus músculos 
"espremendo-me" nos trabalhos de casa, especialmente no catecismo. A sua 
pergunta preferida era:
- Quem te criou?,
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Para esta eu sabia sempre a resposta e papagueava a frase já gasta: - Foi Deus 
que me criou.
E então vinha o apertão; um brilho iluminava-lhe os olhos: - Porque é que Deus 
te criou?
E a esta questão eu nunca consegui responder, porque a professora nunca foi além
da primeira pergunta. Por essa altura Lydia dava-me um sonoro bofetão com a sua 
forte mão direita e chamava-me estúpida. Du-
rante as nossas viagens diárias de riquexó, ela gostava de me fazer esperar e 
atrasava-se sempre. Das raras vezes em que fui eu a atrasar-me na aula, ela 
mandava o riquexó avançar, ia sozinha para casa e depois mandava o condutor 
voltar para me trazer. Mesmo em criança tinha já tendência para ser grosseira. A
deformação física que tinha fazia que tivesse uma postura característica, com o 
braço esquerdo semiparalisado, flacidamente pendurado, e o rosto ligeiramente 
repuxado para a frente e eternamente enviesado para o lado esquerdo. Da minha 
perspectiva de uma criança de 4 anos, ela era a terrível figura da autoridade.
Gregory, o meu irmão mais velho, tinha uma personalidade mais risonha e a 
capacidade contagiante de transformar acontecimentos banais em festarolas. A sua
joie de vivre`~ tornou-o querido aos olhos
de muitos. Ser o filho mais velho na China significava ser o predilecto do pai e
dos avós. Lembro-me dele, cheio de maldade, a admirar fascinado um pêlo longo e 
negro que esvoaçava para fora da narina direita de Ye Ye, que ressonava numa 
tarde de calor. Gregory não conseguiu resistir à tentação. Com perícia, prendeu 
o pêlo fortemente entre o indicador e o polegar durante uma expiração. Seguiu-se
uma pausa angustiante. Ye Ye inspirou finalmente, enquanto Gregory resistia 
obstinadamente. O pêlo foi arrancado pela raiz e Ye Ye acordou aos gritos. 
Gregory foi perseguido por Ye Ye armado de um espanador, mas, como 
habitualmente, conseguir escapar-se.
De uma maneira geral, Gregory ignorava-me a mim e a James, pois éramos novos de 
mais para o acompanharmos em jogos interessantes. Estava sempre rodeado por 
amigos da sua idade. Não gostava de estu
dar, mas, tal como a avó, era excelente em jogos de sorte, como o brídege. Era 

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bom aos números e, uma vez por outra, ensinava aos mais novos truques de 
matemática, largando sonoras gargalhadas perante a sua própria esperteza.
'z Em francês no original. (N. da T)
De todos os meus irmãos, aquele que eu mais temia era Edgar. Atentava-nos, a 
James e a mim, e usava-nos como se fôssemos sacos de boxe para onde atirava toda
a sua frustração. Mandava-nos fazer recados e rapinava-nos os nossos brinquedos,
rebuçados, frutos secos, sementes de melancia e ameixas salgadas. Não era um 
aluno brilhante e era altamente inseguro, embora possuísse conhecimentos 
suficientes para tirar notas positivas.
O meu san ge (terceiro irmão mais velho), James, era o meu herói e o meu único 
amigo. Costumávamos brincar juntos durante horas a fio e desenvolvemos uma 
proximidade telepática, confiando um ao outro todos os nossos sonhos e segredos.
Quando ele estava por perto, eu podia abrandar a minha vigilância e o certo é 
que precisava desesperadamente desse refúgio. Ao longo da nossa infância sentia 
um enorme conforto por saber que podia sempre recorrer a ele em busca de consolo
e compreensão.
Ambos éramos vítimas de Edgar, embora talvez James sofresse ainda mais, pois 
durante muitos anos partilhou o quarto com os nossos dois irmãos mais velhos. 
Ele detestava fazer ondas. Quando lhe davam ordens, ou aguentava os sopapos 
passivamente ou se escondia de quem o atormentava. Quando via Edgar a bater-me, 
James escapulia-se rapidamente, num silêncio incompreensível. Mais tarde, depois
de Edgar se ter afastado, esgueirava-se para junto de mim e tentava consolar-me,
sussurrando muitas vezes a sua frase predilecta oSuan le!" (Deixa lá!) ...
De entre os seus dois filhos, Niang preferia claramente Franklin. Quanto ao seu 
aspecto físico, era a cara chapada de Niang: um bonito rapaz, de olhos 
arredondados e um nariz arrebitado e atrevido. Nessa altura Susan era ainda um 
bebé. Contudo, eles já eram especiais. Não me lembro de Edgar ou Lydia alguma 
vez lhes terem tocado com um dedo. James e eu éramos os escolhidos para apanhar 
de toda a gente. Quando não conseguíamos ser suficientemente rápidos, recebíamos
muitas vezes uma bofetada ou um empurrão, especialmente de Edgar.
Eu sentia-me sempre mais à vontade junto dos meus amigos na escola do que em 
casa, onde era considerada inferior e sem importância, em parte devido à má 
sorte que tinha trazido por ter sido a causa
" Forma de distinguir os vários irmãos que, consoante a ordem de nascimento, têm
em chinês uma designação diferente. (N. da T.)
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da morte da minha mãe. Lembro-me de ver a minha irmã mais velha e os meus irmãos
a jogarem ao toca-e-foge ou a saltarem à corda e de, nessas alturas, ansiar por 
tomar parte nos seus jogos. Embora James e eu fôssemos muito próximos, ele ia 
atrás dos outros e transformava-se "num dos rapazes" quando eles queriam fugir 
de mim.
Em St. Joseph's as notas saíam todas as sextas-feiras e a aluna com o total mais
elevado recebia uma condecoração de prata, que podia usar ao peito, presa no 
bolso, durante toda a semana. O pai reparava logo nas vezes em que eu era 
condecorada. Eram essas as únicas alturas em que mostrava orgulhar-se de mim. 
Metia-se comigo, dizendo:
- Há qualquer coisa muito brilhante no teu vestido. Brilha tanto que não me 
deixa ver nada! O que será?
Outras vezes dizia:
- O lado esquerdo do teu peito não está mais pesado? Vais a cair? Eu bebia as 
suas palavras e depressa comecei a usar a condecoração quase todas as semanas. 

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Na entrega de prémios no final de 1941 o meu nome foi referido como tendo ganho 
a condecoração durante mais semanas do que qualquer outra aluna da escola. 
Lembro-me de como me senti orgulhosa e triunfante ao subir os degraus, que me 
pareceram tão altos e inclinados que tive de subir de joelhos e de me agarrar 
com as mãos para poder receber o prémio entregue por um Monsenhor francês. 
Ouviram-se aplausos calorosos e gargalhadas divertidas da audiência, mas nenhum 
dos membros da minha família estava presente, nem mesmo o meu pai.
No início de 1942, os Japoneses examinavam cada vez mais de perto a 
contabilidade do pai, insistiram numa auditoria exaustiva e finalmente exigiram 
que os seus negócios se fundissem com uma empresa japonesa. O pai poderia ficar 
nominalmente à frente dos negócios, mas os lucros seriam repartidos igualmente. 
Esta "oferta" era, na realidade, uma órdem. Uma recusa teria resultado na 
confiscação de todos os bens, provavelmente numa pena de cadeia para o pai e 
retaliação inimaginável para o resto da família. A aceitação significava 
colaborar abertamente com o inimigo, perder de imediato a independência e, 
possivelmente, enfrentar represálias da resistência.
Depois de muitas noites em claro, agravadas pelos almoços diários em que os 
Japoneses ora lisonjeavam e seduziam, ora ameaçavam, o pai tomou uma decisão 
drástica. Num dia frio foi pôr uma carta no correio e nunca mais voltou.

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Ye ye alimentou esta charada de vida ou morte durante alguns meses. Os tempos 
eram caóticos e os raptos, assassinatos e desaparecimentos eram banais. 
Dirigiu-se de imediato à polícia local e participou o desaparecimento. Colocou 
anúncios nos jornais, oferecendo uma recompensa a quem soubesse do paradeiro do 
pai, vivo ou morto. Foi um golpe de mestre e o preço a pagar foi elevado, mas no
final o efeito foi o pretendido. Sem o pai ao leme, a Joseph Yen & Company 
debatia-se com dificuldades. Muitos empregados foram despedidos. Os negócios 
fraquejavam. Os lucros iam a pique. Os Japoneses perderam todo o interesse.
Entretanto, antes do seu desaparecimento teatral, o pai tinha conseguido 
transferir parte dos seus bens e dirigiu-se para o sul em direcção a Xangai - já
ocupada pelos Japoneses - usando um nome falso
~ Yen Hong. Adquiriu então aquela que se iria tornar a casa da
nossa família na Avenida Joffre. Cedo mandou chamar Niang e Franklin, que 
fizeram a viagem acompanhados por alguns empregados de confiança.
Para o resto da família, isolada em Tianjin, a vida tornou-se estranhamente 
serena. A tia Baba dirigia a casa e encorajava as crianças a convidarem os seus 
amigos para brincar, lanchar ou tomar dim sum'~, numa atitude que Niang nunca 
teria tolerado. As refeições decorriam informalmente e, à noite, os adultos 
jogavam mah-jong até altas horas. Ye Ye mantinha apenas o pessoal essencial no 
escritório. Pouco a pouco os Japoneses deixaram-nos em paz. Contratou-se um 
motorista e aos domingos íamos a diversos restaurantes para provarmos diferentes
tipos de comida: russa, francesa e alemã. Lembro-me de beber chocolate quente e 
de comer bolos no belíssimo Kiessling Restauram ao som de valsas de Strauss e 
passagens de Beethoven tocadas por um trio. Às vezes até nos levavam a ver 
filmes próprios para a nossa idade.
O pai gostava que o resto da família se juntasse a ele em Xangai. Decorria o 
Verão de 1942; a avó deixou-se convencer a fazer-lhe uma visita que durou dois 
meses, mas regressou dizendo que Tianjin era a sua nova casa. Teimosamente, 
recusou-se a mudar e disse mesmo à tia Baba que o essencial da vida não era a 
cidade em que cada um vivia, mas antes com quem cada um vivia.
" Refeiçao chinesa composta por pequenos bolinhos - doces nu salgados - 

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cozinhados no vapor. (N. da T.)
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Num dia especialmente quente, após o jantar, a 2 de Julho de 1943, planeávamos a
ementa do dia seguinte com o cozinheiro. A tia Baba sugeriu que comêssemos 
bolinhas à moda de Tianjin em vez de arroz. Cozinhadas na hora, com cebolinho, 
carne de porco picada e cebolinhas, as bolinhas no vapor constituíam um dos 
nossos pratos preferidos. Estávamos todos a gritar quantas bolinhas seríamos 
capazes de comer, atirando números altíssimos. A avó ficou com uma dor de cabeça
de toda aquela comoção. Retirou-se para o seu quarto, acendeu um cigarro e 
deitou-se. A tia Baba sentou-se ao seu lado e leu-lhe uma das histórias da 
Lertda do Rei Macaco. Embora a avó conhecesse diversas histórias deste clássico 
chinês, sentia-se descontrair ao ouvir lê-las vezes sem conta pela voz da sua 
própria filha. Tirou os sapatos, as meias e as ligaduras que prendiam os pés 
pequeninos e deformados antes de os mergulhar em água quente para aliviar a dor,
que era permanente, e soltou um suspiro de alívio. A tia Baba deixou-a e estava,
também ela, a tomar o seu banho quando Ye Ye bateu à porta. A avó torcia os 
lábios, de onde se soltava uma espécie de espuma. Chamou-se o médico, mas era já
tarde de mais, pois ela nunca mais recuperou a consciência. Morreu de apoplexia.
Recordo-me de acordar envolta no calor abrasador de uma manhã de Verão em 
Tianjin. A tia Baba estava sentada no seu penteador e chorava. Disse-me que a 
avó tinha deixado este mundo para não mais voltar; a sua vida tinha-se evaporado
como - yi chang chun meng (um episódio de um sonho de Verão). Lembro-me do som 
estridente das cigarras no pátio traseiro, ao mesmo tempo que o som dos badalos 
de madeira anunciava a presença dos vendedores ambulantes, que, lá em baixo, no 
passeio, davam a conhecer os seus produtos através de melodiosos pregões:
- Fitas quentes com carne de vaca! Requeijão com feijões! Conservas acabadas de 
fazer!
Perguntava a mim mesma como podia a vida continuar exactamente na mesma se a avó
já não estava entre nós.
O corpo da avó foi colocado num caixão, na sala. Sobre ele estava a sua 
fotografia e havia uma decoração elaborada com flores, velas, fiutos e faixas 
decorativas de seda branca, onde figuravam diversos
's Dá-se o nome de fitas às massas chinesas ligeiramente largas e espalmadas 
utilizadas na preparação de sopa ou de outros pratos. (N. da T.)
dizeres que exaltavam as suas virtudes, pintados numa caligrafia elegante. Seis 
monges budistas, envoltos em longas vestes, velaram o corpo. A nós, crianças, 
ordenaram-nos que dormíssemos no chão, na própria sala, para fazermos companhia 
à avó. Estávamos todos aterrorizados, atónitos perante as cabeças rapadas e 
luzidias dos monges, que entoavam os seus sutras à luz trémula das velas. 
Durante toda a noite, um sentimento de medo alternou-se dentro de mim com o 
desejo de ver a avó empurrar a tampa do caixão e retomar o seu lugar no meio de 
nós.
No dia seguinte teve lugar um grande funeral. Os que estávamos de luto 
vestimo-nos de branco e colocámos faixas brancas ou bonitas fitas em volta da 
cabeça. Seguimos o caixão a pé até ao templo budista. Ao longo do percurso, os 
participantes no cortejo atiravam ao ar notas falsas para apaziguar os 
espíritos. Na ausência do pai, ainda escondido, o meu irmão Gregory tomou o 
lugar de principal. Caminhava logo a seguir ao caixão, que seguia num carro 
puxado por quatro homens. A cada passo caía de joelhos e, aos gritos, desatava a
lamentar a perda da avó, batendo repetidamente com a cabeça no chão em sinal de 
obediência. Seguíamos Gregory silenciosamente, maravilhados com a sua actuação.
Finalmente chegámos. O caixão foi colocado no centro de um altar, rodeado por 

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arranjos de flores brancas, mais faixas de seda branca e o jantar favorito da 
avó. Lá estavam cerca de dezasseis pratos de legumes, frutos e doces. O ar 
estava pesado de incenso. Os monges entoavam preces. Tal como nos haviam dito, 
fizemos kowtow'6, ajoelhando-nos e tocando repetidas vezes com a cabeça no chão.
Os monges trouxeram vários recortes de papel, reproduzindo diversos. artigos de 
que ela poderia necessitar no outro mundo. Havia muitos lingotes de "ouro" e 
"prata", um automóvel de cartão muito elaborado que parecia o Buick do pai, um 
conjunto de peças de mobiliário e utensílios diversos e até um jogo de 
mah-joaag. Todas estas imitações foram queimadas numa grande urna. Esta parte 
encantou-nos e, de boa vontade, nós, crianças, ajudámos a encher a urna lançando
às chamas as imagens de papelão. E na excitação do momento esquecemo-nos da 
celebração em que estávamos e até brigámos pelo carro de papel, que estava muito
bem feito e todo forrado a folha de alumínio. Anos mais tarde, a tia Baba 
contou-me que tudo (incluindo faixas, monges, flores, músicos e
'6 Teimo chinês que sign~ca "ajoelhar-se e tocar o chão com a testa". (1V. da 
T.)
50
51
imagens de papelão) tinha sido preparado por uma loja da especialidade dedicada 
a eventos desse género e que fornecia todos os adereços adequados.
Lembro-me de estar a ver as várias imagens de papel a queimarem-se furiosamente 
e os rolos de fumo a elevarem-se no ar e de acreditar que tudo se reuniria 
algures no céu na forma de objectos para o uso exclusivo da avó,
Em seguida, os nossos familiares e amigos acompanharam-nos a casa, onde foi 
servida uma refeição longa e elaborada, posto o que às crianças foi pedido que 
brincassem no jardim. Lydia arranjou uma urna
de imitação. Fizemos fogões, camas e mesas de papel e demos início ao nosso 
funeral da avó. Em pouco tempo a urna, que não passava de um vaso de flores em 
madeira, ardia também. Ye Ye foi lá fora, furioso, ligou a mangueira e 
inundou-nos a nós e ao nosso funeral. Mandaram-nos para a cama, mas o incidente 
teve o condão de nos ajudar a esquecer o pavor e a tristeza desses dois últimos 
dias; sentimos que a avó seria feliz no outro mundo.
Lá longe, em Xangai, o pai sofria profundamente. Não podia acreditar que a sua 
querida mãe tinha morrido, acabada de fazer 55 anos. A partir de então passou a 
usar apenas gravatas pretas em sua memória.
O funeral marcou o fim de uma época. Embora não o soubéssemos, os anos 
despreocupados da nossa infância tinham chegado ao fim.

6
Jia Chou Bu Ke Wai Yang Roupa suja lava-se em casa

Num dia de Agosto de 1943, mais ou menos seis semanas depois da morte da avó, 
Lydia, Gregory, Edgar e eu fomos levados à estação dos caminhos-de-ferro com as 
nossas malas. Numa plataforma cuja placa indicava "Para Xangai" estava 
estacionada uma longa fila de carruagens.
Num compartimento de 1ª classe, em cuja indicação se podia ler "Camas Macias", 
encontrámos o pai, vestido de negro, sentado, sozinho, perto de uma janela. 
Ficámos muito surpreendidos, pois sempre pensámos que continuava "desaparecido" 
e ninguém nos dissera que já tinha voltado. Os seus olhos estavam vermelhos; 
tinha estado a chorar.
O pai viera de propósito para nos levar até Xangai. Ye Ye, a tia Baba e Susan 
ficariam em Tianjin por mais dois meses, a fim de cumprirem o tradicional 

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período budista que determinava cem dias de luto pela morte da avó. James, que 
estava ainda a convalescer de sarampo, ficaria também e viajaria com eles mais 
tarde.
52
53
A viagem de comboio de Tianjin a Xangai demorou dois dias e uma noite. Durante o
percurso parámos em várias estações onde o pai comprava a merenda aos vendedores
ambulantes que se juntavam em redor.
Deliciámo-nos com ovos à hora do lanche, asas de galinha assadas, peixe fumado, 
man toar" (pão cozido no vapor) e fruta fresca. O tempo estava extremamente 
quente e húmido. O pai deixava abertas todas as janelas do nosso compartimento. 
Dormi numa rede por cima da cama do pai e, durante a noite, sonhei que estava a 
ser sugada pela janela. Acordei a chorar pela tia Baba; indiferente, o nosso 
comboio rumava ao sul.
Quando chegámos, o pai levou-nos para a casa que tinha comprado. Situava-se num 
loaag taaag (complexo de casas) bem no coração da Concessão Francesa. O nosso 
loaag ta~ag era constituído por setenta
residências de estilo semelhante, coladas umas às outras e rodeadas por um muro 
comum. De cada um dos lados havia três alamedas estreitas que se abriam para uma
avenida central, terminando na Avenida Joffre, agora chamada Huai Hai Road. A 
nossa casa tinha três pisos e fora construída nos anos 20. Tinha as 
características de uma Bauhaus e uma simplicidade que evocava as linhas simples 
da Art Deco. Havia um terraço no topo e um jardinzinho à frente rodeado por um 
muro de pouco mais de 2 metros. Tudo isto se encontrava devidamente arranjado 
com um pequeno relvado, buxos de camélias e uma magnólia, cujos botões cheiravam
maravilhosamente. Arrumada a um dos cantos estava a casota do cão, construída em
madeira, onde dormia Jackie, um feroz pastor-alemão, propriedade do pai. 
Encostada à parede i~avia uma fontezinha engraçada dentro da qual, em cestos 
presos por cordas, se guardavam as melancias, que eram, assim, mantidas frescas 
durante todo o Verão.
Uns degraus de pedra conduziam às portas de estilo francês que ofereciam 
passagem para a sala, situada no rés-do-chão. Esta divisão estava mobilada de 
modo formal, com sofás forrados de veludo verme
lho-escuro, cortinados de veludo a condizer e uma carpeta de Tianjin a cobrir 
parcialmente o soalho em parquet de teca. O papel de parede tinha listas 
aveludadas a condizer com os sofás e os cortinados. Os encostos de cabeça e os 
braços das cadeiras eram protegidos por coberturas de renda branca. No centro da
sala havia uma mesa de café, imitação Louis XVI.
" Conforme o original. (N. da T.)

54
À esquerda, a sala de jantar era ladeada por amplas janelas em arco, que 
permitiam uma vista agradável sobre o jardim. Era mobilada com uma mesa de 
jantar oval, rodeada por cadeiras com encosto de palhinha. Havia ainda um 
aparador e um frigorífico.
Na parte de trás da casa situava-se a cozinha, a casa de banho, os aposentos dos
criados e a garagem. Nós, as crianças, tínhamos de entrar e sair de casa pela 
porta das traseiras, que abria para um caminho de passagem, delimitado de um dos
lados pelos muros dos jardins vizinhos.
Lá em cima, no 1º andar, o pai e Niang ocupavam o melhor quarto. Além de uma 
grande cama de casal, o quarto possuía um penteador em madeira trabalhada e um 
espelho; havia ainda uma pequena divisão que dava para o jardim e funcionava 

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como área de estar. James chamaria mais tarde a este quarto o "Santo dos 
Santos". Uma casa de banho separava o quarto da "antecâmara", que era o quarto 
de Susan e Franklin, com uma varanda de onde Franklin atirava frequentemente 
comida ou brinquedos para Jackie, que deambulava lá em baixo.
No início, quando acabámos de chegar a Tianjin, nós, os "que não tínhamos" (18) 
fomos relegados para o 2.° andar. Ye Ye tinha o seu próprio quarto com varanda. 
A tia Baba e eu partilhávamos um quarto e os meus três irmãos partilhavam outro.
Foi tacitamente entendido que nós, cidadãos de segunda classe, estávamos 
proibidos de pôr os pés na antecâmara ou no "Santo dos Santos". Contudo, "eles,"
os residentes do 1.° andar, invadiam os nossos aposentos sempre que lhes 
apetecia.
No princípio, Lydia tinha também um quarto no "nosso andar". Mais tarde 
deram-lhe um quarto no primeiro andar, "o andar deles", motivo pelo qual se 
passou, em parte, para "o lado contrário".
A minha nova escola, ~ ~~, a escola primária Sheng Xin (Sagrado Coração), ficava
situada a cerca de 2 quilómetros e meio de casa. No primeiro dia, o cozinheiro 
levou-me no guiador da sua bicicleta, pois ia a caminho do mercado. Ye Ye e a 
tia Baba ainda não tinham chegado de Tianjin. Como não estavam em casa, ninguém 
se lembrou de me ir buscar.
(18) No texto original "the have-nots", expressão que marca a diferença clara 
entre os doi grupos de irmãos. (N. da T.)
No final do dia de escola vi que todas as outras meninas da 1ª classe eram 
ansiosamente esperadas ao portão pelas suas mães. Lembro-me de ter esperado 
horas a fio e de que o meu pavor aumentava à
medida que via desaparecerem as meninas da minha sala, cada uma de mão dada com 
a mãe. Finalmente, fiquei sozinha. Énvergonhada de mais para voltar à escola, 
vagueei hesitante pelas ruas de Xangai. Quanto mais andava, maior era a 
multidão. Os passeios enchiam-se de transeuntes, coolies' 9 transportando fardos
nas extremidades de canas de bambu, vendedores ambulantes e pedintes - alguns 
com as pernas amputadas, cegos ou com outras deformações - que batiam no chão 
com as suas latinhas de esmolas, procurando obter mais algumas. Toda a gente ia 
para qualquer lado; todos menos eu. Deambulei desesperadamente ao longo de 
quilómetros à procura de alguma coisa que me fosse familiar. Nada a fazer. 
Estava perdida e não sabia o meu endereço.
Nesses tempos sem lei, as crianças eram raptadas frequentemente e desapareciam 
nos meandros de Xangai. Eram vendidas como ya tou (meninas escravas), algumas 
vezes a bordéis. Ao cair da noite fui
atacada por medo e fome. Quando dei por mim, estava em frente de uma loja de dim
saem brilhantemente iluminada e, com os olhos, devorava as bolinhas no vapor, as
fitas, o pato assado e as espetadas de porco que estavam na montra. A 
proprietária veio cá fora, mirou o meu uniforme escolar novinho em folha e 
perguntou:
- Estás aí à espera da tua mãe?
Assustada de mais para poder responder, só consegui baixar a cabeça. - Vem cá! -
disse ela.
Segui-a.
De repente, pelo canto do olho, vi a minha salvação! O telefone! Eu fixara o 
nosso novo número de telefone de Xangai: 79281. O meu irmão Gregory tinha queda 
para os números e na semana anterior tinha -me ensinado a brincar com o número 
de trás para a frente e de frente para trás, para tentarmos terminar obtendo o 
número 13. O restaurante estava cheio de gente e barulho. Ninguém reparou quando
eu levantei o auscultador e marquei o número. Do outro lado o pai atendeu.

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- Onde estás? - perguntou calmamente.
" Designação atribuída aos trabalhadores asiáticos sem qualquer formação técnica
e que iam trabalhar para fora da sua terra. (N. da T.)
56
Ninguém tinha dado pela minha falta.
. Num restaurante em qualquer sítio. Estou perdida.
Ao ouvir o ruído de fundo, o pai pediu para falar com a dona. Ela deu-lhe as 
indicações necessárias e ele apareceu rapidamente no seu grande carro preto para
me levar. Guiava em silêncio, perdido nos seus próprios pensamentos. Quando 
chegámos a casa, deu-me umas palmadinhas na cabeça e disse:
- Não te terias perdido se tivesses levado um mapa e estudado cuidadosamente o 
local da tua casa e da escola.
Com esta experiência aprendi a contar só comigo. Percebi que, sem a tia Baba, 
ninguém olhava por mim. Nessa mesma noite pedi a Gregory que me ensinasse a ler 
um mapa. Nunca mais me perdi.

Dois meses mais tarde, Ye Ye, a tia Baba, James e Susan chegaram de Tianjin. Eu 
estava numa grande excitação. Niang estava separada da filha desde a Primavera 
de 1942, altura em que Susan tinha apenas alguns meses. Quando se reuniram 
novamente em Xangai, Susan tinha-se tornado uma bonita criança que já andava, 
tinha olhos arredondados, bochechas gorduchas e uma farta cabeleira negra. No 
dia do encontro com a mãe, a tia Baba tinha-a vestido com umas bonitas calças 
cor-de-rosa e um casaquinho chinês almofadado a condizer. O cabelo estava 
penteado em duas tranças armadas. A criança estava encantadora e corria pela 
sala de estar examinando os objectos expostos; de vez em quando tirava um deles 
e ia mostrá-lo à tia Baba. Foi então que Niang se aproximou e tentou pegar em 
Susan ao colo. Para a minha irmã de 2 anos, a mãe era apenas uma estranha. Susan
esquivou-se, esperneou e resistiu quanto pôde. Finalmente, rompeu num pranto e 
começou aos gritos:
- Não te quero! Não te quero! Tia Baba! Tia Baba!
Ninguém se atreveu a dizer fosse o que fosse. Todos se calaram e olharam para 
Susan, que dava pontapés e se debatia nos braços de Niang. Foi então que, 
horrorizada, vi Niang forçar a filha a sentar-se no sofá ao seu lado e dar-lhe 
uma forte bofetada na cara. Susan pôs-se a chorar ainda mais alto. Irritada e 
sem qualquer controlo sobre a situação, Niang deu uma série de bofetadas à 
filha, na cara, nas orelhas e na cabeça. Todos nos encolhemos.
Fiquei completamente atónita. Não conseguia perceber como é que o pai, Ye Ye ou 
mesmo a tia Baba não tinham intervindo para pôr fim àquela tortura. Quis sair da
sala, mas os meus pés pareciam colados ao
57
chão. Sabia que devia estar em silêncio, mas o peso das palavras sufocava-me e 
eu tinha de as deitar cá para fora. Esqueci-me de quem era e de onde estava e 
atirei numa voz trémula:
- Não lhe bata mais! Ela é só um bebé!
Niang voltou-se e fitou-me ferozmente; os olhos pareciam saltar-lhe das órbitas 
e por um momento pensei que se ia voltar contra mim. A tia Baba deitou-me um 
olhar de aviso para que me calasse. Até mesmo os soluços de Susan quase deixaram
de se ouvir. O meu protesto cortara o acesso de fúria de Niang e eu 
transformara-me no objecto da sua raiva.
Foi nesses escassos momentos que nós, crianças, entendemos tudo: tudo não só 
acerca de Niang, mas também acerca do pai, de Ye Ye e da tia Baba. Tínhamos 
testemunhado o outro lado do seu carácter. Com o desaparecimento da avó ela 

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assumira o controlo total.
A minha apreensão aumentava à medida que ela olhava para mim. Uma torrente de 
palavras escapou-lhe dos lábios cerrados:
- Sai! - gritava ela. - Desaparece imediatamente da minha vista! Como é que te 
atreves a abrir a boca?
Enquanto eu corria para a porta, ela ainda teve tempo de dizer, numa ameaça 
gélida:
- Nunca esquecerei e nunca perdoarei a tua insolência! Nunca! Nunca! Nunca!
Esta foi a forma como decorreu a nossa reunião de família no mês de Outubro de 
1943, na casa que o pai tinha na Avenida Joffre, em Xangai.
Depois de mudarmos de cidade as nossas vidas modificaram-se radicalmente. O pai 
mandou-nos a todos para colégios missionários, onde as aulas eram dadas em 
chinês e o inglês era ensinado como uma segunda língua. Durante o tempo que 
estive em Sheng Xin, os meus três irmãos foram inscritos em St John's Christian 
Boys' School e Lydia frequentou a Aurora Catholic Middle School. O pai encetou 
um programa de austeridade para nos ensinar o valor do dinheiro. Não recebíamos 
semanada e não tínhamos outras peças de vestuário além do nosso uniforme 
escolar. Tínhamos também de ir e vir da escola a pé todos os dias. No caso dos 
rapazes, o trajecto era de quase 10 quilómetros diários, ida e volta. Tinham de 
se levantar às 6.30 da manhã para estarem na escola às 8. A escola de Lydia era 
ao lado da
s8

minha e distava apenas 2 quilómetros e meio de nossa casa. Os eléctricos iam 
quase de porta a porta.
Depois de Ye Ye ter chegado de Tianjin perdemos toda a vergonha de lhe pedir o 
dinheiro para o eléctrico, pelo que, todas as noites, recebíamos um dinheirinho 
para esse fim. Duas linhas de eléctrico paralelas percorriam a parte central da 
Avenida Joffre e terminavam no Bund, acompanhando a margem do rio Huangpu. A 
minha paragem era mesmo à esquina da nossa rua. Nas manhãs em que tinha sorte, 
chegava a este local no momento exacto em que um eléctrico aparecia na direcção 
que eu queria. O bilhete custava vinte _feia-° para os adultos e 10 para as 
crianças. À medida que o eléctrico se aproximava, todos se acotovelavam e se 
empurravam para conseguir entrar. Nunca ninguém se dava ao trabalho de fazer 
bicha.
A primeira paragem era em Jardins Duo Yuen. Dois anos mais tarde, quando os 
Japoneses perderam a guerra, o pai e Niang apressaram-se a deslocar-se a Tianjin
para reivindicarem os seus negócios. Nessa altura Ye Ye levava-nos a mim e a 
James a fazermos piqueniques nesse jardim. Tratava-se de uma prenda rara, pois, 
de acordo com o regime de Niang, nós, as crianças, estávamos proibidas de sair 
de casa, excepto para irmos à escola. O cozinheiro preparáva-nos umas sanduíches
deliciosas, em pão francês fresco e estaladiço, recheadas com gordas camadas de 
ovos temperados com alho, cebolas e fiambre de Yunan. Ente árvores altíssimas, 
relvados verdejantes e bonitos canteiros de flores, Ye Ye praticava o seu t'ai 
chi' logo de manhãzinha, enquanto James e eu jogávamos às escondidas ou aos 
teatros, fingindo ser algumas das personagens das lendas tradicionais chinesas 
de que mais gostávamos. Às vezes, num pavilhão do jardim, havia também um 
contador de histórias profissional, que tinha para nós lendas maravilhosas.
A segunda paragem era no Cinema Cathay. Como eu ansiava por ver aqueles filmes 
maravilhosos! Os títulos, os grandes anúncios e as fotografias das estrelas 
estavam expostos nas paredes do lado de fora das salas de cinema, que à noite 

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estavam iluminadas como se fossem palácios. Assim que a guerra terminou, os 
filmes de Hollywood varreram Xangai como se de um fogo se tratasse. Clark Gable,
Vivien
z° Subdivisão da unidade monetária da China. (N. da T.) a' Variedade de 
ginástica chinesa. (N. da T.)
59
Leigh, Laurence Olivier e Lana Turner tornaram-se nomes familiares. E Tudo o 
Vento Levou, sabiamente traduzido num único carácter chinês, ; Piao, um termo 
bastante romântico que significa "flutuan> ou "vogar", foi um êxito estrondoso 
em 1946. Na escola partilhávamos revistas sobre cinema e recortávamos 
fotografias de artistas americanos. Houve mesmo um dia em que uma rapariga que 
andava dois anos à minha frente recebeu uma fotografia de Clark Gable que se 
dizia ter vindo directamente de um estúdio de cinema em Los Angeles. Clark Gable
tinha até assinado num dos cantos inferiores da fotografia! Durante o recreio, 
todas as meninas se juntavam à volta dela, pois todas queriam dar uma olhadela 
ao famoso actor e era como se ela própria também se tivesse tornado uma 
celebridade.
A terceira paragem era na esquina da rua que dava para as escolas Sheng Xin e 
Aurora. Pelo caminho havia um grande número de lojinhas que vendiam fruta 
fresca, dim sum, massa chinesa, pão francês,
bolos com creme e pastelaria variada. Muitas vezes era uma tortura para mim 
passar à frente destes estabelecimentos porque tinha fome constantemente e os 
meus bolsos estavam sempre vazios. Já iam longe os dias de Tianjin em que 
podíamos pedir à tia Baba o que quiséssemos para o pequeno-almoço, contanto que 
a avisássemos com antecedência: ovos com bacon e fatias douradas; fitas fritas 
com fiambre e vegetais; bolinhas no vapor; bolinhas de arroz adocicadas com 
pasta de sésamo; chocolate quente. Agora só estávamos autorizados a ter um único
tipo de pequeno-almoço: nas palavras de Niang, a alimentação apropriada para 
crianças que estavam a crescer. Davam-nos uma espécie de canja, um caldo feito 
de arroz e água epickles de legumes. De vez em quando, aos domingos, serviam-nos
um ovo de pato cozido, salgado e completamente ressequido.
Mas a austeridade não foi apenas em relação a nós, os enteados; incluiu também 
Ye Ye e a tia Baba. Em Tianjin o pai e Ye Ye tinham uma conta conjunta e Ye Ye 
assinava todos os cheques como chefe das operações financeiras. Ao regressar a 
Xangai, em 1943, Ye Ye, com confiança cega, transferira todos os fundos de 
Tianjin para as contas bancárias do pai em Xangai, abertas dois anos antes no 
novo nome do pai: Yen Hong. Bastou um simples traço de caneta e Ye Ye, tal como 
o Rei Lear, assinara o fim de toda a sua fortuna. Além do pai só havia
n Pequenos bolinhos chineses, na sua maioria cozinhados no vapor. (1V, da T.)
60

Irais um titular da conta: Niang. Nesse altura, Ye Ye e a tia Baba acharam-se 
sem um tostão e totalmente dependentes da generosidade do pai e de Niang, mesmo 
para as compras mais insignificantes.
Inicialmente, Ye Ye tinha consigo algum dinheiro de bolso e dava-nos 
frequentemente uma ou duas moedinhas só pelo prazer de ver a alegria brilhar nos
nossos olhos. E, até o seu dinheiro chegar ao fim, era Ye Ye quem nos dava todos
os dias o dinheiro de ida e volta para o eléctrico.
Mais ou menos dois meses depois do início das aulas, o tema dos bilhetes do 
eléctrico veio à baila durante o jantar. A refeição estava quase no fim e já 
estávamos a descascar a fruta quando a tia Baba encetou o assunto, dizendo que 
decidira voltar ao trabalho de caixa no Women's Bank da tia-avó. Pelos lábios 

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fortemente contraídos de Niang pôde perceber-se que ela estava aborrecida.
- Tens aqui tudo o que necessitas - disse o pai. - Por que razão queres ir 
trabalhar?
Educadamente, a tia Baba respondeu que tinha demasiado tempo livre durante o 
dia, uma vez que todos nós estávamos na escola e que havia muitas empregadas que
tratavam das tarefas domésticas. Nem sequer chegou a mencionar aquilo em que 
todos estávamos a pensar: que um ordenado lhe daria alguma independência.
O pai voltou-se para Ye Ye:
- Acha que é uma boa ideia? - perguntou ele. - É que assim ela estará fora de 
casa a maior parte do dia. Se ficasse em casa, far-lhe-ia mais companhia.
-Deixa-a fazer o que ela quer - disse Ye Ye. - Além do mais, ela gosta de ganhar
um dinheirinho extra para o gastar todo numa ou noutra coisa.
-Se o que precisas é de dinheiro - disse o pai com ar magnânimo, dirigindo-se à 
tia Baba -, porque não mo pedes? Já disse a ambos várias vezes que, quando 
precisarem de dinheiro, basta pedirem-mo. E, mesmo quando eu estiver no 
escritório, Jeanne está sempre disponível para vos passar um cheque.
Senti um arrepio na espinha só de pensar que alguém, e sobretudo o meu meigo Ye 
Ye, se ia dirigira Niang, sua nora, para lhe pedir dinheiro.
Ye Ye pigarreou.
- Já há algum tempo que ando para dizer isto: as crianças precisam de um 
dinheirinho de bolso de vez em quando.
61

- Um dinheirinho? - disse o pai, voltando-se para Gregory e Lydia. - Para quê?
- Bem - respondeu Lydia -, em primeiro lugar para o bilhete de ida e volta do 
eléctrico quando vamos para a escola.
- Dinheiro do eléctrico? - perguntou Niang. - Quem é que vos deu licença para 
irem de eléctrico?
- St. John's é tão longe! - balbuciou Gregory. - Se tivéssemos de ir a pé, 
provavelmente demorávamos a manhã inteira. Mal chegássemos lá, tínhamos de 
iniciar o caminho de volta. Nesse caso, mais
valia não irmos à escola e, em vez disso, dávamos um longo passeio todas as 
manhãs para fazer exercício!
- ` ~~ ~,~~ ì~! Har shuo ba dao! (Não digas disparates oito vezes seguidas!) - 
exclamou o pai. - Estás sempre com exageros! Andar faz sempre bem à saúde.
Gregory ainda conseguiu balbuciar:
- Detesto andar a pé! Especialmente de manhã cedo! É uma perda de tempo!
-Atreves-te a contradizer o teu pai? - gritou Niang. - O teu pai trabalha dia e 
noite para vos sustentar a todos nesta casa. Se ele acha que vocês devem ir a pé
para a escola, é a pé que vão. Ouviram bem?
Seguiu-se um silêncio de morte. Voltámo-nos para Ye Ye à espera de apoio. 
Finalmente, a Lydia falou:
- Há dois meses que Ye Ye tem estado a pagar-nos os bilhetes de eléctrico. 
Estamos habituados a ir assim para a escola.
- Como é que se atrevem a fazer coisas às escondidas do vosso pai e a 
incomodarem Ye Ye por causa de dinheiro? - perguntou Niang. - Estão proibidos de
pedir dinheiro a quem quer que seja! E isto é
para todos! O vosso pai farta-se de trabalhar para que vocês possam frequentar 
escolas caras e terem uma educação a sério! Com certeza não quer que vocês 
cresçam como crianças mimadas e sem préstimo algum!
Embora os seus comentários fossem dirigidos a nós, todos sabíamos que pretendia 
atingir Ye Ye e a tia Baba.

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- Não há ninguém na minha turma que vá a pé para a escola -protestou Lydia. - A 
maioria dos meus amigos vão de carro com motorista.
- O vosso pai deseja que vão a pé para a escola! O vosso pai e eu queremos que 
vocês saibam que não podem pedir mais dinheiro a Ye
62
ye nem à tia Baba. Quando acharem que precisam de dinheiro, peçam-mo 
directamente a mim. O dinheiro não cai do céu. Neste momento penso que o que 
devem fazer é estenderem a mão se quiserem receber dinheiro. Vamos ensinar-vos 
algumas coisas da vida ... - e fez uma pausa. - Não queremos dizer que não vos 
vamos dar o dinheiro para o eléctrico! Mas queremos que cada um venha ter 
connosco individualmente. Peçam desculpa pelo vosso comportamento. Admitam que 
se comportaram como crianças mimadas. Voltem a página. Venham falar connosco e 
peçam-nos o dinheiro para o eléctrico e pode ser que vo-lo demos, mas terão de 
aprender que o dinheiro do eléctrico não é um direito adquirido. Só o receberão 
se se mostrarem arrependidos.
Nem ousávamos réspirar. As empregadas mantinham-se ocupadas, entregando a cada 
um de nós uma toalhinha molhada para limparmos as mãos e a boca. Finalmente, o 
jantar chegou ao fim. Esperávamos ansiosamente que Ye Ye e a tia Baba dissessem 
alguma coisa, qualquer coisa. Mas seguiu-se apenas o silêncio. Será que não 
podiam fazer nada? Será que a nora de Ye Ye, a sua nora que tinha sangue 
estrangeiro, é que era agora a matriarca da família`?
Niang, olhando directamente para Ye Ye, acrescentou então, no seu tom mais doce 
e mais lisonjeiro:
- Já provou estas tangerinas? São tão sumarentas! Vá, deixe-me descascar-lhe 
uma!
E foi assim que a tia Baba começou a trabalhar no Women's Bank e que nós 
passámos a ir e vir da escola a pé. Ficámos furiosos por Niang ter insinuado que
Ye Ye nos estragava com mimos ao dar-nos o dinheiro para o eléctrico. Todos nós 
percebemos que a questão do dinheiro do eléctrico representava um grande 
conflito dentro da família. Ao irmos a pé para a escola, mostrávamos a nossa 
lealdade a Ye Ye, que víamos ainda como chefe da família, e, ao mesmo tempo, 
protestávamos contra a usurpação de Niang. (Na verdade, Niang tinha assumido o 
comando logo a seguir à morte da avó. Anos mais tarde, quando pedi à minha tia 
que me falasse da minha mãe, ela disse-me que, pouco depois do funeral da avó, o
pai tinha mandado destruir todas as fotografias da minha mãe.)
Lydia foi a primeira a ceder. As aulas dela começavam e acabavam uma hora depois
das minhas e por isso nunca íamos e vínhamos juntas. Passadas duas semanas 
reparei que chegava a casa apenas quinze minutos depois de mim. Percebi logo que
tinha desistido.
63
*Os meus irmãos resistiram durante dois meses. St. John's ficava mesmo muito 
longe. À medida que o Inverno avançava, começaram a levantar-se ainda de noite 
para conseguirem chegar a horas à escola,
Todas as tardes, a seguir ao treino de futebol ou de basquetebol, eles tinham 
ainda pela frente o longo caminho de regresso a casa, às vezes já com pouca luz.
Um a um, todos se renderam.
Não sei bem como, mas durante todos aqueles anos em que vivi em Xangai - de 1943
a 1948 - nunca consegui pedir a Niang o dinheiro para o eléctrico. Os dias 
transformaram-se em semanas. As semanas passaram a meses. Os meses formaram 
anos.
De vez em quando, Ye Ye e a tia Baba tentavam convencer-me a ir lá a baixo 
negociar. Nunca o fiz.

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Era frequente aos domingos à tarde ouvirmos, de repente, o pai ou Niang chamar:
- Horas da distribuição da semanada para o eléctrico!
Ao ouvir isto, sentia um espasmo de profunda agonia. A tia Baba fazia-me então 
um sinal:
- Vá lá! Vai lá buscar o teu dinheiro do eléctrico! Vai lá abaixo e fala com 
eles. Basta dizeres: "Também posso receber o dinheiro para o eléctrico?", e 
receberás a tua parte, tal como os outros.
De vez em quando, a tia Baba tinha uma reunião de negócios logo pela manhã e 
acordava-me um pouco mais tarde. Eu saía de casa primeiro, percorria a nossa rua
a correr e esperava pela minha tia uns metros mais adiante, na Avenida Joffre. 
Ela chamava um riquexó, daqueles que estavam estacionados na nossa rua, 
apanhava-me e deixava-me em Sheng Xin.
Nos meses de Junho e Setembro, quando a chuva caía em catadupas e o vento uivava
pelas ruas, eu praguejava contra Niang enquanto me debatia para conseguir 
percorrer a Avenida Joffre, transportando a
minha pesada mala da escola, patinhando pela água, que às vezes me chegava aos 
tornozelos, e agarrando desesperadamente um guarda-chuva empurrado pelo vento. 
Tive ainda de suportar a troça das minhas colegas que atravessavam 
cuidadosamente umas pranchas de madeira, as quais impediam que se molhassem até 
chegarem aos carros. Entretanto cochichavam entre elas que eu vinha diariamente 
para a escola no meu eléctrico particular número onze, querendo com isto dizer 
que o que me transportava eram as minhas próprias pernas.
Dia após dia, duas vezes por dia, de manhã e à tarde, quando ia e vinha da 
escola, perseguia a minha sombra no passeio e, invariavel
mente, evitava as rachas no pavimento. Também inventava contos de fadas e 
abandonava-me em terras encantadas, fruto da minha imaginação apenas. Era uma 
forma de passar o tempo. Nas minhas histórias em série, que tinham seguimento de
um dia para o outro, eu era uma princesinha disfarçada, atirada, por engano, 
para este meio familiar cruel em Xangai. Se eu fosse uma menina realmente boa e 
se estudasse muito, um dia a minha mãe viria do Céu para me libertar e 
levar-me-ia com ela para vivermos no seu castelo encantado. Na verdade, 
deixei-me absorver de tal maneira por estas fantasias que passeia ansiar por 
estas caminhadas obrigatórias. Contei à tia Baba que, na minha cabeça, tinha uma
chave que me permitia entrar num reino encantado. Em Xangai não havia náda tão 
misterioso e tão cativante como este reino secreto que eu podia visitar sempre 
que me apetecesse. Lá bem no alto das montanhas, por entre as nuvens, esse lugar
estava repleto de bambus, pinheiros de troncos entrelaçados, rochas de formas 
fantásticas, flores selvagens e pássaros de mil cores. Mas o melhor de tudo era 
a minha mãe, que vivia nesse lugar, e todas as crianças, que eram aí bem-vindas 
e sempre desejadas. À noite, quando não trazia trabalhos da escola, costumava 
rabiscar tudo isto num papel, no meu quarto. De regresso à escola, vibrava ao 
mostrar as minhas histórias às minhas colegas, que, aos risinhos, passavam de 
carteira em carteira, às escondidas, estas minhas tentativas de escrita 
criativa.
Uma vez uma das meninas não gostou que eu tivesse usado o seu apelido num dos 
vilões. Riscou-o e substituiu-o pelo meu próprio apelido, Yen. Indignada, voltei
a colocar o nome dela, pelo que começou a chorar. Ao tentar explicar-lhe que se 
tratava apenas de faz-de-conta, usei um nome totalmente diferente e nesse 
momento comecei a perceber o terrível poder da escrita e a sua enorme 
responsabilidade.
Quando ia a caminho de casa, gostava particularmente do troço junto dos Jardins 
Do Yuen. Junto ao parque, do lado de fora, havia uma grande praça onde, em dias 

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de sol, os vendedores ambulantes vendiam as suas mercadorias. De entre os 
habituais, havia um velhote, com um aspecto instruído, que montava a sua bancada
de livros no extremo mais distante. O quiosque assemelhava-se a um conjunto de 
estores de madeira que, ao serem abertos, mostravam prateleiras e prateleiras de
romances de Kung Fu em capas de papelão, de pontas dobradas e esfareladas, que 
podiam ser adquiridos ou alugados. Por SO.fen, pagos adiantadamente pela tia 
Baba, eu podia alugar até cinco livros por
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semana. As obras, muito do gosto dos estudantes chineses, eram impressas a preto
e branco em papel barato. Cada um dos livros contara a história de heróis ou 
heroínas, mestres em artes marciais, que participavam em batalhas em defesa dos 
fracos e oprimidos. Muitas destas histórias eram baseadas em lendas tão 
importantes para a cultura chinesa como a lenda do Rei Artur e do Robin dos 
Bosques para a cultura ocidental. Depois de lutas desesperadas, o bem triunfava 
sobre a força e a vitória era, invariavelmente, dos defensores dos oprimidos. 
Estes livros deram-me esperança.
O programa de austeridade do pai abrangia todos os aspectos da nossa vida 
diária. Nem Lydia nem eu estávamos autorizadas a usar o cabelo comprido ou com 
permanente; podíamos apenas usar cortes de
cabelo considerados sensatos, higiénicos e também fora de moda. Quanto aos três 
rapazes, a situação era ainda pior: eram obrigados a ter a cabeça completamente 
rapada. Era assim que o pai pensava conseguir ensinar-nos que a vida não era uma
coisa que devesse ser vivida ao de leve. Os meus irmãos transformaram-se no 
motivo de troça da escola que frequentavam e, quando apareciam com as cabeças 
rapadas de fresco, arranjaram a alcunha de "as três lâmpadas", por causa do seu 
aspecto luzidio.
O nosso almoço era a refeição mais barata que arranjávamos na escola. Quando a 
América ganhou a guerra contra o Japão, em 1945, nés, as alunas da Sheng Xin 
recebemos as rações C que sobejavam do
exército americano e que eram incorporadas no nosso almoço. Comíamos enlatados 
que continham fiambre, carne guisada, biscoitos secos, queijo e chocolate. Esta 
ementa durou enquanto houve rações. Antes de cada refeição rezávamos e 
agradecíamos aos nossos aliados americanos por terem ganho a guerra e por nos 
oferecerem rações C.
O jantar era a nossa única refeição decente e um acontecimento digno de nota. 
Pontualmente às 7.30, a sineta do jantar tocava e nós perfilávamo-nos lá em 
baixo, na sala de jantar. Aí, à volta de uma mesa oval, Sentávamo-nos no lugar 
que nos estava atribuído. Ye Ye, como senhor da casa, presidia, no topo da mesa 
de frente para o jardim; a tia Baba sentava-se à sua direita, o pai e Niang à 
sua esquerda. Gregory e Edgar sentavam-se ao lado da tia Baba. James e eu éramos
relegados para a outra extremidade da mesa. Durante o tempo em que vivemos em 
Xangai, Franklin e Susan não comiam connosco.
Todas as noites nos apresentávamos vestidos com os nossos uniformes da escola, o
cabelo penteado, a bexiga vazia e as mãos lavadas. Sentávamo-nos muito direitos 
nos nossos lugares, ansiosos e rígidos, esperando que ninguém reparasse em nós. 
Nós, os enteados, nunca falávamos durante o jantar, nem mesmo entre nós. Sempre 
que chamavam por mim, eu era dominada por um medo opressivo e o meu apetite 
desaparecia. Seguia-se, invariavelmente, uma cena desagradável.
Havia sempre seis ou sete pratos apetitosos. Duas empregadas traziam a comida: 
lombo de porco, galinha assada, peixe cozinhado no vapor, caranguejo à moda de 
Xangai, legumes salteados e, no final, uma terrina de sopa.a fumegar. O pai 

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gostava realmente de ver os seus filhos comerem à hora do jantar. Éramos 
encorajados a comer tantas tigelas de arroz quantas nos apetecesse. Contudo, 
estava fora de questão deixar qualquer resto de comida na tigela, nem que fosse 
apenas um grão de arroz.
James e eu tínhamos aversão a carne gordurosa. Como éramos obrigados a comê-la, 
cedo arranjámos maneira de esconder pedaços nos bolsos, meias, dobras das calças
ou mesmo de os colar debaixo do tampo da mesa. Às vezes corríamos para a casa de
banho com as bochechas cheias de carne gordurenta, que deitávamos na sanita. 
Quando todos estes métodos falhavam, não tínhamos outro remédio senão engolir 
tudo.
A seguir ao jantar servia-se sempre fruta fresca. Quando o pai tinha visitas, 
nós comíamos as sobras. Embora houvesse menos comida, gostávamos de comer 
sozinhos. Nessas alturas lembrávamo-nos dos bons velhos tempos em Tianjin, 
quando não precisávamos de esconder a carne cheia de gordura, podíamos rir-nos à
vontade, falar, enfim, sermos nós próprios.
Para tomar conta de Franklin e Susan contratou-se uma governanta. Tratava-se de 
Miss Chien, uma senhora supostamente instruída. Os três tomavam as refeições 
separados de nós, no quarto, e podiam pedir para a cozinha tudo o que lhes 
apetecesse. Aparentemente, a austeridade parava no primeiro andar. Ao 
pequeno-almoço eram-lhes servidos ovos com bacoca, torradas e cereais, morangos 
frescos e melão. O cabelo de Franklin era cortado à moda pelo melhor 
cabeleireiro de crianças de Xangai. Susan usava vestidos coloridos enfeitados 
com laços e rendas. Muitas vezes eles acabavam por crescer antes de terem usado 
os seus lindos fatos. Recebiam muitos brinquedos e brincavam na sua varanda
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privativa. Todas as tardes tomavam chá com sanduíches, biscoitos de chocolate, 
pãezinhos doces, bolos e outras guloseimas.
Embora fosse aparentemente tutora de Franklin, Miss Chien actuava também como 
espia e informadora das actividades e conversas dos "inquilinos" do 2.° andar. 
Procurando agradar e mostrar-se agrade
cida, Miss Chien nunca ultrapassava, contudo, os limites que lhe haviam sido 
traçados. Ela e Lydia tornaram-se amigas. De nós todos, Lydia era a única que 
tomava chá com eles na antecâmara do 1º andar.
Ficávamos sentidos com os padrões duplos que nos eram estabelecidos. Lydia 
mantinha uma série de encontros no 2.° andar. Propusemos diversas estratégias. 
Greve da fome? Uma rebelião? Uma entre
vista a sós com o pai? Uma carta anónima dando conta de todas as injustiças? 
Cochichávamos, queixávamo-nos e sentíamo-nos verdadeiros conspiradores. Fizemos 
muitos planos. Nenhum foi posto em prática. Um domingo à tarde James levantou-se
para ir à casa de banho a meio de um dos nossos planos secretos; encontrou Niang
a escutar atrás da porta entreaberta. Encararam-se fixamente durante alguns 
segundos terríveis. Niang levou, então, os dedos aos lábios e fez-lhe sinal que 
continuasse o seu caminho. James percebeu que tínhamos sido apanhados. 
Trancou-se na casa de banho durante muito tempo, temendo as represálias. 
Finalmente regressou. Niang já lá não estava. Lydia ainda fazia planos. Foi um 
silêncio de morte quando James nos revelou a sua descoberta. Ficámos 
aterrorizados. Quando a sineta do jantar tocou, a reunião terminou abruptamente 
e descemos em silêncio para a sala de jantar. Mas a refeição começou e acabou 
sem que o assunto fosse mencionado. Começámos a duvidar da história de James e 
de que estivesse no seu juízo perfeito, mas foi sol de pouca dura.
A nova estratégia de Niang era dividir para reinar. Alguns dias mais tarde Lydia

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foi chamada ao Santo dos Santos (o quarto do pai e de Niang) e foi informada de 
que se devia mudar para um quarto que estava vago no 1.° andar. Ofereceram-lhe 
uma secretária só para ela, uma cómoda e uma colcha de renda branca novinha em 
folha com cortinados a condizer. Tínhamos de bater à porta antes de poder entrar
nos seus domínios. Ficámos roídos de inveja.
A partir desse dia Lydia passou a ocupar os dois andares e os dois lados das 
nossas vidas. Tal como Miss Chien, também ela levava
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histórias aos ouvidos do pai e de Niang. Contava-lhes coisas não só sobre os 
três rapazes e sobre mim, mas também sobre a Ye Ye e a tia Baba. Como recompensa
recebia pequenos favores: doces, presentes, dinheiro, roupas novas, saídas com 
os amigos. Com o passar do tempo desenvolveu uns ares que a distinguiam de 
qualquer um de nós e que nos recordavam permanentemente o seu "estatuto 
especial".
por vezes, quando descia ou subia as escadas, via Lydia à porta do quarto de 
Franklin e Susan, a pedir uma fatia de bolo de castanha e natas ou uma 
sanduíche. A sua postura aduladora revoltava-me muito. Quase não suportava ouvir
a sua vozinha queixosa, pedinchando e tentando levar o espertalhão do Franklin a
dar-lhe "uma dentadinha" das gulodices. Nessas alturas eu passava por ela sem 
olhar e desejava tornar-me invisível. James comentou uma vez que preferia morrer
de fome a ter de pedir comida a Franklin.
Na escola, Lydia era excelente em Inglês, mas fraca em Matemática e Ciências. O 
pai pediu-lhe que ajudasse Gregory nos trabalhos de casa de Inglês. Munida da 
autoridade de uma professora, o seu poder crescia de dia para dia. Sem medo, 
Gregory ripostava. As lições de Inglês depressa se transformaram em sessões de 
gritaria.
- És ignorante, preguiçoso e pateta! Já a semana passada te tinha dito que 
estudasses estes verbos de inglês!
- E tu és uma idiota! Imagine-se não saberes como se resolvem fracções e 
apanhares um zero no teste de Matemática! ~ ~Da ling data (Ovo grande e redondo 
que nem um zero!).

 

É isso que

tu és!

Furiosa, Lydia pregou a Gregory uma sonora estalada, esquecendo-se de que 
Gregory era já mais alto e mais forte do que ela. Gregory levantou-se e 
agarrou-a pelo braço saudável:
- Se tornas a fazer-me isso, dou-te um soco que te deito ao chão. Sai já do meu 
quarto!
Lydia foi fazer queixa a Niang. Quando o pai chegou, Gregory recebeu uma 
repreensão e, como castigo, foi posto num canto com a cara voltada para a parede
durante trinta minutos. Gregory resmungou que estava a fazer mais progressos em 
Inglês do que ela em Matemática. Além disso, qualquer pessoa podia ver que ele 
tinha a cara inchada da bofetada de Lydia. Gregory queixava-se de que ela tinha 
uma direita tão forte como o campeão de boxe americano Joe Louis e que a força 
que tinha do lado direito compensava a fraqueza do esquerdo.
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Depois deste incidente acabaram-se as lições de Inglês. A Matemá_ tica de Lydia 
não melhorava. Quando as fichas de avaliação eram distribuídas no final de cada 
período, a sua média rondava perigosa
mente os níveis negativos. O único de nós todos que conseguia ter um 
aproveitamento ainda mais baixo era Franklin, mas o pai achava que o seu cérebro
ainda não estava suficientemente maduro para um estudo a sério. O pai repreendeu

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Lydia no Santo dos Santos e disse-lhe que se concentrasse na Matemática. Ela 
saiu de lá com os olhos vermelhos e o nariz a fungar e apregoou aos quatro 
ventos que fizera o melhor, mas que a Matemática era muito mais difícil em 
Aurora do que tinha sido em St. Joseph, em Tianjin.
Em St. John os rapazes aprenderam a jogar brídege com os colegas e, apesar de eu
ter apenas 7 anos, ensinaram-me a jogar, porque eram precisos quatro elementos. 
Um domingo Lydia encontrou-nos a jogar
brídege. Depois de ter estado a ver o jogo durante uns momentos, ficou sentida e
achou que não lhe ligávamos nenhuma, tão absorvidos estávamos no jogo. De súbito
ordenou-me que lhe desse o lugar, porque também queria jogar. A pontuação dos 
jogadores era muito semelhante e o jogo estava aguerrido. De longe o melhor 
jogador, Gregory, como um verdadeiro cavalheiro, tinha-me escolhido como 
parceira de jogo. Levava o jogo de brídege muito a sério e era capaz de gritar e
de se enfurecer de cada vez que eu jogava a carta errada ou perdia um trunfo. 
Embora detestasse que me chamassem palerma e ignorante, aceitava estes insultos 
porque o raciocínio de Gregory era sempre lógico e tinha elevadas capacidades. 
Agora era Lydia a parceira de Gregory. O jogo estava mais complicado do que ela 
tinha esperado. Cálculos matemáticos rápidos e avaliação de probabilidades não 
eram o seu forte. Para delírio de Edgar e James, os novos parceiros começaram a 
perder jogada após jogada.
Pouco disposta a aceitar as críticas de Gregory, que surgiam num volume cada vez
mais elevado, Lydia atirou com as cartas e precipitou-se escada abaixo, jurando 
que não voltaria a jogar com Gregory. Este
replicou que preferia jogar comigo, com Franklin ou mesmo com Susan, que tinha 3
anos, a ter Lydia por companheira de jogo. Nessa mesma noite, ao jantar, o pai 
repreendeu Gregory por ter faltado ao respeito à sua irmã mais velha.
O tratamento especial concedido a Lydia tornava-se cada vez mais visível. Uma 
das recordações que tenho é a de Lydia a subir as escadas
num domingo à tarde com um bonito vestido cor-de-rosa de corte ocidental, 
sapatos a condizer, a cantarolar melodias do último filme de Hollywood e a fazer
tilintar o dinheiro que trazia no bolso. Sem parar, com ar de desdém, colocou em
frente de cada um dos meus irmãos a quantia exacta para os bilhetes de eléctrico
dessa semana, evitou olhar para mim e apressou-se escada abaixo. Em silêncio, os
rapazes contaram as moedas enquanto ela cantarolava ainda Yot~ are the 
strttshijie ...
Ela entrou na antecâmara; a porta bateu atrás dela e o silêncio encheu o hall. 
Finalmente, Gregory explodiu:
- Exibicionista!.
Indiscutivelmente, Lydia tinha-se tornado um dos membros do mundo elitista de 
Niang.
Em Xangai, a tia Baba também atravessava momentos difíceis, pois já não possuía 
o lugar informal, mas respeitado, que tinha em Tianjin. Niang retirara-lhe 
importância e fazia que se sentisse como uma solteirona perfeitamente 
dispensável.
A tia Baba fora sempre uma mãe para mim. Nessa altura aproximámo-nos ainda mais.
Ela dava a maior atenção a tudo quanto me dizia respeito: a minha aparência, a 
minha saúde e a minha personalidade. Acima de tudo, preocupava-se com a minha 
instrução, provavelmente porque a sua tinha sido abreviada. Todas as noites a 
tia Baba verificava os meus trabalhos de casa. Nos dias em que tinha teste 
acordava-me às 5 da manhã, para sair para a escola com a cabeça cheünha de 
revisões de última hora. Estava decidida a que eu obtivesse um grau 
universitário ... o meu bilhete de partida, a passagem para a independência, 

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para sucessos sem fim. Havia coisas que ela não dizia, mas eu entendia. Ela 
sabia que eu era a criança menos amada por ser uma rapariga e, além do mais, 
pelo facto de a minha mãe ter morrido ao dar-me à luz. Nada do que eu fazia 
parecia agradar ao pai, a Niang ou mesrno a algum dos meus irmãos. Contudo, 
nunca deixei de acreditar que, se me esforçasse o suficiente, um dia mais tarde 
o pai, Niang e todos os membros da minha família ficariam orgulhosos de mim.
Por essa razão eu estudava a sério, não só para agradar à minha tia, mas também 
porque eram esses os únicos momentos em que eu podia libertar-me, esquecer-me 
dos meus medos e, durante algum tempo, sair daquela casa tão cheia de manobras 
sinistras e maquinações obscuras.
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Na escola ganhei a alcunha de "génio" porque era a melhor aluna em todas as 
matérias, excepto em Arte. Por detrás desta perfeição escolar enervante, as 
minhas colegas apercebiam-se da minha vulnera_
bilidade e do meu desejo de ser aceite por todas. Elas devem ter percebido que 
havia em mim qualquer coisa de patético. Eu nunca falava da minha família, não 
tinha brinquedos, ornamentos ou roupas bonitas. Nunca tinha dinheiro para 
comprar doces ou para ir a passeios. Recusava todos os convites para ir a casa 
das colegas e nunca convidava ninguém para ir a minha casa. Não confiava em 
ninguém, mas ia para a escola todos os dias com uma enorme solidão dentro de 
mim.
Em casa fazia os meus trabalhos da escola, inventava jogos nos meus momentos de 
solidão e lia as novelas de Kmag Fu.
Deve ter sido muito esquisito para uma Niang de 23 anos admitir a presença de 
cinco enteados perante os amigos do pai. Suspeitávamos que negava frequentemente
a nossa existência e que, intencionalmente, dava a impressão de que o pequeno 
Franklin e o bebé Susan eram os únicos filhos do pai. Foi por esse motivo que 
fomos agradavelmente surpreendidos quando um dos colegas do pai veio visitar-nos
e trouxe como presente uma grande caixa, dentro da qual descobrimos, deliciados,
sete patinhos. Como sempre, Franklin e Susan foram os primeiros a escolher. 
Lydia, Gregory, Edgar e James escolheram a seguir. Quando chegou a minha vez, 
restava-me o patinho mais pequenino, o mais magrinho e o mais fraquinho, com uma
cabecita minúscula e uma penugem amarela, fofa e macia. Apaixonei-me 
imediatamente por ele e dei-lhe o nome de Pequeno e Precioso Tesouro ou, 
abreviadamente, PPT.
A PPT tornou-se, desde logo, tudo para mim. Eu devia ter uns oito anos na 
altura. Depois da escola costumava ir para casa a correr para pegar na PPT ao 
colo e levá-la toda ternurenta desde o terraço até ao quarto que partilhava com 
a minha tia. Fazia os trabalhos de casa com a PPT a saltitar de uma cama para a 
outra. A tia Baba nunca se queixava quando me ajudava a lavar as penas da PPT 
com champó ou quando tinha de fazer uma limpeza depois dos seus pequenos 
descuidos.
Por vezes eu explorava o jardim à procura de vermes para o jantar da PPT. Um 
sábado, acho que me aproximei de mais dos domínios de Jackie, o feroz 
pastor-alemão que o pai tinha. O cão disparou na minha direcção, ladrou 
furiosamente, como era seu hábito, e mostrou os den
tes afiados. Tentei acalmá-lo, estendendo a mão para lhe fazer festinhas na 
cabeça, mas ele ferrou os dentes no meu pulso esquerdo. Consegui soltar-me e 
corri para o meu quarto. Estava a lavar o sangue quando a tia Baba entrou. 
Quando a vi, desfiz-me em lágrimas.
A tia Baba pegou em mim e embalou-me, secou-me as lágrimas e entendeu o meu 

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desgosto. Jackie era o animal de estimação deles. Seria melhor não dizer nada, 
não causar sarilhos, não chamar a atenção. Tratou da ferida com mercúrio, 
algodão e fez um pequeno penso. Depois confortámo-nos uma à outra à nossa 
maneira habitual: a observar as minhas fichas de avaliação desde as do jardim de
infância até outras mais recentes.
A nossa arma secreta, o nosso plano mais importante, estava nesses registos. 
Será que um dia seria uma escritora famosa? Banqueira? Cientista`? Médica? Bem, 
qualquer coisa, desde que fosse famosa. E as duas juntas, sozinhas, divagávamos 
sobre este assunto.
Entretanto tínhamos de ter boas notas. A tia Baba estava extraordinariamente 
orgulhosa do meu êxito nos estudos. De cada vez que recebia uma folha de 
informações, observava-a com toda a atenção, visivelmente emocionada
- Oh, olhem só para isto! Um A em quatro disciplinas e um B+ em Desenho! De 
certeza que este ano vamos ser as melhores da aula outra vez!
A tia Baba fez-me acreditar que eu era brilhante. O orgulho que sentia nos meus 
pequenos êxitos inspirava-me. Todas as folhas informativas que recebia eram 
guardadas num cofre, cuja chave pendurava ao pescoço, como se as minhas notas 
fossem tesouros preciosos e impossíveis de substituir. Quando a vida nos corria 
mal, ela retirava-as do cofre para nos consolar e observávamo-las juntas.
- Vês esta aqui? Com 6 anos e já na 1 ° classe e com "As" em todas as 
disciplinas! Meu Deus!
E acrescentava:
- Eu acho que não há ninguém que queira ir para a universidade e tenha umas 
notas tão boas como estas.
Outras vezes dizia:
- Vais ser uma banqueira de sucesso, tal como a tua tia-avó, e vamos trabalhar 
juntas no nosso próprio banco.
Nesse sábado, enquanto percorríamos as folhas de avaliação, esqueci-me da dor 
que tinha no pulso e fomos felizes ... até à hora do jantar.
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Estava uma noite de Verão quente e húmida e o pai decidira que nos 
refrescássemos na relva do jardim. Jackie andava a receber treino de obediência 
por um treinador alemão, Hans Herzog. O pai queria verificar os progressos.
- Depois do jantar - anunciou o pai - vamos sentar-nos no jardim e testar o 
Jackie com um daqueles patinhos que ofereceram às crianças.
Nesse momento o meu apetite desapareceu, um arrepio de horror percorreu-me o 
corpo, enquanto o meu pai se virava para o meu irmão mais velho:
- Vai buscar um dos patinhos à gaiola para eu fazer o teste - ordenou.
Soube imediatamente que o meu patinho era o que estava destinado a morrer.
Gregory correu para o terraço e regressou com a PPT. Evitou encarar-me. Mais 
tarde, quando estávamos sozinhos, disse-me:
- O patinho sacrificado tinha de ser o que pertencia ao dono mais fraco. Não é 
uma questão pessoal, percebes?
O pai colocou a PPT na palma da mão e dirigiu-se ao jardim. Senti uma náusea. A 
PPT parecia tão frágil e cheia de vida. Jackie saudou o dono alegremente. Estava
uma noite linda. A Lua estava cheia. As estrelas brilhavam. O pai sentou-se numa
cadeira de jardim com Niang, a tia Baba e Ye Ye a seu lado. Nós, as crianças, 
sentámo-nos na relva. Eu tremia à medida que o pai colocava cuidadosamente a PPT
na relva; partiu-se-me o coração.
Jackie recebeu ordem para se sentar a cerca de 2 metros de distância. O cão 
arfou, resistiu, impacientou-se, mas sentou-se. De súbito, PPT viu-me. Piou 

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suavemente e moveu-se na minha direcção. Nesse instante Jackie saltou. Um salto 
preciso eJackie tinha a perna esquerda de PPT entre as suas poderosas 
mandíbulas. O pai precipitou-se, zangado com a desobediência de Jackie. Jackie 
largou imediatamente o meu patinho, mas o mal já estava feito.
Dei uma corrida e apanhei o meu bichinho de estimação. A perna balouçava, solta 
em relação ao corpo, o seu pezito minúsculo, unido pela membrana, torcido num 
ângulo grotesco. Uma onda de desolação maior do que todas as outras que tinha 
conhecido desceu sobre mim. Sem articular uma única palavra, levei-a para o meu 
quarto, coloquei-a sobre a cama com todo o cuidado, embrulhei-a no meu melhor 
cache

74
col e deitei-me a seu lado. Nunca consegui esquecer a noite que passei com pPT. 
Vivi uma tristeza esmagadora, da qual nunca consegui falar a nenhum dos meus 
amigos. Não havia ninguém que me pudesse ter compreendido, nem mesmo a minha 
tia.
ppT recusou-se a comer, a beber e morreu muito cedo, na manhã seguinte. A tia 
Baba deu-me uma antiga caixa de costura, que eu usei como caixão. James e eu 
enterrámo-la juntos debaixo da magnólia, que nessa altura floria em pleno. Ainda
hoje não sou capaz de sentir o cheiro das magnólias sem experimentar a mesma 
sensação de perda irrecuperável. Colocámos um ramo de flores numa garrafa de 
leite em frente da campa e juntámos um prato já velho com alguns grãos de arroz,
um pouco de água e as minhocas que PPT adorava.
Enquanto estávamos assim, lado a lado, lamentando aquela perda, James olhou para
a minha cara manchada de lágrimas e murmurou, procurando consolar-me:
- Não há-de ser sempre assim. Vais ver que as coisas vão melhorar ... Stta~t le!
Senti-me grata, mas foi difícil agradecer-lhe. Em vez disso respondi: - Hoje é 
domingo e ainda estão todos a dormir. Não sei porquê, mas neste momento parece 
que somos só nós dois contra o mundo todo!
A ferida no meu pulso sarou, mas a cicatriz ficou, como uma homenagem a um amigo
caído, acompanhando-me sempre, fizesse o que fizesse, fosse para onde fosse.
Quando eu tinha 10 anos, houve dois acontecimentos que ocorreram num espaço de 
poucos dias e que fizeram deteriorar substancialmente a minha relação com Niang.
Uma das minhas colegas convidou-me para a sua festa de anos, que calhou num 
feriado católico: um dia feriado no colégio das freiras de Sheng Xin, mas não 
nas outras escolas.Embora soubesse que estava proibida de ir a casa de qualquer 
uma das minhas amigas, pensei que, se planeasse tudo com cuidado, não seria 
descoberta.
Na manhã do dia da festa vesti o meu uniforme do colégio e peguei na pasta como 
se fosse para a escola. A tia Baba tinha-me oferecido uma moeda de prata, que eu
guardara cuidadosamente. Coloquei-a no bolso para, depois do almoço, comprar uma
prenda de anos à minha amiga. Encontrámo-nos na casa dela, que ficava a curta 
distância da

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minha, e passámos uma manhã maravilhosa a brincar com a sua enorme colecção de 
bonecas. O meio-dia chegou rapidamente. (Por essa altura, as rações C dos 
Americanos já se tinham esgotado e eu era esperada em casa à hora do almoço. 
Davam-me dinheiro para o eléctrico, mas apenas para a viagem de ida e volta à 

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hora do almoço.) Disse às minhas colegas que tinha de ir a casa fazer um recado,
mas que voltava daí a uma hora. Pediram-me o meu número de telefone e eu dei-o, 
sem pensar.
Corri até casa, muito bem disposta, e dirigi-me ao meu quarto. Aí, 
inesperadamente, dei de caras com Niang. Nunca descobri o que estava ela lá a 
fazer.
Ela foi apanhada de surpresa e, tal como eu, sobressaltou-se. - Porque já estás 
em casa tão cedo? - perguntou ela.
- Bem, saí um pouco mais cedo - menti eu e, estupidamente, acrescentei -, saí da
escola, é claro!
- Vem cá! - ordenou ela, desconfiada.
Lembro-me de sentir o coração aos saltos, à medida que me aproximava dela. Niang
estava irrepreensivelmente penteada, impecavelmente vestida: uma pantera pronta 
a saltar sobre a sua presa.
Revistou-me e encontrou o dólar de prata que a tia Baba me tinha oferecido.
- De onde é que isto veio? - perguntou.
Eu menti, tentei fugir à questão, senti-me como um verme. Eu não ia, não podia 
implicar a tia Baba no assunto. O interrogatório continuou.
Ela esbofeteou-me com força. Uma, duas, três vezes. O interrogatório 
prolongou-se, parecia não ter fim.
- A quem é que roubaste isto? Não houve resposta.
- Vendeste alguma coisa de cá de casa? - perguntou ela.
Eu estava mesmo a pensar em confessar um roubo como solução para aquele assunto,
quando ambas reparámos na nova empregada que estava de pé, timidamente, à 
entrada da porta.
- Desculpe interrompê-la, ,~ ~ ~, Yen tai tai (Sr.a Yen) - disse a rapariga -, 
há uma chamada telefónica para ela ... - e apontou para mim.
Lembrei-me de repente de que tinha as amigas à minha espera para . continuarmos 
a brincadeira. Deviam ter-se cansado de esperar e telefo
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naram-me. Niang correu ao telefone, que estava ao fundo das escadas. Conseguia 
ouvir-lhe a voz, num tom melado, revoltante.
. A Adeline agora está ocupada. Fala a mãe. Quem está ao telefone, por favor?
Seguiu-se uma curta pausa ...
-Mas não têm de ir hoje à escola?... Ah, sim, estou a ver. Porquê? Um feriado? 
Que bom! E o que é que estão todas a fazer? - Seguiu-se o inevitável. - A 
Adeline não poderá voltar a vossa casa esta tarde. Eu digo-lhe que telefonaram, 
mas não esperem mais por ela.
Regressou e olhou-me nos olhos:
- Não és só uma ladra; és também uma mentirosa e calculista. O problema é teres 
~ o sangue ruim da tua mãe. Nunca serás nada na vida! Quanto a mim, nem sequer 
mereces viver e ser alimentada nesta casa. O teu lugar é num orfanato!
Enquanto o mundo se desmoronava à minha volta, ela ainda acrescentou:
- Ficas no teu quarto até o teu pai chegar a casa! Não tens direito a comer seja
o que for enquanto este assunto não estiver resolvido! Sentia-me assustada e na 
maior das misérias. Sozinha, sentei-me no meu quarto, no 2.° andar, e pus-me a 
olhar para Jackie, que andava inquieto pelo jardim: para a frente e para trás, 
para a frente e para trás. O barulho da louça e risos fez-se ouvir na antecâmara
do 1.. andar, onde o chá era servido. Pouco depois Franklin surgiu na varanda 
com um prato de bolinhos. Indiferente, vi-o cuspir bolo de castanhas, rolinhos 
de salsicha e sanduíches de galinha para Jackie, que saltava deliciado e deitava
as garras a estas maravilhas. Lembro-me ainda de desejar ardentemente poder 

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transformar-me em Jackie, nem que fosse apenas por umas horas: sem ralações, 
sempre alegre e bem alimentado.
Mais tarde, o pai veio ter comigo ao quarto, sombrio e trazendo consigo o 
chicote que Hans, o treinador do cão, lhe tinha oferecido no último Natal. 
Quando me perguntou sobre o dólar de prata, não consegui mentir.
Ordenou-me que me deitasse na cama de barriga para baixo e deu-me com o chicote 
no rabo e nas pernas. Enquanto ali estava a tremer de dor e de vergonha vi um 
rato atravessar o soalho, as orelhas alerta e uma longa cauda movimentando-se de
um lado para o outro. Quis gritar de pânico, mas permaneci em silêncio enquanto 
durou a sova.
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Então, o pai enrolou o chicote no braço e declarou que a tia Baba era uma má 
influência para mim e que teríamos de ser separadas. Só de pensar em tal 
possibilidade me sentia apavorada.
Dois dias mais tarde, estava eu ainda dentro de uma espécie de nuvem, desabou a 
segunda catástrofe. Por ter sido sempre a melhor aluna durante quatro anos 
consecutivos, fui eleita chefe de turma. Na
mesma tarde em que celebrava o meu triunfo fui a pé para casa, eufórica, 
esquecendo-me, por momentos, das minhas desditas. Um grande grupo de colegas 
lideradaspela minha chefe de campanha- deviam ser umas doze ao todo - tinha 
decidido seguir-me em segredo até minha casa para me oferecer uma 
festa-surpresa. Cinco minutos depois de eu ter entrado em casa a campainha 
tocou. A empregada foi abrir e descobriu um grupo de rapariguinhas risonhas e 
bem dispostas vestidas com o mesmo uniforme, todas elas gritando que queriam 
ver-me. Ciente do regime que vigorava em minha casa e da desgraça em que eu 
própria me encontrava, ela hesitou; depois pediu que entrassem para a sala de 
estar e subiu as escadas calmamente até ao 2.° andar.
Já não me lembro do nome da empregada, mas lembro-me perfeitamente da expressão 
alarmada do seu rosto ao dizer-me quase em segredo;
- Um grupo de rapariguinhas lá da sua escola veio visitá-la. Perguntam por si.
Empalideci de preocupação: - Niang está em casa?
- Receio bem que sim. E o seu pai também. Estão no quarto. - Importa-se de dizer
às minhas amigas que não estou em casa? - perguntei já em desespero de causa.
- Receio bem que não. Tentei dizer algo de semelhante quando fui abrir a porta, 
mas parece que a seguiram até aqui e que a viram entrar em casa. Querem 
fazer-lhe uma festa-surpresa por ter ganho as eleições para chefe de turma. A 
intenção é boa.
- Eu sei.
Não tive outro remédio senão descer e ir cumprimentar as minhas amigas. Enquanto
percorria vagarosamente as escadas atrás da criada, já se ouvia a euforia 
incontrolável de uma dúzia de meninas de 10 anos a ecoar por toda a casa.
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Os dez minutos seguintes formam um conjunto difuso e sombrio na minha memória. 
As minhas colegas estavam demasiado excitadas e felizes para se aperceberem do 
silêncio inexpressivo da minha cara. Juntaram-se à minha volta, gritando-me os 
parabéns, cheias de alegria e rindo-se às gargalhadas. O meu estômago 
contorcia-se.
"Eu só tenho 10 anos", dizia eu de mim para mim, "não pedi a ninguém para cá 
vir. De certeza que Niang não me vai matar por isto." Nesse preciso momento a 
criada reapareceu à porta:
-A sua mãe quer vê-la.já.

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Com esforço, fiz qualquer coisa parecida com um sorriso.
- Desculpem - disse eu. E acrescentei com um encolher de ombros: - O que quererá
ela agora?
Deslizei escada acima e plantei-me em frente da porta fechada do quarto deles, o
Santo dos Santos. Não conseguia pensar em nada e tinha os olhos rasos de água 
quando bati à porta. Estavam à minha espera. Encontravam-se sentados lado a lado
na pequena alcova que dava para o jardim. Através das brilhantes vidraças 
panorâmicas avistei Jackie, que saltitava entre os arbustos atrás de um 
passarinho.
Assim que entrei percebi logo que ia ser pavoroso. Quando tentei fechar a porta 
atrás de mim, Niang anunciou com uma doçura grotesca:
- Deixa a porta aberta. Em nossa casa não há segredos.
Fiquei de pé em frente dos meus pais. -Em silêncio, o único barulho que ouvíamos
eram os risos de contentamento que voavam escada acima.
- Quem são esses selvagens que estão lá em baixo na sala de estar? - perguntou 
Niang em voz alta, fumegando raiva.
- São minhas amigas.
Serrei os punhos e senti as unhas cravarem-se na palma das mãos, mas estava 
decidida a não chorar.
- Quem é que as convidou?
-Ninguém. Foram elas que decidiram vir para comemorar a minha vitória como chefe
de turma.
- Esta festa é ideia tua?
- Não, Niang. Não tenho nada a ver com isso. - Vem cá! - gritou ela.
Devagar, relutantemente, aproximei-me da cadeira onde estava sentada. Deu-me uma
bofetada com tanta força que pèrdi o equilíbrio.
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- Estás a mentir! - continuou ela - Planeaste tudo, não foi, para mostrares a 
tua casa às tuas amigas que não têm um tostão. Pensaste que nós não estávamos em
casa.
- Não, Niang, não foi assim.
Já não conseguia segurar as lágrimas quentes que me corriam pela cara abaixo.
- O vosso pai trabalha tanto por vocês todos e no fim vem para casa para dormir 
a sesta e não consegue ter um minuto de sossego. Isto não pode ser! Sabes muito 
bem que não podes convidar as tuas amigas para virem cá a casa. Como é que te 
atreves a convidá-las para a sala de estar?
- Já disse que não as convidei! As minhas amigas sabem que eu não posso ir a 
casa delas depois da escola e acho que foi por isso que decidiram vir até aqui. 
Elas não sabiam que era proibido.
Ela deu-me outra bofetada, desta vez com as costas da mão.
- Mentirosa! Planeaste isto tudo só para te armares! Hei-de ensinar-te que não 
se fazem as coisas às escondidas! Vai já lá abaixo e diz àquele bando de 
selvagens que se vão embora imediatamente. E diz-lhes também que nunca mais cá 
voltem. Nunca mais! Nunca mais! Nunca mais! Elas não são bem-vindas!
Saí do quarto e arrastei-me penosamente pela escada abaixo para enfrentar as 
minhas amigas. Um silêncio constrangedor tinha já substituído a alegria 
anterior. Limpei o nariz e os olhos à manga e vi uma mancha de sangue. 
Horrorizada e envergonhada, descobri que as bofetadas de Niang me tinham posto o
nariz a sangrar e que a minha cara estava marcada com uma mistura de lágrimas 
ensanguentadas.
Quando regressei à sala de estar para enfrentar as apoiastes da minha campanha, 

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devia estar numa bela figura. Despida de quaisquer defesas, obviamente mal amada
e indesejada pelos meus próprios pais, não fui capaz de olhar para elas olhos 
nos olhos e elas também não conseguiram olhar para mim. Sabiam que eu sabia que 
elas tinham ouvido tudo. As minhas amigas não faziam a mínima ideia de como era 
a minha situação familiar. Perante o mundo exterior eu fazia um esforço 
desmedido para dar a ideia de que fazia parte de uma família encantadora. Agora,
a máscara que eu tão cuidadosamente tinha preservado fora arrancada, deixando 
transparecer uma realidade patética. Tentei arranjar um pouco de dignidade e 
disse para a geral:
- Desculpem, o meu pai precisa de dormir. Eles pedem-me que vos diga que se vão 
embora.
A minha chefe de campanha, Wu Chun-mei, uma rapariga alta e atlética, cujo pai 
era um médico formado na América, tirou o lenço e deu-mo~ Enervada com esta 
atitude, procurei agradecer-lhe com um sorriso, mas, não sei como, não fui capaz
quando vi a compaixão estampada nos seus olhos vermelhos. Então, com as lágrimas
a correr, disse-lhes:
- Obrigada por terem vindo. Nunca me esquecerei da vossa lealdade.
Saíram umas atrás das outras, deixando ficar os presentes que tinham trazido. Wu
Chun-mei foi a última a sair. Quando passou pelas escadas, gritou subitamente lá
para cima:
- Isto é injusto! Vocês são bárbaros e cruéis! Vou dizer ao meu pai!
Agarrei nos meus presentes e subi as escadas. A porta do quarto deles estava 
escancarada. O pai chamou-me e ordenou-me que fechasse a porta. Ficámos os três 
sozinhos.
- A tua Niang e eu - começou o pai - estamos muito preocupados com o teu 
comportamento e a tua atitude. Convidaste as tuas amiguinhas para cá virem a 
casa hoje à tarde, não foi?
Em silêncio, abanei a cabeça, negando.
O pai olhou para o meu monte de presentes, alguns embrulhados em bonitos papéis 
coloridos e com laços.
- Põe-os em cima da cama -ordenou - e abre-os. Apressei-me a obedecer. Ficámos a
olhar para uma variedade de coisas: uma novela de Kung Fu, alguns livros de 
banda desenhada, um jogo de damas chinesas, pacotinhos de coisas boas: carne 
seca, ameixas em conserva, sementes de melão, tirinhas de gengibre adocicado, 
limas com sal, amendoins~3, uma folha de papel de caligrafia com a palavra 
"vitória" pintada numa letra grande e infantil, uma corda de saltar. - Pega em 
tudo e deita no cesto dos papéis.
Obedeci o mais depressa que pude.
- Porque se lembraram as tuas amigas de cá vir e de te oferecer prendas? - 
perguntou Niang.
- Acho que foi por causa de eu ter ganho as eleições hoje. Agora eu sou chefe de
turma. Esforcei-me muito por isso ...
z' Conjunto de aperitivos muito apreciados pelos Chineses, que conjugam 
frequentemente os sabores doce e salgado. (N. da T.)

81
- Deixa-te de histórias! - gritou Niang. - Com é que te atreves? Não me 
interessa nada do que dizes ser na escola; aqui não és nada sem o teu pai. Nada!
Nada! Nada!
O pai falou calmamente:
- Atua Niang e eu estamos especialmente preocupados com o facto de teres tentado

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virar as tuas amigas contra nós e de teres pla_ neado trazê-las cá a casa para 
nos insultarem.
- Mas eu não fiz nada disso.
- Não contradigas o teu pai! Estas a tornar-te uma menina muito orgulhosa! O que
pensas que és`? Alguma princesa a quem as tuas colegas devam prestar vassalagem?
- Wu mei! (Quinta filha mais nova!) - acrescentou o pai tristemente. - Na 
verdade, não nos resta outra solução. Jia chou bu ke wai yang (As mazelas da 
família nunca devem ser mostradas em público). Quebraste a confiança que 
depositávamos em ti quando pediste às tuas amigas que nos insultassem.
- O que é que me vai acontecer? - perguntei a medo.
- Ainda não sabemos - foi a resposta cruel que recebi do pai. - Já que não és 
feliz cá em casa, terás de ir para outro lugar.
- Mas para onde é que eu posso ir`? - perguntei eu.
E já me via vagueando sem destino pelas ruas de Xangai. Já tinha visto bebés 
abandonados embrulhados em jornais deixados à beira da estrada e crianças 
andrajosas à procura de restos de comida nos caixo tes de lixo. Havia alguns 
pobres nas redondezas da nossa casa, a elegante Avenida Joffre, todavia 
reduzidos às cascas dos plátanos que ladeavam a rua. Fiquei aterrorizada.
Caí de joelhos em frente deles, esperando comover o pai e amolecer Niang. Em vez
disso ele afirmou:
- Nos tempos difíceis que atravessamos devias era estar agradecida por teres uma
casa que te recebe e arroz na tua tigela todas as noites.
- E estou, pai.
- Pede desculpa à tua Niang. - Desculpe, Niang.
- Não sabes a sorte que tens - disse ela. - Vais sair do quarto da tia Baba. Na 
verdade, não devias sequer voltar a falar com ela. Ela é uma má influência para 
ti. Estragou-te com mimos, alimentou a tua arrogância e ainda te ensinou a 
mentir e a enganar os outros, dando-te
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dinheiro sem nós sabermos. Entretanto vamos procurar um orfanato para ti até 
teres idade suficiente para ires trabalhar e ganhares o teu sustento. O teu pai 
já tem preocupações suficientes para ainda ter de se preocupar com gente da tua 
laia. É tudo.
- Obrigada, pai. Obrigada, Niang.
Levantei-me, lancei um olhar demorado ao cesto dos papéis e fui para o quarto 
que partilhava com a tia Baba, talvez pela última vez. Os meus olhos foram cair 
sobre os livros que tinha deixado em cima da minha secretária, antes de a criada
me ter chamado. Havia composições, trabalhos de história, matemática, inglês e 
caligrafia à espera de serem feitos. Com grande determinação, deitei-me ao 
trabalho ... e iniciei a minha fuga para o meu mundo escolar, onde as regras 
eram simples, justas e imutáveis, um mundo de que Niang não fazia parte e onde a
sua autoridade sobre mim não existia.
A minha angústia desaparecia à medida que ia escrevendo. O meu nariz parou de 
sangrar. A cara já não me doía. Só via números e letras negras em folhas de 
papel muito branco. Os problemas eram um desafio e chamavam por mim. As soluções
compensavam-me e gratificavam-me. Eu controlava o meu destino. À medida que ia 
terminando cada uma das tarefas, havia um vazio que se preenchia dentro de mim.
Nessa noite, depois de um jantar cheio de pressentimentos e durante o qual nem o
pai nem Niang olharam para mim ou me dirigiram a palavra, fui direita para o meu
quarto. A tia Baba tinha saído para jogar ntah jottg. Com os trabalhos de casa 
acabados, não conseguia arranjar mais nada para fazer. O desespero chegou a 

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pouco e pouco. Niang estava à beira de me arrancar a única pessoa que me amava.
Uma após outra, as horas foram passando. Não conseguia dormir. Escorreguei para 
fora da cama e sentei-me, às escuras, no cimo das escadas, à espera de ouvir os 
passos da tia Baba. Já passava das 11. Ela devia estar a chegar. Pensei em 
fugir, em apanhar um comboio para a longínqua província de Sichuan, na fronteira
com o Tibete. Através das minhas novelas de Kung Fu tinha conhecido mosteiros 
budistas situados nas lendárias montanhas E May, onde os monges rezavam e 
praticavam artes marciais. Talvez algum deles me aceitasse como noviça. Já me 
via como was pessoa experiente nas artes de wu-chu, judo e caraté, saltando 
agilmente sobre telhados, vingando o mal feito aos que têm esperança ...
No escuro, devo ter passado pelas brasas, encostada ao corrimão. Acordei com uma
dor. A luz do hall estava acesa. A figura grosseira
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de Edgar elevava-se comò uma torre. No caminho para a casa de banho tinha 
tropeçado no meu corpo adormecido e estava furioso.
- O que estás aqui a fazer a meio da noite? - perguntou. - Quaso me fizeste 
cair! Idiota! Atravessas-te sempre no meu caminho! Ensonada, esfreguei os olhos.
Achei que era mais seguro ficar calada - Responde, minha estúpida!
Eu continuava muda. Comecei a levantar-me devagar. Por pura maldade, ele 
dobrou-se, agarrou-me no braço e torceu-o com força, Mordi os lábios para não 
chorar. Olhei para ele com ar de desafio, decidida a não dar um pio.
- Responde! - repetiu ele, torcendo-me o braço ainda com mais força.
Nesse preciso momento James saiu do quarto. Em silêncio, olhando em frente, como
se nada visse nem ouvisse, passou por nós apressadamente, em direcção à casa de 
banho. Aliviou-se sem fechar a porta completamente e voltou para a cama.
Edgar deitou-me ao chão e começou a dar-me pontapés, uns atrás dos outros. 
Depois desta amostra de valentia corri para a casa de banho e tranquei a porta. 
Um dos pontapés acertara-me em cheio no nariz, que estava a sangrar muito. 
Fiquei a olhar para o espelho, para a minha cara pisada e ensanguentada e, de 
repente, rompi num choro incontrolável, tentando, ao mesmo tempo, abafar 
desesperadamente os meus soluços, para que Edgar não tivesse o prazer de saber 
que me fizera chorar. A pouco e pouco, a noção de injustiça de tudo aquilo 
tornou-se mais clara e uma fúria terrível foi-se apoderando de mim. Finalmente 
ouvi os passos da tia Baba. Era quase 1 da madrugada.
Bastou-lhe olhar para mim para perceber tudo o que se tinha passado. Enquanto 
contava as minhas mágoas, vi-lhe no rosto que a noite também não tinha sido 
fácil para ela. Estava ligeiramente deprimida, um estado de espírito resultante 
de perdas consideráveis à mesa do mah jo~ig. Contei-lhe que estava a pensar 
apanhar o comboio para a província de Sichuan e pedi-lhe dinheiro emprestado 
para a viagem.
- Mas que grande mistura de ideias boas e disparatadas! Às vezes até me esqueço 
de quantos anos tens!
Eu estava mesmo a falar a sério.
- Confie em mim! - disse-lhe eu - Não vou desperdiçar o seu dinheiro! Vou 
aprender tudo, regresso e ponho tudo nos seus devidos lugares. Vou tomar conta 
de si e de Ye Ye.
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Deixa-te de lirismos! Andas a ler novelas a mais. Se apanhares esse comboio, o 
mais certo é seres raptada e vendida como ya tou (rapariga escrava).

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Ye Ye e eu nunca mais conseguiremos encontrar-te. Mesmo aqui, dentro de Xangai, 
a polícia encontrou uma vez trinta crianças desaparecidas acorrentadas à parede 
de uma fábrica de conservas, cheias de fome e espancadas quase até à morte. 
Aquelas que conseguissem viver para além da infância seriam vendidas para 
bordéis.
wu mei (Quinta filha), tens que saber distinguir entre o sonho e a realidade. 
Concentra-te naquilo que sabes fazer bem. Agarra a instrução que te é dada o 
melhor que puderes. Esquece os mestres de Kung Fu, as artes marciais e todos 
esses disparates. Quanto a Niang, vai ter com ela amanhã e engole a tua 
amargura. Bate-lhe à porta; pede-lhe perdão. Diz-lhe tudo aquilo que ela gosta 
de ouvir. Sabes tão bem
quanto eu aquilo que deves dizer. Que mais podemos nós fazer? É ela q
que tem o dinheiro e o poder. Se for necessário, ajoelha-te e bate com a cabeça 
no chão. Com humildade, pede-lhe o dinheiro para os bilhetes do eléctrico. Se 
fizeres isso, tudo há-de correr bem, vais ver. Agora deita-te e dorme, que 
amanhã é dia de escola.
Deitei-me, mas não consegui dormir. Não podia sequer pensar na ideia de me 
render. Depressa ouvi a tia Baba a ressonar suavemente. À medida que a noite ia 
passando, eu ficava cada vez mais decidida a não me render, independentemente da
crueldade da tortura que me fosse infligida. Sem outras defesas que não a minha 
determinação, a única coisa de que eu tinha a certeza era de que tinha de agir 
assim, na esperança de que Niang não tivesse poder para me derrotar.
85
7
Yuan um qiu yu
Subir às árvores para pescar
Aos 65 anos de idade, Ye Ye viu-se sem um único tostão em seu nome. O pai deixou
claro que tanto Ye Ye como a tia Baba tinham de negociar o seu subsídio com 
Niang. Nunca tal se tinha ouvido, especialmente numa cultura onde os sogros 
raramente se dignam dirigir a
palavra às respectivas noras, quanto mais pedir-lhes dinheiro. Além disso, ao 
quebrar o laço confuciano de piedade filial, o pai estava a destruir o respeito 
próprio de Ye Ye. Gentil, mas com firmeza, Ye Ye recusou, dizendo à tia Baba que
não tinha qualquer intenção de *,~. ~, yzzaza mu gizz yu (subir a uma árvore 
para pescar).
Em vez disso, pai e filha foram visitar a tia-avó ao Women's Bank e a tia Baba 
pediu-lhe que a voltasse a admitir. Na cerimoniosa sala de jantar da tia-avó, no
seu apartamento do 6.° andar, foram recebidos com um delicioso jantar, que 
incluía as iguarias preferidas de Ye Ye: os pratos típicos de Ningpo. Serviu-se 
caranguejo no vapor e fitas amarelas com aroma de peixe, barbatana de tubarão e 
camarões frescos com ervilhas, tenros rebentos de bambu e porco com anis. A tudo
isto
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se juntaram três sobremesas bem ao gosto dos convidados: bolinhas de arroz com 
glúten acompanhadas com pasta de sésamo, pudim das oito delícias e n:ozzsse de 
maçãs silvestres. Com a voz amaciada pelo vinho de an'oz servido quente, os dois
irmãos acabaram por cantar em conjunto algumas áreas das suas óperas preferidas.
Desde a sua fuga de Tianjin vinte meses antes, o pai escondia-se dos Japoneses 
no apartamento da tia-avó durante o horário normal de trabalho. Muitas das suas 
operações financeiras eram executadas através do banco dela. Ela sabia melhor do
que ninguém o dinheiro que o pai estava a ganhar. Agora elogiava o seu sucesso a
Ye Ye e à tia Baba. Receando perder a face, Baba acabou por não mencionar a 

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verdadeira razão do seu pedido. Com o objectivo de proteger o seu filho das 
censuras dos outros, Ye Ye tinha pedido à tia Baba que nunca dissesse a verdade.

Entre pai e filho os assuntos relacionados com dinheiro não voltaram a ser 
discutidos. A tia Baba voltou ao trabalho. No dia de pagamento, ela trazia o seu
salário em dinheiro e depositava metade das notas na gavetinha de cima do lado 
esquerdo da secretária de Ye Ye. Era este o único dinheiro que Ye Ye tinha ao 
seu dispor para as parcas compras de que necessitava: rebuçados, tabaco e ervas 
chinesas, idas ao médico ou ao barbeiro, almoços num restaurante ou, de vez em 
quando, um brinquedo para os seus netos.
Viviam num ambiente de inquietação constante. Niang deixou bem claro que a sua 
presença era penosa. Para salvar as aparências, sorria-lhes sempre, mas eles 
sentiam o desprezo por detrás da máscara. Longe de poder desfrutar de uma 
reforma digna e calma, Ye Ye recebeu um telhado onde se abrigar, três refeições 
diárias e nada mais. O pai nunca visitava o 2.° andar. Quando Niang recebia 
visitas em casa, esperava que Ye Ye e a tia Baba permanecessem lá em cima, nos 
seus quartos, tal como nós todos, os enteados. Os criados, esses, reagiam 
consoante a patroa: os que eram protegidos de Niang tornaram-se atrevidos e 
insolentes.
Para Ye Ye a vida tornou-se cada vez mais solitária e, embora não estivesse 
proibido de receber a visita dos seus amigos, Niang conseguiu que deixassem de 
se sentir à vontade por detrás de toda aquela aparência de delicadeza. A pouco e
pouco deixaram de aparecer.
Ye Ye passava todo o seu tempo a ler e a praticar caligrafia. Certa vez escreveu
um carácter ~? rezt (suportar). Disse à tia Baba que estudasse a palavra.

87

- Divide ~? ren (suportar) nos seus dois componentes, superior e inferior. O 
componente superior, Tj dao, significa "faca"; contudo possui uma espécie de 
bainha no centro da espada ~J. O componente inferior, •L: xin, significa. 
"coração". A combinação de ambos forma uma palavra e essa palavra conta-nos uma 
história. Embora o meu filho esteja a ferir o meu coração, eu vou embainhar essa
dor e vou sobreviver. Para mim, a palavra ,~ rera, é o emblema da civilização 
chinesa.
Quando a tia Baba olhou para a palavra, pôde ver nitidamente toda a dor e a 
raiva evidenciadas em cada uma das pinceladas. Ye Ye não expunha os seus belos 
trabalhos de caligrafia na parede com medo de ofender Niang.
Lydia, a minha irmã mais velha, não era brilhante na escola. Com o braço 
esquerdo defeituoso, o seu futuro não se afigurava prometedor. Niang e o pai 
receavam por ela. Decidiram, por isso, arranjar-lhe um casamento o mais cedo 
possível. Logo na visita seguinte que fizeram a Tianjin levaram Lydia com eles e
apresentaram-na a Samuel Sung.
Samuel era o filho mais novo do médico da nossa família em Tianjin. Tinha-se 
formado em Engenharia pela Universidade desta cidade. Fora professor durante 
alguns anos, tendo obtido o grau de mestre pela Universidade de Purdue, Indiana.
Em 1948 regressara da América e andava à procura de esposa. Tinha já 31 anos; 
era, portanto, três anos mais velho de que Niang. Media cerca de 1,60 m, a sua 
cabeça era grande e estava quase careca, tinha os olhos pequenos e astutos e as 
sobrancelhas inclinadas para cima davam-lhe um aspecto sinistro. Enviesados para
um lado, os lábios pareciam estar sempre a querer abrir-se num sorriso estranho.

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Embora não fosse exactamente uma estampa, falava calmamente e tinha boas 
maneiras.
Recordo-me de Lydia a falar alegremente do seu casamento_ já próximo com Samuel 
e de andar a rabiscar vezes sem conta o seu futuro nome de Sr.a Samuel Sung, em 
inglês e chinês.
Muitos anos mais tarde foi a própria Lydia quem deu uma versão dos 
acontecimentos que levaram ao seu casamento, pintando um quadro completamente 
diferente.
"Quando eu tinha 17 anos, o pai chamou-me ao seu quarto para uma longa conversa.
Disseram-me que me pusesse em frente do espelho e que observasse a imagem. Como 
eu não estava a perceber onde é que
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queriam chegar (porque todos os dias me via ao espelho e não descobria nada de 
especial), pediram-me que olhasse com atenção para a minha mão esquerda, que 
tinha um defeito devido à paralisia de Erb, mas de que eu nunca pensara ter a 
culpa.
O pai disse:
. Estás a chegar à idade do casamento e encontrámos um homem muito bom para ti. 
É para teu bem, para o bem do teu futuro, porque tens agora uma boa 
oportunidade. Se não te casas enquanto és jovem, acabas por te tornar mais uma 
solteirona na família e nós não vamos deixar que isso aconteça. A nossa decisão 
está tomada.
As suas palavras caíram como uma bomba e eu senti-me aterrorizada, miserável. 
Não sabia o que fazer ou o que pensar, pois nunca me tinha passado pela cabeça 
casar-me aos 17 anos. Em vez disso, sentia admiração por algumas das minhas 
colegas que iriam prosseguir os seus estudos no estrangeiro. Eu tinha boas 
hipóteses neste campo, pois o meu inglês era bom. Nunca ninguém me tinha falado 
sobre sexo ou sobre amor. Todavia, tinha de fazer o que me mandavam, pois, de 
contrário, iria para um convento e seria freira até ao fim dos meus dias. Ainda 
hoje consigo ouvir a voz de Niang:
-Não vou ter de certeza mais outra solteirona cá em casa! De que é que estas à 
espera? Vais de certeza para um convento se não fizeres o que te mandamos. Se 
obedeceres, seremos bons para ti!
Com isto percebi que estava realmente a mais e que não era desejada. Quando 
olhei para o espelho, vi que realmente não era muito bonita e que tinha uma mão 
defeituosa. Embora nessa altura eu não tivesse consciência de que cada criança 
tem os seus direitos (que incluem o direito à educação e à escolha do seu 
esposo), eu sentia, mesmo assim, um impulso irreprimível de me rebelar contra 
aquela tirania egoísta. Fui ter com Ye Ye e com a tia Baba em busca de ajuda. 
Eles disseram-me que não podiam fazer nada, porque, em primeiro lugar, o meu pai
era o meu pai e, em segundo lugar, eles próprios dependiam do pai para viver.
Aos 17 anos eu era ingénua e pueril e confiava inteiramente no pai; pensava que 
as suas decisões eram as melhores para o meu futuro. Só mais tarde quando ele 
enviou todos os meus irmãos para Inglaterra, a fim de prosseguirem os seus 
estudos, é que percebi que tinha sido uma palerma. Senti-me desgraçada e 
deprimida por me ter submetido a um plano tão baixo, que consistia apenas em 
transferirem um fardo para as
89
mãos de outra pessoa. Odiei-os pela discriminação que fizeram, quando eu tinha 
confiado completamente no pai. Agora, ao olhar para trás penso que o pai 
defendia o conceito feudal da supremacia masculina,>,
Segundo Lydia, Niang tinha-a praticamente forçado a casar com Samuel, 

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recordando-lhe que o pai tinha sete filhos para sustentar e que ela era a mais 
velha. Uma vez que seria difícil para ela arranjar um
emprego com o braço esquerdo deformado, era inútil gastar dinheiro enviando-a 
para a universidade.
- Se te casares com Samuel - disse-lhe Niang -, o pai dá-te um dote.
Pressionada desta forma, Lydia cedeu.
Em 1948 tiveram uma grande festa de casamento com mais de 500 convidados, todos 
eles chineses. Como mestres de cerimónias, foram contratados dois conhecidos 
comediantes da rádio. Nos meses que prece
deram o casamento, os presentes começaram a chegar a nossa casa e foram 
cuidadosamente escolhidos. Os melhores ficaram para Niang.
Os meus três irmãos receberam ordens para raparem cuidadosamente a cabeça para a
ocasião. Vestiram-se com os tradicionais fatos chineses, longos e escuros. 
Quanto a Franklin, vestiu um fato ao estilo ocidental, de bom corte e feito por 
medida, o cabelo ondulado, bem à moda. Susan usou um vestido de cetim, cheio de 
rendas e franzidos. Durante a cerimónia e nos dias subsequentes, os meus irmãos,
"as três lâmpadas", foram cruelmente gozados pelos seus pares. Os amigos do pai 
fizeram notar o tratamento desigual conferido aos dois grupos de crianças pelas 
suas duas mulheres.
Conforme o prometido, Lydia recebeu um dote de 20 000 dólares americanos, uma 
soma enorme naquela época. Ela e Samuel mudaram-se directamente para Tianjin, 
para casa dos pais de Samuel. Não os voltei a ver durante os trinta e um anos 
que se seguiram.
Depois de o Japão ter perdido a guerra, o pai reivindicou os seus negócios e as 
suas propriedades em Tianjin. Acompanhado por Niang, viajava frequentemente para
lá. Os rapazes tornavam-se cada vez mais independentes durante a ausência dos 
pais. Lembro-me de os ver a namoriscarem umas raparigas que moravam atrás da 
nossa rua, utilizando elásticos para enviarem cartas "por via aérea" contendo 
rebuçados, que atiravam a partir da janela de trás do seu quarto.
Gregory cansou-se do pequeno-almoço diário, que consistia em canja e vegetais de
conserva. Numa manhã de domingo, em que o pai e Niang não estavam em casa, 
dirigiu-se propositadamente à cozinha. Como shao ye (patrão mais novo) da casa, 
exigiu ovos ao pequeno-almoço. O cozinheiro objectou, replicando não haver ovos 
suficientes em casa. Nesse momento, um Gregory mais determinado, dirigiu-se à 
despensa. Encontrou então dezasseis ovos, que partiu sistematicamente, uns atrás
dos outros, para uma grande tigela. Fez ele próprio uma omeleta gigante com os 
dezasseis ovos e regalou-se com cada garfada até esvaziar tudo o que tinha no 
prato.
Uma tarde, quando andava à procura de uma bola perdida enquanto os meus irmãos 
ainda estavam na escola, fui espreitar debaixo da cama de Gregory e 
deparou-se-me com uma caixa sem tampa contendo material escolar, tinta e um 
selo. Mais tarde James contou-me que Gregory tinha resolvido os seus problemas 
de dinheiro fabricando facturas falsas com pequenas somas para a papelaria da 
escola. Gregory tinha feito amizade com um dos funcionários da contabilidade, 
que fazia "reembolsos" em dinheiro de pagamentos a mais. Assegurava deste modo a
sua semanada e uma vida feliz.
Entretanto Ye Ye começou a reparar que de tempos a tempos lhe desapareciam notas
da gavetinha do lado esquerdo da sua secretária, o lugar onde a tia Baba 
colocava regularmente metade do seu ordenado do mês. Ye Ye suspeitava de um de 
nós, mas não mencionou o assunto. Discordava do programa de austeridade do pai e
simpatizava com a nossa luta; nunca fez qualquer denúncia sobre os 
desaparecimentos periódicos de dinheiro. Era uma situação estranha, pois nem 

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aprovava o roubo nem as circunstâncias que o motivavam.
As coisas atingiram o ponto máximo num dia de 1948. A inflação era galopante e o
dinheiro chinês valia cada vez menos. Sendo uma boa funcionária, a tia Baba 
recebia em dólares americanos e em dólares de prata (estes eram chamados as 
grandes cabeças, pois eram cunhados com uma imagem de perfil de Yuan Shih-kai, 
um general da dinastia Qing que se tinha autoproclamado imperador da China 
durante oitenta e três dias em 1916). Como de costume, ela colocou metade do seu
salário na secretária de Ye Ye.
A moeda chinesa desvalorizava-se tão rapidamente que o banco central em Xangai 
não era capaz de imprimir dinheiro com a rapidez necessária. Depressa o dólar 
americano passou a ser trocado por 2
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milhões de yuans chineses. Em cada compra simples eram utilizados enormes maços 
de notas.
O ladrão, que por acaso era Edgar, tinha tirado alguns dólares americanos da 
gaveta de Ye Ye e tinha-os trocado no mercado negro. Em virtude desta operação 
recebera um grande saco cheio de moeda local. Encontrou-se então no terrível 
dilema de ter tanto dinheiro que não era possível escondê-lo. Na verdade, as 
notas eram demasiadas para serem escondidas debaixo do colchão e, além do mais, 
os três rapazes partilhavam o mesmo quarto.
Edgar cavou um grande buraco no quintal e enterrou todo o dinheiro. Julgou ter 
conseguido pôr o segredo a salvo, mas tinha-se esquecido de Jackie, o cão do 
pai.
No dia seguinte, enquanto estávamos na escola, Jackie escavou a terra com as 
patas e descobriu todo o dinheiro. Rapidamente passou a haver notas a voar por 
todos os cantos do pátio. Entretanto as criadas encontraram um recibo de câmbios
no bolso das calças de Edgar, no cesto da roupa suja.
Niang disse aos criados que apanhassem todas as notas e colocassem o jardim em 
ordem. Não se ouviu uma única palavra sobre o assunto até o jantar estar 
terminado. Nessa altura, em vez da habitual taça de fruta, as criadas trouxeram 
um grande prato cheio de notas manchadas de terra, um autêntico monte de moeda 
local.
Tão surpreendido como os restantes, o pai lançou-se numa tirada terrível. Depois
de vários impropérios e ameaças intermináveis, Niang revelou o que já sabia: que
Edgar era o culpado. Seguiu-se um dos discursos críticos do pai sobre 
desonestidade, ausência de confiança, o sangue ruim da nossa mãe e um futuro 
amaldiçoado para todos nós, especialmente para Edgar, que nada traria senão 
vergonha áo nome da família Yen. Insinuou ainda que tanto Ye Ye como Baba nos 
tinham mimado tanto, que agora não servíamos para mais nada. Finalmente, levou 
Edgar para cima e espancou-o com o chicote de Jackie.
Nós, os residentes de segunda, juntámo-nos no quarto de Ye Ye. Aí conseguíamos 
ouvir o zumbido das vergastadas e os soluços de Edgar. Ye Ye, Baba, Gregory e eu
estremecíamos a cada chicotada, mas James limitou-se a encolher os ombros e a 
sugerir um jogo de brídege para "passar o tempo".
Durante toda a nossa infância, James foi o único que escapou sem ser castigado. 
Sobreviveu, pois conseguiu isolar-se emocionalmente.

Éramos muito próximos um do outro e partilhávamos muitas confidências, mas ele 
nunca saiu em minha defesa. Uma vez deu-me este conselho:
Não confies em ninguém. Tens de ser um peixe frio. Eu não magoo ninguém e 

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ninguém me consegue magoar.
Franklin e Susan eram os mimados: o filho e a filha da imperatriz eram 
favorecidos e privilegiados. Para nós, os habitantes do 2.° andar, a antecâmara 
parecia o paraíso. Contudo, o paraíso não era senão o Jardim do Éden de 
Franklin.
Ele implicava com Susan, tirava-lhe os brinquedos, puxava-lhe os cabelos, 
dava-lhe bofetadas e torcia-lhe os braços. Niang ignorava tudo isto. Todas as 
noites se dirigia ao quarto de Franklin para lhe dar um beijo de boa-noite. 
Sentava-se na borda da cama dele e falava-lhe baixinho, brincava ou conversava 
com ele sem sequer notar a presença de Susan. Nas noites em que Franklin estava 
com os primos franceses ou com os amigos, Niang nem se dava ao trabalho de ir ao
quarto deles.
Ye Ye e o pai não podiam estar mais contentes com o fim da ocupação japonesa, 
depois de a América ter lançado as bombas atómicas, em 1945. Todavia, a guerra 
civil recomeçou quase imediatamente, envolvendo os nacionalistas (Kuomintang) e 
os comunistas. Nos três anos que se seguiram, o seu receio foi aumentando à 
medida que verificaram que o poder pendia cada vez mais para a esquerda. Mao 
Zedong, o líder comunista, e os seus exércitos empreendiam uma marcha 
inexorável.
Nessa época os jornais estavam repletos de histórias de atrocidades cometidas 
pelos comunistas contra os comerciantes e os proprietários de terras. Havia 
notícias diárias de novas barbaridades e selvajaria atroz. A ideia que 
predominava, e que era alimentada por Chiang Kaishek (que governava a China 
desde a morte de Sun Yat-sen, em 1925) e pela imprensa afecta ao Kuomitang, era 
a de que, se Xangai viesse a cair nas mãos dos comunistas, haveria um banho de 
sangue.
Em 1948, um vento frio veio afectar o clima de negócios dos homens como o meu 
pai. Num último esforço para estabilizar a moeda, o governo nacionalista acabava
de anunciar a emissão de nova forma monetária a que chamou "Certificado Yuan 
Dourado". A medida era necessária, dado que o povo tinha perdido toda a 
confiança na antiga
93
moeda, a chamada Fa Bi ou moeda corrente. A inflação galopante tinha atingido um
ponto em que o dólar americano era trocado por 11 milhões de ytra~a chineses: 
mais ainda do que Edgar tinha obtido em troca dos seus dólares roubados.
Comunicados oficiais apelavam a todos os chineses para que entregassem as suas 
notas antigas, numerário em ouro ou prata e moeda estrangeira até 30 de Setembro
de 1948. Os certificados Yuan Dourados seriam distribuídos em troca, estavam 
supostamente garantidos por ouro e cada grupo de quatro valia 1 dólar americano.
Houve de imediato uma corrida ao ouro, pois muitos depositantes particulares 
correram a levantar os seus metais preciosos e moeda estrangeira dos bancos 
locais. Ninguém no seu juízo perfeito ia alguma vez acreditar que houvesse ouro 
suficiente para apoiar os referidos certificados. Os grandes capitalistas, como 
o meu pai, conseguiram passar as fortunas para Hong-Kong, os Estados Unidos e a 
Europa. Os que auferiam baixos salários, como a tia Baba, foram obrigados a 
obedecer às instruções do governo. O valor dos Certificados Dourados caiu a cada
vitória comunista, até chegarem a um ponto em que não tinham qualquer valor, tal
como a antiga moeda que tinham vindo substituir. Ao obedecer âs ordens de Chiang
Kai-shek, a tia Baba perdeu todas as suas economias.
O pai fazia toda a espécie de planos para qualquer eventualidade e foi só uma 
questão de tempo até dar o seu passo.
Penso que foi no domingo imediatamente a seguir à visita desastrosa das minhas 

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colegas; o pai surgiu de repente, sozinho, à porta do quarto de Ye Ye. Chamou a 
tia Baba e ordenou-me que fosse brincar para o terraço. Parecia preocupado, mas 
procurou um ar de respeito perante o seu próprio pai e a sua irmã. A tia Baba 
reparou com tristeza que era a primeira vez que conversavam os três sozinhos 
desde que a família se mudara para Xangai, cinco anos antes. Por momentos 
conseguiram reviver uma espécie de intimidade. O pai começou a falar da guerra 
civil e da possibilidade de Xangai vir a ser ocupada pelos comunistas. Ele e 
Niang tinham decidido mudar-se para Hong-Kong. Ye Ye e a tia Baba estariam 
dispostos a ir com eles?
Era claro para a tia Baba que, para além de deixar os seus amigos, teria que 
abandonar também o seu lugar no banco da tia-avó e voltar à situação de 
solteirona a viver de caridade e sob o olhar crítico de Niang. Perguntava a si 
própria se a vida sob o regime comunista seria, na verdade, pior. do que a vida 
sob a alçada de Niang. Decidiu ficar em Xangai.
94

Entretanto, gotas de suor surgiram na fronte de Ye Ye e ele empalideceu de medo.
Timidamente, aceitou o convite do filho para se mudarem para Hong-Kong e 
arriscarem juntos as suas hipóteses sob o domínio britânico.
. De certeza que não teremos de partir imediatamente! - aventou. - Talvez o 
velho Chiang (Kai-shek) consiga travar as coisas com o auxílio dos Americanos.
- Claro que não teremos de ir já! - replicou o pai. - Temos ainda alguns meses, 
pelo menos. Jeanne e eu planeamos voar para Tianjin na próxima semana para 
tentarmos vender tanto quanto possível. Ao que parece, Beijing e Tianjin vão 
cair antes de Xangai. Vou cambiar os meus fundos em dólares de Hong-Kong e 
levá-los comigo para Hong-Kong.
O pai pediu então a Ye Ye que lhe mostrasse onde guardava o dinheiro, 
sublinhando que devia estar sempre fechado à chave. Distraidamente,por meias 
palavras, acabou por dizer que não estava certo que as crianças estivessem 
sujeitas a tentações e depois virou-se para a minha tia e acusou-a de me 
favorecer em relação aos meus irmãos. A tia Baba desfez essa ideia, 
acrescentando que também teria dado 1 dólar de prata às outras crianças caso 
tivessem sido as melhores da turma. Lembrou-lhe ainda que as crianças precisavam
de ser recompensadas quando o seu desempenho era excelente.
O pai começou a desfiar o rosário das minhas deficiências: era baixa e magra; 
tinha pouco apetite, sem dúvida devido a lanches entre as refeições 
proporcionados pela tia Baba; era arrogante e desinteressada. Exigiu que a tia 
Baba apontasse num papel todos os centavos que me tinha oferecido ao longo do 
último ano e pôs um ar céptico quando a minha tia reafirmou que o dólar de prata
era a única coisa que eu tinha recebido. Empurrou-a para o seu quarto e ordenou 
que abrisse a sua caixinha de aperitivos, que ela estava habituada a guardar. De
seguida fez uma lista dos mesmos:
Ameixas de conserva salgadas: 2 pacotes Carne de porco seca (doce): 1 pacote 
Carne de vaca seca (picante): 2 pacotes Amendoins torrados: 1 pacote de 100 g 
Rebuçados de amendoim: 1 frasco de 200 g Pevides de melão: 1 pacote
95
Ye Ye e a tia Baba observavam atónitos enquanto ele fazia este inventário. O pai
iniciou então um sermão sobre a minha falta de préstimo para qualquer coisa, 
falta de princípios morais, consumo excessivo de aperitivos e o meu 
comportamento monstruoso. A tia Baba tentou defender-me, dizendo-lhe que eu era 
apenas uma menininha que nem sequer conhecera a mãe, mas o pai não quis saber 

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destes protestos.
A tia Baba perguntou se o pai tinha planos para os seus filhos. Lydia vivia em 
Tianjin com Samuel e os sogros. Quanto aos rapazes, o pai gostaria que 
terminassem o liceu em Xangai e depois pensava mandá-los para a universidade em 
Inglaterra. Franklin e Susan iriam para Hong-Kong com os pais. Houve uma curta 
pausa.
- E .~ ~ wcc mei (quinta filha mais nova)? - perguntou Ye Ye. - Que pensas fazer
com ela?
O pai pegou na lista da comida e examinou-a.
- Ultimamente ela tem sido muito rebelde. O seu bom desempenho na escola fez que
passasse a ter uma elevada opinião de si própria. Vocês estragaram-na porque a 
elogiaram de mais. Nós decidimos discipliná-la.
Ye Ye sobressaltou-se.
- Mas o que foi que ela fez para merecer isto`? - perguntou ele. - Ela é apenas 
uma menina da escola primária. Porque é que a castigas?
- Pois aí é que está o problema! - retorquiu o pai. - Vocês são demasiadamente 
protectores. A questão não é o que ela fez ou não fez. Ela tem de aprender a ser
obediente e modesta. Devia saber qual é o seu lugar e perceber que as suas 
opiniões e desejos não contam. Na verdade, sem o seu pai e sem Niang ela não é 
nada. Decidimos retirá-la deste ninho de permissividade. Quando formos para 
Tianjin, na próxima semana, levamo-la connosco. A nossa ideia é interná-la em St
Joseph's. Ela vai lá ficar sozinha. Estão proibidos de lhe escrever ou de lhe 
enviar pacotinhos de comida iguais a estes!
Nesse momento começou a abanar a lista à frente da cara da tia Baba.
- Ela estará proibida de enviar ou receber cartas. As freiras receberão 
instruções para a deixarem fechada atrás dos portões até acabar o liceu.
- E os comunistas? Então e os comunistas? - perguntou a tia Baba. - Os jornais 
dão conta de combates acesos na Manchúria.
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centenas de milhares de refugiados estão a chegar a Tianjin. Não te lembras de 
ter lido notícias sobre os estudantes universitários que fogem para o sul? 
Estavam a fazer manifestações em Tianjin exigindo comida e abrigo, quando foram 
atingidos pelas tropas do Kuomitang. Será que é seguro para ela ir lá frequentar
a escola?
- Isto tem de parar já! - gritou o pai, brandindo a lista. - Ela tem de ser 
separada de vocês os dois.
E, ainda agarrando na lista, saiu do quarto da tia Baba, batendo com a porta.
- Mas o que é isto? - perguntou a tia Baba a Ye Ye com a voz trémula. - A 
criança não fez nada. Ele comporta-se como se quisesse destruí-la. Ele sabe que 
vai shang xin (destroçar-lhe o coração) ir para longe de nós. Consegue perceber 
alguma coisa disto tudo?
Ye Ye sabia.
- Esta criança não fez nada de mal. Mas, cada dia que passa, a sua presença é 
como um espinho para eles: ela aborrece-os simplesmente porque existe. Mandam-na
embora porque querem ver-se livres dela.
Foram tempos de incerteza. Todas as famílias com propriedades, ligações ao 
Kuomitang ou mesmo formação profissional ocidental desesperavam sobre qual a 
decisão a tomar: partir ou ficar. Para os homens de negócios já estabelecidos, 
com casas, escritórios, famílias, amigos eguanxi (influências), a escolha era 
particularmente difícil. O tempo passava. O exército de Chiang Kai-shek perdia 
cidade atrás de cidade. Será que os comunistas eram tão maus como se dizia? 
Alguém podia ter a certeza de como as coisas iriam evoluir no novo regime? 

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Muitos houve que não ficaram para ver. Todos os dias comboios, aviões e barcos 
partiam cheios de refugiados rumo a Taiwan e Hong-Kong.
Anos mais tarde, o pai contaria a história do destino de um amigo que hesitara 
no último momento. Dirigia-se ao aeroporto de Xangai com a mulher e o filho. Não
conseguia acreditar que tinha importância a ponto de vir a ser perseguido. Parou
na casa de um primo. Trocaram de lugares. O primo voou com a mulher e a filha 
para uma vida próspera em Nova Iorque. O amigo do pai ficou e foi desapossado de
tudo quanto tinha. O filho foi preso por criticar Jiang Qing, a mulher de Mao. A
esposa suicidou-se durante a Revolução Cultural.
O pai, Niang, Franklin e Susan partiram para Hong-Kong em Dezembro de 1948. A 
tia-avó não conseguiu deixar o seu banco. Decidiu
97 
ficar e tentar a sua sorte com os novos governantes. A partida de ye Ye foi de 
cortar o coração. Ele adorava a sua cidade natal e duvidava poder algum dia 
voltar a vê-la. Os anúncios, os cheiros, os sons e ~ memórias de Xangai eram 
insubstituíveis. Receava a vida que se estendia a seus pés em Hong-Kong, mas 
sabia que tinha de partir. Até ao último minuto tentou fazer a tia Baba mudar de
ideias, mas isso ela não podia fazer. Trinta anos mais tarde, a minha tia foi 
incapaz de descrever a sua separação definitiva sem angústia.
Uma após outra, as cidades foram caindo: Luoyang, Kaifeng, Jinzhou, Chanchun, 
Mukden. Em Dezembro de 1948, as tropas comunistas montaram cerco à cidade de 
Beijing. Em Janeiro de 1949 os
dados estavam lançados, no momento em que a batalha de Huai Hai foi finalmente 
ganha pelos comunistas. Mais de 300 000 soldados do Kuomitang foram feitos 
prisioneiros. Em Janeiro de 1949, Chiang Kaishek renunciou ao cargo de 
presidente da República. O Exército de Libertação do Povo atravessou o rio 
Yangtse no mês de Abril. Em menos de um mês tomaram Nanquim, Soochow e Hangchow.
O Exército Vermelho fez uma entrada triunfal em Xangai no dia 25 de Maio de 
1949. Jovens, zelosas e disciplinadas, as tropas do ELP puderam ser observadas a
marchar, subindo e descendo a Rua de Nanquim. Numa atitude amigável, ajudaram os
residentes e os comerciantes a limparem os sacos de areia e outros materiais 
reunidos pelos nacionalistas. Os soldados eram bem-educados e estavam bem 
alimentados. Não houve saque.
Para a minha tia seguiu-se um período de paz e felicidade como nunca tinha 
visto. O banco da tia-avó reabriu no espaço de dias. Os comunistas fizeram um 
grande esforço para manterem a lei e a ordem. Lojas e restau rantes retomaram o 
seu movimento habitual. A inflação foi finalmente travada. Os Certificados Yuan 
Dourados foram trocados por Jen Min Pi, a nova moeda da República Popular. O 
preço dos bens estabilizou e os fornecimentos voltaram a estar disponíveis no 
mercado. Os serviços públicos, tais como transportes, entrega de correio e 
limpeza de ruas pareciam melhores do que anteriormente. O novo regime assegurava
repetidamente à população, através dos jornais e da rádio, que as propriedades e
os negócios dos comerciantes chineses e estrangeiros seriam sempre protegidos e 
as suas religiões respeitadas.
A tia Baba ficou encarregue do foro doméstico, com a supervisão dos meus três 
irmãos, que frequentavam ainda a escola em Xangai.
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O ordenado que recebia do banco gastava-o nas suas necessidades pessoais; o 
dinheiro que lhe advinha das propriedades do pai utilizava-o para o governo da 
casa. Reduziu o pessoal doméstico a duas criadas e a Miss Chinn. Comoveu-se 
profundamente quando ouviu o presidente Mao, numa emissão de rádio, a partir de 
Beijing, no dia 1 de Outubro de 1949, proclamar o nascimento da República 

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Popular da China. Todas as suas colegas de trabalho se juntaram à volta de um 
rádio para ouvir o comunicado de Mao: "O Povo Chinês pôs-se de pé."
Os seus dias decorriam de uma forma calma e ordeira. Após o pequeno-almoço 
enviava os rapazes para a escola, antes de ela própria partir para o trabalho. 
Jantavam juntos às 7.30, como de costume, e os rapazes eram encorajados a levar 
os amigos a casa. Cada um passou a receber uma semanada justa, para poder sair 
de vez em quando. A intei~erência comunista não foi além do registo obrigatório 
do agregado familiar, que incluía a governanta de Franklin, Miss Chien. 
Formou-se um hu kou (comité de residentes) com fins administrativos. Mais tarde,
estes comités transformaram-se em instrumentos de controlo do governo, dando 
conta de todos os movimentos de cada habitante de Xangai.
Miss Chien era solteira e andava pela casa dos 30. Depois da partida de Franklin
e Susan, as suas funções em casa deixaram, obviamente, de existir e ela começou 
a recear que a despedissem. A sua instrução parara aos 14 anos, pelo que já não 
poderia ensinar qualquer disciplina aos rapazes. Procurou então ganhar os 
favores da tia Baba, confeccionando iguarias regionais da sua cidade natal. No 
Inverno, quando as temperaturas desceram, ela aquecia a cama da tia Baba com 
botijas de água quente e chegou mesmo a comprar garrafas térmicas para a água 
quente do banho que a tia Baba tomava à noite. Passava os dias na leitura de 
jornais, à conversa com as duas criadas, a escrever cartas e a fazer tricô. A 
tia Baba estava admirada com o fornecimento inesgotável de lã de boa qualidade, 
que começava a tornar-se difícil de encontrar nas lojas da vizinhança. Muitos 
dos bens importados chegavam em Pequenas quantidades, uma vez que os 
estrangeiros partiam aos magotes e muitas companhias também estrangeiras 
fechavam as suas Portas. Generosamente, Miss Chien oferecia muitos dos casacos 
que tricotava à tia Baba e aos rapazes.
Gregory terminou o liceu em 1950. De acordo com as ordens do pai, ele e Edgar 
seguiram de comboio para Tianjin, onde mandaram fazer
99
uns fatos de corte ocidental no alfaiate do Tio Pierre. Nessa altura ainda se 
podia viajar facilmente e à vontade. Deixaram Tianjin de barco, rumo a 
Hong-Kong, equipados de roupa nova. Três anos depois partiriam para Inglaterra, 
a fim de prosseguirem os estudos.
James continuou a frequentar a escola por mais um ano, durante o qual a tia Baba
se dedicou inteiramente ao seu cuidado. As criadas receberam instruções no 
sentido de cozinharem os seus pratos preferidos. James foi inscrito em 
dispendiosas lições de equitação, recebia os seus amigos em casa e fazia 
excursões às cidades vizinhas. Galante e espirituoso, acabou por ser uma grande 
companhia para a minha tia. Muitas vezes liam em conjunto as cartas de Ye Ye e 
James era instado a escrever semanalmente ao pai e, por vezes, também a Ye Ye. 
Gozava de uma liberdade considerável em Xangai; tanta que, quando, em 1951, 
recebeu ordens do pai para partir rumo a Hong-Kong, mostrou relutância em 
fazê-lo. A tia Baba procurou a interferência de Ye Ye para o caso de James, mas 
foi em vão. Como resposta, Ye Ye disse apenas que os dois deviam ter perdido o 
juízo. Acrescentava ainda que não era sequer conveniente mostrar aquela carta ao
pai.
Na altura em que James partiu, em Julho de 1951, as restrições de viagem eram 
mais apertadas. Acompanhado pelo seu terceiro tio, Frederick (o irmão mais novo 
da nossa mãe, já falecida), viajou de comboio até Cantão. Aí era necessário 
obter um documento especial para atravessar a fronteira para Hong-Kong, 
documento que não possuíam. Passaram então a salto, num barquito pouco seguro, 
pela calada da noite. A sorte acompanhou-os e entraram em paz no porto de 

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HongKong. Para trás, em Xangai, ficava a tia Baba, agora sozinha com duas 
criadas e Miss Chien.
100
8
Yi Shi Tong Ren Tratamento igual para todos sem excepção

O pai e Niang levaram-me ao Norte, a Tianjin, em Setembro de 1948, no auge da 
Guerra Civil. Umas atrás das outras, as províncias foram caindo nas mãos do 
Exército Vermelho. A maior parte das pessoas fugia na direcção oposta àquela que
nós seguíamos.
A seguir ao desmembramento do exército do Kuomitang, na Manchúria, os refugiados
chegavam à média de 600 por dia, arrastando consigo peste e miséria. A população
de Tianjin aumentou cerca de 10 % num espaço de meses. Os serviços da cidade, já
extremamente desgastados, deixaram de satisfazer as necessidades. Pouco tempo 
depois, os refugiados foram impedidos de entrar através do uso da força e 
abrigados em campos com condições primitivas. A disenteria grassava.
Mesmo com este panorama, Niang internou-me em St. Joseph's. Restavam apenas 
cerca de 100 alunas. Eu era uma das 4 internas; todas as outras eram alunas 
externas. Esporadicamente, havia aulas, mas o

número daquelas que as frequentavam variava. Durante as semanas seguintes, o 
número de raparigas diminuiu. Em breve fomos reunidas numa única sala de aula, 
que incluía alunas dos 7 aos 18 anos. Não se falava chinês durante o horário 
lectivo. Na realidade, na época em què eu frequentei esta escola não se ensinava
chinês. Éramos obrigadas a comunicar em inglês ou francês.
Senti-me amargurada. O chinês tinha sido a minha língua de estudos durante a 
instrução primária em Xangai. O inglês era a segunda língua; nunca aprendi 
francês. Sentia-me muito só e ansiava por voltar para
junto da tia Baba, de James e dos meus amigos em Xangai. Extravasava o meu 
desespero em longas cartas, pedindo apenas que me enviassem de casa algumas 
palavras simpáticas. Dia após dia esperei ouvir o meu nome aquando da 
distribuição do correio. Nunca recebi nenhuma carta. Desconhecia as instruções 
que os meus pais tinham dado às freiras: não poderia receber visitas, 
telefonemas ou correio.
Enclausurada num mundo hermético por detrás das grades de um convento, 
desconhecia .por completo que, entretanto, os comunistas, após a captura da 
Manchúria, estavam a atravessar a Grande Muralha, dirigindo-se determinadamente 
a Beijing e Tianjin. As tropas do Kuomitang e as tropas comunistas travaram 
acesas batalhas pelo controlo do Norte da China. Muitas estudantes e respectivas
famílias fugiram para Taiwan e Hong-Kong. As aulas normais deixaram de existir. 
Passámos a ler livros em língua inglesa que nós próprias escolhíamos. Mergulhei 
no dicionário de inglês-chinês. Um dia, durante uma aula informal de 
conversação, a nossa professora pediu a cada uma de nós que dissesse o nome do 
seu livro preferido. Toda a gente se riu quando eu disse que o meu era o 
dicionário. E se eu pudesse satisfazer um desejo, qual seria? Receber uma carta.
Só uma. De qualquer pessoa.
À medida que o exército comunista se aproximava, havia um número cada vez maior 
de alunas que deixavam a escola. Em St. Joseph's deixou de haver festas de 
despedida. As meninas deixavam simples mente de ir às aulas. As freiras tinham 
um aspecto triste e preocupado. Começavam a ser aconselhadas pelas suas 
superioras em França a abandonar Tianjin, a fim de escaparem a perseguições.

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Passava todos os domingos e feriados entregue a mim mesma, incluindo Natal e Ano
Novo. Todas as outras internas regressavam a casa, à companhia dos seus 
familiares. Eu não estava autorizada a
102
aceitar qualquer convite das minhas amigas. As freiras não sabiam o que fazer 
comigo. Como um fantasma, cirandava de aula em aula e passava a maior parte do 
meu tempo na biblioteca a ler contos de fadas. A minha recordação desse Natal é 
estar sentada sozinha num refeitório enorme a comer presunto, batatas e pudim de
ameixa, a fingir que não tinha uma única preocupação no mundo. Lá fora ouvia-se 
no ar o refrão ~ Noite Feliz, enquanto eu, estoicamente, evitava os olhares 
solícitos da bondosa irmã Hélène, que saía e entrava enquanto eu jantava sozinha
no dia de Natal.
A 31 de Janeiro de 1949, as tropas comunistas, vitoriosas, entraram em Seijing 
sem dispararem um só tiro. No dia seguinte, Fu Tso-I, o general nacionalista, 
rendeu-se com todos os seus exércitos e ricos aprovisionamentos. Pelo feito foi 
recompensado com o posto de ministro da Conservação da Água da República 
Popular. Tianjin foi tomada, pela mesma altura, pelo general comunista Lin Biao.
Lydia, a minha irmã mais velha, estava a viver em Tianjin com o marido, Samuel, 
e os sogros na época em que eu estive fechada no convento. Nunca me foram 
visitar nem quiseram saber notícias minhas. Quando fugiram dos comunistas e 
foram para Taiwan, em Janeiro de 1949, deixaram-me para trás sem terem sequer 
tentado um contacto.
Os dias corriam uns atrás dos outros e eu passava-os sentada na biblioteca a 
pensar no que seria de mim. A minha rotina escolar desaparecera. Não havia aulas
e todos os dias eram dias "livres". As minhas professoras pareciam não saber 
como educar uma única criança que falava apenas um pouco de inglês e francês. O 
ambiente no convento era de pânico controlado a muito custo e era apenas 
aliviado pelos rituais católicos romanos.
Uma manhã, inesperadamente, a irmã mais velha de Niang, a tia Reine, apareceu na
portaria da escola. Fiquei doida de alegria, pois, desde que entrara no colégio,
não recebera uma única visita. Embora mal nos conhecêssemos, chorei quando a vi.
Ela preparava-se para deixar Tianjin com o marido e os dois filhos e tinha-se 
lembrado de que eu estava presa em St. Joseph's. De sua própria iniciativa e sem
consultar ninguém, retirou-me da escola.
Tianjin tinha acabado de ser libertada. Nas ruas viam-se soldados comunistas, 
vestidos de uniformes de Inverno acolchoados, usando bonés de pala. Tinham por 
tarefa remover os sacos de areia, trincheiras ou fortificações construídas pelos
nacionalistas para impedir a passa
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gem de veículos e tropas inimigas. Mais tarde a neve derretida tinha 
transformado os sacos de areia em montes de lama. As ruas estavam estranhamente 
calmas. O trânsito era quase inexistente. Percorremos a pé a curta distância que
nos separava das duas casas do pai, na Rua Shandong.
Nesse dia tudo me pareceu estranho e incompreensível e, mais do que tudo, voltar
a uma casa onde eu tinha armazenado uma série de memórias muito queridas. Aí fui
encontrar o tio Jean Schilling (que trabalhava para as Nações Unidas) e os seus 
dois filhos, Victor e Claudine. Sentia-me envergonhada, mas todos foram 
simpáticos e pro_ curaram fazer que eu me sentisse à vontade. Victor, que era da
minha idade, convidou-me para brincar no seu quarto. Fizemos aviões de papel e 
andámos a atirá-los por toda a casa. A tia Reine, que tinha reparado no meu 
nervoso lacónico, passou o braço em volta dos meus ombros e segredou-me:
- Não te preocupes, eu vou dar yi shi tond ren (um tratamento igual a todos sem 

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excepção) aos três.
Já à mesa do jantar, o tio Jean explicou que os meus pais se encontravam em 
Hong-Kong e que nós iríamos ter com eles logo que fosse possível. No dia 
anterior, os soldados comunistas tinham tentado entrar e tomar posse das duas 
casas do pai, a fim de as utilizarem como aquartelamento temporário do general 
Lin Biao. O tio Jean içara a bandeira das Nações Unidas para proteger as casas e
impedir que fossem ocupadas pela força.
Nessa altura todos os familiares de Niang viviam nas casas que o pai possuía em 
Tianjin. A mãe tinha morrido. Lao Lao, a tia chinesa de Niang que era solteira, 
vivia com o irmão mais velho de Niang, Pierre, na casa "velha", juntamente com 
um número mínimo de empregados. Pierre era ainda o administrador dos negócios do
pai em Tianjin, mas fugiria em breve para Marrocos. Reine e a família viviam na 
casa "nova". O pai tinha enviado Jacques, o irmão mais novo, para Paris e pagava
os seus estudos na Sorbonne.
Alguns dias mais tarde a família Schilling e eu embarcámos num navio em direcção
a Hong-Kong.
A ilha de Hong-Kong (~;~ Porto Fragrante) fora cedida para sempre aos Britânicos
depois da derrota da China na Primeira Guerra do Ópio, em 1842. No final da 
Segunda Guerra do Ópio (1858-60), a Grã
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Bretanha "recebeu" a ponta da península de Kowloon, ao sul de Boundary Street, 
como possessão permanente. Em 1898, a Grã-Bretanha fez novas exigências e obteve
o arrendamento do resto da península de gowloon (a norte de Boundary Street) por
99 anos. Essa área ficou conhecida como "Novos Territórios" e deveria ser 
restituída à China a 1 de Julho de 1997.
A tia Reine tinha conseguido fazer passar os diamantes de Niang para fora de 
Tianjin, forrando as pedras de tecido e cozendo-as ao seu casaco de Inverno como
se fossem botões. A forma como tudo isto nos foi revelado foi de uma intensidade
dramática: cada uma das pedras preciosas saltava das tesouras de Reine para cima
da mesa do café, cheia de um brilho magnífico. À medida que cada uma delas ia 
surgindo, Niang mostrava-se tão satisfeita, que o seu humor se modificou de 
forma notória e nem mesmo a minha presença inesperada lhe causou a fúria 
imediata que eu antecipara.
O pai, Niang, Ye Ye, Franklin e Susan viviam num apartamento alugado em Boundary
Street, Kowloon, mesmo em frente ao colégio de freiras Maryknoll. Em 1949 esta 
colónia britânica era apenas uma imagem distante do bulício fervilhante de 
Xangai; faltavam-lhe também a tradição e a cultura de Tianjin. Era uma 
cidadezinha pacata e arrumada, uma cidade de província, com ruas limpas, 
autocarros vermelhos de dois andares, trânsito ordeiro e um porto magnífico. A 
língua falada era maioritariamente o cantonense. O inglês era apenas falado em 
hotéis de 1a classe, como o Península.
Todos os dias Niang levava a família Schilling a visitar a cidade no seu carro 
com motorista. Eu ficava em casa com Ye Ye e os criados. Polidamente, Niang 
perguntava a Ye Ye se gostaria de os acompanhar. Ele recusava sempre. Quanto a 
mim, nunca fui convidada. Estava automaticamente esclarecido que estes passeios 
não me incluíam.
No fundo, isso alegrava-me. Era maravilhoso estar com o meu Ye Ye. Acompanhava-o
em pequenos passeios a pé e, como a vista já lhe ia faltando lia-lhe os jornais 
todas as manhãs. Jogávamos às damas chinesas e,~generosamente, ele trocava 
muitas vezes um cavalo (cavaleiro) por um carro (torre). Estes jogos eram 
competitivos e ele parecia apreciá-los, pois analisava o resultado final, 

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independentemente de quem ganhava ou perdia. Contava-me histórias retiradas das 
Lendas dos Três Reinos e acompanhava estas narrativas com excertos de ópera 
chinesa, quando estava de bom humor. Ensinou-me a magia e o mis
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tério escondidos em muitos caracteres chineses, ilustrando estas explicações com
exemplos brilhantes que me encantavam. Uma vez fez-me notar que as palavras ~ ~ 
(negócio) continham o segredo para todas as riquezas do mundo.
- `~ significa "comprar", ~ significa "vender" - disse ele. ._ As duas palavras 
são idênticas, excepto no símbolo ~, que significa "lama" ou "terra" e está 
colocado no topo de "vender". A essência de ~ ~ (negócio) é comprar-vender; e o 
seu ingrediente mais importante é ~ isto é, lama ou terra. Nunca te esqueças 
disto.
Muitas vezes sentávamo-nos apenas em silêncio, contentando-nos com a companhia 
um do outro, enquanto Ye Ye fumava calmamente o seu cachimbo.
Num domingo, ao pequeno-almoço, Niang sugeriu que almoçássemos todos no luxuoso 
Repulse Bay Hotel, na ilha de Hong-Kong. Amontoámo-nos no grande carro do pai. 
Foi um verdadeiro aperto. Eu fui a única a ficar, triste, de pé, no passeio, com
os criados.
Foi Victor quem falou:
-Não é justo, mamã. - disse ele em francês à tia Reine - Porque é que a Adeline 
nunca vai connosco a lado nenhum?
Já impaciente com a partida, e como não percebia francês, o pai perguntou a 
Victor em inglês:
- Precisas de ir à casa de banho? Niang interrompeu em francês:
- A Adeline não vai porque o carro já está muito cheio. Não há mais espaço.
- Então e ontem? E no dia anterior? - perguntou Victor em francês.
- Entra no carro, Victor! - ordenou a tia Reine - Estás a atrasar tudo! Bem vês 
que hoje não há mais espaço no carro.
- Não é justo! - insistiu Victor - Porque é que tem de ser sempre ela a ficar 
para trás?
- Porque é assim mesmo! - exclamou Niang, rispidamente, em francês. - Ou vens 
agora connosco ou ficas com ela.
- Nesse caso, fico a fazer companhia a Adeline.
Victor desceu do carro e ficou comigo enquanto todos se afastavam. Nunca 
esquecerei esta gentileza.
O tio Jean e a família partiram em breve para Genebra, local onde tinha sido 
colocado pelas Nações Unidas.

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O pai tinha alugado um escritório em Ice House Street, o centro de negócios do 
lado de Hong-Kong, conhecido por Central. Todos os dias o motorista o levava ao 
terminal do Star Ferry` para a travessia - de sete minutos - do porto de 
Victoria entre Kowloon e Hong-Kong. Uma vez do lado de Hong-Kong, uma pequena 
caminhada a pé levava-o até ao escritório.
O pai adaptou-se rapidamente à vida dos negócios na colónia britânica. Começou 
por montar uma prometedora empresa de importação-exportação. Mais tarde passou 
astutamente a negociar em acções, bens e moeda estrangeira. Lançou uma empresa 
imobiliária, a Mazman, mais tarde incorporada na bolsa de Hong-Kong. A Mazman 
comprava terras escolhidas nos leilões do governo e construía prédios para 
habitação e indústria. O pai adquiriu o direito exclusivo de dispor do cascalho,

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pedras e terra aquando do alargamento da Stubbs Road, no coração dos 
Mid-levels~s, em Hong-Kong, a meio caminho entre o porto e o Peak26. Criou uma 
pedreira temporária e vendia o produto das escavações a pedreiros desejosos de 
adquiri-lo. Tornou-se membro dos mais prestigiosos clubes em Hong-Kong e era 
conhecido como um empresário de sucesso de Xangai.
Niang e o pai atingiram uma posição de destaque dentro do pequeno círculo 
ocidentalizado da alta sociedade de Hong-Kong. Nessa época havia poucos 
empresários chineses a falarem inglês e muito menos a poderem sentir-se à 
vontade entre ocidentais. Niang e o pai, pelo contrário, sentiam-se confortáveis
em ambos os mundos.
Elegante e fotogénica, Niang surgia nas colunas sociais dos jornais e revistas 
locais. Contratou um cozinheiro analfabeto, oriundo do Park Hotel, em Xangai, e 
que sabia todas as receitas de cabeça e tinha fama de conhecer cem maneiras 
diferentes de cozinhar galinha. Em casa davam-se jantares espectaculares. Os 
convites eram encarecidamente recebidos, devido à qualidade da comida e à lista 
exclusiva de convidados de Niang. Durante estas festas, o nome de Ye Ye e o 
nosso, o dos
4 A empresa Star Ferry faz ainda hoje as carreiras de ligação por mar entre a 
ilha de Hong-gong e Kowloon, atravessando o porto em cerca de sete minutos. (N. 
da T.)
n Zona situada a meia encosta na colina de Honk Kong, hoje palco de luxuosos 
prédios residenciais e dispondo de vista soberba sobre o mar. (N. da T.)
Z6 o ponto mais alto da ilha de Hong-Kong, com acesso por estrada ou elevador, 
~spondo de um passeio para peões, com diversos miradouros, de onde se podem 
apreciar diversas vistas do porto de Victoria. (N. da T.)
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enteados (quando estávamos em casa), nunca era mencionado e em ocasião alguma 
fomos apresentados. Subentendia-se que devíamos manter-nos escondidos nos nossos
quartos e nunca envergonhar ninguém com a nossa presença, especialmente quando 
havia convidados ocidentais.
Dois dias depois da partida da família Schilling, Niang ordenou-me que fizesse 
as malas. Eu estava de partida.
Lembro-me desse sábado à tarde como se fosse hoje. O pai estava no escritório. 
Susan estava numa festa de anos. Ye Ye estava a dormir a sesta. Niang, Franklin 
e eu sentámo-nos lado a lado no Studebaker, no banco de trás. O carro estava 
inundado do perfume caro de Niang e eu já estava tonta só de pensar no que me ia
acontecer.
Para meu espanto, o carro parou em frente do elegante Hotel Península. Parecia 
que Franklin queria lanchar. No fresco restaurante de tectos altos, no lobby do 
hotel, decorado com palmeiras em vasos, mobiliário de verga e ventoinhas no 
tecto, sentei-me numa grande cadeira de bambu. A orquestra tocava o "Danúbio 
Azul". Franklin queria um gelado e Niang pediu sanduíches, enquanto eu ainda 
percorria nervosamente o longo menu. Senti-me enjoada. Queria fugir rapidamente 
para a casa de banho, mas fiquei colada à cadeira, a pensar se era agora que ela
ia pôr em prática a ameaça de me deixar num orfanato. Seria aquela a minha 
última refeição antes do golpe de misericórdia?
Os meus negros pensamentos foram bruscamente interrompidos pela voz aguda de 
Niang:
- Adeline - disse ela já impaciente -, podes pedir aquilo que quiseres, 
percebes? Tens é de te despachar!
108
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Ren Jie Di Ling
Uma aluna brilhante numa terra maravilhosa

A Sacred Heart Convent School and Orphanage pertencia à Ordem das Canossianas de
Itália e situava-se em Caine Road, na ilha de HongKong, nos Mid-levels, frente 
ao mar. Depois de atravessar o porto de
,ferry, nessa mesma tarde, o nosso carro percorreu a movimentada zona de 
Central, onde o pai tinha o seu escritório, e dirigiu-se ao elevador para o 
Peak. Logo por debaixo dos Jardins Botânicos, voltámos à direita, na direcção do
palácio do governador, guardado por sentinelas fardadas de branco e rodeado por 
um viçoso relvado verde; seguimos para oeste durante cerca de meio quilómetro, 
para nos determos nos estreitos portões do colégio, mais a norte. Uma escadaria 
íngreme de pedra conduzia à portaria, onde, após uma curta espera, fomos 
saudados pela Irmã Mary e pela Irmã Louisa.
Em 1949, o Sagrado Coração era um dos poucos colégios de HongKong que aceitavam 
internas e órfãs. Estes dois grupos usavam uniformes diferentes e o convívio 
entre eles era proibido. As órfãs não frequentavam as aulas normais; eram-lhes 
ensinadas "actividades prá

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ticas", tais como costura, limpeza de roupa, cozinha e passagem a ferro. Durante
a missa sentavam-se num lugar a elas reservado. Depois da escola, enquanto as 
internas jogavam, recebiam aulas particulares de Arte ou Música, ou liam na 
biblioteca, as órfãs ajudavam na lavagem da roupa, na cozinha ou no jardim. 
Esperava-se que deixassem o colégio aos 16 anos e que arranjassem um emprego 
como empregadas de mesa, criadas ou funcionárias de lojas.
As raparigas eram um bem barato na China. As filhas não desejadas eram vendidas 
como escravas, às vezes por intermediários, a famílias desconhecidas. Uma vez 
vendida, o destino de uma rapariga ficava completamente à mercê do seu 
comprador. Ela não tinha documentos nem direitos. Algumas, embora muito poucas, 
poderiam eventualmente ter a sorte de serem adoptadas pelos seus compradores. A 
maior parte era sujeita a maus tratos e outros abusos. A prostituição e até 
mesmo a morte eram o destino de algumas crianças escravas.
Eu não sabia quais eram as intenções de Niang, mas o meu futuro estava nas mãos 
dela. Acompanhada por Franklin, conferenciou com as duas freiras numa salinha 
privada durante o que me pareceu uma
eternidade. Eu, entretanto, esperei lá fora, percorrendo todos os folhetos que 
descreviam a escola e o orfanato. Fiquei a saber que a grande maioria das 1200 
alunas do Sagrado Coração era constituída por externas, que entravam às 8 da 
manhã e saíam às 3.30. Foi uma espera horrível. Fiquei sentada, a tremer, 
lembrando-me das ameaças de Niang, três anos antes, em Xangai ...
Finalmente, todos voltaram a aparecer. Para minha grande surpresa, Niang sorriu 
e fez-me festinhas na cabeça em frente das freiras. Foi esta a primeira e última
vez que ela me tocou durante a minha infância, se exceptuarmos as bofetadas.
- Vê bem a sorte que tens! - exclamou ela. - A Irmã Mary aceitou a tua admissão 
no internato a meio do ano lectivo!
Quando entrei, havia 36 internas. Durante os anos que lá passei nunca superei 
realmente o medo que tinha de ser transferida para a secção do orfanato, onde 
não custaria um único tostão ao meu pai.
Ao ser admitida como interna, cada criança recebia um número de identificação. A
partir de então, todos os nossos haveres eram carimbados com esse número. O 

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nosso dia começava às 5.45, altura em que éramos acordadas por uma sonora 
campainha. A missa diária era obri
gatória. A minha amiga Mary Suen, que não gostava de se levantar cedo, costumava
queixar-se de que aquilo era exactamente como se fôssem°s freiras, quer 
quiséssemos ser santas quer não. A única desculpa aceitável para escapar à missa
era uma doença grave, verdadeira ou não. Durante esta celebração, muitas de nós 
tínhamos apenas um pensamento: sair da capela o mais rapidamente possível e 
correr para a sala de jantar para tomarmos o pequeno-almoço. Os lugares eram 
fixos e não podiam ser alterados; éramos sentadas por idades. Mary sentava-se ao
meu lado esquerdo.
A cada uma de nós era atribuído um cacifo no grande louceiro da sala. As 
internas arrumavam no seu espaço próprio e numerado as provisões que traziam de 
casa. A abundância ou escassez da comida de cada aluna era claramente visível 
por todas as outras, o que constituía também o barómetro do grau de afecto que a
respectiva família tinha por cada uma. Durante todo o tempo que passei no 
Sagrado Coração, o meu cacifo esteve eternamente vazio.
Os ovos tinham um significado especial. Tinham de ser trazidos de casa e eram 
arrumados no frigorífico da cozinha. Antes de os entregar, cada uma das internas
tinha de pintar o seu núnero a tinta-da-china em todas as cascas.
Ao pequeno-almoço, cada uma de nós recebia duas fatias de pão, uma porção de 
manteiga e de doce. Aquelas que tinham sorte e cujos pais pagavam mais 15 
dólares por mês bebiam leite quente ao qual podiam juntar o seu próprio 
chocolate ou Ovaltine, que guardavam no seu cacifo do louceiro. Algumas meninas 
chegavam a trazer pasta de anchovas, Marmite, pasta de fígado ou atum enlatado 
para pôr no pão. Depois a Irmã Mary trazia um recipiente enorme cheio de ovos 
quentinhos, acabados de cozer. Ela costumava tirar os ovos um a um e colocá-los 
em recipientes individuais, lendo os números à medida que os distribuía. Quando 
alguém ouvia o seu número, dirigia-se a ela para ir buscar o seu ovo.
Esses ovos tornaram-se símbolos de um raro privilégio. Eram baratos e vendiam-se
em qualquer mercado, mas, quando alguém ouvia a Irmã Mary chamar o seu número, 
isso significava que a família a amava o suficiente para lhe enviar ovos e, por 
conseguinte, para lhe proporcionar um pequeno-almoço bem nutritivo. O facto de 
uma família ser rica não significava que uma pessoa recebia automaticamente um 
ovo. Os ovos não eram debitados na conta como o leite ou as lições

de Piano. O ovo do pequeno-almoço, mais do que tudo o resto, dividia, -nos em 
dois grupos perfeitamente distintos: as que eram amadas e aquelas que não o 
eram. Escusado será dizer que eu nunca tive ovos durante todo o tempo que passei
no Sagrado Coração.
A seguir ao pequeno-almoço corríamos a buscar os nossos livros à sala de estudo 
e íamos ter com as externas ao pátio. As aulas começavam às 8. As lições eram 
dadas em inglês, mas falávamos umas com as outras em cantonense. Com grande 
surpresa, descobri que os meses passados em St. Joseph me tinham dado a 
preparação suficiente para acompanhar os estudos.
Ao meio-dia o colégio parava para o almoço. Uma campainha chamava as internas 
para a sala de jantar, onde íamos encontrar um prato de esparguete com bolas de 
carne, ou macarrão com queijo. Nos dias melhores tínhamos costeletas de porco 
com arroz e legumes salteados com puré de batata.
- E chamam a isto comida ocidental! - resmungava Mary por entre dentes. - Uma 
taça da mesma sopa todos os dias!
À tarde, as aulas iam da 1.30 às 3.30. Às 4 servia-se o chá na sala de jantar. 
Era a única refeição que só tomávamos se quiséssemos. Era esta a refeição onde 

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aquelas "que tinham" podiam realmente brilhar perante as "que não tinham". Além 
do pão, da manteiga e do doce, como era habitual, lá apareciam as guloseimas 
trazidas durante as visitas dos domingos: chocolates, biscoitos, rebuçados, 
carne seca, fruta cristalizada, nozes. No dia dos anos, a aniversariante era 
autorizada a trocar o seu uniforme por um vestido bonito. Vestida de bonitas 
rendas, laços e tufos, exibia a sua largueza, desfilando ao lado da Irmã Mary 
atrás de um enorme bolo de aniversário com as respectivas velas acesas. Todas 
cantávamos os "Parabéns a você!". O bolo era partido e colocado numa travessa. 
Então a Irmã Mary e a aniversariante iam de lugar em lugar, servindo - ou não - 
uma fatia, conforme os desejos da menina dos anos. Depois deste joguinho 
discriminatório, a aniversariante abria os seus presentes, enquanto nós íamos 
soltando "ahs" ou "ohs".
Eu costumava ir para o lanche um pouco mais tarde, devorava o meu pão com doce e
manteiga tão depressa quanto podia e depois escapava-me. Sabia muito bem que 
nunca teria uma festa de aniversário e que nunca poderia retribuir nem comprar a
ninguém qualquer presente. A minha amiga Mary e eu nunca falávamos uma à outra
nestes assuntos, mas eu encontrava muitas vezes pequenas surpresas que ela 
deixava no meu prato: rebuçados de coco, um pacote de ameixas cristalizadas, um 
pedaço de fruta.
A iviary não era o que se pudesse considerar uma boa aluna. Tinha dificuldades 
em Matemática e pedia-me ajuda muitas vezes. Costumava sentar-se ao meu lado 
enquanto eu a ajudava nos trabalhos e dizia:
- Agora parece tão evidente. Como é que eu não pensei nisso
antes?
Eu desfrutava da admiração dela e tentava ser ainda melhor. Noutros aspectos, 
Mary era madura para a idade que tinha. Quando Daisy Chen entrou no colégio como
interna, apercebi-me de que tinha sotaque de Xangai e tive curiosidade em 
conhecer a sua história. Fiz certamente perguntas de mais; Daisy tornou-se 
esquiva e evasiva. Mais tarde Mary disse-me:
- Não lhe faças tantas perguntas! As raparigas como nós, que acabam em colégios 
como este, vêm geralmente de famílias infelizes. É melhor não perguntares mais 
nada! De qualquer modo, vamos sempre acabar por saber a sua história.
Recriminei-me por ser tão insensível e tão maçadora.
Depois do chá havia uma hora de recreio. Podíamos brincar com as nossas bonecas,
ler, saltar à corda, treinar no piano, andar de patins, jogar basebol ou 
basquetebol. Geralmente eu ia para a biblioteca.
Era uma grande sala rectangular, encaixada num canto da ala das internas. As 
suas prateleiras repletas de livros elevavam-se até ao tecto. A maioria das 
obras era em inglês, algumas em italiano ou latim. Não havia livros em chinês.
Ó quanta magia entrar e ver todo aquele tesouro, onde a palavra escrita era 
senhora e rainha! As janelas eram pequenas. As luzes eram fracas. Por estes 
motivos, a sala era escura e pouco cativante. Não havia bibliotecária. Muitos 
dos volumes eram usuais ou revistas, que não podiam ser retirados. Tudo o resto 
era uma amálgama de assuntos jazendo ao sol. Estávamos autorizadas a levar 
quantos livros quiséssemos. A Irmã Louisa era quem estava encarregada de fechar 
as portas pontualmente às 5 horas. Dado que o lanche decorria das 4 às 5, eu era
geralmente a única a frequentar a biblioteca. Muitas vezes, à saída, com os 
braços carregados das últimas leituras, cruzava-me com a Irmã Louisa. Tornei-me 
uma figura tão habitual que, geralmente antes de fechar a porta, ela ia ver onde
é que eu estava.
- O sábio já saiu da sua toca - brincava ela, enquanto abanava o molho de chaves
- ou será que vai aí passar a noite?

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Tinha-me dado essa alcunha por causa de um problema de Matemática que eu tinha 
ajudado Mary a resolver e cuja solução acabou por ser mais correcta do que 
aquela que estava no seu próprio livro. Provavel
mente fora apenas um erro de impressão, mas esta história acabou por correr o 
colégio e chegou aos ouvidos das outras internas. Muitas vinham ter comigo 
quando tinham problemas com os seus trabalhos de casa.
Deixaram de reparar no meu único vestido de domingo, que já estava 
demasiadamente curto e apertado para mim, nos meus sapatos já gastos e com 
buracos nas solas, no meu cacifo permanentemente vazio e na ausência dos ovos.
Os domingos eram os dias de visita. Entre as 10 e o meio-dia, nós, as internas, 
vestíamos as nossas roupas mais bonitas e, de cabelo penteado e sapatos 
engraxados, esperávamos pelos nossos pais na recepção. Havia cadeiras dispostas 
em grupos para as reuniões de família. Não nos misturávamos com os familiares 
das nossas colegas.
No princípio eu ainda era apanhada pela excitação da visita dos domingos e 
preparava-me para receber a minha família com tanta animação como todas as 
outras. Todavia, invariavelmente, não tinha visitas. Tornou-se difícil ignorar 
os comentários mordazes e os olhares de pena domingo após domingo. Entre todas 
as internas, eu era claramente a filha indesejada.
Finalmente, resolvi a questão retirando-me de cena. Aos domingos de manhã, 
quando todas as raparigas se aprontavam ao espelho, eu agarrava numa pilha de 
livros e, despercebidamente, escapava-me para a casa de banho. E aí ficava até 
ouvir o ruído das conversas e das gargalhadas quando as minhas amigas voltavam a
subir, carregadas de alimentos e presentes, fazendo comparações entre elas, 
trocando comida e experimentando roupa e sapatos novos. Assim que percebia que 
tinham voltado todas, enfiava os livros debaixo do uniforme e saltava cá para 
fora com um ar de indiferença. Com um certo tacto, ninguém falava das minhas 
desaparições aos domingos.
Muitas vezes, já tarde, quando toda a gente já tinha adormecido, eu estava ainda
acordada, muito ansiosa, cheia de pensamentos cinzentos

acerca do meu futuro. No Inverno, quando o tempo realmente arrefecia, 
enrolava_me debaixo das cobertas e lia os meus livros preferidos à luz da 
lanterna, para que as freiras não vissem qualquer reflexo a dançar no tecto. 
Como sempre, as minhas agitações interiores desapareciam com as dificuldades e 
atribulações das minhas personagens e eu acabava por adormecer.
Entre Abril e Setembro, o tempo era desesperadamente quente e húmido. Durante as
aborrecidas férias de Verão eu estava entre as poucas internas que permaneciam 
no colégio; por vezes era mesmo a única. Acabei por desenvolver a técnica de a 
meio da noite rebolar em silêncio por debaixo das camas vazias até chegar ao 
outro lado, onde as janelas se abriam para uma varanda que dava para o porto. Aí
eu costumava trepar para cima da fresca balaustrada e, sob um céu estrelado e 
azul-escuro, observava os enormes navios que salpicavam as águas da baía. 
Adorava sentar-me, agarrada aos joelhos, observando a paisagem lá em baixo, com 
os meus próprios sonhos a pairarem a quilómetros e quilómetros de distância.
Às vezes, um dos navios apitava, num sinal de partida. Quanta magia, ao ouvir 
aquele som cheio de lembranças! Cheios de desejo, os meus olhos seguiam o navio 
até ele mergulhar calmamente na escuridão. Imaginava-me a mim própria na sua 
proa, a deslizar por entre as águas calmas e escuras, de partida para uma viagem
fascinante para temas fabulosas: ~ l~l Ying Gt~o (País de Heróis) e ~ ~ Mei Gtro
(País Maravilhoso)! Estas palavras, que significam Inglaterra e América, 
representavam ediflcios de colégios relvados, cidadelas de saber em forma de 

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castelos senhoriais e de sagradas catedrais. Tal como é descrito pelo poeta Wang
Bo, da dinastia Tang, eram esses os lugares místicos que eu tanto desejava 
visitar para me poder transformar numa ~4~f~~ ren jie di lir:g (aluna brilhante 
numa terra maravilhosa).
A partir de então, sempre que ouço uma buzina de nevoeiro que apita a meio da 
noite, sinto ainda a dor acutilante dessas horas tardias, num som que me 
persegue, como um oráculo que atravessa o oceano dos tempos, convidando-me para 
uma terra de sonhos.
115
10
Du Ri Ru Nian Cada dia como um ano
As longas vestes chinesas de Ye Ye, os seus casacos bordados e a sua cabeça 
rapada pareciam ainda mais fora de moda em Hong-Kong do que antes, em Xangai. Ye
Ye permanecia um budista convicto. Não falava inglês nem cantonense e sentia-se 
um estrangeiro completo nessa cidade do Sul. Não tinha amigos e mal conseguia 
comunicar com as criadas. Os únicos prazeres que tinha eram as refeições 
diárias, o charuto que fumava depois do jantar e as cartas que escrevia e 
recebia da tia Baba. Dos netos que lhe restavam, Franklin era insolente e Susan 
era pequena de mais para lhe despertar interesse. Por essa razão, voltou-se cada
vez mais para James e para mim. Nas três ocasiões em que fui autorizada a ir a 
casa (duas vezes no Ano Novo chinês e uma em que estive a convalescer de uma 
pneumonia) dormi numa cama colocada no quarto que Ye Ye partilhava com James.
Quando queria fazer pequenas compras, como cigarrilhas ou selos, tinha de pedir 
dinheiro ao pai. Lembro-me de Ye Ye, envelhecido e triste, a ler calmamente os 
seus jornais da manhã na sala de estar.

Nos últimos anos de vida, Ye Ye sofria de diabetes. Era guloso, pelo que lhe era
muito difícil ver-se privado de um dos seus parcos prazeres. Era o pai quem, 
diariamente, lhe dava as injecções de insulina. De vez em quando Ye Ye comia um 
chocolate ou um biscoito, pequenas infracções que Niang conseguia sempre 
descobrir. Quando o pai regressava a casa, havia sempre uma sessão de gritaria. 
Ye Ye ficava então reduzido a um velhote encolhido e confessava que sim, que 
tinha comido o chocolate. Sim, sim, ele sabia que estava proibido e que lhe 
fazia mal à saúde. Não, não queria morrer. E geralmente tudo terminava de uma 
forma humilhante, com o pai a dar-lhe uma injecção de insulina.
O pai decidiu alterar a dieta de Ye Ye. Eliminou o vinho de arroz, a carne de 
porco assada, o peixe frito em molho agridoce, os legumes salteados, o leite 
fermentado. Sob a recomendação de um qualquer médico ocidental, Ye Ye passou a 
comer um único prato, em que cada um dos componentes era cuidadosamente pesado 
pelas criadas. Havia algumas cenouras, um pouco de peixe cozido, uma pilha de 
batatas cozidas e um monte de arroz cozido no vapor. Esta mesma refeição era-lhe
servida três vezes ao dia, sete dias por semana. Deixou de comer connosco. Este 
repasto era-lhe servido pontualmente às 8, ao meio-dia e às 6. Nos intervalos 
estava proibido de comer o que quer que fosse.
Quando Ye Ye protestou, explicaram-lhe que eram "ordens do médico". Durante as 
minhas raras visitas a casa, lembro-me de que me ia sentar ao pé dele enquanto 
comia. Até doía ver a sua expressão de angústia ao engolir esta dieta monótona, 
odiando cada dentada.
O pai acreditava, provavelmente, que este tipo de privação era para bem de Ye 
Ye. De outro modo, como poderia ter aguentado a atitude desesperada de Ye Ye 
durante aquelas refeições horríveis? Anos mais tarde, Lydia contou-me que Ye Ye 
se tinha rebelado e que tinha exigido sair e ir morar sozinho. Certo dia 

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anunciou que tinha decidido voltar a casar e que ia consultar uma casamenteira. 
A recusa foi categórica. Não havia nada que lhe fosse permitido fazer. Uma 
depressão profunda instalou-se. Escreveu à tia Baba, dizendo-lhe que queria 
voltar a Xangai e passar os últimos anos da sua vida com ela (sabia, contudo, 
que, pelo seu passado capitalista, esse era um desejo impossível). Contou-lhe 
ainda que em Hong-Kong a vida era tão infeliz que não havia mais nada a fazer 
senão suicidar-se. A tia Baba mostrou estas
cartas a Lydia antes de serem destruídas pelos Guardas Vermelhos durante a 
Revolução Cultural.
No Verão de 1951 apanhei uma pneumonia e dei entrada no hospi_ tal. Jaines, que 
tinha vindo há pouco tempo de Xangai, lembrava_se de como Ye Ye ficara 
extremamente preocupado ao saber da notícia e decidira ir visitar-me. Niang 
tinha ficado com o carro para ir ao jogo semanal de brídege. Foi ela que lhe 
disse que não fosse, porque era incómodo e desnecessário; eu já estava a ser 
tratada pelos "melhores médicos que o dinheiro podia pagan>. Mas Ye Ye insistiu.
Pediu a James que o acompanhasse, porque não conhecia bem as ruas, os autocarros
ou os .férries de Kowloon para Hong-Kong.
Ye Ye vestiu então o seu melhor fato chinês. A chuva começou a cair. Não podia 
usar os seus confortáveis sapatos de pano de Xangai e nem conseguia encontrar os
sapatos de sola. Finalmente, depois de muito procurar, Franklin encontrou-os. 
Parece que sempre tinham estado no armário do corredor, embora James e Ye Ye já 
lá tivessem ido procuaá-los. Saíram de casa sob chuva intensa; James segurava o 
guarda-chuva e Ye Ye apoiava-se pesadamente no seu braço. Os passeios estavam 
molhados e escorregadios. Quando saíram, James disse-lhe:
- Niang disse-lhe que não fosse. Não atire as culpas para cima de mim se 
escorregar e cair com esta chuvada!
Ye Ye caiu pesadamente, mesmo antes de virarem a esquina de Boundary Street para
Waterloo Road, ondeiam apanhar o autocarro. Tiveram de desistir da viagem. Ye Ye
escorregava a cada passo. Quando iam a chegar ao apartamento, Ye Ye viu Franklin
empoleirado na varanda a gesticular à chuva. Gritava e ria na maior excitação:
- Vê, eu não lhe disse que ia cair? Eu é que tinha razão! Eu é que tinha razão! 
Niang bem lhe disse que não fosse! Ela disse-lhe que não fosse! Foi o próprio Ye
Ye quem me contou todo o episódio, quando tive alta do hospital e estive em casa
a convalescer durante alguns dias ... Fê-lo calmamente, tristemente, pedindo 
desculpa por não ter ido visitar-me enquanto estivera doente.
- O mais assustador - dizia Ye Ye - foi a completa ausência de piedade filial da
parte de Franklin. Quando caí, perdi o sapato. Apanhei-o da sarjeta e percebi 
que a sola estava engordurada. Quando voltei a casa, examinei os sapatos. As 
solas estavam cobertas com uma substância gordurosa que cheirava a pasta de 
dentes Darkie. (Tratava-. -se de uma conhecida marca de pasta de dentes 
fabricada em Hong
gong. Os donos da companhia eram os nossos vizinhos de baixo no apartamento de 
Boundary Street e muitas vezes tinham a gentileza de nos oferecer amostras.)
ye Ye era bom de mais para acusar Franklin directamente, mas apercebia-se da 
minha tristeza e da minha raiva.
- Tens a vida toda pela frente. Tens de ser esperta. Estuda com vontade e 
torna-te independente. Receio bem que tenhas muito poucas hipóteses que receber 
um dote.
Aquiesci com a cabeça.
- Não acabes casada como Lydia. Tens de confiar em ti mesma. Mesmo que te roubem
tudo, nunca serão capazes de te tirar os teus conhecimentos. O mundo está a 
mudar. Tens de construir a tua vida fora desta casa.

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No final do ano de 1951, o pai mudou-se com a família para uma moradia isolada 
em Stubbs Road, nos Mid-levels, na ilha de HongKong. Stubbs Road era uma rua 
principal, com carros que a percorriam a grande velocidade. Não havia comércio 
nas proximidades e andar a pé era perigoso. Para a mais pequena compra era 
necessário usar o carro. As cartas de Ye Ye para a tia Baba tornaram-se cada vez
mais desesperadas.
- Todos nós nos agarramos à vida com tanta força - escrevia Ye Ye -,mas há 
destinos que são piores do que a morte: solidão, apatia, insónia, dor física. 
Trabalhei arduamente toda a vida e economizei todos os tostões. Agora pergunto a
mim próprio de que me serviu tudo isso. A agonia e o medo da morte são 
certamente piores do que a própria morte. A ausência de respeito à minha volta. 
A inexistência de esperança. Nesta casa onde eu não valho nada, du ri ru nian 
(cada dia é como um ano). Achas que a morte poderá ser pior? Diz-me, minha 
filha, o que posso eu esperar?
Ye Ye morreu no dia 27 de Março de 1952, com complicações advindas da diabetes 
de que sofria. Nos últimos três meses de vida escreveu à tia Baba falando-lhe 
sobretudo do passado. Falava-lhe das refeições festivas com dez pratos que o seu
próprio pai preparava na altura do Ano Novo chinês, na casa de chá que possuíam 
na velha cidade murada de Nantao; dos passeios a cavalo com a tia-avó quando era
rapaz, em Xangai, quando a maior parte de Xangai era ainda zona rural; de 
observar as sampanas enquanto desciam o rio Huangpu; dos dias felizes que 
passara com a avó quando o pai e a tia Baba ainda eram
pequeninos. Pedia também desculpa por nunca ter arranjado um casamento adequado 
para a tia Baba.
- Se eu errei, errei por me preocupar demasiado - dizia ele na sua carta. - Não 
sei como, mas sempre achei que não havia ninguém à tua altura. Sempre pensei que
precisavas de alguém especial, que tomasse
conta de ti. Talvez essa pessoa não exista senão nos meus pensamentos. Quando Ye
Ye morreu, o pai estava demasiado ocupado para poder informar a tia Baba. Em vez
disso, ela recebeu a notícia por outras vias: através de uma carta enviada por 
um dos empregados do pai.

11
Zi Chu Ji Zhu Ideias originais para composições literárias
Quando estive doente em 1951, foi durante as férias de Verão. A maior parte das 
meninas já tinha ido para casa. Comecei a tossir sangue, a minha febre subiu a 
40°C e tinha dificuldade em respirar. Dois dias mais tarde dei entrada no 
hospital. No início os médicos pensaram que eu ia morrer e informaram a minha 
família.
Sentia-me sozinha e assustada. Da minha casa não chegava ninguém. Mary, a minha 
melhor amiga do colégio interno, era a minha única visita. O pai de Mary tinha 
uma concubina. Ela vivia com a mãe numa outra casa situada a pouca distância do 
hospital. Dizia-me que não tinha outras coisas importantes para fazer. 
Estava-lhe profundamente grata por aquela atenção, quaisquer que fossem as 
razões que ela tivesse para ma dispensar. À medida que ia melhorando, ela 
trazia-me alguns presentes: mangas doces e frescas, amendoins torrados, gelados 
~ Dairy Farm2' e diospiros secos. Jogávamos às cartas, pintávamos,

n Marca de lacticínios produzida em Hong-Kong. (N. da T.)
120

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fazíamos prrzzles e comíamos juntas a comida que trazia. A febre baixou. A tosse
foi diminuindo.
Certo dia, pela hora do almoço, o pai apareceu de repente. Mary tinha ido para 
casa almoçar. Sem se fazer anunciar, entrou bruscamente no meu quarto, 
admiravelmente vestido num fato azul-escuro. Ficou à beira da minha cama com uma
expressão preocupada.
- Como te sentes? - perguntou ele. Quando lhe respondi, queria descansá-lo: - 
Sinto-me bem, pai. Já estou muito melhor.
Uma mistura de alegria, medo e surpresa fez-me perder a fala e não consegui 
dizer mais nada.
Quanto a ele, parecia que também não conseguiria articular uma palavra. 
Observou-me por minutos, até que o nosso silêncio se tornou incómodo. Tocou-me 
ao de leve na fronte para ver se eu tinha febre e sussurrou:
- Cuida de ti. E saiu.
Nesse momento Mary entrou no quarto acompanhada de uma enfermeira.
- Quem era aquele? - perguntou a enfermeira. Respondi com orgulho:
- Era o meu pai.
Pôs um ar de espanto e disse:
- Mas pensávamos que era órfã!
- Quase órfã, mas não exactamente.
Olhei para Mary, como que a perguntar se já tinha falado de mais. - Eu também 
faço parte da mesma categoria geral - disse Mary à enfermeira.
- Na verdade - disse eu com ar entendido -, no Sagrado Coração somos cerca de 
cinquenta nesta categoria geral.
- Mas só entre as internas - atirou Mary e desatamo-nos a rir 
descontroladamente.
A enfermeira saiu. Nesse momento senti-me muito próxima da minha amiga de 
escola. De repente veio-me à cabeça que, dia após dia, tinha ansiado pela visita
da minha família e, contudo, quando o meu pai viera finalmente, não tínhamos 
nada para dizer um ao outro. Por que razão havia de forçar a relação com os meus
pais quando tinha amigos leais?
122

Mary e eu começámos a fazer planos para fugir de Hong-Kong e ir viver para 
alojamentos de estudantes em universidades bem longe dali: Londres; Tóquio ou 
Paris.
Quando regressei ao colégio, depois de uma semana de convalescença em casa, 
apercebi-me de que era a única interna, pois as férias ainda não tinham acabado.
Não havia ninguém com quem pudesse conversar nem nada que pudesse fazer. Passava
muito tempo na biblioteca, folheando livros e revistas. Numa dessas ocasiões 
tropecei no anúncio de um concurso de peças de teatro, aberto a todas as 
crianças que falassem inglês, dos 10 aos 19 anos. Encafuada na biblioteca e com 
todo o tempo do mundo, deitei-me ao trabalho. A minha peça chamava-se Para Longe
com os Gc!fànhotos'8. O enredo girava à volta da devastação que tais insectos 
causavam em África. O tempo corria rapidamente e fiquei triste quando cheguei ao
final da peça. Enviei o meu trabalho e não pensei mais no assunto. A escola 
recomeçou e as meninas voltaram.
Numa segunda-feira, meses mais tarde, estava eu a jogar basquetebol no recreio 
do almoço, quando a Irmã Valentine (a quem chamávamos Cara de Cavalo) se 
aproximou e interrompeu o nosso jogo para me dizer que o motorista da minha 
família estava à minha espera. Ye Ye tinha morrido e o funeral era nesse dia.
Levaram-me directamente ao templo budista, vestida com o uniforme do colégio, e 

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foi aí que eu vi a fotografia de Ye Ye colocada em cima do seu caixão. Desatei a
chorar e não conseguia conter as lágrimas, embora visse que ninguém mais estava 
a chorar. O pai, Niang, James, Franklin e Susan estavam sentados em frente dos 
empregados, do cozinheiro e do motorista, de rostos brancos, sem deixarem 
transparecer uma emoção. Não havia outras pessoas presentes.
Chorei durante toda a cerimónia, inundada de uma terrível sensação de perda. 
Quando saí do templo, ainda soluçava, sem me aperceber de que as minhas lágrimas
irritavam Niang cada vez mais.
- Porque é que estas a chorar? - murmurou ela furiosa.
Cheia de tristeza, olhei para ela com os olhos vermelhos de chorar, o nariz a 
correr, habilitando-me a algum comentário mais áspero.
E foi o que aconteceu. Ela voltou-se para o pai:
- Acho que a Adeline, quanto mais cresce e quanto mais velha está, mais feia se 
está a tornar!
~ No original Gone with the Locusts. (N. da T.)
123
Regressámos a casa depois do funeral e Niang chamou-me à sala de estar. Vestia 
um elegante fato preto e tinha as longas unhas pintadas de vermelho. O forte 
cheiro a perfume incomodava-me e senti que estava
prestes a perder os sentidos. Ela ficou a olhar para o meu uniforme do colégio 
já muito surrado, para o meu cabelo escorrido, sem permanente, e para as unhas 
roídas das minhas mãos. Senti-me minúscula, feia; senti que não prestava para 
nada.
- Senta-te, Adeline! - disse ela em inglês. - Queres um sumo de laranja?
- Não, muito obrigada.
-Reparei que estavas a chorar ainda agora, no funeral - disse ela. - Estás a 
ficar crescida. Devias gastar algum tempo a cuidar de ti. Torna-te uma pessoa 
apresentável. Não há homem nenhum que queira uma noiva feia.
Movi a cabeça em sinal de assentimento e repeti para mim própria que não era 
aquela a verdadeira razão pela qual me tinha chamado. Cerrei os punhos e 
esperei.
- O teu pai - disse ela - tem sete filhos para sustentar. Graças a Deus que 
Lydia já está casada e em segurança. Contudo, restam ainda seis. Já não é 
demasiado cedo para pensarmos no teu futuro. Quais são os teus planos?
Pensei na minha ficha de avaliação carregada de "As" e naquela presença 
ameaçadora à minha frente. Eu sabia muitíssimo bem que, caso dependesse dela, eu
não teria qualquer futuro pela frente.
Aterrorizada, de olhos fixos nos meus próprios pés, murmurei qualquer coisa 
sobre ir estudar para uma universidade, como os meus irmãos, de preferência em 
Inglaterra.
Fui logo interrompida:
- O dinheiro do teu pai não é inesgotável. Já decidimos que vais aprender 
estenografia e dactilografia para arranjares um emprego. Eu tinha na altura 14 
anos e Ye Ye tinha acabado de morrer. Nesse mesmo Verão James ia para Londres 
para continuar os 'seus estudos. As minhas professoras tinham-me dito que as 
melhores universidades eram na Europa e na América. Quando voltei ao colégio, 
escrevi cartas e mais cartas ao pai e a Niang, pedindo-lhes que me deixassem ir 
para Londres com James e juntei as minhas fichas de avaliação repletas de 
recomendações e de prémios. Nunca obtive resposta. Considerei seriamente a 
hipótese de fugir para Xangai e ir ter com a tia

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Baba para continuar os meus estudos. Estava decidida e ir para a universidade.
Um mês depois, num sábado à tarde, a Irmã Valentine veio novamente ter comigo 
para me dizer que o carro da minha família estava lá fora à espera. Perguntei a 
mim própria quem é que teria morrido daquela vez. O motorista assegurou-me que 
estavam todos bem de saúde. Perguntei-me logo a seguir o que teria eu feito de 
errado. Senti-me apavorada durante todo o percurso até casa.
Finalmente, a minha sorte tinha mudado. Eu não sabia, mas tinha ganho o 1º 
prémio no concurso de peças de teatro em que me tinha inscrito sete meses atrás.
O júri tinha comunicado os resultados por escrito ao departamento de educação de
Hong-Kong, que, por sua vez, tinha feito o comunicado à imprensa. A notícia 
merecera grande destaque, com direito a um espaço na primeira página. 
Mencionavam o meu nome, idade e escola, bem como o facto de o concurso ser 
aberto aos estudantes dos territórios de expressão inglesa. O pai ia a subir no 
elevador para o seu escritório numa manhã de sábado, quando um conhecido lhe fez
sinal e lhe mostrou o artigo de jornal.
- Por acaso a vencedora, Adeline Junling Yen, é da sua família? - perguntou ele.
- É que têm o mesmo apelido fora do vulgar.
O pai, cheio de orgulho, leu e releu o artigo. Nessa mesma tarde mandou-me 
chamar.
Quando cheguei a casa, ordenaram-me que fosse imediatamente ao Santo dos Santos,
um quarto onde eu nunca tinha entrado. Niang tinha saído e o pai estava sozinho.
Percebi logo que estava de bom humor. Mostrou-me o artigo do jornal. Eu nem 
queria acreditar! Tinha ganho! O pai queria conversar comigo sobre o meu futuro.
O meu coração começou a bater com toda a força.
- Pai, por favor, deixe-me ir estudar para Inglaterra. Deixe-me ir para a 
universidade.
- Bem, acho que tens potencial - replicou ele - e talvez até tenhas zi chu ji 
zhu (ideias originais para composições literárias). Quais são os teus planos 
para o futuro? O que pretendes estudar?
Fiquei em silêncio durante longos momentos. Não fazia a menor ideia do que 
queria estudar. Ir para Inglaterra era tudo o que eu sempre tinha sonhado. Era 
como ir para o Paraíso. Tinha alguma importância aquilo que uma pessoa fazia 
depois de entrar no Paraíso?
125
O pai estava à espera de uma resposta. Cheia de emoções com o meu último 
triunfo, atrevi-me a dizer:
- Acho que vou estudar Literatura. Vou ser escritora.
- Escritora! - zombou ele. - Que espécie de escritora? E em que língua é que 
vais escrever? O teu chinês é muito elementar. E quanto ao teu inglês, não achas
que os Ingleses hão-de escrever melhor do que tu? Concordei logo. Seguiu-se 
outro daqueles silêncios incómodos.
- Já estive a pensar no assunto - anunciou o pai. - Vou dizer-te qual é a melhor
profissão para ti.
Senti um certo alívio. Faria o que ele me aconselhasse.
- Vais para Inglaterra com James para estudar Medicina. Quando acabares o curso 
especializas-te em Obstetrícia, tal como a melhor amiga da tia-avó, a Dr.`' Mary
Ting. As mulheres têm bebés e alguém tem de os ajudar a nascer. E neste caso as 
mulheres que dão à luz preferem médicas.
Nessa noite fui autorizada a dormir em casa. James e eu ficámos a conversar até 
tarde. Estávamos cheios de planos. O futuro parecia-nos sem limites. Pouco 
depois comecei a preocupar-me. E se os Ingleses exercessem qualquer tipo de 

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discriminação contra nós? E se nós fôssemos os únicos chineses nas nossas 
escolas inglesas e eles nos achassem esquisitos? À meia-noite ainda andávamos à 
volta com o dicionário, com James a proclamar que, se os Ingleses gostassem de 
nós, nos chamariam "raros", se isso não acontecesse, usariam a palavra 
"esquisitos". Nesse preciso momento a porta abriu-se e Niang entrou.
O pai e Niang tinham ido jantar fora. Ela vestia um vestido preto de 
lantejoulas, diamantes em volta do pescoço e brincos e anéis a condizer. As suas
longas unhas estavam pintadas de preto. Não parecia muito contente.
- O que é que ainda estão a fazer, a rir a estas horas da noite e a gastar 
electricidade? - inquiriu. - Não é já suficiente não fazerem mais nada senão 
comerem e dormirem durante o dia, quanto mais ainda andarem a desperdiçar o 
dinheiro do vosso pai na brincadeira até altas horas da noite!
E foi deste modo que nos apagou a luz e saiu do quarto, batendo com a porta.
Calmamente, metemo-nos nas nossas camas. Tentei consolar James: - Pelo menos não
nos proibiu de irmos para Inglaterra - disse-lhe. - Por muito mau que seja em 
Inglaterra - declarou James -,por muita discriminação que haja, por muitos nomes
que nos chamem, não pode, de certeza, ser pior do que isto!
126
12
Tong Chuang Yi Meng Na mesma cama com sonhos diferentes

Em Janeiro de 1949 Lydia fugira de Tianjin para Taiwan com o marido Samuel e os 
pais deste. O pai de Samuel, o médico da nossa família em Tianjin, depressa 
abriu novo consultório em Taipé. Iniciou ainda nova ligação com uma mulher mais 
jovem e transformou-a despudoradamente em sua concubina. Para a mãe de Samuel a 
situação tornou-se intolerável. Depois de uma amarga contenda, esta voltou a 
partir e regressou a Tianjin em 1950.
Nos anos 40 Taiwan era uma ilha semitropical com uma economia baseada na 
agricultura e na pesca. A indústria era quase inexistente. Havia poucos empregos
e as condições de vida eram primitivas. Samuel não conseguiu obter.um lugar 
adequado às suas qualificações. Após o nascimento de uma filha decidiram seguir 
a mãe de Samuel e regressaram a Tianjin.
O pai procurou convencê-los a não regressarem à China, avisando-os repetidas 
vezes das dificuldades e da tirania do domínio comunista.
127
Meses depois do seu regresso, em 1950, Samuel foi preso e acusado de ser um 
contra-revolucionário. O tio de Samuel tinha sido uma figura política de 
destaque no governo do Kuomitang, um membro bem co
nhecido da "classe exploradora". Muito embora esse tio se tivesse voltado para o
lado dos comunistas em 1949, o passado de Samuel era considerado sujo e requeria
um exame mais aprofundado. Durante o tempo em que o marido esteve preso, Lydia e
a filha, Tai-ling, viveram com a mãe de Samuel. As duas mulheres não se davam 
bem.
Seis meses mais tarde, quando Samuel foi posto em liberdade, a mãe informou-o de
que teriam de arranjar outro lugar para viver. Foi nessa ocasião que marido e 
mulher se lembraram das duas casas que o
pai tinha na Rua Shandong. Das duas residências, uma estava ocupada pelos 
empregados do pai e a outra por Lao Lao, tia de Niang. Lydia e o marido 
decidiram ir viver com ela.
Quando Niang descobriu que lá viviam, ficou furiosa e disse ao pai que lhes 
escrevesse e os ameaçasse com despejo, caso não saíssem de imediato. Samuel e 
Lydia contra-atacaram. Avisaram o pai de que

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tinham provas de que os seus empregados negociavam ilegalmente em moeda 
estrangeira e metais preciosos desde os últimos anos da década de 40 e mesmo 
depois da libertação. Se o pai tentasse pô-los fora de casa, denunciá-lo-iam às 
autoridades, bem como aos seus empregados. Exigiram também uma quantia em 
dinheiro, que lhes foi entregue. Continuaram a viver na casa do pai, mas ele 
nunca lhes perdoou.
Para Lydia, os anos que passou sob o regime comunista foram ainda mais árduos 
pela distância que a separava da sua família. Tornou-se cada vez mais amarga, 
atribuindo ao marido todas as culpas do seu infortúnio. Começou a odiá-lo e, 
embora continuassem a partilhar a mesma cama, não tinham com toda a certeza 
sonhos comuns: fel 1* ~ ~~~ tong chuang yi meng (na mesma cama com sonhos 
diferentes).
Mais tarde, depois da nossa partida para Inglaterra, Franklin passou a ser o 
senhor da casa. Niang satisfazia todos os seus desejos e dava-lhe grandes 
semanadas, ao passo que Susan não via um único tostão.
Um dia, tinha ele 13 anos e regressava a casa vindo de uma festa de anos, quando
passaram por uma plantação de morangos. Franklin avistou então uma pilha de 
caixas com a fruta acabada de apanhar Mandou parar o carro e comprou duas 
grandes caixas. A caminho de casa comeu todos os morangos, sem deixar um único.
128

Dias mais tarde apareceu com a garganta inflamada e febre. O pai estava a 
habalhar e Niang participava num qualquer evento social. Colocou os patins e 
saiu para a rua sob o sol quente da tarde. Meia hora depois entrava em casa 
queixando-se de uma forte dor de cabeça. Pediu a Susan que lhe fosse buscar um 
copo de água e meteu-se na cama. Quando Susan voltou com a água, bebeu um golo, 
queixou-se de que não estava suficientemente fria e atirou-lhe com o copo. Susan
apanhou-o e saiu do quarto.
Três horas mais tarde, quando Niang regressou, Franklin delirava e emitia 
estranhos sons guturais. Numa ambulância deu entrada no Hospital Queen Mary. 
Consultou-se o professor McFadden (Lo Mac ou o velho Mac para os alunos). Nessa 
altura Franklin já não conseguia engolir. Pedia água constantemente, mas, quando
tentava engoli-la, esta saía-lhe pelas narinas. Lo Mac chamou os meus pais e 
fez-lhes o diagnóstico. Franklin tinha poliomielite bulhar: tratava-se de uma 
perigosa manifestação desta doença que afectava a base do cérebro. Provavelmente
apanhara o vírus através dos morangos que comera sem lavar. Os agricultores 
chineses fertilizavam os campos com dejectos humanos, um meio bem conhecido de 
transmissão do vírus da polio. Lo Mac afirmou que não havia tratamento 
específico para a doença, podiam apenas tomar algumas medidas de apoio. Assim, 
fizeram-lhe um oriflcio na traqueia e colocaram-no num ventilador. O seu estado 
ora melhorava ora piorava. O pai visitava-o todos os dias; Niang vivia 
praticamente no quarto do hospital. Susan ficou fechada em casa para não apanhar
a doença. A pouco e pouco Franklin parecia melhorar.
John Keswick, o taipanz9 da Jardine Matheson, dava um baile que era, na 
realidade, o evento social da época. Niang fazia grande questão de ir e 
consultou Lo Mac. Este disse-lhe que não devia parar a sua vida social por causa
de Franklin. Além de tudo o mais, o estado do filho parecia estacionário.
Era de facto uma ocasião proeminente. Niang tinha passado a noite a dançar num 
vestido de seda verde com brincos de jade a condizer, quando recebeu uma chamada
urgente. Era o próprio professor McFadden. A sua voz soou cansada e abatida. 
Disse a Niang que se sentira no dever de lhe dar pessoalmente a notícia: o 
estado de Franklin piorara de repente e ele morrera.

Página 73

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z' Termo utilizado em Hong-Kong para designar o chefe máximo de uma organização.
iN. da T.)
129

Niang nunca conseguiu ultrapassar a morte de Franklin. O pouco amor que ela era 
ainda capaz de dar morrera com Franklin. Depois disso não se voltou para o pai 
nem para a sua única filha.
O pai também ficou arrasado com a perda do seu filho preferido. Embrenhou-se no 
trabalho e não se queixou, embora fosse cada vez mais evidente que era mais 
feliz no escritório do que em casa.
Susan tornava-se cada vez mais bonita, alta e graciosa, com um cabelo negro e 
espesso, olhos escuros de longas pestanas e dentes alvos. Era obstinada, franca 
e inteligente. O pai adorava-a. Niang não
apreciava o prazer que eles tinham na companhia um do outro. Sentiu-se 
ultrapassada pela sua própria filha.
O pai e Niang começaram a afastar-se. De cada vez que tinham divergências, Niang
amuava e não se levantava da cama. O pai tinha de dormir no quarto de hóspedes. 
Voltava do escritório e procurava animar e acalmar Niang, que uma das vezes 
ficou dois meses na cama. O pai começou a levar Susan com ele para todo o lado, 
claramente orgulhoso da sua bonita filha. A proximidade entre os dois ainda 
agravava o estado de Niang.
130
13
You He Bu Ke? Haverá algo impossível?

Em Agosto de 1952 James e eu partimos para Inglaterra no grande paquete da P&O 
SS Canton. Eu mal conseguia acreditar na sorte que tinha ao lembrar-me das 
noites passadas na varanda do meu colégio interno a sonhar com uma viagem 
daquelas. Durante a travessia marítima de um mês senti-me inundada de 
felicidade.
Finalmente ali estávamos nós, numa maravilhosa viagem de descoberta e 
independência. A vida pulsava de esperança. James relembrou-me uns versos bem 
conhecidos Ja Ts, rk ~ , ~ SeT x "°7 shan gao shui chang/ you he bu ke? (as 
montanhas são altas e os rios são longos/ haverá algo impossível?). Fizemos 
amizade com o pequeno grupo de chineses a bordo. Passaram a chamar-nos João e 
Maria, pois éramos inseparáveis.
Depois de aportarmos a Southampton, um agente do serviço de viagens do pai 
estava à nossa espera para nos transferir para um comboio que partia para 
Londres. Tinha estudado fotografias de Londres na biblioteca do colégio, mas não
estava preparada para o frio cinzento da
131
capital de Inglaterra, ainda marcada pela destruição da segunda guerra mundial. 
Havia crateras de bombas em lugares bem conhecidos da cidade.
Já em Londres, encontrámos Gregory e Edgar e pusemos a conversa em dia. No 
início Gregory sentira-se muito triste: era o único aluno chinês na escola, 
odiava aquele clima terrível e a comida sensaborona;
carneiro quase todos os dias, cheio de nervos e malcheiroso. Quando reparou que 
os seus colegas judeus comiam feijão estufado ou ovos de cada vez que o 
pequeno-almoço era ovos com bacon, pensou num plano e foi ter com o reitor.
- Senhor reitor, estive a pensar no conceito de tolerância religiosa em 
Inglaterra. Aplica-se a todas as religiões?
- Mas é claro! Não fazemos qualquer tipo de discriminação!

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- Acho isso admirável. Quem me dera que tivéssemos tolerância religiosa na 
China. Infelizmente só temos intolerância bárbara. Sinto muito ter que incomodar
o pessoal da cozinha, mas a minha religião proíbe-me de comer certos alimentos.
- Ó meu caro rapaz, temos de rectificar esta situação! E que alimentos são 
esses?
- Bem, o principal é carneiro, carneiro cozinhado de qualquer maneira.
- Sinto muito, vou informar a cozinha imediatamente. E, de acordo com a sua 
religião, o que é que poderia comer quando os outros rapazes comerem carneiro?
- Para ser mais fácil na cozinha, ovos com bacon estará muito bem! - Com 
certeza, com certeza! A propósito, qual é o nome da sua religião?
Gregory tinha pensado em tudo:
- É uma seita muito rara e de que pouco se ouve falar, oriunda da região entre o
Tibete e a Mongólia - disse ele, murmurando algumas palavras em chinês, cujo 
significado era "Associação contra os Que Se Alimentam de Carneiro".
Tal como Somerset Maugham,. Gregory acreditava que, para se alimentar bem em 
Inglaterra, tinha de tomar três pequenos-almoços por dia.
Gregory e Edgar chegaram à conclusão de que a escola que frequentavam não lhes 
oferecia muitos cursos na área das Ciências e, passado um ano, inscreveram-se, 
em Londres, numa escola tutorial que prepa
132

rava alunos para os exames. Na altura em que nós chegámos viviam em quartos 
alugados em Earl's Court. Gregory entrou no Imperial College para estudar 
Engenharia Mecânica e Edgar tornar-se-ia meu companheiro na Faculdade de 
Medicina.
Enquanto andou a estudar, o principal interesse de Gregory foi o bridege. 
Tornou-se capitão da equipa de brídege e chegou o dia em que pensou que seria 
muito mais interessante dedicar o resto da sua vida a este jogo do que à 
engenharia. Foi então que escreveu uma carta de seis páginas aos nossos pais, 
pedindo licença para trocar os estudos pelo brídege. Estava convencido de que 
seria mais feliz como jogador de brídege profissional do que cómo engenheiro. O 
objectivo final era ou não ser feliz?
A resposta do pai veio através de um telegrama sucinto: EM vEz DISSO PORQtiE NÃO
TE TORNAS LiM CHULO?
Gregory fez o curso até ao fim.
O pai tinha-me inscrito num colégio interno católico, mas laico, em Oxford, 
chamado Rye St Anthony. Durante a minha viagem de um mês no SS Cafitora 
tornei-me amiga da viúva de um missionário metodista americano, que insistiu em 
que eu visitasse a cunhada inglesa que vivia então em Oxford, depois de ter 
passado muitos anos em Xangai. Na devida altura telefonei a Lady Ternan e, 
depois de conversarmos um pouco sobre a cunhada, fui convidada para tomar chá.
Lady Ternan também era viúva e vivia sozinha numa imponente propriedade 
eduardina. Fui recebida por uma criada fardada e pareceu-me que era a única 
convidada. Serviu-se o chá.
- Quer mais chá e bolo? - perguntou ela num sotaque esquisito. Ao princípio 
pensei que fosse uma brincadeira. Ao telefone ela tinha falado num inglês 
normal. Do outro lado da mesa, as minhas feições chinesas devem ter accionado 
uma espécie de antigo reflexo condicionado, há muito esquecido. Senti uma 
tremenda vontade de rir. Para lhe agradar respondi na minha própria versão de 
inglês crioulo, inventada naquele momento. À medida que ia falando, comecei a 
aperceber-me de que este dialecto me colocava no meu "devido lugar". Ao falar em
crioulo ela reafirmava a sua própria superioridade e, através de cada vogal 

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arredondada e de cada consoante encurtada, fazia notar que não éramos iguais. 
Escusado será dizer que nunca mais nos encontrámos.

133
Embora tivesse sido recomendada aos meus pais como uma boa escola de raparigas 
com elevada reputação académica, Rye St Anthony era na realidade uma escola 
terminal. Não eram oferecidos quaisquer
cursos da área de Ciências. Em vez de Física, Química e Biologia, aprendíamos a 
apreciar música, a dançar e a montar. Acabei por me transferir para a escola Our
Lady of Sion, situada em Notting Hill Gate, frequentei um curso tutorial durante
as férias de Verão e consegui preencher os requisitos necessários para entrar na
Faculdade de Medicina. Aos 17 anos dei entrada em University College, 
Bloomsbury, onde o meu irmão Edgar também andava.
Dos meus três irmãos mais velhos, Edgar era o menos favorecido do ponto de vista
do seu aspecto físico. Tinha uma cabeça quadrada e uma testa proeminente, que 
era ainda realçada por grandes entradas. Os seus olhos eram pequenos e muito 
juntos. Os lábios, finos, estavam permanentemente premidos um contra o outro, 
dando-lhe um ar de determinação perspicaz.
Edgar não tinha o encanto de Gregory nem a boa aparência ou a inteligência de 
James. Estava entalado no meio e não era o favorito de ninguém. Quando todos 
éramos crianças, ele descarregava toda a sua frustração em mim, o membro mais 
insignificante da família. Irritava-o sobremaneira ver o orgulho que o pai tinha
nos meus sucessos académicos. No início, ele andava um ano à minha frente na 
Faculdade de Medicina. Contudo, acabou por falhar o segundo exame MB3° e 
acabámos por ter algumas aulas juntos. Ele tomou o facto como um insulto 
pessoal. A pouco e pouco, este ressentimento foi-se transformando num ódio 
patológico.
Na Faculdade recusava-se a admitir que éramos irmãos ou até familiares; dizia 
aos nossos colegas que não me conhecia. O pai e Niang tinham perfeita 
consciência do nosso antagonismo, embora nenhum deles tivesse feito qualquer 
esforço para pôr fim às nossas divergências. Niang, muito pelo contrário, 
parecia contente com a nossa animosidade recíproca e alimentava as nossas 
querelas. Chegava mesmo a ser extremamente simpática para mim quando queria 
magoar Edgar, cavando ainda mais o fosso entre nós.

'° Bachelor ofMedicine, sendo este grau o primeiro a ser concedido pela 
Universidade. (N. da T.)
134
Nos anos 50, os preconceitos raciais estavam muito em evidência em Inglaterra. 
Os estudantes chineses eram poucos e dispersos e havia uma certa distância entre
os meus colegas de turma ingleses e eu. Muitos deles nunca tinham estado tão 
próximos de um chinês. Alguns sentiam-se desconfortáveis perto de mim. Um 
pequeno grupo mal conseguia disfarçar o desprezo. Outros, ainda, mostravam-se 
protectores, aparentando uma aceitação liberal. Condescendiam em fazer 
referências à China, ou a Xangai, ou aos pauzinhos - normalmente a propósito de 
um assunto em que ressaltavam diferenças evidentes. Todos tomavam como base a 
superioridade ocidental.
Descobri que nem todas as palavras inglesas transmitiam o que aparentemente 
representavam. Num contexto social, palavras como "exótico" ou "interessante" 
escondiam uma discriminação subtil. "Exótico" significava "possivelmente 
decorativo na China, mas realmente muito estranho e com certeza fora do grupo 

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dos meus favoritos". "Interessante" significava "deixa-me dar-te a minha 
preciosa atenção por agora, enquanto passo os olhos pela sala para ver se 
encontro alguém que valha a pena".
A liberalidade e a magnanimidade britânicas eram postas em evidência nas funções
escolares para as quais os meus professores me seleccionavam, a fim de 
demonstrarem que até aceitavam alunas asiáticas na Faculdade de Medicina. 
Enquanto se davam uns aos outros palmadinhas nas costas, eu era deixada de lado,
como um troféu, mantendo a todo o custo um sorriso amistoso, merecedor, claro 
está, da atenção deles.
As alunas de Medicina constituíam menos de 20 por cento da turma. Éramos, bem de
longe, um grupo estudioso e honesto. Os rapazes ressentiam-se constantemente com
o nosso esforço constante e as boas notas que obtínhamos. Chamavam-nos MEM 
(malditas elevadoras de médias). Alguns diziam bastante abertamente que todas as
estudantes de Medicina eram feias. Outros proclamavam que, por capricho, 
"roubávamos" aos estudantes masculinos o número de entradas na Faculdade de 
Medicina e que as que tinham bolsas ou subsídios não estavam senão a 
"desperdiçan> os fundos governamentais para a educação.
Por vezes era difícil ignorar o desdém racial e sexual que encontrávamos ao 
longo de percurso. Era frequente eu sentar-me e almoçar sozinha na cafetaria da 
Universidade, enquanto os meus colegas se

135
reuniam uns com os outros nos bares das redondezas. Certa vez, quando arranjei 
coragem suficiente para me juntar e levar o tabuleiro do almoço para a mesa 
deles, apareceu logo um rapaz que se sentou no último lugar disponível. Fiz de 
propósito e fui arranjar outra cadeira. Fez-se silêncio à minha volta. Todos 
devoraram a comida a uma velocidade recorde e saíram. Dei por mim sozinha, 
rodeada de pratos sujos e de cadeiras vazias.
A minha companheira de dissecação, Joan Katz, e eu tínhamos o costume de ir para
o laboratório de Anatomia em alguns fins-de-se_ mana, a fim de trabalharmos no 
corpo masculino de 81 anos que nos era destinado. Pusemos-lhe a alcunha de 
Rupert. Ao que parece, o nosso zelo provocou uma onda de descontentamento entre 
os nossos pares masculinos. Um sábado de manhã descemos entusiasmadas para o 
laboratório escuro e terrível, a fim de iniciar a dissecação. Por detrás das 
portas pesadas, a sala estava escura como breu e cheirava fortemente a aldeído 
fórmico. Joan estendeu a mão para puxar o fio que acendia a luz e deu um grito 
lancinante. A luz acendeu-se. Ouviram-se uma série de gargalhadas desabridas e 
estridentes, produzidas por um grupo de rapazes escondidos no escuro. Tinham 
cortado o pénis a Rupert para o colocarem no fio da lâmpada. Ouviu-se o disparo 
de algumas máquinas fotográficas e Joan foi apanhada com a mão no ar, segurando 
um pénis, com uma expressão incrédula na cara. Os rapazes fizeram circular a 
fotografia entre eles com a seguinte legenda: "Primeiro prémio em anatomia 
humana".
Apesar destes problemas, foi uma época maravilhosa na minha vida. O mundo da 
ciência abria-se para mim. Mal conseguia esperar que as aulas começassem todas 
as manhãs. Fisiologia, Biofísica, Farmácia e Bioquímica eram como peças de um 
pttzzle gigante ilustrando o mistério daprópria vida. As experiências faziam-me 
lembrar jogos de xadrez complicados. O meu adversário era o grande 
"desconhecido", prestes a ser desmascarado. Pelo caminho ia encontrando pistas 
deliciosas.

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De forma consistente, estudei e dei o meu melhor. Sonhava regressar a Hong-Kong 
com as mais altas qualificações académicas, fazer um nome na cidade onde o meu 
pai vivia, para que ele pudesse ter orgulho em mim.
Muitos dos meus amigos da Faculdade que não eram chineses, eram judeus. 
Tratavam-me como igual, convidavam-me para casa e nunca
136
faziam comentários estereotipados. Discutíamos os nossos estudos, jogávamos 
xadrez e comíamos em restaurantes chineses. Sentia que, finalmente, a vida tinha
começado. Nunca sofri os momentos de depressão que por vezes afectavam os meus 
colegas. Chamavam-me pollyanna, mas eu não me importava. Como podiam alguma vez 
perceber a alegria que eu sentia por me ver finalmente fora do alcance da sombra
eminente de Niang?
Morava em Campbell Hall, uma residência a dois quarteirões da Universidade. A 
Associação dos Estudantes Chineses era em Gordon Square, ali pertinho. A 
Associação dos Estudantes da Universidade de Londres era do outro lado da rua. 
Mais tarde, a Casa de Hong-Kong ficou situada em Lancaster Gate, a uns 5 
quilómetros dali. O pai enviava-me a quantia anual de 500 libras, menos 100 
libras do que aos meus irmãos por eu ser rapariga. Esperava que geríssemos o 
nosso dinheiro, que deveria durar todo o ano. A minha vida girava em torno da 
Universidade e das associações de estudantes. Juntei-me à equipa de 
pingue-pongue e jogava xadrez pela minha Universidade. James entrara em 
Cambridge, em Engenharia Civil. Visitava-o frequentemente aos domingos. 
Passávamos tardes muito agradáveis a tomar café e a conversar, nos seus 
aposentos medievais em Trinity College, inebriados pela nossa recente liberdade.
Sentia-me radiante por poder passear pela calçada ao lado do meu bonito irmão 
mais velho, vestido com o seu fato da Universidade e o seu lenço de Cambridge, 
enquanto à nossa volta se ouvia o repicar dos sinos a chamar para as orações da 
tarde.
A carapaça que me protegia das feridas dos preconceitos e injustiças também me 
servia de esconderijo secreto para onde me podia retirar: Permitiu-me formar e 
desenvolver uma amizade que teria espantado todos os meus pares e deixado 
preocupados alguns deles, caso tivessem sabido do que se estava a passar.
Karl Decker era um dos meus assistentes. Para os meus olhos de rapariga de 17 
anos, ele era o homem ideal: inteligente, sensível, alto e bonito. Apaixonado 
pelo seu trabalho, passava longas horas no laboratório. Era um alemão de 34 
anos, gaguejava e tinha um forte sotaque. Inserida no grupo de que ele era 
tutor, comecei a reparar em Karl por causa da sua honestidade. Ele costumava 
anotar longas correcções nas margens dos meus ensaios e eu ficava sensibilizada 
com o trabalho que ele tinha com as minhas tarefas. Às vezes reparava que as 
anotações
137
tinham sido apagadas e que as tinha voltado a escrever laboriosamente com uma 
letrinha meticulosa.
Começou a comentar as minhas roupas e a minha aparência,
- Que blusa tão bonita! - notava ele, assim que eu entrava na aula, Nesse 
momento tornava-me muda e pouco natural.
Durante meses e meses recusei admitir, mesmo para mim própria que o Dr. Decker 
era meu admirador. Custava-me a acreditar que aquele brilhante cientista pudesse
estar seriamente interessado numa
adolescente chinesa, estudante de Medicina, acabadinha de sair de um colégio 
interno.
Ele passava horas a discutir as suas experiências comigo, dando_se ao trabalho 

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de me mostrar todos os artigos importantes sobre o tema, Nos dias mais frios 
ensinou-me a aquecer café num bico de Bunsen no seu laboratório e depois 
bebiamo-lo juntos por duas grandes.provetas.
Mas, sobretudo, escrevia-me. As notas rabiscadas nas margens dos meus ensaios 
foram sendo substituídas por longas páginas cheias de revelações pessoais. Li 
sobre a morte da sua mãe quando ele tinha 10 anos, o novo casamento de um pai 
severo e autoritário, as memórias ténues e dispersas e de uma adolescência 
emocionalmente agitada. Escreveu-me acerca de uma doença misteriosa chamada 
esquizgfrenia, que o afectara quando ainda era um jovem estudante de Medicina em
Praga; falou-me de vozes sombrias, convicções estranhas, tormentos terríveis.
Ingénua e inexperiente, envaidecida e sensibilizada por estas revelações 
extraordinárias, envolvi-me sem me aperceber de que trilhava um caminho 
perigoso. Cheio de medos, dúvidas e restrições, ele era para mim a imagem de uma
educada sensibilidade temperada de uma gentil melancolia, que encantava a minha 
imaginação. Uma parte desta admiração baseava-se certamente na minha enraizada 
reverência chinesa pelo saber, pela idade e pela sabedoria.
As suas cartas começaram a desempenhar um papel central na nossa vida emocional.
Ele escrevia sobre poesia, música e filosofia; os seus pensamentos, humores e 
receios; a sua solidão e ânsia de me ver. A tudo isto estava subjacente todo o 
abandono de uma existência sombria e o tabu de um romance inter-racial que 
despontava entre um professor e a sua aluna
Karl tinha auto-suficiência e autocontrolo. Não tinha amigos. Vivia para o seu 
trabalho, passando rotineiramente os seus dias de 14 horas no laboratório, 
inclusivamente aos sábados e domingos. Tomava todas

138
~ refeições na cafetaria da Universidade e praticamente não sabia nem se 
importava com o que comia.
Tinha uma vida austera, ascética, vazia de entusiasmos ou indulgências. 
Raramente saíamos juntos para qualquer lado. Nenhum de nós desejava ser visto em
público. Os casais de raças diferentes eram ainda raros nessa época. Além disso,
fazíamos um par estranho. Aos olhos dos outros não tínhamos sido feitos um para 
o outro.
Ele não queria que os colegas soubessem que andava a sair com uma das suas 
alunas, muito menos com uma rapariga chinesa. Eu também não queria que os meus 
amigos chineses descobrissem, para que nenhum rumor chegasse aos ouvidos da 
minha família.
Por estas razões, os nossos encontros eram totalmente privados. O laboratório de
Karl na faculdade transformou-se no nosso paraíso. Era um dos poucos lugares 
onde ninguém olhava para nós com olhos inquisidores e onde nos sentíamos 
completamente seguros.
Para mim, desajeitada e com pouca inclinação para a vida social, era muito 
estranho ver o meu querido professor, um homem com o dobro da minha idade, tão 
tímido e inseguro à minha frente. Quando estávamos sozinhos, os seus modos 
desastrados, a sua gaguez envergonhada e as suas grandes saudades varriam todas 
as minhas defesas.
Um dos meus amigos chineses, Yu Chun-yee, um pianista de Singapura, dava um 
recital em Wigmore Hall. Sabendo que eu desejava apoiá-lo, Karl comprou 11 
bilhetes e dividiu-os em dois grupos, um de 8 e um de 3. Deu-me os 8 bilhetes 
para que pudesse convidar os meus amigos chineses. Ele também foi ao concerto 
com o seu colega doutorado e a mulher. Nenhum dos meus amigos chineses sabia que

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tinha sido Karl quem tinha arranjado tudo, mas, durante todo o espectáculo, 
senti a sua presença atrás de mim.
Era uma situação impossível e, todavia, prolongava-se. Éramos tão diferentes, 
mas a afinidade entre nós era imensa. Eu sentia simultaneamente atracção e 
repulsa pela dedicação fanática que ele tinha ao trabalho, excluindo tudo o 
resto. Disse-me que precisava de preencher o seu tempo com ciência para poder 
derrotar os demónios.
Vezes havia em que a sua instabilidade emocional me espantava e até me 
assustava.
- É tudo tão triste e tão difícil - dizia ele. E acrescentava quando se 
apercebia do meu ar espantado:
- Claro que não devias gastar tanto tempo comigo. Tu, tu que és cheia de vida e 
de esperança!

139
Nunca roubou tempo suficiente às suas experiências para poder perceber os 
valores culturais chineses que moldavam a minha personalidade. Nunca conseguiu 
compreender aquilo que considerava ser a minha obsessão pela comida e dizia que 
a minha busca permanente pelo "restaurante chinês ideal nas redondezas" era uma 
busca vã do Santo Gral. Nunca conseguiu aperceber-se de quão essencial é a par- 
tilha da comida nas festividades chinesas. E, acima de tudo, não conseguia 
entender a minha recusa permanente de consumar a nossa relação. Para além da 
minha juventude e educação católicas, eu estava impregnada da crença confuciana 
de que, para uma mulher, a perda da virgindade fora do casamento era um destino 
pior do que a morte,
Um ano, no dia do seu aniversário, passei uma semana inteira a preparar um 
jantar especial, fazendo inúmeros planos e compras, á procura dos ingredientes 
mais frescos na época, arranjando flores e frutos frescos, limpando o seu 
apartamento pouco mobilado e cheio de pó. Ele comeu a refeição de seis pratos em
quarenta e cinco minutos sem fazer qualquer comentário: sopa de brócolos 
frescos, ganso estufado com alho-porro, couve-flor salteada com gengibre, 
galinha picante, ervilhas com cogumelos e arroz cozido no vapor. Olhava 
repetidamente para o relógio, desejoso de voltar a alguma das suas experiências 
no laboratório. Lavei os pratos depois de ele sair a comer, dizendo para comigo 
que fora um esforço em vão.
Havia algumas noites - raras, contudo - em que as experiências de Karl estavam 
acabadas, os tubos de ensaio lavados e secos, os sapos alimentados e os meus 
trabalhos de casa já feitos. Nessas noites, empoleirados nas cadeiras do 
laboratório, conversávamos até altas horas. Houve momentos em que atingimos uma 
intimidade profunda, uma compreensão mútua, tudo o que alguém pode esperar que 
aconteça entre um homem e uma mulher.
Karl insistia que não era pessoa para mim e que eu devia permitir que alguns dos
rapazes da Associação de Estudantes Chineses me fizessem a corte. Para coroar a 
confusão emocional em que me encontrava, tais saídas eram sempre precedidas ou 
seguidas de uma longa carta de Karl, plena de angústia e arrependimento. Essas 
cartas deixavam-me desfeita. Os meus amigos chineses eram uma parte importante 
da minha vida. Quando estava com eles, podia abandonar as minhas defesas e ser 
eu própria. Eu precisava de falar a minha própria língua de me descontrair entre
o meu povo, que se ria das mesmas coisas que
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eu. De vez em quando troçávamos de algumas das grandes personalidades do país 
que nos recebia. Havia alunos chineses que vinham não só da China e Hong-Kong, 
mas também de Singapura, Malásia, Indonésia, Maurícias e de outros lugares, 
dando uma dimensão internacional ao mundo chinês.
Os avós ou os pais de muitos destes estudantes chineses do Sudeste asiático 
tinham emigrado das províncias chinesas costeiras de Fujian ou Guangdong, em 
virtude das dificuldades existentes na sua terra. Embora Yu Chun-yee, o meu 
amigo de Singapura, nunca tivesse posto um pé na China, tinha lido os mesmos 
romances chineses, adorava os pratos picantes de Sichuan,, e tinha muitos dos 
mesmos valores culturais. Sob muitos aspectos, ele era mais chinês do que um 
chinês.
Três das minhas colegas da residência que eram de Hong-Kong também frequentavam 
a Universidade em Londres. Todos sofríamos a influência de C. S. Tang, 
presidente da Associação de Estudantes Chineses.
C. S. vinha de Xangai. A família negociava no ramo da navegação. Era muito 
bonito e fazia o doutoramento no Imperial College. C. S. tinha ideias 
esquerdistas. Ao contrário de nós todos, tencionava regressar a casa para servir
o povo da mãe-pátria. Era o nosso irmão mais velho.
Aos fins-de-semana, C. S. organizava excursões de barco na Serpentina em Hyde 
Park ou de patinagem no gelo em Queensway. Organizava bailes e jantares em que 
havia sorteios e em que os pratos estavam repletos de pimentas e alho. Alugava 
filmes chineses que retratavam comunistas em luta pela liberdade, vencendo 
oficiais corruptos do Kuomitang e senhores da terra. Ao vê-los, sentíamo-nos 
muito progressistas e idealistas e sonhávamos voltar um dia à China para, com as
nossas capacidades, podermos contribuir para a glória da nossa mãe-pátria.
C. S. não sentia nada senão desprezo pelos estudantes chineses que saíam com 
ocidentais.
- Traidor! - resmungava entre dentes. - Afazer amizades com o inimigo!
Uma vez, num restaurante chinês perto de Leicester Square, o nosso grupo pediu 
uma das especialidades da casa: pato à Beijing servido com cebolinhas, molho de 
ameixa e panquecas muito fininhas. O empregado de mesa disse-nos que o último 
pato já estava no forno e

prestes a ser servido a um branco sentado com uma rapariga chines algumas mesas 
mais adiante. C. S. colocou um braço à volta do empregado de mesa, um cantonense
muito baixinho, oriundo de Hong_Kong~ chamado Little Chang, e disse-lhe que 
durante muitos anos a China o nosso grande país, tinha sido maltratado pelos 
bárbaros. Repetiu a história do aviso no parque de Xangai que proibia a entrada 
a cães e a chineses.
- O que aí tens é um bárbaro que vai partilhar o último pato com uma bonita 
rapariga chinesa. Não podes permitir que isso aconteça! Os bárbaros nem conhecem
a comida chinesa! Não conseguem distingui um pato de uma galinha quando estão 
vivos, quanto mais quando estão mortos ou assados. Porque não lhes dás qualquer 
coisa saborosa? Deitas-lhe um pouco de molho de ameixa e chamas-lhe pato à 
Beijing! Não deve ser muito difícil enganar um bárbaro.
E foi assim que eu e os outros comemos o pato. Contudo, senti-me pouco à vontade
com o ataque de C. S. ao "bárbaro". Mais para o final da refeição atirei-lhe:
- Quando falas em enganar os bárbaros, isso não é uma espécie de racismo ao 
contrário?
C. S. moveu a cabeça e pôs-se a pensar. Passou os dedos pelo cabelo espesso e 
brilhante, como se fosse um rapazinho. Dirigiu-se a mim, chamando-me pelo meu 

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nome chinês:
- Junling, tu fazes-me perguntas dificílimas! Como é que eu te hei-de responder 
sem parecer um idiota? Acho que a questão é esta: na vida de todos nós existem 
prioridades. As minhas são estas e por esta ordem: o meu país, o meu líder - o 
oresidente Mao -, a minha família, os meus pais, os meus irmãos, os meus amigos 
chineses. O meu professor, os meus colegas e outros amigos bárbaros. E depois as
outras pessoas. Não posso deixar de sentir uma certa proximidade pelos do meu 
povo, como o Little Chang. Little Chang parece sentir o mesmo por nós.
Durante esse período passado em Inglaterra, mais ou menos entre 1955 e 1963, a 
maior parte de nós sentia-se orgulhoso do modo como a China se tinha elevado aos
olhos do mundo. Contudo, não tínhamos todos as mesmas esperanças relativamente 
ao futuro da nossa nação. Alguns desejavam que a China se transformasse numa 
brilhante sociedade capitalista como a América do Norte. Outros esperavam Que ~ 
políticas revolucionárias de Mao sobre o colectivismo e o socialismo
142

se enraizassem de modo mais firme. Uns poucos eram tão evangélicos como C. S., 
divulgando panfletos e filmes de propaganda que mostravam criancinhas de faces 
rosadas, trabalhadores felizes, fábricas enormes e números de produção incríveis
e sempre crescentes: a China estava a mudar. Acho que a maior parte de nós, numa
altura ou noutra, se chegou a ver como um grupo de licenciados cheios de 
capacidades, treinados nas áreas mais desenvolvidas da tecnologia. ocidental, 
sonhando regressar a casa, servir a nossa mãe-pátria e corrigir os erros de 
outros tempos.
No laboratório tentei transmitir a Karl o orgulho e o entusiasmo da vida que 
levava na Associação de Estudantes Chineses, mas ele deitava abaixo o meu zelo 
excessivo.
- Já passei por esses disparates patrióticos no meu próprio país durante a 
segunda guerra mundial. Acredita, a realidade é bem diferente. Então agora 
pensas que todos na China eram anjos só porque Mao Zedong libertou o país! De um
dia para o outro já ninguém pensa em si próprio! Já não há inveja, ódio ou 
maldade! Só existe bondade, amor e justiça universal! Acreditas realmente nisso,
minha tontinha?
143
14

Yi Qin Yi He Um só canto, uma só garça
H. H. Tien era estudante de pós-graduação em Matemáticas Aplicadas no Imperial 
College. Era de estatura média, magro, usava óculos muito graduados e, embora 
não fosse considerado bonito, tinha um
certo charme e afabilidade. Excepcionalmente bom e generoso, H. H. era um líder 
natural e parecia possuir tudo o que mais se esperava para o futuro da China. 
Admirávamo-lo, não por causa dos seus argumentos lógicos ou persuasivos, mas 
devido ao seu magnetismo e personalidade. O pai era um banqueiro rico que tinha 
casado por amor, desprezando amantes e concubinas, um comportamento pouco comum 
entre os Chineses. Nos anos 30 o Sr. Tien tinha sido um membro activo da 
Associação de Boicote Antijaponesa e tinha lutado com o Exército da 19.a Estrada
pela defesa de Xangai contra os Japoneses antes de se juntar ao Partido 
Comunista na clandestinidade. Alegrara-se com a libertação de Xangai, em 1949, e
enviara ao seu filho H. H., em Londres, uma carta de oito páginas, proclamando o
amanhecer de uma nova China. Contudo, para se proteger, e de uma forma muito 
pragmatica, abriu outro banco em Hong-Kong e mudou-se para lá em 1951

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144
Uma noite, pouco depois da sublevação húngara, em 1956, fui com H. H. a um 
concerto em Albert Hall. No início dessa semana, Karl tinha andado preocupado 
pelas notícias que ouvira na BBC, segundo as quais a Rússia tinha enviado tropas
para Budapeste. H. H. e eu tivéramos uma acesa discussão, durante a qual eu 
papagueei muitas das suspeitas de Karl. H. g. descrevia os actos da Rússia como 
o abraço protector de um irmão mais velho que tentava evitar o caos dentro da 
mesma família política.
- Como podes ter a certeza de que a China se tornará um grande país - 
argumentei. - Já que houve tanta ganância e corrupção no tempo de Chiang 
Kai-shek, porque havia um novo governo de alterar a natureza dos Chineses?
Tínhamos chegado à entrada da minha residência em Tavistock Square. Como não nos
apetecia acabar ali a noite, caminhámos à volta de Campbell Hall. Subitamente, 
H. H. deu uma gargalhada:
- Sabes o que eles dizem de Chiang Kai-shek? - perguntou ele em inglês. - 
Levanta o meu cheque, Chiang Kai-shek!
E voltou ao dialecto de Xangai, que usávamos habitualmente nas nossas conversas:
- Agora a sério: quando a liderança é corrupta e inapta, essas características 
geralmente vêm a impregnar as massas. Sob o regime comunista, a China entrou 
numa nova era de reforma radical. Mao e os seus generais fizeram grandes 
progressos e trouxeram a China para a arena mundial. Em vez de se curvarem ao 
general MacArthur, forçaram a América a um cessar fogo com a Coreia. Tal como 
disse o presidente Mao, "A China finalmente pôs-se de pé".
Sob a fraca luz dos candeeiros da rua, os seus olhos brilhavam de fervor e de 
esperança. Como eu o admirava! Começou a chover. Levantei a gola do casaco para 
me proteger do frio cortante. H. H. tirou o seu cachecol da Universidade e 
enrolou-o à volta do meu pescoço. Senti-me tão segura e confortável na sua 
companhia. Aos poucos tinha-lhe confiado partes da minha infancia dolorosa, uma 
informação que eu raramente dava.
- Sou quase 8 anos mais velho do que tu - disse H. H. - Às vezes desejava que 
fosses mais velha. Há tanta coisa que te quero dizer. passaste tempos tão 
difíceis com a tua madrasta. Precisas de alguém como eu para te defender e 
cuidar de ti para o resto da vida.
- Agora tenho de entrar - disse eu, subitamente inquieta e confusa. - O meu 
irmão Gregory disse que quando um rapaz e uma
145
rapariga se juntam, é como apanhar um autocarro. Apanhas um autocarro porque o 
número certo passa na hora certa. Desde aí nunca mais deixei de pensar nisto.
Abri a porta da frente e devolvi a H. H. o seu cachecol. Observei-o enquanto 
seguia o seu caminho, tentando desviar-se das poças, antes de virar a esquina 
acenou-me e gritou:
- Achas que eu sou o número certo? Estás pronta para entrar no autocarro?
E desapareceu.
Lá dentro estava escuro e morno. Quando ia a subir, reparei que havia uma carta 
na minha caixa do correio. Era de Karl.
Seria muito bom, talvez até mais do que isso, se nos pudéssemos encontrar depois
da tua sessão tutorial na quarta-feira. Mas concordo contigo que não devemos 
misturar as coisas. É natural que, por causa da
tua juventude, as tuas preocupações te pareçam mais importantes quando 
comparadas com as minhas: pais, notas, a face, amigos chineses, o teu futuro e a
China (agora a Grande Questão). Limito-me apenas a tentar identificar outro 
problema biofisico e estou a tentar resolvê-lo. É claro que não haverá 

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compensações, talvez nem um papel no fim; e, contudo, a tarefa parece-me bem 
importante. Será que conseguia manter o meu lugar na Universidade se os meus 
sentimentos por ti se tornassem conhecidos de todos? Seria tão bom ter-te 
permanentemente na minha equipa, mas isso está totalmente fora de questão e tu 
só tens 18 anos.
Por isso não tenho esperança de te ver a sós nos tempos mais próximos. Se, no 
entanto, vires que há alguma possibilidade, lembra-te de que eu estou livre 
quarta-feira quase todo o dia. Talvez tenhamos alguma coisa importante a dizer 
um ao outro; ou talvez possamos apenas estar felizes juntos, como aconteceu 
durante os últimos meses, algumas vezes ... Não te deixes seduzir pela retórica.
O comunismo cativa os homens e as mulheres que buscam a utopia. Não vai dar 
certo. O conflito, a inveja e a maldade estarão sempre no coração do homem, 
qualquer que seja o governo. É óbvio! Não te sintas tentada a abraçar uma 
determinada religião só porque gostas do padre.
Minha pequenina! Minha femme fatale"! Disse muito pouco daquilo que tinha 
pensado dizer. Pensar em ti enche-me de emoções inquietantes
"Em francês no original. (N. da T.y
146
Querida Adeline,

que eu hesito em transcrever. Basta dizer-te que apagaste do meu coração uma 
tristeza que me sinto feliz por ter abandonado. Embora saiba que me devia 
afastar, por favor, lembra-te de que, para onde quer que vás, eu esperarei 
sempre por ti no meu laboratório.
Karl
p, a doce melodia das palavras! Nunca mais saí com H. H.

A Guerra Fria atingiu o auge durante os anos 50 e 60. Alguns dos meus 
contemporâneos mais idealistas foram convidados pelo departamento de imigração a
deixar a Grã-Bretanha em 1961, por serem pessoas "indesejáveis". Tinha-se 
divulgado recentemente que Kim Philby era o número três a seguir a Burges e 
McClean: um círculo de espiões ingleses que floresceu durante os anos 30, 
enquanto faziam a universidade em Cambridge. As autoridades britânicas acusavam 
Beijing de infiltrar agentes secretos através dos círculos estudantis em 
Londres, transformando-nos em imberbes comunistas.
C. S. casou com uma rapariga chinesa de Singapura. Regressou com ela a Xangai 
para ensinar e trabalhar como investigador na Academia das Ciências de Beijing. 
Vieram a sofrer bastante durante a Revolução Cultural. Na altura em que volteia 
vê-lo e à sua mulher, em 1980, C. S. tinha perdido o cabelo e o patriotismo. Já 
não falava de reconstruir a China, mas perguntou-me, em vez disso, se eu podia 
ajudá-lo a obter uma bolsa de pós-graduação nos Estados Unidos. O que mais o 
preocupava eram os planos que tinha para a educação dos filhos e um sítio 
agradável onde pudesse gozar a sua reforma com a mulher. Não se queixou uma 
única vez da sua decisão de regressar à China. Continuava a ser afável, 
generoso, honesto e bom.
Outros tiveram menos sorte. H. H. tinha 33 anos e era ainda solteiro quando foi 
convidado a sair. Regressou à China em 1962, contra o conselho dos pais. Os 
meses passaram e não mais tivemos notícias dele. Alguns de nós escrevemos para a
morada que nos tinha dado antes de partir. Nunca tivemos resposta. Evaporara-se 
nas entranhas da China, engolido por 800 milhões de chineses.
O seu "desaparecimento" preocupou-nos e deixou-nos perplexos. Tínhamos a certeza
de que havia alguma coisa de errado naquilo tudo e suspeitávamos que as coisas 

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não lhe tivessem corrido bem. No meu
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caso pessoal, o seu silêncio abalou todas as fantasias de uma mãe-pária gloriosa
e nunca mais pus seriamente a hipótese de regressar e trabalhar na terra onde 
tinha nascido.
Anos mais tarde ouvimos dizer que H. H. tinha sido perseguido e preso durante a 
Revolução Cultural. Os que o prenderam recusaram_se a acreditar que um jovem 
cientista de elevada craveira académica pudesse recusar viver com a sua família 
rica em Hong-Kong, num estilo de vida ocidental e confortável, e uma carreira 
promissora para servir o seu país. Insistiram em como teria com certeza outro 
motivo e procuraram convencê-lo a confessar. H. H. recusou e suicidou-se em 
1967, deixando uma mensagem com quatro caracteres chineses -~-.._ Yf qin yi he 
(um só canto, uma só garça), querendo com isto dizer que era incorruptível e 
recto até à morte. Tinha 38 anos.
Outros dos que foram convidados a sair da Grã-Bretanha na purga de estudantes 
esquerdistas chineses tiveram uma sorte diversa. S. T. Sun (Little Sun), formado
em Arquitectura, enamorou-se de Rachel Yu, uma das minhas colegas do tempo do 
Colégio do Sagrado Coração. Quando Little Sun foi convidado a sair, o namoro era
já uma coisa séria. Regressou a Hong-Kong quando a construção civil estava em 
franco desenvolvimento, o que se veio a prolongar por trinta anos e ainda hoje 
continua. Rapidamente abriu a sua própria firma de arquitectura e embrenhou-se 
no milagre económico que fez passar Hong-Kong de um entreposto adormecido no Sul
da China à metrópole vertical em que hoje se transformou. Todos os pensamentos 
sobre a terra-mãe se desvaneceram com o advento dos cheques de pagamento de seis
dígitos. Longe de Londres e de Raquel, voltou ao amor da sua infància. Mais 
tarde toda a família abraçou a cidadania canadiana, vivendo hoje entre Hong-Kong
e Vancouver.
Os anos foram passando. Fui a muitos casamentos e cada vez me sentia mais vazia 
e esquecida. Dos meus amigos, aqueles que ainda não se tinham casado pareciam 
prestes a fazê-lo, ao passo que eu conti nuava a navegar numa relação que não 
conduzia a parte alguma. Embora tivesse conseguido manter a minha ligação 
emocional a Karl como um segredo, de um modo geral tinha ficado a perder, pois 
era incapaz de, simultaneamente, me ligar emocionalmente a qualquer outra 
pessoa. A base neurótica do nosso relacionamento alimentava-se de si própria. Ao
acreditar que os nossos sentimentos mútuos eram
148
insubstituíveis, Karl acreditava também que, para nós, o casamento seria um 
desastre. Insistia em encorajar-me a sair com rapazes chineses, às vezes ele 
vinha também para examinar os meus acompanhantes. Uma noite, estava eu sentada 
entre um possível apaixonado e Karl numa escura sala de cinema, ele acariciou-me
a mão.
Depois de ter acabado o curso e de ter trabalhado como interna, passei dois anos
a trabalhar e a estudar numa pós-graduação em Edimburgo possivelmente tentando 
fugir de Karl. Passei os exames em Medicina Interna e tornei-me MRCP em Londres 
e Edimburgo. Nessa cidade tristonha, húmida, fria e ventosa, aceitei finalmente 
que tinha de deixar a Inglaterra. Tantas_ e tantas vezes eu tinha tentado 
libertar-me desse envolvimento impossível. Nenhum dos conflitos alguma vez se 
resolveria. Já no final, num dos raros dias em que Karl tinha sido especialmente
carinhoso, disse-me que estava tão feliz que lhe apetecia morrer. Depois 
acrescentou tristemente:
-Não fomos feitos um para o outro. É mais fácil morrer por ti do que viver 
contigo.

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Quando o dia da separação chegou, foi particularmente difícil. De certo modo, 
nunca consegui ultrapassá-lo. Karl foi o meu professor, o meu mentor, o meu 
primeiro amor, o grande pai que nunca tive. Mas, qualquer que fosse a maneira de
colocar racionalmente a questão, ele rejeitou-me e o nosso relacionamento 
falhou. Num momento de angústia desesperada, rasguei todas as suas cartas.
Pouco tempo depois, em 1963, deixei a Inglaterra, rumo a HongKong.

'' Member of the Royal College of Physicians (Membro do Real Colégio dos 
Médicos). (N da T,)
149
Algumas semanas antes de deixar Londres escrevi ao professor McFadden, Lo Mac, 
da Faculdade de Medicina da Universidade de Hong-Kong. Recebeu com agrado a 
minha candidatura a professora assistente no seu departamento, felicitou-me 
pelas minhas notas altas, comunicou-me o salário e acrescentou que tinha direito
a alojamento. Portanto, foi confiante, mas também com pena, que voei para 
HongKong em 1963.
Gregory e James foram esperar-me ao aeroporto de Kai Tak no Mercedes do pai, 
conduzido pelo motorista. Ambos estavam a trabalhar para o pai já há um ano. 
James foi o primeiro a voltar, depois de ter concluído os seus estudos em 
Cambridge. O salário que recebia era tão baixo que só lhe chegava para viver no 
YMCA33. A vida tornou-se-lhe mais fácil quando Gregory voltou de Montreal, onde 
tinha estado a fazer o mestrado na McGill University. O pai pagava a cada um 
deles
" Young Men's Christian Association. (N. da T.).
149
15
Fu Zhong You Yu
Um peixe a nadar num caldeirão

um ordenado mensal de 2000 dólares de Hong-Kong, o equivalente a Z50 dólares 
americanos. Conseguiram alugar um pequeno estúdio em conjunto, que se situava 
por cima de um clube nocturno em Nathan Road, Kowloon.
Hong-Kong já não era a cidadezinha parada que eu tinha deixado onze anos atrás. 
As ruas estreitas, pequenas, iluminadas pelos néons, formigavam agora de peões e
trânsito, mesmo depois das 9 da noite. Havia um grande número de edifícios 
novos, alguns deles ainda em construção e com os andaimes de bambu. Anúncios 
coloridos e iluminados piscavam. A vitalidade saltava à vista.
- Esta não é a Hong-Kong que eu deixei. - disse eu aos meus irmãos - Esta é uma 
reencarnação de Xangai!
- Exceptuando o facto de serem ainda maiores, melhores e mais modernas - 
replicou James -, Kowloon e Hong-Kong são como uma grande Rua de Nanquim.
- Ainda bem que voltaste - disse Gregory com afabilidade. - Este é o lugar certo
no tempo certo. A cidade vai explodir. O espertalhaço do Velhote está a fazer 
uma razia.
- O pai ainda continua no negócio da importação-exportação? 
-Importação-exportação! -troçou Gregory, que mal podia acreditar na minha 
ignorância. - Será possível não teres ouvido falar da Guerra da Coreia? Não 
soubeste que os aliados fizeram un bloqueio económico à China quando Mao Zedong 
apoiou a Coreia do Norte? Os mercados onde o pai negociava fecharam as portas da
noite para o dia. Este contratempo fez que o pai diversificasse os negócios para
o ramo da manufactura e indústria ligeira. Abriu três fábricas: de flores 
artificiais, luvas de cabedal e produtos lacados e agora diz que é um 

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industrial.
Contaram-me então que a fábrica de produtos lacados era especialmente lucrativa,
produzindo utensílios de cozinha coloridos, objectos para campismo e toda uma 
variedade de louça inquebrável. Recentemente o governo nigeriano tinha entrado 
em contacto com o pai para que construísse uma sucursal da fábrica em Port 
Harcourt. As condições eram extremamente favoráveis e o governo nigeriano 
oferecia subsídios, incentivos fiscais e terrenos a baixo preço. Os meus dois 
irmãos estavam envolvidos no projecto.
Tínhamos chegado ao ferry de Yaomati, também para automóveis e na época o único 
meio de transporte entre Kowloon e Hong-Kong. Depois de embarcarmos, saímos os 
três do carro e ficámos na amurada
durante a travessia. Em frente de nós estava a ilha de Hong_Kong, brilhante como
uma jóia, com milhares de luzes que faiscavam na noite. Os meus dois irmãos 
vestiam fatos azúis, camisas brancas e gravatas conservadoras. Parecia que iam 
os dois para uma reunião de negócios.
Olharam com desdém para o meu velho vestido do Marks and Spencer, demasiado 
grande para mim, e Gregory comentou:
- Se realmente decidires estabelecer-te e exercer medicina em Hong-Kong, tens de
prestar mais atenção ao que vestes. As pessoas de Hong-Kong dão grande 
importância à moda e o que trazes vestido não é suficientemente bom.
- Nunca fui nenhuma beldade - balbuciei à defesa - e, além de tudo o mais, acabo
de sair de um avião.
- Ela parece-me muito bem - disse James gentilmente com um sorriso caloroso, 
enquanto me passava o braço pelo ombro. - Não conheço ninguém que pareça o 
último grito da moda depois de estar fechado num avião durante horas e horas.
- Como é o apartamento deles agora? - perguntei eu, desviando o assunto da 
conversa.
Depois da morte de Franklin, em 1953, o pai convencera-se de que o.feng shui 
(vento e água ou geomancia) da vivenda de Stubbs Road era mau. Lembrou-se também
de que Ye Ye tinha morrido em 1952, quando também vivia na mesma casa. Puseram 
fim ao contrato de aluguer e alugaram um novo apartamento no Peak.
- É um apartamento de dois quartos, bonito e luxuoso - respondeu Gregory. - Já 
lá vivem há dez anos.
- Número 115, Plunket Road, no Peak - disse eu. - Há hoje alguma discriminação 
contra os chineses que vivem no Peak?
- Durante o século XIX, os Chineses não estavam autorizados a viver lá, mas 
penso que isso acabou em 1904.
E Gregory continuou a explicar que, nos dias que corriam, o dinheiro era o rei e
que nós, os Chineses, podíamos viver em qualquer lado, desde que tivéssemos 
dinheiro. Contudo, era ainda desproporcionado o enorme número de brancos que 
vivia na zona do Peak. Acrescentou que o pai tinha comprado há pouco tempo um 
novo apartamento nos Mid-levels, nas Magnolia Mansions, com vista para o porto. 
Tinha quatro quartos e o pai tinha mesmo dito que havia espaço à vontade para eu
poder lá ficar.
152
Que simpático da parte deles! - exclamei eu, rejubilando de alegria.
Não deites foguetes antes da festa! - disse James de forma um pouco sombria. - A
Velhota opôs-se. Disse várias vezes que o apart~nento não era suficientemente 
grande. Penso que a ideia do Velhote ficou arrumada, pelo menos por algum tempo.
Entretanto, o carro subia já as ruas cheias de curvas da encosta íngl'eme, rumo 
ao topo da ilha de Hong-Kong, onde a vista era espectacular e o ar era fresco e 
sem poluição. Doíam-me os ouvidos devido à altitude e tinha o estômago revolvido

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por causa do cansaço e das curvas. Enquanto esperávámos pelo elevador na entrada
pavimentada a mármore e granito fui invadida pela mesma sensação de insegurança 
que me dominava sempre que tinha de enfrentar os meus pais. Embora tivesse 
estado em Inglaterra durante onze anos e fosse agora médica, naquele momento não
me sentia nada diferente da rapariguinha de escola que partira em 1952.
Fui cumprimentada formalmente com sorrisos e apertos de mão. O pai estava pouco 
mais ou menos na mesma, mas a silhueta graciosa de Niang tornava-se mais 
volumosa e as suas feições tinham endurecido. O apartamento estava mobilado de 
forma elegante, mas impessoal, com cadeiras chinesas antigas, de espaldar recto 
e de madeira, sofás ao estilo ocidental, com cobertas nos braços, e um tapete de
Tianjin. Para baixo, uma vista panorâmica da cidade de Hong-Kong e do porto de 
Vitória.
Bastante tensos, sentámo-nos em volta de uma mesa de jantar de pau-rosa, a comer
fitas que nos eram trazidas por uma criada que eu já não conhecia. Por uma 
qualquer razão, a conversa fazia-se em inglês. Depois do meu regresso de Londres
nunca mais me voltaram a falarem chinês, o que veio a aprofundar o meu 
sentimento de exclusão; era como se eu fosse um empregado que tinha de 
justificar o seu ordenado. Contei-lhes que o professor McFadden me tinha 
oferecido um lugar de assistente no seu Departamento de Medicina Interna.
- Tenho andado a pensar nisso - começou o pai lenta e propositadamente, como se 
tivesse ensaiado o discurso - e penso que não é um bom passo. Em vez disso 
devias pensar na obstetrícia e na ginecologia. Lembras-te da Dr.° Mary Ting, que
vos viu nascer a todos! É uma das melhores médicas que eu conheço. A medicina 
interna não é uma boa área para mulheres. Os médicos não vos indicarão aos 
pacientes deles.
153
Tinha-me esquecido completamente de que o pai já traçara a aninha carreira onze 
anos atrás, mesmo antes de eu partir para Inglaterra, Não consegui dizer nada. 
Era uma decisão séria que envolvia o meu futuro
mas, do ponto de vista do pai, a decisão era dele, e não minha. Acrescentou que 
a professora Daphne Chun, uma amiga dele do Departamento de Obstetrícia e 
Ginecologia da Universidade de Hong-Kong, estava disposta a dar-me um lugar como
interna especial. O salário que ele mencionou era insultuosamente baixo e o 
lugar era-me oferecido apenas por eu ser filha de quem era. A professora Chun 
tinha-lhe dado muita "face".
Já sabia que se tratava de um fait accompli. O pai perderia a face se eu me 
recusasse a aceitar este "favor". Mesmo assim, tentei protestar, lembrando-lhe 
que já tinha trabalhado como interna em Londres dois anos antes. A oferta do 
professor McFadden de um lugar de assistente significava que eu iria ocupar uma 
posição inusitadamente elevada para uma jovem médica de 26 anos. O pai ignorou 
completamente as minhas explicações.
- Porque não tentas o lugar oferecido pela professora Chun? Se não gostares, 
poderás sempre mudar mais tarde. Vais ver que não te vais arrepender. Além do 
mais, ainda não te comprometeste com o professor
McFadden, pois não? Portanto, não tens nenhuma obrigação. Eu só estou a pensar 
no teu bem-estar - continuou ele. - Achas que o teu pai te indicaria o caminho 
errado? Lembra-te de que ainda és muito jovem, acabadinha de sair da 
universidade. Se tomares a decisão errada agora, irás arrepender-te daqui a dez 
anos, e então já será tarde de mais.
Lembrou-me de Lydia e Samuel 13 anos antes, quando tinham insistido em voltar a 
Tianjin, ao contrário do que tão bem lhes aconselhara.
- Olha para a confusão em que se meteram! E só por culpa deles. Hão-de apodrecer

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por lá até ao fim da vida! - disse ele, proferindo aquelas palavras com um certo
gosto, quase feliz, porque as suas profecias de desgraça se tinham vindo a 
realizar como uma vingança.
Enquanto ouvia, as minhas decisões anteriores foram-se desvanecendo. Só sabia 
que, acima de tudo, queria agradar ao meu pai. E tanto, tanto! Queria ser aceite
por ele, ser amada, nem que fosse só por uma vez na vida.
~ Em francês no original. (N. da T.)
154

Muito bem, Adeline! Estamos orgulhosos de ti!
É claro que, ter-me a trabalhar com um dos seus conhecimentos, Significava muito
para ele. Recusar a oferta do lugar de assistente do professor McFadden (com 
alojamento) e trocá-la pela promessa de um posto de interna junto da Dr.a Chun 
era dar ao pai uma grande quantidade de "face". E certamente que isso me faria 
subir alguns pontos na sua consideração.
Mais uma vez me traía mim própria e acedi aos desejos do pai. Quando nos 
recolhemos, eu já estava praticamente a agradecer-lhe pelo trabalho que tinha 
tido por minha causa.
No quarto dia após o meu regresso de Hong-Kong, Niang disse-me que fizesse as 
malas. Nesse dia o pai estava fora, a jogar golfe com um parceiro de negócios.
Estava uma tarde de domingo cheia de sol quando Ah Mo, o motorista, nos levou, a
Niang e a mim própria, ao Hospital Tsan Yuk, onde trabalhava a Dr.a Chun. O 
lugar parecia deserto. Ficámos de pé, à entrada, a falar a uma telefonista 
extremamente atarefada, que tratava das ligações telefónicas e era 
simultaneamente recepcionista. Por fim, lá percebeu que eu era a nova interna 
extra acabada de chegar da Universidade de Londres, contratada pela professora 
Chun para começar a trabalhar na segunda-feira. Disse-nos que, já que a 
professora não estava e nem nenhum dos outros médicos para nos mostrar as 
instalações, deveríamos voltar na segunda-feira de manhã.
Niang, todavia, não se deixava intimidar facilmente. Mandou chamar o interno que
estava de serviço. No momento em que uma jovem médica chegou, Niang, ordenou, em
inglês, que ela me fosse mostrar o local onde eu iria dormir. Embora eu fosse na
altura uma mulher adulta e médica, Niang ignorou-me como se eu fosse ainda uma 
criança. Foi informada que não havia alojamento para internos.
- Então onde é que você dorme? - perguntou Niang insolentemente, enquanto eu me 
encolhia de vergonha.
- Durmo na sala dos que estão de serviço - replicou a interna, a Dr.a Chow, 
deitando-me um olhar breve e desviando rapidamente os olhos, percebendo a minha 
atrapalhação.
- Quantas camas é que há e quantas estão ocupadas? - insistiu Niang,
- Há quatro camas e hoje duas estão ocupadas, uma por mim e outra pela pediatra 
interna que está de serviço.
155

- Estou a perceber - disse Niang, raciocinando rapidamente, - Então há duas 
camas nesse quarto que não estão ocupadas.
- Sim, mas só estão desocupadas até amanhã, quando o esquema rotativo de serviço
é anunciado.
- Então está muito bem! - disse Niang com o seu sorriso encantador. - Leve-nos, 
por favor, à sala dos que estão de serviço,
O seu tom era autoritário e a sua presença imperativa. Quando a Dr.a Chow 
hesitou em satisfazer aquele pedido perfeitamente inusitado, Niang fez rodar o 

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anel de diamantes de seis quilates à volta do dedo.
A jóia vistosa reflectiu a luz, emitindo uma mensagem de dinheiro e poder. Foi 
então que Niang acrescentou:
- A professora Chun é uma grande amiga minha.
Nessa altura a Dr.a Chow estava já completamente intimidada e indicava o 
caminho, seguida por Niang, por mim e por Ah Mo, que levava as minhas duas malas
com todos os meus haveres. Entrámos
num grande quarto vazio com quatro camas, uma a cada canto. Não havia 
guarda-fatos. As únicas peças de mobiliário eram as mesas de cabeceira que 
ladeavam cada uma das camas e em cada uma delas havia um telefone. A roupa de 
cada um dos médicos de serviço pendia em cabides de parede colocados junto das 
camas.
Niang caminhou até à janela sem cortinas, os vidros opacos de poeira. Olhou lá 
para fora e abaixo de nós podia ver-se o porto de Vitória em todo o seu 
esplendor. O Sol brilhava, o ar estava leve, o mar tinha um azul resplandecente 
e as embarcações eram coloridas. Ela ordenou a Ah Mo que colocasse as minhas 
malas junto de uma das camas desocupadas. Voltou-se para mim e sorriu:
- Ó Adeline, que vista maravilhosa aqui do teu quarto! Que sorte tu tens!
Enquanto eu olhava para ela embasbacada, muda de assombro e vergonha, ela 
acrescentou:
- Infelizmente, o pai e eu estaremos ocupados durante toda a próxima semana, mas
talvez possamos almoçar todos juntos no domingo que vem. Telefona-me na 
quinta-feira, está bem? - E acrescentou, voltando-se para Ah Mo - Agora leva-me 
à Sr.a Ning! - ordenou ela. - Já estou atrasada para o chá!
Ah Mo apressou-se atrás dela, seguido pela Dr.a Chow, que disse qualquer coisa 
relacionada com ter de ir ver um doente. Fiquei sozinha.
156
permaneci junto da janela suja, a olhar para a "vista maravilhosa" durante muito
tempo. Todo o meu ser estava inundado de solidão e de um sentimento que eu 
conhecia demasiadamente bem: rejeição total. E perguntei a mim própria porque me
tinha dado ao trabalho de voltar para casa.
No início dos anos 60, Hong-Kong era um lugar extraordinário. No ponto de 
viragem para um destino brilhante, tinha substituído Xangai no seu papel de 
porta para o Ocidente. Tudo estava em marcha. A vida girava à volta de 
passaportes e dinheiro. As pessoas entravam ou saíam.
Noventa e nove por cento da população era chinesa. A maioria era oriunda da 
vizinha província de Guangdong (Cantão). Depois de 1949, um grande número de 
chineses tinha chegado de Xangai e de outras partes da China. À medida que o 
tempo foi passando, tornou-se cada vez mais perigoso entrar em Hong-Kong através
do canal que separava a cidade da China. Mais tarde, o exército britânico erigiu
uma vedação de arame farpado com cerca de 38 quilómetros de comprimento ao longo
da fronteira com a China, que era patrulhada por batalhões de Gurkhas (soldados 
mercenários nepaleses) e cães, que afastavam todos aqueles que tentavam entrar 
ilegalmente na colónia superpovoada. Os que eram bem sucedidos possuíam a forte 
determinação de construir uma vida melhor para sie para os seus filhos.
Vim a encontrar cidadãos de diversos ramos que trabalhavam 14 a 16 horas por dia
em troca de magros salários: taxistas, cabeleireiros, empregadas de mesa, 
enfermeiras, telefonistas. Em comparação com Londres, tudo era barato, excepto o
alojamento. Foi durante este período que Hong-Kong ficou conhecida como armazém 
de pechinchas e Meca de compras do mundo. Talento e oportunismo eram as Pedras 
de toque da economia. Hong-Kong tornou-se o admirável mundo novo para os 
oprimidos da China.

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Abundavam as histórias de trabalhadores com salários banais, alguns mesmo 
analfabetos, que, através de trabalho árduo e persistente e da economia de todos
os tostões, conseguiam comprar um pequeno aPartarnento ou mandar os seus filhos 
estudarem para o estrangeiro. Criadas e motoristas começaram a investir no 
imobiliário e a especular na bolsa de Hong-Kong.
157
O meu trabalho em Tsan Yuk era fisicamente puxado, mas não apresentava grandes 
desafios intelectuais. Durante o tempo que lá estive não se fez qualquer 
trabalho de investigação médica. A discri.
minação sexual era grande e flagrante. Os médicos ganhavam mais 25 % do que as 
médicas da mesma categoria, embora executássemos trabalhos idênticos e 
atendêssemos igual número de chamadas nocturnas.
Eu não era de modo algum popular. Os meus colegas internos ressentiam-se por 
causa de eu ter instalação permanente na sala dos médicos de serviço. Por fim 
atribuíram-me um quarto particular no hospital, pelo qual eu pagava uma renda 
altíssima. A administradora do hospital deu-me os parabéns pela sorte que tivera
em conseguir aquele quarto. A professora Chun tinha-lhe dito que a minha família
era extremamente rica e que eu própria tinha uma boa independência financeira.
Não tinha para onde ir ao fim do dia e aos fins-de-semana. Tomava a maioria das 
minhas refeições no hospital. Gastava a maior parte do meu magro salário na 
renda, alimentação, livros e (num esforço ilusório para ganhar o seu afecto) em 
presentes caros para os meus pais,. como caixinhas de prata ou camisolas de 
caxemira.
Os meus colegas não gostavam de mim porque eu não era cantonense e a minha 
licenciatura fora tirada em Londres, e não em HongKong. As minhas duas 
especializações em Medicina Interna não eram referentes ao Departamento de 
Obstetrícia e Ginecologia. O modo como eu falava inglês era considerado 
"não-chinês", diferente, incompreensível e irritante. Puseram-me a alcunha de 
Loy Lo Fu, ou seja "mercadoria importada".
Quando, por fim, entrei em contacto com o professor McFadden, ele confirmou a 
sua oferta do lugar de assistente no Departamento de Medicina Interna, com 
alojamento gratuito. Senti-me fortemente ten tada a aceitar, mas não podia 
deixar que o pai perdesse a "face". Mais tarde vim a descobrir que era forte a 
rivalidade entre departamentos e que era um pequeno sucesso para a professora 
Chun eu ter escolhido trabalhar como interna em vez de ter aceite a promessa de 
um lugar como assistente junto do professor McFadden, especialmente quando eu já
possuía um MRCP obtido em Londres e outro em Edimburgo Havia ainda outra razão 
para que eu não aceitasse: nessa altura eu Ja sabia que tinha de sair de 
Hong-Kong e fazer a minha vida noutro

158
sítio. A posição oferecida pelo professor McFadden teria sido permanente. E ele 
tinha sido mais do que generoso, mantendo o lugar em aberto ao longo de um ano.
Todos os domingos à noite éramos esperados para o jantar no novo apartamento que
o pai e Niang tinham comprado recentemente nos Mid-leveis. Esses jantares eram 
verdadeiras provas. Niang parecia saber de tudo: da conta bancária de Gregory 
com um saldo Ironicamente negativo, das suas multas numerosas em Kowloon e 
Hong-Kong (na opinião do pai, dignas do Gttitatess Book); do consumo de uísque 
que James fazia; das minhas tentativas para alugar um apartamento maior para mim
e para os meus dois irmãos, a fim de podermos ter qualquer coisa que se 
parecesse com uma vida de família; da correspondência que Susan mantinha com um 
amigo americano.

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Com o tempo fiquei a odiar os pontos de vista que exprimiam nesses jantares de 
domingo, onde eu permanecia invariavelmente calada, como se fosse um ~ ~ ~~ 
~,/it zhottgyott ytt (um peixe a nadar num caldeirão), cheia de um 
descontentamento frustrante.
Regularmente, os meus pais acusavam e condenavam os cantonenses de Hong-Kong 
pela sua avareza, materialismo excessivo e carácter ostensivamente pouco 
refinado. Contudo, eu não podia deixar de reparar na obsessão que eles próprios 
sentiam pelo dinheiro. Por outro lado, os preconceitos que tinham eram grandes e
católicos. Além dos Cantonenses, criticavam também os Judeus, os Indianos e os 
Japoneses. Quanto aos potenciais parceiros comerciais nigerianos, Niang 
considerava-os sub-humanos e nem sequer merecedores de qualquer sentimento de 
desprezo.
Em 1963 toda uma geração de jovens chineses bilingues fazia parte da força de 
trabalho de Hong-Kong. Já nessa altura alguns dos mais ricos de Hong-Kong eram 
ricos para além do que se pode imaginar. Os seus filhos e filhas regressavam das
melhores universidades da Inglaterra e da América, transformados em pessoas 
impecavelmente vestidas, com fatos escuros de marca feitos em Paris ou em 
Londres, que usavam mesmo no pino do Verão. Falavam um inglês perfeito. Os 
filhos tinham por vezes .fart gzti nui (mulheres estrangeiras "diabos") entre os
braços. Os melhores clubes de Hong-Kong, os clubes de élite, Já não excluíam 
membros chineses. O novo critério já não era a raça, mas sim o dinheiro. Nessa 
nova Hong-Kong dos anos 60 havia muitos milionários cantonenses que eram muito 
mais ricos do que Niang e o

159

pai. Dado que os meus pais estavam convencidos da sua superioridade inata em 
relação aos cantonenses, estas ideias eram difíceis de digerir. A única defesa 
que tinham era considerar todos os cantonenses como esquisitos, embora no fundo 
invejassem aqueles que subiam mais depressa nessa nova sociedade. Com uma fina 
ironia, Niang comentava ocasionalmente que achava deploráveis os casamentos 
inter-raciais e dizia que os filhos não seriam carne nem peixe.

A minha tia-avó também era conhecida por Gong Gong (tio-avô) por causa do 
respeito que lhe tinham como presidente do Banco das Mulheres de Xangai, fundado
por ela em 1924. Parte de uma geração de três irmãos, recusou-se a ter os pés 
ligados. Frequentou uma escola missionária fundada por metodistas americanos e 
usava o inglês fluen
temente. O seu banco, no n ° 480 de Nanjing Lu, em Xangai, está ainda em 
actividade.

Os meus irmãos e irmãs. Na última fila a partir da esquerda: Gregory, James, 
Edgar. Na fila da frente, da esquerda para a direita: Lydia com a meia-irmã 
ainda bebé, Susan, e Adeline. A fotografia foi tirada em Tianjin em 1942, antes 
da morte da nossa avó. Todos vestíamos roupas ocidentais bem à moda e usávamos 
os cabelos muito bem cortados

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Nos dias em que era uma região em desenvolvimento, Tianjin ofereceu 
oportunidades económicas a Ye Ye, o meu avô (à direita); o filho, o meu pai, à 
esquerda, e K. C. Li, ao centro. K. C. foi um dos primeiros chineses a 
licenciarem-se pela Escola de Economia de Londres e fundou a Hwa Chong Hong, uma
empresa bem sucedida no ramo da importação-exportação. Tanto o meu avô como o 
meu pai trabalhavam para ele
Os meus irmãos e irmãs alguns anos mais tarde. Atrás, da esquerda para a 
direita: Susan, Franklin, Adeline e o cão, Jackie. A fotografia foi tirada em 
1946, pela altura em que nos ofereceram os patinhos de estimação

A minha madrasta, Niang ("mãe"), e o meu pai com Ye Ye (no meio) nos anos 40. Ye
Ye era um budista devoto. Rapava sempre a cabeça, usava um chapelinho redondo no
Inverno e vestia roupas chinesas

Niang, Franklin e o meu pai no início da década de 40. Franklin, o meu 
meio-irmão, era o filho predilecto. Niang comprava-lhe a roupa nas melho res 
lojas de roupa infantil na Avenida Joffre e mandava cortar-lhe o cabelo em 
grande estilo nos cabeleireiros de criança mais à moda

Ye Ye e a minha meia-irmã, Susan. A fotografia foi tirada logo a seguir à sua 
chegada a Xangai, quando vieram de Tianjin, em Outubro de 1943
Jeanne Prosperi tinha 17 anos quando conheceu o meu pai, que tinha acabado de 
enviuvar. Depois de se casar com o meu pai, passámos a chamar Niang ("mãe") à 
nossa madrasta. Filha de pai francês e de mãe chinesa, era uma mulher de uma 
beleza espantosa. Embora falasse fluentemente inglês, francês, mandarim e o 
dialecto de Xangai, nunca aprendeu a ler ou a escrever em chinês e nunca falou 
cantonense

A tia Ba Ba cuidou sempre de mim enquanto era criança, elogiando os meus êxitos 
na escola, verificando os meus trabalhos de casa e dando-me boleias de riquexó. 
Nunca casou e dependeu financeiramente do meu pai
e da minha madrasta durante toda a vida. Era meiga, paciente e cheia de 
sabedoria. Amei-a muito

Os meus dois meios-irmãos, Franklin e Susan, com a sua ama e tutora, Miss Chien.
Havia dois sistemas na nossa família: nós, os enteados, éramos cidadãos de 
segunda classe; Franklin e Susan receberam tratamento preferencial desde o dia 
em que nasceram

Franklin ao lado de Jackie, o cão de estimação do meu pai. O pai contratou um 
treinador alemão para ensinar Jackie a ser obediente apenas ao pai, a Niang e a 
Franklin. Eu tinha muito medo de Jackie, que costumava ladrar-me
Niang e o meu pai gozavam de um confortável estilo de vida. Formavam um bonito 
par, que brilhou nas décadas de 40 e 50, ocupando uma elevada posição social em 
Xangai e Hong-Kong
16
Pi Ma Dan Qiang Um cavalo, uma só lança

Sete meses depois de eu ter iniciado o meu período como interna entrou um 

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estudante de Medicina de vinte e cinco anos, de ascendência chinesa e americana.
Martin Ching vinha inserido num programa de intercâmbio da Faculdade de Medicina
da Universidade de Nova Iorque para o mês de Julho. Era filho único de pais da 
classe trabalhadora, que tinham emigrado de Guangdong para a América nos anos 
30. O pai, trabalhador árduo numa lavandaria, e a mãe, empregada de mesa, 
esperavam tudo de Martin e tinham poupado todos os tostões para que ele pudesse 
ir para a universidade estudar Medicina e para comprar uma casa em Queens, a %m 
de Martin poder viver fora da Chinatown de Nova Iorque enquanto andasse na 
universidade. Quanto a eles, continuaram a viver por cima da loja que tinham, 
enquanto Martin alugava quartos a outros estudantes para ajudar a pagar a 
hipoteca. Era um bom rapaz, estudioso e responsável.
Por vezes, à noite, depois do trabalho, Martin e eu sentávamo-nos à conversa. 
Estávamos ambos num beco sem saída e não tínhamos para
onde ir. Ele mal sabia falar cantonense. Os médicos e as enfermeira achavam 
muito maçador terem de traduzir tudo para inglês sempre que ele estava presente.
Além de tudo o mais, Martin era "apenas" um estudante de Medicina.
- Nunca tinha sentido tanta discriminação como a que estou a sentir aqui em 
Hong-Kong - disse-me Martin. - As pessoas daqui são distantes. Mantêm sempre uma
atitude defensiva e olham para mim com desprezo porque eu tenho o aspecto de um 
chinês, mas não falo nem escrevo chinês fluentemente. Pensam que sou um palerma.
Nesse Verão de 1964 o tempo estava extremamente mau. Parecia que as chuvas nunca
mais tinham fim. Um dia o departamento de meteorologia fez içar os sinais de 
tufão. A todos os trabalhadores, excepto aos que estavam em serviços de 
emergência, foi dito que deveriam permanecer em cása. Aulas marcadas foram 
canceladas. Martin e eu ficámos no hospital, porque não tínhamos mais lugar 
nenhum para onde ir.
Lá fora a chuva intensa era empurrada por um vento forte, transformando as águas
azuis do oceano em ondinhas brancas, batidas, zangadas. O serviço do Star Ferry 
foi suspenso: foram canceladas todas as travessias entre Hong-Kong e Kowloon até
ordem em contrário. O trânsito desapareceu. Ficámos isolados no Hospital Tsan 
Yuk, rodeados por trovões, relâmpagos, chuvas torrenciais e rajadas de vento 
devido ao tufão. Em frente das vidraças foram montados tapumes de madeira que as
protegiam. Àquelas que estavam menos expostas foram aplicadas tiras de fita-cola
larga. Hong-Kong era uma cidade cercada pelas forças da natureza.
Martin e eu sentámo-nos numa das extremidades de uma longa mesa de conferências 
rectangúlar que existia na biblioteca e ali ficámos a observar a fúria da 
tempestade lá fora. A violência das chuvas torrenciais criava a ideia de 
conforto e segurança ali dentro.
- Estás aqui a desperdiçar o teu tempo e os teus talentos - disse Martin. -Aqui 
até podias fazer o teu trabalho de olhos fechados e, no entanto, ainda tens de 
perfazer as horas e fazer as vigílias. Porque não vais ter com o professor 
McFadden e aceitas o trabalho que ele te ofereceu?
- Eu não posso ir ter com Lo Mac! - repliquei. - Eu preciso é de sair de 
Hong-Kong.
- Então volta para Londres! Consegues arranjar facilmente um lugar académico com
os dois MRCP que tens.
162

 

_

~ Não, não, Londres está fora de questão! Não volto para lá! - Nesse 

momento pensava em Karl e até senti uma dor. Eu nunca mais poderia voltar 
àquilo. - Além disso, não ia a lado nenhum. As cartas são contra mim: chinesa, 

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mulher. O racismo e o sexismo são por demais evidentes em Inglaterra.
- E então, qual é a novidade? - perguntou Martin retoricamente. ,r Racismo e 
sexismo há-os por todo o lado, até na América.
- Como é que é crescer na América?
- O que tu queres saber é o que é crescer na América branca com uma cara 
asiática, não é?
E contou-me como era frequentar uma escola na Chinatown de Nova Iorque e 
identificar-se apenas com a América dos Brancos. Odiava a escola chinesa, porque
não queria ser diferente dos seus colegas brancos. A pouco e pouco compreendeu 
que, embora pensasse em si próprio como um americano, seria sempre um 
estrangeiro, um chinês, aos olhos dos seus pares de raça branca. Martin 
sentia-se encurralado entre dois mundos. Convencera-se de que o preconceito era 
inerente à natureza humana e de que estava presente em todas as sociedades, 
,incluindo a sua própria casa. Os seus pais tinham mostrado grande desagrado 
quando, certa vez, saíra com uma rapariga indiana, chamando-lhe see yct gui nc~i
(diabo estrangeiro, molho de soja em forma de mulher). Concluiu finalmente que, 
quando comparada com qualquer outro lugar, a América era ainda o país mais 
tolerante e de espírito mais iluminado. Considerou que tinha sorte em ter 
nascido nos Estados Unidos da América.
Martin especializara-se em História pela Universidade de Colúmbia antes de 
ingressar na Faculdade de Medicina. Dividia a emigração chinesa em três grandes 
ondas: antes da Guerra do Ópio - movimento constituído por artesãos, artífices e
comerciantes, provenientes das províncias costeiras do Sul em direcção aos 
países vizinhos (Tailândia, Vietname, Malásia e Filipinas); cerca de setenta 
anos depois da Guerra do Ópio, camponeses analfabetos (os abandonados e os mais 
pobres) rumaram à América na esperança de uma vida melhor, até à data em que as 
leis de exclusão fizeram diminuir estes números. Depois da segunda guerra 
mundial, influentes homens de negócios chineses em Taiwan e Hong-Kong começaram 
a enviar os seus filhos para universidades no estrangeiro, especialmente na 
América. As recentes reformas na área da imigração haviam facilitado esta nova 
vaga de "imigra-
ção intelectual". Muitas vezes, estes estudantes acabavam por ficar na América e
nunca mais regressavam à sua terra de origem.
- Conheço dois rapazes de Taiwan que alugaram quartos em minha casa - continuou 
Martin. - Nenhum deles tem intenção de regressar. Um deles está a tirar a 
especialidade de Patologia e o outro é engenheiro, Uma vez que não és feliz em 
Hong-Kong, porque não vens para a América? Um diploma de Medicina da 
Universidade de Londres é bem visto em Nova Iorque. E, a propósito, há uma série
de professores na Universidade de Nova Iorque que se formaram em Inglaterra.
Subitamente, uma nova perspectiva se abria aos meus olhos. A América! ;~ ~ Mei 
Guo (País Maravilhoso)! Fiquei de pé, junto à janela a observar a devastação da 
tempestade lá fora, esperando de alguma forma ver um arco-íris surgir no 
horizonte.
- Obrigada pela tua generosidade. Já me animaste mais do que podes supor. As 
tuas palavras encheram-me de optimismo. Tudo é possível, não achas?
- Ouve, regresso a Nova Iorque na próxima semana. Eu ajudo-te a encontrar um 
trabalho. Não fiques com esse ar preocupado! Não vais ter problemas. Verás.
Quando Martin deixou Tsan Yuk, era já o final do mês de Julho. O meu contrato 
com a professora Chun terminava daí a três meses. Ansiosa por deixar Hong-Kong, 
candidatei-me a todos os hospitais indicados por Martin. A maioria das respostas
sugeriam a data de 1 de Julho do ano seguinte para início dos trabalhos. 
Contudo, o Presbyterian Hospital, em Filadélfia, aceitava-me imediatamente para 

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iniciar uma especialidade em obstetrícia. Mais tarde vim a saber que estavam 
desejosos que eu ocupasse o lugar, pois não tinham conseguido preencher todas as
vagas para especialidades e corriam o risco de ver cancelado todo o programa de 
formação. Nessa altura havia falta de médicos na América.
Aceitei imediatamente o trabalho que me ofereciam. O salário era de 450 dólares 
por mês, além do alojamento e alimentação. Havia apenas um problema: eu não 
tinha dinheiro suficiente para pagar o bilhete de avião de Hong-Kong para 
Filadélfia e perguntei a mím própria se o pai e Niang não me fariam um 
empréstimo.
No jantar de domingo lá consegui arranjar coragem para anunciar que tinha 
decidido emigrar para a América. A notícia foi acolhida por um silêncio 
sepulcral. O pai sabia que eu não estava feliz em Tsan Yul~
164
Também tinha consciência de que a oferta do professor McFadden para o 
Departamento de Medicina Interna ainda estava de pé. Contudo, o meu plano de ir 
para a América era novidade para eles.
Dei a entender os meus parcos recursos e perguntei em voz alta se os bancos não 
me fariam um empréstimo para comprar a passagem aérea. Niang falou:
- Bem, Adeline, nunca hás-de saber se não fizeres o pedido, pois não? E se o 
banco recusar, paciência, não é?
Com esta resposta, percebi que as hipóteses de que eles me emprestassem o 
dinheiro eram nulas.
Nessa mesma noite despedi-me cedo, pois tinha uma cirurgia marcada para a manhã 
seguinte. Por volta da meia-noite, Gregory telefonou-me.
- Falaram de ti quando saíste. O meu coração quase parou: - O que é que eles 
disseram?
- Disseram que tinham feito todo o possível para te ajudarem em Hong-Kong, mas, 
já que isso não te basta, ficas entregue a ti própria daqui por diante. Não 
querem sequer saber o que farás daqui para frente. Londres, Nova Iorque, Tóquio 
ou Filadélfia, é-lhes indiferente. Mas não penses que te vão oferecer o bilhete,
porque não vão.
Ficámos em silêncio por momentos.
- Bem, obrigada, Gregory - disse eu, por fim. - Vou pensar numa maneira de 
resolver o problema.
Depois do telefonema de Gregory já não consegui dormir. Desatei a chorar e 
pensei que era muito baixo da parte deles regatearem o preço de um bilhete para 
Filadélfia - uma ninharia para eles - e nem sequer ficarem tristes por saberem 
que eu ia deixar Hong-Kong. É que nem sequer tinham dito umas palavrinhas, como 
"Vamos ter saudades tuas" ou "Escreve-nos muitas vezes, sim?". A minha partida 
iminente não lhes interessava nada, a não ser na possível despesa que iam ter 
com um bilhete de avião.
Levantei-me, vesti a minha roupa já muito usada e fui para a biblioteca do 
hospital. Estava deserta. Disse para mim própria:
- Teres pena de ti própria e pores-te a chorar não te vai resolver o problema do
bilhete de avião.
Sentei-me e escrevi uma longa carta à secretária do Departamento de Ensino de 
Medicina do Presbyterian Hospital, em Filadélfia.
165
Confessei a esta estranha a minha triste história. Era solteira, mulher e 
chinesa. Toda a minha vida tinha sonhado poder montar um consultório em 
Hong-Kong, junto do meu pai. Quando finalmente tinha re
gressado a casa, ao fim de onze anos, não encontrara nada senão desencanto. 

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Tinha decidido emigrar para a América, aceitando a oferta do Presbyterian 
Hospital.
Contei-lhe de seguida que não tinha dinheiro para a passagem aérea e perguntei 
se me podiam conceder um empréstimo a descontar futuramente no meu ordenado. E 
nessa carta eu escrevia ainda: "Não sei qual é a sua origem nem qual é o seu 
passado, mas talvez algum dia alguém lhe tenha dado também a mão e a tenha 
ajudado a realizar o seu sonho americano. Peço-lhe humildemente que agora faça o
mesmo por mim."
O Presbyteriam Hospital não me deixou ficar mal. Duas semanas mais tarde eu 
recebia a resposta. Ao que parecia, o meu pedido não era inédito. A política do 
hospital era conceder um adiantamento para despesas de viagem a médicos 
estrangeiros que tivessem passado o ECFMG, um exame especial para médicos 
estrangeiros. O preço do bilhete de avião mais o valor dos juros eram 
mensalmente deduzidos do ordenado: Enviavam-me um impresso para eu assinar.
A carta trazia ainda uma nota manuscrita da secretária do Departamento de Ensino
de Medicina: "Fiquei comovida com a sua carta. Gostaria apenas de lhe transmitir
que a porta da nossa casa estará sempre aberta para si, caso venha a precisar de
alguma ajuda quando estiver em Filadélfia."
Foi esta a minha estreia como estrangeira na América. Ela mostrou-se mais 
bondosa para comigo do que os meus próprios pais.
Pouco tempo depois deixei Hong-Kong. Gregory e James foram ao aeroporto 
despedir-se. Niang foi ao seu jogo habitual de brídege. Enquanto Gregory 
estacionava o carro, James enfiou-me na mala uma nota já muito gasta de 20 
dólares. Este gesto comoveu-me até às lágrimas, pois eu sabia que aquela era uma
soma muito para além das suas possibilidades.
Meia hora antes da partida, o pai surgiu a correr para se despedir. Juntámo-nos 
junto à porta de embarque e, quando chegou a hora de nos separarmos, dissemos 
adeus com um aperto de mão. Quis dizer ao pai que tinha feito tudo o que pudera 
para ficar contente comigo; porém,
166

as palavras ficaram presas. Depois de um silêncio doloroso, o pai disse 
fnalmente:
Bela, agora é que estás mesmo sozinha. In !~ :~ ~~ Pi ma dan giajlo (Um cavalo, 
uma só lança, querendo significar que eu estava só num combate contra a vida). 
Vamos ver o que és capaz de fazer.
167
17
Jia Ji Shui Ji Casa com uma galinha e seguirás uma galinha

Martin foi esperar-me ao aeroporto. Para poupar dinheiro, eu tinha comprado o 
bilhete mais barato que havia e o resultado fora uma viagem de quase quarenta e 
oito horas. Durante o voo os nervos não
me tinham deixado dormir e naquele momento, enquanto Martin ia a conduzir de La 
Guardia até Queens contra os faróis de um trânsito intenso e rápido, já não 
conseguia pensar em mais nada senão no sono que me atormentava. Os olhos 
fechavam-se-me à medida que ele ia falando animadamente acerca de me apresentar 
aos amigos, de ir jogar bowling ou dançar. Adormeci rapidamente.
Ele teve que me abanar para eu conseguir acordar quando chegámos à sua casa de 
três pisos com varandas, situada numa zona calma dos subúrbios. Na sala de 
estar, mal iluminada, reparei, ainda ensonada,

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que o sofá de vinil e a mesinha de café em plástico estavam limpos e arrumados. 
Havia luz na cozinha e ouvia-se o barulho de alguém que mexia em pratos e 
tachos.
168
17

Depois de trazer as minhas duas malas, Martin fez-me uma festa nos cabelos.
Bem-vinda à América, dorminhoca! - exclamou ele animadamente. - Aqui é que é o 
meu poiso! O que é que achas?
Atrás de nós alguém tossiu. Voltei-me e vi um jovem alto e elegante, de cabelo 
cortado à marinheiro. Mesmo cansada como estava, ainda consegui reparar que era 
um rapaz extremamente bonito. Ele avançou, estendendo a mão direita.
- Olá, sou o Byron Bai-lun Soon. Vivo aqui em casa do Martin - disse ele com o 
forte sotaque dos chineses do Norte.
De forma possessiva, Martin passou o braço em volta dos meus ombros, enquanto 
fazia as apresentações. Afastei-me instintivamente e sentei-me pesadamente no 
sofá.
- Aqui estás em segurança -.disse Martin. - Vamos tomar os três uma cerveja 
antes de eu te levar a jantar.
- Para mim não - respondeu Byron. - As raparigas chinesas não bebem cerveja. Do 
que ela está a precisar numa noite fria como esta é de uma boa caneca de água 
quente. E a seguir uma tigela de sopa de fitas cheia de molho de carne com sabor
a pimenta. Vou já tratar disso.
- Água quente! - exclamou Martin, torcendo o nariz. - Olha que ela não é uma 
velhota da chinatown como a minha mãe! Ela precisa é de uma boa cerveja gelada e
não quer nenhumas fitas. Acabei de te dizer que vamos sair para jantar.
Passado pouco tempo eu estava com a água quente e a cerveja gelada à minha 
frente, bebendo ora um golfinho de uma ora um golfinho de outra.
Martin levou-me a um restaurante japonês das redondezas, embora eu tivesse 
gostado mais da ideia de Byron da sopa de fitas e de uma almofada fofa. Passo 
após passo lá fui comendo alguns camarões ternparra, enquanto Martin discursava 
com entusiasmo sobre Nova Iorque. Por essa altura eu praticamente já dormia em 
pé. Como um zombi, disse que estava pronta às 9 da manhã para irmos visitar a 
Faculdade de Medicina onde ele andava e onde fazia as rondas de sábado.
Na manhã seguinte não acordei com o meu despertador nem com Martin a bater-me à 
porta com toda a força. Um sol brilhante atravessava os cortinados, quando eu 
acordei sobressaltada à 1 da tarde. Sabia que tinha deixado Martin ficar mal. 
Vesti-me à pressa e corri

169
escada abaixo. Encontrei Byron na sala sozinho, a ler calmamente um livro de 
engenharia.
- Estava mesmo a perguntar a mim próprio quando tu irias descer - disse ele a 
sorrir.
Vestia uma camisa branca, nova, e camisola azul. Assim, à luz do dia, parecia-me
ainda mais espantoso. Agora, que estávamos sozinhos, falava-me num mandarim 
fluente, claramente mais à vontade na sua língua-mãe. Timidamente, entregou-me 
um bilhete que Martin tinha deixado na mesa do café. Num tom ligeiramente 
recriminatório, Martin rabiscara: "Tentei acordar-te, mas não consegui. Quase 
fiquei sem mão, mas não serviu de nada. Deves estar mesmo estoirada! Estarei em 

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casa por volta das 5.30. Até logo. Vamos ao bowlifag logo à noite!"
- Ainda bem que adormeceste - declarou Byron -,porque assim tenho-te só para mim
durante algumas horas. Vamos almoçar? Já está tudo preparado.
Sentámo-nos à mesa da cozinha e comemos as fitas com molhos de carne de sabor a 
pimenta que Byron tinha preparado. Ele tinha nascido em 193 8, na província de 
Hunan, onde o pai era general no exército do
Kuomintang. Depois da tomada do poder pelos comunistas, os pais separaram-se. A 
mãe permanecera na China com uma irmã mais nova e o pai fugira para Hong-Kong 
com Byron e Arnold, o irmão mais velho. Os dois rapazes haviam completado o 
liceu em Hong-Kong antes de terem ingressado na Universidade de Taiwan. Depois 
de se terem formado, ambos tinham resolvido viajar para a América, a fim de 
fazerem as respectivas pós-graduações. Arnold tinha casado com a sua namorada 
dos tempos da universidade e estava a fazer o doutoramento em Matemáticas pela 
Universidade da Pensilvânia. Byron tinha arranjado um trabalho nocturno numa 
firma de engenharia e estava a tirar o mestrado no Instituto Politécnico de 
Brooklyn. Já possuía um cartão verde e o seu desejo era tornar-se cidadão 
americano. Alugava o quarto a Martin há nove meses.
- Ontem pensei em ti durante toda a noite! - confessou Byron. - Quando li o 
recado de Martin, decidi não ir às aulas. Este vai ser o meu dia de sorte! O meu
dia passado contigo ao sol. E sozinhos! Os olhos brilhavam-lhe de excitação. 
Agarrou-me a mão:
- Nunca senti isto antes: Diz-me, quais são as minhas hipóteses? Eu estava 
boquiaberta. Esfreguei os olhos, mas ele ainda lá estava: o meu herói das 
novelas de Kung Fu, confessando-me toda a sua

170

devoção Não retirei a minha mão da sua e, à medida que a tarde ia avançando, 
fiquei cada vez mais encantada por ele. Finalmente, ele levantou-se para sair. 
Acariciou-me a mão com meiguice:
. Este é o dia mais feliz da minha vida. Vou até fazer uma previsão, Antes do 
final de 1964 vais ser minha mulher.
Nessa noite encontrei uma carta de Byron na minha almofada; estava escrita em 
chinês. Era curta, mas com bonitas frases e temperada com citações dos poemas 
T'ang, que eu lhe tinha dito que adorava. Anotei a hora a que pretendia partir e
passei a carta por debaixo da porta dele, conforme me tinha pedido.
Na manhã seguinte apanhámos os três um táxi para a estação de Pensilvânia, 
Martin e Byron a competirem abertamente para chamar a minha atenção. Martin foi 
ficando cada vez mais irritado. Sentia-me lisonjeada, mas era uma situação muito
estranha e fiquei aliviada quando por fim me pude meter no comboio para 
Filadélfia.
Casei-me com Byron na City Ha1135 de Nova Iorque, apenas seis semanas depois de 
ter chegado à América e antes do final de 1964, tal como Byron tinha previsto. 
Martin pediu a Byron que abandonasse imediatamente a casa, pois os pais 
proibiam-no de alugar quartos a casais. Nenhum de nós voltou a falar a Martin ou
a vê-lo sequer. Num dos raros momentos que tive para pensar, já depois da 
cerimónia do casamento, fiz um cálculo e descobri que se somasse todo o tempo 
que Byron e eu tínhamos passado juntos a sós não chegava a dez horas.
Enviei um telegrama ao pai e a Niang, informando-os de que me tinha casado. Um 
mês depois recebi deles uma carta de parabéns com um cheque de 600 dólares, a 
sua prenda de casamento.
Tentei racionalizar o meu casamento, dizendo a mim mesma que muitos dos 

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casamentos arranjados na China começavam da mesma maneira. No fundo, todos os 
casamentos eram um jogo e viver diariamente com alguém tinha de implicar 
cedências de parte a parte.
O meu contrato com a Presbyterian era por sete meses, isto é, até Junho de 1965.
Para conseguir ver Byron aos fins-de-semana endividei-me ainda mais e comprei um
Volkswagen em segunda mão.
Duas semanas depois do meu casamento, quando lavava a roupa dele, encontrei no 
bolso de umas calças uma carta do Chase Manhattan Bank a cancelar-lhe a conta 
devido ao saldo negativo.

's Modo de desnignação da câmara municipal das cidades americanas. (1V. da T.).
Quando lhe telefonei para a firma de engenharia onde dizia que trabalhava, fui 
informada de que ele lá ia apenas de vez em quando e em regime de part-time. 
Mais tarde recebi uma chamada de alguém com um forte sotaque cantonense. Pela 
mensagem era mais do que óbvio que o principal trabalho de Byron era como 
empregado de mesa num restaurante chinês.
Algo alarmada, decidi confrontá-lo. Tínhamos ido ver o filme My Fair Lady em 
Queens. Enquanto esperávamos pelo início da sessão comecei por lhe dizer que 
estava magoada por ter descoberto que ele não me tinha dito toda a verdade.
-Não há nada a discutir! - atirou ele irritado. - E, além do mais, eu casei-me 
contigo, não foi? Que mais é que queres?
- Quero compreender-te, tal como espero que tentes compreender-me.
- Agora não me apetece falar. Quero ver o filme e divertir-me. - Podemos falar 
depois do filme?
- Não. Vê se percebes que, quando eu digo não, é não! Não há mais nada a 
discutir.
- Mas o que é isto? Uma ditadura? Somos marido e mulher ou escrava e senhor? 
Porque não podemos falar das coisas com calma e com lógica?
- `~~k~~f I~ái~" ~+k~~7 i~~~7 Jia ji shui ji, jia you shui you (Casa com uma 
galinha e seguirás uma galinha; casa com um cão e seguirás um cão).
- Mas que disparate! - exclamei, acrescentando algo sarcasticamente: - Foi isso 
que aprendeste com a tua leitura extensiva dos grandes clássicos chineses? A tua
paixão pelos poemas T'ang transformou-se nesta mostra profunda de sabedoria?
À luz fosca fui-me apercebendo da sua irritação crescente. Sem qualquer palavra,
levantou-se e saiu.
Com a pressa deixou o casaco de Inverno e as luvas no assento. . Comecei a ficar
preocupada, a pensar que andava pelas ruas geladas de Nova Iorque só com uma 
camisola e umas calças de polyester.
E comecei a recriminar-me pelos meus comentários cortantes. Fiquei desiludida ao
descobrir que as leituras do meu marido se limitavam afinal a jornais e livros 
de engenharia. A sua pretensa paixão pela poesia T'ang não passava de um desejo 
de impressionar a rapariga que amava.
172
O filme passava e eu não me atrevia a ir-me embora com receio de que ele 
voltasse e já não me encontrasse. Quando acabou, encaminhei-me para a saída, 
como toda a gente, com alguma esperança de o encontrar à porta. Não estava lá. A
neve passava em revoadas por ruas que eu não conhecia. Fiz sinal a um táxi e 
pedi que me levasse ao apartamento, embora não tivesse a chave. Já passava das 
11. Byron ainda não tinha chegado a casa. Fiquei encolhida à porta, como uma 
velhinha sem abrigo, cheia de medo só de pensar que poderia aparecer algum 
bêbedo que me agarrasse na escuridão.
"Casa com uma galinha e seguirás uma galinha; casa com um cão e seguirás um 

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cão." Talvez eu devesse animá-lo e fazer o papel da esposa chinesa submissa. A 
única alternativa era a separação, o divórcio. Afastei logo a ideia. Nunca 
poderia admitir o meu fracasso perante Niang e o pai. Decidi salvar o meu 
casamento, custasse o que custasse.
Finalmente, Byron voltou; eram quase 2 da manhã. Vinha maldisposto e irritado. 
Tinha ido ao restaurante chinês onde normalmente trabalhava, pedira um grande 
jantar e depois tinha ficado a ajudar até ao fecho. Foi direito à casa de banho 
sem me dizer uma palavra e eu fui para a cozinha preparar umas fitas. Quando a 
comida ficou pronta, arranjei duas tigelas e chamei-o. Estava a dormir 
profundamente; parecia um anjo. Comi ambas as tigelas sozinha.
Na manhã seguinte Byron comportou-se como se nada se tivesse passado. 
Exuberante, mostrou-me uma carta do advogado de imigração, informando-o de que 
tinha "boas hipóteses" de conseguir um cartão verde, esquecendo-se totalmente de
que no nosso primeiro encontro me tinha dito que já tinha um cartão verde. Mordi
a língua e não disse nada. Ficámos por ali, sentados a tomar o café com 
doughnuts e a ler a edição de domingo do New York Times. Andava à procura de um 
emprego permanente na área da engenharia junto de uma grande companhia no Sul. 
Na última página demos com um anúncio de página inteira: "Engenheiros! 
Convidamo-lo a vir para a fantástica Califórnia do Sul, onde o Sol brilha todos 
os dias! Venha trabalhar com a Douglas Aircraft em Long Beach! Precisamos de 
si!"
Algures no fundo da minha mente lembrei-me daquela maravilhosa fotografia de 
Clark Gable que tinha sido autografada e enviada de Hollywood a uma das minhas 
colegas de Xangai muitos anos atrás. Como eu a tinha invejado! E basicamente 
foram estas as razões pelas

173

quais acabámos na Califórnia do Sul: um anúncio no New York Times e a magia de 
Clark Gable.
A Douglas Aircraft contratou-o por 800 dólares por mês. Para conseguir obter uma
licença para exercer medicina na Califórnia tive de fazer um exame especial e 
completar um período como interna num
hospital da Califórnia devidamente reconhecido. E foi assim que no dia 1 de 
Julho de 1965 recomecei pela terceira vez a trabalhar como interna no St Mary's 
Hospital em Long Beach.
Pagavam-me apenas 300 dólares por mês, mas podia utilizar um bungalow situado 
junto ao hospital. Apesar da boa figura e do bom aspecto fisico de Byron, 
continuei a sentir por ele uma profunda indife
rença. Do ponto de vista emocional, era para mim um estranho. De cada vez que me
tocava, parecia ter o condão de me transformar numa pedra. Simultaneamente, 
sentia-me cheia de culpa pela minha falta de reacção. Tinha casado com ele por 
razões práticas: companhia, filhos, segurança emocional e aceitação social. 
Ingenuamente, acreditara que, se tentasse com todas as minhas forças, o amor 
viria. Isso nunca aconteceu.
Byron e eu mantínhamos as distâncias. Era assim que ele queria o casamento. As 
conversas de coração aberto deixavam-no desconfortável. Citava frequentemente o 
provérbio chinês ~ -~. ~q ;i~-~u ~ _f t qi
xiangjing rtt bitt (marido e mulher devem respeitar-se um ao outro tal como se 
respeitam os convidados de honra). Com isto queria ele dizer que eu devia 
abster-me de quaisquer críticas, comentários negativos ou conversas íntimas. Eu 

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evitava tocar em temas controversos e tentava animar-me. Não havia conversa; 
logo não existia intimidade.
A televisão era a sua companhia permanente. Ligava-a assim que chegava a casa e 
sentava-se em frente do aparelho durante horas, mudando de canal de cinco em 
cinco minutos. Levantava-se com relutância quando eu o chamava para o jantar e 
voltava a sentar-se logo a seguir, enquanto eu lavava a loiça. Tomávamos as 
refeições em silêncio. Byron lia o Los Angeles Times e eu lia os meus livros. À 
noite deitávamo-nos ao lado um do outro, dois seres obrigados a partilharem a 
mesma cama.
Apesar de tudo, em Outubro de 1965, eu fiquei grávida. Byron parecia estar 
contente com a perspectiva de vir a ser pai. Com um bebé a caminho, eu limitei 
as minhas escolhas em termos de carreira ao campo da anestesia, uma 
especialidade com base no hospital. A prática da anestesiologia tinha-me sido 
descrita como horas de aborrecimento interrompidas por momentos de pânico. A 
responsabilidade era grande.
174
Habitualmente, os pacientes eram deixados inconscientes por processos de rotina,
ficando suspensos entre a vida e a morte. Os honorários eram proporcionalmente 
elevados. Concorri e fui aceite para uma especializaçã° em anestesiologia no 
Orange County General Hospital, na Universidade da Califórnia, Irvine.
O bebé devia nascer no início do mês de Junho. Byron e eu juntámos os nossos 
ordenados e preparámo-nos para deixar o bungalow. Demos o sinal para uma nova 
casa em Fountain Valley, a cerca de 16 quilómetros de distância.
Estávamos ambos radiantes com a compra da nova casa, que vinha de encontro aos 
nossos desejos de criarmos raízes na América. Nessa noite, depois de assinarmos 
o contrato, eu cozinhei uma refeição para comemorarmos. Descontraídos pela 
comida, começámos a discutir o estatuto dos nossos vistos. Byron tinha recebido 
o seu cartão verde e era já residente permanente, mas eu tinha ainda um cartão 
de "estudante em programa de intercâmbio".
- Devias consultar um advogado especializado em assuntos de imigração e mudares 
o teu estatuto o mais depressa possível. - disse Byron. - Se tivesses dado 
início ao processo quando nos conhecemos, já terias o teu cartão verde.
- Quando nos conhecemos, tu também ainda tinhas um visto de estudante - disse eu
irreflectidamente.
A sua expressão mudou:
-Estás a chamar-me mentiroso? Se eu não tivesse casado contigo, nunca 
conseguirias arranjar um cartão verde.
- Vamos primeiro ao que é importante! Sabes muito bem que não tinhas nenhum 
cartão verde quando nos encontrámos em casa de Martin Ching -insisti.
Subitamente enfureceu-se. Levantou-se e começou a gritar:
- Se desejas secretamente voltar a ver o Martin, porque é que não vais atrás 
dele para Nova Iorque?
Para meu grande alívio, o telefone tocou nesse momento. A telefonista do 
hospital não conseguia localizar o interno de serviço. Será que eu podia ir 
imediatamente para atender a dois doentes que tinham acabado de dar entrada 
depois de um acidente de carro? Balbuciei qualquer coisa acerca de uma 
emergência e saí a correr.
Regressei quatro horas mais tarde. Por essa altura eu estava exausta. A minha 
grande barriga pesava como um saco de pedras, já abaixo do
175
que antes tinha sido a minha cintura. Tinha os tornozelos tão inchados que até 
tinha dificuldade em tirar os sapatos antes de acender a luz. Foi então que os 

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meus olhos encontraram um cenário inacreditavelmente caótico. Num acesso de 
fúria, Byron tinha puxado as gavetas e atirado para o chão da sala todo o seu 
conteúdo. Por todo o lado havia roupa, lençóis, utensílios de cozinha, livros, 
artigos de toilette e comida. Na cozinha, os pratos sujos tinham sido atirados 
para cima da mesa e para o lava-louça. De Byron, nem rasto.
Depois de ter limpo a cozinha, fiz uma chávena de chá. De seguida comecei a 
arrumar a desordem da sala, colocando mecanicamente cada coisa no seu lugar.
"Bem, quando acontece alguma tragédia", disse eu para mim própria, "todos nos 
sentimos melhor se fizermos algo de positivo. Podia ter sido bem pior. Pelo 
menos, não pegou fogo à casa."
Pelas 6 da manhã, quando a limpeza já ia a meio, ouviu-se uma chave na porta e 
Byron entrou. Nessa altura eu estava de gatas. Deve ter havido alguma coisa na 
minha estranha posição que o fez pensar, porque não me tocou. Passou para o 
quarto, preparou uma maleta e saiu novamente a correr e sem dizer palavra.
Desapareceu durante cinco dias. Acreditei que o meu casamento tinha chegado ao 
fim. O bebé deveria nascer dentro de duas semanas. Refugiei-me no meu trabalho 
diário, criando a ilusão de ordem e normalidade. Era reconfortante sentir que os
meus pacientes precisavam de mim, embora o meu próprio mundo estivesse a cair 
aos bocados.
Foi então que, inesperadamente, ele voltou. Uma tarde, quando regressei do 
hospital por volta das 6 horas, encontrei-o a ver televisão e a mudar de canais,
como se nunca tivesse saído dali. Cozinhei o jantar e comemos em silêncio, 
enquanto ele lia o Los Angeles Times. As dores de parto começaram às 6 da manhã 
do dia 8 de Junho de 1966. Byron mostrou-se solícito. Levou-me ao hospital, 
tirou o dia e sentou-se ao meu lado na sala de partos. Roger, o nosso filho, 
nasceu nessa noite. Era lindo e saudável.
Centrei toda a minha ternura no nosso bebé. Corria para casa depois do trabalho 
para lhe dar banho e o alimentar. Sentia-me uma mulher cheia de sorte por poder 
dar-lhe todo o amor que me tinha faltado durante a infancia.
Embora o meu casamento fosse um desastre, por fora transmitíamos a imagem de uma
perfeita família sino-americana.
176
18
Zhong Gua De Gua Colherás o que semeares
O South Coast Plaza era um centro comercial regional ultramoderno que tinha 
acabado de abrir as portas em Costa Mesa, a cerca de 24 quilómetros dali. Byron 
e eu estávamos desejosos de lá ir. Fomos juntos no dia de Ano Novo de 1967 e 
pretendíamos comprar um fato novo para Byron. É tradição na China que, no dia de
Ano Novo, a roupa nova simboliza um novo começo. Nessa mesma noite Byron tinha 
convidado quatro colegas da Universidade de Taiwan e respectivas esposas para 
jantar.
Estava uma manhã encantadora, soalheira, com uma pequena brisa e sem névoa. À 
medida que avançávamos para sul no novo troço da auto-estrada de S. Diego, íamos
observando as montanhas com o topo coberto de neve estampadas num céu sem 
nuvens. O ar era limpo e fresco. No rádio íamos ouvindo uma música ligeira. 
Estávamos ambos com um humor estupendo. Byron arrumou o carro num grande parque 
de estacionamento, fechou-o e deu-me as chaves para as guardar na minha bolsa. 
Ele estava belíssimo, vestindo uma camisola de lã grossa sobre a camisa.
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Dirigimo-nos à secção masculina da Sears Roebuck. Enquanto ele escolhia o fato, 
dei um pulo à secção de bebés para escolher um brinquedo. Quando voltei, o 
vendedor ajudava Byron a provar um casaco.

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- Penso que devia despir a camisola grossa antes de experimentar os casacos - 
dizia o vendedor. - É já o quarto casaco que experimenta e não lhe vai assentar 
bem porque não é este o seu tamanho. As mangas estão demasiadamente compridas, 
claro, porque o tamanho é grande de mais.
Byron estava a olhar para o espelho e ajustava as mangas compridas. Ignorando o 
vendedor, voltou-se para mim:
- Gostas da cor? O que é que achas? Nessa altura o vendedor voltou-se para mim:
- Está a ver, minha senhora, aqui .., até o colarinho assenta mal. É que este é 
o número 44 e o número do senhor é o 40, 42 no máximo. Sem pensar, eu disse a 
Byron:
- Acho que este senhor tem razão. Porque não tiras a camisola, como ele sugeriu,
e experimentas um 40?
Fixou-me. Depois, sem uma única palavra, despiu o casaco, virou-se bruscamente e
abandonou a sala.
Fiquei pendurada, a fazer figura de pateta até que decidi ir para o carro e lá 
esperei durante duas horas. Telefonei à Sr.a Hsu, a ama de Roger, mas ela 
disse-me que Byron ainda não tinha regressado. Era quase 1 hora. Voltei para 
casa.
A Sr.a Hsu ajudou-me a decorar a casa e a preparar alguns pratos. 3 horas e nem 
sinal de Byron. Comecei a ficar preocupada. Mal sabia os nomes dos seus amigos 
de Taiwan, quanto mais das suas mulheres. O que é que eu havia de fazer se 
chegassem todos e Byron ainda não estivesse em casa? Por fim, não consegui 
aguentar mais. Telefonei aos convidados, um por um, disse-lhes que Byron tivera 
uma intoxicação alimentar e cancelei o jantar.
Na sala devo ter passado pelas brasas, quando ouvi Byron meter a chave à porta. 
Tinha vindo a pé do centro comercial. Caminhara três horas e meia.
- Onde estão os meus convidados? - perguntou ele, deitando um olhar à comida que
tínhamos preparado e que continuava na mesa da cozinha. Olhei para o meu 
relógio; já passava das 6.
- Como não sabia que vinhas a caminho de casa - respondi eu, ensonada e 
esfregando os olhos -, cancelei o jantar.
178

Quem é que te autorizou a fazer isso? Eles são meus convidados! E era a minha 
festa! - explodiu ele.
Tião respondi, com medo de o provocar ainda mais. Levantei-me do sofá e fui para
a casa de banho.
No minuto seguinte ouvi o estrondo de uma porta a ser empurrada á força, mobília
a partir-se e o pranto aterrorizado do meu bebé. Corri para o seu quarto e vi 
Byron com as mãos na cintura debruçado sobre o meu bebé de 6 meses, que gritava 
no berço caído. Fui tomada de um acesso de fúria assassina. Levantei o meu 
filho, que chorava, fui para o nosso quarto e tranquei a porta.
O que ouvi a seguir foi um estrondo enorme que vinha da cozinha. Depois a porta 
da frente bateu e Byron partiu. O bebé não parava de chorar. Examinei-o com 
cuidado e verifiquei com alívio que não havia mazelas graves. Na cozinha 
encontrei uma Sr.a Hsu muito alarmada, a observar um monte de cacos e de comida 
espalhada por todo o lado. Byron tinha simplesmente pegado numa ponta da mesa 
cheia de pratos, virando tudo.
A Sr.a Hsu era uma viúva educada, oriunda da Pequim, na altura com cerca de 70 
anos. Eu tinha-me afeiçoado a ela e sentia-me profundamente envergonhada por ela
ter presenciado uma cena daquelas.
Em silêncio, limpámos toda a confusão. Depois comemos as fitas habituais que 

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tínhamos preparado para saudar o novo ano.
- Na China há muitos homens como o seu marido - disse a Sr.a Hsu. - Nos dias de 
antigamente, os homens tinham por hábito maltratar as suas mulheres e agora ele 
faz-lhe o mesmo a si. Quanto mais aturar, mais violento ele se há-de tornar. Se 
não tivesse outro arroz para comer, tinha de engolir esta amargura. Mas o seu 
caso é diferente, a senhora tem a sua profissão.
Byron não apareceu durante uma semana. No regresso colocou o cheque do ordenado 
em cima da mesa depois do jantar, num gesto de paz. Fiquei comovida, mas não 
conseguia afastar a repulsa que sentia.
Com pouca vontade de o enfrentar, escrevi-lhe um bilhete: "Por agora, por favor 
dorme lá em cima no quarto de hóspedes. Vou deixar o teu cheque em cima da mesa.
Compreendo perfeitamente se quiseres gastá-lo separadamente."
Quando Byron percebeu que dessa vez eu não iria tentar uma reconciliação, 
tornou-se mais agressivo. Para minha grande vergonha, mui
179
tas vezes ele descarregava a sua frustração sob a forma de violência física em 
mim e no bebé. Sentia-me culpada e humilhada de cada vez que tinha de mentir aos
colegas acerca dos meus olhos negros ou de marcas na cara, não querendo trazer 
os meus problemas domésticos a público. Suportei os seus golpes porque não podia
sequer pensar na vergonha que era o divórcio e na subsequente desonra que traria
à minha família.
Trabalhei mais do que nunca, fazendo turnos na sala de urgências sempre que 
havia oportunidade. Byron e eu deixámos de fazer uma vida social comum. Aos 
fins-de-semana ele jantava com os colegas ou os engenheiros da Universidade de 
Taiwan e eu ia com o bebé e a Sr.a Hsu a parques ou a restaurantes chineses. 
Depois de a Sr.° Hsu se ter reformado, tive imensa sorte em encontrar uma viúva 
caucasiana com cerca de 50 anos, Ginger Morris, que passou a ser a ama de Roger.
Ginger veio para nossa casa em 1968 e ficou durante onze anos.
Completei o período de especialização em Junho de 1968 e foi também por essa 
altura que consegui obter o meu cartão verde. Havia muitos empregos. Ao fazer 
muitas substituições e oferecer-me para noites extra e chamadas de 
fim-de-semana, adquiri rapidamente uma experiência enorme. Só o meu ordenado do 
mês de Julho fora igual ao ordenado de um ano inteiro enquanto estivera a tirar 
a especialidade. Byron e eu tínhamos vidas separadas, mas mantínhamos uma conta 
conjunta, cujo saldo crescia a olhos vistos.
No final de 1968, Byron decidiu comprar um restaurante chinês em Costa Mesa. Uma
noite chegou a casa cedo com alguns papéis para eu assinar. Mostrou-se 
encantador:
- Provavelmente não sabes - disse ele -, mas eu costumava trabalhar que nem um 
escravo em vários restaurantes chineses de Nova Iorque. Agora que posso comprar 
um, quero orientá-lo à minha maneira.
Encolhi os ombros e assinei.
Após a abertura do restaurante reparei que a nossa conta conjunta ia diminuindo 
rapidamente, a fim de suportar o novo empreendimento. Contratou um jovem como 
gerente, Lee Ming. Todos os dias, depois do trabalho, Byron ia directamente para
o restaurante, tomava lá todas as refeições e só voltava a casa depois das 11. 
Os fins-de-semana eram particularmente movimentados e ele estava fora das 10 da 
manhã à meia-noite.
O meu próprio horário de trabalho estava cada vez mais apertado. Eram os tempos 
áureos da prática da medicina privada na América. A legislação sobre a 
Medicare3ó tinha acabado de ser implementada. Apesar das apreensões dos meus 
colegas, acabou por ser o caminho aberto para o fornecimento de fundos 

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governamentais inesgotáveis destinados ao tratamento dos idosos americanos nos 
quinze anos que se seguiram.
Manter um restaurante acabou por ser mais difícil do que Byron tinha imaginado. 
Não passou muito tempo sem que estivesse metido num sem-número de desavenças com
o pessoal. Numa sexta-feira à noite o restaurante ficou sem ovos. Byron correu 
ao mercado local e comprou dez embalagens. Durante a sua ausência, Lee Ming 
ficou a orientar. Com a chegada de um grande grupo de clientes, Lee Ming 
conseguiu sentar a maioria e pediu aos restantes que esperassem. Quando Byron 
voltou, deu com uma sala cheia e meia dúzia de casais à espera. Foi então que 
começou a andar de mesa em mesa, dizendo agressivamente àqueles que ainda 
estavam na sobremesa e no café que se despachassem. Ignorando os protestos de 
Lee, foi ao armazém, trouxe algumas mesas e cadeiras e conseguiu sentar toda a 
gente. Os dois homens tiveram uma discussão violenta. Lee sabia que o 
restaurante não se poderia manter sem ele e por isso fez uma oferta a Byron para
o comprar. A maioria do pessoal tinha vindo com Lee do restaurante anterior e 
era-lhe leal. Entraram então numa campanha deliberada para sabotar Byron. O 
cozinheiro entrava de baixa em dias críticos e com a casa cheia. Os pratos eram 
salpicados com sal ou com molho picante, o que os tornava impossíveis de comer. 
Encomendas-chave não eram entregues nas alturas devidas. As mesas não eram 
levantadas e os pratos não eram lavados.
Um dia, em Junho de 1969, Byron deixou um recado na minha almofada. Dizia-me que
planeava vender o restaurante a um homem que tinha conhecido numa festa na noite
anterior e perguntava-me o que é que eu achava da ideia. Respondi "sim" por 
baixo da mensagem e coloquei-a em cima da cama dele lá em cima, concluindo 
tristemente que a nossa comunicação se reduzia a recados escritos por detrás de 
velhos envelopes. Para meu grande espanto, o comprador que Byron tinha arranjado
era uma pessoa séria e o negócio fez-se realmente por
36 Esquema de assistência médica proporcionado pelo governo dos Estados Unidos, 
e~clalmente aos idosos. (N. da T.)
180
venda a dinheiro pouco tempo depois. Segundo Byron, recuperamos a maior parte do
nosso investimento por causa das deduções nos impostos. Lee e a sua equipa 
concordaram em ficar e mais tarde vim a saber que o negócio prosperara e fora 
vendido por um preço alto alguns anos mais tarde.
Tínhamos nessa altura 20 000 dólares na nossa conta conjunta. Pela primeira vez 
na vida eu tinha tanto dinheiro que não sabia o que havia de fazer com ele. Uma 
tarde, no mês de Agosto, depois de ministrar sete anestesias, fui a um stand de 
automóveis, comprei um Mercedes branco novinho em folha e registei-o em nome de 
ambos.
Voltei para casa e coloquei os papéis do registo em cima da cama de Byron para 
ele assinar. Assinou-os sem qualquer comentário, mas daí em diante nunca mais 
contribuiu com nada para as despesas da casa.
No final de 1969 partiu de repente para um emprego em HongKong, deixando uma 
nota de despedida no meu travesseiro, onde dizia que voltaria dentro de um ano. 
Li aquela mensagem com alívio, feliz por poder canalizar toda a minha energia 
para o meu filho e a minha carreira.
Durante a sua estada em Hong-Kong, Byron e o pai foram fazer uma visita de 
cortesia aos meus pais no Ano Novo chinês, que é tradicionalmente a época da 
reunião das famílias. A visita não foi um êxito. Levaram como presente um cesto 
de fruta e chegaram quinze minutos antes da hora combinada. Niang queixou-se de 
que "chegar cedo, como chegar atrasado, era um sinal de má educação. Em ambos os
casos os convidados incomodavam os anfitriões." Niang insistiu em falar inglês e

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Adeline_Yen_Mah_-_FOLHAS_CAIDAS

mais tarde comentou "o seu fraco domínio da língua e o , sotaque terrível". 
Quando os meus pais tiraram o celofane que envolvia o cesto de fruta, 
descobriram que muitos dos frutos estavam podres, pelo que Niang concluiu que o 
cesto estava largamente fora do prazo de validade e fora uma compra barata.
Byron regressou de Hong-Kong após uma ausência de sete meses. Retomou o trabalho
na Douglas Aircraft e voltámos a viver as nossas vidas separadamente sob o mesmo
tecto.
Em Outubro desse ano de 1970, o pai e Niang faziam uma viagem à volta do mundo e
decidiram fazer-nos uma visita. Nos últimos seis
" Oferta habitual na época do Ano Novo chinês. (1V. da T.)
182
anos eu tinha-lhes escondido toda a verdade acerca do meu casamento infeliz. As 
minhas cartas limitavam-se a relatar acontecimentos importantes, êxitos 
conseguidos e comentários sobre o clima da Califórnia. No dia em que chegaram, 
Byron e eu fomos com Roger esperá-los ao aeroporto Niang insistiu em ficar em 
Universal City, a cerca de 80 quilómetros de distância da nossa casa, num hotel 
que pertencia a uns amigos ricos americanos, os Jules Stein. A bagagem de ambos 
era composta por seis malas. Durante a longa viagem do aeroporto até ao hotel 
tentei desesperadamente manter a conversa. Niang ainda usava o seu perfume de 
sempre, um aroma que me era familiar desde a infância. Eu sabia que Byron não 
conhecia o labirinto complicado de auto-estradas na zona Enquanto tentava 
decifrar o mapa de estradas à luz difusa do automóvel, estava aterrorizada só de
pensar que poderia dar a Byron as indicações erradas e causar-lhe um acesso de 
mau humor. Quando, por fim, chegámos, corri para a casa de banho e vomitei.
Dois dias mais tarde tirei uma folga para os levar a nossa casa para uma visita 
de fim-de-semana. No átrio do hotel, o pai e Niang tiveram uma discussão. O pai 
tinha dado ordens na portaria para que lhes fizessem as malas e colocassem toda 
a bagagem no depósito das malas até ao seu regresso. Ao que parece, não tinha 
falado com Niang sobre o assunto.
Ela contrariou estas ordens:
- Não há necessidade nenhuma de se fazer isso. A nossa roupa deve ficar 
pendurada no guarda-fatos, em vez de ficar a amarrotar-se dentro das malas. 
Deixa-a onde está! Pagamos o quarto enquanto estivermos fora.
O pai nada disse. Não havia qualquer dúvida sobre quem dava as ordens. Enquanto 
percorremos silenciosamente os 80 quilómetros, o pai adormeceu. Parecia infeliz 
e oprimido. Observei-o através do espelho retrovisor. Os ombros descaídos, a 
cabeça pendente, as mãos cruzadas lembrava outros tempos, outros lugares. 
Subitamente lembrei-me. Oh sim, o pai começara a parecer-se com Ye Ye nos seus 
últimos anos.
Levei-os até ao hospital onde trabalhava, apresentei-os aos meus colegas e 
visitámos um complexo de apartamentos que eu estava a pensar em adquirir. Eu 
estava a investir pela primeira vez em propriedades rentáveis e fiquei encantada
quando percebi que o pai gostaria de participar no empreendimento. Niang estava 
muito longe de se mostrar

183
satisfeita e conseguiu fazer que eu e o pai não tivéssemos qualquer momento a 
sós.
Durante a visita ficaram no meu quarto. Byron continuou a dormir lá em cima e eu
fiquei no sofá da sala. Eles devem ter-se apercebido de que tínhamos problemas 
no nosso casamento. Byron, entre_
tanto, estava irrepreensível. Marcou um grande jantar em honra dos meus pais num

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Adeline_Yen_Mah_-_FOLHAS_CAIDAS

conhecido restaurante, o Delaney's, e apresentou_ -os aos colegas, esquecendo-se
de que também eu nunca os tinha visto na vida.
O pai, Niang e eu estávamos sozinhos quando eu os levei de volta ao seu hotel. 
Uma parte de mim própria ansiava poder contar-lhes a triste história do meu 
desastroso casamento. Outra parte, contudo desejava manter a fachada de uma 
filha cheia de sucesso em todos os campos da sua vida: carreira, vida doméstica,
saúde, dinheiro, um filho encantador, um bonito marido. Senti repulsa de mim 
mesma por alimentar esta mentira.
Durante algum tempo tagarelámos acerca de assuntos sem importância, até que o 
pai perguntou inesperadamente:
- Diz-me, Adeline, quem é que pagou ontem à noite o jantar no Delaney's?
Esta pergunta simples, totalmente fora de contexto, apanhou-me de surpresa. Será
que Byron tinha usado o dinheiro da nossa conta conjunta ou da sua conta 
pessoal? Não fazia a mínima ideia.
Entretanto, o pai continuava à espera de uma resposta. De certo modo na 
defensiva, respondi:
- Na verdade não sei. Mas acha que tem importância'?
- Por vezes - aconselhou - é necessário prestar atenção ao dinheiro. Neste 
momento a tua carreira está a começar a desenvolver-se. És jovem e saudável; 
tens o mundo a teus pés. Se tiveres cuidado, tens a oportunidade de fazer uma 
grande fortuna. Mas não será assim para sempre. Um dia ficarás velha e sem 
forças. Certifica-te de que estás preparada quando esse dia chegar. Tens de 
arranjar as coisas de maneira que possas controlar o teu próprio dinheiro. Não 
confies em ninguém. As pessoas mudam e os seus sentimentos também.
Niang assentiu com a cabeça.
- O teu marido - perguntou ela de repente - está bem? O que eu quero dizer é se 
ele não estará um pouco apanhado da cabeça

184

Fiquei atónita. Quantas vezes eu também já me tinha interrogado sobre a sanidade
mental de Byron. Sem querer dizer demasiado, respondi com outra pergunta:
E nós, não somos também um pouco doidos? Ele, por exemplo, deve pensar que eu 
sou a tonta da família.
- E quanto ao bloco de apartamentos que nos foste mostrar há dois dias - disse o
pai -,aquele que estás a pensar comprar, em que nome ë que vai ficar o título de
propriedade? Quem é que vai ficar como proprietário legal?
- Dei o nome de ambos como compradores, pai - respondi eu sem mentir. - É assim 
que se costuma fazer na América. Quando comprámos a nossa casa, também ficou 
registada em nome dos dois.
- O que estás a fazer não é sensato e vai trazer-te complicações - avisou o pai.
- ~ ~ ~ ;~ 1~ Zhorag gua de gua (Colherás o que semeares). Quando Byron esteve 
em Hong-Kong, ele e o pai disseram-nos que tinham comprado uma propriedade em 
Kowloon. O teu nome também figura no título de propriedade?
Gaguejei, chocada:
- Penso que não, pai. Byron nunca me pediu que assinasse papéis nenhuns.
Dolorosamente, a conversa ia-se transformando numa sessão sobre o estado do meu 
casamento.
- Então porque colocas o nome dele nos teus apartamentos quando ele não 
contribuiu com um único centavo para os comprar? Não sejas ingénua, Adeline! Não
penses que podes pairar acima destes assuntos de dinheiro, porque não podes. Vai
consultar um bom advogado e certifica-te de que a propriedade fica só no teu 

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nome. Percebeste bem?
Senti um nó na garganta e os olhos encheram-se-me de lágrimas. Apesar do meu 
fingimento, tinham visto tudo. As directivas rígidas do pai eram apenas a 
expressão do seu cuidado e preocupação. Estava a tentar proteger a filha. Acenei
com a cabeça e engoli as mágoas. Quando já estávamos perto do hotel, Niang 
acrescentou:
- Há qualquer coisa no teu marido que não está bem. Nunca te esqueças: aconteça 
o que acontecer, os teus pais serão sempre os teus pais. Ouve o teu pai e faz o 
que ele te disse.
Foram estas as palavras mais amáveis que ela me dirigiu em toda a minha vida.
185

Durante o longo caminho de regresso reflecti sobre os conselhos que me tinham 
dado. Apesar de não o terem feito explicitamente indirectamente tinham-me dado a
perceber que eu deveria divorciar_
-me. Decidi agir e fui imediatamente consultar um advogado. Eles tinham-me dado 
permissão para o fazer.
Alguns dias mais tarde, munida de um documento legal preparado por um advogado 
especializado em casos de divórcio, esperei que Byron chegasse a casa. Depois do
jantar e de ter deitado Roger, fui para a sala e sentei-me no sofá ao lado dele.
Juntos, assistimos a um jogo de boxe. Por fim arranjei coragem para lhe entregar
o documento, explicar o seu conteúdo e informá-lo de que era necessário assinar.
Byron deitou um olhar maldisposto ao papel e voltou ao jogo de boxe; eu sustinha
a respiração. Finalmente perguntou-me por que é que eu queria o divórcio e se 
havia mais alguém na minha vida. Havia algo de desolador no timbre da sua voz 
que tocou no meu coração. Comecei a chorar:
- Não, não há mais ninguém. É que eu acredito sinceramente que esta'é a melhor 
solução para nós os três.
Pela primeira vez na vida vi-lhe a angústia nos olhos. Para o aliviar daquela 
dor, acrescentei:
- Lamento profundamente. Apostámos ambos e perdemos ambos. Passaram-se algumas 
semanas e Byron assinou, tal como lhe fora pedido. Depois disso fechou-se no 
andar de cima e só descia à hora das refeições, que decidiu tomar sozinho. Tinha
tomado uma decisão, sentia-me estranhamente em paz e tinha esperança de que a 
separação fosse amigável. Nesse Natal comprei-lhe um relógio de ouro embrulhado 
num bonito papel e coloquei-lho em cima do travesseiro. No dia seguinte Ginger 
fez-me sinal para que a seguisse até às traseiras da casa. No caixote do lixo 
estava o meu presente ainda embrulhado e com o laçarote.
No dia a seguir ao de Natal, Byron foi transferido para Oceanside. O meu 
advogado levou-lhe os papéis do divórcio antes de ele partir novamente para 
Hong-Kong, em 1971. Ele disse que não entraria em litígio se eu lhe desse a 
minha parte da casa de Fountain Valley e se eu desistisse do pedido de pensão e 
sustento da criança. Concordei imediatamente e mudei-me para outra casa. Depois 
do divórcio, Byron jamais escreveu ou voltou a ver o seu filho.
186
19
Xin Ru Si Hui Corações reduzidos a cinzas
Em 1965, no auge da Guerra do Vietname, o pai transferiu a fábrica de louça para
Port Harcourt, na Nigéria, obtendo a ajuda do governo nigeriano na forma de um 
generoso subsídio e entrando também em parceria com o seu gerente, o Sr. Fong. 
Era um empreendimento de monta, que incluía o transporte de inúmeras peças de 
maquinaria e de centenas de trabalhadores especializados de Hong-Kong. Em Port 

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Harcourt construiu-se alojamento para o pessoal chinês, juntamente com os 
edifícios administrativos e novos blocos da secção fabril.
Nesse mesmo ano Gregory desposara Matilda, uma rapariga chinesa, cujos pais 
tinham feito parte da onda de gente de talento que se deslocara de Xangai para o
sul em 1949. Pareciam radiantes com a perspectiva de verem a filha casar-se na 
nossa família. Na altura o pai era considerado um dos homens mais ricos de 
Hong-Kong e Gregory era, aparentemente, o seu herdeiro.
~ pai fez de Gregory o gerente da nova fábrica na Nigéria. Pouco tempo depois do
casamento, os noivos mudaram-se para um bungalow
19
187

situado nas proximidades da fábrica em Port Harcourt. Longe da família e dos 
amigos, privados de acontecimentos sociais e culturais, sem sequer se poderem 
valer de uma mercearia decente, Gregory e Matilda encontraram uma vida difícil e
cheia de solidão. James continuou a trabalhar para o pai em Hong-Kong.
Em Outubro desse mesmo ano, a empresa Star Ferry decidiu aumen_ tar o preço dos 
bilhetes da travessia de sete minutos através do Porto de Vitória, nessa altura 
o único meio de ligação entre Hong-Kong e
Kowloon. Apesar de ser um bilhete barato e de nunca ter sofrido qualquer aumento
desde 1946, o facto deu origem a ocupações, manifestações e insurreições, que 
resultaram num morto, além de vários feridos.
Uma movimentação violenta abalou a colónia. De repente todos os residentes de 
Hong-Kong começaram a perguntar a si próprios o que aconteceria se os comunistas
marchassem sobre a cidade. Para onde iriam sem um passaporte válido? Quem os 
aceitaria?
Na nossa família, o pai tinha obtido a cidadania britânica em 1955. Niang era 
cidadã francesa desde que nascera. Lydia permanecia em Tianjin e, na opinião do 
pai, "fora vencida pelos comunistas por
sua livre vontade". Susan e eu tínhamos tido direito à cidadania britânica 
quando o pai se naturalizara, dado que na altura tínhamos ambas menos de 21 
anos. Porém, os meus três irmãos continuavam a ser cidadãos chineses, o que 
constituía para eles motivo de preocupação.
Por essa altura, em Port Harcourt, Matilda ficou grávida e Gregory escreveu ao 
pai dizendo-lhe que eles talvez devessem voltar ao Canadá, onde tinham estudado,
e tentar obter a cidadania canadiana. Além disso, seria melhor se o bebé já lá 
nascesse. Durante a sua ausência, Gregory sugeria que James assumisse a direcção
dos negócios na Nigéria.
Alguns dias mais tarde, Gregory reconsiderou. Hesitante entre o ódio que tinha 
pelo estilo de vida que levava na Nigéria, o seu medo de não pertencer a país 
nenhum e a sua preocupação de que James pudesse usurpar o seu lugar, escreveu 
nova carta pedindo, afinal, para permanecer na Nigéria. O pai escreveu-lhe a 
dizer que decidira substituí-lo por James.
E a carta prosseguia: "Os Fong chamaram-me a atenção para ° modo como tens 
andado a esbanjar o dinheiro da companhia." Gregory
188
e Matilda eram acusados de gastarem dinheiro de mais em comida e bebidas e de 
dormirem a sesta a seguir ao almoço, para fugirem ao calor atroz das tardes da 
África ocidental. O pai terminava a sua carta exigindo uma explicação 
satisfatória para aquelas extravagâncias.
Não havia na missiva uma única palavra de agradecimento por tudo o que Gregory 
tinha conseguido, mas tão-somente um julgamento sem júri, o despedimento e o 

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afastamento de todas as empresas do pai. Gregory fez o que lhe haviam mandado. A
injustiça, porém, tornou-o amargo e foi James quem se transformou no alvo de 
todas as suas frustrações.
Em Abril de 1966, uma querela industrial em Hong-Kong conduziu a confrontações 
entre os qué aderiram à greve e aqueles que não o fizeram. Decorriam os meses 
que precederam a Revolução Cultural, que em breve iria agitar a China. O caos 
neste país alastrou a HongKong e ao território português de Macau. Núcleos de 
esquerda organizaram insurreições contra a polícia. Slogans anticolonialistas 
liam-se por todo o lado. Altifalantes apregoavam propaganda pró-comunista. Foram
encontradas bombas nas ruas. Aos estrangeiros atiraram-se pedras e insultos. Em 
Macau, as tropas portuguesas abriram fogo, matando oito pessoas.
Os residentes de Hong-Kong foram tomados de pânico quando lhes chegaram aos 
ouvidos notícias sobre as acções dos Guardas Vermelhos e o seu reinado de terror
na China. A maior parte das pessoas convenceu-se de que a China estava prestes a
tomar Hong-Kong, expulsando os Britânicos. Toda a gente queria vender; já 
ninguém comprava nada. As propriedades vendiam-se ao desbarato. Houve uma 
corrida à bolsa e os preços caíram drasticamente.
Tal como aconteceu a muitos milhares dos mais influentes residentes de 
Hong-Kong, os meus pais fugiram. Foram para Monte Carlo e aí compraram um 
apartamento com vista para o Mediterrâneo. O pai optou por esperar e ver o que 
aconteceria e transferiu a maioria da sua liquidez para bancos na Suíça; 
conservou, todavia, as suas propriedades em Hong-Kong. Regressaram no início de 
1967, depois da oferta do governador português para entregar Macau ter sido 
dramaticamente recusada pela China. Este gesto deixou bem claro que tanto 
HongKong como Macau permaneceriam, por enquanto, colónias administradas pelo 
Ocidente. Os preços continuaram em baixa e a retoma só se iniciou no final do 
ano de 1968.
189

No final da minha permanência em Hong-Kong, em 1964, James saía com Louise Lam 
tendo em vista um compromisso sério. A sua boa figura, o passado da sua família 
e a sua formação em Cambridge faziam de James um partido apetecível, muito 
cobiçado pelas mães com filhas em idade de casar. Suspeitei logo desde o início 
que Louise era especial para James, pois a própria Louise tivera Niang por 
casamenteira.
Beverly, a mãe de Louise, era amiga de Niang. Tratava-se de uma amizade 
desigual, pois era Niang quem dominava a amiga. Beverly era bonita, sabia estar 
e sabia apagar-se. Com cinco filhas e um marido difícil, a vida era-lhe pesada. 
Assim que Louise crescera o suficiente, Beverly delegara as suas 
responsabilidades na filha mais velha. Enquanto Beverly se divertia com as 
amigas, Louise organizava a vida diária das irmãs, preparava-lhes os almoços, 
resolvia as questões entre elas e supervisionava os seus estudos.
Niang encorajara este romance, pois, para ela, melhor era que James casasse numa
família que não fosse demasiadamente pobre, para os Yens não perderem a face, 
nem demasiadamente rica, para que Niang não perdesse o poder e o controlo.
Regularmente, uma vez por semana (nem mais nem menos), James saía com Louise. 
Era sempre galante e gentil, mas nunca íntimo. Gregory contou certa vez em ar de
graça que na noite anterior tinha visto Louise a dançar com um belo acompanhante
num conhecido clube nocturno da cidade. James limitou-se a encolher os ombros. 
Gregory acusou-o de indiferença fingida, mas o que eu penso é que ele não queria
tomar um compromisso antes de receber aprovação superior. Tenho a certeza de 
que, se os nossos pais tivesse levantado quaisquer objecções, Louise teria sido 

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afastada num segundo.
Segundo as instruções de Niang, James e Louise tiveram um casamento simples, na 
América, em 1966, bem longe dos amigos e dos parceiros comerciais do pai, eles 
próprios, à data, no limiar da bancarrota. Segundo Niang, a cerimónia seria 
"muito mais íntima e muito mais romântica". Casaram-se em Maryland, em casa de 
uns tios de Louise. James recebeu ordens para não convidar e nem sequer informar
nenhum dos seus irmãos.
Antes do casamento, o pai deu ordens a James para que comprasse um dos 
apartamentos que acabara de construir em Happy Valley, independemente da 
instabilidade da situação política e da baixa do mercado imobiliário. Durante 
dois anos, depois de ter sido autorizado
190
a casar com Louise, James economizara o seu magro salário, dólar a dólar, a fim 
de ter uma reserva quando assentasse na vida. Foi nesse momento que recebeu a 
ordem de enterrar todas as suas economias num dos apartamentos do pai, a um 
preço especulativo e que, na altura, ninguém estava interessado em pagar. Contra
a sua própria vontade, obedeceu. Quando Louise protestou que os Guardas 
Vermelhos estavam praticamente às portas de Hong-Kong e que todo o dinheiro que 
possuíam poderia ser confiscado de um momento para o outro, James respondeu 
oSuatt le!" (Deixa lá!). Dos vinte e quatro apartamentos que o pai tinha 
construído nesse ano, mais nenhum se vendeu.
Depois de Gregory e Matilda terem partido para o Canadá, James tornou-se o braço
direito do pai. Durante os primeiros dez anos do seu casamento trabalhou em Port
Harcourt, na Nigéria. Louise permaneceu em Hong-Kong com os três filhos do 
casal. James era apenas autorizado a visitar a família duas vezes por ano: seis 
semanas, do Natal ao Ano Novo chinês e oito semanas no Verão, para substituir o 
pai, quando este e Niang iam para Monte Carlo para fugir ao calor húmido de 
Hong-Kong.
Quase imediatamente a seguir ao casamento de James e Louise, Beverly e Niang 
tiveram um desentendimento. A partir do momento em que viu a filha casada e em 
segurança, Beverly tornou-se mais agressiva e deixou bem claro que desejava 
nunca mais ser a dama de companhia de Niang. A amizade entre ambas deteriorou-se
rapidamente: passaram de um aceno de cabeça em eventos sociais para uma fase de 
não reconhecimento mútuo.
Depois do despedimento de Gregory, James foi nomeado director-geral da fábrica 
na Nigéria. Gregory recebeu 60 000 dólares americanos para se estabelecer no 
Canadá. Com Matilda comprou uma casa em Vancouver e tiveram dois filhos. Matilda
adquiriu experiência no ramo da farmácia e Gregory conseguiu um lugar estável ao
serviço do governo canadiano como engenheiro ambiental. Contudo, sonhava ainda 
poder voltar ao lar, acreditando erradamente que o pai o chamaria a Hong-Kong.
De tempos a tempos queixava-se de "usurpação" por parte de James ou de 
"sabotagem" por parte de Niang. Os seus pedidos de empréstimos para negócios 
eram invariavelmente recusados. Embora o pai tivesse um fraquinho pelo seu filho
mais velho e muito ansiasse pelas suas cartas e visitas, estava convencido de 
que Gregory era fraco
e incapaz. Niang chamava-lhe hrr trr (cabeça baralhada), preguiçoso e 
extravagante. À medida que os anos foram passando, os sonhos de Gregory de 
montar o seu próprio negócio foram-se desvanecendo, Tornou-se cada vez mais 
económico, colocando todas as suas esperanças nos seus dois filhos e limitando 
as suas ambições a uma parte da herança que lhe caberia em sorte.
Após a Faculdade de Medicina, Edgar e eu não tivemos qualquer contacto durante 
muitos anos. Edgar especializou-se em Cirurgia Geral. Na Grã-Bretanha era 

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difícil para os asiáticos arranjarem clientela. Em 1969, depois de tirar o 
FRCS3g, Edgar começou por ir viver para o Canadá. Os trabalhos bem pagos não 
abundavam e as oportunidades eram limitadas. Decidiu então ir ter comigo à 
Califórnia.
Em Outubro de 1970, durante a estada do pai e de Niang em Fountain Valley, 
recebemos uma carta de Edgar, surpreendentemente educada, segundo a qual ele 
tinha esperança de que eu lhe arranjasse um emprego no hospital onde eu estava a
trabalhar.
A minha primeira reacção foi de prazer e satisfação. Estava tão sequiosa do 
afecto da minha família que até esta espécie de oferta de paz era bem vinda. 
Mostrei ao pai a carta de Edgar.
- Deixa-me fazer-te esta pergunta - disse ele -, estás feliz no teu trabalho? 
Dás-te bem com os teus colegas e achas que podes ter um futuro brilhante à tua 
frente?
- Claro! Adoro o meu trabalho e consigo imaginar-me a fazer o mesmo até ao fim 
dos meus dias.
- Nesse caso, Adeline - continuou o pai -, aconselho-te vivamente a não 
responderes a esta carta. Todos sabemos o que Edgar sente por ti. Nada de bom te
pode vir daí. Quanto mais sucesso tiveres, mais ciúmes ele sentirá por ti. Tens 
subido sozinha numa excelente carreira. Vai em frente. A América é um grande 
país. Não há necessidade nenhuma de Edgar se vir enroscar no teu canto. Tem o 
resto da América para construir o seu próprio ninho.
Olhei para Niang. Ela assentiu com um gesto de cabeça.
- Ouve sempre o teu pai, Adeline - disse ela. - Ele conhece-vos a todos como a 
palma das suas mãos.

'g Abreviatura de Fellow of the Royal College of Surgeons (Membro do Real 
Colégio de Cúurgiões). (N. da T.)
Segui o conselho do pai e não respondi à carta de Edgar. Não ia certamente 
desobedecer ao meu pai só para agradar a Edgar. O meu silêncio foi interpretado 
como um insulto deliberado e ele nunca mais me perdoou.
Edgar continuou a sua formação em St Louis, no Missuri, e casou-se com uma 
rapariga americana de ascendência alemã, vinte anos mais nova do que ele. Depois
andou de cidade em cidade, na Califórnia, em busca do local ideal para abrir o 
seu consultório. Durante uns tempos viveram na pequena cidade de San Joaquin 
Valley. A maior parte da população era nascida e criada ali mesmo e eles 
acabaram por achar a vida insuportável. Alguns anos mais tarde, Edgar vendeu o 
consultório e mudou-se para Hong-Kong, enquanto a mulher acabava a faculdade na 
América. Deste casamento infeliz não nasceram filhos.
Em Hong-Kong, Edgar trabalhava num hospital privado pertencente a missionários. 
Embora fosse trabalhador e consciencioso, não possuía o talento nem a elegância 
para ingressar nas fileiras dos "cirurgiões de sociedade". Além do mais, não 
falava cantonense. A sua fluência em mandarim e inglês não lhe foi de grande 
utilidade em Hong-Kong. As enfermeiras cochichavam nas suas costas que Edgar era
na verdade um dai luk yee san (um médico da China). Também era difícil entrar no
círculo apertado dos médicos locais, a maioria dos quais formada na Universidade
de Hong-Kong e com padrões de referência já desde os tempos de faculdade. Os 
médicos vindos de fora eram vistos como competição indesejável.
Dois anos mais tarde, Edgar regressou aos Estados Unidos e comprou outro 
consultório noutra pequena cidade de San Joaquin Valley. A sua jovem mulher 
concluiu o curso e divorciaram-se. Em 1986, Edgar casou com a enfermeira do seu 
próprio consultório, divorciada, branca, mãe de dois filhos. Tiveram três filhas

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e pareciam estar bem um para o outro.

Em 1964 Susan concluiu o curso na América e regressou a HongKong. Trabalhava 
como professora em Maryknoll Convent School e vivia em casa dos meus pais. A 
pressão para que casasse depressa se fez sentir. Susan era muito bonita e tinha 
uma mão-cheia de admiradores. Niang fazia-lhe perguntas sobre cada passo, cada 
carta, cada telefonema. Susan saía com um dentista havia cerca de três meses. 
Niang perguntava constantemente se ele já a tinha pedido em casamento.
193

Susan não gostava deste tipo de interferência e não dizia nada, o que deixava a 
mãe furiosa. Niang decidiu então averiguar por si própria, Assim que o dentista 
voltou a ligar, Niang interceptou a chamada, Depois de lhe fazer ver que saía 
com Susan havia três meses, Niang indagou educadamente quais eram as suas 
intenções. Ao ouvir do dentista que ainda não tinha a certeza, Niang respondeu 
arrogantemente que Susan tinha muitos pretendentes e que não podia "perder mais 
tempo" enquanto ele continuava sem tomar qualquer decisão. Em suma, pediu-lhe 
que não telefonasse mais vez nenhuma antes de ter as ideias perfeitamente 
claras. Dizendo isto, desligou. Face à perspectiva de uma sogra daquela 
envergadura, o dentista não voltou a ligar.
Susan, que tinha ouvido a conversa, ficou lívida. Seguiu-se uma terrível 
discussão entre mãe e filha. Susan fez as malas e ameaçou sair de casa. Niang 
meteu-se na cama e o pai corria de uma para a outra,
tentando acalmá-las. Uma noite, quinze dias mais tarde, Susan acordou com o 
barulho dos passos do pai, que, sem conseguir dormir, andava na sala de um lado 
para o outro. Na manhã seguinte, ao observar o rosto enrugado e ansioso do pai, 
Susan vergou e pediu desculpa a Niang.
Esta aproximação foi apenas temporária, pois ambas sabiam que era só uma questão
de tempo até surgir um novo conflito. Pouco tempo depois Susan foi apresentada 
por Gregory a Tony Liang, licenciado pelo Instituto de Tecnologia de 
Massachusetts e filho de um prestigiado homem de negócios de Xangai que tinha 
prosperado em Hong-Kong. Decidiram casar-se.
Por insistência de Niang, o casamento teve lugar em Honolulu, numa cerimónia 
pequena e íntima. Nem o pai nem Niang estiveram presentes e, quanto a nós, nem 
sequer fomos convidados. Susan não recebeu qualquer dote. Transformou-se na Sr.a
Tony Liang e levou consigo apenas duas malas de roupa usada. Também não levou 
qualquerjóia. A mãe de Tony, uma senhora antiga e bondosa, ficou atónita ao ver 
os escassos pertences de Susan. Passou os braços em volta de Susan e perguntou 
amavelmente:
- Tem a certeza de que é a filha da Sr.a Joseph Yen e não a sua enteada?
E com isto tirou os anéis, as pulseiras e os colares e ofereceu-os a Susan.
Tony herdou não só os negócios do pai, como também a sua argúcia empresarial. O 
jovem casal Liang subiu à ribalta da alta sociedade de

194
xong_Kong e o nome e a fotografia de Susan surgiam frequentemente no South 
Chiraa Morning Post e no Hong-Kong Standard. Em público, Niang era 
constantemente ultrapassada pela filha.
Niang tornou-se uma crítica acérrima de Susan: as jóias que usava eram demasiado
exuberantes, os vestidos demasiado decotados, a maquilhagem reles, o gosto 
tremendo. Susan era uma demonstração de egoísmo e não tinha qualquer lealdade 
para com os pais. No Dia da Mãe, Susan comprou-lhe uma caixa de bombons. A caixa

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Adeline_Yen_Mah_-_FOLHAS_CAIDAS

era pequena de mais e os chocolates baratos de mais.
Susan começou a odiar as visitas a Niang. Tinha um casamento feliz e a família 
do marido tinha orgulho nela. As visitas a casa tornaram-se cada vez mais raras,
até ficarem reduzidas aos jantares obrigatórios dos domingos à noite. Como eu e 
Edgar estávamos na América, Gregory no Canadá e James na Nigéria, Susan tinha-se
transformado no único bode expiatório de Niang.
Shirley Gam, uma amiga de infância de Susan, veio de Nova Iorque a Hong-Kong 
numa visita relâmpago. A única altura em que ambas tinham disponibilidade para 
se encontrarem era num domingo à noite. Susan telefonou a Niang a pedir desculpa
por não poder ir ao jantar de domingo. Todavia, a conversa não correu bem. Susan
mudou de planos e ofereceu, em vez disso, um almoço de domingo a Shirley e às 
colegas de escola. Nessa noite, pontualmente às 7, apareceu como sempre em 
Magnolia Mansions.
Durante todo o jantar, Niang mostrou-se fria e cruel. Acusou Susan de ser 
ingrata, desleal para com os pais, indigna de confiança e desfiou o rosário de 
cada transgressão cometida pela filha desde a sua infância. Chamou-lhe orgulhosa
e leviana. Começou a chorar, lamentando a morte de Franklin, e desejou que 
tivesse sido Susan a morrer. Ultrapassou muito o limite daquilo que Susan podia 
suportar e ela explodiu:
- Franklin era um monstro sádico e ainda bem que morreu! Mesmo sendo minha mãe, 
eu acho-a má e vingativa. A mãe não gosta de ninguém a não ser de si mesma. É 
óbvio que não gosta de mim, nem nunca gostou!
Niang foi completamente apanhada de surpresa. Branca de fúria, esbofeteou Susan.
- Como é que te atreves a falar-me desse modo? Gastei rios de dinheiro contigo, 
mandei-te estudar nas melhores escolas, até nos Estados Unidos! Susan, tu não és
nada! Não serias nada se não fosse eu! Como é que me podes dizer tais coisas 
quando me deves tudo?!
195
Esbofeteou Susan outra vez, desta feita com quanta força tinha. Calmamente, 
Susan pegou na carteira e tirou o livro de cheques. - Quanto é que lhe devo? - 
perguntou ela. - Qualquer que seja
a soma, deixe-me passar-lhe um cheque. Lembre-se de que agora eu sou uma mulher 
casada e de que eu própria tenho uma filha. Trate-me como uma pessoa adulta, não
como uma escrava que lhe deve tudo. Niang pôs-se a gritar:
- Sai, sai daqui e nunca mais cá voltes! Para mim estás morta! Morta!
O pai correu atrás de Susan pela porta da frente. Tinha um aspecto abatido e 
cansado. No átrio, enquanto esperavam pelo elevador, disse tristemente:
- Susan, não era preciso teres feito uma cena daquelas. A tua mãe estava apenas 
ofendida por não a teres convidado para o almoço com Shirley. Porque não o 
fizeste? Ela sentiu-se excluída.
As lágrimas corriam pelo rosto inchado de Susan.
- O paizinho não compreende. É bom de mais para ela. A porta do elevador 
fechava-se; Susan disse ainda:
- paizinho, eu telefono-lhe para a semana, para irmos almoçar. Encontraram-se 
para almoçar na sala principal do elegante Hong-Kong Club, situado a curta 
distância do escritório do pai em Swire House (chamada nessa época Union House).
Sentaram-se num canto calmo, longe de um conjunto que tocava músicas dos 
Beatles. Instalaram-se em cadeiras baixas, de braços, em frente um do outro e 
pediram as bebidas. O pai tinha um aspecto horrível. Tinha o olhar vazio e as 
feições sem vivacidade alguma. Um dos lados do rosto estava ligeiramente 
descaído devido a um ataque de paralisia de Bell, o que se notava mais em épocas
de maior stress. Quando pestanejava, apenas movia o olho são, parecendo uma 

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máscara.
- Como têm corrido as coisas, paizinho? - perguntou Susan. - Niang voltou a 
meter-se na cama?
Foi como se não tivesse ouvido nada. Como um autómato, levou a mão ao bolso do 
casaco e tirou uma folha de papel de avião. Susan pôde distinguir a letra de 
Niang, quase igual à sua própria caligrafia, através do papel transparente e 
cor-de-rosa. O pai colocou os óculos e leu uma lista de regras e condições às 
quais Susan tinha que aderir se quisesse continuar a ser um membro da família 
Yen. Lentamente, abanou a cabeça.

196
O pai tirou os óculos. Numa voz cava e trémula de emoção, o pai perguntou-lhe se
a sua escolha era não mais voltar a ver os seus pais e ser por eles deserdada.
. Não me resta outra alternativa, paizinho. Tenha dó!
O pai deixou algum dinheiro em cima da mesa e levantou-se para
sair.
. paizinho, ainda não tocou no sumo e nem comeu nada. Não vai ficar com fome?
Olhando em frente, com um olhar vazio, o pai disse: - Darei o teu recado à tua 
mãe.
Pestanejou nervosamente, num gesto espasmódico que partia o coração de Susan. 
Enquanto se apressava escada abaixo, passando por todas as pessoas que esperavam
por uma mesa, pelos paquetes vestidos de branco e pelo respectivo chefe de 
chapéu pontiagudo, abrindo atempadamente a porta de vidro irrepreensivelmente 
brilhante, a banda tocou a popular canção dos Beatles Let it be.
Foi deste modo que a minha irmã Susan foi deserdada em 1973.
Nós, os quatro que estávamos a viver no estrangeiro, recebemos a seguinte 
mensagem por correio registado.
Caros Gregory, Edgar, James e Adeline,
É nosso desejo informar os quatro de que Susan deixou de fazer parte da família 
Yen. Não mais deverão falar-Ihe, escrever-Ihe ou de qualquer forma associar-se a
ela. Se desobedecerem às nossas instruções, também vocês serão deserdados.
Afectuosamente, Pai e Mãe

Esta carta não incluía Lydia, pois também ela tinha sido deserdada em 1951. 
James comentou a propósito que parecia ter sido escrita por pais com .~ -~~ 
~é,,t~ xin rtr si fiai (corações reduzidos a cinzas), completamente desprovidos 
de qualquer sentimento de humanidade.
Nenhum de nós enviou qualquer resposta. Cada um lidou com a situação à sua 
maneira. Gregory e eu continuámos a ver Susan nas nossas visitas a Hong-Kong. 
Edgar ignorou-a daí em diante.
197
Quando James regressou a casa para gozar a sua licença de Verão Susan voltou-se 
para ele e para Louise em busca de consolo. As duas mulheres eram 
aproximadamente da mesma idade e tinham muitos interesses em comum. James 
encontrou-se então numa situação em que ninguém desejava encontrar-se. Não podia
dar-se ao luxo de cortar totalmente com os pais. Achava que Susan tinha sido 
injustamente tratada, mas confessou que tanto ele como Louise eram obrigados 
pelo menos a dar mostras de obediência às ordens de Niang. Ela tinha 
categoricamente proibido James e Louise de se associarem a Susan. Em breve 
cessariam todos os contactos. Mesmo naquelas alturas em que Niang se encontrava 
em Monte Carlo, os convites de Susan eram recusados, os seus telefonemas e 
cartas ficavam sem resposta. Se os dois casais se cruzavam por acaso em qualquer

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evento social, James e Louise praticavam "visão seleccionada" ou "não 
visualização", uma prática corrente na alta sociedade de Hong-Kong. A única vez 
em que entraram em contacto com Susan foi quando a filha mais velha se 
candidatou a Maryknoll nove anos mais tarde, pois necessitavam de uma 
recomendação de Susan, na qualidade de membro da direcção desta escola.
Gregory escondeu de James os seus encontros com Susan. Certa vez James 
avistou-o, quando ia no Mercedes de Susan conduzido pelo motorista em Queen's 
Road Central. Mais tarde, num encontro com Gregory, perguntou-lhe por Susan. 
Todavia, Gregory negou ter estado com ela, temendo, sem dúvida, que James 
contasse a história a Niang.
- Aquilo magoou-me muito - queixou-se-me James muito indignado. - Gregory não 
confia em mim! O que me interessa a mim se ele vê ou não vê Susan? Isso são 
coisas que só lhe dizem respeito a ele. Achará ele realmente que eu desceria tão
baixo, ao ponto de ir contar histórias nas suas costas só para obter os favores 
de Niang? A opinião que Gregory faz a meu respeito será realmente tão baixa?
A verdade é que Gregory já não confiava em James. De tempos a tempos dizia-me:
-Tanto Susan como eu sentimos que James está diferente. Passou-se inteiramente 
para o lado de Niang.
Por instinto, eu saltava de imediato em defesa do meu ? "~- San ge (Terceiro 
Irmão Mais Velho):
- Acho que não, Gregory. Ele tem tão bom coração. É outro Ye Ye.

198

Não confies tanto nele. Não confies tanto em ninguém. Vais magoar-te.
Eu ria-me e abanava a cabeça.
. Um dia, quando Niang tiver desaparecido - dizia eu a Gregory - hás-de ver o 
verdadeiro James, - .~ ~ yi chun bu ran (sem estar contaminado por um único grão
de poeira). Puro como a mais pula pétala do lírio.
Muitos dos amigos dos tempos da universidade de James tinham regressado a 
Hong-Kong. A oferta de emprego abrangia principalmente engenheiros civis e 
arquitectos, pois os arranha-céus germinavam, ocupando cada centímetro de espaço
livre na cidade. Os moradores de prédios situados nas encostas sobre o porto 
sentiram o desconsolo de verem a excelente vista sobre a baía tapada por 
estruturas mais novas e mais altas, construídas mais abaixo na encosta. Torres 
de escritórios estavam a ser construídas em novos aterros. Abundavam os 
empregos, especialmente para homens bilingues formados em universidades de 
prestígio no Ocidente. Hong-Kong foi-se desenvolvendo gradualmente, 
transformando-se num dos maiores centros do comércio mundial com a mais elevada 
densidade populacional da história da humanidade: o número colossal de 1E5 000 
pessoas por quilómetro quadrado. Muitos dos nossos colegas que tinham estudado 
connosco em Inglaterra fundaram companhias que deram emprego a centenas, por 
vezes a milhares de trabalhadores. Era espantoso poder ver a rápida expansão que
as suas empresas ganhavam. Produtos com a etiqueta "Made in HongKong" eram 
exportados para os quatro cantos do mundo. E, à medida que tudo isto acontecia, 
parecia inacreditável que James, um brilhante engenheiro civil formado em 
Cambridge, continuasse a agir como um fantoche, executando cegamente as ordens 
dos seus pais.
Niang interferia em todos os aspectos das suas vidas. Punha objecções às lições 
de piano das crianças, ordenou a Louise que deixasse as aulas de pintura, 
criticava a sua maneira de vestir e chegava a ralhar com ela por gastar tempo de
mais em visitas à sua própria mãe. Como Louise não ousava fazer frente a Niang, 

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conseguia apenas arranjar pequenas desculpas, por vezes com a conivência dos 
seus próprios filhos.
Niang aborrecia-se muitas vezes com Louise e chegava a ignorá-la meses a fio. 
Nos jantares de domingo amesquinhava-a à frente de James, que parecia ficar 
imperturbável perante os insultos sistemáticos
199
à sua própria mulher. O pai mantinha-se geralmente à parte e coibia-se de dar 
opinião, excepto em assuntos financeiros.
James nunca recusava a comida oferecida por Niang, independen_ temente do que já
tivesse comido ou de gostar ou não do prato. Tornou-se o símbolo da sua 
subserviência; era como um cesto do lixo, onde ia parar tudo o que Niang 
despejava. Bastava que ela deitasse um olhar aos restos que ficavam nos pratos 
das crianças, para que James os metesse na boca.
As crianças, normalmente vivas e bem-dispostas, ficavam encolhidas num silêncio 
tímido. Niang odiava crianças barulhentas. Estas, por sua vez, detestavam ir a 
casa da "Vovó", onde não lhes era permitido serem elas próprias.
Quando o pai adoeceu pela primeira vez, em 1976, James, então com 42 anos, foi 
finalmente autorizado por Niang a deixar a Nigéria e a fixar a sua residência em
Hong-Kong durante todo o ano. Porém, todas as grandes decisões estavam sujeitas 
à aprovação de Niang, que colhia os créditos de cada sucesso e culpava James por
cada fracasso.
Durante as minhas visitas frequentes a Hong-Kong, James e Louise contavam-me as 
histórias da sua existência infeliz. Louise chegou a contar-me que já não 
suportava os insultos e a interferência constante de Niang. Esta, por seu lado, 
queixava-se amargamente de Louise, concluindo invariavelmente que era, ela 
própria, infelizmente, a responsável pelo casamento dos dois.
Muitas vezes, ao longo dos anos, aconselhei James a levar a família para os 
Estados Unidos e fazer lá a sua vida. Para mim era bem claro que a única 
hipótese que tinham de ser felizes era fugirem da teia de Niang.
- Venham viver connosco para Huntington Beach - insistia eu. - Tu és tão 
esperto, James. És talvez o membro mais esperto da nossa família. Podes fazer 
qualquer coisa. Podíamos divertir-nos e entrar num negócio juntos; tudo dividido
a meias. Lá fora não é assim tão mau. Não há nada que seja tão mau na vida como 
estar debaixo do pé de Niang. Estás farto de saber isso, James!
- Aqui é como se fôssemos prisioneiros - lamentava-se Louise. - Sinto-me como se
estivesse dentro de um colete-de-forças! Nem consigo respirar! Vamos embora com 
ela, James. Estou pronta a fazer seja o que for, a viver seja onde for. Não 
preciso de muita coisa.
- Bem sei - respondia James, baixando a cabeça e servindo-se uma vez mais de 
uísque -, mas ainda não chegou a hora.
200

20
Fu Zhong Lin Jia Escamas e conchas dentro da barriga

Em Xangai, a tia Baba continuava a trabalhar no Women's Bank. Morava ainda na 
casa da Avenida Joffre com Miss Chien e duas criadas. Miss Chien, a ama de 
Franklin, tinha medo de ser despedida e fazia tudo para agradar à minha tia. 
Levantava-se de madrugada para encerar o chão de parquet e bater as carpetas. 
Convenceu a minha tia a dispensar uma das criadas e tomou a seu cargo as tarefas
menos agradáveis, tais como lavar as casas de banho e esfregar o fogão. Lavava e
engomava toda a roupa da minha tia e tratava da limpeza dos cortinados. Todas as

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noites, quando a minha tia voltava do trabalho, a casa brilhava e vinha também 
encontrar uma saborosa refeição preparada por Miss Chien. À medida que o Inverno
se aproximava, ela tricotava casacos de malha, grossos e coloridos, para a minha
tia.
Depois de o pai ter vendido o Buick, em 1948, a garagem fora transformada num 
armazém. Corriam tempos de incerteza e por isso a minha tia ia mantendo uma 
reserva de artigos de primeira necessidade: sacos de arroz, garrafas de óleo, 
vegetais secos, peixe salgado, molho de soja. Além
201
da comida, a garagem aramazenava ainda muitas caixas de paina e de lã 
australiana. Dezenas de anos antes, Ye Ye tinha comprado umas acções numa 
fábrica de seda de Xangai. Os anos passaram e essa fábrica, bem gerida, 
prosperou, exportando paina e importando lã australiana. Em vez de receberem os 
dividendos em dinheiro, os accionistas recebiam do excedente que havia em rolos 
de paina e em meadas de lã. O algodão era da melhor qualidade, muito leve e 
fofo, próprio para ser utilizado no enchimento de cobertas, agasalhos, robes e 
casacos. Porém, em finais de 1951, o dono da fábrica fora perseguido durante _=_
~~ _~ F~ as campadas Sara , fáaa - waa , fàn (Os Três Antis - Os Cinco Antis). A
fábrica foi reorganizada e não houve mais distribuição de dividendos. A paina 
tornou-se rara e valiosa.
~~ ~,~ _fi t,~ As campanhas San _ fan - wu . fan (Os Três Antis - Os Cinco 
Antis) foram dois movimentos paralelos lançados pelo governo comunista em 1951. 
Os Três Antis eram contra a corrupção, o desper
dício e a burocracia entre os próprios membros do Partido Comunista. Os cinco 
antis eram dirigidos a elementos fora do Partido que tinham tirado proventos 
através de suborno, fraude, roubo, fuga aos impostos e obtenção de informação 
por meio de corrupção. Os dois grupos tinham frequentemente ligações um com o 
outro.
Foi por esta altura que a minha tia foi transferida para uma dependência do 
banco perto do Cinema Cathay, apenas a duas paragens d~ eléctrico da poaia de 
casa. Muitos dos clientes eram residentes da zona que a conheciam pessoalmente, 
sendo um deles um alfaiate chamado Yeh. Este alfaiate era dono de uma pequena 
loja mesmo ao lado do banco e muitas vezes, quando o movimento era fraco, 
aparecia para trocar dois dedos de conversa. Um dia pediu à tia Baba para 
entregar um casaco acolchoado a alguém que vivia na mesma rua. A cliente era 
Miss Chien.
Assim que olhou para o casaco, a minha tia percebeu logo que Miss Chien estava a
ser desonesta e que tinha tZ~ ~ , `~. fu zhong lin, jia (escamas e conchas 
dentro da baariga). Como era seu costume, o alfaiate Yeh tinha colocado dentro 
de um saco de papel, juntamente como o casaco, todo o algodão que não chegara a 
utilizar, bem como outro material que lhe tinha sobejado. Paina de qualidade tão
boa como aquela não estava à venda em lado nenhum em Xangai. Miss Chien fora 
roubá-la à garagem.
Nessa mesma tarde, a tia Baba pediu-lhe que devolvesse as chaves da casa e 
descobriu que a antiga ama tinha também andado a surripiar comida e lã. 
Comunicou o roubo ao pai e pediu-lhe que a despedisse,

202

acrescentando que não mais podia partilhar a mesma casa com uma pessoa tão 
indigna de confiança.

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As ordens do pai fizeram-na retroceder: Miss Chien não deveria, sob pretexto 
algum, ser demitida. Pelo contrár io, continuaria a viver na mesma casa com a 
minha tia, recebendo o seu salário e a gratificação habitual por altura do Ano 
Novo chinês. A minha tia não precisava de se preocupar com os artigos 
"desaparecidos". A família Yen podia dar-se ao luxo de arcar com a perda. O pai 
tinha obviamente uma agenda secreta.
A tia Baba e Miss Chien deixaram de se falar. Miss Chien continuou a tricotar 
com a lã que tinha acumulado, vendendo camisolas descaradamente e chegando mesmo
a aceitar encomendas. O fornecimento abundante de lã importada era o alvo das 
invejas de toda a vizinhança. À noite, durante as reuniões infindáveis para se 
discutir as campanhas dos Três Antis e dos Cinco Antis, havia muitos olhos na 
sua hu kou (unidade residencial) que se fixaram nas agulhas imparáveis de Miss 
Chien, enquanto os defensores do Partido discursavam sobre corrupção e suborno.
Ela nunca mais se dirigiu à minha tia como Miss Yen, mas falava dela como "essa 
personagem do andar de cima". Começou a receber os membros da sua própria 
família na sala do rés-do-chão e a combinar a ementa com a criada, Ah Song. 
Tagarelava com os vizinhos e cochichava que os seus senhores em Hong-Kong a 
tinham encarregado de "guardar e de lhes enviar relatórios" sobre a minha tia, 
dando a entender a existência de um desequilíbrio mental, uma relação imoral ou 
pior ainda.
Para a tia Baba o ambiente em casa tornou-se insuportável. Ah Song começou 
também a ter laivos das atitudes insolentes de Miss Chien. Uma manhã em que Ah 
Song estava a ser particularmente impertinente, a tia Baba despediu-a ali mesmo,
num acesso de fúria. A criada foi chorar para junto de Miss Chien, mas não havia
nada que pudessem fazer.
A tia Baba contratou uma nova criada, Ah Yee, que passou a trabalhar só para 
ela. Montou uma cozinha no quarto livre do 2.° andar e passou a tomar as suas 
refeições em privado. O despedimento de Ah Song pareceu, de alguma forma, 
desencorajar a arrogância de Miss Chien. Seguiu-se um período de tréguas 
tacitamente aceites. A anterior hostilidade declarada de Miss Chien foi 
substituída por uma fria atitude de cortesia. Continuou a enviar os seus 
"relatórios secretos de evolução semanal" ao pai.
No Inverno de 1951, durante uma auditoria de rotina ao Women's Bank da tia-avó, 
foi feito um inventário de todos os bens guardados no depósito
203
gigantesco que o banco possuía. No decorrer deste processo, a tia Baba recebeu 
uma carta proveniente da Autoridade de Auditoria Bancária dirigida a Wang 
Jie-xiang, a minha avó, falecida em Tianjin, em 1943,
Nos anos 40, por diversas razões, o pai comprava frequentemente artigos e 
propriedades, colocando-os no nome de solteira de sua mãe entretanto falecida, 
Wang Jie-xiang. No início deve ter sentido necessidade de usar este nome, pois 
era perseguido pelos Japoneses. No entanto, o pai depressa descobriu que havia 
vantagens em registar um "fantasma" como dono dos seus bens tangíveis. Era 
impossível processar, contactar, ameaçar, subornar ou raptar um fantasma. Esta 
prática era comum durante os anos 40, tempos sem lei.
O terceiro tio, o terceiro e também o irmão mais novo da minha falecida mãe, 
tinha sido aprendiz do meu pai durante a adolescência. O pai deu-lhe o nome 
inglês de Frederick e deixou-o como encarregado .
dos seus negócios em Xangai após a sua partida para Hong-Kong. Inicialmente, 
depois da entrada do governo comunista, os negócios decorreram sem alterações. 
Durante o ano de 1949, provavelmente seguindo ordens do pai, que previa um 
aumento do preço de certos bens, o tio Frederick adquiriu algumas centenas de 

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caixas de cera branca de abelhas em nome de Wang Jie-xiang a armazenou-as no 
depósito do banco da tia-avó. Todavia, o preço da cera continuou a baixar. 
Resolvido a não vender enquanto o preço estivesse em baixa, decidiu esperar. 
Dois anos mais tarde, com a deterioração do ambiente político, o meu tio 
acompanhou o meu irmão James a Hong-Kong, transportando consigo a cera de 
abelhas que ainda não tinha vendido. Dois meses depois de ter recebido o aviso 
da Autoridade de Auditoria Bancária, a tia Baba foi chamada pelo administrador 
da sua dan wei (unidade de trabalho). O registo numa dan wei era absolutamente 
obrigatório. A esmagadora maioria dos trabalhadores permanecia na mesma dan wei 
durante toda a sua vida, pois a transferência para uma outra dmt wei era 
extremamente difícil. Durante a reunião, a minha tia ficou surpreendida, visto 
que o chefe da sua hu kou (unidade residencial) também se encontrava presente. 
As htt kous foram inicialmente formadas dentro do espírito dos comités de 
vizinhos, ou seja, associações onde se faziam reuniões e se veiculavam as 
queixas existentes. Contudo, por volta de 1951, estas associações tornaram-se 
poderosos instrumentos do controlo governamental. Com o passar do tempo, o 
registo numa hu kott tornou-se também obrigatório e, quando o racio- ,
namento foi instituído, apenas os residentes registados tinham direito a cupões 
de alimentos. Entre a dan wei e a hu kott não havia habitante da cidade de 
Xangai que não estivesse registado. Os dois comités interferiam em todos os 
aspectos da vida privada dos cidadãos. Nada passava despercebido.
Perguntaram à minha tia quem era Wang Jie-xiang e onde podia ser contactada. 
Quiseram ainda saber por que razão não estava registada. Embora o comité a 
tratasse de forma cordial, a minha tia pôde perceber pelo grosso arquivador que 
se encontrava à sua frente que o assunto era sério. Fez uma narrativa verdadeira
dos factos, tal como os conhecia, e recebeu o aviso de que voltasse uma semana 
mais tarde com mais pormenores. Consultou rapidamente a tia-avó, que, por sua 
vez, também se encontrava a braços com a sua própria luta. A minha tia foi 
encaminhada para o Sr. Nee, um colega de trabalho, cuja tarefa era lidar com 
agências governamentais a tempo inteiro. Alto, agradável e bem parecido, ele e a
mulher tornaram-se amigos da minha tia e o Sr. Nee compareceu a muitos 
interrogatórios como seu representante. À medida que o caso ia evoluindo, tinham
reuniões frequentes, com o objectivo de discutir os últimos desenvolvimentos. As
horas a que o Sr. Nee chegava e partia eram descaradamente registadas por Miss 
Chien e devidamente comunicadas aos meus pais. Após vinte e oito meses de uma 
investigação penosa, o Sr. Nee conseguiu com sucesso resolver o caso da cera das
abelhas. Todas as culpas foram atribuídas ao meu tio Frederick, que, como 
convinha, estava ausente. A cera foi confiscada e a minha tia repreendida, mas 
não castigada. Não foi este um feito de somenos importância, pois ninguém 
desejava assumir responsabilidades e o Sr. Nee tinha sido enviado de uns 
departamentos para os outros como uma bola de pingue-pongue. Alturas houve em 
que se sentiu totalmente incompreendido, "como uma galinha a falar para um 
pato".
O passatempo preferido da tia Baba - jogar mah.jong-foi considerado decadente. 
Uma das suas amigas tinha uma cave e, no início, o grupo reunia-se lá para jogar
secretamente mah jortg silencioso. Para isso, a base de cada uma das peças do 
jogo fora cuidadosamente forrada. Para evitar serem descobertos, colocavam um 
vigia à porta, mas o risco que corriam era grande e a coragem limitada. Mudaram 
rapidamente para o Jogo de brídege, pois os jogos de cartas continuavam a ser 
autorizados.
Campanha atrás de campanha, a situação no Women's Bank começou a piorar. O 
Movimento de Reforma do Pensamento era contra os

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204
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proprietários de terras no campo. Depois vieram Os Três Antis (contra os membros
do Partido) e Os Cinco Antis (contra os capitalistas, tais como comerciantes e 
banqueiros).
Em 1952 tiveram início as reuniões de luta contra a minha tia-avó. Estas 
reuniões tinham como objectivo "ajudá-la a interpretar a sua desobediência no 
passado" e "dar-lhe a oportunidade de corrigir os seus erros". Muitos dos seus 
anteriores empregados denunciaram_na. Alguns fizeram-no para salvarem a própria 
pele. O veredicto de "culpada" era uma conclusão inevitável. A minha tia-avó foi
multada numa grande quantia em dinheiro em 1953 e forçada a demitir-se de todas 
as suas funções no Women's Bank, mas autorizada a continuar a viver no seu 
luxuoso apartamento do 6.° andar. Os privilégios que tinha foram-lhe sendo 
retirados um a um. Tiraram-lhe o motorista, depois o carro, a cozinheira e até o
direito a usar o elevador para subir até ao 6.° andar. Nessa altura começou a 
viver como um eremita sob prisão domiciliária. Subir os cinco lanços de escadas 
causava-lhe grandes dores no peito. Mesmo assim, quase todos os dias era 
obrigada a subi-los para tomar parte nas reuniões organizadas pela sua har kotr 
e pela sua antiga dan wei.
Com o passar dos anos seguiram-se outras campanhas, todas elas com o mesmo 
padrão: primeiro surgia grande propaganda nos jornais, emissões radiofónicas e 
cartazes de parede a explicar qual o grupo visado. Depois seguiam-se marchas com
tambores e gongos, música militar e o som de microfones transmitindo discursos 
inspiradores. Vinha mais tarde um sem-número de reuniões obrigatórias, durante 
as quais familiares, amigos, colegas de trabalho e vizinhos eram encorajados a 
espiar e a transmitirem informações uns sobre os outros, por vezes de forma 
anónima, deixando papéis em caixas de recepção.
A tia Baba tinha sempre evitado as luzes da ribalta e não gostava de ~~ ~~ chis 
. feng tou (estar na primeira linha). Durante este tipo de reuniões escolhia 
sempre um canto despercebido: uma solteirona de meia-idade, modesta, inofensiva 
e pacata que alinhava com a opinião da maioria e não tinha ponto de vista 
próprio. Nos tempos em que a tia-avó estava a ser atacada, a tia Baba não disse 
uma única palavra em sua defesa, pois sabia que era essa a única maneira de 
sobreviver.
Em 1955 chegou o Movimento Cooperativo Rural, durante o qual os camponeses ricos
foram denunciados. Pouco depois seguiu-se a Campanha do Extermínio dos 
Contra-Revolucionários Escondidos. Todas as

206
indústrias e negócios ainda em poder de privados foram nacionalizados. Os 
proprietários que "mereciam" recebiam anualmente, e durante dez anos, 7 % do 
valor líquido do seu negócio como forma de indemnização. O problema era decidir 
quem "merecia." ou não.
Em 1956 a camppanha intitulada "Deixem Desabrochar Cem Flores" encorajava toda a
gente a transmitir as suas críticas ao governo. A este movimento se chamava 
"liberdade de expressão". Um ano mais tarde, durante a campanha antidireitista, 
aqueles que tinham falado mais alto contra o regime no ano anterior receberam o 
castigo por se terem "atrevido a deitar cá para fora os seus gases intestinais".
As vítimas foram na sua maioria professores, artistas e cientistas.
1958 foi o ano do "Grande Salto em Frente", o ano em que Mao Zedong decidiu 
aumentar a produção de aço da China e, da noite para o dia, transformar o país 
numa potência industrial ao nível internacional. A campanha foi um fracasso e 

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Adeline_Yen_Mah_-_FOLHAS_CAIDAS

conduziu ao colapso económico e a uma onda de fome generalizada. Arroz, óleo, 
açúcar, tgfü39 e carne eram racionados, o mesmo acontecendo com tecidos, lã para
tricotar, enchimento de algodão e mantas acolchoadas. O governo exercia um 
controlo apertado. A minha tia foi subitamente informada de que todas as 
propriedades do pai que se encontravam alugadas em Xangai seriam confiscadas. Há
muito que ela esperava que isto acontecesse e ficou quase agradecida quando as 
autoridades a aliviaram dessa responsabilidade.
A tia Baba tinha frequentemente trabalho que lhe era destinado em sucursais do 
banco longe de casa. Tratava-se de um meio de controlo para evitar os subornos. 
Para chegar ao seu local de trabalho tinha de apanhar vários autocarros 
superlotados. Tomava as refeições sozinha e ia a reuniões das dan wei, onde não 
conhecia ninguém. Sentia dores de estômago e começou a vomitar sangue. Pela 
"porta do cavalo" - pois pela porta da frente era completamente impossível - 
conseguiu ser vista por um importante cirurgião no seu dia de folga. 
Diagnosticou-lhe uma úlcera no duodeno, receitou-lhe uns medicamentos muito 
eficazes e aconselhou-a a reformar-se.
Ela recuperou, mas ficou muito abalada. Devido à pobreza e à fome, o governo 
começou a encorajar a venda de terrenos para sepulturas aos chineses que se 
encontravam fora do país. A tia Baba escreveu ao pai,

" Produto derivado da soja, com aspecto semelhante ao do queijo fresco, rico em 
proteínas e utilizado em diversos pratos da cozinha chinesa. (N. da T.)
207
contou-lhe da sua reforma e pediu-lhe que lhe enviasse 400 yuan por mês para seu
sustento. Pedia-lhe ainda que comprasse uma parcela de terreno num cemitério 
budista nos arredores de Beijing, onde o .1èng shari (vento e água, ou 
geomancia) era auspicioso.
O pai concordou e enviou-lhe de Hong-Kong as cinzas de Ye ye para que fossem 
enterradas ao lado das da avó. A minha tia viajou para Tianjin, por forma a 
tratar do funeral. Esta visita deu-lhe a oportunidade de visitar Lydia, a minha 
irmã mais velha, pela primeira vez desde a libertação.
Em 1958, Lydia e a família ainda estavam a viver na casa que o pai tinha no n.° 
40 da Rua Shandong. Samuel, o marido, era professor na Universidade de Tianjin e
Lydia estava em casa a tratar dos dois filhos do casal.
A tia Lao Lao, de 72 anos, também vivia com eles. Esta irmã da mãe de Niang, já 
falecida, era uma solteirona simpática e simples, que não sabia ler nem 
escrever. Não tinha os pés ligados e falava mandarim com um forte sotaque de 
Shandong, o que a tornava quase incompreensível.
A tia Baba só precisou de alguns dias para transferir o corpo da minha avó para 
a sua nova sepultura, mas teve tempo suficiente para perceber que Lydia era uma 
mulher profundamente infeliz. A minha irmã mais velha tinha um profundo 
ressentimento por saber que todos os seus irmãos estavam a estudar na 
universidade em Inglaterra, enquanto ela estava atolada num casamento sem amor e
na China comunista. Descarregava a sua frustração em Samuel e atirava-lhe 
insultos. Ele nunca respondia, mas saía a correr para fora de casa a meio de uma
qualquer tirada em que Lydia ainda gritava "Ovo de tartaruga!", "Odeio-te!" ou 
"Espero que morras!".
Ainda pior era a forma como tratavam a tia Lao Lao. Juntamente com uma criada, 
fazia praticamente todo o trabalho de casa, correndo de uma tarefa para outra e 
não se atrevendo a dizer fosse o que fosse. Sofria de artrite, dores no peito e 
falta de vista. Lydia implicava com ela sempre que lhe apetecia, dando murros na
mesa e insultando-a aos gritos. Em várias ocasiões chegou mesmo a bater-lhe. 

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Samuel ainda ajudava a mulher, fazendo comentários como "O que é que uma 
Prosperi faz em casa da família Yen?", esquecendo-se que ele próprio era tão Yen
como a tia Lao Lao.
208
A minha tia tentou chamar Lydia à razão, mas sem êxito, pois ela vivia corroída 
pela inveja e pela amargura. Suplicou à minha tia que escrevesse ao pai em seu 
nome, pedindo-lhe ajuda. Quando regressou a Xangai, a minha tia escreveu a carta
prometida, mas nunca recebeu qualquer resposta.
Entre 1959 e 1966 os anos decorreram com relativa calma para a tia Baba. A 
escassez de alimentos foi-se desvanecendo e por volta de 1963 já a maioria dos 
produtos estava acessível. As reuniões políticas tornaram-se menos frequentes. 
De manhã já não precisava de correr para apanhar um lugar no autócarro; podia 
ficar na cama e deliciar-se com o People's Daily e o seu chá quente. Muitos dos 
seus amigos também se reformaram e havia um grupo que se juntava regularmente 
para jogar brídege. Chegaram mesmo a juntar os cartões de racionamento para 
poderem voltar a fazer jantares.
No Verão de 1966, grupos de Guardas Vermelhos varriam as ruas de Xangai à 
procura de sarilhos. Alteravam os nomes das ruas: a Bund passou a chamar-se Rua 
da Revolução; partiam montras e janelas; pilhavam casas; assaltavam quem ia na 
rua. A tia Baba já não se atrevia a sair. As habituais marchas, desfiles e 
propaganda nos jornais eram indícios de que uma nova purga política estava já em
marcha. Na rua da tia Baba havia cartazes denunciando os "inimigos da Revolução 
Cultural". As reuniões das hc~ koz~ eram agitadas e chegavam a durar todo o dia 
e toda a noite. No início as vítimas foram essencialmente professores e membros 
da alta hierarquia do Partido.
No dia 14 de Setembro de 1966, vinte e cinco Guardas Vermelhos bateram 
estrondosamente à porta de casa da tia Baba. Eram adolescentes, rapazes e 
raparigas, acompanhados por alguns homens na casa dos 20. Algumas das crianças 
frequentavam escolas secundárias das redondezas e conheciam a minha tia. 
Ordenaram a todos que se ajoelhassem no chão. Miss Chinn batia com a cabeça no 
chão e dizia que era grande amiga da minha tia. Esbofetearam-na com tanta força,
que dois dos seus dentes saltaram. Gritaram-lhe que admitisse o seu verdadeiro 
estatuto. Quando ela respondeu "criada", gozaram-na e chamaram-lhe mentirosa, 
mas deixaram de lhe bater. Voltaram-se, em vez disso, para a minha tia, a dona 
da casa. Partiram-lhe a dentadura, puxaram-lhe os cabelos, bateram-lhe com os 
cintos e deram-lhe pontapés até cair; em seguida esmurraram-lhe as costas já 
feridas.
209
Fizeram uma fogueira no quintal, queimaram todos os livros, álbuns de 
fotografias e quadros até tudo ficar reduzido a um monte de cinza na relva do 
jardim, molhada por um súbito aguaceiro de Setembro, Obrigaram-na a tirar a 
chave que trazia ao pescoço e a abrir o cofre, mas ficaram furiosos ao 
descobrirem que não havia dinheiro nem jóias, mas somente as cartas de Ye Ye e 
as minhas fichas de avaliação e recomendações da escola primária. Antes de 
saírem, partiram as antiguidades, reviraram a mobília, rasgaram as cartas que a 
tia Baba guardava como um tesouro, bem como as minhas fichas de avaliação, 
partiram objectos, despedaçaram as cortinas, romperam os colchões e cortaram a 
roupa. Miss Chinn recebeu ordens para sair no prazo de vinte e quatro horas.
- Mas para onde hei-de eu ir? - lamentava-se ela. - Vivo aqui há vinte e dois 
anos, muitos antes de a maior parte de vocês ter nascido. Não tenho direito a 
pelo menos um quarto até morrer?
- Prà merda! Fora daqui velha estúpida e ignorante! De onde é que és?

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- Nasci em Hangzhou.
- Então volta para Hangzhou amanhã! Não és de Xangai nem desta casa!
Mais tarde, e pela primeira vez em quinze anos, Miss Çhien falou para a tia Baba
num tom educado. Disse-lhe que lamentava toda aquela selvageria, ajudou-a a 
ligar a cabeça que tinha sido ferida com vidros e pediu que lhe emprestasse umas
malas. A minha tia deu-lhe uma velha mala e despediram-se amigavelmente.
Uma semana depois a tia Baba recebeu ordem para se mudar para um quarto na casa 
de um vizinho que ficava situada mesmo por detrás do seu jardim. Entretanto 
houve outras famílias que se mudaram para a casa onde vivia e onde foi proibida 
de entrar. A sua conta bancária foi congelada e as cartas do pai não lhe eram 
entregues. O governo dava-lhe 15 yuan por mês para despesas de sobrevivência e 
ordenaram-lhe que usasse uma faixa preta sobre o peito com a inscrição ~ %• ~~ 
hei litt lei (seis categorias negras) em caracteres bem visíveis. Era agora uma 
"negra" desprezível. Os negros eram os capitalistas, proprietários de terras, 
direitistas, camponeses ricos, contra-revolucionários e criminosos. Faziam os 
piores trabalhos e eram sempre os últimos a serem atendidos nas filas para 
comida ou outras, especialmente quando os produtos eram escassos. Alguns eram 
abandonados ao sofrimento e por
pezes à morte, estendidos no chão dos hospitais à espera de cuidados médicos.
Todas as escolas foram encerradas. Autocarros e comboios estavam repletos de 
Guardas Vermelhos que viajavam para libertarem toda a China. Não havia 
distribuição de correio e os telefones particulares foram desligados. Os templos
budistas e as igrejas cristãs foram destruídos. Muitos dos que residiam nas 
cidades foram enviados para o campo, a fim de "reformarem o seu pensamento 
através do trabalho á~~duo e de aprenderem com os camponeses".
Embora tivesse sido rotulada como "negra", a minha tia não foi mandada embora. 
Ela pensava que Xangai tinha enlouquecido, mas atribuía todas as culpas à 
Revolução. Acreditava que Mao Zedong, Zhou Enlai e o resto dos da ren (os 
grandes) executavam um plano misterioso para libertarem a China.
As condições não melhoraram até ao Inverno de 1971. Corriam rumores de que Lin 
Biao, ministro da Defesa e aparentemente o sucessor de Mao Zedong, tinha morrido
em Outubro. Lin era um general comunista cujos exércitos tinham participado na 
libertação da Manchúria, Beijing e Tianjin. Chegou a ser o número dois durante a
Revolução Cultural, altura em que muitas das altas patentes do Partido Comunista
foram eliminadas. A versão oficial da sua morte conta que Lin tentara assassinar
Mao, mas falhara. Tentara então escapar para a Rússia com a mulher e o filho, 
mas o avião despenhara-se sobre a Mongólia. Depois da morte de Lin, as reuniões 
políticas na hu kou da tia Baba tornal-asn-se visivelmente menos agitadas. Uma 
noite, todos receberam ordens para rasgar e destruir as duas primeiras páginas 
do Pegttetto Livro Vermelho, de Mao, que continham o prefácio escrito por Lin 
Biao.
Após o reconhecimento oficial da China pelo presidente Nixon, a vida do chinês 
comum melhorou substancialmente. 1972 foi um ano de viragem: houve mais 
alimentos e menos reuniões políticas; as contas bancárias foram descongeladas e 
o subsídio mensal do pai voltou a chegar a Xangai.
A tia Baba escreveu ao pai, suplicando-lhe que enviasse uma mensalidade à 
tia-avó. Como todos os outros, ela tinha sido expulsa do seu luxuoso apartamento
pelos Guardas Vermelhos em 1966. Os seus depósitos bancários foram 
permanentemente congelados e a sua transferência proibida. Mal conseguindo 
sobreviver com os quinze yuan mensais atribuídos pelo governo, ela tinha 
frequentemente frio e fome.
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Depois de receber a carta da tia Baba, o pai passou a enviar regula._ mente 
dinheiro à tia-avó até à sua morte por pneumonia, três anos mais tarde.
Em 1974, à campanha "Criticar Lin Biao" seguiu-se uma outra: "Criticar 
Confúcio". Confúcio era alcunha do primeiro-ministro Zhou Enlai, inventada pela 
Sr.a Mao. A hu kou da minha tia tentou avivar o entusiasmo durante as reuniões. 
Contudo, e apesar de a participação ser obrigatória, muitos faltavam alegando 
motivos de doença. As pessoas estavam pura e simplesmente cansadas destas 
campanhas intermináveis.
Em Abril de 1976 houve uma manifestação de massas na Praça de Tiananmen para 
assinalar a morte de Zhou Enlai. Era um sinal de apoio a Deng Xiaoping (o 
protegido de Zhou Enlai) e de crítica camuflada à Sr.a Mao. Polícias e soldados 
armados usaram bastões para dispersar a multidão. Milhares de manifestantes 
desarmados foram espancados, alguns ficaram feridos e outros foram presos. Foi 
este o primeiro incidente de Tiananmen.
Em Julho de 1976, um violento tremor de terra que atingiu 8,0 na escala de 
Richter abalou Tangshan, uma cidade industrial nas proximidades de Tianjin. 
Pereceu mais de um milhão de pessoas. Na China dizia-se por toda a parte que o 
tremor de terra era um sinal do fim de Mao Zedong. Mao morreu dois meses depois.
A 8 de Outubro de 1976, na rua onde a tia Baba morava, foi convocada uma reunião
da hu koa~ para depois do jantar. O objectivo era anunciar a prisão do "Bando 
dos Quatro", uma designação inventada por Mao Zédong para descrever a Sr.a Mao e
três dos seus seguidores de Xangai -Yao Wenyuan, Zhang Chunqiao e Wang Hongwen 
-, reunidos para liderarem a Revolução Cultural. O seu poder fôra absoluto, pois
haviam contado com o apoio de Mao até à morte deste.
No dia seguinte realizou-se uma parada comemorativa da queda da Sr.a Mao. A 
minha tia não participou alegando motivos de saúde. Deng Xiaoping foi 
reabilitado e nomeado vice-primeiro-ministro em 1977. A China começou a abrir as
portas ao mundo exterior e deu-se início à era das reformas.
212
21
Tian Zuo Zhi He União paradisíaca

Depois de ter obtido o divórcio em 1971, a minha carreira continuou a evoluir 
bem. Depois das previsões sombrias de médicos mais velhos, segundo as quais, num
espaço de cinco anos, a medicina privada seria uma coisa do passado, a 
legislação sobre a Medicare veio ainda trazer, sem se esperar, uma espécie de 
bonança para médicos como eu. Como anestesista, os meus honorários baseavam-se 
numa tabela publicada pela Sociedade Americana de Anestesiologia. Três anos 
depois de eu começar a exercer, os honorários tinham subido 20 %. Contudo, a 
maior parte dos pacientes não tinha consciência deste grande aumento, porque a 
despesa não era paga do seu bolso. As despesas relacionadas com a saúde eram 
automaticamente reembolsadas pela Medicare, bem como por outras seguradoras. Na 
realidade, a discussão dos honorários com o médico era considerada um sinal de 
falta de educação.
No início dos anos 70, a discriminação racial e sexual fazia-se ainda sentir 
claramente. A camaradagem que existia na sala de operações
213
desvanecia-se quando os procedimentos cirúrgicos estavam terminados. Entre os 
meus colegas médicos havia uma espécie de hierar_ quia implícita na disposição 
dos lugares para o almoço. No topo da mesa sentavam-se os homens brancos, 
"produtores primários" em prestigiadas especialidades cirúrgicas. Seguiam-se os 
internos. Depois vinham os de clínica geral. No fundo da lista situavam-se os 

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médicos baseados nos hospitais: radiologistas, patologistas e anestesistas, 
especialmente os que não eram brancos e que, como eu, eram mulheres. A nossa 
falta de popularidade devia-se particularmente ao facto de não termos os nossos 
próprios pacientes, mas, como aves de rapina, vivermos dos pacientes dos outros.
Além disso, a nossa base era o hospital, não tínhamos consultório alugado e nem 
dispúnhamos de pessoal de enfermagem, originando, por conseguinte, custos 
baixos: Uma vez que o número de admissões que um médico fazia no hospital e o 
seu padrão de referência determinavam o grau de atenção e respeito que lhe era 
concedido pelos colegas, os nossos pares podiam seguramente ignorar-nos e 
centrar-se naqueles que se encontravam em posição de lhes enviar pacientes 
susceptíveis de lhes aumentarem a renda. Esta atitude partia do conselho de 
administração e fazia-se sentir até aos funcionários.
Nos anos 60 e princípio dos anos 70, as médicas eram ainda raras. Tornei-me 
amiga de Alcenith Crawford, uma oftalmologista divorciada. Trinta anos mais 
velha do que eu, Alcenith tomou-me sob a sua protecção. Numa época em que era 
difícil até para as mulheres mais privilegiadas estudarem Medicina, Alcenith 
fizera a faculdade recorrendo a eínpréstimos e trabalhos por fora. O quadro de 
pessoal do West Anaheim Community Hospital, onde eu trabalhava, tinha apenas 
mais duas médicas. Elas costumavam sentar-se no refeitório dos médicos e 
queixár-se dos respectivos maridos. Na verdade, todas nós tínhamos uma vida 
privada atribulada.
Alcenith dava esta explicação:
- Nós, médicas, temos casamentos infelizes porque, na nossa cabeça, somos as 
estrelas da nossa família. Sobrevivemos às agruras da Faculdade de Medicina e 
esperamos encontrar a nossa recompensa em casa. Temos de lutar contra tudo e 
contra todos e, quando, finalmente, conseguimos acabar o curso, poucas são 
aquelas que continuam tímidas. É preciso um homem muito especial para aguentar 
isso. Os homens gostam de se sentir importantes e de ser inequivocamente os
214

chefes da família. Um homem não gosta de esperar pela sua mulher enquanto ela 
opera para salvar uma vida. O que ele espera é que ela e os filhos se lhe 
agarrem ao pescoço. Todavia, nós habituámo-nos a dar ordens nos hospitais e a 
que nos obedeçam. Uma vez chegadas a casa, é difícil adaptarmo-nos. Além disso, 
na maior parte das vezes ganhamos mais do que os nossos maridos. É preciso um 
homem generoso e excepcional que nos perdoe tudo isto.
O sucesso que fiz na minha carreira não me compensava pelo desmoronar do meu 
casamento. Na minha cabeça, o divórcio equivalia a um fracasso escuro e 
profundo. Em frente dos meus colegas mantinha a fachada da médica 
auto-suficiente, mas cá por dentro sentia um vazio doloroso. A minha amiga 
Alcenith compreendia o vazio da minha vida quando me via a funcionar como uma 
máquina bem oleada à qual faltava uma peça. Decidiu arranjar-me o que me faltava
e preparou-se um encontro surpresa. Ele era o professor Robert Mah, um 
sino-americano amigo do filho e que ensinava na UCLA. Estava combinado 
encontravmo-nos em frente da School of Public Health.
Estávamos em 1972 e a tarde era de Primavera, daquelas que são típicas da 
Califórnia do Sul: quente, soalheira e enevoada. Embora tivesse seguido as 
indicações pormenorizadas que o professor me dera ao telefone, perdi-me. Quando 
perguntei ao funcionário de uma estação de serviço qual era a melhor maneira de 
entrar na UCLA, ele respondeu-me que era estudando!
Quando cheguei, com trinta minutos de atraso, vi-o de pé nas escadas a observar 
a estrada. Fiquei entusiasmada ao reparar que era bastante bonito e alto, de 

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cabelo negro, espesso e brilhante e ar de rapazito. Sorriu e disse:
- Chegou ao sítio certo. Eu sou o Bob.
Bob nascera na Califórnia e nunca pusera os pés na China. Nascidos na aldeia de 
Toishan, província de Guangdong, os pais haviam emigrado para S. Francisco em 
1906. Sem estudos e sem preparação especial para um trabalho específico, 
ganharam o seu sustento num restaurante em Fresno, que era na época uma pequena 
comunidade rural com cerca de 30 000 habitantes no vale de San Joaquin. 
Convertidos ao catolicismo, tiveram oito filhos (seis rapazes e duas raparigas),
sendo Bob o mais novo. Quando ele tinha 3 anos, o pai morrera de ataque 
cardíaco, deixando à mulher muito pouco dinheiro e muitos filhos, o mais velho 
dos quais tinha então 17 anos. Com tantas bocas para alimentar, a
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mãe de Bob não teve outra alternativa senão recorrer à assistência social.
Quando Pearl Harbour foi atacado, o pequeno Bob, então com 9 anos, foi obrigado 
a usar um distintivo onde se podia ler "Eu sou chinês", para que se diferençasse
dos seus colegas japoneses e evitar que fosse rotulado como "inimigo". Mesmo 
dessa idade sentira_se confuso e zangado por ver que as crianças japonesas eram 
insultadas e internadas. A sua própria família também teve de combater os 
preconceitos, para além da pobreza. As crianças tornaram-se extrema_ mente leais
umas para com as outras e para com a mãe. Ela encorajava_ -os a participarem no 
esforço de guerra e a serem bons americanos. Dois dos irmãos mais velhos de Bob 
alistaram-se. Ed tinha então 19 anos e deixara a Universidade de Stanford para 
servir o seu país, tendo sido enviado para a Alemanha. Isolado num abrigo com 
nove soldados feridos, resistiu sozinho a um contra-ataque alemão. Pela bravura 
e sucesso heróico foi-lhe atribuída a Cruz de Bronze.
Outro dos irmãos de Bob, Earl, não foi aceite no exército por ter uma mão 
deformada. Cursou engenharia em Fresno State College ao mesmo tempo que 
trabalhava a tempo inteiro em folhas de metal nas Rohr Industries. Assim que se 
tornou economicamente exequível, a mãe pediu a Earl que escrevesse uma carta à 
assistência social cancelando os benefícios que até então recebiam. Como 
complemento dos seus parcos ganhos, a mãe plantava legumes chineses no quintal 
da casa de West Fresno, doando parte dos lucros para o esforço de guerra. A sua 
saúde era frágil e, pouco depois de a guerra ter acabado, sofreu um forte ataque
que a deixou deficiente e afásica.
Os filhos mais velhos tomaram então, em conjunto, a responsabilidade de olhar 
pela mãe e pelos dois irmãos mais novos. A irmã mais velha de Bob ficou em casa 
para poder cuidar permanentemente da mãe. A outra irmã, que ainda não tinha 
terminado o liceu, ofereceu-se para fazer os trabalhos domésticos e para 
cozinhar. Além de frequentar a faculdade e de ter um emprego exigente como 
engenheiro, Earl ainda arranjou tempo para cuidar de Bob, corrigir os seus 
trabalhos de casa, arranjar-lhe os almoços e acordá-lo para que não perdesse o 
autocarro da escola. Os outros juntavam os cheques dos seus ordenados para 
pagarem as despesas da casa e a faculdade de Bob. Com esta ajuda, Bob 
licenciou-se em Microbiologia e tornou-se professor. Não pude evitar a 
comparação entre este amor e apoio mútuo e as discórdias e
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invejas que grassavam na minha própria família. Enquanto a família tinha ajudado
Bob a realizar as suas ambições, eu sentia que tudo o que tinha o havia 
conseguido apesar da minha família. Enquanto ele tinha tido amor em abundância, 
eu estava sequiosa de afecto.
Quando Bob me convidou para jantar em sua casa, percebi que há já dois dias que 
andava a preparar aquela refeição. Cortara e lavara legumes frescos; tirara 

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todos os pedacinhos de gordura da carne de porco e da galinha, deixando-os a 
marinar em taças separadas. Pensara especialmente bem na escolha dos vinhos que 
acompanhariam cada um dos pratos. Enquanto partilhávamos esta refeição preparada
com tanto amor, atrevi-me a ter esperança de que estivéssemos destinados um ao 
outro. Será que os deuses iriam finalmente sorrir para mim? Seria esta a ~.4~.z,
ú tian za~o zhi he (união paradisíaca) cantada pelos poetas T'ang?

Nessa noite contei-lhe a minha infância. Foi como se uma torrente tivesse 
irrompido sem eu conseguir parar. Ele estava sentado e segurava-me na mão e eu 
falei de toda a minha dor e de toda a minha ansiedade. Eu era como um ser 
estranho, marginalizado, ansiando ser aceite; o patinho feio ansiando 
transformar-se num bonito cisne; a filha chinesa desprezada e indesejada, 
obcecada pela empresa de fazer que, de algum modo, os meus pais sentissem 
orgulho de mim. Um dia, certamente, se eu tentasse com todas as minhas forças 
ajudá-los na adversidade, eles haveriam de me amar.
Como eu estava a trabalhar o mais possível e aceitava chamadas de emergência 
três vezes em cada quatro noites, não dispunha de muito tempo para ver Bob, 
excepto nas raras noites em que estava de folga. Muitas vezes o meu bip apitava 
nos momentos mais inoportunos, chamando-me à sala de operações, como se uma 
corda me puxasse. As operações prolongavam-se frequentemente noite adentro, mas,
qualquer que fosse a hora a que regressasse a casa, encontrava o jantar feito e 
Bob à minha espera. Em toda a minha vida nunca encontrei ninguém que se 
importasse tanto comigo nem nunca me senti tão acarinhada. Ele era bom não só 
para mim, mas para o meu filho Roger, acompanhando-o aos jogos de basquetebol e 
participando em actividades da escola mesmo quando eu me encontrava nas 
urgências. Mas, acima de tudo, ele dava-me a estabilidade pela qual eu sempre 
tinha ansiado. Bob foi o único homem que conheci que professava o seu amor, não 
através de
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palavras, mas através de todos os seus actos. No final do ano, pelo seu 
aniversário, enviei-lhe um cartão. "O dia em que nasceste foi o dia mais feliz 
da minha vida. O teu amor protege-me dos piores golpes da vida. Junto de ti 
sinto-me completamente segura. Obrigada por me apoiares sempre."
Com alguma apreensão, escrevi aos meus pais, pedindo-lhes permissão para me 
casar com Bob. Juntamente com o seu castão de Natal anual vinha uma pequena 
mensagem: "Ainda bem que arranjaste tempo
para nos escreveres antes do teu casamento", escrevia o pai, relembrando-me a 
minha negligência da primeira vez. "Bob parece ser um bom homem e com uma boa 
profissão. Contudo, a que propósito é que, com essa idade, ainda não se casou? 
Terá tendências homossexuais? Assegura-te de que todas as tuas propriedades 
permanecem no teu nome."
Casámo-nos pouco tempo depois. A nossa filha Ann nasceu dois anos mais tarde. 
Por fim senti que tinha chegado a casa, mas passou-se muito tempo primeiro que 
me convencesse de que ninguém me ia tirar a minha felicidade.
Mudámo-nos para uma nova casa em Huntington Beach, situada num lote em frente ao
mar. A porta da frente abria-se para uma escadaria em arco, suspensa sobre um 
átrio cheio de bambus, palmeiras, filodendros, piteiras e até um gi~iseng. Era 
uma casa grande, cheia de luz e espaço e foi amor à primeira vista.
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22
Si Mian Chu Ge Cercados por todos os lados

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Durante os anos 60 e no início dos anos 70, os negócios do pai foram sempre 
imensamente lucrativos. Em Hong-Kong construiu vários blocos de apartamentos e 
algumas vivendas grandes, que vendeu com êxito. O seu edifício industrial em Cha
Wan, construído em terreno adquirido a baixos preços durante as sublevações de 
1966 em HongKong, estava totalmente alugado. Possuía ainda duas toneladas de 
ouro, que estavam depositadas em segurança em bancos na Suíça.
No Verão de 1976, o pai e Niang foram, como habitualmente, para Monte Carlo, 
procurando fugir do calor. Nas lições particulares de francës, o pai participava
cada vez menos, recusando-se a repetir as frases da professora, não obstante o 
entusiasmo que esta tentava transmitir-lhe. As sessões transformaram-se em 
dispendiosas conversas diárias entre Niang e a professora, com o pai de olhar 
vazio posto no Beginner's French, Part I.
Em eventos sociais, o pai foi-se tornando cada vez mais retraído. Durante o 
baile anual da Cruz Vermelha, oferecido pela princesa Grace,
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recusou-se a dançar com quem quer que fosse. Em casa ficava sentado horas a fio 
a ler, ou a fingir que lia, o Wall Street Journal e o International Herald 
Tribune. Eram mais as vezes em que dormitava do que aquelas em que não o fazia.
Certa vez, quando conduzia pelas estradas do Mónaco cheias de curvas, raspou a 
parte lateral do seu Mercedes. Quando Niang lhe fez perguntas sobre o assunto, o
pai respondeu que aquela montanha nunca lá tinha estado. Enquanto ela discursava
intempestivamente sobre a sua hu ttt (confusão), descobriu com surpresa que ele 
adormecera.
Quando regressou a Hong-Kong, deixou de pintar o cabelo. Assinava o nome com 
dificuldade e treinava-se durante horas seguidas com a porta trancada, 
procurando manter a mão firme. Depois da sua morte eu descobri uma pilha de 
blocos de apontamentos escondidos por detrás de umas toalhas. Todas as páginas 
estavam diligentemente preenchidas com a sua assinatura. À medida que ia lendo o
seu nome uma e outra vez, apercebia-me perfeitamente do espanto e da vergonha 
que deveria ter sentido.
De manhã levantava-se cada vez mais cedo. Nos dias em que ia jogar golfe chamava
o motorista às 4 da manhã para que o levasse ao clube, em Stanley. Quando lá 
chegavam, era ainda noite cerrada e dormitavam no carro, enquanto esperavam que 
os portões se abrissem, às 6 horas.
No início do 1977 recebi uma carta de Niang. Um conceituado médico de Hong-Kong 
tinha aconselhado o pai a deslocar-se à Universidade de Stanford para exames 
médicos. Convidei-os a ficarem em nossa casa. Embora estivesse seriamente 
preocupada com o pai, fiquei muito feliz por terem recorrido a mim para os 
ajudar.
E foi deste modo que, com receio e emoção, eu e Bob tirámos o dia para os irmos 
esperar ao aeroporto. Ao ver o pai com um aspecto tão frágil e enfraquecido, 
chorei. O seu cabelo embranquecera completamente. O olhar era vazio e 
assustadiço. Cumprimentámo-nos formalmente, com um aperto de mão.
Bob tinha conhecido os meus pais três anos antes, numa visita de dois dias a 
Monte Carlo, e ficou chocado com a mudança drástica na aparência de ambos. 
Embora impecavelmente vestida com um casaco de caxemira lilás e usando diamantes
e pérolas, Niang aparentava ter muito mais idade do que os seus 56 anos. Ginger,
a nossa governanta, abriu-nos a porta da frente quando chegámos. Contra um fundo
de
220
grandes bambus na entrada cheia de frescura, estavam os nossos dois filhos, 
Roger e Ann, que correram para nós, ansiosos por cumprimentarem os avós.

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O pai atravessou a ombreira, parou e soltou um pequeno suspiro de prazer perante
a vista maravilhosa sobre o porto, através de uma entrada elevada, brilhante e 
repleta de plantas. A expressão de orgulho do pai deve ter sido de mais para 
Niang, que exclamou num tom irritado:
- Joseph, entra e vai-te sentar! Para onde é que estas a olhar? É só a casa de 
Adeline!
Bob e eu deslocámo-nos de avião a S. Francisco para os acompanhar. Alugámos um 
carro e registámo-nos no hotel Holiday Inn, antes de nos dirigirmos ao centro 
médico onde o pai deu entrada. Fez diversos testes, inclusivamente um TAC. 
Depois levaram-nos para o consultório do professor Hanbury, onde o pai tinha uma
entrevista pessoal com o médico. O pai conseguiu responder a todas as perguntas 
de rotina até ao momento em que o professor Hanbury lhe pediu que subtraísse 7 
de 100.
Fez-se uma curta pausa.
Finalmente, e com grande alívio meu, o pai respondeu: - Noventa e três.
- Por favor, continue. Quanto é 93 menos 7`?
O pai pensou, pensou. Começou a suar. O rosto tornou-se vermelho. Não conseguia 
dar a resposta. Já em desespero de causa, explodiu: - Porque é tudo tão difícil 
para mim'? Eu costumava resolver estes problemas facilmente. Agora é-me 
impossível. Porquê, doutor, porquê`?
Senti-lhe o medo e desejei de todo o coração poder fazer alguma coisa que o 
sossegasse. Olhei para Niang, de pé, com uma expressão aborrecida, e tentei 
passar-lhe o braço em redor dos ombros, mas ela afastou-se, franzindo 
ligeiramente o sobrolho.
- Lamento, mas isso faz parte do processo de envelhecimento - respondeu o 
professor Hanbury. - Vamos deixar as matemáticas de lado, Sr. Yen. Quantos 
filhos tem?
Novamente o pai hesitou. Tentou responder por duas vezes, mas não foi capaz. As 
lágrimas caíram-me pela cara abaixo. Foi de mais para mim.
Bob segurou-me na mão e levou-me lá para fora. Limpou-me as lágrimas com um 
lenço de papel.
221
- Não chores. Afinal aquela pergunta sobre os filhos era difícil. O teu pobre 
pai já não sabe, provavelmente, o que há-de pensar, Conta as filhas deserdadas 
ou não? E, além disso, as que ontem foram deserdadas poderão voltar a cair nas 
suas boas graças amanhã.
O pai submeteu-se a novos testes e ficou no centro durante alguns dias. O 
professor Hanbury informar-nos-ia do diagnóstico final pelo correio. 
Colocámo-nos na bicha do sector administrativo para saldar as
contas e obter os papéis da alta. Por ser cidadão britânico de HongKong, sem 
seguro médico válido para a América, fomos informados de que deveríamos pagar 
imediatamente a quantia total. Ao receber a factura, pude perceber que Niang 
ficara perplexa com o montante. Não estava habituada às tarifas médicas 
americanas. Suavemente, retirei-lhe os papéis das mãos e eu própria passei um 
cheque na totalidade da soma, prometendo-lhe que todas as despesas médicas do 
pai na América ficariam a meu cargo e de Bob.
No Aeroporto de S. Francisco, enquanto tomávamos qualquer coisa no coffee shop à
espera do voo para Los Angeles, Niang levantou-se para comprar uns postais. O 
pai sentia-se aliviado, quase bem-disposto, com o final de todos os exames 
médicos. Para lhe afastar os pensamentos da doença comecei a fazer-lhe perguntas
sobre o seu passado e quis saber qual fora a melhor época de toda a sua vida.
Pensou durante alguns momentos.

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- Foi quando eu era ainda um jovem em Tianjin e vocês eram todos muito 
pequenitos. Tinha acabado de fundar a minha própria companhia e o negócio ia 
bem. Comecei a exportar nozes e andava de campo em campo para inspeccionar a 
qualidade dos fiutos. Costumava começar esta volta de madrugada e, quando dava 
por isso, já tinha escurecido e estava na hora de voltar a correr para casa para
o jantar. Era então que percebia que estava esfomeado e que tinha passado todo o
dia sem comer. Esse foi para mim um tempo muito feliz.
- Conte-me coisas sobre a Adeline! - pediu Bob. - Como era ela quando era 
pequenina?
- Era um ratinho de biblioteca e excelente na escola - respondeu o pai com um 
sorriso. - Habituei-me de tal forma a que fosse a primeira da aula que, quando 
ficava em segundo lugar, censurava-a por isso.
O seu peito enchia-se de orgulho e os meus olhos estavam marejados.
222
Lembro-me de uma vez em que ela ganhou um concurso de escrita que era aberto a 
todas as escolas do mundo em língua veicular inglesa...
A voz tornou-se-lhe mais fraca. Vi-lhe no rosto uma expressão de desconforto e o
seu olhar fixou-se para além de nós. Bob e eu voltámonos e vimos Niang de pé, 
mesmo atrás de mim. Estávamos tão absortos que ninguém a tinha ouvido 
aproximar-se.
- Bem! - disse ela secamente. - De que é que estão a falar? Nenhum de nós sabia 
o que responder, pois não queríamos ser desagradáveis.
- Joseph! - exclamóu ela, irritada. - O que é que foi? O gato comeu-te a língua?
O pai permaneceu mudo e quedo, mas subitamente pareceu diminuir. Enquanto 
estávamos na fila de embarque, veio-me à ideia que, com o passar dos anos, o 
silêncio se tinha tornado a sua couraça.
De regresso a casa, em Huntington Beach, o estado de espírito do pai melhorou o 
suficiente para que sugerisse que convidássemos James para passar umas pequenas 
férias connosco.
Pouco depois da chegada do meu irmão recebemos finalmente a carta do professor 
Hanbury. Niang já tinha sido prevenida pelo médico em Hong-Kong e os seus 
receios acabaram por se confirmar, quase como um anticlímace. O pai sofria de 
atrofia generalizada do cérebro, devido à doença de Alzheimer. O TAC indicava 
que o seu cérebro já só apresentava dois terços do tamanho normal. Era um 
diagnóstico sem esperança, que previa a deterioração progressiva e irreversível 
das suas faculdades mentais, até ao ponto de se tornar num ser vegetal. Em tudo 
o resto estava saudável e não sofreria dores físicas. Não havia tratamento 
conhecido, apenas medidas de apoio.
Sentia boca a secar à medida que ia lendo a carta por cima do ombro de James. 
Lancei os olhos a Niang, que estava sentada ao lado de James e perguntei a mim 
própria se ela estaria consciente das trágicas implicações deste sofrimento. 
Levantou-se de repente e foi para o seu quarto, murmurando que tinha chegado ao 
limite das suas forças e que precisava de descansar. James e eu ficámos 
sozinhos.
Nessa tarde falámos de muitas coisas, pois as implicações da senilidade do pai e
o eventual controlo dos negócios por parte de Niang estavam iminentes. 
Aconselhei-o, uma vez mais, a tomar conta da sua própria vida.
223
- Não posso abandoná-los agora. - disse ele. - Não justamente agora quando estão
s~ ~u ~~ si ntian chu ge (cercados por todos os lados). Não têm mais ninguém.
Ainda que muito me custasse, assenti.
- Além do mais - confessou ele - a velhota está a melhorar. Ontem disse-me uma 

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coisa muito interessante: "O teu pai tem tantos filhos, mas, quando precisa 
deles, só podemos contar contigo e com a Adeline." Há muito de verdade nesta 
frase, não achas`?
- Só tu é que consegues aturar Niang! - exclamei eu com admiração - Qualquer 
outra pessoa já se teria ido embora há muito tempo,
O meu relacionamento pessoal com Niang modificou-se como da noite para o dia 
depois desta visita. Ela chegou a pedir-me que os ajudasse a comprar uma casa 
perto da nossa, onde pudessem passar o Verão, em vez de Monte Carlo. O facto de 
termos sido nós a pagar as contas médicas do pai - ascendendo a cerca de 50 000 
dólares americanos - tocou-a possivelmente. Como médica, eu tinha plena 
consciência do esforço que a doença do pai implicava e não podia deixar de 
sentir compaixão por ela.
O resultado desta aproximação foi a exclusão deliberada de Edgar. Mais tarde, 
nesse mesmo ano, Niang ofereceu uma festa em HongKong para comemorar os 70 anos 
do pai. Gregory e Matilda vieram do Canadá com os seus dois filhos, Bob e eu 
comparecemos com Roger e Ann, James, Louise e a respectiva prole também 
estiveram presentes. Para além da família imediata, havia cerca de uma dúzia de 
convidados. Edgar nunca foi sequer informado e só descobriu o que se tinha 
passado muito tempo depois.
224
23

Chu Cha Dan Fan Arroz branco e chá de má qualidade
Depois da morte de Mao Zedong, em 1976, Deng Xiaoping tornou-se presidente 
adjunto e deu início a uma série de reformas liberais, incluindo a abertura da 
China ao turismo. Em 1979, uns amigos americanos convidaram-nos a irmos com eles
numa excursão organizada a Hong-Kong, Guangzhou, Xangai e Beijing.
Assim, em Dezembro de 1979 embarcámos numa viagem cuja realização teria sido 
absolutamente impensável três anos antes. Eu estava encantada com a ideia de 
voltar a ver a minha tia Baba e foi neste estado de espírito que escrevi a 
contar-lhe da nossa próxima visita. A nossa correspondência esporádica, sempre 
mal vista por Niang, tinha sido interrompida pelo governo chinês desde o início 
da Revolução Cultural, em 1966. A minha tia respondeu-me imediatamente. Voltar a
olhar para a sua caligrafia encheu-me de saudades. Estava a viver num quarto 
situado na casa de um vizinho, na mesma rua, desde 1966 e era lá que eu deveria 
procurá-la. Dizia-se cheia de alegria e ansiosa pelo nosso reencontro.
225
Em Hong-Kong a nossa excursão ficou alojada no Hilton Hotel (que viria a ser 
demolido em 1995), apenas a dez minutos de táxi das Magnolia Mansions. Do 
aeroporto de Kowloon para Hong-gong atravessámos o novo túnel por debaixo do 
porto; o demorado ferry para transporte de veículos já não existia. Não ia a 
Hong-Kong desde 1978 e, ao ser surpreendida pela altura da linha dos prédios, 
fiquei maravilhada com o desenvolvimento fulminante da colónia.
Niang tinha-nos escrito a dizer que o pai estava já incontinente. Da Califórnia 
trouxemos vários pacotes de fraldas para adulto. Quando fomos visitá-los, James 
e Louise já tinham chegado. O aspecto do pai era muito pior. Depois de nos 
cumprimentar com um pequeno sorriso, não disse qualquer palavra durante toda a 
refeição e parecia incapaz de compreender a conversa à sua volta.
Após o jantar fomos para a sala de estar e o pai retirou-se, acompanhado pela 
sua enfermeira da noite. Lá mais em baixo, as luzes de Hong-Kong e Kowloon 
acenavam umas às outras por sobre as águas do porto. O pai costumava falar com 
enlevo da magnífica vista da sua varanda, que se iluminava noite após noite num 

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perpétuo desfilar de luzes.
Niang ofereceu um cigarro a James e ela própria acendeu um. Era este o seu 
ritual todas as vezes que James jantava com ela. James confidenciara-me muitas 
vezes que odiava aqueles cigarros; isso, porém, não o impedia de os aceitar e de
os fumar.
Enquanto fumava lançou-se numa tirada de críticas contra a tia Baba. Fosse o que
fosse que a minha tia nos contasse, pregava Niang, ela enviava-lhe o seu 
subsídio mensal e "dava-lhe tudo aquilo que ela desejava". De seguida começou a 
falar furiosamente contra Lydia, avisando-nos de que a minha irmã ia 
possivelmente tentar que a ajudássemos a levar os filhos para fora da China.
- Não façam nada disso! - ordenou ela. - Se o vosso pai pudesse falar, 
dir-vos-ia que toda a família Sung é um frasco de veneno. Quero que saibam que 
Samuel e Lydia fizeram chantagem com o vosso pai quando regressaram a Tianjin, 
em 1950. À vossa frente hão-de elogiar-vos; nas vossas costas hão-de conspirar 
contra vocês. Se ajudarem um dos membros da família, os outros exigirão que 
também o façam por eles e o mais certo é acabarem todos à porta de vossa casa. 
Vão acabar por virar a vossa vida de pernas para o ar e nenhum deles vos ficará 
agradecido.

226
Adeline - continuou ela -, segue os meus conselhos. A vida tem-te sorrido. Por 
que razão precisas de te misturar com pessoas da laia de Lydia e Samuel? 
Aviso-te, se te meteres com cobras, serás
mordida. Diz a Lydia que o teu pai e eu te proibimos de levantar um só dedo para
os ajudar. Deixa-os apodrecer na miséria! É o que eles merecem! - concluiu Niang
numa voz cada vez mais estridente.
Despedimo-nos assim que pudémos. James e Louise levaram-nos de volta ao Hilton.
- A velhota é vingativa - comentou James já no carro. - A tia Baba deve tê-la 
ofendido no passado. Niang odeia-a e nunca deixará de o fazer.
- E tu, pensas que devo ajudar Lydia, se ela me pedir? - Escreveste-lhe a dizer 
que vinhas à China?
- Não. A única pessoa que quero ver é a tia Baba.
- Então porque não deixas as coisas como estão? Suan le!
O nosso grupo de quarenta pessoas fez a viagem de comboio de Hong-Kong para 
Guangzhou no dia de Natal de 1979. Fomos conduzidos ao Hotel Baiyun (Nuvem 
Branca), um edifício de trinta e três andares. Mesmo sendo um hotel só com dois 
anos, tanto os quartos como o mobiliário tinham um aspecto usado e maltratado. 
Não eram autorizadas gorjetas e o pessoal do hotel era mal-encarado. O 
pequeno-almoço era servido pontualmente às 7.45. Quarenta ovos estrelados 
surgiam em quarenta pratos, dispostos em quatro mesas redondas, de dez pessoas 
cada. A maior parte das pessoas do grupo ainda estava a dormir, enquanto os ovos
esperavam em cima das mesas até ficarem secos. Chaleiras de metal eram atiradas 
para cima das mesas, juntamente com oitenta fatias de pão torrado, vinte para 
cada mesa. Às 9 em ponto terminava o pequeno-almoço. Ovos, torradas e chá eram 
retirados em cinco minutos por empregadas de mesa com ar de exploradas. Foi esta
a nossa apresentação à vida na China comunista.
Dois dias mais tarde partimos de avião para Xangai. À medida que o nosso 
autocarro ia do aeroporto Hongqiao para o Hotel Jinjiang, onde estava previsto 
ficarmos, senti-me a rebentar de emoção. Passámos por umas bonitas mansões da 
época Tudor, de tijolo vermelho, ao estilo colonial inglês, com jardins murados 
e relva verdejante. O autocarro dobrou uma esquina e dei por mim na conhecida 
Avenida Joffre. Uma vez mais apreciei a avenida larga, recta e ladeada de 

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árvores,
227
estendendo-se a perder de vista. Estiquei o pescoço para ler as tabuletas das 
ruas, escritas nos novos caracteres chineses abreviados. A Avenida Joffre 
chamava-se agora Rua Huai Hai. O autocarro virou para leste, cada vez mais para 
leste, para longe do sol da tarde, afugentando centenas de bicicletas à sua 
passagem, como uma baleia gigante rodeada pelo peixe miúdo. Estávamos na Rua 
Huai Hai Zhong (Central). Comecei a reconhecer alguns edifícios. Eram 5 horas da
tarde e, por entre o tilintar das campainhas das bicicletas e o restolhar das 
folhas do arvoredo, nuvens de trabalhadores, igualmente vestindo os seus casacos
à Mao, corriam para casa depois do trabalho.
E subitamente lá estavam eles! À medida que o nosso autocarro se aproximava do 
centro da antiga concessão francesa, da paisagem citadina destacou-se uma visão 
mais poderosa para mim do que qualquer outra: dois modestos pilares guardavam a 
entrada da rua da minha lao jia (antiga casa da minha família). Lá estavam as 
casas cinzentas de cimento, sólidas, imutáveis, como uma gravura do passado. De 
muitas das janelas emergiam paus de bambu carregados de peças de roupa a secar: 
roupa interior, lençóis, cobertores, fatos à Mao, todas elas esvoaçavam ao 
vento.
Rapidamente o autocarro passou além dos limites da minha infancia. Deitei o 
olhar aos Jardins Do Yuen e ao Cinema Cathay. As inúmeras lojas das redondezas 
já não ostentavam tabuletas coloridas e bilingues. Longe ia o tempo dos anúncios
de néon em azul, vermelho, verde, roxo e branco. Longe ia o tempo dos 
cabeleireiros, casas de modas, livrarias, cafés e padarias francesas.
Agora as lojas, sem nova pintura e gastas pelo tempo, mostravam nomes mortiços 
escritos nos novos caracteres chineses simplificados, anunciando os seus 
produtos. Não se vendiam artigos de luxo. Trinta anos haviam passado, um período
durante o qual Xangai tinha perdido o seu brilho e a sua alegria, mas durante o 
qual, pelo menos, tinham desaparecido os mendigos e os corpos de meninas 
recém-nascidas embrulhados em jornais.
O autocarro voltou em direcção ao norte, muito perto do Cinema Cathay, e parou 
em frente do nosso hotel, a poucas centenas de metros da minha antiga escola 
primária Sheng Xin. Bob e eu largámos a nossa bagagem e apanhámos imediatamente 
um táxi para ir visitar a minha tia. Era o mês de Dezembro e o dia estava 
extremamente frio. Na cidade, a linha do horizonte estava envolta numa bruma 
amarelada de
228

poluição. Bob pediu-me que dissesse ao motorista do táxi que desse uma pequena 
volta pelo Bund, em tempos conhecido com a Wall Street da China. Estava radiante
por poder conversar no meu dialecto de origem e de o ouvir à minha volta uma vez
mais, passados trinta anos. Depressa me pareceu que nunca tinha saído da cidade.
Quinze minutos depois percorríamos já a ampla curva do rio Huangpu, passando 
rapidamente pelo Parque Huangpu (o mesmo onde cães e chineses eram infamemente 
proibidos de entrar) e pelas imponentes torres de escritórios erigidas pelos 
Britânicos nos anos 30. Não havia qualquer alteração nas fachadas exteriores, 
embora das janelas de alguns andares altos saíssem inapropriadamente os paus de 
bambu repletos de roupa a secar.
O nosso táxi voltou à esquerda no Peace Hotel, com a sua inconfundível torre 
triangular a brilhar contra o céu do entardecer, seguiu a movimentada Nanjing Lu
(anterior Rua de Nanquim) a formigar de peões e bicicletas. Passámos pelos 
grandes armazéns, estúdios fotográficos, restaurantes e mercados abastecedores; 

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avistamos o banco da minha tia-avó, no n.° 480 da Rua Nanquim, ainda um edifício
imponente, agora chamado Banco de Comércio e Indústria. Era já escuro quando 
chegámos ao nosso destino. A tia Baba vivia no n.° 21, outrora uma magnífica 
casa, agora a precisar de arranjos, aliás como todas as da vizinhança. A rua era
mal iluminada e tivemos de tactear o caminho dentro do edificio. A porta da 
frente estava entreaberta para quem quisesse entrar.
Mal penetrámos no edifício, o cheiro atingiu-nos como um golpe fisico. Nunca 
tínhamos visto nada assim. O lixo e o suor dos que ali tinham vivido nos últimos
trinta anos entranhara-se em tudo. Cheirava a comida apodrecida, corpos por 
lavar, roupa suja e canos entupidos. Embora houvesse lixo e poeira pelas escadas
e entrada, havia algumas bicicletas polidas, oleadas e fechadas a cadeado 
encostadas às paredes sujas.
À medida que subia as escadas, o coração ia-me pesando e chamei: - Tia Baba, tia
Baba!
E lá estava ela, uma figurinha minúscula no contraluz da porta entreaberta. Que 
pequenina que era! Bob e eu éramos umas torres à vista dela! Abracei-a com toda 
a força e senti o corpito esquelético dentro do casaco à Máo largueirão. Não 
pesava mais de 40 quilos.
Levou-nos ao seu quarto e fez-nos sentar na cama dela. Deitou-nos um olhar 
demorado, os olhos a brilharem de orgulho.
229
- A tua letra não é muito diferente da daquela menina que partiu daqui em 1948! 
Não é caligrafia de uma médica que estudou em Inglaterra e na América. Ainda é a
letra de uma criança da escola primária! - exclamou ela com a voz repleta de 
emoção.
O quarto era frio e cinzento. A única peça de mobiliário era uma cama, uma mesa 
de madeira e uma pequena cadeira de costas direitas. Tudo o que tinha no mundo 
era guardado num grande baú de madeira
e dentro de algumas caixas de cartão arrumadas em filas. Tinha ainda um pequeno 
fogão de querosene, no qual estava a cozer uma panela de sopa de fitas. Debaixo 
da cama havia um bacio de plástico. Da parte central do tecto pendiam alguns 
fios eléctricos, aos quais estava ligada uma lâmpada sem quebra-luz.
Ela considerava-se uma pessoa de sorte por ter tido um quarto só para si durante
trinta anos. O próprio dono da casa tinha de partilhar um quarto com a mulher e 
dois filhos. O edifício abrigava agora nove famílias.
Serviu-nos as fitas acabadas de cozinhar com vegetais em conserva. Observei-a 
atentamente enquanto se movimentava no quarto, tal e qual como costumava fazer 
quando era pequenina e ela era todo o meu mundo. O seu cabelo fininho estava 
agora quase branco e cuidadosamente apanhado num totó preso na nuca. Os seus 
grandes olhos pareceram-me encovados, delineados pelas sobrancelhas da mesma cor
que o cabelo.
Apertei a sua mão pequenina, enquanto contávamos uma à outra as histórias das 
nossas vidas, tentando percorrer a distância de trinta anos que nos separara. A 
voz da minha tia transformou-se num sussurro. O medo de denúncias e dos 
informadores não seria vencido tão depressa. - Parece impossível podermos 
estarem frente uma da outra, assim, a falar de tudo e de nada! Há três anos, 
durante a Revolução Cultural, isto teria sido perigoso.
Falámos pela noite fora. Tornou a contar-me a história da nossa família e 
pediu-me que escrevesse estas memórias antes que o tempo as apagasse de vez.
- Toda a nossa família sofreu quando Niang veio para nossa casa. O encanto que 
ela lançou ao teu pai foi como o da raposa das histórias antigas. Para além da 
sua juventude e beleza, ele provavelmente encan tou-se com o seu sangue 

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estrangeiro. Lembra-te de que ele cresceu na concessão francesa, numa época 
única na China. Todos nós somos vítimas da história.

230

Nessa noite, antes de nos despedirmos, a tia Baba disse-nos que tinha um 
presente para nós. Rebuscou durante algum tempo dentro de um velho baú e 
finalmente, de dentro do forro do seu casaco de Inverno, tirou um envelope 
cuidadosamente dobrado. Ao abri-lo, descobri uma velha nota de 100 dólares que 
ela devia ter guardada há, pelo menos, trinta anos. Ficámos em silêncio durante 
longos minutos, receosos de que as palavras pudessem quebrar a magia daquele 
momento, que estava para além de toda a alegria e de toda a tristeza.
No dia seguinte levei a tia Baba até ao nosso hotel, onde pôde tomar o seu 
primeiro banho em muitos anos. O guia do nosso grupo, um membro do partido, 
olhou-a com desprezo. Nesse tempo era política não oficial da China dividir as 
pessoas em quatro grupos, recebendo cada um deles um tratamento distinto.
À primeira classe pertenciam os turistas, especialmente se eram norte-americanos
ricos. Na segunda classe incluíam-se os chineses ultramarinos que falavam 
chinês. Eu pertencia a esta categoria. Éramos tratados como heróis regressados a
casa, proporcionando à China o apoio para uma nova estrutura económica. Na 
terceira classe arrumavam-se os hua giao (pessoas de etnia chinesa nascidas na 
América), cujos pais tinham emigrado antes de 1949 e que não falavam chinês. Era
o caso de Bob. Eram recebidos com um tudo-nada de desprezo misturado com honras 
manifestas; o prato da balança pendia para um dos lados, de acordo com o sucesso
profissional e a prosperidade atingida. A ideia geral era a de que toda a gente 
que vinha da América era rica e tinha bons conhecimentos. À quarta categoria 
pertenciam as centenas de milhões de chineses nascidos na China, como a tia 
Baba. A roupa que usavam e a atitude que tinham faziam que facilmente se 
distinguissem dos restantes.
O guia da nossa excursão ficou furioso quando convidei a minha tia para almoçar 
connosco na sala de jantar do 11.° andar do Hotel Jinjiang. Repreendeu-a por não
se saber pôr no seu lugar e por abusar da minha hospitalidade. Bob e eu não 
escondemos o nosso desagrado. Com o apoio dos outros participantes da excursão, 
a tia Baba tomou o almoço, mas recusou-se a pôr novamente os pés na sala de 
jantar.
Durante os cinco dias que passámos em Xangai fui buscar a minha tia para que ela
tomasse o seu banho quente no quarto do nosso hotel. O tempo não era suficiente 
para dizermos uma à outra tudo o que queríamos.
231
Ofereci-me para lhe comprar um apartamento em Xangai, nurn prédio que estava a 
ser construído nas proximidades do nosso hotel. Ela recusou, dizendo que não era
seu desejo sair da zona onde sempre tinha vivido.
- Vivo na mesma rua desde 1943 - disse-me ela -, a minha casa é aqui. O único 
sítio para onde gostaria de ir era a nossa antiga casa, no n.° 5. Se conseguires
voltar a comprá-la para mim, morrerei feliz.
Dois anos mais tarde, Bob e eu conseguimos comprar a casa em nome dela. Lá viveu
até à data da sua morte.
Perguntei-lhe se se arrependia de ter ficado em Xangai. Como resposta ouvi um 
"não" inequívoco:
- Tenho passado mal aqui, com todas essas campanhas e reuniões de luta, a 
selvajaria da Revolução Cultural, pobreza, agruras e medo. Mas, honestamente, 
acho que todas estas misérias juntas se suportam melhor do que viver com a tua 

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Niang, debaixo do mesmo tecto. Estou satisfeita com cu cha dan fan (chá de má 
qualidade e arroz branco). Penso muitas vezes na vida como um depósito de tempo.
A cada um de nós são atribuídos uns tantos anos, tal e qual como uma determinada
soma num banco. Quando as vinte e quatro horas acabam de passar, gastei mais um 
dia. Li no People's Daily que a esperança média de vida para uma mulher chinesa 
é de 72 anos. Eu já tenho 74. Já esgotei o meu depósito há dois anos e já estou 
a gozar um bónus. Cada dia é um presente. De que me posso queixar?
O nosso olhar cruzou-se. A coragem desafiante que encontrei nos seus olhos 
surpreendeu-me. Depois, uma voz cuja eloquência contrastava estranhamente com a 
fragilidade do seu corpo disse:
- Da maneira como eu as vejo, as coisas são assim: o século xix foi o século 
britânico; o século xx é um século americano. Prevejo que o século xxí seja um 
século chinês. O pêndulo da história oscilará das cinzas ying trazidas pela 
Revolução Cultural para a fénix yang que surgirá dos seus destroços.
°° Na mitologia e filosofia chinesas, ying é o princípio feminino gerador oposto
a yang, o princípio masculino. (N, da T.)
232

24
Yin Shui Si Yuan Quando beberes água, lembra-te da fonte
O nosso grupo voou para Beijing na véspera de Ano Novo. À chegada a tarde estava
soalheira, mas fria. Sobre o telhado do novo terminal do aeroporto uma 
fotografia gigante do presidente Mao sorria-nos, ladeada por dois caracteres 
chineses gigantes, pintados a vermelho, 3E; ,~ Beijing (Capital do Norte). Aos 
microfones, uma voz feminina e graciosa anunciava: "Beijing dá-vos as 
boas-vindas."
Quando saímos do sector da imigração, uma chinesa de meia-idade correu para nós.
O seu cabelo preto estava mal pintado e usava um casaco castanho com uma gola de
pele artificial.
- Wu mei! - chamou ela. - .~.~ Wu mei (Quinta Irmã Mais Nova)! És tu?
Nunca mais ninguém me chamara wu mei desde os tempos longínquos da minha 
infância em Xangai. Agora ali estava ela, à minha frente, com um sorriso de 
orelha a orelha. Qualquer coisa na sua postura, os ombros um pouco desiguais e 
descaídos, a cara arredondada e inclinada, a mão esquerda semiparalisada, 
firmemente agarrada pela

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direita com os dez dedos entrelaçados, tudo isto me trouxe à lembrança memórias 
do passado distante. Sem querer, comecei a falar o chinês familiar da minha 
infância:
- -~ ~ Jie jie (Irmã Mais Velha) - respondi respeitosamente sou eu.
Embora não estivesse à espera de ninguém, a minha irmã Lydia e toda a sua 
família tinham feito a viagem de Tianjin até ali para nos virem esperar ao 
aeroporto. A tia Baba tinha telefonado de Xangai a dar-lhe o nosso itinerário. 
Já lá iam trinta e um anos desde que eu tinha visto Lydia e o marido. Não 
conhecia os filhos.
Assim, lado a lado, apercebi-me de que era agora uns 5 centímetros mais alta do 
que Lydia. Cheia de emoção, ela gesticulava para o resto da família. Samuel 
estava já na casa dos 60, vestia um fato à Mao coberto por um sobretudo 
brilhante de vinil azul-escuro e um boné de trabalhador. Atrás dele estava um 
jovem alto de 27 anos, o filho Taiway, e uma filha baixinha de 30, Tai-ling.

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Adeline_Yen_Mah_-_FOLHAS_CAIDAS

Estava previsto que o nosso grupo ficasse no grande Friendship Hotel. Construído
pelos Soviéticos nos anos 50, era um edifício claramente russo, tanto na sua 
arquitectura como no desenho formal dos jardins, fazendo-me lembrar fotografias 
que eu tinha visto dos palácios de Inverno dos czares. Lydia e a família tinham 
feito uma reserva no mesmo hotel. O táxi deles seguiu o autocarro da nossa 
excursão e fizemos o registo em conjunto. Encolhi-me quando vi alguns rapazes da
portaria a empurrarem Samuel para o lado, enquanto, respeitosamente, passavam 
alguns membros do nosso grupo para a frente da fila.
A seguir ao jantar, Bob e eu fomos à suite de Lydia, conforme combinado. A 
filha, Tai-ling, não se sentia bem e já se tinha ido deitar. Sentámo-nos os 
cinco e começámos aquela que seria uma noite muito longa.
Em tom de remorso, Lydia confessou:
- É-nos penoso lembrar como foste rejeitada quando eras criança. A culpa foi 
principalmente minha, porque, sendo a irmã mais velha, deveria ter dado o 
exemplo. Falhei. Sendo tu a mais nova e a enteada menos importante, foste não só
insultada, mas também ameaçada por todos nós. Só tenho desculpa por também eu 
ser ainda uma criança. Além disso, não éramos encorajados a sermos leais uns 
para com os outros, porque Niang tinha medo de que nos pudéssemos unir contra 
ela.
234

- Quando eras pequenina - continuou Lydia -, os nossos pais deixaram bem claro 
que tu eras indesejável e inútil. Às vezes Niang até dizia em voz alta que eras 
horrível. Quando o pai e Niang vieram a Tianjin, em 1948, Niang deu ordens para 
que eu não te fosse visitar em St Joseph's nem te retirasse do colégio durante 
as férias. Ela vincou que não toleraria qualquer desobediência e que as freiras 
tinham ordens para lhe enviarem relatórios regularmente. Nessa altura eu própria
me sentia triste de mais para pensar em ti. Estava enganada e peço-te que me 
desculpes.
Lydia culpava Samuel pela sua "estupidez" em regressar à China com a família em 
1950 e falou da infelicidade deles como se ele fosse pessoalmente responsável 
por ela. Era culpa dele se os Guardas Vermelhos lhe tinham rapado metade do 
cabelo, se a tinham fechado num armário e se tinham enviado os seus filhos para 
comunas rurais. Durante todo o tempo em que Lydia falou, Samuel esteve sentado 
ao seu lado com um sorriso forçado. O quarto estava tão quente que o seu couro 
cabeludo, agora careca, se cobria de gotas de suor. A sua expressão nunca se 
alterou e nem um só músculo se moveu.
- Durante estes anos tenho escrito muitas vezes aos nossos pais a pedir-lhes 
ajuda. Nunca acusaram sequer a recepção das minhas cartas. Niang é uma mulher 
doente, a fervilhar de ódio. Conheço-a bem. Aquilo de que mais gosta são 
intrigas. Quanto mais nós sofremos, mais feliz ela se sente.
- Na nossa família - continuou Lydia - tu és a única que tem a coragem de fazer 
o que está certo e de desafiar Niang. Gregory e Edgar são egoístas e avarentos. 
Susan e eu fazemos uma grande diferença de idades. James é um homem honesto, mas
dirá sempre "ámen" a tudo e não tem força de vontade.
Foi então que Lydia chegou ao ponto que queria. Para ela e para Samuel não 
desejava nada. Tai-ling estava quase arrumada, pois tinha um bom namorado em 
Tianjin e não desejava sair da China. Além disso, tanto ela como Samuel estavam 
a ficar velhos e precisavam que a filha estivesse por perto. Mas, quanto a 
Tai-way, ela expôs o caso com empenho:
- Os meus dois filhos são tão diferentes como o dia da noite. A minha filha é 
egoísta e difícil, mas o meu filho tem um coração bom e leal. É um músico de 

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Adeline_Yen_Mah_-_FOLHAS_CAIDAS

talento e ganhou muitos concursos de piano. Estuda agora com Liu Shi-kuen, o 
famoso vencedor do concurso de
235
composições de Tchaikovsky para piano, em Moscovo. O que te peço é que lhe dês 
uma oportunidade e que o patrocines para ir fazer a universidade na América.
Lydia voltou-se então para o filho:
- Tai-way também te quer dizer algumas palavras. Tai-way falou em mandarim:
- Quinta Tia, não a conheço e a tia também não me conhece. É muito generoso da 
sua parte gastar o seu tempo para se encontrar connosco. Por aquilo que a minha 
mãe me contou, vejo que teve de lutar muito para chegar onde está hoje. Talvez 
no seu coração encontre maneira de me dar uma ajuda.
Contou-nos então como tinha parado.de estudar durante dez anos por causa da 
Revolução Cultural. Tinha sido enviado para uma comuna na província de Shanxi, 
onde as condições de vida eram primitivas e a comida escassa. Em vez de ir à 
escola, trabalhava numa quinta como qualquer outro trabalhador. Tudo isto teria 
sido suportável se houvesse uma réstia de esperança para o futuro. Porém, na 
China esse era um sonho impossível.
- Por vezes - dizia Samuel -, quando penso na minha vida daqui a dez ou vinte 
anos, sou tomado de desespero. Vejo-me a tocar piano numa aldeola remota, a 
ensinar música a crianças desinteressadas ou a acompanhar espectáculos de 
amadores montados por camponeses. Continuarei talvez a lutar pela vida tentando 
manter juntos a alma e o corpo, insistirei provavelmente em escrever cartas à 
tia Baba, pedindo-lhe embalagens de alimentos. O meu pai tem parentes ricos em 
Taiwan e os pais da minha mãe vivem em Hong-Kong. E, contudo, ninguém quer 
ajudar-me. É inútil e degradante continuar a escrever-lhes. Não tenho mais 
ninguém a quem recorrer; a tia é a minha única esperança. Por favor, ajude-me a 
ir para a América e eu ficar-lhe-ei grato para o resto da vida.
Enchi-me de pena daquele rapaz que por acaso era meu sobrinho. Não tive como 
recusar. Limpando uma lágrima com um grande lenço já fora de moda, Lydia 
acrescentou:
- É muito o que te pedimos para fazeres: arriscas-te à raiva de Niang ao 
patrocinares Tai-way. Poderás mesmo ser deserdada, se eles descobrirem que nos 
estás a ajudar. Seja o que for que decidas, estou contente por termos passado 
esta noite juntos, numa conversa em que os nossos corações falaram. Aconteça o 
que acontecer, gostarei sempre de ti. ~ ~k m ~~ Yin shui si yuan (Quando beberes
água, lembra-te da fonte).
236

Vieram-me à ideia muitos pensamentos. Parecia-me injusto a vida ter-me dado 
tanta coisa, ao passo que a ela lhe mostrava o lado mais desastroso. Seria esta 
reunião uma das tais encruzilhadas para testar a minha coragem? Se os papéis 
estivessem invertidos e eu tivesse sido a filha deixada na China comunista, 
ficaria de certeza grata se a minha irmã me desse uma ajuda.
Senti que não tinha outra alternativa e assegurei-lhes que ficaria muito 
contente por fazer o que pudesse por Tai-way. Acrescentei que pediria a 
colaboração de todos os nossos irmãos, na esperança de que a educação de Tai-way
no Ocidente fosse o elo catalisador da união entre todos nós.
Quando regressei à América, consegui inscrever Tai-way na University of Southern
California. Assinei a declaração de sustento e o meu sobrinho chegou alguns 
meses depois. Durante os catorze meses que se seguiram tratámo-lo como um 
segundo filho.

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Durante o segundo ano transferiu-se para a University of Indiana, onde Leonard 
Bernstein o aconselhou a prosseguir a sua carreira musical na Alemanha. Um ano 
mais tarde partiu para Estugarda e tornou-se financeiramente independente, 
depois de obter um emprego como acompanhante de ballet. Continuamos a manter 
contacto permanente com ele.
Em 1983, o professor John Leland, um grande amigo e colega de Bob, tinha 
previsto passar um ano sabático na Universidade de Tianjin. Apresentámo-lo a 
Samuel e a Lydia. Ele e a mulher tornaram-se amigos de toda a família Sung. 
Ficamos encantados ao saber que ele tinha conseguido arranjar uma bolsa completa
a Tai-ling para a Universidade da Carolina do Norte quando o seu romance 
efervesceu. Lydia e Samuel ficaram tão gratos que nos enviaram uma carpeta como 
forma de agradecimento especial.
Em 1986 Lydia viajou para a Alemanha para ver Tai-way. Comprei-lhe um bilhete de
avião para que pudesse ir a Nova Iorque ver a filha e fazer-nos uma visita na 
Califórnia. Durante os dez dias em que esteve em nossa casa passamos muitas 
horas a conversar sobre os anos em que tínhamos estado separadas. 
Confidenciei-lhe que andava a aconselhar James a emigrar de Hong-Kong antes de 
1997, uma ideia que Niang não aceitava muito bem. Dei-lhe notícias da vida 
desolada que Niang levava e mostrei-lhe fotografias do pai, já senil, deitado, 
encolhido, indiferente a tudo, no Sanatório de Hong-Kong.
237
O pai dera entrada no quarto 525 do Sanatório de Hong-Kong em 1982. Nunca mais 
deixou o hospital e ocupou o mesmo quarto até morrer, seis anos mais tarde.
Niang contratou três enfermeiras durante o dia e duas durante a noite. 
Diariamente, e durante uma hora, vinha também um fisioterapeuta. As suas duas 
criadas cantonenses tinham instruções para cozinharem os seus pratos favoritos, 
que o motorista ia entregar.
Susan ficou extremamente preocupada quando soube da hospitalização do pai. Foi 
visitá-lo ao seu quarto particular. Era tarde de mais. O pai já não a 
reconheceu. As enfermeiras comunicaram as visitas de
Susan a Niang, que, por sua vez, ficou furiosa. Deu instruções a James para 
ameaçar Susan com uma acção em tribunal caso a nossa meia-irmã tentasse visitar 
o pai outra vez.
Niang criou a sua própria rotina. Todas as manhãs passava duas horas no 
escritório do pai em Swire House. James e o Sr. Lu, o leal director financeiro 
do pai, relatavam-lhe o abrandamento e a venda dos
vários negócios do pai. Sete tardes por semana, das 4 às 6, ia visitar o pai ao 
hospital. Passava as suas noites em casa e deixara de participar em eventos 
sociais. Todos os domingos James, Louise e as três crianças iam jantar com ela, 
relutante, mas prontamente.
Tornou-se uma fumadora inveterada e passava horas sentada no seu sofá imitação 
de Luís XVI, voltada para o Porto de Vitória a fumar, enchendo a sala de fumo. À
noite, e apesar da grande quantidade de
comprimidos que tomava, tinha dificuldade em dormir. Contratou uma enfermeira 
que vinha fazer-lhe companhia durante a noite e conversava com ela nas primeiras
horas da manhã.
Confessei a James que me era extremamente penoso ver o pai reduzido àquele 
estado em que se encontrava e acrescentei que devia ser ainda mais difícil para 
Niang.
- Não te deixes levar por tudo isso - disse James. - A maior parte do que faz é 
só para que os outros vejam. A sociedade de HongKong é muito pequena. Tanto 
Gregory como Edgar estão inconsoláveis

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Com os olhos rasos de lágrimas, ela pediu-me que interviesse: Lydia queria ver o
pai pela última vez e ser uma companhia para Niang. Telefonei a Niang e fiz-lhe 
o pedido. A nossa madrasta cedeu final
mente e concordou em recebê-la. Comprei imediatamente a Lydia uma passagem para 
Hong-Kong. Lydia e Niang reconciliaram-se e Niang perdoou-me finalmente por 
ajudar a família de Lydia.
por ela ter transferido todo o dinheiro do pai para o seu próprio nome. ge ela 
desse algum sinal de negligência para com o pai, abriria contra si própria uma 
acção em tribunal. Na verdade, os nossos dois irmãos mais velhos já puseram em 
causa a legitimidade das suas operações financeiras. Não falaram contigo sobre 
esse assunto?
- Falaram. Gregory telefonou-me a perguntar se eu me juntaria a ele e a Edgar 
numa acção legal contra Niang. Teme que Niang possa casar-se outra vez. Eu 
disse-lhe que não pensasse nisso. Acho que neste momento Niang precisa é do 
nosso apoio moral.
Sempre que 1997 vinha à baila, Niang hesitava entre permanecer ou não em 
Hong-Kong.
- Não vai acontecer nada. Hong-Kong é valiosa de mais para os comunistas 
chineses - argumentava ela. - Seria um suicídio financeiro para todo o país. O 
mais provável é que o milagre económico de Hong-Kong alastre à China depois de 
1997.
Uma vez ela chegou a dizer-me:
- Na verdade, o teu pai e eu somos cidadãos do mundo. Se a situação piorar, 
podemos ir para qualquer país de um momento para o outro. Gostaria que 
procurasses uma casa para nós em Huntington Beach, perto da vossa, para o caso 
de termos de sair de Hong-Kong.
Em 1984 foi assinada uma declaração conjunta depois de anos de diálogo entre a 
Grã-Bretanha e a China. A totalidade do território de HongKong seria entregue à 
China a 1 de Julho de 1997, o que incluía a ilha de Hong-Kong, a península de 
Kowloon e os Novos Territórios. Contudo, aos cidadãos de Hong-Kong era 
assegurado que gozariam das mesmas liberdades e direitos legais por mais 
cinquenta anos após a transferência da soberania. Entre 1997 e 2047 Hong-Kong e 
a China seriam um só país, mas com dois sistemas diferentes de administração 
governamental.
O valor das propriedades em Hong-Kong sofreu uma descida abrupta depois deste 
anúncio. James estava pessimista quanto ao futuro da colónia. Todos os seus 
amigos influentes planeavam emigrar. Muitos tinham já obtido a cidadania 
americana, britânica, australiana ou canadiana. Na maioria dos casos, o 
emigrante permanecia neste país de adopção durante o período mínimo de tempo 
para obter um passaporte e regressar depois a Hong-Kong. Por vezes só a mulher e
os filhos permaneciam no estrangeiro e o marido transformava-se num tai hong ren
(astronauta de um vaivém) entre os dois países.
239

25
Yi Dao Liang Duan
Cortar esta relação com um só golpe
Em Maio de 1988 recebemos um telefonema de James a dizer que o pai tinha piorado
subitamente e que não se esperava que vivesse mais de vinte e quatro horas. 
Telefonei a Lydia em Tianjin, pressupondo que mais ninguém o tivesse feito.
- Nunca ninguém se lembra de mim - lamentou-se ao telefone -, não me dão 

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importância nenhuma. Provavelmente, nem me caberá nada do testamento do pai.
Ao ouvir estas palavras, lembrei-me de que o pai tinha deserdado Lydia na altura
em que ela e o marido tinham feito chantagem com ele, pelo que os seus receios 
não deixavam de ter fundamento.
- Não te preocupes, Lydia - disse-lhe eu -, o que me couber divido contigo.
O pai morreu algumas horas mais tarde.
Em Hong-Kong James foi esperar-me ao aeroporto e conduziu-me a um pequeno hotel 
- o New Asia - perto do seu apartamento, onde Niang tinha feito as reservas para
todos nós. Viajei sozinha, pois Bob
não pudera deixar o trabalho. Todos ficámos surpreendidos ao saber que Lydia já 
tinha chegado de Tianjin e tinha sido convidada por Niang a ficar em Magnolia 
Mansions.
James levou-nos no carro até à sala do funeral, em North Point. Aí encontrámos 
Niang, Lydia e Louise. Numa sala grande, nua e gelada, onde o ar condicionado 
estava exageradamente frio, de paredes forradas a pequenos azulejos brancos e 
tresandando a desinfectante, encontrámos o corpo do pai sobre um divã negro, 
coberto por um lençol de seda branca encimado por uma grande cruz amarela. 
Parecia ter encolhido e perdido qualquer esplendor. A doença de Alzheimer tinha 
cobrado a sua factura, devorando, célula após célula, todo o seu cérebro durante
doze longos anos, até deixar de ser um ser humano. Um padre católico pronunciou 
apenas algumas palavras:
- As cinzas às cinzas, o pó ao pó.
Cumprido o destino do pai, nós, "as crianças", transformámo-nos subitamente na 
geração mais velha.
Em fila, atravessámos inúmeras salas onde outras famílias velavam os seus 
mortos. Monges budistas, de cabeças rapadas e túnicas esvoaçantes, usavam o 
elevador lado a lado com os padres católicos nas suas batinas negras. Havia 
arranjos florais por todos os cantos e o gelo da morte corria no ar.
Além dos membros da nossa família apenas estavam presentes as enfermeiras, as 
criadas e o Sr. Lu, o empregado de confiança do pai há mais de trinta anos. 
Embora Gregory e eu tivéssemos informado Susan da morte do pai, Niang não a 
tinha convidado e, propositadamente, omitira o seu nome da secção de óbito dos 
jornais. Não houve amigos presentes. Seguimos o cortejo fúnebre até ao cemitério
católico. O caixão do pai foi levado por carregadores profissionais, pela 
escadaria íngreme que conduzia ao local da sepultura, encastoada na colina.
Durante alguns dias o tempo ganhou uma dimensão diferente, à medida que o 
passado e o presente se fundiam. Quando demos por nós, estávamos reunidos no 
escritório dos Johnson, Stokes & Masters para a leitura do testamento do pai. A 
última vez em que estivéramos todos reunidos fora quarenta anos antes em Xangai.
Sentei-me na minha cadeira, de costas direitas, saia preta imediatamente acima 
do joelho, quase à espera de que surgissem algumas empregadas com os pratos para
o jantar. No topo da mesa, Niang e o jovem advogado conferenciavam com ar sério 
em voz baixa.
240
241
À minha esquerda, Lydia tinha um aspecto sombrio e colocara o seu braço são 
afectuosamente à minha volta. Os olhos de Gregory ainda estavam vermelhos e 
inchados. Nervosamente, James cruzava e
descruzava as mãos, enquanto gotas de suor lhe perlavam a fronte. Louise, a sua 
mulher, tinha um aspecto elegante num vestido preto de corte simples. As feições
de Edgar mantinham o seu habitual aspecto grotesco, que o desgosto acentuava 
ainda mais.

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No momento em que o jovem advogado leu a primeira página do testamento do pai, 
anunciando depois que não existia um centavo nos seus haveres, ouviu-se um "oh" 
colectivo. Engolimos em seco e
olhámos para Niang. Calmamente, ela encarou-nos um a um. A sua expressão era uma
mistura de triunfo e desprezo e, numa voz fria e clara, anunciou que o 
testamento do pai não tinha qualquer significado, pois ele tinha falecido sem um
tostão.
Embora todos soubéssemos que ela tinha transferido todo o dinheiro do pai para a
conta que tinha em seu nome, ficámos boquiabertos ao perceber que tinha ficado 
com tudo o resto: duas toneladas de lingotes
de ouro na Suíça, acções na bolsa e em empresas, condomínios em Monte Carlo e 
Hong-Kong, edificios industriais em Cha Wan, o escritório alugado em Swire 
House, terrenos na Florida ... O pai tinha morrido sem um tostão, mas vivia há 
já algum tempo também sem um tostão.
Anos antes, em 1950, o pai tinha ido com Gregory visitar um conhecido adivinho 
em Hong-Kong, que tinha a alcunha de "Ábaco de Ferro", pois fazia previsões com 
uma grande precisão. Acima de tudo, na mente do pai estava esta pergunta: "Será 
que Gregory, o meu filho mais velho, vai ser um homem rico?"
O Sr. Ábaco de Ferro não se quis comprometer:
- A riqueza é tão relativa ... - disse ele ao pai - Para o homem do riquexó 100 
dólares de Hong-Kong é uma grande riqueza, mas para si isso não é nada. O seu 
filho mais velho vai ter uma vida confortável. Todavia o pai achou que esta 
resposta não era suficiente:
--- O que eu desejo saber é se o meu filho mais velho vai ser mais rico do que 
eu.
O adivinho fez alguns cálculos e em seguida exclamou:
- Sim, sim, Sr. Yen! O seu filho será muitas, mas muitas vezes mais rico do que 
o senhor. Disso tenho absoluta certeza.
242

O pai ficou satisfeito. Porém, à medida que os anos foram passando e Gregory não
singrava na carreira, o pai abanava a cabeça e murmurava que o Sr. Ábaco de 
Ferro gozava de uma falsa reputação.
~ ~ .~ ~j` Tu jiao gui mao, you ming wu shi (Tal como os chifres do coelho e os 
pêlos da tartaruga, o adivinho tinha fama, mas não possuía substância).
Quando íamos a atravessar o hall de granito da Johnson, Stokes & Masters, 
cutuquei Gregory e disse-lhe baixinho:

 

- Parece que o Sr. Ábaco de Ferro acertou outra vez em cheio! . ,

Gregory,

por sua vez, sussurrou:
- Eu sempre disse ao Velhote que me desse tempo.
Nessa noite Niang quis deitar-se cedo. Lydia telefonou a dizer-me que o 
motorista de Niang a deixaria no nosso hotel, pois queria passar a noite comigo.
Depois do jantar Lydia e eu voltámos para o meu quarto. Vestimos a camisa de 
noite e cada uma de nós se meteu na sua cama, lado a lado. Com a ajuda do 
candeeiro da mesinha-de-cabeceira colocada no meio das nossas duas camas, eu via
a expressão do seu rosto: uma espécie de determinação cega, uma fúria de 
concentração. A amargura da sua vida foi jorrando numa torrente de palavras.
Começou por me culpar por eu não ajudar a filha Tai-ling. Segundo ela, eu era 
avarenta e deveria ter dado a Tai-ling o mesmo dinheiro que dera a Tai-way.
- Além do mais - acrescentou ela friamente -, só ajudaste Taiway por ele ser 
jovem e bonito.
- O que é que queres dizer com isso? - perguntei eu zangada. - Tira as tuas 

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conclusões.
Fiquei sem fala perante acusações deste calibre, totalmente inesperadas e 
formando um tão grande contraste com as suas anteriores manifestações de amor e 
gratidão. Era como se esta mulher estranha e infeliz me tivesse atirado para um 
redemoinho. Cada uma das minhas respostas dava origem a novos ataques cheios de 
veneno. ,
- O que é que se está a passar entre nós? O que é que tens contra mim? - 
perguntei de forma patética.
- Durante estes dias tens-te comportado como uma rainha e tens-me tratado como 
uma criada - continuou sem perder o fôlego. Cheguei a um ponto em que já não 
podia mais. Passava das 3 da manhã e eu estava exausta.

243
- Se são esses os sentimentos que tens por mim, vamos pôr um ponto final no 
assunto. Fiz o melhor que pude para te ajudar a ti, ao teu filho e à tua filha. 
Mas, por razões que só tu pareces conhecer, parece
que tens qualquer coisa contra mim. A solução é muito simples -11 T~ ~! Yi dao 
liang duan! (Vamos cortar esta relação e com um só golpe).
Subitamente Lydia virou-me as costas, puxou as cobertas e começou a chorar. 
Fiquei a observá-la a mover os ombros, mas, como as lágrimas rapidamente se 
transformaram em roncos, compreendi que a
única razão que a levara ali naquela noite fora levar a cabo um rompimento 
comigo.
Dois dias mais tarde voei para Los Angeles completamente esgotada e cheia de 
pressentimentos.
244
26

Wu Feng Qi Lang Fazer ondas sem vento

Apesar da discussão que tive com Lydia, Tai-way manteve-se continuamente em 
contacto connosco. Em Março de 1989 recebemos um convite para o casamento de 
Tai-ling em St. Paul, no Minnesota. Porém, Bob aconselhou-me a não ir:
- É melhor não, sobretudo depois de teres ouvido coisas tão feias e deselegantes
da boca de Lydia em Hong-Kong.
Foi então que recebemos um telefonema de Tai-way, de Estugarda, a pedir-nos que 
fôssemos ao casamento:
- Os meus pais vão de Tianjin especialmente para a ocasião. Por que é que vocês 
não vêm também para fazermos uma verdadeira reunião familiar?
Ele iria estar nos Estados Unidos durante um mês após o casamento e até planeara
visitar-nos na Califórnia. Ficámos deliciados com a perspectiva.
- A mãe está preocupada com a possibilidade de vocês ainda estarem aborrecidos 
com ela, mas eu disse-lhe que vocês não são do tipo de guardarem rancores. Por 
favor, venham ao casamento, quanto mais não seja por mim, pois sei que a vossa 
vinda também é muito
245
importante para Tai-ling e para o pai. Além disso, tenho a esperança de que tudo
se resolva quando estiverem face a face com a mãe. Voámos para St. Paul na noite
da véspera do casamento e no dia seguinte, na igreja, Lydia, Samuel e Tai-way 
cumprimentaram-nos de forma extremamente calorosa, como se a discussão anterior 
nunca tivesse acontecido. Eu fora o único membro da nossa família a fazer a 

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viagem, o que, no dizer de Lydia, lhe dava muita face. Ela nunca mais esqueceria
o nosso gesto.
Era a primeira vez que víamos Tai-ling desde o nosso breve encontro no aeroporto
de Beijing nove anos antes, e, como tal, mal a reconhecemos. Quando lhe 
oferecemos um cheque chorudo como prenda
de casamento, ela limitou-se a passá-lo ao seu noivo, um caucasiano de nome 
Alan, dizendo-lhe para o "pôr em qualquer lado". Pelo seu tom, era manifesta a 
sua intenção de ser hostil.
Depois da cerimónia levámos Lydia e Samuel até ao local da recepção no nosso 
carro alugado e foi então que o assunto da questão que tivéramos em Hong-Kong 
foi trazido à conversa.
- Hoje, vocês são ambos nossos convidados para jantar - disse-nos Lydia. E 
acrescentou: - Depois vos explicarei tudo. Perguntei-lhe então se Tai-ling 
estava zangada connosco.
- Se realmente querem saber - disse após uma longa pausa - ela não está de todo 
muito contente convosco, pois pensa que deveria ter recebido de vocês o mesmo 
apoio que deram a Tai-way.
Lembrei-lhe que o amigo de Bob, o professor Leland, tentara arranjar uma bolsa 
de estudos completa para Tai-ling e fora ela que não a quisera. - Isso não é o 
mesmo - respondeu-me com aspereza. - Tai-ling pensa que o teu dever como tia era
dar-lhe a mesma quantia de dinheiro que antes tinhas dado a Tai-way. Sentiu-se 
discriminada.
Foi após este breve diálogo que chegámos. Tai-way aproximou-se de nós com um 
sorriso aberto e com taças de champanhe. Mostrou um imenso entusiasmo pelo seu 
trabalho como um acompanhante na ópera
em Munique. Agradeceu-nos por lhe termos dado, a ele e a toda a sua família, 
"aquele ingrediente fundamental para a felicidade ... que é a esperança". 
Continuou a conversar revelando-nos os preparativos para o jantar daquela noite,
altura em que a mãe explicaria tudo acerca do que se passara em Hong-Kong.
- Sabes, nunca teríamos vindo se não fosse a tua insistência - disse-lhe eu. E 
perguntei-lhe: - Diz-me com toda a franqueza, a tua mãe está verdadeiramente 
contente com a nossa vinda aqui?
246
- Claro que está! - disse Tai-way enfaticamente. - E quero contar-lhe um 
segredo: Niang deu ordens à mãe para não vos convidar para o casamento de 
Tai-ling, mas a mãe desobedeceu-lhe deliberadamente.
Ao ouvir estas palavras soou no meu espírito o sinal de alarme. Não fora há 
muito tempo que Niang me admoestara pelo facto de ter ajudado Tai-way a sair da 
China. Durante trinta anos as relações entre as duas mulheres tinham sido de 
grande animosidade. Mas agora, que já estavam reconciliadas, porque é que Niang 
aconselhara Lydia a não nos convidar para o casamento de Tai-ling?
O som de um gongo anunciou entretanto que o jantar já estava servido. Eu e Bob 
ficámos sentados na mesa de Samuel e Lydia. Houve discursos, brindes e um 
recital de piano por Tai-way. Não tive um único momento de concentração, já que 
as palavras de Tai-way ecoavam continuamente na minha cabeça. Mexi e remexi o 
comer que me fora servido e num momento de maior silêncio entre os discursos, 
debrucei-me pela frente de Bob na direcção de Lydia e perguntei-lhe em voz 
baixa:
- Diz-me, é realmente verdade que a Niang te aconselhou a não me convidares para
o casamento de Tai-ling?
Lydia ficou calada durante tanto tempo que cheguei a pensar que ela não me tinha
ouvido. A minha pergunta parece que a tinha deixado petrificada. Finalmente, 

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respondeu-me com uma voz apagada:
- Sim, o Tai-way deve ter-te dito. Explico-te tudo esta noite. Depois do almoço,
a recepção teve lugar na casa da mãe de Alan, que vivia nas redondezas. 
Estávamos a ajudar a dona da casa a servir as bebidas e a fazer conversa de 
ocasião, quando Lydia interrompeu a nossa conversa e nos puxou à parte. Samuel 
estava-se a sentir mal e ela pediu-nos que os levássemos de carro de volta a 
casa de Alan, onde se tinham hospedado. Encontrar-se-iam connosco mais tarde 
para o jantar. Ela tinha feito uma reserva "no melhor restaurante de St. Paul" e
ficou combinado que nos telefonaria por volta das 6.30 para dar algumas 
indicações.
O telefone tocou às 6.30 no quarto do nosso hotel e Bob foi atender. Era Tai-way
e Bob parecia perplexo.
- Mas porquê? - perguntou ele. Depois só o ouvi dizer - Penso que é melhor seres
tu próprio a dizer isso à tua tia.
Carregou na tecla da função de "espera", voltou-se para mim e disse: - Tai-way 
diz que o jantar foi cancelado, mas não foi capaz de dar nenhuma explicação.

247
Sentou-se na borda da cama e puxou o telefone para junto de mim. Eu estava 
preparada para uma longa conversa, que de facto não viria a acontecer.
Só ouvi o meu sobrinho com uma voz comprometida a repetir a mensagem. E depois 
de uma pausa ele disse em mandarim:
- Tem algo a ver com as vossas infâncias. Tudo isto é muito complicado para eu 
entender. De qualquer forma, o jantar está cancelado.
- Posso falar com a tua mãe? - perguntei.
De novo se fez um momento de silêncio após o qual ele acabou por dizer:
- Ela não pode vir ao telefone. Não quer falar contigo. - E o teu pai, pode?"
- O meu pai!
Pela forma como falou, parecia incrédulo, achando que o seu pai era a última 
pessoa com quem eu podia querer falar.
- Ele não sabe nada! Ele nada pode fazer. E, além disso - acrescentou -, o meu 
pai também não quer falar contigo.
- E tu - perguntei -,também não tens nada para me dizer? - Eu não tenho o 
direito de te dizer o que quer que seja. - A sua voz tornou-se ainda menos 
natural. - E quero ainda acrescentar que não vos irei visitar à Califórnia.
- Então suponho que isto é um adeus - disse-lhe, sentindo-me confundida e 
magoada. O meu sobrinho não disse mais nada e eu pousei o telefone devagar.
Foi assim que eu e Bob deixámos St. Paul após o casamento de Tailing. Depois de 
tudo nunca recebemos nem uma carta nem um telefonema que nos esclarecesse acerca
do que se tinha passado. De qualquer forma, o extracto do banco mostrou-nos que 
o cheque que tínhamos oferecido a Tai-ling tinha sido levantado na segunda-feira
imediatamente a seguir ao sábado do casamento.
Quando, pelo telefone, falei disto a James, ele disse-me de forma enfática que 
não confrontasse Niang sobre os convites para o casamento da Tai-ling.
- Não ~ ~t, ~ ~~ wu feng qá lang (faças ondas sem vento). Como é que os Ingleses
dizem isto? "Não acordes cão que dorme!"
248
27

Jin Zhu Zhe Chi; Jin Mo Zhe Hei
Junto do vermelhão tornamo-nos avermelhados e junto da tintá [-da-china] 

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tornamo-nos enegrecidos
Há um provérbio chinês que diz que "Quando a China espirra, Hong-Kong apanha uma
pneumonia." A China estava a viver momentos históricos. O casamento de Tai-ling,
em Abril de 1989, coincidiu com o início das manifestações estudantis em 
Beijing, exigindo maior respeito pelos direitos humanos, mais justiça, 
democracia e o fim da corrupção e do nepotismo. Encorajados pela imprensa 
ocidental, cerca de 50 000 estudantes desfilaram na praça Tiananmen no dia 4 de 
Maio. O resto é história.
Subitamente, os cidadãos de Hong-Kong deram-se conta de que para 1997 só 
faltavam oito anos. Em solidariedade com os estudantes de Beijing, 40 000 
pessoas estiveram presentes na primeira manifestação em Hong-Kong, no dia 20 de 
Maio, apesar da chuva torrencial e dos fortes ventos que anunciavam a 
aproximação do tufão
249
Brenda. No dia seguinte, 500 000 pessoas vieram para as ruas e, segundo algumas 
contagens, no dia 28 de Maio mais de 1 milhão de pessoas juntou-se em Central 
clamando por democracia. Na noite do dia 3 de Junho, o batalhão 27 do presidente
Yang Shang-kung abriu fogo na Praça de Tiananmen e prendeu os líderes 
estudantis. Em Hong_ Kong a Bolsa caiu 581 pontos num só dia. Uma manifestação 
de solidariedade foi marcada para dia 7 de Junho. As pessoas desfilaram vestidas
de preto e branco, mostrando o seu luto à maneira do Ocidente e do Oriente. 
Tiveram lugar alguns motins na Nathan Road, tendo a polícia usado gás 
lacrimogéneo para dispersar os manifestantes. Com receio da China Comunista, os 
cidadãos de Hong-Kong pediram que lhes fosse concedido o direito de emigração 
para a Grã-Bretanha após 1997.
James e Louise ainda não tinham passaportes estrangeiros. Eles sabiam que Niang 
queria que ficassem com ela em Hong-Kong depois de 1997. Ela, porém, claro, com 
o seu passaporte francês e a sua
propriedade em Monte Carlo, era livre de partir quando muito bem entendesse. Era
nítido na cabeça de James que, se se decidissem a emigrar, Niang se juntaria a 
eles, para onde quer que fossem. Por outro lado, ao encetar o processo de 
emigração sem a convidarem, corriam o risco de a ofenderem e punham a herança em
risco. Secretamente então, James começou a tratar da emigração da sua família 
para o Canadá, onde os impostos sobre os rendimentos eram mais leves. Contratou 
advogados para tratarem da burocracia e comprou uma casa em Toronto no início do
Verão de 1989.
Quando telefonei para Niang, em Julho, foi a criada quem atendeu. Disse que 
Niang estava no Sanatório de Hong-Kong e acrescentou que era uma situação muito 
triste, pois que, imediatamente a seguir à morte do pai, Niang era agora 
apanhada por uma doença.
Telefonei para o seu quarto no Sanatório.
- Ah! Olá Adeline. - Pela voz pareceu-me educada, mas fria. - Que simpático 
teres-me telefonado! Como conseguiste o meu número de telefone?
Quase a 13 000 quilómetros de distância, endireitei-me na minha cadeira e 
ajeitei a minha saia.
- Foi a Ah Fong quem mo deu quando tentei telefonar-lhe para casa. Como se 
sente? O que aconteceu? Não acha necessário que eu me meta no primeiro voo para 
estar perto de si?
Com uma voz um tanto ou quanto gelada, disse-me que tinha notado manchas de 
sangue nas fezes e que tivera de fazer uma biopsia ao cólon. Depois de se 
recompor um pouco e com uma voz mais leve, acrescentou:
- Já me estou a sentir melhor e dentro de dias já posso ir para casa. Não é 

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necessário que venhas. Posso cuidar de mim sozinha.
- James está consigo?
- Não. James e Louise foram de férias para Toronto.
Pelo que ela me disse, fiquei preocupada. Imaginei Niang sozinha, num quarto de 
hospital, não longe do lugar onde o pai tinha sofrido durante sete longos anos, 
prestes a receber más notícias acerca do seu estado de saúde. Este quadro fez-me
ficar profundamente triste. Por isso insisti em ir para o pé dela, mas ela 
recusou categoricamente a ideia, dizendo que estava perfeitamente bem e que, 
além disso, ela não teria tempo para me "acompanhar.
- Acompanhar-me?! Não é essa de modo nenhum a minha intenção! Eu só quero ajudar
no que puder.
- Eu não preciso da tua ajuda. Porque insistes? Já te disse inúmeras vezes que, 
se tiver necessidade da tua ajuda, te telefono. E, se não te importas, agora 
tenho de desligar. Preciso de descansar.
Imaginei imediatamente que James não saberia do estado de saúde de Niang, pois, 
de outra forma, não se teria ausentado para o Canadá. James pareceu-me deveras 
surpreendido quando lhe liguei.
- Como soubeste que eu estava no Canadá? - A sua voz estava tensa e mostrava 
nervosismo. - Quem te deu o meu número de telefone?
- Não me lembro - disse em tom de brincadeira. - Não sei se terá sido a CIA, o 
FBI ou a polícia canadiana.
- Vá lá! Diz-me lá, quem foi? - disse ele com voz sincopada e mostrando um pouco
de irritação.
- Pronto, deixa lá ... Podes ficar calmo! Foi Niang quem mo disse e Ah Fong 
deu-me o teu número de telefone.
Consegui ouvir um suspiro de alívio. Disse-lhe então que Niang estava no 
Sanatório de Hong-Kong e que os sintomas apontavam para um cancro no cólon. 
Percebi que ele não estava de modo nenhum dentro do assunto.
- Ofereci-me para ir para junto dela, mas não me quis lá. Não percebo porque foi
Niang tão fria comigo. Será que a ofendi sem dar por isso?
250
251
- Talvez seja por causa da doença - disse James. - Não acho que seja nada de 
especial contra ti. Acho que é melhor ir eu para ver se tudo está em ordem. Se 
ela te disse que não voasses para Hong_
Kong, é melhor não ires contra a sua vontade. De qualquer forma telefono-te mal 
saiba os resultados da biópsia. - Mas James não telefonou. Esperei mais ou menos
uma semana antes de lhe telefonar para Hong-Kong. O meu diagnóstico estava 
correcto. Niang tinha um cancro no cólon e precisava de ser operada. James 
alvitrou a possibilidade de a operação ser realizada na Califórnia, mas ela 
recusou.
- Nesse caso irei para aí para estar junto dela durante a operação. Senti 
nitidamente hesitação da parte de James. Depois de alguns momentos disse com voz
pausada, comò que para se assegurar de que a mensagem era por mim cabalmente 
compreendida:
- Por ora, ela não quer que tu venhas.
Por um momento não consegui articular palavra. Do outro lado da linha pude ouvir
James a gritar:
- Está? Está? - E depois o mesmo em cantonense - Wei? Wei? Estás-me a ouvir?
Cerrei os dentes e perguntei-lhe: - Porquê?
Ele evitou a questão e a gritar, como que para me assegurar claramente do que 
dizia, afirmou:

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- Pensei que a chamada tinha caído. Penso que devemos desligar agora, até porque
a ligação está muito má. Niang decidiu que seria o Dr. Lim a fazer a operação. É
formado pela Faculdade de Medicina de
Harvard. Ela pediu-me que te enviasse uma cópia da biopsia, assim como o número 
de telefone do consultório do Dr. Lim em Hong-Kong, para com ele te inteirares 
melhor da situação.
- O que é que se passa James?
- A pobre velhota está doente - ripostou James. - Por favor, faz as coisas como 
ela quer.
- Certíssimo. Mas o que se passa? Porque não me quer ela junto de si?
- Contactar-te-ei mais tarde por fax - disse ele sem responder à minha questão. 
E desligou.
Poucos dias depois recebi os resultados da biopsia. O conteúdo era devastador. O
cirurgião tinha retirado as células cancerígenas dos in
testinos, mas encontrara dois grandes quistos no fígado. Niang recusou ser 
operada ao fígado ou sujeitar-se a quimioterapia. A irmã dela, a tia Reine, 
tinha morrido alguns anos antes com um cancro no fígado, apesar de doses maciças
de drogas e de radiações, que lhe tinham causado um enorme sofrimento. Tentei em
vão persuadir Niang a vir até à América a fim de ouvir uma segunda opinião 
médica. De todas as vezes que lhe telefonei, a enfermeira disse-me sempre que 
ela estava a descansar e que não queria ser incomodada. E até recebi um 
telefonema de James a recomendar-me que não "incomodasse o descanso dela."
Porém, alguns dias após a grande operação, foi a própria Niang quem me telefonou
a convidar toda a minha família para uma visita de Natal em Hong-Kong. Pareceu 
muito afectuosa e desculpou-se por não ter escrito ou telefonado enquanto 
estivera no hospital, dizendo que não o fizera por querer esquecer a sua doença 
e continuar a sua vida normal.
Bob e eu pegámos nas duas crianças e passámos umas férias de Natal bem 
agradáveis com Niang em Hong-Kong. Durante todo o tempo nunca mostrou qualquer 
sinal de doença, participando em todos os festejos, trocando presentes e 
assinando os seus cartões "Com muito afecto, Mãe." Despedimo-nos calorosamente.
Durante os oito meses que se seguiram telefonou-me com bastante frequência para 
me dar conta dos seus planos para emigrar para a América antes de 1997. Edgar 
ajudara-a a obter o "cartão verde" e ela tinha ainda recentemente comprado uma 
propriedade em Nob Hill, São Francisco. Cheguei mesmo a desejar poder ter com 
ela uma conversa de coração aberto e sonhei com um "rapprochement" junto ao seu 
leito de morte, num momento em que tudo seria esclarecido e ela poderia então 
morrer em paz, rodeada de toda a minha família. Insisti com ela que viesse até 
Huntington Beach passar algum tempo connosco, mas ela recusou sempre.
Um dia, em finais de Agosto, quando lhe telefonei, Ah Fong disse-me que ela 
tinha voltado para o hospital. Já vestida e pronta para sair, Niang sentira-se 
de súbito muito fraca e incapaz de andar. Deu entrada no Hospital Baptista de 
Kowloon. Quando lhe telefonei directamente, confessou-me que se sentia muito mal
e, para meu grande espanto, acrescentou que "gostaria que pudesse ir ter com ela
e levá-la para a América~>.
Em francês e em itálico no original. (N. da T.)
252
253
Nem podia acreditar no que ouvia! Tinha-me oferecido antes tantas vezes para ir 
ter com ela para a trazer para a América e agora era ela que do hospital mo 
estava a pedir. Tentando ter algum sangue-frio, perguntei-lhe se o Dr. Lim a 
achava em condições de viajar, ao que ela me ripostou dizendo que não lhe 

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interessava mais a opinião dos médicos e o que verdadeiramente queria era que eu
a levasse para os Estados Unidos e arranjasse maneira de ela ficar melhor. James
sabia da sua nova hospitalização? Não, não sabia. E tornou-se insistente nos 
seus desejos. Iria eu buscá-la ou não? Prometi-lhe que sim e pedi-lhe que 
entretanto descansasse. Deu-me uma resposta carregada de amargura. Que sentido 
fazia estar deitada para descansar se nem dormir conseguia? Informou-me que 
nunca mais dormira bem desde que o pai tinha falecido. Perguntei-lhe então se o 
médico não lhe prescrevera alguns comprimidos para dormir, mas ela respondeu-me 
mostrando nítida exasperação na voz:
- Ó Adeline, estou muito cansada. Por favor, faz o que te peço. Vem cá e leva-me
para a tua casa na América.
Telefonei para o médico dela no Hospital Baptista, que me revelou que Niang 
tinha fluidos no abdome e que, por isso, não mais poderia andar e duvidava que 
ela resistisse mais de um mês. Quanto a ir para a América, poderia aguentar a 
viagem, mas só se a fizesse numa maca. A propósito das insónias disse o 
seguinte:
- Ela tem tomado tantas drogas para dormir durante os últimos anos, que agora já
nada lhe faz efeito. Muito francamente, as doses são alarmantes, mas talvez lhe 
possa administrar morfina para lhe dar algum alívio.
Fiz uma chamada para James, que se encontrava no Canadá a matricular a filha no 
Tufts College, e dei-lhe conta do inesperado desejo de Niang. Devia agir de 
acordo com o desejo de Niang ou de acordo com o que o Dr. Lim me dissera, isto 
é, que Niang estava a morrer? James aconselhou-me a esperar pela sua ida para 
Hong-Kong, para ele pessoalmente poder falar com Niang, já que estava a pensar 
regressar exactamente no dia seguinte.
Dois dias depois James chegou a Hong-Kong e telefonou-me com uma voz cheia de 
cansaço, a dizer que Niang já não o reconhecera. Perguntei-lhe se ainda valia a 
pena pensar ir a Hong-Kong e trazê-la para a Califórnia.
- Olha, ela está no seu leito de morte e não se encontra em condições de ir onde
quer que seja. O Dr. Lim diz que ela é'capaz de mor
254
rer dentro de poucos dias. Podes é preparar-te para vir ao funeral e para a 
leitura do testamento. Eu estou já a tomar as devidas providências. Porém, 
Niang, embora inconsciente e a morrer, estava prestes a lançar a sua melhor 
cartada. Filhos seus tinha dois, um morto e um deserdado; mas ficara, contudo, 
com cinco enteados, com quem ainda podia fazer o seu jogo final. Fizera-nos 
acreditar que era possuidora de uma das maiores fortunas do mundo. Há algum 
tempo atrás, no início da década de 70, quando o pai ainda estava activo, a 
família Yen era considerada uma das mais ricas de Hong-Kong. No final da década 
de 80 a fortuna do pai tinha-se diluído progressivamente. Só James tinha acesso 
a documentos e revelou-nos que o seu real valor era aproximadamente de 30 
milhões de dólares.
Para mim a verdadeira preocupação não era o dinheiro como tal. Tanto Bob como eu
tínhamos empregos estáveis e bem pagos, com direito a pensões bastante razoáveis
Havia, isso sim, uma necessidade que para mim era básica: a aceitação pelos 
outros e a ocupação do meu correcto lugar na família - o que, no fundo, me fora 
negado em toda a minha juventude. Em todos nós havia um enorme desejo de sermos 
tratados com justiça e igualdade. Não conseguia suportar a ideia de ser eu, ou 
qualquer outro de entre nós, a ser deixado de fora por mera discriminação ou 
negligência. Apesar de saber que Niang não era uma pessoa nem terna nem boa, 
sempre aspirei pela sua aprovação, como antes tinha aspirado pela bênção do pai.
Neste particular eram os dois uma só unidade.

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Niang jogou com o nosso sentido confuciano de piedade filial, a fim de ir 
impondo a sua influência. A sua ânsia permanente de domínio transcendia toda a 
lógica. A extensão da unidade familiar é o laço e a força motivadora que liga 
qualquer chinês às suas raízes. Exceptuando Susan, que, com grande força de 
vontade, se tinha tornado independente, todos nós estivéramos ao longo de toda a
nossa vida acorrentados a Niang.
Telefonei para Gregory em Vancouver para discutir o desaparecimento iminente de 
Niang e ele pareceu-me preocupado com o facto de não ir herdar muito, já que 
Niang nunca tinha gostado dele.
- Achas que ela amou algum de nós? - perguntei.
- Claro que não! Mas acho que quem ela mais detestava era eu, uma vez que, sendo
o filho mais velho, ameacei a sua posição na hierarquia familiar.
255
Foi então que Gregory me espantou:
- Ajudas-me, Adeline, no caso de só o James ficar com tudo? É que estou a contar
com esta herança.
Respondi-lhe da forma mais verdadeira que pude naquela altura: - Sabes que será 
muito difícil para mim lutar contra James, mas penso que ele nunca seria capaz 
de ser assim tão injusto. E, além do mais, acho que James merece uma parte 
maior. Afinal de contas, ele deu a Niang trinta anos da sua vida.
Mas Gregory não se comoveu:
- Nunca ninguém lhe fez frente. Obviamente que ele sentiu que teria mais 
possibilidades de aumentar a sua parte junto a Niang do que longe dela, vivendo 
a sua vida por si. Nunca podes estar assim tão
certa do comportamento das pessoas quando há dinheiro pelo meio. ~L ~ ~ ~ , ~C 
.~ ~- ~ Jing zhu zhi chi jing mo zhi hei (Junto do vermelhão tornamo-nos 
avermelhados e junto da tinta [-da-china] tornamo-nos enegrecidos). James mudou 
muito ao longo dos anos.
E passou mais uma semana, até que no dia 9 de Setembro, domingo, James deixou 
uma mensagem no atendedor de chamadas: "A velhota faleceu há hora e meia, às 4 
da madrugada de domingo."
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28

Jiu Rou Peng You Amigos apenas para comer e beber
O funeral de Niang foi marcado para o dia 17 de Setembro de 1990. Alguns dias 
antes, Bob e eu voámos para Hong-Kong e eu discuti com James os pormenores do 
enterro de Niang. Durante as nossas conversas ao telefone dei conta a James das 
desconfianças de Gregory.
Niang tinha tomado doses tão fortes de soporíferos que Gregory e a mulher, que 
era farmacêutica, receavam pela sua sanidade. Tinham sobretudo receio que ela 
tivesse alterado o testamento original do pai sob a influência das drogas. 
Poderia também ter, para além de Susan, excluído Gregory do testamento?
James dissera que nunca fora consultado e, por conseguinte, não tinha a mínima 
ideia acerca do conteúdo do testamento de Niang. De súbito perguntou-me se eu me
lembrava de Miss Chien, a antiga preceptora de Franklin. Os Guardas Vermelhos 
tinham-na obrigado a sair da casa do pai em 1966, após o que, durante doze anos,
viveu na mais completa pobreza na casa da família do irmão, em Hangzhou, como 
uma tia solteirona. A sorte não a bafejara e acabara por contrair cancro de 
pele, que alastrara
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aos ossos e ao fígado. Um dia, já em 1978, James recebeu com surpresa uma carta 

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de Miss Chien endereçada ao pai, que na altura já se encontrava senil. Miss 
Chien estava às portas da morte, com o corpo torturado pelo sofrimento e não 
tinha dinheiro nem para os medicamentos nem para a alimentação. Implorava por 
uma pequena soma para aliviar os seus últimos dias. James estava a preparar-se 
para lhe enviar um cheque, quando Niang entrou no escritório:
- Não faças nada! - ordenou. - Miss Chien já viveu para além de poder ser útil.
- Senti um arrepio da cabeça aos pés ao ouvir as suas palavras - confidenciou 
James. - Ninguém podia esperar razoabilidade ou justiça da parte de Niang. Era 
de facto uma pessoa cruel. Qualquer um de
nós, em qualquer altura, podia ter sido deserdado sem causa aparente. O velório 
teve lugar na mesma casa mortuária em North Point onde, dois anos antes, se 
tinha realizado o funeral do pai. Niang estava deitada num estreito caixão e a 
sua face parecia manchada, apesar da maquilhagem muito carregada. Estava 
arranjada com um pesado vestido preto e tinha os braços rigidamente postos ao 
longo do corpo. O seu cabelo pintado cor de ébano estava esticado para trás, 
mostrando saliências na fronte que, enquanto era viva, se esforçara por esconder
com bastante sofrimento.
As criadas cantonenses de Niang, Ah Fong e Ah Gum, vieram vestidas com as suas 
túnicas brancas e com as calças largas e pretas. Tinham servido fielmente o pai 
e Niang durante trinta anos. O seu motorista fez
uma breve aparição. Chegaram também duas enfermeiras, que tinham sido 
contratadas para fazer companhia a Niang durante a noite.
Susan e o marido foram os últimos a chegar. A nossa irmã mais nova estava 
magnífica num fato preto de bom corte, com o cabelo comprido penteado com muito 
cuidado às ondas. Informou-nos que
tinha pedido que fosse celebrada uma missa pela alma de Niang na capela 
católica, naquela tarde.
Sentámo-nos em cadeiras de metal naquela sala fria e anti-séptica, à espera das 
demais pessoas. Tinha visto fotografias e ouvido inúmeros relatos de 
dispendiosos almoços, jantares, bailes e recepções.
- A única coisa má de viver em Hong-Kong - disse-me uma vez !Viang - é a 
permanente roda-viva de festas e mais festas.
Esperei que um grupo de amigos seus entrasse a qualquer momento pela porta. Mas 
ninguém chegou a aparecer para lhe prestar uma última homenagem e para lhe dizer
um último adeus.
Revi então a minha triste infancia e pensei no contínuo abuso que Niang sempre 
dispensara a todos quantos a tinham rodeado. Revivi o orgulho que sentira quando
finalmente me tinha conseguido livrar do seu reino de terror e opressão. E, 
ainda assim, continuava a ser importante para mim o facto de ela me amar ou não.
Quando deixei os meus pensamentos e olhei à minha volta, vi o Sr. Lu, o fiel 
chefe da contabilidade do pai, levantar-se e ir para junto de Bob. 
Sussurrou-lhe:
- Penso que não virá mais ninguém. Ela não tinha verdadeiros amigos, só tinha 
jiu rou peng you (amigos apenas para comer e beber). Como vocês os dois sabem, 
ela era uma pessoa peculiar. Não gostava de muita gente. Vejam como ela empurrou
Susan para fora da sua vida e do seu testamento, ela que era a sua única filha, 
os seus gu rou (ossos e carne).
A minha pálpebra direita começou a tremer incontrolavelmente, enquanto eu fixava
os meus olhos no Sr. Lu, ao mesmo tempo que tentava perceber o verdadeiro 
sentido das suas palavras.
- O que está a tentar dizer-nos, Sr. Lu? - perguntei com alguma ingenuidade. - 
Porque não vai directamente ao assunto em vez de continuar com rodeios?

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O Sr. Lu voltou-se para Bob, mas as palavras eram para mim:
- Parece que ninguém lhe diz nada - lamentou ele. - A Niang dela não quis que 
ela soubesse, mas é possível que não lhe caiba nada amanhã aquando da leitura do
testamento.
- Não acredito em si! - gritei. - Ainda há três semanas ela estava a pedir-me 
que a levasse daqui para a minha casa na América! Acho que deve ter tido alguma 
ternura por mim, já que estava disposta a ir morrer na minha casa.
O Sr. Lu abanou a cabeça, ao mesmo tempo que evitava cruzar o seu olhar com o 
meu.
- A causa do pedido dela deve ter sido originada por motivos posteriores, com 
vista a voltar todos os seus parentes contra si. Ela possuía o "cartão verde" e 
era cidadã permanente dos Estados Unidos. O governo americano deveria cobrar 
imposto de sucessão sobre os seus bens, caso ela morresse na América. E você 
seria censurada pelo facto de a ter levado para sua casa para morrer.
Comecei a tremer e tive por momentos dificuldade em respirar. Eu tinha 6 anos e 
era Ano Novo chinês. Nós, as crianças, estávamos
259
vestidas com roupas novas e brilhantes e toda a gente estava reunida para tomar 
o tradicional almoço da ocasião: pães gelatinosos, bolos de arroz doce, enquanto
se ouvia na rua o barulho dos panchões. Um a um, todos nós recebemos um ya sui 
chien°s, um envelope tradicional de cor vermelha, contendo dinheiro e decorado 
com caracteres que diziam "Feliz e Próspero Ano Novo". Todos receberam, excepto 
eu. Fui a única criança esquecida - castigada por ter falado contra o facto de 
Niang ter batido em Susan, que era ainda um bebé.
- Um momento - interrompeu Bob -,está realmente seguro do que está a dizer? Já 
leu o testamento de Niang? E James, também já o leu? - Ainda nenhum de nós leu o
testamento - explicou o Sr. Lu -, mas temos a certeza absoluta dos seus traços 
gerais. Acredite, só falei neste assunto porque não vejo necessidade de a 
Adeline ir amanhã à leitura do testamento e ser desnecessariamente magoada.
O resto daquela tarde passou a correr e sem eu ter dado conta. Todos fomos à 
missa católica que tinha sido pedida por Susan. Eu não via o momento de voltar 
ao hotel e ouvir de James toda a verdade. Mal
chegámos, telefonei-lhe. A empregada dele informou-me que Louise já se deitara, 
mas que James estava com todos os seus irmãos no Hotel New Asia. Bob e eu 
descemos de elevador até ao quarto do Gregory.
Já no corredor, ouviam-se gargalhadas. Dentro do quarto encontrámos os meus três
irmãos, a minha irmã Lydia e o Sr. Lu, que ainda vestiam os fatos negros do 
funeral. Em cima da mesa estava uma
garrafa de uísque meio vazia e alguns copos. Os enteados de Niang estavam a 
celebrar o seu desaparecimento. Era óbvio que tinham tido conhecimento do 
conteúdo do testamento.
Quando entrámos, fez-se um silêncio pesado. Olhei na direcção de James, que 
estava corado por causa do uísque e ainda se ria da última piada que ouvira.
- Desculpem termos vindo interromper a vossa festa - disse eu com secura -, mas 
posso falar contigo em particular durante alguns minutos?
O sorriso desapareceu dos lábios de James.
- De facto - disse ele -, ia mesmo agora levar o Sr. Lu a casa no meu carro. 
Está-se a fazer tarde.
°z Envelope tradicional que se oferece na época do Ano Novo chinês e que em 
cantonense se chama lai si. (N, da T.)
260

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- Então, eu e Bob vamos convosco, se não se importam. - Muito bem - murmurou 
James. - Vamos então.
Durante o percurso através do túnel que liga Hong-Kong a Kowloon até casa do Sr.
Lu, Bob tomou a minha mão na sua, mas não trocámos palavra. Eram quase 11 horas 
e o tráfego estava fluido. Enquanto o Sr. Lu falava constante e nervosamente 
veio-me à memória um incidente que há muito esquecera.
Era um dia escaldante de Verão no pico de uma onda de calor em Xangai. Eu tinha 
acabado os meus trabalhos de casa e estirara-me em cima da minha cama. Niang e o
pai estavam fora durante alguns dias e a atmosfera na casa era de distensão e de
sossego. Sentíamo-nos à vontade na ausência deles.
A empregada entrou no meu quarto e disse que os meus irmãos me esperavam na sala
de jantar. Eles tinham um presente especial para mim. Dei um pequeno salto, mas 
ela informou-me que James também lá se encontrava. Ser chamada pelos meus três 
irmãos mais velhos era para mim misterioso e excitante. Corri até ao 
rés-do-chão. Em cima da mesa da sala de jantar estava um grande jarro de sumo de
laranja rodeado de quatro copos, três vazios e um cheio.
Edgar foi o primeiro a falar, com um sorriso de orelha a orelha: - Dado que está
um dia tão quente e que recebeste tão boas notas nas tuas fichas de avaliação, 
pensámos que, como prémio, merecias um copo de sumo de laranja, já que o pai não
está aqui para te dar os parabéns.
- Mas porquê? - indaguei com suspeição. - Vocês nunca foram bons para mim antes.
- Bebe! - disse Edgar em tom de ordem, dando-me uma pancadinha nas costas.
- Não quero. Porque tenho de beber isso? Porque não o bebes tu?
- Até tem gelo, vês? - Edgar pegou no copo e os cubos de gelo tilintaram. - 
Vai-te refrescar num instante.
Inspeccionei o sumo e fitei Gregory.
- Achas que posso beber isto, ~ ~ Da ge ( Irmão mais Velho)? - Claro que podes. 
Fomos nós que o fizemos com o concentrado de laranja desta garrafa aqui, vês? 
Fizemos-te este copo de sumo por causa dos teus resultados tão bons na escola.
Dito isto, todos se riram estridentemente.
261
A sala estava quente e fazia-se sentir muita humidade no ar. O gelo flutuava 
fresquinho na garrafa do líquido alaranjado.
Peguei no copo e apelei para James, sabendo que ele nunca me desapontaria:
- Posso beber, _-~- San ge (Terceiro Irmão)?
- Podes - disse James. - Este é o teu prémio por teres sido exemplar na escola.
Aliviada e apoiada, bebi um enorme gole. Mal entrou na boca, cuspi todo aquele 
líquido. Os meus três irmãos tinham misturado a urina de todos eles com o 
concentrado de laranja e enganaram-me. Desfiz-me
em lágrimas, não tanto por causa da malícia de Edgar ou por causa da mentira de 
Gregory, mas sim pela traição de James.
Entretanto o Sr. Lu saiu do carro e eu sentei-me no lugar da frente ao lado de 
James, que nos conduzia agora de volta ao hotel. Senti que ele estava bastante 
comprometido. Apesar de o ter negado repetidas
vezes, como é que era possível que não tivesse conhecimento do que o Sr. Lu me 
tinha antes dito? Ou, pior ainda, ele devia ter acordado com Niang em manter-me 
na ignorância.
James pagou os 10 dólares da portagem e, acelerando, atravessou de novo o túnel 
e saiu do lado da ilha de Hong-Kong. Graças a Deus que estava escuro, pois assim
não tive a consciência de quão peri
gosa foi a sua condução. Começou a chover e James ligou o limpa-pára-brisas.
- O Sr. Lu informou-me - comecei eu com todo o cuidado - de que tinha sido 

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excluída do testamento de Niang e que, por isso, não receberei nada.
James não fez qualquer comentário e iniciou a curva para a Rua Wong Nai Chong, 
mas pela primeira vez não tentou negar. Por um momento deixou de fingir. Virou 
mais uma vez noutra rua e pouco
tempo depois já estávamos estacionados em frente do hotel, mas ele ainda não 
tinha dito nada.
- Diz qualquer coisa! - pedi. - O Sr. Lu está a dizer a verdade? Sem ter 
desligado o motor do carro e olhando em frente, fixando o movimento compassado 
dos pára-brisas, acabou por dizer:
- Sim.
- E o pai? E o pai? Também fui excluída do testamento do pai? Algumas lágrimas 
rolaram-me pela face. Veio-me à ideia a imagem io meu pai deitado, mudo e sem se
poder mexer durante anos no quarto
?62

525 do Sanatório de Hong-Kong. Seria possível que ele também me tivesse 
rejeitado?
- Já te disse que não li o testamento do pai - disse James sem esconder a sua 
irritação. - Como poderei eu saber o que é que o pai quis? Mas, de qualquer 
maneira, o testamento do pai é irrelevante, pois todos os bens estavam em nome 
de Niang.
- Mas porque me excluiu Niang? O que fiz eu que a tivesse ofendido?
- Olha - disse James com azedume -, eu não tenho todas as respostas. Niang ficou
com uma impressão muito má de ti quando estiveste com ela em 1987. Ela disse que
tu querias pôr o pai num apartamento em Kowloon e que, além disso, não estavas 
nada agradecida pelos estudos de Medicina que ela te proporcionara em 
Inglaterra.
- Pôr o pai num apartamento em Kowloon? Isso é tão fora da realidade que chega a
ser risível! Porque quereria eu que Niang fizesse semelhante coisa? Achas mesmo 
que é essa a verdadeira razão?
- Eu já não sei em quê e em quem hei-de acreditar. Simplesmente estou a repetir 
o que Niang me disse. Detesto conflitos, especialmente quando se arrastam pelos 
tribunais, tanto mais que na minha idade começo a pensar que a vida é muito 
curta para isso. É importante para mim gozar em paz os anos que ainda tenho para
viver. Lembra-te - disse ele - que eu serei o executante do testamento, por 
isso, se decidires alguma acção judicial, estarás a confrontar-te comigo e serei
o teu adversário em tribunal.
Enquanto ele falava senti um frio gelado dentro dos ossos, pois tinha a certeza 
de que estava a ouvir um discurso antes preparado. Aquela não era a fala 
espontânea de um irmão preocupado.
Bob, que se tinha deixado ficar sentado no banco de trás em silêncio, dobrou-se 
para a frente e pôs a sua mão no meu ombro.
- Não vês que tudo isto a está a deixar arrasada? Neste momento ela sente-se 
atraiçoada e enganada.
- Não me venhas com essa conversa piegas! - disse James com rudeza. - É de 
dinheiro que vocês andam atrás? Se é de dinheiro, eu posso ajudar-vos. Diz-me 
quanto é que precisam?
Olhei de lado para o meu irmão, que se tinha deixado cair sobre o volante, tenso
e triste. Veio-lhe um rubor carregado à face e parecia por momentos inchado com 
a vergonha.
263
- Tu e eu, James, já passámos por tanto juntos e deixas que tudo acabe desta 

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forma tão baixa? Seguramente que tu, mais do que qualquer outra pessoa, devias 
saber que não é de dinheiro que se trata aqui. Trata-se de família e de fair 
play e da nossa insistente procura de uma mãe. - Nem Bob nem James disseram 
palavra. - Ainda não consigo entender porque me deserdou Niang enquanto me fazia
passar por parva. Amanhã - continuei - irei ao funeral pela manhã. Mas ir às 4 
da tarde ouvir a leitura do testamento ... isso não consigo aguentar. Esperarei 
por vocês no meu quarto de hotel. Podes depois vir dizer-me o que se passou 
quando já estiver tudo acabado? E, por favor, podes trazer-me uma cópia do 
testamento?
O testamento foi lido às 4 horas e às 6.30 James entrava no meu quarto com uma 
cópia do testamento. O seu hálito cheirava a álcool e mostrava que tinha 
bastante pressa em sair. Tinham todos ido directa mente do escritório do 
advogado para a Sala Clipper, no Hotel Mandarim, para celebrarem e um jantar 
estava marcado para aquela noite no Shanghai Club. Susan, eu e os nossos 
respectivos maridos não tínhamos sido convidados.
- Eu sou um homem de palavra - declarou James. - Esta é a tua cópia do 
testamento de Niang e desculpem, mas não me posso demorar muito. Estão todos à 
minha espera para o jantar e ainda por cima sou eu quem convida.
- O que é que está aí escrito?
- Gregory e Edgar recebem 20 por cento. Eu recebo 50 por cento. Lydia recebe 10 
por cento. E Susan e tu não recebem nada.
Folheei apressadamente os papéis até encontrar o meu nome.
- "Adeline Yen Mah" - li eu alto na direcção de Bob -, "dado que nem sequer é 
minha filha, Adeline Yen Mah não receberá de forma alguma nenhum dos meus bens."
- a minha voz fraquejou - Porquê, James, porquê? Porque me desprezou ela sempre 
tanto? "De forma alguma", é o que aqui está. "De forma algumau!
James, que estivera sentado todo o tempo, levantou-se na direcção do bar, tirou 
um copo e serviu-se generosamente de uísque. Bebeu-o de um só trago.
- Não leves esta questão tão a peito - disse então. - Olha, deixa-me dar-te 
algo. Que tal o apartamento de Niang? Porque não ficas com ele? Lembra-te de 
que, se fores para tribunal, quem ganha são os advogados - continuou - e já tens
dinheiro que chegue. 10 ou 20 por
264

cento a mais não é o que te vai fazer alterar o teu estilo de vida. Bem, tenho 
de ir. O jantar é às 7.30 e eu ainda tenho de aqui voltar para levar Lydia. Ela 
quer telefonar aos filhos para lhes contar as boas notícias.
- Não é incrível que Lydia, que Niang odiava e que há quatro anos não quis 
sequer ver, receba 10 por cento, enquanto eu, que comprei em 1986 a passagem 
aérea para Lydia para que ambas se pudessem reconciliar, tenha sido deixada de 
fora?
- Esta foi a forma como a Velhota quis que as coisas ficassem no fim - disse 
James. -Vá-se lá saber, porquê? De qualquer modo, amanhã de manhã todos estamos 
convidados para irmos ao apartamento dela para se fazer a divisão da mobília, 
das antiguidades e das jóias. Telefona-me caso queiras ir também. Agora tenho 
mesmo de ir. Até amanhã.
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29

Wu Tou Gong An Um caso sem pés nem cabeça

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Susan foi bem mais clarividente do que eu.
- O quê?! - exclamou - Lydia ficou com 10 por cento e tu ficaste sem nada? Que 
justiça é esta?
- Tu também não herdaste nada .J•~ Xiao mei (Irmã Pequena). Estava a mostrar 
preocupação pelos sentimentos de Susan em relação a mim, quando no fundo ela 
estava na mesma situação.
- Ela tinha-me deserdado em 1973. Não estava à espera de nada nem nunca mais 
quis nada que fosse dela! Mas tu, o que é que tu fizeste para merecer isto? Era 
de facto uma mulher ínvia! Porque teve ela de te castigar desta forma?
Pensei como seria dificil para Susan admitir que uma pessoa assim era os seus gu
rou (ossos e carne). Mas depois veio-me à memória a valentia que ela tinha 
mostrado há dezassete anos, ao voltar as costas ~ Niang, coisa que nunca nenhum 
de nós conseguira fazer.
- James disse que foi porque em tempos quis pôr o pai num apartamento em Kowloon
e porque não me mostrara suficientemente agradecida quanto à educação médica que
recebera.
- Que disparate mais completo! Então eles devem ter discutido o testamento entre
si ... e, se de facto o fizeram, porque não te defendeu James?
A minha irmã mais nova tinha posto o dedo na ferida.
- Eu não te sei responder, mas uma coisa é certa: antes de deixar Hong-Kong 
tenho de ter acesso ao que foi o testamento do pai. James ofereceu-se para me 
dar o apartamento de Niang. E ainda para mais convidou-nos a todos, tu incluída,
para irmos a Magnolia Mansions amanhã para ser feita a divisão do seu recheio.
- Ele deve estar a brincar! - disse a Susan a rir. - Nem pensar que eu lá irei 
alguma vez. E as coisas de Niang, além de me causarem repulsa, trar-me-iam má 
sorte. A última coisa que eu quero é que algo ma faça lembrar! Os preços caíram 
drasticamente e continuam em baixa por causa dos acontecimentos em Tiananmen. 
James está a tentar comprar-te pelo preço mais baixo. Possivelmente está com 
medo que tu ponhas o testamento em causa; coisa, aliás, que tens todo o direito 
de fazer.
Durante a noite seguinte tive um sono muito agitado. Acordei às 4 da madrugada e
desde aí voltei-me e tornei a voltar-me na cama, mas não mais preguei olho. Bob 
abraçou-me longamente. Mas, mesmo assim, como nenhum de nós conseguia dormir, 
saímos para dar um longo passeio a pé à volta do hipódromo de Happy Valley e 
acabámos à porta de James e de Louise. Eram 8 da manhã e eles estavam a tomar o 
pequeno-almoço.
Pouco depois Gregory e Edgar chegaram; este último, mal me viu, saiu logo, mas 
Gregory sentou-se junto de mim e aceitou uma chávena de chá.
- O testamento de Niang deixou-me muito triste - começou Gregory. - É tão 
injusto que não te tenha cabido nada. O que pensas que nós podíamos fazer para 
tornar o testamento mais justo e não te sentires tão mal? Eu sugiro que cada um 
de nós te dê 10 por cento da parte que lhe coube, para que acabes por ficar com 
10 por cento do total.
As suas palavras fizeram que algumas lágrimas me caíssem pela face e fiquei com 
um nó na garganta. Esperei uns momentos até sentir que podia falar com uma voz 
minimamente segura.
- Agradeço-te do fundo do coração, acho que a tua oferta é mais do que generosa.
267
- Dado que eu tenho a parte maior - interrompeu James -, os meus 10 por cento 
são equivalentes a 5 por cento do total, o que inclui também o apartamento de 
Niang. - Olhou de soslaio para Louise, que se deixou ficar cabisbaixa. Ninguém 
disse nada. - Tal como já disse antes, estou muito velho para batalhas 

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judiciais. O que eu agora quero é gozar o meu dinheiro, portanto acho que sim, a
minha resposta é sim.
- Fica então assim combinado - concluiu Gregory. - Depois falarei a Edgar e a 
Lydia.
Louise olhou para o relógio e disse:
- Dissemos a Ah Fong que estaríamos lá às 10 horas. Já são quase 9.30 e ainda 
temos de ir buscar Lydia e Edgar. Acho que devemos sair quanto antes.
- Eu por mim vou só ao cabeleireiro. Não estou interessada nas jóias nem na 
mobília de Niang. Tudo o que eu quero é o testamento do pai.
Voltei-me então para James e pedi:
- Podes dar-nos, a mim e a Bob, permissão para irmos esta tarde ao apartamento 
de Niang para o procurarmos?
- Acho que vais só gastar o teu tempo - replicou James -, mas muito bem. Vai lá 
procurar e podes levar todos os documentos que quiseres! Eu e o Sr. Lu já vimos 
e revimos todos os papéis de Niang e não conseguimos encontrar o testamento.
Depois de ter lavado a cabeça e composto o cabelo voltei para o meu quarto de 
hotel bastante mais fresca. Mal tinha acabado de entrar bateram à porta. Era 
Gregory.
- Falei a Edgar e Lydia. Edgar recusou liminarmente dar-te o que quer que seja e
Lydia a princípio também recusou, mas, depois de eu lhe ter lembrado que ela 
tinha sido deserdada e, se não tivesses sido tu, ela não teria ficado com nada, 
ela concordou em te dar 5 por cento na condição de tu fazeres uma confissão 
completa.
- Uma confissão completa? Mas o que é que eu tenho de confessar? - perguntei 
incrédula.
- Foi o que eu também lhe perguntei, mas ela não me disse bem o quê. Ela chamou 
ao facto de teres sido deserdada um ;~. ãl~ ~~~ ~ wu tou gong an (um caso sem 
pés nem cabeça). Ela quer que tu confesses as verdadeiras razões que estão por 
detrás deste caso. Penso que esta ideia lhe vem dos seus tempos de comunista. 
Ela delicia-se a ouvir as confissões dos outros. Acho que a fazem sentir-se 
poderosa. Na China,
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durante a Revolução Cultural, as pessoas passavam a vida a confessar-se em todos
os lados.
- Então Lydia quer deveras ouvir a minha verdadeira confissão. Bem, o facto é 
que eu também gostaria de saber as verdadeiras razões. Gregory, diz a Lydia que 
fique com o dinheiro dela - disse eu. - Não quero nada seu.
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Kai Men yi Dao Abre a porta e saúda o ladrão
Bob e eu acordámos estremunhados às 5 da tarde, depois de nos termos deixado 
dormir durante toda a tarde. Arranjámo-nos a correr e saímos muito apressados, 
apanhando um táxi para Magnolia Mansions.
No patamar de mármore do 10.° andar fomos assaltados por cheiros que me eram 
familiares: o perfume de Niang, a cânfora e o tabaco. Lembrei-me então de 
quantas vezes ali tinha estado naquele lancil com as mãos a suar e o coração a 
palpitar! Ah Fong abriu primeiro a porta de madeira e em seguida o portão de 
ferro.
No interior tudo estava como dantes. Ali estavam os quadros de Castiglione, o 
jesuíta italiano do século xviii na corte do imperador Qian Long. Contra uma das

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paredes estavam quatro cadeiras ricamente trabalhadas, que datavam do tempo do 
último imperador da China. De frente para o porto encontrava-se uma chaise 
longue imitação Luís XIV. Por cima da mesa de café da dinastia Qing vi uma caixa
de prata Tiffany, que eu lhe tinha enviado dezasseis anos atrás por altura do 
aniversário dela. Mesmo ao lado dessa caixa faiscava um isqueiro em ouro
que Bob lhe tinha dado num Natal. Há alguns anos aconselhara-a a deixar de 
fumar, ao que me respondeu como um tiro:
- Deixa-me em paz! Não preciso que sejas tu a dizer-me que fumar faz mal à 
saúde. Isso está escrito em todos os maços de cigarros. - E depois de um 
silêncio acrescentou de forma um tanto patética: - É o único prazer que tenho 
desde que o teu pai ficou doente.
Não lhe respondi, pois sabia que era inteiramente verdade.
Ah Fong andava à nossa volta a perguntar-nos se queríamos algo para nos 
refrescarmos e, de súbito, lembrámo-nos ambos que não tínhamos almoçado. Bob 
perguntou-lhe então, no seu cantonês rudimentar, se ela não nos podia preparar 
chá e algumas torradas. Posto isto, começámos sem mais demoras a busca no quarto
de Niang.
Desde o início da doença do pai que Niang se tinha mudado do quarto principal 
para um mais pequena mesmo em frente da verde encosta da montanha, que ficava 
mesmo por detrás do apartamento. Era decorado com uma cama de solteiro, uma 
escrivaninha antiga chinesa com a cadeira respectiva, uma cómoda com um relógio 
que lhe tínhamos oferecido alguns anos antes, um guarda-fatos e um armário 
incrustado na parede.
Comecei a inspeccionar o guarda-fatos e vi uma enorme fila de vestidos 
impecavelmente pendurados, dúzias de pares de sapatos em fileiras tal como 
soldados em parada, além de malas vazias arrumadas umas ao lado das outras numa 
prateleira em cima. O testamento não se encontraria por certo ali. Todavia, o 
mero contacto com os seus objectos pessoais deu-me náuseas. A fraca luz no 
tecto, bem como a da mesa-de-cabeceira, coavam a luminosidade e faziam sombras 
sinistras. Senti o peito a apertar-se pelo forte efeito da sua aura; os meus 
sentidos ficaram saturados com o seu odor.
Fui então ver a antiga escrivaninha chinesa. Seis anos antes, Niang tinha 
prometido a Bob que lhe deixaria exactamente esta peça. "Trabalhada por 
excelentes artífices durante o período da dinastia Ming", lembro-me que foi o 
que ela disse nessa ocasião. Estaria ela já a mentir nessa altura? Pus-me então 
a observar com atenção o magnífico trabalho de madeira e experimentei o deslizar
perfeito da gaveta de cima, que abri.
Os maços de cartas deixaram-me de boca aberta. Pilhas e pilhas de envelopes de 
correio aéreo, num total de talvez duzentas cartas, irrepreensivelmente 
arrumadas em filas. Comecei pelas que estavam
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271
manuscritas em pequenos e familiares caracteres chineses com selos coloridos da 
República Popular da China. Todas vinham de Tianjin e eram endereçadas à Senhora
Joseph Yen. Eram todas escritas por Lydia.
A visão destas cartas deixou-me grudada ao chão. Por que razão tinha Lydia 
escrito a Niang quase dia sim, dia não? Num acesso de maior curiosidade, peguei 
no envelope de cima e tirei de lá a respectiva carta. À medida que comecei a 
ler, o aperto no meu peito fez-se sentir com mais força. Senti uma tontura, como
se estivesse no cimo de uma torre e visse tudo em baixo a andar à roda.
Carta após carta, todas elas estavam cheias de mentiras a meu propósito, 
incitando Niang contra mim. Eu era "cruel, egoísta e miserável" e Lydia 

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aconselhava Niang a tratar comigo com todo o cuidado, pois que ela já não se 
encontrava numa posição de força. Acusava-me de desobediência pelo facto de ter 
continuado a contactar Susan e de me ter juntado a ela e a todos os meus outros 
irmãos para ajudar Taiway, com a intenção pura e simples de desafiar as suas 
ordens. O ano de 1997 aproximava-se a grande velocidade, quando Hong-Kong 
passaria a ser governado por Beijing. Ela jogava com os medos e as fobias de 
Niang, escrevendo-lhe que eu andava a incitar James a emigrar, a fim de deixar 
Niang só e abandonada durante os seus últimos anos. Por fim pedia segredo a 
Niang.
Mesmo por debaixo destas cartas estavam outras de Samuel e de Tai-ling com 
acusações semelhantes. Com o coração pesado, dei-me conta de que ao ir contra as
ordens de Niang ajudando a família de Lydia, tinha kai men yi dao (aberto a 
porta e saudado o ladrão).
Quando me voltei para mostrar a Bob as cartas de Lydia, ele deu um grito de 
alegria. Tinha estado a remexer papéis na dispensa de Niang e era sem sombra de 
dúvida melhor detective do que eu. Apareceu junto de mim a abanar triunfalmente 
um documento. Era o testamento do meu pai.
Bob e eu sentámo-nos na borda da cama de Niang e lemos repetidas vezes o 
testamento do pai. Parecia que ouvia de novo a voz de meu pai, como se se 
tivesse levantado da sua campa e eu o estivesse a abraçar de novo. Os seus 
desejos aliviaram o meu coração. O testamento de meu pai, escrito a 2 de Maio de
1974, era radicalmente diferente do de Niang, escrito a 2 de Junho de 1988, 
menos de três semanas após a sua
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morte. O pai tinha dividido os seus bens em sete partes. Deixava uma parte para 
mim, outra para Gregory, uma também para Edgar, duas para James e as outras duas
para os seus netos que tivessem o apelido Yen. Nenhuma parte era deixada para 
Susan. Além disso, tinha escrito no testamento: "Gostaria de esclarecer que 
nenhuma parte dos meus bens é deixada a Lydia Yen Sung."
Ao dobrar de novo o papel do testamento, senti-me a abraçar o meu pai.
- No final de contas o testamento de Niang não é importante. Aconteça o que 
acontecer, este documento, o testamento do meu pai, é o que é importante para 
mim. Ele pelo menos não me excluiu. No fundo, talvez me amasse. E, além de tudo 
o mais - acrescentei -, James fará o que é correcto. É ele o executor do 
testamento e é um homem honesto.
Ao acaso tirámos algumas das cartas de Lydia e juntámo-las ao testamento do pai 
dentro da minha mala de mão. Sentados já no táxi a caminho do nosso hotel, Bob 
agarrou-me a mão e disse-me:
- Lembra-te que sempre me terás a mim ...
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Yan Er Dao Ling Não querer ver o que é evidente
Na manhã seguinte, eu e James encontrámo-nos para o pequeno-almoço numa loja de 
dim sum43. Sentámo-nos um em frente do outro em banquinhos que estavam dispostos
em volta de uma mesa, tudo ao estilo da "Velha Xangai". Havia ventoinhas que se 
moviam lentamente no tecto,
janelas com vidros martelados, chão em parquet encerado, fotografias da época, 
vasos com crisântemos frescos. Éramos os únicos clientes.
Lá fora chovia copiosamente. Serviram-nos chá e nós pedimos uma tigela de sopa 
de fitas cada um. Em silêncio passei o testamento para as mãos de James e ele 
mostrou-se admirado com a facilidade com que

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o encontráramos. Voltou a dizer que tanto ele como o Sr. Lu o tinham procurado 
"por toda a parte", mas sem qualquer resultado.
- Eu gostaria de ficar com este testamento. Bem sei que não tem qualquer valor, 
mas quero tê-lo na mão para o advogado que vai tratar das partilhas.
°' Refeição matinal chinesa composta de pequenos pratos leves, geralmente com 
comida preparada no vapor. (N. da T.)
- Além do testamento, também encontrámos muitas cartas na escrivaninha de Niang.
Talvez umas duzentas. A grande maioria foram enviadas por Lydia. Trouxemos 
algumas connosco quando deixámos o apartamento de Niang ontem à noite.
Tirei uma pilha de cartas da minha mala de mão e pu-la junto ao testamento do 
pai. James olhou para as cartas, franziu o sobrolho e cerrou os lábios. Já lhe 
tinha visto esta expressão muitas vezes, especialmente quando no fim de um bem 
disputado jogo de xadrez, pouco antes do seu lanço final para cheque-mate.
- Não tinhas o direito de tocar nessas cartas, e muito menos de as tirar da 
escrivaninha de Niang - disse ele com uma voz gelada. - Essas cartas são 
privadas!
- Eu penso que as devias ler. Olha aqui - disse eu com alguma ênfase -,esta 
carta tem a data de 7 de Outubro de 1987. Enquanto eu tentava ajudar os filhos 
dela, Lydia conspirava contra mim.
- Eu não quero ler essas cartas envenenadas.
- Mas não queres conhecer a verdade? - perguntei eu, agora de forma um tanto 
patética. - Tu não podes ~~ ~ ~. i; yan er dao ling (não querer ver o que é 
evidente).
- Será que existe a verdade absoluta? - lançou ele com retórica. - Tudo depende 
do ponto de vista das pessoas. De qualquer forma, é tudo água que passa sob a 
ponte. Suan le (let it be)! Além disso, detesto conflitos! Lembra-te que, se 
denunciares o testamento, estarás a entrar em confronto comigo. E, se, por 
acaso, tu e eu nos tivermos de confrontar em tribunal, então estaremos a 
deixar-nos apanhar pela armadilha de Niang, pois que isso foi sempre o que a 
velhota sempre quis.
- Tu foste apanhado pelas teias dela há já muito tempo. Ela sempre soube como 
lidar contigo. Tu nunca foste um desafio para ela. Somente Lydia era 
suficientemente ínvia para competir com ela.
James deu uma gargalhada.
- Tens razão! São as duas tiradas do mesmo molde. Pena foi que só compreendesses
isso muito tarde e à tua própria custa. Foste tu quem levou Lydia e Niang a 
reconciliarem-se. Se elas não se tivessem encontrado em 1986, as coisas 
ter-se-iam passado de uma forma muito diferente. - Pousou os pauzinhos e pediu a
conta. - O teu grande problema, Adeline, é que estás sempre a transferir para os
outros os teus próprios sentimentos e pensamentos. Quiseste sempre que todos nós
partilhássemos o teu sonho de uma família unida, mas de facto nunca
nenhum de nós se importou com isso, excepto tu. Desculpa, mas agora tenho de ir.
Está-se a fazer tarde para mim.
O seu olhar por momentos cruzou-se fixa e obstinadamente com o meu. Levantou-se 
e agarrou no testamento do pai e nas cartas de Lydia. - Enviar-te-ei uma 
fotocópia do testamento do pai, mas, quanto a estas cartas, como são privadas, 
vou queimá-las.
Saímos e continuava a chover, como se todo o mundo chorasse naquele momento. 
Durante a nossa infância e juventude, bem como quando já éramos adultos, sempre 
fôramos um para o outro um ombro amigo. Ao longo de anos Niang deve ter sentido 
sempre um certo rancor por esta inclinação especial que sempre tivemos um pelo 
outro. Por fim, com a intenção de destruir este nosso laço, levou-o a participar

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numa fraude que ele detestava. Nada mais lhe agradaria do que ver-nos discutindo
e lutando por causa da sua herança.
Quando o vi começar a afastar-se, protegendo-se da chuva, chamei-o: - `_ ~-! San
ge! (Terceiro Irmão mais Velho)! Foi um grande infortúnio termos tido Niang como
madrasta. Mas não te preocupes, pois eu não vou contestar o seu testamento. 
Nunca deixarei que ela triunfe à minha custa.
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Luo Ye Gui Gen As folhas que caem regressam às suas raízes

Num dia cinzento de Março de 1994 recebi uma carta da minha tia pedindo-me que 
fosse ter com ela a Xangai. As notícias deixaram-me num estado de grande apatia,
que se conjugava naquele ano com um tempo excepcionalmente frio e cinzento para 
o clima do Sul da Califórnia.Embora tivesse de continuar com os meus afazeres 
diários, tinha uma dor latente, que se agravava sempre que me vinha à ideia a 
imagem dela a morrer sozinha na sua enorme casa.
No meu íntimo algo me dizia que aquela minha visita seria a última. 
Instintivamente rejeitei a ideia, para mim inaceitável, de que a tia Baba 
pudesse partir deste mundo para sempre num futuro muito próximo. Durante a longa
viagem de Los Angeles para Xangai, via Tóquio, fui fazendo planos detalhados de 
como a trazer para a América a fim de ser observada pelos melhores 
especialistas.
A Xangai dos anos 90 tinha-se transformado numa cidade onde palpitava energia e 
vitalidade. Os carros atravancavam as ruas. Por todos os lados se viam 
guindastes na construção de novos edificios. O hori
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zonte estava envolto numa nuvem de fumo formada por esta renovação geral de 
velhos edifícios e por novas construções.
Uma vez mais entrei na rua que me era tão familiar, onde ela tinha vivido 
durante os últimos cinquenta anos. Estava agora suja, com restos de cimento e 
materiais de construção. Fiz o meu caminho pelo meio de motas de grande 
cilindrada e de carros de luxo importados. Do lado do jardim empurrei a nova 
porta de vidro pintado francês, dirigi-me até à antiga sala de estar, que era 
agora o seu quarto, e abracei a minha tia.
Ela encontrava-se de cama com uma anca partida por causa de uma queda que dera. 
Os raios X haviam mostrado que ela tinha cancro no cólon e que este já se tinha 
espalhado. Para minha grande surpresa, encon trei-a com muita alegria e sem 
dores, em parte, se calhar, devido às pequenas doses de morfina que lhe estavam 
a administrar. Estava rodeada de vizinhos e de amigos que se revezavam ao seu 
lado dia e noite. Neste ambiente ao mesmo tempo acolhedor, barulhento e 
extremamente gregário em torno da cama de um doente, tão diferente da rigorosa e
estéril solidão dos quartos de hospital americanos, a vida dela tinha-se 
surpreendentemente tornado uma contínua festa de despedida.
Bob, que na altura me acompanhava, tinha andado a aprender mandarim. Tentou usar
os seus novos conhecimentos com a minha tia, apesar de eu achar que aquilo que 
dizia não se assemelhava a nenhum dos dialectos que eu alguma vez ouvira. Após 
alguns momentos, quando ele se tinha embaralhado numa frase de sintaxe tortuosa,
a tia Baba interrompeu-o e perguntou-lhe qual era a língua que ele estava a 
falar. Quando ele lhe respondeu que era mandarim, ela retorquiu com ironia:
- Para a próxima, quando começar a falar chinês, por favor diga-me "eu vou agora
falar mandarim consigo." De outra forma, os meus velhos ouvidos poderão julgar 
que continua a falar inglês.

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Adeline_Yen_Mah_-_FOLHAS_CAIDAS

Tinha de facto voltado para o aconchego do mundo da tia Baba, com a certeza de 
que ela fora a pessoa para quem eu sempre seria importante. Ali, tendo as suas 
mãos nas minhas e ouvindo o seu falar cantado próprio de Xangai, até me esqueci 
do peso que tivera na minha cabeça desde que soubera da sua doença. Muito longe 
do medo e da tristeza, a tia Baba emanava uma tranquila euforia. Ela tinha 
recusado categoricamente considerar a hipótese de uma operação ou de uma 
hospitalização, repreendendo-me com gentileza quando lhe expus os meus planos 
grandiosos de a levar dali, pois os achava "macabros" e "antinaturais".
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- Tive uma vida feliz durante oitenta e nove anos. É tempo de aceitar o fim, 
pois que, se não há esperança de cura, para quê prolongar a minha agonia?
Até ao final as suas preocupações eram somente as pessoas que amava e que tinha 
de deixar. Quis mesmo dar-me forças para eu poder enfrentar o meu sofrimento. 
Deitei-me na borda da cama dela junto do seu corpo fraco e magro ... como tantas
vezes fizera durante a minha infância, especialmente quando não me vinha o sono 
por tudo ser tão terrível e a vida me parecer sem esperança. Então ela 
aconchegou-me, tal qual como no passado, fazendo-me festas no cabelo e 
contando-me uma história. Chamava-lhe "A Ferida Incurável".
- Há muito, muito tempo, havia uma criança chamada Ling-ling que era uma artista
muito habilidosa. Depois da morte da mãe, a concubina favorita do seu pai 
começou a tratá-la bastante mal, mostrando nítida preferência pelos seus 
próprios filhos. Ling-ling não tinha ninguém com quem brincar e passava o seu 
tempo a pintar. Ora acontece que os seus quadros se tornaram muito famosos e ela
conseguiu vendê-los por muitos taéis de prata. Isto não fez mais do que 
espicaçar o ciúme que a sua madrasta tinha por ela. Uma noite, foi até junto da 
cama de Ling-ling e cravou um prego sujo na mão da criança, não sem antes ter 
espalhado fezes no prego para causar uma infecção.
Passados alguns dias, a mão de Ling-ling estava vermelha e inchada. Apesar de o 
prego ter sido retirado, continuava a sair mudo pus da ferida. Porém, Ling-ling 
continuava a pintar.
Entretanto, algo de extraordinário aconteceu. A ferida nunca mais sarava, mas 
Ling-ling continuava a pintar e a sua pintura era cada vez de melhor qualidade. 
Quanto mais pus saía da ferida, maior beleza tinham as suas obras. Nunca se 
tinha ouvido nada semelhante em toda a China. O sofrimento que lhe advinha da 
ferida na mão parecia ter enchido Ling-ling da essência da invencibilidade, 
dando-lhe forças para ~, ~n ,;G ~, I`fJ ~n .~ ~, zhan er bi sheng, dou er bi ke 
( vencer em todas as batalhas, ultrapassar todas as adversidades).
A fama de Ling-ling chegou mesmo aos ouvidos do imperador e este chamou-a certo 
dia ao palácio para que ela fizesse o retrato do príncipe herdeiro. 
Apaixonaram-se um pelo outro e casaram. Todavia, apesar de se terem consultado 
todos os melhores médicos do Império e de Ling-ling ter tomado todos os remédios
por eles preparados para si, o certo é que a sua ferida não sarava de maneira 
nenhuma. Conti
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nuou, porém, sempre a pintar de forma surpreendente até à hora da sua morte, o 

 

que aconteceu era ela já velhinha.

'

As palavras da tia Baba eram como uma suave brisa que passa por entre as nuvens 
negras. A sua crença nas minhas capacidades dera-me sempre forças para 
ultrapassar as minhas inumeráveis dificuldades. E, naquele momento, a sua 
história tocou-me por artes mágicas como uma varinha de condão, trazendo-me 
harmonia e alívio.

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Adeline_Yen_Mah_-_FOLHAS_CAIDAS

Dia após dia, sentada a seu lado, via-a cair em estado de coma, de onde nunca 
mais acordaria, e acreditei que a minha proximidade a ajudaria a empreender esta
sua última viagem. Reflectindo nos seus 89 anos, que haviam coberto a quase 
totalidade do século xx, dei-me conta de quão sábia tinha sido a minha mãe ao 
ter-me deixado aos cuidados desta minha tia tão especial. Com os seus modestos 
modos e sem nunca o confessar, ela incutiu em mim um espírito de independência, 
que, aliás, ela também tinha demonstrado quando recusou sujeitar-se a Niang e 
preferiu deixar-se ficar em Xangai. A tia Baba não era, além disso, uma pessoa 
para se deixar afectar e abater pelas provações por que passou durante a 
Revolução Cultural. Amor, generosidade e humor foram sempre seu apanágio.
A vida tinha fechado o seu ciclo. i~ -~ ;~ ~~ Luo ye gui gen. (As folhas que 
caem regressam às suas raízes.) Senti-me em profundo repouso, em calma 
serenidade.

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colecÇão gradiva
1. O JARDIM DE CIMENTO lan McEwan
2. ACHADA NA RUA Patricia Highsmith
3. AS BRUXAS DE EASTWICK John Updike
4. ALGUNS LUGARES MUITO COMUNS
Eduarda Dionísio
5. A ÁRVORE DOS TESOUROS Henri Gougaud
6. O SISTEMA PERIÓDICO Primo Levi
7. PRIMEIRO AMOR, ÚLTIMOS RITOS
Ian McEwan
8. UM MÊS NO CAMPO J. L. Carr
9. AS PAIXÕES PARTILHADAS Félicien Marceau
10. CATÁSTROFES Patricia Highsmith
11. AMOR E DEDINHOS DE PÉ Henrique de Senna Fernandes
12. AS SETE GERAÇÕES Eva Figes
13. A CRIANÇA NO TEMPO Ian McEwan
14. SEREIAS NO CAMPO DE GOLFE
Patricia Highsmith
15. ENTRE OS LENÇÓIS Ian McEwan
16. PALAIS-ROYAL Richard Sennett
17. O ÍDOLO Robert Merle
18. UM DIA NO VERÃO J. L. Carr
19. UM ALMOÇO NUNCA É DE GRAÇÀ
David Lodge
20. O ABISMO OCULTO Pierre Bettencourt
21. O INOCENTE Ian McEwan
22. OS HOMENS QUE AMARAM EVELYN COTTON
Frank Ronan
23. OS DESPOJOS DO DIA Kazuo Ishiguro
24. ESTRANHA SEDUÇÃO Ian McEwan
25. PIQUENIQUE NO PARAÍSO Frank Ronan
26. VOX
Nicholson Baker
27. NOTÍCIAS DO PARAÍSO David Lodge
28. O MELHOR ANJO Frank Ronan
29. CÃES PRETOS Ian McEwan

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Adeline_Yen_Mah_-_FOLHAS_CAIDAS

30. ALGUNS HOMENS, DUAS MULHERES E EU
Maria do Rosário Pedreira
31. A BELA DE MOSCOVO Victor Erofeev
32. A MORTE DE UM HERÓI Frank Ronan
33. O SONHADOR Ian McEwan
34. OS HOMENS BRONZEADOS FICAM BONITOS
Frank Ronan
35. OS INCONSOLADOS Kazuo Ishiguro
36. TERAPIA David Lodge
37. OS MELHORES AMIGOS Joanna Trollope
38. OS LIVROS DE PASCALE Maurizio Maggiani
39. O CONHECIMENTO DOS ANJOS
Jill Paton Walsh
40. LOVELY Frank Ronan
41. CONTACTO

 

Carl Sagan

56. O OUTRO LADO DO ESPELHO

 

42. UMA CASA EM PORTUGAL

Marya Hornbacher Richard Hewitt

 

43. O FARDO DO AMOR

57. O AMANTE ESPANHOL

 

Ian McEwan

Joanna Trollope

 

44. ATÉ ONDE SE PODE IR?

58. O DIÁRIO DE EDITH

 

David Lodge

Patricia Highsmith

45. PARENTES PRÓXIMOS Joánna Trollope
59. REGRESSO À CASA EM PORTUGAL Richard Hewitt

 

46. O PRIMEIRO GOLO DE CERVEJA E OUTROS PRAZERES MINÚSCULOS

60. FOLHAS 

CAÍDAS

 

Philippe Delerm Adeline Yen Mah
47. A SOMBRA DE FOUCAULT Patricia Duncker
48. IDORU William Gibson
49. FOLHAS MORTAS Bárbara Jacobs
50. BEBER: UMA HISTÓRIA DE AMOR
Caroline Knapp
51. HILDA FURACÃO Roberto Drummond
52. AMESTERDÃO Ian McEwan
53. MEUS QUERIDOS MORTOS Erika de Vasconcelos
54. O INSECTO IMPERFEITO Beatriz Lamas de Oliveira
55. QUARENTENA Jim Crace

Carla Maria Ferreira dos Mártires

2001-12-27

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