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Querida leitora, 

Entre as muitas coisas que aguçam a imaginação humana, viajar no tempo é uma delas. 
Desde sempre a humanidade sonha com essa possibilidade e muito já foi escrito sobre 
isto. Considerando que, tecnicamente, ainda não é possível fazermos esse tipo de 
viagem — talvez nunca será —, resta-nos embarcarmos na "nave" da literatura e 
partirmos rumo ao passado, sob o comando de Brenna Todd... 
Com O Enigma do Medalhão, esta escritora supercriativa nos proporciona uma história 
eletrizante. Ela nos mostra que o amor não tem fronteiras, nem de espaço nem de tempo. 
Você vai se empolgar com a estranhíssima situação vivida por Anne  
Sawyer que, de repente, se vê lançada numa aventura tão misteriosa e ao mesmo tempo 
profundamente romântica e sensual! 
Receba um forte e carinhoso abraço deste seu amigo 
Roberto Pellegrino 
Editor 

 
 
 

Copyright © 1994 by Brenda Hamilton 

Originalmente publicado em 1994 pela Harlequin Books, Divisão da Harlequin Enterprises Limited. 

 

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução total ou parcial, sob qualquer forma. 

Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá. 

 

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá 

sido mera coincidência. 

 

Título original: THE LOCKET 

 

Tradução: Maria Cristina F. da Silva 

 

EDITORA NOVA CULTURAL uma divisão do Círculo do Livro Ltda. 

Alameda Ministro Rocha Azevedo, 346 - 9º andar 

CEP: 01410-901 - São Paulo - Brasil 

 

Copyright para a língua portuguesa: 1995 

CÍRCULO DO LIVRO LTDA. 

Fotocomposição: Círculo do Livro 

Impressão e acabamento: Gráfica Círculo. 

 

 

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— Unidade dois, prioridade um. Dores no peito. O paciente, um homem idoso, 

está pálido e suando muito. Embora consciente, apresenta dificuldades respiratórias. O 
paciente tem um histórico de problemas cardíacos. Procurem o caseiro da propriedade 
Munro, no bulevar West Munro, número trezentos. 

Anne Sawyer observou Chuck, seu parceiro de duas semanas, ligar a sirene e dar 

partida  no  motor  da  ambulância.  Enquanto  punha  o  veículo  branco  e  vermelho  em 
movimento, Chuck assobiou baixinho e comentou: 

— Estamos indo socorrer ninguém menos que o velho J.B. Munro. 

Anne  não  questionou  o  fato  de  seu  parceiro  de  trabalho  saber  quem  era  o 

paciente.  Afinal,  Chuck  conhecia  todo  mundo  que  vivia  na  cidade  de  doze  mil 
habitantes. Na verdade, todos conheciam uns aos outros em Munro, Oklahoma. Muita 
gente tinha laços de parentesco entre si, 

— Foi J.B. quem fundou a cidade — prosseguiu Chuck, erguendo a voz para se 

fazer ouvir acima do barulho estridente da sirene. — Ele é considerado o "Rockefeller 
de  Oklahoma",  por  causa  da  fortuna  que  conseguiu  juntar  na  época  da  expansão  das 
estradas  de  ferro  nessa  região  do  país.  Foi  J.B.  quem  planejou  e  construiu  Munro.  O 
sujeito deve ter no mínimo uns cem anos. 

— Cuidado com aquele Subaru ali na frente — preveniu Anne. 

Chuck  desviou  a  ambulância  para  evitar  uma  colisão  com  o  pequeno  carro 

japonês,  e  depois  voltou  a  pisar  fundo  no  acelerador  para  atravessar  um  cruzamento. 
Olhando de lado para Anne, brincou: 

— Imagino que este tipo de situação faça mais o seu estilo, não é mesmo? 

— "Meu estilo"? Como assim? 

— Bem, você já está neste emprego há duas semanas, e a coisa mais emocionante 

que  fizemos  até  agora  foi  salvar  o  cachorro  de  estimação  da  Sra.  Hixon  de  morrer 
asfixiado. 

— Você chama isso de "emocionante"? — riu Anne. 

— Foi emocionante para a Sra. Hixon e para o cachorro, pelo menos. — Chuck 

diminuiu  um  pouco  a  velocidade  para  fazer  uma  curva  mais  perigosa.  Em  seguida, 
argumentou: — Aposto que lá em Detroit você levava uma vida mais excitante. 

Anne assentiu com um gesto de cabeça, enquanto observava a paisagem através 

da  janela  da  ambulância.  Ela  sentia  falta  da  emoção,  da  excitação  de  trabalhar  como 
para-médica em Detroit, onde a maioria dos chamados envolvia casos de vida ou morte. 
Mas  era  difícil  explicar  isso  para  os  outros  para-médicos  em  Munro.  Eles  apenas 

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sorriam  e  davam  de  ombros  quando  Anne  começava  a  falar  sobre  as  chamadas  de 
emergência que já recebera em todos os seus anos de profissão, e depois mencionavam 
com orgulho o baixíssimo nível de criminalidade na região. Não acontecera um único 
assassinato  em  Munro  nos  últimos  dez  anos.  Só  três  pessoas  haviam  sido  presas  por 
crimes de pouca gravidade. As lojas de bebidas e os bancos locais não eram assaltados. 
Roubo  de  automóveis  e  venda  de  drogas  nas  esquinas  eram  ocorrências  inéditas  na 
cidade. As únicas gangues rivais em Munro eram os dois clubes de crochê e tricô — um 
deles formado por senhoras da igreja metodista, e o outro por senhoras da igreja batista. 

— O ritmo sossegado de vida nesta cidade tem feito bem ao meu pai e à minha 

mãe,  Chuck  —  disse  Anne,  enquanto  tentava  se  convencer  intimamente  de  que  a 
tranqüilidade  do  lugar  também  fazia  bem  a  ela  mesma.  —  Os  dois  nasceram  e 
cresceram aqui. 

— O seu pai nunca lhe falou a respeito de J.B? 

—  Não.  Acho  que  era  doloroso  para  o  meu  pai  falar  sobre  a  sua  vida  em 

Oklahoma. Ele sentia tanta falta daqui... 

Mas  o  Sr.  Sawyer  estava  de  volta  à  terra  natal,  agora,  recuperando-se  de  um 

ataque cardíaco que quase o levara à morte. 

— Então você não sabe do escândalo, Anne? 

— Que escândalo? 

— É uma história bastante antiga, que aconteceu por volta dos anos vinte. J.B. e 

sua primeira esposa, Virgínia, pegaram para criar a filha de um casal de parentes pobres. 
Os  dois  assumiram  a  tutela  da  garota.  Virgínia  morreu  oito  ou  nove  anos  mais  tarde. 
J.B. esperou um ano e depois casou-se com a mocinha, chamada Deborah. 

— O Sr. Munro casou-se com a jovem que havia pegado para criar? Que loucura! 

Como é que os respeitáveis habitantes de Munro não mudaram o nome da cidade, em 
protesto contra uma atitude tão desajuizada? 

Chuck riu, antes de acrescentar: 

— Você ainda não ouviu nem metade da história! Deborah foi assassinada anos 

mais tarde, e nunca descobriram quem a matou. Dizem que Deborah estava tendo um 
caso com o sócio de J.B, e que foi o tal sócio que a mandou desta para melhor. Muita 
gente, porém, acredita que o foi próprio J.B. que assassinou a esposa, ao descobrir que 
estava sendo traído. 

Poucos minutos mais tarde a ambulância chegou à grande propriedade que Anne 

já vira diversas vezes ao passar pelas proximidades, desde que se mudara para Munro. 
Chuck conduziu o veículo pintado de branco e vermelho por um caminho ladeado por 
árvores altas. Embora fosse atualmente uma pacata comunidade rural, Munro abrigara 
no passado um bom número de milionários que haviam enriquecido explorando poços 
de petróleo e estradas de ferro. Alguns deles tinham construído residências nos terrenos 

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que  cercavam  a  propriedade  de  J.B,  mas  nenhuma  delas  era  tão  grande  e  majestosa 
quanto a do fundador da cidade. 

A  mansão  de  J.B.  Munro  erguia-se  com  imponência  em  meio  a  um  jardim 

malcuidado, parecendo mais um castelo da época do rei Artur do que a residência de um 
magnata ligado à construção de estradas de ferro. Pequenas torres posicionavam-se nos 
quatro cantos das fachadas de pedra; gárgulas esculpidas em pedra enfeitavam os cantos 
do telhado da mansão de quatro andares. Um grande escudo de armas adornado com o 
nome Munro encimava uma imensa porta dupla de madeira. Não fosse pela falta de um 
fosso  e  de  uma  ponte  levadiça,  Anne  poderia  ter  se  sentido  entrando  em  território 
britânico. 

— A mansão é impressionante, não acha? — indagou Chuck. 

— Sem dúvida. Mas o jardim precisa de cuidados — observou Anne. 

— Sim, é claro que atualmente as plantas precisam ser podadas e que o gramado 

precisa ser aparado, mas nos bons tempos este lugar tinha uma aparência fantástica. O 
pessoal  da  cidade  costumava  chamar  a  mansão  de  "o  Palácio  da  Campina".  Ninguém 
nunca tinha visto uma construção tão magnífica e luxuosa aqui na região. 

Chuck estacionou a ambulância em frente ao pórtico que sombreava os degraus 

de  entrada.  Anne  pegou  a  sua  maleta  de  equipamentos  e  desceu  do  veículo.  Chuck 
adiantou-se e bateu à porta, comentando: 

— O lugar parece deserto. 

Parada ao lado de seu parceiro de trabalho, Anne esperou em silêncio enquanto 

ele tentava abrir a porta. Foi inútil, pois a porta estava trancada. Chuck bateu com mais 
força na superfície de madeira e depois começou a bater no vidro de uma janela lateral, 
gritando: 

— Serviço de emergência! Por favor, deixem-nos entrar! 

Anne olhou para dentro da mansão por uma outra janela e viu diversos móveis 

cobertos por lençóis. Não havia luzes acesas em nenhum dos aposentos. 

— Não há ninguém aí dentro — disse Anne. — A menos que o Sr. Munro esteja 

num dos andares superiores... 

— Talvez. Mas por que o caseiro não está à vista, esperando por nós? — Chuck 

voltou para junto da ambulância, avisando: — Vou entrar em contato com a central para 
confirmar o chamado. 

Depois de bater à porta mais algumas vezes, Anne contornou a casa à procura de 

alguma outra porta ou janela que pudesse estar aberta, ao mesmo tempo em que gritava 
o nome do Sr. Munro. Ao retornar para a parte da frente da mansão, viu que seu parceiro 
ainda estava na ambulância aguardando a confirmação do chamado através do rádio de 
comunicação com a central. Frustrada, Anne decidiu bater à porta uma última vez. 

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Antes  que  a  sua  mão  encostasse  na  superfície  de  madeira,  contudo,  ela  foi 

assaltada por um mau pressentimento. Posicionada de frente para a porta, o seu olhar foi 
atraído por um desenho gravado em baixo-relevo na madeira. Uma figura celta cercava 
um conjunto de iniciais: J.B.M. Apesar de seu inexplicável desconforto Anne deu um 
passo à frente, sentindo uma estranha vontade de tocar o baixo-relevo. 

Quando  as  pontas  de  seus  dedos  fizeram  contato  com  a  madeira,  ela 

experimentou  uma  forte  sensação  de  déjà  vu  e  ouviu  um  enigmático  zumbido. 
Esquisito...  Já  vira  a  mansão  ao  passar  ali  perto,  mas  nunca  pusera  os  pés  na 
propriedade.  Sendo  assim,  por que  tinha  a  impressão  de  que  já  tocara  o  baixo-relevo, 
antes? 

Será  que  já  estivera  perto  da  mansão  quando  criança?  Anne  e  os  pais  haviam 

vindo muitas vezes a Munro para visitar parentes. Talvez ela já tivesse sido trazido até 
ali por alguém e... 

— Ele está na casa de hóspedes! 

Anne  virou-se  na  direção  da  voz  de  Chuck.  Casa  de  hóspedes...?  No  mesmo 

instante ela recuperou a presença de espírito. Voltou correndo para a ambulância, jogou-
se no assento do passageiro e afivelou o cinto de segurança. 

Chuck, que já havia ligado o motor do veículo, pisou fundo no acelerador. 

— Depressa! Ele está lá dentro, deitado no sofá! 

Anne e Chuck passaram às pressas ao lado do caseiro parado à porta da casa de 

hóspedes. O empregado seguiu-os, explicando: 

— Venho dar uma olhada no Sr. Munro todos os dias, e sempre o encontro com 

boa disposição. Mas hoje... Acho que ele está bastante mal. 

"Bastante mal" era pouco para descrever o estado do idoso senhor. A pele de J.B. 

Munro  assumira  o  tom  cinzento  de  alguém  que  sofrera  um  ataque  cardíaco;  o  rosto 
enrugado estava contorcido numa careta de dor, e as mãos magras apertavam o peito. Os 
cabelos brancos do paciente, e também as suas roupas, estavam molhados de suor. 

Chuck apressou-se a preparar a máscara de oxigênio e o eletrocardiógrafo. 

— Sr. Munro, somos do serviço médico de emergência — disse Anne, enquanto 

media a pressão e o pulso do paciente. Ela lançou um olhar preocupado ao seu parceiro, 
indicando que as medidas não eram nada boas. — Estamos aqui para ajudá-lo. O senhor 
consegue falar? 

Um gemido fraco foi a única resposta. 

Chuck ligou o eletrocardiógrafo e Anne franziu a testa ao ouvir o ritmo fraco das 

batidas do coração de J.B. Munro, que correspondiam à pressão e ao pulso que acabara 
de medir. 

Anne tornou a olhar para Chuck. 

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— Precisamos dar soro D5W ao paciente — avisou. 

Ela  pegou  uma  embalagem  plástica  que  havia  na  maleta,  abriu-a  e  tirou  um 

cateter. Amarrou um torniquete no braço magro de J.B. e procurou uma veia. 

Enquanto  Anne  conectava  o  cateter  ao  frasco  de  soro  D5W,  Chuck  enfiou  a 

agulha na veia encontrada por ela,. Em seguida, anunciou: 

— Vou buscar a maca. 

Anne  aquiesceu  com  um  gesto  de  cabeça,  antes  de  pegar  uma  pequena  toalha 

felpuda e macia para enxugar o suor do rosto do paciente. J.B. Munro tornou a gemer, e 
Anne  sentiu  pena  dele.  Pobrezinho,  era  tão  velho!  Chuck  não  errara  na  estimava  que 
fizera;  o  coitado  devia  ter  mesmo  uns  cem  anos  ou  mais,  e  parecia  tão  frágil  e 
vulnerável quanto uma criança. Uma peculiar cicatriz em forma de "C" perto do olho 
esquerdo pulsava, e o rosto enrugado espelhava o mesmo susto e o mesmo medo que 
haviam surgido na expressão do pai de Anne na noite em que ele quase morrera. Anne 
estremeceu  e  começou  a  conversar  com  J.B,  tentando  afastar  da  mente  a  triste 
lembrança. 

— Sou do serviço médico de emergência, Sr. Munro — repetiu. — Meu parceiro 

e eu vamos levá-lo para o hospital. 

O  paciente  fitou-a,  confuso,  e  repetiu  várias  vezes  uma  palavra  que  Anne  não 

conseguiu entender. 

Forçando um sorriso, ela procurou tranqüilizá-lo. 

— Não precisa ter medo, o senhor logo ficará bom. Tente não se mexer muito e... 

—  Deborah?  —  murmurou  J.B  ,  erguendo  uma  mão  trêmula  para  tocar-lhe  o 

rosto. — Meu Deus... É você, Deborah? 

— Não, Sr. Munro — respondeu Anne, abaixando-lhe gentilmente a mão. 

A desorientação era mais um dos sintomas de um ataque cardíaco. O Sr. Sawyer 

tivera o mesmo tipo de reação; ao olhar para a filha, chamara-a pelo nome da mãe. 

— Sou do serviço de emergência médica e... 

Anne não pôde terminar a frase, pois voltou a ser interrompida por J.B. 

— Você continua linda — murmurou o idoso senhor, uma lágrima escorrendo-lhe 

pelo rosto pálido. — Deborah, minha querida... 

Sem saber por que, Anne sentiu um calafrio. O olhar de reconhecimento de J.B. 

parecia tão lúcido! 

— Não, Sr. Munro, eu sou... 

— Pode me perdoar, Deborah? Nunca tive a intenção de magoá-la... 

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A voz de J.B. falhou e mais lágrimas escorreram-lhe pelo rosto. Ele segurou uma 

das mãos de Anne e apertou-a com as poucas forças que lhe restavam. 

— O que eu fiz com você... — A agitação do paciente prejudicou-lhe ainda mais 

a respiração. — Por Deus, o mal que eu lhe causei... 

—  Por  favor,  Sr.  Munro,  tente  acalmar-se  —  insistiu  Anne,  soltando  a  mão  e 

enxugando as lágrimas do Sr. Munro com a toalhinha. — Procure não se exaltar, e tudo 
terminará bem. 

J.B. obedeceu, mas as lágrimas continuaram a molhar-lhe as faces. Ele fitou Anne 

com tanta intensidade que ela voltou a sentir um calafrio. 

— Não... Não, eu estava errado! — exclamou o paciente, de súbito. — Você não 

é Deborah! 

— Acalme-se, Sr. Munro, por favor. 

— Você não é Deborah... 

— Tem razão. Eu sou... 

— Não precisa me dizer. Sei quem você é. Você é a outra, e seu nome é Anne... 

A  porta  automática  abriu-se  e  Anne  entrou  na  ala  do  pronto-socorro  do  único 

hospital da cidadezinha de Munro. O local estava deserto. 

Que  diferença  faziam  algumas  horas!  Durante  o  dia,  um  enxame  de  médicos  e 

enfermeiras  circulava  pela  área.  A  essa  hora  da  noite,  porém,  não  havia  ninguém  ali. 
Nenhum sinal de tensão ou ansiedade pairava no ar. O único ruído a perturbar o silêncio 
era o zumbido baixo das lâmpadas fluorescentes e do condicionador de ar. 

Como sempre, Anne e seu parceiro haviam levado o paciente para o hospital logo 

depois  de  lhe  prestarem  os  primeiros  socorros.  A  única  diferença  é  que,  dessa  vez,  o 
homem que fora deixado de manhã ao cuidado dos médicos competentes havia pago a 
construção do hospital. E ele chamara Anne pelo nome. 

Coincidência, dissera Chuck. Afinal, Anne era nova na cidade e, até aquele dia, 

nunca ouvira falar em J.B. Munro. Além disso, o idoso senhor, meio fora de si por causa 
da dor, mencionara o nome de várias pessoas que conhecera no passado. Ele chamara 
pela  esposa  morta,  não  chamara?  Talvez  J.B.  Munro  tivesse  conhecido  alguma  Anne, 
também. No fim das contas, esse era um nome bastante comum, não era? 

Anne ficou andando de um lado para outro em frente à mesa da recepção, seus 

sapatos  de  sola  de  borracha  rangendo  baixinho  sobre  o  chão  encerado.  Embora  o 
condicionador de ar estivesse regulado para manter a temperatura ambiente na casa dos 
vinte e três graus centígrados, ela sentiu um calafrio. 

Enfiou  as  mãos  nos  bolsos  da  calça  do  uniforme,  tirou-as  logo  em  seguida  e 

esfregou  os  braços.  Acomodou-se  numa  das  poltronas  da  área  de  espera  e  checou  as 

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horas  em  seu  relógio  de  pulso,  torcendo  para  que  Janeen,  a  enfermeira  da  noite,  não 
demorasse muito para aparecer. 

Anne repousou a cabeça no encosto da poltrona e fechou os olhos, lembrando-se 

de  uma  outra  noite  passada  num  outro  hospital.  Naquela  ocasião,  estivera  esperando 
receber notícias do seu pai. 

Às vezes Anne tinha a impressão de que um milhão de anos havia passado desde 

a  noite  em  que  seu  pai  sofrera  um  ataque  cardíaco.  Outras  vezes,  porém,  tinha  a 
sensação de que tudo acontecera na véspera. Ainda podia ouvir o pai lhe pedindo, com 
voz embargada: 

—  Leve-me  de  volta  para  a  minha  cidade  natal,  filha.  Quero  ser  enterrado  lá 

quando morrer, caso contrário minha alma não descansará em paz. 

Nesse  momento  Anne  havia  jurado  a  si  mesma  que  o  levaria  para  Munro, 

custasse  o  que  custasse.  Mas  não  para  enterrá-lo,  e  sim  para  que  ele  pudesse  se 
recuperar completamente do ataque cardíaco, no lugar que mais amava no mundo. 

Isso era o mínimo que Anne podia fazer. Ela era a filha única de um casal que 

passara mais de dez anos tentando gerar um bebê. Desde que nascera, transformara-se 
no  centro  da  vida dos pais,  e  nunca deixara  de  receber  amor, atenção, segurança. Por 
esta razão, jamais teria coragem de deixar os pais passarem a velhice numa cidade que 
começara a lhes causar medo sempre que saíam à rua. 

Cada  vez  que  se  lembrava  do  pai  deitado  na  cama  do  hospital,  ou  da  mãe 

torcendo as mãos de nervoso quando saía para fazer compras no supermercado, Anne 
sentia que seria capaz de fazer qualquer coisa para vê-los felizes. 

E,  fiel  a  seus  sentimentos,  fizera  uma  porção  de  sacrifícios.  Ao  ir  embora  de 

Detroit  com  os  pais,  deixara  para  trás  bons  amigos,  um  emprego  excitante,  uma  vida 
social  ativa.  Sem  mencionar  o  homem  que,  até  então,  havia  considerado  como  o 
"príncipe  encantado"  da  sua  vida.  Mas  se  Brian  fosse  mesmo  o  seu  "príncipe 
encantado",  sem  dúvida  alguma  teria  entendido  a  sua  decisão  e  esperado  que  ela 
voltasse para Detroit, mais cedo ou mais tarde. Em vez disso, porém, Brian não havia 
demorado  nem  seis  meses  para  ficar  noivo  de  outra  mulher.  Anne  fora  obrigada  a 
reconhecer, então, que se enganara ao imaginar que com Brian teria um futuro feliz pela 
frente. O "príncipe encantado" transformara-se num sapo asqueroso... 

— Anne? O que está fazendo aqui? 

Anne deixou as lembranças desagradáveis de lado, abriu os olhos e sorriu para a 

enfermeira de meia-idade, gorducha e baixinha. 

— Olá, Janeen — cumprimentou, enquanto se punha de pé. — Muito trabalho, 

esta noite? 

— Não, pelo contrário. Como pode ver, a situação está tão tranqüila que até tive 

tempo  de  ir  à  lanchonete  do  hospital  para  tomar  um  cafezinho  —  respondeu  a 
enfermeira. — Mas a que devo o prazer da sua visita, a uma hora dessas? E óbvio que 

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você  não  veio  fazer  plantão  extra,  pois  não  há  necessidade  desse  tipo  de  coisa  numa 
cidadezinha pacata como a nossa. 

— Tem razão. Eu só vim até aqui para saber notícias do Sr. Munro. 

Janeen ficou séria de repente e balançou a cabeça, enquanto explicava: 

— Fizemos tudo o que foi possível, mas infelizmente ele não resistiu. 

Assaltada por uma forte e inexplicável sensação de perda, Anne perdeu a fala por 

um momento. 

— Ele... Ele morreu? — indagou, quando finalmente recuperou a voz. 

— Sim. O Sr. Munro teve outro ataque, bem mais sério que o primeiro. 

Anne  estremeceu,  sem  conseguir  entender  por  que  estava  sentindo  uma  tristeza 

tão intensa. Passara menos de uma hora da sua vida em companhia de J.B. Munro. Não 
havia nenhuma razão para que ela sentisse algo mais que simples pesar pelo falecimento 
do idoso senhor. 

Mesmo  assim,  lágrimas  quentes  inundaram-lhe  os  olhos  e  escorreram-lhe  pelas 

faces. 

— Oh, querida, sinto muito — murmurou Janeen, abraçando-a. — Parece que a 

notícia deixou você arrasada, não é mesmo? 

Sem saber como explicar à enfermeira algo que ela não sabia explicar nem a si 

mesma, Anne balbuciou: 

— Acho... Acho que... Devo ter ficado triste porque me lembrei de papai. Não sei 

se já lhe contaram, mas o meu pai teve um ataque cardíaco em Detroit e... 

—  Munro  é  um  lugar  pequeno.  Todo  o  pessoal  do  hospital  ficou  a  par  do 

histórico  médico  do  seu  pai  cinco  minutos  depois  de  vocês  chegarem  à  cidade.  — 
Janeen deu um tapinha amigável nos ombros de Anne e procurou consolá-la: — O velho 
J.B.  teve  uma  vida  longa,  produtiva.  Ele  tinha  cento  e  sete  anos  de  idade,  sabia?  Era 
bem mais velho que o seu pai. 

— Eu sei, e sinto-me uma grande tola por estar chorando desse jeito por causa de 

alguém que eu nem conhecia — disse Anne, enxugando as lágrimas com as costas das 
mãos. 

—  Deixe  de  ser  boba  —  ralhou  a  enfermeira,  com  gentileza.  —  Você  está 

chorando porque a morte de J.B. Munro a comoveu, e isso é um bom sinal. Afinal, toda 
essa  história  de  "manter  um  distanciamento  profissional  dos  pacientes"  não  passa  de 
pura  balela.  Se  não  nos  preocupássemos  com  as  pessoas  das  quais  cuidamos,  seria 
melhor que mudássemos de profissão. Além disso, embora a cidade inteira vá fazer o 
maior  escarcéu por  causa da  morte de  J.B.  Munro,  não  existe ninguém  para  derramar 
lágrimas sinceras por ele. 

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Anne fungou e pigarreou. Sentia a garganta dolorida e os olhos inchados, como se 

houvesse chorado durante horas. 

—  Você  quer  dizer  que  o  Sr.  Munro  não  tinha  nenhum  parente  vivo?  — 

perguntou, por fim. 

— Isso mesmo — respondeu Janeen. — Ele não tinha nenhum parente, nenhum 

amigo. A menos que se possa chamar de "amigo" o homem que chamou a ambulância 
hoje de manhã, e ele era apenas um empregado de J.B. — A enfermeira fez uma pausa, 
antes de prosseguir: — Não pense que J.B. não se sentiu grato pela atenção que você lhe 
dispensou, Anne. Ele deve ter percebido que você se esforçou ao máximo para ajudá-lo. 

— Por que está dizendo isso? 

— Porque ele falou de você para mim. J.B. foi levado para o centro de tratamento 

intensivo,  é  claro,  mas  como  havia  pouco  movimento  aqui  na  recepção  fui  vê-lo 
algumas vezes. Ele estava consciente durante uma de minhas visitas. 

Janeen sorriu com melancolia e estendeu uma das mãos para atender ao telefone, 

que começara a tocar. Antes de tirar o fone do gancho, porém, finalizou: 

—  Foi  nessa  visita  que  J.B.  me  disse  que  um  dia  você  saberia  por  que  ele  se 

sentia tão grato em relação a você. 

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Anne  ouviu o  Chevrolet de sua  mãe  parar  em  frente de casa. Segundos depois, 

escutou o barulho de duas portas abrindo e fechando. As vozes de sua mãe e de sua tia 
Shirley soaram no jardim, alegres. Anne ergueu os olhos da revista que lia e sorriu. Seu 
pai mudou de posição na cama hospitalar alugada e resmungou, bem-humorado: 

— Quantas lojas de antigüidades será que essas duas esvaziaram dessa vez? 

— Oh, bom dia, papai — disse Anne, zombeteira, pois já passava das quatro da 

tarde. 

Ela largou a revista sobre uma mesinha e atravessou a sala. Há dois meses, logo 

após a morte de J.B. Munro, Henry Sawyer sofrerá um segundo ataque cardíaco, e ainda 
estava em fase de recuperação. 

Os horários de sono de Henry ainda estavam desregulados. Ele ficava acordado a 

noite toda, virando-se na cama, e dormia durante a maior parte do dia. Na opinião de 
Anne,  seu  pai  ainda  precisava  melhorar  muito  para  poder  ser  considerado 
completamente recuperado. 

— Não sei por que você não saiu para fazer compras com elas, minha filha — 

ralhou Henry, em tom afetuoso. 

Anne  riu,  ao  mesmo  tempo  em  que  erguia  o  braço  do  pai  para  medir-lhe  a 

pulsação. 

— Eu já lhe disse antes, papai, não consigo acompanhar o ritmo de mamãe e de 

tia Shirley. Elas levam o assunto "fazer compras" a sério demais! 

—  De  qualquer  modo,  você  deveria  se  divertir  mais,  Anne.  Mulheres  jovens 

como você não foram feitas para passar o dia inteiro cuidando de gente doente. 

—  Deixe  de  tolices,  papai.  Se  eu  quisesse  estar  em  outro  lugar,  fazendo  outra 

coisa, pode apostar que eu já teria ido embora. 

— Tem certeza, filha? 

Anne ignorou a pergunta, como já fizera dezenas de outras vezes. No último mês, 

seu pai não se cansara de repreendê-la por passar tanto tempo cuidando dele. 

A  porta  da  sala  se  abriu.  Dorothy  Sawyer  e  a  cunhada,  Shirley,  entraram  no 

aposento carregadas de sacolas e pacotes. 

—  A  expressão  orçamento  doméstico  não  tem  o  menor  significado  para  você, 

mulher? — indagou Henry à esposa. 

Enquanto Shirley caía na risada, Dorothy lançou um olhar de falsa indignação ao 

marido. 

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—  Pare  de  implicar  comigo,  seu  chato!  Desde  quando  você  deu  para  ser  pão-

duro? 

Largando  os  pacotes  e  sacolas  em  cima  do  sofá,  ela  aproximou-se  da  cama  e 

beijou o marido no rosto. 

— Você está com uma ótima aparência hoje, querido. — Olhando para a filha, 

Dorothy perguntou em seguida: 

— Você vai demorar muito para permitir que o seu pai levante dessa cama e saia 

para dar um passeio? 

— Acho que não, mamãe — mentiu Anne. 

Os horários irregulares de sono do pai ainda a preocupavam, mas ela não queria 

deixar a mãe aflita. O estresse provocado pela doença do marido logo começaria a afetar 
a saúde de Dorothy, e Anne não desejava ver também a mãe numa cama hospitalar. 

— No entanto, não pense que papai poderá sair logo de cara para fazer compras 

com você e tia Shirley — acrescentou Anne, segundos depois. — Nos próximos doze 
meses, ele só poderá fazer passeios tranqüilos e curtos. 

— Fique tranqüila, filha. Prometo parar com essas maratonas de compras assim 

que o seu pai receber alta — afirmou Dorothy. 

— Está aí uma boa razão para eu me recuperar mais depressa — riu Henry. 

A esposa também riu e deu-lhe outro beijo no rosto antes de virar-se para Anne, 

comentando: 

— Quando o seu pai brinca desse jeito é porque já está melhor, não é mesmo? 

Agora deixe-me mostrar-lhe o presente que comprei para você, minha filha! É um lindo 
medalhão antigo, de ouro. Você vai adorar, tenho certeza. 

— Por que não mostra o medalhão mais tarde, Dorothy? — sugeriu Shirley. — 

Primeiro eu gostaria que Anne fosse comigo tomar um sorvete no Braum's. 

— Oh, sim, é claro. A propósito, Shirley, aproveite a chance para conversar com 

Anne  sobre  a  possibilidade  de  ela  voltar  logo  para  Detroit.  —  Depois  de  falar  com  a 
cunhada,  Dorothy  dirigiu-se  à  filha:  —  Você  não  deveria  estar  há  tanto  tempo  aqui 
conosco, querida. Sinto que estamos abusando da sua boa vontade e... 

—  Mamãe,  por  favor!  —  protestou  Anne,  tentando  conter  uma  onda  de 

impaciência. 

Não  era  a  primeira  vez  que  seus  pais  abordavam  este  assunto.  E  agora,  para 

piorar, a sua mãe envolvera tia Shirley na história! 

— Por acaso vocês já me viram fazer algo contra a minha vontade? Se papai não 

tivesse sofrido o segundo ataque eu já teria voltado para Detroit, e vocês sabem muito 
bem disso — argumentou Anne. 

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— É claro que sabemos. Você sempre foi do tipo independente, desde pequena — 

disse  Henry,  com  uma  ponta  de  orgulho  na  voz.  —  Ao  mesmo  tempo,  porém,  você 
sempre  gostou  de  cuidar  dos  outros.  Quando  era  garota,  levava  para  casa  todos  os 
animais  feridos  que  encontrava  na  rua,  e  não  perdia  uma  única  chance  de  bancar  a 
enfermeira quando algum amigo seu adoecia. Não foi à toa que você decidiu ser para-
médica, certo? 

— Pelo amor de Deus, papai, você não é um animal ferido que encontrei na rua! 

Além disso, é meu dever... 

— Este é o problema, minha filha — interrompeu-a Henry. — Você está levando 

a sério demais a responsabilidade que sente em relação a nós. Apreciamos a sua atitude, 
mas já é hora de você começar a cuidar da própria vida. 

—  O  seu  pai  tem  razão,  querida  —  disse  Dorothy.  —  Você  sempre  gostou  de 

cuidar dos outros, e talvez por isso a gente tenha passado a depender de você mais do 
que  seria  normal.  Nesse  último  ano,  por  exemplo,  você  desistiu  de  tantas  coisas  por 
nossa causa! Sei que agiu assim porque nos ama, mas nós queremos que você seja feliz, 
também. 

— Não desisti de tantas coisas assim — assegurou Anne. — Ainda trabalho como 

para-médica, e pretendo voltar para Detroit assim que a saúde de papai melhorar. 

— Acontece que trabalhar como para-médica em Munro não é a mesma coisa que 

trabalhar como para-médica em Detroit — argumentou Dorothy. — Sabemos que você 
adora levar uma vida agitada, excitante. 

— Tudo bem, mãe, reconheço que o trabalho aqui em Munro é meio entediante. 

Mas você  e  papai  cuidaram  de  mim  e  me  ajudaram  durante  tantos  anos!  Por que não 
posso  retribuir  tudo  o  que  já  fizeram  por  mim?  Não  terei  a  menor  dificuldade  para 
retomar a minha vida em Detroit depois que papai ficar bom. 

—  Nós  achamos  melhor  você  voltar  para  Detroit  o  mais  depressa  possível, 

querida — interveio Henry. 

— De modo algum, papai. Sou eu que devo decidir a hora de partir. Se você não 

tivesse sofrido um segundo ataque cardíaco... 

—  Mas  eu  sofri,  minha  filha.  E  mesmo  me  cuidando  direito  daqui  para  frente, 

nada impede que eu venha a sofrer novos ataques. Isso não significa, contudo, que você 
deva adiar indefinidamente os seus planos de vida por minha causa! 

— Acalme-se, por favor — pediu Anne, alarmada, ao ver o rosto de Henry ficar 

vermelho. 

Aproximando-se da cama, ela fez menção de medir a pulsação do pai. 

— Não! — Henry escondeu os braços sob o lençol da cama. — Sou o seu pai, e 

não apenas mais um dos seus pacientes, portanto trate de me ouvir! 

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Anne pestanejou, espantada. Mal conseguia se lembrar da última vez em que seu 

pai usara esse tom autoritário com alguém. De certa forma era bom ouvi-lo falar assim, 
pois isso demonstrava que Henry Sawyer estava voltando a demonstrar sinais de força. 
Ao mesmo tempo, porém, era desconcertante e desagradável levar uma bronca dessas. 
Afinal, ela só estava pensando no que era melhor para os seus pais. 

O  espanto  de  Anne  aumentou  ainda  mais  depois  que  seu  pai  fez  uma  nova 

declaração: 

—  Você  não  vai  nos  enrolar  dessa  vez,  filha.  Sua  mãe  e  eu  já  discutimos  o 

assunto e concluímos que o melhor é mandá-la embora de casa, para o seu próprio bem. 

— O quê? Me mandar embora de casa? Mas eu não quero ir, papai! E você ainda 

não está bom o bastante para... 

— Estou sim, fique sossegada. Dorothy e Shirley ajudarão você a fazer as malas. 

— Fazer as malas?! 

— Sim, foi isso o que eu disse. 

Dorothy aproximou-se da filha e tocou-lhe o braço, argumentando com simpatia: 

— Não nos leve a mal, Anne. Adoramos tê-la morando conosco, mas uma mulher 

jovem e cheia de energia como você não merece deixar de ter vida própria por causa de 
um casal de velhos. 

— Tenha dó, mamãe, vocês não são velhos! E eu tenho vida própria, sim, quem 

foi que disse que não? — Em busca de uma aliada, Anne voltou-se para Shirley. — Tia, 
papai é seu irmão. Por favor, ajude-me a enfiar um pouco de bom senso na cabeça dele 
e da minha mãe. Você sabe que esta situação é apenas temporária. Só porque eu vim 
morar  em  Munro  para  ajudá-los  isso  não  significa  que  me  transformei  numa...  numa 
solteirona desajustada que ainda vive com os pais! 

Shirley pigarreou, constrangida, e afirmou: 

—  Sinto  muito,  querida,  mas  fui  eu  que  sugeri  a  seus  pais  que  a  mandassem 

embora de casa. 

— O quê?! Por que fez uma coisa dessas, tia? 

— Porque você estava ficando parecida demais com a sua prima Beth, que tem 

trinta e seis anos de idade e nunca passou um dia sequer longe dos pais. Comecei a ficar 
aflita  com  a  sua  situação,  e  foi  por  isso  que  decidi  abordar  o  assunto  com  Henry  e 
Dorothy. 

— Pelo amor de Deus, a minha situação não tem nada a ver com a de Beth, que é 

uma  perfeita  pamonha  em  forma  de  gente!  —  retrucou  Anne,  sem  saber  se  ria  ou 
chorava da resposta da tia. 

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— Mas você tem de admitir que nos últimos meses não saiu nem uma vez para 

jantar fora com amigos ou para fazer compras com a sua mãe e comigo — argumentou 
Shirley, categórica. 

— Está bem, está bem! Se é isso o que vocês três querem, vou começar a sair e 

me  divertir  mais,  combinado?  Ainda  hoje  pegarei  um  cineminha  para  me  distrair, 
prometo. E então, estão satisfeitos? 

para-médica  Ir  ao  cinema  é  uma  ótima  idéia,  querida.  Você  precisa  mesmo  se 

distrair — disse Henry. — E enquanto você assiste a um bom filme, Dorothy e Shirley 
podem começar a arrumar as suas malas — acrescentou ele, irredutível. 

Meia  hora  mais  tarde,  enquanto  dirigia  pela  rua  principal  da  cidade,  Anne 

fumegava de raiva. Um palavrão escapou-lhe dos lábios, e o volante do carro foi alvo de 
um soco de irritação. Com mil diabos, por que seus pais eram tão teimosos? 

Virando à esquerda numa rua transversal, Anne concluiu que precisaria de pelo 

menos mais meia hora de solidão para acalmar-se e voltar a enfrentar Henry e Dorothy. 

Tudo bem, sabia que os pais só queriam o melhor para ela. Henry e Dorothy eram 

amorosos e atenciosos, preocupavam-se com o futuro da filha. Mas Anne sabia o que 
era melhor para os pais. Tudo o que tinha a fazer era ser mais firme com eles. 

Meus  parabéns,  você  fala  como  se  fosse  mãe  deles,  disse  uma  voz  interior, 

deixando Anne ainda mais irritada. 

Ela tentou se convencer de que não estava bancando a mãe de ninguém; queria 

apenas o melhor para os seus pais. 

Tem razão, concordou a voz. O que será que deu neles, afinal? É muita ousadia 

dos dois deixarem de pensar em si mesmos para pensarem no bem-estar da filha, não é 
mesmo? 

Anne fez uma careta, detestando esse debate íntimo com a própria consciência. 

Levando uma das mãos ao medalhão de ouro que ganhara da mãe antes de sair de casa, 
sentiu-se culpada. Ao parar o carro no cruzamento da rua com o bulevar West Munro, 
suspirou. Que situação... Amava os pais e desejava vê-los felizes e saudáveis. 

Exatamente a mesma coisa que eles desejavam em relação a ela. 

Uma  buzina  soou  atrás  do  carro  de  Anne,  arrancando-a  de  seus  devaneios.  Ela 

virou à direita no bulevar, odiando-se por deixar que a insegurança viesse perturbar uma 
decisão  que,  até  segundos  atrás,  considerava  inabalável.  Ao  aproximar-se  da  mansão 
Munro, que fora aberta recentemente à visitação pública, Anne resolveu conhecê-la. De 
nada adiantaria continuar dirigindo sem rumo definido, remoendo dúvidas. Se deixasse 
o assunto de lado por algum tempo, talvez fosse capaz de enxergá-lo com mais clareza 
depois. Além disso, estava curiosa para saber mais sobre J.B. Munro e a mansão onde 
ele havia morado. 

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As  gárgulas  de  aparência  feroz  que  enfeitavam  os  cantos  superiores  frontais da 

mansão  seguravam  entre  as  garras  uma  faixa  de  tecido  vermelho  onde  estava  escrito: 
"Visite a Propriedade Munro, Agora Aberta ao Público". 

Anne  enfiou  a  carteira  no  bolso  da  calça  jeans  e  trancou  a  porta  do  carro.  Ao 

seguir  na  direção  da  mansão,  notou  que  vários  jardineiros  podavam  as  árvores  e  os 
arbustos; o gramado já fora aparado. 

Três carros da década de 20, estacionados sob o pórtico, chamaram a atenção de 

Anne.  Um  adolescente,  usando  boné  com  a  aba  virada  para  trás,  observava  os 
automóveis. O garoto passou a mão sobre a porta esquerda de um Packard em ótimas 
condições de conservação e sorriu para Anne, que se aproximara. 

— Esses carros antigos são demais, não é mesmo? — disse o adolescente. 

—  Também  acho  —  respondeu  ela  tentando  imaginar  J.B,  quando  jovem, 

dirigindo o Packard. 

— Veja só que máquina! — exclamou o rapazinho, entusiasmado, abrindo a porta 

e acomodando-se no assento do motorista. 

Ele  examinou  o  painel  cheio  de  mostradores,  a  direção  bem  maior  que  a  dos 

carros  modernos,  o  luxuoso  estofamento  de  couro  dos  bancos.  Em  seguida,  apontou 
para um botão no chão e comentou: 

— Meu pai disse que esse botão serve para diminuir ou aumentar a intensidade da 

luz dos faróis. 

Quando o adolescente fez menção de pisar no botão, Anne o preveniu: 

— Não pise aí! Sinto muito, mas o seu pai se enganou. Esse botão serve para dar 

partida no motor do carro. 

— Sério? Puxa, que legal poder dar partida no motor pisando num botão em vez 

de usar uma chave! Parece que você entende bastante de carros antigos, hein? 

— Bem... Não entendo muita coisa, não. 

Na verdade, Anne não entendia nada de automóveis antigos. Sendo assim, como 

sabia que o botão no chão do Packard servia para dar partida no motor? 

Foi  nesse  momento  que  um  grupo  de  turistas  saiu  da  mansão,  conversando  em 

voz alta. 

— Ele gostava de ostentação, não é mesmo? 

— Não, para mim o velho tinha estilo. Se você quer a minha opinião, ele sabia 

como viver. 

— Pode até ser, mas nada no mundo irá me convencer de que foi o sócio de J.B. 

que  matou  a  mulher  dele.  Acho  que  foi  o  próprio  J.B.  que  fez  o  serviço  e  depois 
subornou a polícia para não ser preso. 

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Deborah. Os turistas estavam falando do assassinato de Deborah, concluiu Anne. 

Pode me perdoar, Deborah? Nunca tive a intenção de magoá-la... As palavras de 

J.B. Munro voltaram à mente de Anne, que se sentiu compelida a subir os degraus da 
escada  de  entrada  da  mansão.  Uma  estranha  sensação  de  dejà  vu,  mais  forte  que  da 
primeira  vez,  voltou  a  assaltá-la.  Ela  levou  as  mãos  ao  peito.  Sob  o  tecido  fino  da 
camisa de algodão, sentiu os contornos do medalhão de ouro que ganhara da mãe e que 
pendurara numa correntinha também de ouro. 

Franzindo a testa, percebeu que a sensação de já ter estado ali antes, muito tempo 

antes, tomava-se cada vez mais intensa. Segundos depois sentiu o chão girar à sua volta 
e, sem qualquer aviso, uma visão explodiu-lhe na mente com tanta força que o mundo 
real à sua volta desapareceu. 

Anne viu-se num salão de baile, em  meio a um grande grupo de pessoas. Uma 

pequena orquestra tocava um jazz animado, e a música misturava-se ao som de vozes e 
risos.  Homens  fumavam  charutos,  mulheres  fumavam  cigarros  colocados  em  piteiras 
enfeitadas  com  pedras  preciosas.  Todos  vestiam  modelos  elegantes  dos  anos  20.  No 
centro do salão, casais dançavam sob a luz brilhante lançada por um grande e luxuoso 
lustre feito de centenas de pingentes de cristal. 

Como que surgido do nada um homem parou ao lado de Anne, que também usava 

roupas no  estilo  em  voga nos anos  20.  Ela  estremeceu  diante da intensidade do olhar 
que  o  desconhecido  lhe  dirigiu.  Será  que  o  conhecia?  Nunca  o  vira  antes,  embora  o 
rosto  lhe  parecesse  familiar.  Ou  melhor,  muito  mais  que  familiar;  ambos  tinham  um 
passado  em  comum.  Confidências,  segredos,  intimidade...  O  olhar  do  desconhecido 
revelava  tudo  isso.  No  entanto,  mesmo  que  a  expressão  dele  não  houvesse  revelado 
nada, Anne teria adivinhado que laços fortes os uniam, pois jamais se sentira como se 
sentia agora perto de qualquer outro homem. 

Os  olhos  do  desconhecido,  negros  como  uma  noite  de  inverno,  estreitaram-se. 

Uma expressão de zanga surgiu no rosto másculo, atraente. Por quê?, Anne teve vontade 
de perguntar. Por que está zangado comigo? 

O traje que o homem usava era tão elegante quanto o dos outros convidados da 

festa, mas de algum modo Anne adivinhou que ele não estava à vontade ali na festa. O 
desconhecido  possuía  uma  aura  de  força  e  rusticidade  que  as  roupas  civilizadas  não 
conseguiam disfarçar. E fora justamente essa aura que atraíra Anne desde a primeira vez 
que o vira. Primeira vez? Mas esta era a primeira vez que o via, não era? 

Os convidados da festa dançavam, conversavam e riam, mas o homem continuava 

sério.  Diga  logo!,  Anne  teve  vontade  de  gritar.  Por  que  está  me  olhando  desse  jeito 
quando sei que você não me odeia? Ao contrário, você me ama! 

A  visão  desapareceu  tão  depressa  quanto  surgira,  e  o  rosto  do  homem  pareceu 

partir-se em mil pedaços diante dos olhos de Anne. Ela gemeu baixinho, dominada por 
uma profunda sensação de perda. Volte! Não me abandone! 

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Anne  retornou  à  realidade  com  a  impressão  de  que  fora  atingida  por  um  raio. 

Deixando os braços caírem ao longo do corpo, deu dois passos para trás. Ofegante, sem 
conseguir respirar direito, fitou a porta de entrada da mansão com os olhos cheios de 
lágrimas. Confusa e assustada, virou-se e começou a correr na direção do seu carro, sem 
enxergar nada do que a cercava. 

Abriu a porta do automóvel com mãos trêmulas, jogou-se no banco do motorista 

e, depois da terceira tentativa, conseguiu enfiar a chave na ignição. Enxugou as lágrimas 
que lhe escorriam pelas faces, tentando entender o que acontecera. Tivera uma visão, ou 
sofrera uma alucinação? Quem era o homem que vira? Sabia que não o conhecia, mas 
ao mesmo tempo sabia que o amava... Oh, céus, que loucura! 

Anne deu partida no motor e engatou a primeira marcha, sem conseguir tirar do 

pensamento  a  imagem  do  desconhecido  de  olhos  negros.  Antes  de  pôr  o  carro  em 
movimento,  avistou  a  mansão  pelo  espelho  retrovisor.  Uma  espécie  de  paralisia  a 
dominou. 

De algum modo o homem misterioso estava ligado à mansão. E estava ligado a 

ela, também. Mas como? 

Como que hipnotizada, Anne desligou o carro e virou-se para trás para observar 

melhor a mansão. Será que encontraria alguma resposta lá dentro? 

—  A  mansão  demorou  cinco  anos  para  ficar  pronta  —  disse  Betty,  a  guia 

turística.  —  O  projeto  foi  executado  por  um  conjunto  de  arquitetos  de  renome 
internacional,  e  os  melhores  artesãos  do  país  foram  contratados  para  trabalhar  na 
construção.  O  Sr.  Munro  tinha  gostos  caros  e  era  exigente,  sempre  fazia  questão  do 
melhor. 

Ao  terminar  de  falar,  a  guia  apontou  para  o  teto.  Anne  e  os  outros  turistas 

olharam para cima e soltaram uma exclamação de surpresa e admiração. O teto inteiro 
era folheado a ouro! 

A  mansão  era uma  verdadeira "arca do  tesouro".  O grupo de visitantes  do qual 

Anne fazia parte já se deslumbrara com vários outros cômodos da residência: a imensa 
cozinha  onde  podiam  ser  preparadas  refeições  para  centenas  de  convidados,  salões 
cheios  de  quadros  e  esculturas  de  preço  inestimável,  aposentos  decorados  com 
belíssimos e luxuosos móveis. 

No  escritório,  Betty  chamara  a  atenção  dos  turistas  para  um  grande  retrato  no 

qual  apareciam  J.B.  e  sua  primeira  mulher,  Virgínia.  J.B.  era  mostrado  de  pé,  numa 
postura  rígida,  ao  lado  da  mulher,  que  estava  sentada  numa  cadeira  com  as  mãos 
cruzadas sobre o colo. Virgínia era atraente, mas a boca de lábios finos e os olhos cinza 
expressavam frieza. E J.B. não era o homem que aparecera na estranha visão de Anne, 
como ela havia imaginado antes de ver o retrato. 

Desde  então  Anne  passara  a  observar  com  cuidado  todos  os  outros  retratos  em 

exposição na mansão, na esperança de encontrar o tal homem, mas ainda não o vira. O 
que  ela  desejava,  no  fundo,  era  uma  explicação  para  a  visão  que  tivera.  Talvez  já 

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houvesse visto o retrato do desconhecido em algum lugar e enterrado a imagem dele no 
subconsciente.  Talvez  a  Munro  Gazette tivesse  publicado  uma  reportagem  com  fotos 
sobre a história da mansão, quem sabe? Nas primeiras semanas após o ataque cardíaco 
do pai, Anne procurara distraí-lo lendo o jornal para ele. Desse modo, era possível que 
tivesse visto a fotografia do homem no jornal, não era? Mas como poderia ter esquecido 
um  rosto  tão  marcante?  Que  mulher  não  se  lembraria  daqueles  enigmáticos  olhos 
negros, mesmo tendo-os visto numa foto granulada em preto e branco? 

Interrompendo  os  devaneios  de  Anne,  Betty  —  que  mais  de  uma  vez  lançara 

olhares  curiosos  na  direção  dela  —  conduziu  o  grupo  até  uma  sala  de  jantar  com 
paredes  revestidas  de  painéis  de  mogno.  Uma  imensa  lareira  de  pedra  encimada  pelo 
brasão  da  família  Munro  ocupava  boa  parte  de  uma  das  paredes;  diversas  peças  de 
porcelana estavam expostas em cristaleiras bem iluminadas. 

Em  seguida,  a  guia  turística  levou  os  visitantes  para  a  ala  dos  aposentos 

particulares da família. 

O  quarto  de  J.B.  era  o  cômodo  mais  impressionante  da  mansão,  todo  decorado 

com  móveis  em  estilo  barroco  inglês.  Duas  poltronas  ladeavam  uma  pesada  arca  de 
nogueira.  A  cabeceira  da  cama  era  ornamentada  por  um  delicado  trabalho  de 
marchetaria. Tocheiros italianos iluminavam uma coleção de vasos chineses dispostos 
sobre uma cômoda entalhada. 

O grupo de turistas percorreu mais uma série de aposentos, incluindo um andar 

inteiro de quartos de hóspede, antes de chegar ao último cômodo a ser visitado. 

—  J.B.  Munro  pediu  que  os  arquitetos  fizessem  nessa  sala  uma  cópia  de  um 

aposento  de  um  castelo  medieval  construído  na  Europa  por  um  de  seus  ancestrais  — 
informou  Betty  aos  turistas.  —  Estão  vendo  a  lareira?  —  A  guia  entrou  no  "buraco" 
formado pelas altas paredes de pedra, onde uma pessoa de tamanho médio podia ficar 
de pé sem problemas. — Reparem que há uma porta escondida, aqui. Ela leva aos túneis 
que J.B. mandou abrir durante a construção da mansão. Existem outras entradas para os 
túneis, incluindo uma na casa de hóspedes. 

— Eu já tinha ouvido falar nos túneis — comentou uma mulher de meia-idade. — 

Parece  que  eles  eram  usados  para  esconder  tonéis  de  uísque  durante  a  época  da  Lei 
Seca. 

— A senhora está enganada — disse Betty. — Lembre-se, J.B. foi o fundador da 

cidade. Ele servia bebidas alcoólicas em todas as festas que dava, sem fazer nada para 
esconder tal fato. Isso significa, é claro, que os túneis não foram abertos para esconder 
tonéis de uísque, e sim por uma questão prática. Muitos dos quadros e esculturas que 
enfeitam a mansão foram produzidos num ateliê que J.B. mandou erguer na propriedade 
para os artistas contratados. Quando completavam suas obras os artistas as traziam para 
a mansão através dos túneis, para evitar que elas fossem danificadas pela poeira, pelo 
sol ou pela  chuva.  Depois  que a  construção da  mansão  terminou, os  túneis  raramente 
foram usados. 

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A  mulher  de  meia-idade  franziu  a  testa,  parecendo  não  gostar  de  ter  sido 

contrariada. A seguir, declarou: 

— Mas eu ouvi dizer que o gângster Pretty Boy Floyd matou um homem aqui na 

mansão por causa de um jogo de pôquer, e depois arrastou o corpo através dos túneis e o 
jogou num dos lagos. 

— Isso não passa de mero boato — explicou Betty. — E se todos os boatos aos 

quais  Pretty  Boy  Floyd  está ligado fossem  verdadeiros,  ele precisaria ter sido  mágico 
para poder estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. 

— Podemos conhecer os túneis? — perguntou um rapaz. 

—  Infelizmente,  não.  As  entradas  para  os  túneis  foram  fechadas  por  ordem  do 

serviço municipal de prevenção contra incêndios — explicou a guia turística, indicando 
o cadeado que mantinha trancada a porta dentro da lareira. — Mas ainda temos mais um 
item de interesse para ver antes do final da visita. É um retrato de Deborah, a segunda 
mulher de J.B. O quadro foi encontrado esta semana, guardado no sótão da mansão. 

Anne sentiu um calafrio ao lembrar que J.B. Munro a confundira com Deborah. 

Trêmula de expectativa, seguiu o grupo até a extremidade oposta da sala, onde havia um 
quadro apoiado num cavalete de metal, coberto por um retângulo de veludo preto. 

—  A  tal  de  Deborah  foi  assassinada  —  afirmou  a  mulher  de  meia-idade  que 

adorava boatos. — Dizem que a polícia acredita que foi J.B. que a matou. 

—  Na  verdade,  o  mistério  do  assassinato  jamais  foi  esclarecido,  e  J.B.  nunca 

entrou na lista de suspeitos — retrucou Betty, com uma nota de impaciência na voz. — 
Mais uma vez, isso não passa de boato. A única coisa que se sabe de concreto sobre o 
caso  é  que  Patrick  MacKinnon,  sócio  de  J.B.  na  Ferrovia  Munro-MacKinnon,  foi 
interrogado pela polícia. Diziam, na época, que Patrick era amante de Deborah Munro. 
Ele  desapareceu  logo  depois  que  o  corpo  de  Deborah  foi  encontrado  numa  caverna 
dentro dos limites da propriedade, e nunca mais foi visto de novo. 

—  Se  o  tal  Patrick  desapareceu  logo  depois  de  encontrarem  o  corpo,  então  é 

óbvio que ele que cometeu o crime! Como foi que ele matou Deborah? Ouvi dizer que... 

—  Deborah  Munro  foi  estrangulada  —  declarou  Betty  com  certa  rispidez, 

perdendo  a  paciência  com  a  mulher.  —  E  agora,  antes  do  retrato  de  Deborah,  quero 
mostrar-lhes outra coisa especial que existe nesta sala. J.B. Munro, que nasceu na costa 
leste  dos  Estados  Unidos,  interessava-se  bastante  pela  história  do  Estado  onde  veio 
morar  quando  já  era  adulto.  Por  isso,  mandou  pintar  um  mural  representando  essa 
história. 

Ao terminar de falar, Betty apontou para o alto. 

Anne e os outros turistas olharam para cima e ficaram boquiabertos. No teto da 

imensa sala estava pintada a história do Estado de Oklahoma, desde a época em que os 
índios ocupavam a área até a chegada das estradas de ferro. Era óbvio que o mural fora 
um  projeto  do  qual  J.B.  se  ocupara  durante  a  vida  toda.  Os  eventos  históricos  não 

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estavam  misturados  numa  grande  colagem,  e  sim  dispostos  em  ordem  cronológica. 
Qualquer  um  que  os  visse  podia  acompanhar  sem  problemas  a  seqüência  dos 
acontecimentos. 

— E agora, como prometi, vou mostrar-lhes o retrato da segunda esposa de J.B. 

—  anunciou  Betty,  conduzindo  o  grupo  para  mais  perto  do  retrato  e  removendo  a 
cobertura de veludo negro. — Aqui está ela, a Sra. Deborah Richards Munro. 

Anne arregalou os olhos e levou as mãos ao peito. 

— Como podem ver — disse a guia turística —, Deborah foi retratada usando o 

vestido  que  está  em  exposição  no  quarto  que  lhe  pertencia.  É  fato  corrente  que  a 
segunda esposa de J.B. gostava de ser fotografada e retratada em quadros, e não é difícil 
entender por quê. Afinal, Deborah era bastante atraente, não acham? 

Aturdida, Anne mal ouviu as palavras da guia. Momentos mais tarde, quando o 

grupo  de  turistas  se  dispersou,  ela  permaneceu  paralisada  no  lugar.  Ao  sentir  que 
alguém a tocava no ombro, deu um pulo de susto. 

— Você se manteve meio escondida no meio do grupo, mas não pude deixar de 

notar a semelhança — comentou Betty, com um sorriso curioso. — Vocês têm algum 
laço de parentesco? 

— Não. Não temos — murmurou Anne, em resposta. 

—  Tem  certeza?  Não  existem  registros  de  nenhum  descendente  vivo,  mas  a 

semelhança é tão marcante que cheguei a pensar que... 

— Não, não temos nenhum laço de parentesco — reafirmou Anne, interrompendo 

a guia. 

—  Que  esquisito!  Mas,  como  se  costuma  dizer,  todos  nós  temos  um  gêmeo 

perdido no mundo, não é mesmo? 

— Sim, é o que se costuma dizer. 

Logo  que  Betty  se  afastou,  deixando-a  sozinha  na  sala,  Anne  voltou  a  fitar  o 

retrato, incrédula. "Esquisito"? O caso podia parecer meramente "esquisito" para a guia 
turística, mas isso era porque ela não sabia de nada sobre o que acontecera antes: a visão 
que  Anne  tivera  na  escada  de  entrada  da  mansão;  o  fato  de  J.B.  tê-la  chamado  de 
Deborah e depois tê-la chamado pelo nome verdadeiro, sem nunca tê-la visto antes. E 
agora havia o retrato... 

Balançando  a  cabeça  num  gesto  de  negação,  Anne  reparou  nos  olhos  verdes  e 

amendoados de Deborah, nos cabelos curtos e ruivos, no rosto ovalado. Não, esta não 
podia ser Deborah Munro. Era impossível! 

A  pele  da  segunda  esposa  de  J.B.  não  podia  ser  tão  clara,  do  tipo  difícil  de 

bronzear. O maxilar não podia ser ligeiramente quadrado, e o queixo não podia ter uma 
covinha  no  centro.  Estas  não  podiam  ser  as  feições  de  Deborah  Richards  Munro,  por 
uma razão muito simples: estas eram as feições de Anne. 

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Pode me perdoar, Deborah? Nunca tive a intenção de magoá-la... Não, eu estava 

errado! Você não é Deborah! Você é a outra, e seu nome é Anne... 

Anne fechou os olhos e cobriu a boca com as  mãos trêmulas. Rezou para estar 

tendo  uma  alucinação,  rezou  para  que  quando  tornasse  a  abrir  os  olhos  a  imagem  de 
Deborah  Munro  fosse  diferente.  Mas  suas  preces  foram  em  vão.  Quanto  mais  olhava 
para o  retrato da  segunda  mulher  de J.B,  mais  semelhanças  encontrava.  O  sorriso  era 
igual. Também era igual o nariz ligeiramente arrebitado na ponta. 

Tensa,  Anne  apalpou  seu  rosto  como  se  quisesse  certificar-se  de  que  as  suas 

feições  não  haviam  sido  roubadas  para  criar  a  imagem  de  Deborah.  Em  seguida, 
aproximou-se  mais  do  retrato  a  fim  de  examiná-lo  melhor.  Foi  então  que  notou  um 
detalhe que a deixou ainda mais assustada. O medalhão que Deborah usava era idêntico 
ao que sua mãe lhe dera poucas horas antes. Não, não podia ser possível! 

Anne  puxou  o  medalhão  para  fora  do  decote  da  camisa.  Acompanhou  com  a 

ponta  dos  dedos  o  desenho  gravado  na  superfície  de  ouro,  igualzinho  ao  desenho  no 
medalhão usado por Deborah no retrato. 

Ao ganhar a jóia da mãe, Anne a abrira e vira que estava vazia. Ao abri-la agora, 

porém, teve a sensação de que encontraria algo ali dentro. 

Para  seu  alívio,  o  medalhão  continuava  vazio.  Mas  o  que  esperara  encontrar 

dentro dele, afinal? Uma pequena e antiga foto de J.B. quando jovem? A foto de Patrick 
MacKinnon, um dos supostos amantes de Deborah? 

Ou a foto do homem misterioso que surgira na visão que tivera na escada, cuja 

imagem a havia compelido a visitar a mansão? 

Voltando a sentir-se assaltada por uma forte compulsão, Anne estendeu uma das 

mãos para tocar o retrato. No mesmo instante ouviu um zumbido alto e foi tomada pelo 
mesmo mau pressentimento que tivera no dia da morte de J.B. Munro. 

Sem saber por que, apertou com força o medalhão que a mãe lhe dera. E quando 

finalmente  seus  dedos  tocaram  o  medalhão  do  retrato,  a  escuridão  a  envolveu  e  ela 
perdeu os sentidos. 

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Anne voltou a si num lugar mal iluminado, frio e úmido. Pelo cheiro que pairava 

no  ar,  parecia  que  ela  estava  perto  de  um  lago,  ou  do  mar.  Mas  não  havia  qualquer 
movimento,  nenhuma  brisa  marinha  soprava.  O  chão,  onde  estava  deitada,  era  duro e 
gelado. Uma única lâmpada acesa, ao longe, mal e mal dissipava a escuridão. 

Ela  tentou  se  mover,  mas  seu  corpo,  que  formigava  inteirinho,  recusou-se  a 

obedecer  aos  comandos  do  cérebro.  Engolindo  em  seco,  Anne  lutou  para  afastar  o 
pânico. Com extremo esforço conseguiu mexer um pouco a cabeça, e percebeu que se 
encontrava numa espécie de corredor de um metro e oitenta de largura por um metro e 
oitenta de altura. 

Como  fora  parar  ali?  E  onde  seria  "ali"?  O  que  acontecera  que  a  deixara 

paralisada desse jeito? A última coisa de que se lembrava era de ter tocado o medalhão 
no retrato de Deborah Munro. 

Foi então que ela ouviu o ruído de passos e vozes. 

Anne  olhou  para  a  esquerda  e  avistou  duas  silhuetas  indistintas,  uma  grande  e 

outra pequena, vindo em sua direção. Tentou gritar, mas nenhum som escapou-lhe dos 
lábios. 

Céus,  será  que  tinha  morrido?  Seria  este  o  famoso  túnel  mencionado  pelas 

pessoas  que  sofriam  longas  paradas  cardíacas  e  depois  eram  "ressuscitadas"  pelos 
médicos? Não, não podia ser. As pessoas que chegavam ao Portal do Paraíso e voltavam 
em  seguida  falavam  sempre  de  uma  sensação  de  paz  e  segurança,  nunca  de  dor  ou 
medo. E Anne estava definitivamente apavorada. 

As  silhuetas  aproximaram-se  mais  e  em  seguida  pararam,  a  uns  seis  metros  de 

distância. Anne pôde ver que a figura menor era de uma mulher e que a maior era de um 
homem  barbado,  mas  não  conseguiu  distinguir-lhes  as  feições.  Os  dois  estavam 
discutindo. Havia ódio na voz do homem, e medo na voz da mulher, mas não dava para 
entender direito o que diziam. 

Será que nenhum dos dois tinha visto Anne? Parecia que não, pois comportavam-

se como se estivessem sozinhos no corredor. 

Segundos mais tarde o homem ficou de costas para Anne, impedindo-a de ver a 

mulher. As vozes em tom baixo transformaram-se em gritos. O ruído de uma bofetada 
ecoou no ar. 

O homem e a mulher começaram a lutar. Anne fechou os olhos e concentrou toda 

a sua força de vontade no ato de mexer-se. Foi inútil. Nenhum músculo do seu corpo se 
moveu. Tentou gritar de novo, mas sua voz ficou presa na garganta. Voltou a abrir os 
olhos, e viu que a luta do casal tomara-se mais violenta. A mulher agitava os braços em 
desespero, numa vã tentativa de fugir. 

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De repente, o corpo da mulher caiu no chão e um pesado silêncio tomou conta do 

corredor mal iluminado. 

Anne virou a cabeça, sentindo-se nauseada. Lágrimas escorreram-lhe pelo rosto. 

Por Deus, este não podia ser o portal do Paraíso. Mas onde estaria ela, então? 

Ouviu  passos  novamente.  Era  o  homem,  afastando-se  do  corpo  da  mulher.  Ele 

estava  indo  embora  pelo  mesmo  caminho  que  viera.  Prendendo  a  respiração,  Anne  o 
acompanhou com o olhar até vê-lo ser engolido pelas sombras. 

Escutou o ruído de uma porta sendo aberta e fechada ao longe, e depois o silêncio 

voltou a imperar. 

Esta era a chance que Anne esperava para ajudar a mulher. Mas como ajudá-la, se 

nem conseguia se mover? Por Deus, que pesadelo! 

Segundos mais tarde, o pesadelo intensificou-se. Pontadas de uma dor fortíssima 

percorreram o corpo de Anne, começando nos ombros e descendo até as pernas. Se ela 
estivesse de pé, a dor insuportável a teria feito cair de joelhos no chão. 

Ainda paralisada, Anne não podia fazer mais nada além de tentar suportar a dor 

lancinante que tomava conta de seus músculos, tendões e ossos. De repente, teve uma 
idéia.  Começou  a  inalar  e  soltar o  ar  ritmadamente,  seguindo  o  método  de  respiração 
Lamaze para mulheres em trabalho de parto, conforme aprendera durante o seu curso de 
para-médica. 

Aos  poucos,  a  dor  foi  passando.  Anne  respirou  fundo,  procurando  relaxar. 

Lágrimas de alívio inundaram-lhe os olhos. Sem parar para pensar no que fazia, ergueu 
uma  das  mãos  para  enxugar  as  lágrimas.  Um  gritinho  de  alegria  escapou-lhe  da 
garganta. Sua mão! Conseguira movimentá-la! Seus pés, suas pernas... Não estava mais 
paralisada! 

Mais  que  depressa  engatinhou  para  perto  da  mulher  caída  no  chão,  sentindo  o 

medalhão pendurado na correntinha batendo em seu peito. 

— Oh, não! — exclamou, chocada, ao ver o rosto da mulher. 

Uma  onda  de  náusea  a  invadiu.  Não  foram  as  marcas  vermelhas  ao  redor  do 

pescoço  da  mulher  e  nem  os  olhos  baços  e  sem  vida  que  a  fizeram  ter  vontade  de 
vomitar.  Afinal,  Anne  já  vira  muitas  pessoas  mortas  desde  que  começara  a  trabalhar 
como  para-médica. O  que  a  chocou  foi  algo que  jamais  teria  sido capaz  de  imaginar, 
nem mesmo no seu pior pesadelo: ao olhar para a mulher, viu o seu próprio rosto. 

— Meu Deus... — murmurou. — Deborah? 

Não,  impossível!  Deborah  morrera  antes de  Anne  nascer.  A  segunda  esposa  de 

J.B.  Munro  fora  assassinada  na  década  de  20!  Engolindo  em  seco,  a  mente  semi-
entorpecida de horror, Anne examinou Deborah à procura de algum sinal de vida, mas 
não encontrou nenhum. Baixou as pálpebras da mulher morta para fechar-lhe os olhos, 
num  gesto  respeitoso,  e  tornou  a  engolir  em  seco.  Aturdida,  observou  o  modo  como 

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Deborah  estava  vestida:  um  glamouroso  vestido  decotado  no  estilo  dos  anos  20,  dois 
longos  colares  de  contas  coloridas,  meias  de  seda,  sapatos  de  salto  alto.  Os  cabelos 
ruivos da falecida eram curtos, num corte não muito diferente do que Anne usava. Mas 
o que mais chamava a atenção era o rosto dela, parecidíssimo ao de Anne; os olhos, o 
nariz e a boca eram praticamente idênticos. 

Nesse  momento,  Anne  ouviu  a  porta  sendo  aberta  de  novo.  Passos  ecoaram 

ameaçadoramente pelo corredor. 

O mistério do assassinato jamais foi esclarecido... O corpo foi encontrado numa 

caverna dentro dos limites da propriedade... Ao lembrar-se das palavras da guia turística 
Anne  percebeu  que  precisava  fugir,  pois  o  assassino  estava  voltando  para  buscar  o 
corpo, a fim de escondê-lo na tal caverna. 

Movida pelo instinto de sobrevivência, ela se pôs de pé e saiu correndo. 

Anne sentou-se no chão e enterrou o rosto nas mãos, esforçando-se para conter as 

lágrimas  de  frustração  e  cansaço  que  ameaçavam  inundar-lhe  os  olhos.  Andara  horas 
pelo  labirinto  de  corredores,  mas  não  encontrara  a  saída;  encontrara  apenas  portas 
fechadas. 

Devia estar no complexo de túneis que J.B. mandara escavar sob a mansão, sem 

dúvida  alguma.  A  mente  de  Anne,  porém,  recusava-se  a  aceitar  o  resto  desse 
"pesadelo". A mulher que vira ser estrangulada não podia ser Deborah Munro. 

Mas  e se fosse?  Se Anne  aceitasse  reconhecer o local  onde estava,  se  aceitasse 

admitir a identidade da mulher morta, não teria de aceitar também o ano em que estava? 
De acordo com a data da morte do assassinato de Deborah... 

Céus,  em  que  ano  estaria,  no  fim  das  contas?  Anne  suspirou.  Só  podia  ter 

enlouquecido, claro. Afinal, só uma louca alimentaria a idéia de que havia viajado no 
tempo! 

Pondo-se de pé, ela decidiu provar a si mesma que se enganara, que não perdera o 

juízo. Tinha de existir uma explicação lógica para o que lhe acontecera, para o crime 
que testemunhara. E o melhor era encontrar tal explicação, sem perda de tempo. 

Mais meia hora passou. Anne encontrou outras três portas nos túneis, mas todas 

estavam fechadas. Exausta, com as pernas fracas e trêmulas, ela se obrigou a continuar 
andando. De repente, ao entrar num túnel novo, avistou uma escada de cimento no topo 
da qual havia uma porta.  

Oh, por favor. Senhor, rezou em pensamento, permita que esta seja a saída desse 

labirinto. Segurando-se no corrimão de metal, começou a subir a escada. Na metade do 
caminho tropeçou, caiu e rolou pelos degraus abaixo. Bateu a cabeça com força no chão 
e gritou de dor. Levou uma das mãos à testa e notou que gotas de sangue escorriam de 
um pequeno corte. 

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Permaneceu imóvel por alguns minutos, esperando que a dor diminuísse, e tornou 

a  subir  a  escada.  Desespero  e  esperança  deram-lhe  forças  para  chegar  ao  topo  dos 
degraus. Ela abriu a porta e... ouviu música. 

Confusa, olhou ao redor. Encontrava-se dentro de uma abertura quadrada feita de 

tijolos. Céus, será que estava onde imaginava que estava? No interior da grande lareira 
que Betty mostrara ao grupo de turistas? Abaixando a cabeça, dirigiu o olhar para a sala 
à sua frente. A música vinha de uma festa. Uma festa que mais parecia uma cena tirada 
do filme O Grande Gatsby. 

Os  homens  trajavam  ternos  com  camisas  de  colarinho  alto,  engomado,  e  as 

mulheres  usavam  vestidos  de  cetim  com  bordados  de  contas.  Uma  pequena  orquestra 
tocava um jazz animado, e uma nuvem azulada de fumaça de charuto e cigarro pairava 
no ar. 

— Deborah! 

Anne virou-se na direção da mulher que pronunciara o nome da segunda esposa 

de J.B.  Usando um  vestido verde  sem  mangas  e um  longo colar de  pérolas,  a  mulher 
devolveu o seu copo vazio ao garçom que passava e aproximou-se de Anne. 

—  Deborah,  querida,  por  onde  andou?  Já  estávamos  preocupados  com  a  sua 

ausência e... Oh, a sua testa está sangrando! — A mulher segurou Anne pelo braço e 
puxou-a  para  fora  da  lareira,  indagando:  —  O  que  aconteceu  com  você?  Como  se 
machucou? 

Sem esperar pela resposta, a mulher dirigiu-se a um segundo garçom que passava, 

ordenando: 

— Vá chamar o Sr. Munro, depressa! 

Outras mulheres se aproximaram, fitando com curiosidade as roupas de Anne. A 

mulher do vestido verde voltou a falar: 

— Não quer sentar-se um pouco, Deborah? Você está tão pálida. 

Anne sentiu a cabeça girar. Com voz fraca, balbuciou: 

—  Eu...  Eu  não  sou...  Não  sou  quem  você  pensa  que...  Ela  não  teve  tempo  de 

terminar a frase, pois nesse momento um homem abriu caminho por entre o grupo de 
mulheres. 

—  Ah,  J.B,  o  garçom  lhe  deu  meu  recado?  Venha  cá,  dê  só  uma  olhada  em 

Deborah! Eu estava procurando por ela quando a vi dentro dessa monstruosidade que 
você  chama  de  lareira,  usando  essas...  essas  roupas  de  trabalhador  do  campo!  Além 
disso, ela está ferida e... 

— Afaste-se, Leila. 

Diante do tom autoritário de J.B, a mulher de vestido verde calou-se e obedeceu. 

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Anne pestanejou. Céus, era ele mesmo! Era o próprio J.B. Munro, só que décadas 

mais jovem! Em lugar das rugas e dos ralos cabelos brancos, ele apresentava pele lisa e 
fartos cabelos loiros. Os olhos azuis, antes apagados pela velhice, mostravam-se agora 
brilhantes e vivazes. E lá estava a peculiar cicatriz em forma de "C" perto do olho, para 
confirmar-lhe a identidade de uma vez por todas. 

Mas como era possível uma coisa dessas? Anne chegou a pensar que estava tendo 

uma  alucinação, provocada  pela batida que dera com  a  cabeça.  Mas não,  ela batera  a 
cabeça depois de ter visto Deborah ser assassinada, e isso significava que... Oh, Deus, o 
que significava tudo isso, afinal? 

J.B. segurou-lhe o braço sem a menor gentileza e puxou-a para junto de si. 

— Onde esteve até agora? — perguntou, irritado. — Quer fazer o favor de me dar 

uma explicação para o fato de estar vestida desse jeito? 

Uma  explicação?  A  incredulidade  de  Anne  transformou-se  em  raiva.  Quem 

precisava de uma explicação era ela, droga! Num gesto brusco, soltou o braço e deu um 
passo para trás. 

J.B. fitou-a com ar surpreso por um segundo, antes de fazer menção de segurar-

lhe o braço outra vez. 

— Deborah está machucada, J.B. — interveio uma voz masculina. — Será que 

ainda não percebeu que a testa dela está sangrando? 

Anne olhou na direção da voz e arregalou os olhos. 

— Oh! É você! — exclamou, sentindo o coração disparar. 

Finalmente  o  encontrei,  pensou.  Você  está  aqui!  Perturbada,  examinou  o  rosto 

másculo e atraente que havia aparecido na visão que tivera antes de entrar na mansão 
Munro pela primeira vez. Um rosto bronzeado, de testa larga e queixo forte. Sobrancelhas 
escuras encimavam os olhos negros como uma noite sem luar. Olhos que a fitavam com 
uma expressão que parecia indagar "Você perdeu o juízo, sua doida?" 

Sim, acho que perdi, pensou Anne. Ou melhor, tenho certeza que perdi! Não havia 

outra explicação: ou endoidecera de vez ou estava tendo um dos sonhos mais estranhos 
de  toda  a  sua  vida!  Ela  notou  um  rápido  brilho  de  advertência  nos  olhos  do  homem 
moreno, e voltou a experimentar a mesma excitação que sentira antes, nos degraus de 
entrada da mansão. Existia algo de especial entre o desconhecido e ela, não restava a 
menor dúvida. 

—  Não  se  intrometa,  Patrick  —  resmungou  J.B,  arrancando  Anne  de  seus 

devaneios. — Deborah é minha esposa. 

Patrick?  O  sócio  de J.B.  na  Ferrovia  Munro-MacKinnon?  O  suposto  amante de 

Deborah? Sem saber por que, Anne sentiu uma pontada de ciúme. 

— Não precisa usar esse tom comigo, J.B. Nunca lhe dei motivos para desconfiar 

de mim — retrucou Patrick MacKinnon. 

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Os  dois  homens  se  encararam  por  um  instante,  como  dois  leões  disputando  a 

mesma presa, e o ar ficou carregado de tensão. De repente, J.B. pareceu lembrar-se da 
presença de Anne. Olhou-a de modo possessivo, declarando: 

— Você está proibida de entrar nos túneis outra vez. Ouvirei as suas explicações 

mais tarde, depois de cuidar do corte na sua testa. Vamos, venha comigo. 

Ele a empurrou de leve pelas costas, mas Anne recusou-se a sair do lugar. Não 

sabia o que lhe acontecera nem como havia ido parar ali — onde quer que fosse ali — 
sabia apenas que era a contra a sua natureza obedecer cegamente a uma ordem. 

— Não vou a lugar nenhum com você — protestou, em tom firme. 

—  Não?  Por  Deus,  o  que  há  de  errado  com  você?  —  impacientou-se  J.B, 

examinando-lhe a calça jeans e a camisa de algodão antes de lançar um rápido olhar na 
direção dos convidados da festa. — Venha comigo, agora! 

— Não! Eu... 

— Você se machucou, Deborah — intrometeu-se Patrick, em tom apaziguador. 

Ele tocou-lhe a testa e depois mostrou-lhe as pontas dos dedos manchadas de sangue. — 
Está vendo? Por favor, vá com J.B. e deixe que ele lhe faça um curativo. 

Anne  estava  consciente  do  ferimento,  mas  estava  ainda  mais  consciente  do 

homem que a fitava com uma expressão que a instava a obedecer J.B. Não posso ficar 
com  você?, sentiu  vontade  de  perguntar.  Mas  sabia  que  isso  só  iria  piorar  a  situação, 
portanto permaneceu calada. 

Desviando o olhar do rosto moreno, tomou uma decisão. Sim, a melhor coisa que 

tinha  a  fazer  era  obedecer  J.B,  mas  não  por  causa  do  pedido  de  Patrick.  Obedeceria 
porque  precisava  pensar,  refletir  sobre  o  que  lhe  acontecera  e  descobrir  um  jeito  de 
voltar para casa. 

Depois de pigarrear para limpar a garganta, encarou J.B. Era estranho ter de agir 

como se fosse outra mulher, mas não havia outra saída; mais estranho ainda seria ter de 
explicar quem era ela, de onde viera e a cena trágica que vira no túnel. 

—  Está  bem  —  disse  Anne,  por  fim.  —  Leve-me...  leve-me  para  os  meus 

aposentos, J.B. 

J.B. não pareceu muito satisfeito com o fato de ter sido Patrick a convencer sua 

esposa a fazer o que ele mandava, mas não falou nada. Ele simplesmente a segurou pelo 
braço e a conduziu para fora do salão apinhado de gente. 

O grande hall não mudara muito, refletiu Anne. O lugar continuava quase igual 

ao que vira durante a visita turística que fizera antes. Havia lindas tapeçarias e quadros 
de artistas renomados pendurados nas paredes. 

Foi  então  que  ela  viu  o  retrato,  e  suas  pernas  amoleceram.  Pestanejou  ao  olhar 

para a figura de Deborah, mais uma vez surpreendendo-se com a incrível semelhança 
entre as duas. Deborah, cujo destino fora selado por um homem barbado. 

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Mais  surpreendente  ainda  foi  o  zumbido  peculiar  que  começou  a  ouvir  e  que 

tornava-se  cada  vez  mais  alto  conforme  J.B.  e  ela  aproximavam-se  do  retrato.  Anne 
chegou a pensar que o ruído era uma conseqüência da batida que dera com a cabeça e 
que a deixara zonza. 

Demorou  alguns  segundos  para  se  dar  conta  de  que  estava  enganada  e  que  o 

zumbido  era  idêntico  ao  que  ouvira  pouco  antes  de  tocar  o  retrato  e  viajar 
misteriosamente para o passado. Seria o retrato de Deborah o seu passaporte para voltar 
ao futuro? Se a pintura fora a porta de entrada para os anos 20, a lógica lhe dizia que a 
pintura também serviria como porta de saída... 

A cada passo dado por Anne, o zumbido aumentava de intensidade. Quando J.B. 

começou a conduzi-la na direção do corredor ao lado do retrato, ela se soltou e correu. 

—  Só  faltava  essa!  —  resmungou  J.B,  zangado,  seguindo-a.  —  Deborah,  por 

acaso está querendo que eu perca a paciência de vez? 

— Preciso fazer uma coisa. Por favor, espere só um pouquinho — pediu Anne. 

Vendo que J.B. fazia menção de segurar-lhe o braço de novo, acrescentou: — Se não 
atender o meu pedido, terá de me arrastar daqui pelos cabelos. Os seus convidados iriam 
adorar o espetáculo, não acha? 

— Tudo bem — concordou J.B, contra a vontade. — Mas não se demore. 

Anne não perdeu tempo. Ergueu uma das mãos, tocou o retrato e fechou os olhos, 

esperando  que  a  escuridão  a  envolvesse  como  acontecera  anteriormente.  O  que 
aconteceu, porém, que foi o estranho zumbido cessou de repente. Ela abriu os olhos e 
viu que estava no mesmo lugar de antes. 

Confusa, deu um passo para trás. E o zumbido recomeçou! 

—  Já  chega,  Deborah.  Pare  de  se  comportar  como  louca  e  venha  comigo  — 

exigiu J.B. 

Anne ignorou-o, concentrando toda a sua atenção no retrato. De súbito, lembrou-

se. O medalhão! Como podia ter se esquecido dele? Enfiou a mão sob a gola da camisa 
à procura da jóia. Da primeira vez, tocara o retrato ao mesmo tempo em que segurava o 
medalhão. A jóia devia ser a chave que abria a porta de comunicação entre o passado e 
o futuro e... 

Oh, não! O medalhão sumira! Mas como? Lembrava-se de estar usando a jóia no 

túnel,  pois  sentira  o  objeto  de  ouro  batendo  contra  o  seu  peito  enquanto  engatinhava 
para junto do corpo de Deborah. Quando será que o perdera? 

—  Já  esperei  mais  que  o suficiente,  Deborah  —  disse J.B,  impaciente.  —  Pelo 

amor de Deus, você está ferida! Precisa de um curativo. 

Anne encarou-o e levou as mãos à testa. 

— É isso — sussurrou. — Eu o perdi quando caí... 

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Girando sobre os calcanhares, tomou o rumo da sala onde estava a imensa lareira. 

— Deborah! 

Ela  escutou  o  chamado  de  J.B,  mas  não  parou  de  andar.  Ao  avistar  a  lareira  a 

poucos metros de distância, sorriu, satisfeita, e começou a abrir caminho por entre os 
grupos de convidados. Foi então que Patrick MacKinnon bloqueou-lhe a passagem. 

— Deixe-me passar — pediu Anne. — Tenho de voltar. 

Patrick a segurou pelos braços e chacoalhou-a de leve, indagando: 

— O que está acontecendo, afinal? Você está bêbada, Deborah? 

— Não! Eu não sou Deborah — disse ela, sem pensar. — E não estou bêbada. Só 

preciso voltar para o túnel! 

— Você não vai a lugar algum, Deborah, muito menos para o túnel — interveio 

J.B,  que  se  aproximara.  —  Você  finalmente  conseguiu  me  fazer  perder  de  vez  a 
paciência,  mulher!  Está  satisfeita,  agora?  —  murmurou  por  entre  os  dentes,  furioso, 
enquanto a puxava para fora da sala. 

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A luz do sol acordou Anne. Enquanto ela se espreguiçava, sonolenta, ouviu vozes 

sussurrantes, femininas, que vinham do rádio-relógio. De olhos fechados, aconchegada 
ao  calor  da  cama,  ela  bocejou.  Tivera  um  sonho  esquisitíssimo,  e  agora  a  sua  cabeça 
doía. 

As  vozes das locutoras  de  rádio  aumentaram  de  volume.  Anne  cobriu  a  cabeça 

com o travesseiro. Percebendo que também estava com os braços e as pernas doloridos, 
achou estranho. Não fizera nenhum exercício físico no dia anterior. Na verdade, durante 
as últimas semanas, não fizera nada mais cansativo que cuidar do pai. 

Seu pai! Tinha de dar a ele o comprimido das nove da manhã! Anne sentou-se 

depressa na cama, abriu os olhos e viu algo que a espantou. 

Rosas. Pequenas rosas brancas e vermelhas enfeitavam as paredes do seu quarto. 

Ela  pestanejou  e  olhou  para  o  lençol  que  a  cobria,  que  também  era  estampado 

com rosas brancas e vermelhas, como o papel de parede. E como a colcha dobrada aos 
pés  da  cama.  Confusa,  alisou  o  tecido  com  as  mãos.  Não  reconheceu  o  lençol  nem  a 
colcha, muito menos o papel de parede. E o que dizer dos móveis de época espalhados 
pelo  quarto?  Poltronas  combinando  com  os  criados-mudos  que  ladeavam  a  cama  de 
casal, abajures de cúpula branca, um biombo em estilo art déco. Tudo o que havia no 
aposento parecia ter saído de uma das lojas de antigüidades favoritas da sua mãe. 

Anne  franziu  a  testa.  Seu  olhar  pousou  sobre  uma  parede  perto  da  cama  que 

formava uma espécie de alcova, bloqueando o resto do quarto. Ela levou uma das mãos 
à cabeça e notou que alguém lhe pusera uma bandagem na testa. 

Trechos do sonho  maluco  que tivera durante  a noite voltaram-lhe  à  mente.  Um 

labirinto...  Correra  por  um  labirinto  de  túneis.  Começara  a  subir  uma  escada,  caíra  e 
batera a cabeça. Em seguida, saíra de dentro de uma lareira e vira uma porção de gente 
usando  roupas  no  estilo  dos  anos  20.  Ela  se  lembrava  também  de  ter  visto  um 
adolescente olhando um carro antigo. Que bizarro! 

Ao  escutar  de  novo  as  vozes  femininas  Anne  olhou  ao  redor  à  procura  de  um 

rádio  ou  de  um  rádio-relógio,  mas  não  havia  nenhum  tipo  de  aparelho  no  quarto. 
Curiosa, levantou-se e  contornou em  silêncio  a parede perto da  cama.  Levou o  maior 
susto quando viu duas mulheres ao lado de um guarda-roupa com as portas abertas. As 
mulheres deviam ser empregadas, pois trajavam uniformes pretos com avental e touca 
branca. Elas estavam dobrando a calça jeans e a camisa que Anne usara no dia anterior. 

Anne  olhou  para  a  camisola  que  lhe  cobria  o  corpo.  Não  se  lembrava  de  tê-la 

vestido  antes  de  ir  dormir,  nem  de  tê-la  comprado  algum  dia  —  na  verdade,  não  se 
lembrava de nada. Afinal, onde estava, e o que teria lhe acontecido? Fechando os olhos, 
tentou pôr a cabeça para funcionar em busca de uma pista. Foi então que ouviu uma das 
criadas ralhar com a outra, com um forte sotaque irlandês. 

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— Fale mais baixo! Quer que a patroa escute o que estamos dizendo? Ela pode 

estar acordada, sabia? 

— Deborah Munro, acordada antes da hora do almoço? — A segunda empregada 

deu uma risadinha cínica. — Está aí uma coisa que eu gostaria de ver, Katy O'Brien! 

Deborah Munro. 

Oh, céus... Deborah Munro. A névoa de confusão que tomava conta da mente de 

Anne dissipou-se como que por encanto. De um segundo para outro ela se recordou de 
tudo, nos mínimos detalhes: a visita à mansão Munro, o retrato de Deborah, o homem 
barbado que a estrangulara, a festa, J.B. e Patrick, o medalhão perdido. Pelo visto, o que 
imaginara ser um sonho era pura realidade. Mas como...? 

Uma das criadas virou-se, e Anne escondeu-se atrás da parede. 

— A Sra. Munro tem um bom motivo para dormir até tarde, hoje — argumentou 

a  empregada  de  sotaque  irlandês.  —  Já  esqueceu  que  ela  sofreu  um  ferimento  na 
cabeça? 

— E você, Katy, já esqueceu onde ela machucou a cabeça? Nos túneis! E sabe 

por que ela estava nos túneis? Porque tinha um encontro secreto com... 

— Já chega, Edith! Não quero ouvir mais nenhum dos seus mexericos maldosos 

sobre a patroa. Não sei por que você a odeia tanto, se todos os outros empregados da 
casa gostam dela. Além disso, ela é uma mulher casada e jamais teria coragem de... 

Dessa  vez  foi  Edith,  a  criada  que  pouco  antes  dera  uma  risadinha  cínica,  que 

interrompeu Katy: 

—  Ah,  como  você  é  ingênua!  Os  outros  empregados  só  gostam  de  Deborah 

Munro  porque  não  sabem  nem  metade  do  que  eu  sei  sobre  ela.  E  caso  lhe  interesse 
saber, o fato de ser casada pode significar algo para gente como nós, mas não significa 
nada para as pessoas que vivem nesta casa e que não têm o menor senso de moral. Eu já 
não lhe contei que o patrão era tutor de Deborah antes de se casar com ela? Pois então, 
isso confirma o que estou dizendo. 

— Acontece que eu só acredito no que vejo com os meus próprios olhos, Edith, e 

o  que  vi  até  hoje  nesta  casa  basta  para  me  convencer  que  a  Sra.  Munro  é  uma  boa 
pessoa.  Ela  sempre  foi  gentil  comigo.  Não  descontou  um  único  dia  do  meu  salário 
quando  fiquei  doente,  e  eu  estava  trabalhando  aqui  há  apenas  seis  meses.  Nenhuma 
outra patroa teria feito isso. 

—  Não  perca  o  seu  tempo  defendendo  Deborah  Munro,  a  menos  que  queira 

bancar a tola. Vamos, me diga, se ela não tinha um encontro com algum amante, o que 
foi fazer nos túneis no meio da festa? E ainda por cima usando roupas de homem, para 
se disfarçar! 

—  Concordo  que  as roupas  são  estranhas,  mas  talvez  a  patroa  as  tenha  vestido 

para  cavalgar.  Ela  adora  cavalos,  você  sabe.  Por  falar  nisso,  talvez  esses  sapatos 

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estranhos  também  sejam  próprios  para  cavalgar.  Eu  nunca  tinha  visto  nada  parecido, 
antes.  Céus,  e  eu  que  achava  que  aquelas  botas  pontudas  de  caubói  é  que  eram 
estranhas! 

— Por Deus, Katy, você é mesmo ingênua! Deborah Munro foi se encontrar com 

um homem, e não andar a cavalo. Quanto a estes sapatos, eu também nunca tinha visto 
nada parecido. Mas dê uma olhada aqui. Não é um nome de homem bordado aqui do 
lado? Leia, está escrito Mike. 

Anne franziu a testa. O nome Mike? Bordado nos seus tênis? 

Depois de um momento de silêncio, ela escutou Katy rir baixinho e comentar: 

— Posso ser ingênua, Edith, mas sei ler melhor que você. Esta primeira letra é 

um "N", não um "M". Repare, aqui está escrito Nike, em vez de Mike. Não sei o que a 
palavra significa, mas com certeza não é nome de gente. 

Anne sorriu, divertida. As duas empregadas estavam falando da marca dos tênis! 

— Não importa o que está escrito nos sapatos — resmungou Edith, na defensiva. 

— O que importa é o que Deborah Munro foi fazer nos túneis. Talvez, por causa disso, 
ela seja mandada embora de novo. 

— Você acha? — indagou Katy, em tom preocupado. 

—  Acho,  sim.  Foi  por  causa  desse  mesmo  tipo  de  comportamento  que  o  Sr. 

Munro  afastou  a  esposa  da  mansão  quatro  anos  atrás.  Tentaram  abafar  a  história, 
dizendo que ela tinha ido visitar parentes em outro Estado, mas eu fiquei sabendo que o 
patrão brigou com Deborah uma dia antes de ela ir embora. O motivo da briga, é óbvio, 
foi um dos casos escandalosos da patroa. Ele não queria que a cidade inteira soubesse 
que... 

—  Edith!  Por  acaso  você  ficou  ouvindo  a  discussão  dos  dois  atrás  de  alguma 

porta? 

—  Bem,  para  ser  sincera,  eu  não  pude  deixar  de  ouvir,  Katy.  Os  dois  estavam 

discutindo aos berros. Pensei até que o patrão fosse bater na mulher! Ele estava gritando 
e  jogando  coisas  no  chão  e  nas  paredes, enquanto  a  esposa  chorava  e  implorava pelo 
divórcio. 

— Por favor, Edith, prefiro não ouvir mais nada. 

— Tem certeza? Não quer nem ouvir por que o patrão estava mandando a mulher 

embora de casa, e por que ela queria o divórcio? Pois fique sabendo, sua tonta, que a 
mulher que você teima em defender tem um passado vergonhoso. Ela... 

A porta do quarto se abriu de repente e Edith parou de falar. 

— Sr. Munro! — exclamou a empregada mexeriqueira, assustada. — Nós... Nós 

estávamos arrumando as roupas da sua esposa, mas já acabamos o serviço. Com licença, 
senhor... Venha, Katy. 

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Ao perceber que as mulheres saíam do quarto, Anne voltou correndo para a cama 

e  fingiu  que  estava  dormindo.  Por  Deus,  o  sonho  estava  se  transformando  num 
pesadelo! 

Sua cabeça doía muito, e a última coisa de que ela precisava agora era de uma 

conversa  com  J.B.  Munro.  Ainda  mais  se  ele  ainda  estivesse  tão  zangado  quanto  na 
noite anterior! 

Anne sentiu o colchão afundar quando J.B. sentou-se na beirada da cama. Ele a 

segurou pelos ombros e chacoalhou-a sem a menor gentileza. 

Acorde,  Deborah.  Vamos,  acorde.  Ela  conservou  os  olhos  fechados,  o  rosto 

impassível. Pare de fingir, Deborah. Sei que já acordou — disse. 

Anne continuou a respirar em ritmo lento, como alguém que estivesse num sono 

profundo.  Precisou  controlar-se  ao  máximo  para  manter-se  imóvel  quando  J.B. 
aproximou seu rosto do dela e lhe acariciou de leve o pescoço. 

—  Devo  tentar  acordá-la  como  um  marido  amoroso  o  faria?  —  sussurrou  ele, 

sarcástico. 

Uma  briga  com  J.B.  não  era  a  última  coisa  de  que  Anne  precisava.  Pensando 

nisso, ela abriu depressa os olhos. 

— Ah, eu sabia que isso a faria acordar — riu J.B, pondo-se de pé. 

Anne encarou-o, procurando esconder o espanto que a dominou. Ele era o mesmo 

homem que vira num dos retratos durante a visita turística à mansão. Mas como isso era 
possível? 

— Precisamos conversar, mulher. — J.B. falou em tom educado, mas seus olhos 

mais pareciam  duas pedras  de gelo. —  Precisamos  ter uma  conversinha a  respeito  do 
seu  ódio  por  mim,  do  seu  desejo  de  destruir  o  meu  nome  nessa  cidade.  Um  assunto 
fascinante, não acha? 

Anne permaneceu calada e ele prosseguiu: 

—  E  então,  não  vai  dizer  nada?  Pensei  que  o  assunto  iria  interessá-la.  Afinal, 

escândalos e mexericos são o seu forte, não é mesmo? Imaginei que você estaria ansiosa 
para  falar  sobre  as  suas  últimas  tentativas  de  me  desgraçar.  Vamos  lá,  não  vai  fazer 
nenhum  comentário  sobre  como  conseguiu  reavivar  rumores  que  há  quatro  anos 
estavam esquecidos?  

Anne continuou muda. 

— O seu silêncio me surpreende, Deborah. — J.B. tornou a rir com cinismo. — 

Não quer mesmo se vangloriar do sucesso do seu plano para me humilhar? Por favor, 
não  se  finja  de  modesta  só  por  minha  causa.  Você  planejou  tudo  direitinho.  Primeiro 
ofereceu  uma  festa  em  minha  homenagem,  depois  fez  questão  de  ser  vista  saindo  do 
salão  com  um  outro homem.  E  é  claro que  todo  mundo  comentou  o  fato,  exatamente 
como você queria! 

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Estremecendo  diante  da  crueldade  de  tal  acusação,  Anne  baixou  a  cabeça.  J.B. 

continuou, implacável: 

— Ignorei todos os rumores que ouvi nos últimos meses, decidido a lhe conceder 

o benefício da dúvida. Mas, pelo visto, banquei o tolo. Você andou sendo leviana outra 
vez, como todo mundo já sabia. Todo mundo menos eu! E o espetáculo da noite passada 
foi planejado para mostrar aos habitantes da minha cidade o quanto tenho sido idiota, 
certo? 

J.B. correu os dedos pelos cabelos e torceu a boca num gesto de asco. Ele virou o 

rosto, como se não suportasse olhar para a mulher na cama por mais um único segundo. 

Anne suspirou, pesarosa. Se não estivesse tendo um pesadelo, se o que estivesse 

acontecendo fosse mesmo real, isso significava que Deborah era uma pilantra de marca 
maior. 

— Vai continuar calada? Pois o que tenho para lhe dizer agora talvez estimule a 

sua vontade de falar — declarou J.B, ameaçador. — Acho que você está precisando de 
um  período  de  descanso, minha  querida.  De  um  longo período  de  descanso,  para  ser 
mais exato. Por isso, hoje de manhã, dei um telefonema para um hospital em Missouri. 

— Você... telefonou para um hospital? — murmurou Anne, por fim. 

O  pesadelo  estava  assumindo  um  ar  mais  real  e  assustador  a  cada  minuto  que 

passava. 

—  Oh,  vejo  que  o  assunto  despertou  o  seu  interesse.  Sim,  telefonei  para  um 

hospital.  Geralmente  o  processo  de  internação  demora  algum  tempo,  mas  parece  que 
ainda me resta um pouco de influência para apressar as coisas. E depois do que você fez 
na noite passada, será ainda mais fácil convencer os médicos de que você não anda no 
seu estado normal. 

Anne aprumou-se na cama, imaginando-se internada num hospício dos anos 20. 

Ah, não, de jeito nenhum! É claro que já pensara na possibilidade de ter ficado louca; no 
fundo, porém, sabia que estava mais lúcida que nunca. A situação em que se encontrava 
é que era maluca, isso sim! Mas ela sabia como sair dessa situação, usando o medalhão 
e o retrato de Deborah. 

Chegara a hora da verdade. Hora de contar a J.B. que ela não era a mulher que ele 

queria mandar para um hospício. Hora de revelar que não era a adúltera e escandalosa 
Deborah, pois Deborah estava morta num dos túneis sob a mansão. Hora de revelar que 
ela era Anne, uma para-médica que cuidara dele nos anos 90 e... 

Céus,  agora  sim  Anne  devia  ter  enlouquecido!  Era  óbvio  que  J.B.  jamais 

acreditaria  nessa  história.  Ao  contrário,  ele  iria  repetir  para  os  médicos  tudo  o  que 
ouvira e ela passaria o resto da vida internada como doida incurável. 

Não,  Anne  não  podia  contar  nada  para  J.B,  a  menos  que  mostrasse  o  corpo  de 

Deborah como prova do que dizia. Mas quanto tempo seria necessário para encontrar o 

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corpo  de  Deborah?  Dias,  talvez  semanas.  Sendo  assim,  o  melhor  a  fazer  era  evitar  a 
verdade a qualquer custo e recuperar o medalhão! 

Pense, ordenou  Anne  a  si  mesma.  Pense num jeito de  enganar de J.B. e ganhar 

tempo para poder sair dessa enrascada. 

— Vai ficar muda, Deborah? — J.B. cruzou os braços Um sorriso de satisfação 

curvou-lhe os lábios. — Fico feliz em ver que você concorda com os meus planos. Para 
mim  tanto  faz  se  você  acha  que  precisa  mesmo  de  um  descanso  ou  se  está  apenas 
aborrecida  com  os  amantes  que  arranja  por  aí.  Já  fico  contente  só  de  vê-la  com  essa 
expressão confusa, sem saber o que dizer. 

Anne  arregalou  os  olhos  e  cerrou  os  punhos,  dominada  por  uma  raiva  intensa. 

Deborah  podia  ter  sido  a  maior  pilantra  do  Estado  de  Oklahoma,  mas  o  marido  dela 
também  não  era nenhum  santo.  O  homem  que  estava  à sua  frente  não era o  velhinho 
doente que conhecera; ele não era fraco nem indefeso, era perigoso! 

Na atual circunstância, o melhor seria fazê-lo experimentar um pouco do próprio 

remédio.  Anne  pigarreou,  recostou-se  na  cabeceira  da  cama  e,  forçando-se  a  assumir 
uma expressão entediada, declarou: 

—  Você  está  me  subestimando,  J.B,  e  isso  me  surpreende.  Você  não  chegou  à 

posição que ocupa hoje subestimando as pessoas. 

—  Tem  razão.  Eu  não  costumo  subestimar  ninguém.  Admito,  contudo,  que  já 

cometi alguns erros no passado, principalmente no que diz respeito a você. Mas não se 
preocupe, sou do tipo que não comete o mesmo erro duas vezes. 

— Será? — provocou Anne, fingindo uma coragem que nem de longe sentia. Em 

seguida,  ameaçou:  —  Se  você  quiser  que  o  "episódio"  de  quatro  anos  atrás  continue 
sendo  um  segredo  de  família,  trate  de  não  assinar  nenhuma  guia  de  internação 
hospitalar, entendeu? 

J.B. riu, abalando a confiança de Anne. Droga! Edith não dissera a Katy que J.B. 

fizera questão de abafar o caso? Será que não era esse o ponto fraco dele? 

— Está querendo me chantagear, Deborah? Pensei que seu forte fosse o adultério 

— retrucou J.B, antes de acrescentar: — Se você tentar me prejudicar ainda mais, darei 
um  jeito  de  deixá-la  trancafiada  no  hospital  até  que  todos  os  habitantes  da  cidade 
esqueçam que um dia você existiu. 

Ele  fez  a  ameaça  soar  de  modo  convincente,  mas  Anne  percebeu  algo:  J.B. 

Munro tinha um tique. Um tique nervoso na cicatriz sob o olho esquerdo. Então ele não 
está tão seguro quanto quer parecer, pensou Anne, enquanto argumentava: 

—  Antes  de  ser  trancafiada,  meu  caro,  posso  muito  bem  arrastar  o  sobrenome 

Munro na lama. 

— Munro também é o seu sobrenome, Deborah. 

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O tique nervoso tomou-se ainda mais perceptível. J.B. passou a ponta dos dedos 

sobre a cicatriz. Ao notar que Anne observava-lhe o gesto, apressou-se a enfiar as mãos 
nos bolsos da calça. 

—  Acho  que  dá  para  adivinhar,  pelo  meu  comportamento,  que  eu  não  ligo  a 

mínima para o sobrenome Munro — afirmou Anne, dando de ombros. 

Com medo de que a ameaça de revelar um segredo de família não fosse suficiente 

para deter os planos de J.B, ela resolveu blefar mais uma vez: 

— A propósito, meu caro, também não costumo subestimar as pessoas. Eu sabia 

que você iria tentar me punir pelo que fiz ontem na festa. Por isso, tomei providências 
para que você pagasse bem caro caso conseguisse arranjar um modo de me castigar. O 
homem  com  quem  me  encontrei na  noite  passada  está  a par de  tudo o  que  aconteceu 
quatro anos atrás. Pedi a ele que revelasse todos os detalhes caso ficasse sabendo que, 
de repente, eu tinha ido "visitar parentes em outro Estado". 

J.B. estreitou de leve os olhos, e Anne jogou sua última cartada: 

— Ele... ele tem um parente que é repórter. 

— Um parente? 

— Um primo, para ser mais exata. 

— Esse primo trabalha para algum jornal local? 

— Não, o rapaz trabalha para um jornal de circulação nacional. 

— Não acredito em você. 

— Problema seu, meu caro. 

A cicatriz sob o olho de J.B. começou a pulsar mais depressa. 

—  Você  não  é  tola,  Deborah.  Deveria  saber  que  está  provocando  o  homem 

errado. 

— A meu ver, J.B, é você que está provocando a mulher errada. 

— Acontece que essa mulher é minha esposa! — esbravejou ele. 

— Pois saiba que a sua esposa não passará um único dia num hospital. A menos, 

é claro, que você queira ver o seu precioso sobrenome jogado na lama. 

Os dois se encararam com fúria, e a discussão transformou-se num jogo para ver 

quem desviava primeiro o olhar. 

Apesar de toda a sua determinação, J.B. foi o primeiro a romper o contato visual. 

Ele  balançou  a  cabeça  e,  por  um  breve  instante,  Anne  imaginou  ter  detectado  uma 
sombra de tristeza no rosto dele. 

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— Você se saiu bem, Deborah. mas a vitória não terá um sabor tão doce quanto 

você  imagina  —  afirmou  J.B,  tenso.  —  A  partir  de  agora  você  está  proibida  de  se 
afastar da mansão, de se aventurar pelos túneis ou de fazer qualquer coisa que me deixe 
embaraçado  na  frente  de  Harrison  Wyndham  enquanto  ele  estiver  hospedado  aqui.  A 
cidade investiu muito para conquistar a cooperação de Wyndham, e eu não quero que 
você  arruíne  os  meus  projetos.  Trate  de  assumir  o  papel  de  esposa  apaixonada  e 
atenciosa, entendeu? 

Ao terminar de falar, J.B. saiu do quarto pisando duro e fechou a porta com força. 

Anne  jogou-se  de  bruços  na  cama,  gemendo  baixinho.  A  tensão  que 

experimentara momentos atrás se dissipara com a partida de J.B, mas o medo continuava 
presente — medo de ter pressionado demais um homem tão poderoso. 

Mas não  adiantava nada  ficar pensando na  discussão  que  acabara  de  acontecer. 

Tinha  de  agir,  e  depressa.  Afastando  o  lençol  florido,  Anne  pôs-se  de  pé  e  foi  até  a 
alcova onde estava o guarda-roupa. Ignorando a dor de cabeça que sentia, procurou e 
encontrou a sua calça jeans. Havia acabado de vesti-la quando seu olhar pousou sobre a 
janela ao lado do guarda-roupa. 

Não acredito no que estou vendo, pensou, assustada. Não posso acreditar! 

A janela dava para os jardins da frente da mansão, oferecendo uma ampla visão 

da entrada para carros. Havia dez ou mais automóveis estacionados lá embaixo. Quando 
Anne fizera a visita turística à mansão, no dia anterior — ou melhor, setenta anos no 
futuro  —,  carros  semelhantes  àqueles  eram  considerados  como  antigüidades.  Mas  ali, 
agora, os mesmos automóveis tinham apenas alguns anos de uso. 

Um  grupo  de  pessoas  saiu  da  mansão  e  se  aproximou  dos  carros.  Obviamente, 

muitos dos convidados da festa haviam passado a noite nos vários quartos de hóspedes 
da imponente residência. 

Anne observou de olhos arregalados as roupas das pessoas. As mulheres usavam 

chapéus  coloridos  e  casacos  com  gola  de  pele.  Os  homens  trajavam  sobretudos 
elegantes por cima dos ternos bem-talhados e usavam chapéus coco. 

Afastando-se  da  janela,  Anne  suspirou  e  tirou  a  calça  jeans.  Não  podia  usá-la, 

pois  chamaria  demais  a  atenção  se  vestisse  algo  diferente  das  outras  mulheres. 
Tornando  a  suspirar,  examinou  as  roupas  penduradas  no  interior  do  imenso  guarda-
roupa. 

Betty,  a  guia  turística,  não  havia  exagerado.  Deborah  Munro  fora  mesmo  uma 

escrava  da  moda  da  época.  Os  cabides  estavam  cheios  de  vestidos  com  etiquetas 
famosas:  Chanel,  Lanvin,  Patou,  Worth,  Vionnet.  O  vestido  que  mais  impressionou 
Anne foi um de cetim prateado que lembrava um pouco o estilo egípcio. Deborah podia 
ter  sido  uma  grande  desmiolada,  mas  ninguém  podia  negar  que  tivera  bom  gosto  e 
soubera viver cercada de luxo. 

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Anne pegou um dos vestidos mais simples, apropriado para ser usado durante o 

dia, e vestiu-o. Quando ia guardar a calça jeans ouviu o tilintar das moedas que estavam 
no bolso e que, por sorte, as empregadas não tinham tirado dali. Ela pegou as moedas, 
junto  com  a  sua  carteira  de  motorista.  Olhou  para  a  data  de  nascimento  escrita  na 
carteira,  1966,  e  estremeceu  ao  pensar  na  impossibilidade  do  que  estava  lhe 
acontecendo.  Como  podia  estar  na década  de  20 se  só  iria  nascer  dali  a  uns  quarenta 
anos? 

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Anne  parou  no  meio  da  escada  e  olhou  para  baixo.  O  vestíbulo  da  magnífica 

mansão Munro estendia-se a seus pés, iluminado pelos raios de sol que atravessavam o 
vitral  acima  da  porta  da  frente.  Esculturas  de  alabastro  sobre  pedestais  de  madeira 
polida flanqueavam a entrada, e o espetacular piso de mármore brilhava como as águas 
de um lago ao luar. 

Soltando  um  suspiro  de  frustração,  Anne  desejou  ter  prestado  mais  atenção  na 

disposição dos aposentos da mansão durante a visita que fizera. O grande salão de festas 
ficava  na  parte  dos  fundos  da  mansão,  disso  ela  se  lembrava.  E  o  local  onde  estava 
agora era, óbvio, a parte da frente da luxuosa moradia. Anne passara os últimos vinte 
minutos  percorrendo  o  labirinto  de  cômodos  nos  andares  superiores,  passando  por 
quartos,  banheiros  e  saletas.  Sem  querer  acabara  entrando  no  escritório  de  J.B,  que  a 
fitara com expressão zangada por estar sendo perturbado em seu local de trabalho. Anne 
pedira desculpas por incomodá-lo e saíra apressada. 

Acabara encontrando uma escada e começara a descê-la, esperando ter finalmente 

encontrado  o  caminho  para  o  salão  de  festas.  Imaginara-se  correndo  na  direção  da 
lareira e da porta oculta que a levaria até o medalhão; o medalhão, por sua vez, a levaria 
de  volta  para  o  futuro.  Em  vez  disso,  contudo,  ali  estava  ela,  parada  na  escada  do 
vestíbulo, olhando para a porta que dava para a sala de jantar. 

— Droga! — resmungou em voz baixa, enquanto terminava de descer a escada. 

Passou  diante da  sala  de  jantar  e  seguiu  em  frente,  apressando  o  passo.  Se  não 

estivesse  enganada, teria de  atravessar  apenas duas salas  antes  de alcançar o seu  alvo 
final. 

Passou correndo pela primeira sala, onde não havia ninguém.  Ao entrar na sala 

seguinte, avistou uma empregada tirando o pó de uma estante cheia de bibelôs de cristal. 
A criada parou o que estava fazendo e abriu a boca para dizer algo, mas Anne lançou-
lhe um olhar do tipo "não se atreva a me dirigir a palavra". Baixando a cabeça, a mulher 
retomou o seu serviço. 

Ao chegar ao salão de festas, Anne olhou ao redor para ter certeza de que estava 

sozinha. Por sorte, não havia ninguém ali. Satisfeita, atravessou o salão. Quando chegou 
perto da enorme lareira em estilo medieval, pensou em J.B. e em Patrick. 

Patrick.  Imaginou  estar  sentindo  a  presença  dele  no  salão  e  virou-se  depressa, 

esperando encontrá-lo parado às suas costas. Ele não estava ali. Mas deveria ter estado, 
pois Anne voltara a experimentar a mesma emoção que experimentara na noite passada 
ao vê-lo. 

O mais louco de tudo é que não havia como explicar a forte e estranha emoção 

que Patrick lhe provocava, havia? Anne riu de si mesma ao pensar nisso. A verdade é 
que  não  existia  explicação  para  nada  do  que  lhe  acontecera  até  agora.  A  única  e 

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incompreensível  conexão  entre  o  passado  e  o  futuro  era  o  medalhão  e  o  retrato  de 
Deborah. Patrick não tinha nada a ver com o assunto. 

Anne entrou na lareira, segurou a maçaneta da porta secreta e girou-a. Foi inútil. 

Ao olhar para cima, ela viu por quê: um cadeado preso a um gancho na parede impedia 
que a porta fosse aberta. 

— Maldito seja você, J.B! — praguejou Anne, dando socos na porta. — Maldito, 

maldito, maldito! 

— Está com algum problema? 

Assustada, Anne virou-se para trás. Patrick estava parado com as mãos na cintura 

diante da abertura da lareira. 

— Eu... Sim, estou com problemas. Talvez você pudesse me ajudar — respondeu 

ela com voz trêmula, procurando ignorar a emoção que a simples presença do sócio de 
J.B. lhe causava. 

Patrick  a  atraía  fisicamente,  sem  dúvida.  Alto,  moreno,  com  misteriosos  olhos 

negros  e  uma  boca  tentadora,  ele  mais  parecia  o  objeto  de  um  sonho  sensual 
transformado  em  realidade.  Anne  jamais  se  sentira  tão  atraída  por  um  homem  antes, 
mas  e  daí?  Não  era  uma  virgenzinha  inocente.  Sabia  reconhecer  sinais  de  excitação 
sexual era seu corpo. Não havia nada de místico ou estranho nisso. 

— Acha mesmo que posso ajudá-la? — indagou Patrick com um certo sarcasmo, 

após um instante de silêncio. 

— Acho que sim. Como eu lhe disse ontem à noite, preciso descer até os túneis 

de novo. 

Patrick entrou na lareira e examinou o cadeado, pensativo. Ao vê-lo tão perto de 

si, Anne estremeceu e sentiu um arrepio de excitação. Está vendo só? Isso é pura atração 
sexual,  mais nada,  ralhou  consigo  mesma.  Fitou  as  mãos  de  Patrick,  que  mexiam  no 
cadeado, e por alguma razão não se surpreendeu ao perceber que elas eram calejadas, 
habituadas  a  trabalhos  físicos.  Mesmo  assim,  tal  fato  era  esquisito.  Patrick  era  um 
magnata, e magnatas não tinham mãos calejadas. 

— Perdi um objeto lá embaixo. Uma jóia de estimação — disse Anne de repente, 

procurando justificar-se. — E por essa razão que tenho de ir até os túneis. 

— E você quer que eu a ajude a abrir este cadeado? 

— Sim, por favor. Você se importaria de fazer isso por mim? 

Nesse momento, ela cometeu o erro de olhar para o rosto de Patrick. Passou-lhe 

pela cabeça a idéia de que Deborah precisaria ter sido louca para não se sentir tentada a 
ter um caso amoroso com o sócio de seu marido. Anne não aprovava o fato de Deborah 
ter sido infiel a J.B, é claro, mas que mulher podia resistir à beleza máscula de Patrick? 

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No  presente  instante,  por  exemplo,  Anne  não  conseguia  pensar  em  mais  nada 

além de tocar o corpo forte que exalava um perfume almiscarado. 

— Eu não me importaria, mas creio que J.B. não gostaria nem um pouco da idéia 

— respondeu Patrick, por fim. — Parece que ele não quer que você entre nos túneis. 

— Mas J.B. não precisa ficar sabendo, precisa? 

— "J.B. não precisa saber"? Foi isso que você disse ao homem que levou para os 

túneis ontem à noite, Deborah? 

O jeito brusco de Patrick falar espantou Anne. Pelo visto, ele se importava mais 

do que seria normal com o comportamento da esposa do seu sócio. Será que os boatos 
eram  verdadeiros,  então?  Será  que  Patrick  era  algo  mais  que  um  simples  amigo  de 
Deborah?  Anne  lembrou-se  de  Patrick  dizendo  a  J.B.  que  não  tinha  motivos  para 
desconfiar dele. Mas talvez Patrick houvesse mentido... 

—  Não  quero  falar  sobre  a  noite  passada  —  retrucou  Anne,  pois  não  sabia  o 

suficiente sobre o que acontecera na festa para discutir o assunto. 

Sabia apenas que Deborah fora estrangulada por um homem barbado que podia 

muito bem tê-la atraído para os túneis com uma desculpa qualquer. O problema era que 
Anne não tinha nem tempo nem inclinação para defender Deborah, por isso limitou-se a 
explicar: 

— Eu só quero ir até os túneis para recuperar o meu medalhão. E então, você vai 

me ajudar ou não? 

—  Recuperar  o  seu medalhão? —  espantou-se  Patrick.  —  Por  acaso  mudou  de 

idéia? 

— Não sei do que você está falando. 

— Ora, é claro que sabe. 

Vendo  que  não  o  convenceria  do  contrário,  Anne  decidiu  mudar  de  tática  e 

argumentou: 

—  Não estou conseguindo pensar direito,  hoje.  Acho que  a batida  que levei na 

cabeça deve ter... 

—  Você  deu  o  medalhão  para  uma  das  empregadas,  lembra?  —  interrompeu-a 

Patrick. — Você disse que odiava o medalhão, e que também me odiava. 

Ao terminar de falar, ele ficou surpreso com a expressão chocada que surgiu no 

rosto de Deborah. Ela abriu a boca, mas não emitiu nenhum som. A tagarela Deborah 
Munro, sem saber o que dizer? Que novidade! 

— Então... Foi você que deu o medalhão para ela? — murmurou Anne, quando 

finalmente recuperou a voz. 

— Para ela? — estranhou Patrick. 

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— Sim... Isto é, para mim, claro. 

— Deborah, você está bem? Não se lembra de que fui eu que lhe dei o medalhão? 

— É lógico que me lembro. Eu apenas... 

— Apenas o quê? 

—  Minha  cabeça  está  doendo...  Acho  melhor  eu  ir  me  deitar  e  descansar  um 

pouco. — Anne levou uma das mãos à testa. — Sim, é isso que eu vou fazer. A gente se 
cruza depois. Quero dizer, a gente se vê uma outra hora, combinado? 

Patrick  saiu  da  lareira  e  observou  Deborah  afastar-se  às  pressas.  Pensativo, 

cruzou os braços. Havia jurado a si mesmo, muito tempo atrás, que tiraria a esposa de 
J.B. da cabeça. Durante anos, conseguira cumprir o juramento. Sendo assim, o que teria 
acontecido nas últimas vinte e quatro horas para mudar a situação? 

Na  noite  passada,  quando  segurara  Deborah  pelos  braços,  experimentara  uma 

estranha emoção. E agora há pouco, ao imaginá-la nos túneis em companhia de outro 
homem,  sentira  um  ciúme  inexplicável,  um  ciúme  que  não  sentira  na  noite  anterior 
quando a vira sair da festa com um sujeito. 

Cerrando os punhos, Patrick recriminou-se por ser tão estúpido. Depois de já ter 

limpado a mente e a alma da influência de Deborah, não cometeria o erro de envolver-se 
com ela outra vez. A esposa do seu sócio não merecia um segundo de consideração. 

De súbito, ele lembrou-se de uma das frases de despedida de Deborah. A gente se 

cruza depois, Que jeito mais esquisito de falar... A frase não fazia o menor sentido! 

A  princípio  Patrick  mostrara-se  cético  quando  Deborah  culpara  o  ferimento  na 

cabeça pelo seu comportamento estranho. Mas recordando a breve conversa que haviam 
tido  durante  a  festa  e  refletindo  sobre  as  ações  de  Deborah  há  poucos  instantes,  ele 
desconfiou de que ela podia estar sendo sincera. 

Eu não sou Deborah. 

Na noite da festa, Patrick imaginara que Deborah havia bebido demais. Que outra 

explicação poderia existir para ela ter feito uma afirmação tão absurda e estar vestida 
feito um homem? 

O olhar de Patrick foi atraído para o retrato que J.B. mandara pintar de Deborah 

quando ela ainda não era sua esposa. Ele passou um longo momento a fitar a imagem da 
jovem que havia possuído o seu amor e todos os seus planos para o futuro. De repente, o 
passado voltou-lhe à mente com uma clareza assustadora. 

Patrick ouviu o riso cristalino de Deborah. Sentiu os lábios dela colados aos seus 

e  foi  tomado pela  excitação  típica  de  um  adolescente  às voltas  com  o  primeiro  amor. 
Sentiu as mãos delicadas deslizando em suas costas, o calor do corpo sensual unido ao 
seu até o instante do êxtase... 

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—  A  esposa  de  J.B.  é  muito  bonita,  não  acha?  Arrancado  de  seus  devaneios, 

Patrick  virou-se.  Harrison  Wyndham,  o  banqueiro  de  Boston  que  era  hóspede  na 
mansão, estava parado atrás dele, observando o retrato com curiosidade. 

Patrick  não  percebera  a  aproximação  do  banqueiro.  Constrangido,  pigarreou  e 

afastou  as  imagens  voluptuosas  que  lhe  haviam  invadido  a  mente.  Por  Deus,  aqueles 
dias — dias de paixão ao lado de Deborah — faziam parte de um passado já remoto. 

— Sim — respondeu ele, depois de alguns segundos. — A esposa de J.B. é muito 

bonita. 

— Mas é também um pouco... selvagem, não é mesmo? Ela deu um espetáculo e 

tanto ontem à noite, na festa. 

Tenso, Patrick sentiu uma certa irritação em relação ao banqueiro. Não gostou do 

brilho malicioso no olhar de Wyndham, nem de sua atitude condenatória. Fora o próprio 
Patrick  que  arranjara  o  encontro  entre  J.B.  e  o  banqueiro  de  Boston,  mas  isso  não 
significava que era obrigado a gostar a opinião de Wyndham sobre Deborah. 

Deborah... A mulher de seu sócio. Patrick tentou se convencer de que era esse o 

motivo  pelo  qual  tinha  vontade  de  defendê-la,  protegê-la.  Mas  ao  vasculhar  a  mente 
para  dar  uma  resposta  adequada  ao  banqueiro,  notou  que  era  difícil  encontrar  uma 
justificativa para o comportamento de Deborah. Ele mesmo chegara a pensar que ela se 
embebedara durante a festa. 

— Eu diria que a Sra. Munro é um tanto... fogosa — declarou Patrick, por fim. 

— Selvagem, fogosa... Suponho que em Oklahoma ninguém faça distinção entre 

os dois termos, seja em relação a cavalos ou mulheres — argumentou Wyndham. 

A irritação de Patrick foi substituída por um certo desconforto. Deborah não era 

mais sua mulher.  Para  que  continuar  tentando defendê-la, então?  O  papel de  defensor 
cabia a J.B. Apesar disso, contudo, foi incapaz de ficar calado. 

— Mesmo aqui, longe da "civilização", sabemos distinguir a sutil diferença que 

existe entre os dois termos, Wyndham. 

— Sutil? — O banqueiro riu e fez um gesto que abrangia o grande hall, símbolo 

da  riqueza  de  J.B.  —  Não  considere  minhas  palavras  como  um  insulto,  MacKinnon, 
pois  sou  um  homem  de  negócios,  e  todo  esse  luxo  que  me  cerca  indica  sucesso  nos 
negócios. Confesso, porém, que acho divertido ouvir a palavra "sutil" proferida por um 
habitante  do  Estado  de  Oklahoma.  Na  costa  leste  do  país,  de  onde  venho,  o 
comportamento  da  Sra.  Munro  não  seria  classificado  de  "fogoso",  do  mesmo  modo 
como a mansão de J.B. não seria chamada de "residência confortável". 

Patrick  obrigou-se  a  controlar  um  novo  acesso  de  irritação.  J.B.  e  ele  haviam 

levado um ano para convencer Harrison Wyndham a visitar Oklahoma. O homem era 
presidente de um banco que se vangloriava de ter entre seus clientes as famílias mais 
ricas  e tradicionais  da  costa leste  do país.  J.B.  queria que parte  do  dinheiro  do banco 
fosse investido em Oklahoma, mais especificamente na cidade de Munro. 

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Embora  tivesse  cumprido  bem  a  tarefa  de  conquistar  o  interesse  de  Wyndham, 

Patrick  não  concordava  de  todo  com  a  idéia  de  que  Munro  precisava  do  dinheiro  do 
banco de  Boston.  Afinal,  "próspera"  era  a  palavra-chave  para  descrever  a  situação  da 
cidade e da sua sociedade com J.B. Quando outras ferrovias particulares como a Munro-
MacKinnon tinham entrado em falência com o início da era do petróleo, Patrick sugerira 
uma  diversificação  nos  negócios,  e  fora  apoiado  por  J.B.  Agora,  além  da  ferrovia, 
ambos eram proprietários de ações de companhias de petróleo, de empresas de ônibus 
para transporte público e de fábricas de aparelhos de rádio. Tudo isso sem mencionar os 
fundos privados investidos em benefícios sociais como a construção de um hospital, de 
um  campo  de  golfe  e  de  uma  piscina  pública.  Os  cidadãos  de  Munro  viviam  numa 
economia saudável. J.B. afirmava que isso não era suficiente; sua cidade precisava de 
mais. 

Patrick  às  vezes  se  perguntava  quando  é  que  J.B.  ficaria  finalmente  satisfeito. 

Consigo e com a cidade. 

—  Em  nome  de  Oklahoma,  aceitarei  as  suas  palavras  como  um  elogio,  e  não 

como uma ofensa — disse Patrick, por fim, evitando mencionar o nome de Deborah. — 
Eu mesmo nasci na costa leste, Wyndham, mas logo me acostumei à escala grandiosa 
das  coisas  aqui  nessa  parte  do  país.  O  nosso  modo  de  pensar  é  muito  simples,  na 
verdade: se você não pretende fazer algo grande e chegar ao topo, então é melhor nem 
começar. 

— O fato de você ter se acostumado depressa com esse tipo de pensamento deve 

ser uma exceção, MacKinnon. Eu, por exemplo, jamais me habituaria a viver num lugar 
desses. 

Patrick  deu  de  ombros,  aborrecido  com  a  atitude  do  banqueiro,  mas  ao  mesmo 

tempo aliviado por ver que a conversa tomara um rumo mais seguro. Mais seguro para 
os  negócios  de  J.B.  e  para  a  sua  própria  paz  de  espírito.  Paz  de  espírito...  Ele  não 
permitiria  que  recordações  envolvendo  Deborah  Munro  voltassem  a  perturbá-lo.  Com 
um sorriso tenso, deu continuidade ao assunto: 

— Vim para Oklahoma quando ainda era garoto, Wyndham. Foram as histórias 

de aventura e romance que ouvi que me atraíram para cá. 

O banqueiro estufou o peito e segurou as lapelas de seu paletó antes de responder: 

— Meus clientes, geralmente homens sérios, sentem-se fascinados pelo glamour 

do oeste. Creio que isso prejudica a opinião deles sobre certos negócios. Eu, por minha 
vez, não me deixo impressionar com tanta facilidade. 

—  Você  não  traz  nem  uma  pontinha  de  interesse  por  aventura  e  romance  no 

fundo da alma, Wyndham? 

—  É  claro  que  não.  Não  alcancei  a  posição  que  ocupo  hoje  permitindo  que  a 

emoção interferisse nas transações comerciais conduzidas por mim. Na minha opinião, 
Oklahoma é apenas mais um Estado no qual meu banco e meus clientes podem ou não 
decidir investir algum dinheiro. Essa história de glamour é pura tolice. 

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—  Nesse  caso,  suponho  que  J.B.  deva  esquecer  a  idéia  de  levar  você  para 

conhecer a Fazenda 101, onde é realizado o famoso show Oeste Selvagem. 

— Show Oeste Selvagem, hein? — Tentando disfarçar sua curiosidade, Harrison 

Wyndham  afirmou  em  tom  entediado:  —  Já  vi  uma  porção  de  shows  como  esse  no 
Madison Square Garden. 

—  Sei,  sei...  É  uma  pena,  porque  o  show  realizado  na  Fazenda  101  é 

mundialmente reconhecido como um dos melhores que existem. Mas se você não está 
interessado... 

—  Oh,  eu  não  gostaria  que  J.B.  mudasse  de  planos,  só  por  minha  causa  — 

apressou-se  a  dizer  o  banqueiro.  —  Na  verdade,  pode  até  ser  interessante  conhecer  o 
dono da fazenda. Afinal, ele é mais um homem de negócios, como nós. 

— Um homem de negócios muito bem-sucedido, diga-se de passagem. 

—  Sendo  assim,  eu  irei  ao  show.  Você  não  precisa  pedir  a  J.B.  que  cancele  a 

visita. E agora, MacKinnon, se me der licença, vou tomar o café da manhã. 

— Fique à vontade, Wyndham. Bom apetite! 

Assim que o banqueiro se afastou, Patrick deu uma risadinha. Harrison Wyndham 

era um péssimo mentiroso. Por mais que insistisse em afirmar que era pragmático e que 
o  glamour  do  oeste  não  o  afetava,  era  óbvio  que  o  assunto  o  interessava  bastante. 
Embora  tentasse  disfarçar,  o  banqueiro  não  deixara  de  maravilhar-se  desde  que 
desembarcara do trem e vira o primeiro caubói legítimo de toda sua vida. 

Isso  significava  que  existia  uma  boa  chance  de  Wyndham  decidir  investir 

dinheiro em Munro, Oklahoma. E o investimento traria ainda mais prosperidade para a 
cidade, mais dinheiro para os bolsos de J.B. e do próprio Patrick. 

Tal perspectiva, no entanto, não entusiasmou Patrick. De repente, para ele, outras 

coisas  tinham  assumido  uma  importância  maior,  como  por  exemplo  os  pensamentos 
perturbadores que a esposa de seu sócio voltara a lhe despertar. 

Estranho...  No  fundo,  deveria estar  feliz com  o  sucesso das  negociações  com  o 

banqueiro, pois logo iria precisar de um dinheiro extra para mobiliar a casa nova que 
mandara construir e que já estava quase pronta. A casa que prometera a si mesmo que 
teria na primeira vez em que vira a mansão de J.B. Um dia também vou ter um palacete 
desses, pensara. Esse dia finalmente chegara, mas não trouxera a alegria e o orgulho que 
Patrick antecipara. 

No  dia  anterior,  ao  visitar  a  construção,  ele  sentira  apenas  aborrecimento  e 

cansaço.  A  casa  era  grande  demais.  Onde  estava  com  a  cabeça  quando  pedira  ao 
arquiteto que projetasse aposentos tão ridiculamente imensos? Para que um número tão 
exagerado de salas, quartos e banheiros? Não costumava hospedar visitantes de outras 
cidades ou Estados, nem planejava casar-se e ter filhos. 

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Ora, e por que não?, perguntou-lhe a voz da consciência. Você ainda pode formar 

uma  família,  se  quiser.  Basta  não  deixar  que  desilusões  passadas  atrapalhem  o  seu 
futuro. 

Como que atraído por um ímã, o olhar de Patrick voltou a pousar sobre o retrato 

de Deborah. Era ela a responsável pela desilusão que ele sofrera oito anos atrás. Sendo 
assim, por que olhara de imediato para o retrato ao pensar em formar uma família para 
preencher o vazio da sua casa nova? Deborah pertencia a J.B. Patrick já se conformara 
com o fato, ainda mais depois de perceber que o sócio até lhe fizera um favor ao casar-
se com ela. Conformara-se, sim, até agora. 

Até agora? 

Cerrando  os  punhos,  Patrick  MacKinnon  forçou-se  a  lembrar  de  tudo.  Nada 

melhor  para  dar  um  fim  a  esta  situação  absurda  que  recordar  as  atitudes  passadas  de 
Deborah. 

Os  dois  haviam  se  conhecido  poucos  dias  antes  de  Deborah  completar  dezoito 

anos.  Patrick,  com  vinte  e dois  anos,  recém-saído da  faculdade  e  trabalhando há uma 
semana  na  Ferrovia  Munro,  apaixonara-se  por  ela  à  primeira  vista.  Por  insistência  de 
Deborah,  os  dois  começaram  a  encontrar-se  às  escondidas.  Pouco  tempo  depois, 
acreditando que ela também o amava, Patrick a pedira em casamento. Recebera como 
resposta  um  sorriso  cínico.  Semanas  mais  tarde,  J.B.  dissera  a  Patrick  que  ele  não 
poderia  se  casar  com  Deborah  por  um  motivo  muito  simples:  o  próprio  J.B.  iria 
desposar a moça da qual era tutor. 

Cego de dor e fúria, Patrick não conseguira entender a razão de tamanha traição. 

Aos poucos, porém, as peças do quebra-cabeça haviam se encaixado. Deborah nunca o 
amara, apenas o usara. O tempo todo ela estivera de olho em J.B. Só tivera um caso com 
Patrick para chamar a atenção do tutor. E o melhor jeito de chamar a atenção dele fora 
envolver-se com o seu auxiliar favorito. 

Aos  poucos,  o  coração  e  o  orgulho  feridos  de  Patrick  haviam  cicatrizado.  Ele 

fizera as pazes com J.B e, ao longo dos anos, o desagradável episódio fora esquecido. 

Até agora, disse-lhe a voz da consciência, e Patrick foi obrigado a concordar. 

Tornou a olhar para o retrato, sentindo que a indiferença que nutrira por Deborah 

nos últimos anos transformava-se em suspeita. Você está planejando aprontar algo, não 
está?,  indagou  em  pensamentos  à  imagem  da  jovem.  Em  seguida,  ralhou  consigo 
mesmo.  Por  Deus,  como  pudera  esquecer  que  Deborah  não  fazia  nada  sem  segundas 
intenções?  Que  outro  motivo  ela  teria  para  pedir-lhe  que  a  ajudasse  a  recuperar  o 
medalhão? 

Dando as costas ao retrato, Patrick decidiu que não tomaria parte nos planos de 

Deborah, quaisquer que fossem eles. O problema era que já havia aceito o convite de 
J.B. para morar na casa de hóspedes da propriedade Munro até que a sua própria casa 
ficasse pronta. Ou seja, ele ainda passaria um bom tempo perto de Deborah. 

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Anne subiu correndo a escada, como se todos os demônios do inferno estivessem 

atrás  dela.  Mas  não  era  de  nenhum  demônio  que  fugia,  e  sim  de  um  homem.  Patrick 
MacKinnon. 

Ela  continuou  em  disparada  pelo  corredor  do  primeiro  andar,  virando  aqui  à 

esquerda  e  ali  à  direita,  procurando  encontrar  o  caminho  de  volta  para  o  quarto  de 
Deborah. No fundo, sabia que deveria estar à procura de um machado para arrebentar a 
porta que levava aos túneis. Nesse momento, porém, só o que queria era colocar a maior 
distância possível entre Patrick e ela. 

Então fora Patrick quem dera o medalhão, Deborah! Isso significava que Patrick, 

o  atraente  magnata,  e  Deborah,  a  esposa  de  J.B,  tinham  mesmo  uma  ligação  íntima. 
Anne enrubesceu ao pensar nisso. Ela era Deborah, agora. Para todos os propósitos, pelo 
tempo que levasse para conseguir voltar para o futuro, seria obrigada a viver a vida de 
Deborah. Patrick parecera zangado com ela há poucos instantes, na lareira; na verdade, 
todo  mundo  que  encontrara  até  o  momento  parecia  zangado  com  Deborah.  Mas  e 
quando a zanga de Patrick passasse, o que aconteceria? E o que dizer a respeito de J.B? 
E se ele decidisse exigir seus "direitos" de marido? Não, era melhor nem pensar nisso. 

Por outro lado, não era a idéia de ter que fazer sexo com J.B. que a perturbava. O 

que a deixava trêmula de expectativa era a lembrança de Patrick. Podia imaginar com 
nitidez  as  mãos  másculas  percorrendo  o  seu  corpo  com  carícias  enlouquecedoras,  os 
lábios tentadores colados aos seus num beijo profundo, suas pernas enroscadas nas dele 
enquanto se amavam com paixão e... 

— Sra. Munro, cuidado! 

O  aviso  de  Katy  chegou  tarde  demais.  Perdida  em  fantasias,  Anne  colidiu  de 

frente com a criada, que saía de um quarto carregando uma pilha de caixas. Katy caiu de 
lado, derrubando as caixas. Incapaz de equilibrar-se por causa dos sapatos de salto alto 
que estava usando, Anne também caiu: 

—  Oh,  sinto  muito,  Sra.  Munro!  —  desculpou-se  Katy,  aproximando-se  para 

ajudá-la a levantar-se. — A senhora se machucou? 

— Estou bem, não se preocupe. Acidentes acontecem, e a culpa foi toda minha. 

—  Mas  se  eu  tivesse  avisado  a  senhora  antes,  o  acidente  não  teria  acontecido. 

Mas eu estava com a cabeça nas nuvens, como sempre. 

Anne ficou de pé e sorriu, murmurando; 

— Você não era a única que estava distraída. 

Ao lembrar-se dos pensamentos que a haviam distraído, ela voltou a enrubescer. 

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Katy começou a recolher as caixas, e Anne se ofereceu para ajudá-la. 

— Não, por favor! Deixe que eu cuide disso, senhora — protestou a empregada, 

pegando todas as caixas sozinha. 

Anne notou que a criada era magra, baixinha, e que seria difícil para ela carregar 

tudo sem auxílio. Em tom gentil, declarou: 

— Faço questão de ajudá-la, Katy. 

— Não é necessário, senhora. Isso faz parte do meu trabalho. 

— Mesmo assim, eu insisto em... 

—  Por  favor,  não  insista.  Aliás,  perdoe-me  pelo  atrevimento  mas,  na  minha 

opinião, a senhora não deveria estar correndo por aí. Afinal, faz tão pouco tempo que 
machucou a cabeça! 

— Eu já estou bem, Katy, o ferimento não foi grave — afirmou Anne, pegando 

duas das caixas. — Para onde vamos levá-las? 

— Para aquele outro quarto ali adiante — respondeu a criada, a contragosto. 

— Não precisa fazer essa cara de contrariedade, Katy. Eu estou me sentindo bem, 

pode acreditar. 

— Humpf! Sei que o assunto não é da minha conta, Sra. Munro, mas ainda acho 

que  a  senhora  deveria  passar  pelo  menos  dois  dias  na  cama,  descansando.  Como  a 
minha falecida mãe costumava dizer, a saúde é a coisa mais importante que uma pessoa 
tem na vida. 

— Pelo jeito a sua mãe era uma mulher muito sábia. 

— Era, sim — confirmou Katy, entrando no quarto que havia indicado e pondo as 

caixas em cima de uma cômoda. — Se ela ainda fosse viva e estivesse aqui, com certeza 
aconselharia a senhora a não participar do jantar de hoje à noite. 

Katy abriu as portas do armário ao lado da cômoda. Pegou uma das caixas e teve 

de ficar na ponta dos pés para conseguir colocá-la numa prateleira. Anne, bem mais alta 
que a criada, empurrou-a com gentileza para o lado e ordenou; 

— Vá me passando as caixas e eu as colocarei na prateleira. 

— Por favor, a senhora não precisa... 

— Não me contrarie, Katy. Vá me passando as caixas, e continue a falar da sua 

mãe. 

Resignada, a empregada obedeceu. Entregou uma caixa a Anne, dizendo: 

— A minha mãe também aconselharia a senhora a não ir à 101 amanhã. 

— O que vem a ser "101"? 

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— A senhora não sabe? — indagou Katy, com ar de suspeita. 

Anne ficou toda atrapalhada por causa do fora que dera. 

— Não. Quero dizer, sim. Isto é... 

—  Ah,  eu  tinha  certeza!  A  senhora  não  está  tão  bem  quanto  quer  parecer.  Sei 

como são essas coisas. Uma vez o meu irmão Rory também bateu a cabeça e ficou com 
as idéias todas atrapalhadas. Ele esqueceu o próprio nome e pensou que tinha voltado 
para a Irlanda. O pobrezinho demorou meses para sarar. E eu acho que a senhora, no seu 
estado, não devia ficar ao ar livre respirando aquele poeirão que os caubóis vão levantar. 

Poeirão? Caubóis? Será que a tal 101 era uma fazenda de rodeios? 

Anne  tocou  a  bandagem  em  sua  testa  e  pensou  no  irmão  de  Katy.  Será  que  a 

batida que dera com a cabeça também a deixara "com as idéias atrapalhadas"? Talvez 
não  houvesse  viajado  setenta  anos  na  direção  do  passado.  Talvez  ainda  estivesse  nos 
anos 90, imaginando que estava nos anos 20. Quando voltasse ao normal, veria que tudo 
não passara de um estranho delírio. 

—  Não  se  preocupe,  Katy,  eu  estou  bem  —  afirmou,  mesmo  sem  ter  muita 

certeza do que dizia. — Apenas me esqueci do rodeio, mais nada. Eu estava pensando 
em outra coisa. 

Pensando em Patrick MacKinnon, por exemplo. Irritada consigo mesma, afastou 

a imagem dele da mente. 

Muito  mais  importante  que  o  atraente  sócio  de  J.B.  era  voltar  para  casa.  Isso 

significava  que  tinha  de  conseguir  a  chave  para  abrir  o  cadeado  da  porta  oculta  no 
interior  da  lareira,  ou  então  encontrar  uma  outra  entrada  para  os  túneis.  Betty,  a  guia 
turística, havia dito que existiam várias outras entradas espalhadas pela propriedade: na 
casa do porteiro, na casa de barcos, no estúdio dos artistas, na casa de hóspedes... Anne 
vira algumas portas enquanto percorria os túneis. Todas estavam trancadas, mas talvez 
fosse mais fácil arrombar uma delas que arrombar a porta no interior da lareira. 

De  repente,  Anne  teve  uma  inspiração.  Pensativa,  olhou  para  Katy.  Talvez  a 

criada soubesse com mais exatidão onde ficavam as outras entradas para os túneis. 

— Acho que você tem razão, Katy — disse, suspirando. — Eu deveria mesmo 

estar descansando. 

—  Que  bom  que  a  senhora  concorda  comigo  —  respondeu  a  empregada, 

sorrindo. 

—  O  problema  é  que  não  vou  conseguir  descansar  sossegada  enquanto  não 

resolver  um  certo  assunto.  Eu  perdi  uma  jóia  na  noite  passada,  enquanto  estava  nos 
túneis. Será que você poderia me ajudar a recuperá-la? 

Katy parou de sorrir e olhou ao redor, tensa. Em seguida, murmurou: 

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— Sinto muito, mas o seu marido não permite que ninguém entre nos túneis sem 

a permissão dele. 

— Oh, não estou pedindo que você vá até os túneis. Só o que preciso saber é onde 

J.B.  guarda  a  chave  do  cadeado  daquela  porta  que  fica  dentro  da  lareira,  e  depois  eu 
mesma irei procurar a minha jóia. 

— Talvez seja melhor a senhora não fazer isso — respondeu Katy, constrangida. 

— O seu marido pode ficar zangado e... Bem... Edith me falou que o Sr. Munro pode 
mandar a senhora embora da mansão se pegá-la andando pelo túneis outra vez. 

—  Confie  em  mim,  Katy,  J.B.  não  vai  me  pegar  em  flagrante  nos  túneis.  Só 

preciso  saber  onde  ele  guarda  a  chave  do  cadeado,  ou  então  descobrir  onde  ficam  as 
outras portas de entrada. 

— As outras portas? Eu não sabia que havia outras portas de entrada, senhora. 

— E a chave do cadeado, você sabe onde o meu marido a guarda? 

A criada balançou a cabeça num gesto de negação. 

—  O  que  está  fazendo  aqui,  Deborah?  —  indagou  J.B,  entrando  de  repente  no 

quarto. 

Era só o que faltava! Será que ele ouvira a conversa? 

— Nada de especial. Eu estava apenas ajudando Katy a guardar umas caixas no 

armário — respondeu Anne, fingindo-se de inocente. 

J.B. encarou-a com desconfiança, mas não insistiu no assunto. 

— Vou sair para resolver uns negócios, voltarei dentro de algumas poucas horas 

— avisou ele. — Quero que você fique longe das estrebarias, hoje. Andar a cavalo pode 
não lhe fazer bem — acrescentou, indicando a bandagem que cobria a testa de Deborah. 
—  Trate  de  descansar  e  arranjar  ânimo  para  o  jantar  de  hoje  à  noite.  O  seu 
comportamento terá de ser exemplar, para compensar o espetáculo de ontem. 

Anne assentiu com um gesto de cabeça. Assim que J.B. se afastou, ela arranjou 

uma  desculpa  qualquer  para  que  Katy  a  acompanhasse  até  os  aposentos  de  Deborah, 
pois  não  queria  perder-se  pelos  corredores  da  mansão  outra  vez.  Ao  chegar  lá, 
dispensou a criada e trancou a porta. A seguir, entrou no banheiro conjugado ao quarto, 
tirou a bandagem da testa e examinou seu ferimento. O corte, cercado por uma mancha 
roxa, era pequeno. Não havia sinais de infecção, mas mesmo assim Anne desejou ter um 
tubo de anti-séptico Neosporin para passar no corte, só por precaução. 

Tudo bem, desinfetarei melhor o ferimento quando voltar para casa, refletiu ela. 

Um sorriso curvou-lhe os lábios. Ah, que delícia seria voltar para casa! Não precisaria 
mais se preocupar com a possibilidade de ser internada num hospício por J.B, nem teria 
de viver fingindo que era a esposa desmiolada de um magnata da Era do Jazz. 

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Seu sorriso alargou-se ao pensar que poderia começar a armar o seu retorno para 

os anos 90 agora mesmo, pois J.B. passaria horas longe da mansão. E o melhor era que, 
sem querer, o próprio J.B. lhe dera uma ótima idéia. Ele a proibira de sair para cavalgar 
e  lhe  ordenara  que  se  preparasse  para  o  jantar  que  aconteceria  à  noite.  Se  ele  não 
houvesse mencionado as estrebarias, Anne nem teria pensado em ir até lá. 

Mas  que  outro  jeito podia  existir para  se conhecer  melhor uma  propriedade tão 

grande, a não ser andando a cavalo? Anne economizaria tempo e teria a vantagem extra 
de não chamar a atenção de ninguém, já que cavalgar parecia fazer parte da rotina de 
Deborah. O problema é que Anne não estava habituada a andar a cavalo. Só cavalgara 
duas  vezes  na  vida,  durante  uma  excursão  que  fizera  quando  garota.  Ora,  mas  e  daí? 
Cavalos  deviam  ser  todos  iguais,  e  os  que  ela  conhecera  antes  eram  calmos  e 
obedientes. 

Decidida,  Anne  foi  até  o  quarto  e  tirou  o  vestido  e  os  sapatos  de  salto  alto.  A 

seguir,  dirigiu-se  à  pequena  alcova  formada  pela  meia-parede  e  abriu  as  portas  do 
guarda-roupa.  Pegou  uma  das  camisas  de  seda  de  Deborah  —  a  mais  simples  que 
encontrou — e a sua calça jeans. Vestiu-as, e por último, calçou um par de botas. Agora 
sim, estava pronta para dar um passeio a cavalo. 

O  cavalariço  parou  de  escovar  a  crina  do  grande  garanhão  preto  e  olhou 

espantado para Anne. 

—  Bom  dia,  Sra.  Munro —  cumprimentou o homem,  levando  uma  das  mãos à 

aba do seu chapéu de caubói. 

— A senhora nunca apareceu por aqui a essa hora, antes. Algum problema? 

— Não, está tudo bem. Apenas acordei com vontade de cavalgar mais cedo, hoje 

— respondeu Anne, procurando disfarçar a tensão que sentia. 

Fitando com curiosidade as roupas de Anne, o cavalariço pendurou a escova num 

gancho preso à parede, dizendo: 

— Nesse caso, vou selar Sophie para a senhora. 

Anne  sorriu,  acalmando-se  um  pouco.  Com  certeza  não  teria  dificuldades  para 

controlar uma égua chamada Sophie. 

O  cavalariço  saiu  da  baia  do  garanhão  preto  e  fechou  a  porta.  Seguiu  pelo 

corredor da estrebaria e entrou na baia vizinha. 

O  garanhão  preto  pareceu  não  gostar  de  ser  abandonado  antes  que  a  sua  crina 

terminasse de ser escovada. Irritado, o animal olhou para Anne, bateu as patas no chão e 
balançou a cabeça. Na porta da baia havia uma plaquinha de latão polido com um nome 
escrito: "Trovão". Anne leu o nome na plaquinha, fitou o garanhão e deu graças a Deus 
por Deborah não ter o hábito de montá-lo. 

O cavalariço reapareceu minutos depois, puxando Sophie pelas rédeas. 

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—  Ela  está  ansiosa  para  dar  um  passeio  —  comentou  o  homem,  dando  um 

tapinha amigável no pescoço da égua. 

Sophie era um belo exemplar do gênero eqüino, sem dúvida alguma. Seu pêlo era 

castanho, brilhante; a cabeça delicada, o corpo esguio e as pernas musculosas e longas 
formavam um conjunto impressionante. A égua parecia dócil e tranqüila, ao contrário de 
Trovão, que tinha um ar selvagem. 

Anne sorriu e aproximou-se de Sophie. Acariciou-lhe a crina, murmurando: 

— Você é uma beleza, sabia? 

— Sim, ela é mesmo uma beleza — concordou o cavalariço. — Além de fogosa, 

como sempre. 

O  homem  entregou  as  rédeas  a  Anne  e  fez  uma  escadinha  com  as  mãos  para 

ajudá-la a montar. 

Anne notou que a sela de Sophie era diferente da sela do cavalo no qual montara 

quando garota. Em primeiro lugar, a sela era pequena e estreita; para piorar, não havia 
nenhum cabeçote onde um cavaleiro menos experiente pudesse se segurar. 

— Algum problema, Sra. Munro? — indagou o cavalariço, notando a expressão 

preocupada de Anne. 

— Não, nenhum. — Ouvindo o homem resmungar qualquer coisa, ela perguntou: 

— O que foi que disse? 

O homem coçou o queixo antes de responder: 

— Bem... Eu disse que não consigo entender por que a senhora insiste em usar 

essa sela inglesa tão pequena. Mas já que gosta tanto dela... 

O cavalariço interrompeu a frase no meio e deu de ombros. 

Anne pensou em pedir a ele que trocasse a sela inglesa por outra convencional, 

mas  achou  melhor  ficar  calada  para  não  chamar  a  atenção  e  levantar  suspeitas. 
Deixando o medo de lado, permitiu que o cavalariço a ajudasse montar. Apoiou um dos 
pés  nas  mãos  entrelaçadas  do  homem,  agarrou-se  à  crina  da  égua  e  passou  uma  das 
pernas sobre a sela. Em seguida, enfiou os pés nos estribos. 

Minutos  mais  tarde  Anne  já  se  sentia  à  vontade  cavalgando.  Até  que  era  fácil 

equilibrar-se sobre a sela inglesa, e Sophie estava se mostrando bastante dócil. 

O  mais  difícil,  pelo  visto,  seria  não  se  perder  enquanto  cavalgava,  pois  a 

propriedade era imensa. Nos anos 90, não havia tanto espaço aberto cercando a mansão 
Munro. Era óbvio que J.B. fora dividindo e vendendo partes da propriedade ao longo 
dos  anos.  Igualmente  óbvio  era  o  fato  de  Sophie  estar  acostumada  a  passear  pelos 
campos, pois foi para lá que se dirigiu assim que deixou a estrebaria. 

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Anne  decidiu  permitir  que  a  égua  escolhesse  o  caminho  até  se  ver  longe  do 

campo de visão do cavalariço. Só então daria a volta e sairia à procura dos locais onde 
existiam outras entradas para os túneis. 

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Patrick desmontou, soltou as rédeas de Cherokee e observou o cavalo mergulhar 

o  focinho  nas  águas  frias  do  riacho.  A  seguir  sentou-se  numa  pedra  lisa  e  achatada, 
puxou a aba do chapéu sobre os olhos e apoiou os braços cruzados sobre os joelhos. Um 
pássaro cantou em meio aos galhos de uma árvore próxima e depois alçou vôo. Patrick 
acompanhou a ave com o olhar, e depois fitou as árvores às margens do riacho. Elas já 
haviam perdido a folhagem dourada do outono e agora estavam nuas, permitindo uma 
visão clara e ampla da área ocidental da nova propriedade adquirida por Patrick. 

Patrick  MacKinnon  gostava  de  Oklahoma  no  inverno.  A  maioria  das  outras 

pessoas  reclamava  da  paisagem  monótona:  campos  abertos  e  planos,  com  poucas 
árvores,  açoitados  por  um  vento  que  parecia  não  parar  nunca  de  soprar.  Para  Patrick, 
contudo, não havia nada mais belo que as campinas que se estendiam a perder de vista 
sob o céu cor de chumbo do inverno. 

Ele vira os campos de Oklahoma pela primeira vez quando tinha catorze anos de 

idade.  Havia  acabado  de  chegar  do  Estado  da  Virgínia,  na  costa  leste  do  país.  Trazia 
pouquíssimo  dinheiro  nos  bolsos,  mas  estava  determinado  a  transformar-se  num 
fazendeiro  milionário.  Afinal,  na  sua  inocência  de  jovem,  estava  convencido  de  que 
todos  os  que  moravam  em  Oklahoma  eram  fazendeiros  milionários  ou  magnatas  do 
petróleo. E já que ele viveria naquele Estado dali por diante, era óbvio que também iria 
enriquecer.  Jurou  a  si  mesmo  que  conquistaria  uma  grande  fortuna,  ou  pelo  menos 
morreria tentando conquistá-la.  

E ele quase morrera, mesmo... 

Patrick olhou para Cherokee e lembrou-se de outro cavalo: um cavalo ainda não 

domesticado que servira de instrumento para o seu primeiro teste de virilidade. Todos os 
outros vaqueiros da Fazenda 101, onde Patrick conseguira arranjar um emprego, haviam 
olhado  para o  animal  e  percebido  que ele  era  fogoso demais para  ser  amansado.  Mas 
Patrick teimara em subjugá-lo. Ansioso para provar a sua coragem, entrara no cercado 
onde se encontrava o perigoso cavalo. 

Ao ser retirado de lá de dentro, estava todo ferido; quebrara um braço, trincara 

várias  costelas  e  machucara  o  rosto  e  as  pernas.  Quando  George  Miller,  o  dono  da 
Fazendo 101, fora ver o que acontecera com Patrick, J.B. Munro o acompanhara. 

Patrick tentara assumir uma expressão de respeito diante dos dois homens , mas 

só conseguira fazer uma careta de dor. 

—  Garoto,  você  é o maior  idiota  que  já  apareceu  aqui na  fazenda!  —  afirmara 

Miller,  balançando  a  cabeça.  —  Que  diabos  deu  em  você  para  querer  domar  aquele 
cavalo dos infernos? 

J.B, porém, sorrira para Patrick com um brilho de orgulho nos olhos. 

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— Mas você conseguiu ficar alguns segundos no lombo do cavalo, não é mesmo, 

garoto? Se sobreviver aos ferimentos que sofreu, vá me procurar e eu lhe arranjarei um 
emprego na Ferrovia Munro — dissera J.B., antes de dirigir-se a Miller; — Gosto que 
as  pessoas  que  trabalham  para  mim  sejam  corajosas,  intrépidas.  Pensei  que  você 
também gostasse disso, George. 

Patrick sobrevivera, claro, mas não fora procurar J.B. Havia preferido passar mais 

algum  tempo  na  Fazenda  101,  adquirindo  experiência.  Viajara  com  os  caubóis  que 
participavam  do  show  Oeste  Selvagem  e  aprendera  dois  ou  três  truques  para  domar 
cavalos.  Os  outros  empregados  disseram  que  ele  era  um  grande  tolo  por  trocar  o 
emprego que J.B. Munro lhe oferecera pela difícil vida de caubói, mas Patrick não lhes 
dera ouvidos. Ele havia economizado algum dinheiro, pensando na fazenda que um dia 
iria  comprar;  gastara  apenas  o  suficiente  para  pagar  primeiro  um  curso  secundário,  e 
depois um curso universitário. Só então, com um diploma em ciências econômicas nas 
mãos,  voltara  para  Munro  e  aceitara  o  emprego  que  J.B.  lhe  oferecera.  Ao  mesmo 
tempo, recomeçara a economizar dinheiro. 

Quando se apaixonara por Deborah, que na época era tutelada por J.B, mudara de 

idéia a respeito de uma porção de coisas. Finalmente entendera por que os caubóis da 
Fazenda 101  costumavam  reclamar  da  vida  errante  que  levavam.  Deborah  fizera  com 
que  Patrick  desejasse  estabilizar-se  o  mais  rápido  possível,  trocando  os  planos  de 
comprar uma fazenda pelo projeto de casar-se e formar família. 

Família...  Patrick  fitou  as  águas  calmas  do  riacho  e  recordou-se  dos  pais  e  da 

irmã,  que  haviam  morrido  no  incêndio  da  fazenda  onde  trabalhavam.  Lembrou-se 
também do dia em que eles haviam sido enterrados. O sol brilhante de primavera sobre 
os campos verdejantes da Virgínia não tivera forças para dissipar a névoa de tristeza que 
lhe  envolvia  o  coração.  Naquela  hora,  decidira  que  iria  para  longe  dali.  Até  hoje,  no 
primeiro dia de primavera, Patrick não conseguia evitar uma certa nostalgia incômoda. 
Talvez por causa disso ele gostasse mais da paisagem sombria do inverno. 

De  repente,  o  som  de  patas  de  cavalo  batendo  contra  o  chão  intrometeu-se  nos 

pensamentos de Patrick. Cherokee parou de pastar e levantou a cabeça. Patrick pôs-se 
de pé e olhou ao redor, para ver de que lado surgiria o cavaleiro. 

Ficou intrigado quando viu um dos puros-sangues de J.B. aparecer, rumando na 

direção do riacho a toda velocidade. Uma mulher montava o animal; ela usava calças de 
homem e... 

— Òôa! Oôôaa! — gritou a mulher. — Maldição, eu já mandei você parar! 

— Essa não — resmungou Patrick, reconhecendo a amazona. 

Mas que diabo Deborah estava fazendo? Ela pulava sobre a sela como se nunca 

tivesse  cavalgado  em  toda  sua  vida.  E  por  que  estava  gritando  feito  uma  doida?  Ela 
sabia  muito  bem  que  não  devia  gritar  com  um  cavalo,  especialmente  com  uma  égua 
puro-sangue tão sensível quanto Sophie. 

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Assustado, Patrick notou que Deborah e a égua iam chocar-se contra uma árvore. 

Mais  que depressa, montou em  Cherokee.  Percebeu, surpreso,  que  Deborah  de algum 
modo conseguira fazer a égua mudar de direção. Sophie corria agora rumo ao leste. 

Balançando  a  cabeça,  incrédulo,  Patrick  partiu  atrás  de  Deborah.  Cherokee  era 

um garanhão veloz, e em poucos minutos alcançou Sophie. Deborah continuava a gritar 
e a chacoalhar sobre a sela como uma boneca de pano. 

Patrick fez o seu cavalo emparelhar com a égua, chamando: 

— Deborah! Deborah, pelo amor de Deus, o que deu em você para... 

Assustada,  ela  virou-se  para  olhar  para  Patrick  e  deixou  que  as  rédeas  lhe 

escapassem da mão. 

— Com mil demônios, você ficou louca, Deborah? 

Patrick mal podia acreditar no que acabara de ver. A mulher que lhe ensinara a 

diferenciar cavalos bons para pastorear gado de cavalos de corrida, que lhe ensinara a 
arte de cavalgar um puro-sangue, havia soltado as rédeas de um animal desembestado! 
Ele estendeu um braço para agarrá-la antes que ela caísse, mas já era tarde demais. Os 
pés dela escaparam dos tribos e ela deslizou para trás sobre o lombo de Sophie, caindo 
de costas no chão. 

Patrick  puxou  as  rédeas  para  que  Cherokee  parasse,  enquanto  Sophie  se 

distanciava num  galope desenfreado.  Ele desmontou  e  aproximou-se  de  Deborah, que 
estava deitada de costas no chão, mais uma vez usando calças de homem. Por Deus, o 
comportamento  de  Deborah  nos  últimos  dias  estava  sendo  realmente  muito  estranho, 
refletiu  Patrick.  Ele  se  ajoelhou  ao  lado  dela  e  viu  que  lágrimas  escorriam-lhe  pelo 
rosto. 

—  Você  se  machucou?  —  perguntou,  preocupado.  —  Responda,  Deborah,  está 

sentindo alguma dor? 

Ela balançou a cabeça, mantendo os olhos fechados, e permaneceu calada, o rosto 

banhado de lágrimas. 

—  Deborah,  por  favor,  fale  comigo!  Consegue  mexer  as  pernas?  Os  braços? 

Vamos lá, tente se mover, se puder! 

Ela continuou muda, mas mexeu de leve as pernas, os braços, a cabeça. 

—  Graças  a  Deus!  —  exclamou  Patrick,  aliviado.  —  Você  me  deu  um  susto 

danado, sabia? 

Ele pensou na cena que acabara de testemunhar e tornou a balançar a cabeça, num 

gesto  de  incredulidade.  Sabia  que  Deborah  gostava  de  cometer  loucuras  para 
impressionar  J.B.  e  os  cidadãos  de  Munro,  mas  nunca  a  vira  fazer  nada  tão  estúpido, 
antes. Se não houvesse reconhecido Deborah, teria sido capaz de jurar que outra mulher 
estivera cavalgando Sophie. 

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Álcool. Esta era a única explicação. 

Patrick aproximou seu rosto do dela, tentando sentir-lhe o hálito. 

Anne abriu os olhos e parou de chorar de repente. 

—  O  que  pensa  que está  fazendo?  —  indagou  com  voz  trêmula,  empurrando-o 

para longe de si. 

— Eu só queria verificar se você andou bebendo. 

Ela de pôs de pé, levou as mãos às costas e fez uma careta de dor, protestando: 

—  Eu  não  bebi  nada!  A  culpa  foi  daquela  maldita  égua,  que  se  recusou  a  me 

obedecer! 

— Mas é óbvio que Sophie não ia obedecê-la, com você gritando daquele jeito. 

—  Por  quê?  Sophie  é  surda,  por  acaso?  —  perguntou  Anne,  enxugando  as 

lágrimas com a manga da camisa. 

— Céus, você andou bebendo mesmo, não foi? É claro que Sophie não é surda! 

Por que me fez uma pergunta tola dessas, quando sabe muito bem que o melhor jeito de 
incentivar um cavalo a correr é gritar com ele? 

— Oh... Oh, sim, eu sei. Apenas me esqueci disso, mais nada. 

Por que Patrick tinha a impressão de que ela estava mentindo? Seria por causa do 

espetáculo  que  acabara  de  ver?  Por  ter  testemunhado  um  erro  que  uma  amazona 
experiente  como  Deborah  jamais  cometeria?  Ou  seria  por  causado  modo  como  ela 
desviara  o  olhar,  como  se  sentisse  vergonha?  Deborah  estava  agindo  do  mesmo  jeito 
estranho  como  agira  de  manhã,  dentro  da  lareira.  Parecia  que  ela  estava  escondendo 
alguma coisa... Segurando-a pelos braços, Patrick forçou-a a encará-lo e argumentou: 

— Ninguém que conhece cavalos tão bem quanto você esquece uma coisa dessas. 

Vamos lá, Deborah, pode começar a explicar por que armou essa cena ridícula. Aliás, 
você tem outras explicações a dar, também. Ontem à noite, por exemplo... 

—  Escute,  eu  apenas  caí  do  cavalo  —  interrompeu-o  Anne.  —  Isso  pode 

acontecer com qualquer um, não pode? 

—  Não  me  venha  com  conversa  fiada,  você  é  uma  amazona  experiente!  —  Só 

então  Patrick  notou  que  um  fio  de  sangue  escorria  da  testa  dela.  —  Ei,  você  está 
sangrando de novo.  

Anne  tocou  o  ferimento  e  viu  que  as  pontas  dos  seus  dedos  ficaram  sujas  de 

sangue. 

— Ah, já entendi — disse Patrick. — Você não estava em condições de cavalgar 

por causa da batida que deu com a cabeça, mas mesmo assim insistiu em sair para dar 
um passeio com Sophie, certo?  

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— Bem... Sim, foi isso. Mas você me conhece, quando quero fazer algo, nada me 

impede de fazê-lo. 

—  Venha  comigo  —  ordenou  Patrick,  puxando-a  pela  mão  na  direção  de 

Cherokee. 

— Você vai me levar de volta para casa? 

— Não. 

Patrick  a  colocou  sobre  a  sela, sentou-se  atrás  dela  e  a  conduziu  até  as  árvores 

perto do riacho. 

A proximidade do corpo másculo fez com que Anne se esquecesse das dores que 

sentia pelo corpo. Por mais que se esforçasse para conservar as costas eretas, não podia 
evitar que elas roçassem contra o peito largo, musculoso. Por um momento desejou ser 
mesmo  Deborah,  e  não  apenas  uma  sósia  vinda  do  futuro.  Os  braços  fortes  que 
encostavam nos seus conforme Patrick manobrava as rédeas do cavalo a fizeram pensar 
nos abraços apaixonados que os dois já deviam ter trocado. E quando ela oscilou na sela 
e  Patrick  a  segurou  pela  cintura  para  evitar  que  caísse  outra  vez...  Nesse  instante 
Deborah  saiu  de  cena  por  completo.  Agora  era  a  própria  Anne  que  voltava  a 
experimentar a excitação que sempre a assaltava quando se via junto de Patrick. Uma 
excitação mesclada a um delicioso sentimento de segurança e bem-estar. 

Patrick parou o cavalo perto do riacho. Anne pulou da sela e tratou de afastar-se 

logo do homem que tanto a perturbava. Com as pernas moles feito gelatina, caminhou 
até o riacho e abaixou-se para lavar o ferimento em sua testa com um pouco de água 
fria. 

— Tome, use isto — Patrick aproximou-se e lhe ofereceu um lenço. 

— Obrigada. 

Anne  molhou  o  lenço  e  pressionou-o  contra  o  ferimento,  ao  mesmo  tempo  em 

que  se  perguntava  se  Patrick  não  tinha  a  capacidade  de  sorrir.  Só  o  encontrara  duas 
vezes desde que chegara à década de 20, e nas duas vezes ele se mostrara sério, tenso. 
Isso a constrangia, intimidava... 

Mas  não  era  conveniente  que  ela  se  sentisse  constrangida  ou  intimidada.  Na 

verdade, nada era conveniente na situação em que se encontrava. Ela estava morta de 
vontade de voltar para casa e reencontrar o pai, a mãe. Sentia-se culpada por ter saído 
para  dar  um  passeio,  mesmo  que  por  insistência  de  seus  pais.  Agora  ali  estava  ela, 
setenta anos no passado. Tinha de arranjar um jeito de sair dali! 

Quaisquer que fossem os seus sentimentos em relação a Patrick, talvez valesse a 

pena insistir para que ele a ajudasse a entrar nos túneis. Patrick não parecera disposto a 
ajudá-la  de  manhã,  e  Anne  fugira  amedrontada  pelo  fato  de  ter  descoberto  que  ele  e 
Deborah tinham sido amantes. Agora, porém, não havia outra saída a não ser fazer uma 
nova tentativa. 

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Ela tornou a molhar o lenço no riacho. Em seguida, enquanto o torcia, obrigou-se 

a encarar Patrick e disse: 

—  Preciso  da  sua  ajuda.  E  se  você  se  preocupa  comigo,  nem  que  seja  só  um 

pouquinho, por favor me escute. 

— Está bem. De que se trata? 

—  Tenho  de  encontrar  um  jeito  de  entrar  nos  túneis.  Com  certeza  alguma  das 

outras entradas deve estar destrancada. — Ao ver que ele franzia a testa, Anne pediu: — 
Por favor, deixe-me acabar de falar. O medalhão que você me deu estava comigo ontem 
à noite. É verdade, pode acreditar! 

—  Não  quero  discutir  esse  assunto,  Deborah.  Se  você  não  queria  o  medalhão, 

tudo bem. Mas o mínimo que você devia ter feito era devolvê-lo para mim. 

—  Eu...  sinto  muito  —  murmurou  Anne,  praguejando  contra  Deborah  em 

pensamentos. 

Era óbvio que o medalhão tinha um grande valor sentimental para Patrick. Sendo 

assim, talvez existisse uma chance de convencê-lo a ajudá-la a recuperar a jóia. Mas ele 
parecera tão magoado ao mencionar o medalhão... Anne sentiu uma pontada de culpa, e 
quase decidiu desistir de pedir auxílio a Patrick. Por outro lado, se ele não cooperasse, 
talvez ela nunca mais conseguisse retornar para os anos 90. 

— Patrick, por favor, eu quero recuperar o medalhão. A jóia está em algum lugar 

dentro dos túneis, mas J.B. trancou a única porta de acesso que eu conheço. Se você me 
ajudar a recobrar o medalhão, juro que nunca mais lhe pedirei nenhum outro favor, juro 
que... 

— Cale-se! — ordenou Patrick, ríspido, segurando-a pelos ombros. — Você sabe 

muito bem onde ficam as outras entradas para os túneis, portanto não precisa da minha 
ajuda. E que história é essa de estar tão ansiosa para recuperar o medalhão? Aquela jóia 
não significava nada para você! Você mesma fez questão de me dizer isso tempos atrás! 

—  Eu...  eu  devo  ter  mentido  para  você.  Acredite,  o  medalhão  ainda  estava 

comigo até a noite passada. 

Patrick  a  soltou  e  deu-lhe  as  costas.  Anne  segurou-lhe  o  braço  e  o  fez  ficar  de 

frente outra vez. 

Ele fitou a mão delicada que o segurava, dizendo: 

— Não sei o que você está querendo aprontar dessa vez, Deborah, mas trate de 

me deixar fora dos seus planos. Não irei ajudá-la de maneira alguma, entendeu? E o que 
significa  essa  história  de  "eu  devo  ter  mentido  para  você"?  Você  não  tem  certeza  se 
mentiu ou não? 

—  Eu  não  tenho  plano  algum,  juro.  Sei  que  isso  vai  parecer  estranho,  mas... 

Esqueci  uma  porção  de  coisas  sobre  mim  mesma.  Desde  que  bati  a  cabeça,  a  minha 
memória não está funcionando direito. 

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Ela  tocou  o  corte  em  sua  testa  e  encarou  Patrick,  tentando  convencê-lo  de  que 

falava a verdade. 

— Está me dizendo que bateu a cabeça e ficou amnésica? — Ele riu, sarcástico. 

— Essa é boa! Só mesmo você para inventar uma mentira tão absurda. 

— Eu não estou mentindo! — reagiu Anne. 

Ela sabia que estava mentindo, claro; mas se Patrick já estava achando absurda a 

história da amnésia, o que não diria se soubesse a verdade? 

—  Uma  pancada  na  cabeça  pode  causar  problemas  de  memória.  Esse  tipo  de 

coisa não é tão raro quanto as pessoas pensam — insistiu Anne. 

—  Por  acaso  uma  pancada  na  cabeça  também  pode  fazer  com  que  alguém  se 

transforme numa pessoa que tem um coração, uma consciência? Ora, faça-me o favor, 
Deborah! Você sabia muito bem que o medalhão era importante para mim, que ele era a 
única lembrança que eu tinha da minha mãe, e mesmo assim você rejeitou com frieza o 
presente.  Se  o  medalhão  significava  tão  pouco  para  você,  por  que  faz  questão  de 
recuperá-lo, agora? 

— Eu gostaria de poder lhe dar uma explicação, mas não posso. Só o que eu sei é 

que preciso ter o medalhão de volta. A minha vida depende dele, Patrick. Não posso lhe 
dizer por que, mas que importância tem isso? Você não quer simplesmente me ajudar, 
sem fazer tantas perguntas? 

Patrick  encarou-a  com  desconfiança,  aumentando  o  nervosismo  de  Anne.  Ela 

odiava  ter  de  agir  assim,  usando  de  subterfúgios.  Especialmente  em  se  tratando  de 
Patrick. E isso era outra coisa que ela não conseguia explicar: a sensação de que devia 
lealdade a ele. 

O  medalhão  pertencera  à  mãe  de  Patrick.  Ele  dera  a  jóia  a  Deborah,  que  a 

rejeitara.  Anne  também  ficou  com  raiva  ao  saber  disso.  Céus,  que  loucura!  Nem  ao 
menos conhecia Patrick direito, e no entanto sentia-se derreter por dentro quando olhava 
para ele, sentia vontade de chorar quando o via demonstrar mágoa. O problema é que 
não podia dar importância aos seus sentimentos. 

A única coisa que importava era recuperar o medalhão o mais rápido possível e 

voltar para o futuro. 

— Não vou ajudá-la, Deborah — declarou Patrick, por fim. — Sei que você está 

planejando algo, e não quero fazer parte do seu joguinho sujo. 

— Mas... Pensei que significássemos algo um para o outro. Afinal, se você me 

deu o medalhão que era da sua mãe... Quero dizer, imaginei que nós... 

— Você imaginou o quê? Com mil diabos, o que podemos significar um para o 

outro  a  essa  altura  das  nossas  vidas?  Talvez  você  esteja  sendo  sincera,  talvez  tenha 
mesmo  perdido  parte  da  memória.  Caso  contrário,  iria  lembrar-se  de  que  o  que 
aconteceu entre nós já acabou. 

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— Então... Nós dois... — balbuciou Anne, confusa. 

— "Nós dois" o quê? 

— Não somos mais... amantes? 

Patrick deu uma risada cínica antes de responder: 

— Não, não somos mais amantes. Na verdade, amor nunca teve nada a ver com o 

relacionamento que tivemos no passado. Não foram essas as suas palavras? Não foi isso 
que você me disse no dia em que anunciou ao mundo inteiro que havia ficado noiva de 
J.B? 

Anne percebeu um tom de mágoa na voz de Patrick e adivinhou que ele estivera 

sinceramente apaixonado por Deborah, por mais que tentasse negá-lo. E era óbvio que 
Deborah  não  correspondera  a  tal  paixão.  Anne  pensou  em  Deborah  e  concluiu  que  a 
mulher  deveria  ter  sido  mais  desmiolada  do  que  ela  imaginara  a  princípio.  Afinal,  só 
uma doida trocaria Patrick por J.B. 

— Sei que não vai acreditar em mim, mas sinto muito por ter magoado você — 

murmurou Anne. A idéia de embrulhar a verdade numa teia de mentiras não a agradava, 
mas  essa  era  a  única  maneira  de  demonstrar  o  que  sentia  sem  ter  de  revelar  a  sua 
verdadeira  identidade.  —  Talvez  uma  pancada  na  cabeça  seja  mesmo  capaz  de  fazer 
com que uma pessoa sem coração se dê conta dos erros que cometeu, pois eu realmente 
sinto muito pelo sofrimento que lhe causei — finalizou, pesarosa. 

—  Suponho que  agora  que  você  viu a  luz  e  se  arrependeu  do  que fez,  eu  deva 

ajudá-la a recuperar o medalhão, certo? Deixe-me tentar adivinhar por que... Você vai 
vender a jóia e doar o dinheiro para o orfanato que J.B. auxilia no Estado de Missouri. 
Ou  talvez  você  prefira  doar  o  dinheiro  para  algum  convento  católico  e...  Ah,  já  sei! 
Você levou uma pancada tão forte na cabeça que agora está pensando em entrar para o 
convento. Não se preocupe, você vai ficar ótima num hábito longo com véu preto, irmã 
Deborah. 

Anne reconheceu que seria tolice irritar-se com o sarcasmo de Patrick. Afinal, ele 

estava ofendendo Deborah, e ela não era Deborah. Mesmo assim, não conseguiu conter 
uma onda de indignação. 

— Tudo bem, se prefere não acreditar em mim o problema é seu. Mas não fique 

se  achando  melhor  do  que  eu,  "Sr.  Certinho"!  Se  você  fosse  tão  caridoso  e  superior 
quanto quer parecer, já teria esquecido e perdoado o que houve entre nós, não é mesmo? 

Fez-se um momento de silêncio. De repente, Patrick sorriu, e o coração de Anne 

parou de bater por um segundo. Ela nunca o vira sorrir antes, e tudo o que conseguia 
pensar agora era: finalmente posso retornar satisfeita para o futuro, pois já vi como é o 
sorriso de Patrick. E que sorriso! Os lábios curvos deixavam à mostra os dentes brancos, 
perfeitos;  as  linhas  finas  nos  cantos  dos  olhos  aprofundavam-se,  e  duas  covinhas 
surgiam  nas  faces  morenas.  A  única  coisa  que  não  a  agradou  foi  que  o  sorriso  era 
zombeteiro, e não carinhoso ou alegre. 

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— A pancada na cabeça por ter afetado a sua memória, mas não a deixou menos 

inteligente  —  disse  Patrick,  rompendo  o  silêncio.  —  Estou  impressionado,  Deborah. 
Quaisquer que sejam os seus motivos para querer recuperar o medalhão, devo admitir 
que você continua esperta como sempre. Mas a sua esperteza não é suficiente para me 
convencer  a  ajudá-la.  J.B.  não  quer  que  você  torne  a  entrar  nos  túneis,  certo?  Eu 
gostaria muito de ser "caridoso" e "superior", como você sugeriu, mas J.B. é meu amigo 
e meu sócio, por isso não irei contra a vontade dele. 

Anne foi assaltada por uma fúria repentina. Por que será que Patrick continuava 

amigo  de  J.B?  Por  Deus,  J.B.  casara-se  com  Deborah  enquanto  Patrick  ainda  estava 
apaixonado  por  ela!  Patrick  precisava  escolher  melhor  os  seus  amigos,  sem  dúvida 
alguma. 

— J.B, J.B! Estou cansada de ouvir esse nome! — explodiu Anne. — Você não é 

nem  amigo  e  nem  sócio  dele,  Patrick.  Você  não  passa  de...  de  um  lacaio  dele!  Isso 
mesmo,  um  lacaio!  Se  tudo  aconteceu  como  você  diz  que  aconteceu,  então  J.B.  se 
apoderou  de  alguém  que  você  amava!  Como  conseguiu  continuar  sendo  amigo  dele 
depois disso? Como foi capaz de esquecer o que J.B. lhe fez, de continuar trabalhando 
com ele e... 

Patrick agarrou-a pelos ombros num gesto tão rápido que Anne até esqueceu de 

terminar  a  frase.  Aproximando  o  seu  rosto  do  dela,  ele  retrucou  por  entre  os  dentes 
cerrados: 

— Não sou lacaio de ninguém, entendeu? 

—  Verdade?  Nesse  caso,  então você pode  atender o  meu  pedido  e  me  ajudar  a 

entrar nos túneis. Por favor, Patrick, você precisa me ajudar! Ela... Quero dizer... Eu já 
signifiquei  algo  de  importante  para  você,  um  dia.  Desse  modo,  em  nome  do 
relacionamento  que  tivemos  no  passado,  e  levando  em  consideração  o  fato  de  eu  ter 
mudado... 

— Você nunca irá mudar Deborah, nunca. Quer uma prova? 

Anne bem que gostaria de ter uma prova sua para esfregar no rosto de Patrick e 

fazer  desaparecer  aquela  expressão  arrogante.  Mas  não  tinha  prova nenhuma,  claro,  a 
menos que estivesse disposta a revelar que o corpo de Deborah se encontrava num dos 
túneis.  E  tal  revelação  serviria  apenas  para  mandá-la  para  o  hospício;  os  médicos  a 
trancariam  numa  sala  com  paredes  acolchoadas  e  jogariam  a  chave  fora.  Frustrada  e 
zangada até o limite, Anne tentou soltar-se enquanto esbravejava: 

—  Não  quero  prova  nenhuma!  Não  quero  nada  de  você!  E  trate  de  me  largar, 

seu... seu... 

— "Seu" o que, Deborah? — perguntou Patrick, puxando-a para junto de si. — 

Estou interessado em saber que termo você irá usar para me ofender, agora. 

Ela não conseguiu pensar em termo nenhum. Ou  melhor, não conseguiu pensar 

em  nada,  pois  os  seus  seios  estavam  esmagados  contra  o  peito  largo  e  forte, 

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provocando-lhe arrepios de excitação. O brilho feroz nos olhos de Patrick contrastava 
com a maneira gentil com que ele começou a lhe acariciar o rosto. 

Paralisada, Anne sentiu o seu corpo perder a capacidade de reagir. Mas isso não 

era  bem  verdade,  era?  Seu  coração  reagiu  de  imediato,  passando  a  bater  mais  forte  e 
bombeando sangue para o seu rosto. Tomando fôlego, ela balbuciou:  

— Você... Você não vai... Isto é, você não se atreveria a... 

— A beijá-la? Ora, mas é claro que sim. 

Antes que Anne tivesse tempo de livrar-se da paralisia que a dominava, os lábios 

de Patrick uniram-se aos seus. 

Oh, não! Mil vezes não! Patrick a estava beijando. Ela havia fantasiado um beijo 

entre os dois desde que o vira pela primeira vez, e mesmo que quisesse não seria capaz 
de  afastá-lo.  Sabia  que  era  errado  ceder  só  para  satisfazer  a  própria  curiosidade,  mas 
mesmo  assim  correspondeu  ao  beijo.  Ordenou  ao  seu  bom-senso  que  fosse  dar  uma 
voltinha e a deixasse em paz para aproveitar o momento. 

E que momento! 

Os lábios de Patrick eram ao mesmo tempo gentis e exigentes, possessivos. Com 

delicada  e  sensual  insistência  ele  fez  com  que  os  lábios  de  Anne  se  separassem, 
invadindo-lhe a boca com a língua quente e macia. 

O beijo não foi nem um pouco tímido, como costumam ser os primeiros beijos de 

um  casal.  Ao  contrário,  foi  um  beijo  sensual,  profundo,  como  se  Patrick  quisesse 
ensinar uma lição a Anne. Ou melhor, a Deborah... 

Tal  pensamento  deveria  ter  feito  com  que  Anne  se  afastasse  de  Patrick,  mas  o 

desejo  que  a  dominava  foi  mais  forte  que  a  razão.  Ela  passou  os  braços  ao  redor  do 
pescoço de Patrick e acariciou-lhe a nuca, enquanto correspondia com ardor ao beijo. 

Patrick  pareceu  surpreender-se  com  a  reação  da  mulher  que  tinha  nos  braços. 

Ficou imóvel por um instante, e em seguida afastou-se um pouco para fitá-la de frente. 

— Patrick... — sussurrou Anne, com voz trêmula. 

Ela ficou na ponta dos pés e beijou-lhe o queixo. 

Gemendo alto, ele tornou a puxá-la para junto de si. 

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Patrick  beijou-a  no  pescoço  e  depois  beijou-a  nos  lábios  outra  vez.  Suas  mãos 

deslizaram da curva da cintura fina até os ombros roliços, e em seguida insinuaram-se 
pelo decote da camisa. Ao mesmo tempo, sua língua voltava a explorar a boca macia 
que um dia já fora sua. 

Sua. Deborah deveria ter continuado sendo sua pelo resto da vida. Voltar a beijá-

la depois de tantos anos trouxera-lhe lembranças dos planos que havia feito para os dois. 
Uma família. Ele queria ser parte de uma família outra vez. Deborah acariciou-lhe os 
cabelos enquanto ele mudava de posição para aprofundar ainda mais o beijo, Os quadris 
femininos  moldaram-se  aos  dele;  Patrick  perdeu  a  noção  do  presente  e  retornou  ao 
passado, lembrando-se dos bons momentos que passara em companhia de Deborah: as 
conversas  que  haviam  tido,  o  riso  compartilhado,  os  carinhos  trocados,  as  horas  que 
haviam gasto fazendo amor. 

Horas  em  que  experimentara  a  mesma  deliciosa  sensação  que  experimentava 

agora. 

Mas não, estava enganado. O que acontecia agora era mil vezes melhor do que 

tudo  o que  já  acontecera  antes.  A  mulher  em  seus braços  parecia diferente, de  algum 
modo que ele não era capaz de definir. Patrick sabia apenas que os beijos de Deborah 
tinham  sido  menos  apaixonados  e  urgentes  no  passado.  Ele  a  amara  de  verdade  mas, 
levando  em  consideração  o  que  Deborah  lhe  dissera  antes  de  casar-se  com  J.B, 
concluíra  que  ela  apenas  sentira  uma  forte  atração  sexual  por  ele.  Agora,  porém, 
Deborah  estava  agindo  do  modo  com  que  Patrick  sempre  sonhara,  entregando-se 
totalmente, sem reservas. 

Ela deslizou as mãos para debaixo da camisa de Patrick, acariciando-lhe o peito, e 

ele voltou a gemer. Louco de excitação, Patrick começou a desabotoar a camisa de seda 
que  cobria  os  seios  fartos  e  firmes  de  Deborah.  Desejava  tocá-la,  sentir  a  maciez  e  o 
calor  daquela  pele  contra  a  sua  própria  pele.  Desejava  experimentar  mais  uma  vez  a 
sensação  paradisíaca  de  ter  aqueles  seios  roçando  contra  o  seu  peito  nu,  a  sensação 
maravilhosa  de  beijá-los  e  mordê-los  bem  de  leve  para  depois  sugar  os  mamilos 
rosados. 

Sim, Patrick se lembrava. Deborah fora sua antes de tomar-se esposa de J.B! Tal 

pensamento  teve  o  poder  de  trazê-lo  de  volta  à  realidade.  Arrasado  por  um  intenso 
sentimento  de  culpa,  ele  interrompeu  o  beijo  e  as  carícias.  Por  Deus,  o  que  estava 
fazendo? Deborah não mais lhe pertencia! Agora ela era a mulher de J.B! 

Patrick empurrou-a para longe de si. 

Cobrindo os olhos com as mãos, ele balançou a cabeça. Pretendera ensinar uma 

lição  a  Deborah,  provar  que  ela  jamais  mudaria.  Como  pudera  permitir  que  situação 
escapasse do seu controle? Pior que isso, o que o levara a cometer um ato tão insano? 

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Baixando  as  mãos,  Patrick  abriu  os  olhos  e  encarou  Deborah.  Ela  estava 

abotoando a camisa de seda com dedos trêmulos. Lágrimas escorriam pelo rosto corado 
e deslizavam sobre os lábios inchados pelos beijos de poucos segundos atrás. 

— Maldição! — exclamou Patrick, tenso. 

Ele se virou de costas e arrumou a própria camisa, que escapara para fora do cós 

da calça, Pensando ter ouvido a voz de Deborah, olhou para trás. 

— O que disse? 

—  N-nada  —  respondeu  ela,  enxugando  as  lágrimas  com  as  costas  das  mãos 

antes de fitá-lo. 

Por  um  instante  Patrick  teve  a  impressão  de  que  os  olhos  verdes  de  Deborah 

pareciam um tom mais escuro que o normal. E a expressão com que ela o fitava tinha 
uma força e uma profundidade da qual Deborah não era capaz. Será que estava tendo 
uma alucinação? De repente, ela pigarreou e deu um passo à frente, 

—  Fique longe de  mim  —  ordenou  Patrick.  —  Por  favor,  fique  longe  de  mim, 

Deborah! 

Ela assentiu e recuou, afirmando: 

— Fique tranqüilo, nunca mais irei me aproximar de você. Mas quero lhe pedir 

um favor, também. Não me chame de Deborah. 

Patrick lembrou-se no mesmo segundo da estranha frase que ela dissera na noite 

anterior. Eu não sou Deborah. Franziu a testa, curioso, pensando no quanto ela parecia 
mudada. Agora há pouco Deborah agira como uma mulher completamente diferente do 
que sempre fora, uma mulher que ele nunca conhecera antes, que correspondera às suas 
carícias com um ardor inusitado. E os olhos dela... 

Ora,  que  tolice!  Ele  até  podia  estar  disposto  a  imaginar  que  a  mulher  que  se 

derretera  de  paixão  em  seus  braços  não  era  Deborah  Munro,  mas  existia  uma  grande 
distância entre "imaginar" e "acreditar". E por mais que deixasse a imaginação correr à 
solta,  nada  alterava o  fato  de  que  Deborah  era  a  esposa de J.B.  Munro.  Seria loucura 
esquecer-se disso, mesmo que por um breve momento. 

— Você tem razão — murmurou Patrick, por fim. — O seu nome não é Deborah, 

é Sra. J.B. Munro. E eu já aceitei esse fato há muito, muito tempo. 

Anne  estava  tão  zangada  quanto  Patrick,  ou  mais.  Assim  que  *montado  em 

Cherokee  para  procurar  Sophie,  ela  se  recriminou  por  ter  permitido  que  o  beijo 
acontecesse.  Irritada,  pegou  um  pedregulho  do  chão  e  atirou-o  com  força  no  riacho. 
Como pudera ser tão estúpida e tão irresponsável a ponto de não ter pensado no quanto 
o beijo abalaria Patrick MacKinnon? Desde quando tornara-se tão egoísta? 

A  expressão  de  vergonha  e  de  arrependimento  que  vira  no  rosto  de  Patrick 

quando ele a afastara voltou-lhe à mente. Droga! Era ela que devia estar envergonhada, 

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e não Patrick. Afinal, sabia muito bem que ele amara Deborah, antes de perdê-la para o 
melhor amigo. Além disso, havia a questão da sua própria identidade. 

Patrick não sabia que havia beijado e acariciado outra mulher. Ele acreditara estar 

beijando Deborah, acreditara que fora Deborah que correspondera às suas carícias. 

Droga, mil vezes droga! 

Anne  não  estava  absolvendo  Patrick  de  toda  responsabilidade  pelo  que 

acontecera,  claro.  Fora  ele  quem  havia  começado  tudo,  portanto  merecia  sentir  um 
pouco de culpa também. Por outro lado, Anne sabia que não deveria ter permitido que a 
situação chegasse ao ponto em que chegara. Tinha de ter interrompido o beijo antes que 
ele se tornasse tão... tão incrível! 

Teria sido fácil recuar se o beijo tivesse sido normal ou sem graça. Mas nunca, 

em  toda  a  sua  vida,  Anne  fora  beijada  com  tanta  paixão  e  sensualidade,  a  ponto  de 
sentir-se prestes a desmaiar de emoção. Mulher nenhuma no mundo teria tido força de 
vontade para resistir a um beijo tão avassalador. 

Ah, mas como ela gostaria de ter a chance de testar a sua força de vontade outra 

vez... 

Sentando-se  numa  pedra  e  enterrando  o  rosto  entre  as  mãos,  Anne  suspirou. 

Quero voltar para casa. Por favor, meu Deus, deixe-me voltar para casa. 

 

Alegar que sentia uma forte dor de cabeça não havia adiantado nada. J.B. fizera 

questão de que sua esposa participasse do jantar que ele estava oferecendo naquela noite 
aos  líderes  da  comunidade.  E  mais,  J.B.  insistira  para  que  ela  se  comportasse  direito, 
caso contrário... 

— Nunca vi ninguém tão preocupado com a própria auto-imagem quanto J.B. — 

resmungou  Anne  em  voz  inaudível,  enquanto  levava  à  boca  uma  garfada  de  bolo  de 
chocolate com cobertura de chantilly. 

Ela não sabia quem a mataria primeiro, o homem que assassinara Deborah ou os 

alimentos  cheios  de  calorias  e  colesterol  que  consumira  esta  noite.  Como  não  havia 
comido nada desde que chegara, a princípio Anne não pensara em mais nada além de 
saciar a fome. Mas agora, depois de uma refeição à base de carne vermelha e molhos 
gordurosos, sem mencionar os doces servidos à sobremesa, ela estava descobrindo mais 
uma razão para voltar o quanto antes para os anos 90: preservar a sua saúde. 

Nesse momento, a mulher sentada ao lado de Anne à mesa abriu a bolsa que tinha 

no colo e pegou uma piteira de jade. Em seguida, a mulher enfiou um cigarro — sem 
filtro,  claro  —  na  ponta  da  piteira  e  acendeu-o,  lançando  uma  pequena  nuvem  de 
fumaça azulada na direção do rosto de Anne. 

—  Quer  fumar  também,  querida?  —  perguntou  a  mulher,  oferecendo-lhe  um 

cigarro. 

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Anne pestanejou, reprimindo a vontade de soprar para longe a nuvenzinha tóxica. 

Será que Deborah fumava? Era provável que sim, pois todo mundo por ali fumava. Mas 
havia  um  limite  para  o  que  Anne  estava  disposta  a  fazer  enquanto  era  obrigada  a 
assumir a identidade de sua sósia. 

—  Não,  obrigada  —  respondeu  ela,  com  delicadeza.  —  Talvez  eu  fume  mais 

tarde. 

A  mulher  sorriu  e  soltou  mais  algumas  baforadas  de  fumaça  antes  de  tornar  a 

abrir  a  bolsa  e  pegar  um  frasco  de  bebida.  Olhando  para  as  outras  convidadas,  Anne 
notou que várias delas também haviam tirado frascos de bebida da bolsa. Que doidice! 
Anne  teve  a sensação de estar  assistindo a  um  filme  antigo,  ou de ter  sido  convidada 
para participar de uma peça de época onde todo mundo conhecia o script, menos ela. 

Para  as  outras  pessoas  devia  ser  fácil  agir  com  naturalidade,  refletiu  Anne, 

pesarosa. Afinal, ninguém mais precisava fingir que era Deborah Munro. Mas por que 
logo  ela  fora  escolhida  para  desempenhar  o  papel  de  uma  mulher  fútil  e  desajuizada, 
detestada  pelo  marido,  desprezada  pelo  ex-amante,  e  que  ainda  por  cima  fora 
estrangulada por um homem barbado? 

Anne estremeceu. Ainda não havia parado para pensar com calma no assassinato 

porque estivera ocupada demais tentando encontrar um jeito de entrar nos túneis, Mas 
agora  que  já  não  tinha  tanta  certeza  de  conseguir  retornar  logo  para  o  futuro,  a 
possibilidade de o assassino de Deborah vir atrás dela começava a preocupá-la. E se o 
tal  homem  fosse  algum  aliado  de  J.B.  nos  negócios?  E  se  o  sujeito  houvesse 
comparecido  ao  jantar  desta  noite?  Na  certa  ele  teria  ficado  chocado  ao  entrar  na 
mansão e ver Deborah circulando por entre os convidados, sem nenhuma marca roxa no 
pescoço. 

Por  sorte,  isso  não  acontecera.  Não  havia  nenhum  homem  barbado  entre  os 

convidados de J.B. Mas até quando essa sorte iria durar? 

Olhando para J.B, sentado na outra pontada da mesa, Anne levou uma das mãos à 

testa e fez uma rápida careta de dor enquanto movia os lábios para formar em silêncio a 
frase  "Estou  com  dor  de  cabeça,  posso  me  retirar?"  J.B.  balançou  de  leve  a  cabeça  e 
lançou-lhe um olhar cujo significado era óbvio: "não". 

Anne pousou as mãos sobre o colo e suspirou. Olhou ao redor até avistar a figura 

de Patrick MacKinnon. 

Patrick...  Ela  já  o  achara  bonito  usando  roupas  apropriadas  para  cavalgar.  Mas 

agora,  usando  um  elegante  traje  social,  ele  estava  simplesmente  devastador!  O  terno 
risca-de-giz de corte impecável realçava-lhe os ombros largos. O colarinho engomado 
da camisa branquíssima contrastava com o bronzeado do rosto e com os cabelos pretos. 
A gravata de seda combinava com o lenço no bolso do paletó, um detalhe sem dúvida 
destinado a atrair a atenção feminina. E o truque funcionava, concluiu Anne, notando 
com uma pontinha de ciúme que muitas das mulheres à mesa não tiravam os olhos de 
Patrick. A moça sentada ao lado dele, por exemplo, não cessava de dirigir-lhe sorrisos 

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sedutores. Uma outra mulher o fitava como se estivesse prestes a pular a mesa para ir 
aninhar-se no colo dele. 

Ao  estender  uma  das  mãos  para  pegar  a  taça  de  vinho  à  sua  frente,  Patrick 

percebeu  que  Anne  o  encarava  e  franziu  a  testa.  Ela  enrubesceu  e  virou  o  rosto, 
depressa. Lembrava-se com clareza do que Patrick lhe dissera à tarde. Fique longe de 
mim. 

Suspirando novamente, Anne disse a si mesma que trataria de obedecer a ordem, 

Podia ter bancado a tola ao brincar com fogo horas antes, mas aprendera a lição. Patrick 
MacKinnon era uma fogueira sexual, e o melhor que tinha a fazer era se manter afastada 
dele. 

O som de vozes no hall vizinho à sala de jantar chamou a atenção de Anne. Ela 

olhou para trás e viu o mordomo conversando com uma mulher. Vestida de modo muito 
simples, se comparada à elegância e ao luxo das convidadas, a  mulher dizia com  voz 
chorosa  que  precisava  falar  com  J.B.  Quando  o  mordomo  explicou  que  o  pedido  era 
impossível de ser atendido no momento, a voz da mulher tomou-se mais insistente, mais 
alta.  E  então,  ao  perceber  que  Anne  a  observava,  a  mulher  calou-se  e  lançou-lhe  um 
olhar carregado de ódio. 

Era só o que faltava!, pensou Anne, aflita. O que será que aconteceu dessa vez? 

Quanto  mais  o  mordomo  tentava  acalmar  a  mulher,  mais  ela  se  mostrava 

determinada.  Finalmente  o  mordomo  se  afastou  da  mulher  e  entrou  na  sala  de  jantar 
para  cochichar  algo  ao  ouvido  de  J.B.  Segundos  depois,  pedindo  licença  aos 
convidados, J.B. seguiu o mordomo até o hall. 

Alguma  coisa  de  grave  devia  ter  acontecido,  refletiu  Anne.  Era  óbvio  que  J.B. 

pretendia  se  livrar  da  mulher,  mas  depois  que  os  dois  trocaram  algumas  palavras  ele 
olhou furioso na direção de Anne. 

Anne encolheu-se na cadeira ao ouvir trechos das frases ditas pela mulher. 

Meu marido... Sua esposa... 

As pessoas presentes na sala de jantar haviam parado de conversar e prestavam 

atenção na conversa de J.B. com a mulher. Harrison Wyndham, o banqueiro de Boston, 
parecia ligeiramente mais interessado que os outros no que acontecia. Anne rezou para o 
desejo de J.B. de não provocar escândalos na frente dos convidados o impedisse de ter 
uma explosão de raiva. Mas suas preces não foram atendidas. 

J.B. voltou para a sala de jantar e aproximou-se dela, sem fazer o menor esforço 

para esconder a irritação que o dominava. 

—  Venha  comigo,  Deborah.  Precisamos  ter  uma  conversa  com  uma  visitante 

inesperada  —  disse  ele,  antes  de  dirigir-se  aos  convidados:  —  Se  vocês  nos  derem 
licença por alguns minutos... 

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Ao terminar de falar, J.B. segurou Anne pelo braço e praticamente a arrastou até 

o seu escritório. A "visitante inesperada" já fora conduzida até lá pelo mordomo. 

Depois  de  fechar  a  porta  do  escritório,  J.B.  convidou  a  mulher  a  sentar-se  e 

entregou-lhe um lenço para enxugar as lágrimas. A dor de cabeça que Anne fingira estar 
sentindo há pouco transformou-se numa dor real. 

—  Explique-se,  Deborah  —  ordenou  J.B,  enquanto  se  sentava  à  sua  mesa  de 

trabalho e tirava um molho de chaves do bolso para destrancar uma gaveta. — Vamos 
lá, a Sra. Tompkins e eu merecemos uma explicação — disse ele, enquanto tirava um 
caderninho com capa de couro de dentro da gaveta. 

— Eu... Eu não conheço esta senhora — declarou Anne, cabisbaixa. 

A  visitante  parou  de  chorar  e  encarou  Anne  com  um  olhar  que  mesclava 

hostilidade e esperança. Ela usava um chapéu marrom meio amassado que nem de longe 
combinava com o casaco preto de tecido puído, e calçava sapatos velhos de salto baixo. 

Uma inexplicável onda de culpa assaltou Anne, que usava um caríssimo vestido 

francês, dois longos colares de pérolas e elegantes sapatos de salto alto. Mas nada disso 
é  meu,  é  tudo  de  Deborah, pensou  ela  num  gesto  de  autodefesa.  Assim  como  era  de 
Deborah o crime do qual estava sendo acusada. 

—  A  senhora  não  me  conhece,  mas  conhece  o  meu  marido,  não  é  mesmo?  O 

nome  dele  é  Roy  Tompkins  —  disse  a  mulher  de  repente,  tirando  uma  fotografia  do 
bolso do casaco e entregando-a a Anne. — Por favor, não tente negar. A senhora teve 
um  caso  com  o  meu  marido,  eu  sei.  Ele  mesmo  me  contou.  Roy  disse  que  amava  a 
senhora, mas que não conseguia aceitar o fato de não ser correspondido, não conseguia 
aceitar  a  idéia  de  que  a  senhora  só  queria  uma  aventura.  Por  isso...  Por  isso  Roy  foi 
embora da  cidade.  Ele  me  abandonou,  e abandonou os  filhos,  por sua  causa.  Foi  isso 
que Roy me disse, e eu... eu quero saber se é verdade. 

Maldita seja você, Deborah, pensou  Anne,  sentindo  uma  imensa  pena  da  pobre 

mulher.  Se  você  já  não  estivesse  morta,  eu  mesma  a  estrangularia  com  as  minhas 
próprias mãos! 

Mas...  Espere  um  pouco.  Deborah  estava  morta.  E  talvez  esse  tal  de  Roy 

Tompkins  fosse  o  assassino!  Uma  briga  entre  amantes  era  um  bom  motivo  para  um 
assassinato,  não  era?  A  mulher  havia  dito  que  seu  marido  fora  embora  da  cidade... 
Talvez  ele  estivesse  fugindo,  com  medo  de  ser  preso  e  condenado  à  morte  quando  o 
crime fosse descoberto. Esperançosa, Anne examinou a foto que a Sra. Tompkins lhe 
entregara à procura de uma pista para o mistério. 

Suas esperanças foram em vão. O homem da foto não tinha barba nem qualquer 

outro ponto em comum com o assassino. Roy era loiro, em vez de moreno; magro, em 
vez  de  forte,  encorpado.  Anne  ficou  desapontada,  mas  o  seu  desapontamento 
desapareceu assim que ela olhou para a mulher abandonada pelo marido. Coitada! Ser 
casada  com  um  homem  infiel  já  era  ruim;  se  ainda  por  cima  o  sujeito  fosse  um 
assassino, a situação seria mil vezes pior. 

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— E então, Deborah, você conhece esse tal de Roy Tompkins? 

Anne  assustou-se  quando  a  voz  de  J.B.  rompeu  o  silêncio  que  reinava  no 

escritório.  Ela  o  fitou  que  viu  que  havia  algo  além  de  raiva  no  olhar  dele:  havia 
esperança,  também.  Assim  como  a  Sra.  Tompkins  viera  procurá-la  esperando  que  ela 
negasse  ter  sido  amante  do  tal  de  Roy,  J.B.  também  esperava  que  ela  desmentisse  a 
história. 

J.B. pegou uma caneta-tinteiro e abriu o caderninho com capa de couro, que na 

realidade era um talão de cheques, e afirmou: 

— Quero ajudar esta pobre senhora, mas primeiro preciso saber se o que ela disse 

é verdade. E só você pode confirmar a história, Deborah. 

—  Oh,  não!  Eu  não  quero  o  seu  dinheiro,  Sr.  Munro!  —  protestou  a  Sra. 

Tompkins, pondo-se de pé. — Só quero saber se Roy estava falando a verdade. 

Anne  engoliu  em  seco,  sem  saber  o  que  fazer.  Será  que  Deborah  tinha  mesmo 

sido amante de Roy? A resposta mais óbvia era "sim". Deborah devia ter se divertido 
um pouco com o tal sujeito antes de chutá-lo para escanteio. Afinal, não fora isso que 
ela fizera com Patrick? 

Além disso, mesmo que a história fosse falsa, Anne não podia deixar de ver que a 

Sra. Tompkins iria precisar de dinheiro para sustentar os filhos, agora que o marido a 
abandonara. E já que J.B. estava pronto para assinar um cheque, por que não aproveitar 
a chance para ajudar a coitada? 

— Responda logo, Deborah, você conhece ou não o marido desta senhora? 

Anne  abriu  a  boca,  disposta  a  confessar  a  traição  em  lugar  de  Deborah.  Mas 

quando  viu  a  expressão  esperançosa  no  rosto  de  J.B,  mudou  de  idéia.  Céus,  não 
importava  o  que  dissesse,  alguém  sairia  magoado  dessa  história  toda!  Mais  uma  vez 
Anne  desejou  que  Deborah  não  tivesse  morrido,  para  que  ela  pudesse  enfrentar 
pessoalmente  a  terrível  situação.  Era  a  própria  Deborah  quem  deveria  estar  pagando 
pelos  erros que  cometera,  e não duas  pessoas inocentes, pensou  Anne, notando  que o 
tique nervoso de J.B. voltava a se manifestar. 

Isso  a  fez  lembrar  da  ameaça  de  ser  mandada  para  um  hospício,  e  um  arrepio 

percorreu-lhe a espinha. Se desse um passo em falso, acabaria trancafiada num quarto 
com paredes acolchoadas e grades nas janelas. Sentiu vontade de sair correndo, mas não 
tinha para onde fugir. 

— Responda, Deborah! — ordenou J.B, perdendo a paciência. 

— Por favor... Eu... Eu não sei o que dizer... 

— É simples. Por que não experimenta dizer a verdade? 

— Mas eu não sei qual é a verdade! — gritou Anne, perdendo o autocontrole. 

A Sra. Tompkins arregalou os olhos, espantada. 

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— Deborah... — murmurou J.B, por entre os dentes. 

— Dê um cheque à Sra. Tompkins — retrucou Anne, tentando acalmar-se. — É 

óbvio que ela precisa de dinheiro, não é? Eu confirmarei a história toda se você... 

—  Não!  —  exclamou  a  mulher.  —  Pode  guardar  o  seu  talão  de  cheques,  Sr. 

Munro. Eu jamais pensaria em... 

Anne segurou a Sra. Tompkins pelo braço, argumentando: 

— Por favor, aceite o cheque, pelo bem dos seus filhos. Orgulho não irá pagar as 

suas contas e nem comprar comida para alimentar a sua família. A senhora precisa... 

— Eu não preciso da sua caridade, Sra. Munro! — protestou a mulher, soltando o 

braço e dando um passo para trás. — Não aceitarei um único centavo! 

— Por favor, eu insisto. Esqueça o que o seu marido fez e... 

— Não, eu queria apenas saber... 

— ... aceite o cheque... 

— ... se o meu Roy... 

— ... pelo bem dos seus filhos... 

—  Calem-se,  as  duas!  —  esbravejou  J.B,  vendo  que  elas  falavam  ao  mesmo 

tempo. — Discutir desse jeito não nos ajudará a resolver o assunto. 

— J.B., eu já confessei. Agora trate de preencher o cheque — exigiu Anne. 

— Não! — teimou a Sra. Tompkins. 

— Calem-se! — repetiu J.B. — Sra. Tompkins, minha esposa e eu precisamos ter 

uma  conversa  em  particular.  A  senhora  poderia  nos  fazer  a  gentileza  de  sair  do 
escritório por alguns minutos? 

A mulher assentiu com um gesto de cabeça e saiu do aposento, fechando a porta. 

Aproximando-se de Anne, J.B. segurou-lhe as mãos e perguntou: 

— Você não teve um caso com esse tal de Roy Tompkins, teve? 

Anne  lembrou-se  de  ter  segurado  as  mãos  de  J.B.  pouco  tempo  antes  de  ele 

morrer. Lembrou-se também de que ele a chamara de Deborah e lhe pedira perdão. Em 
seguida, refletiu que J.B. logo ficaria sabendo que sua esposa fora assassinada. Por mais 
que Deborah tivesse sido uma desmiolada de marca maior, ainda assim ela fora casada 
com J.B. E o fato de tê-la pedido em casamento significava que algum dia, de algum 
modo,  J.B.  a  amara.  Deborah  podia  ter  sido  amante  de  Roy  Tompkins,  sim,  mas  na 
posição em que se encontrava no momento Anne tinha o poder de aliviar pelo menos 
em parte o sofrimento de J.B. 

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— Não. Nunca tive nada a ver com Roy Tompkins. Eu nem mesmo o conhecia — 

murmurou Anne, por fim. 

E  assim  que  terminou  a  última  frase,  experimentou  a  estranha  sensação  de  ter 

falado a mais pura verdade. 

J.B. aquiesceu, indicando que acreditava nela, e Anne prosseguiu: 

—  Mas  isso  não  muda  o  fato  de  Roy  Tompkins  ter  abandonado  a  família.  E 

agora, como aquela mulher vai sustentar os filhos? Você vai ajudá-la, não vai? 

—  Sim,  vou  —  respondeu  ele  sem  pestanejar,  apertando  de  leve  as  mãos  de 

Anne. 

Ela tentou interpretar o gesto. Teria sido reconciliatório? Paternal? Amoroso? De 

um  modo  ou  de  outro,  o  leve  aperto  em  suas  mãos  fora  gentil,  carinhoso.  Isso 
significava  que  talvez  o  relacionamento  entre  Deborah  e  J.B.  não  fosse  tão  frio  e 
distante  quanto  ela  imaginara  a  princípio.  Só  porque  os  dois  dormiam  em  quartos 
separados, quem podia garantir que não partilhavam a mesma cama de vez em quando? 
Tal pensamento deixou-a apreensiva. 

—  Suponho  que  esta  sua  repentina  preocupação  com  o  bem-estar  alheio  seja 

sincera, Deborah. Admito, porém, que a sua atitude me surpreende — disse J.B., após 
um momento de silêncio. 

Anne enrubesceu, preocupada com as conseqüências do seu gesto de bondade. A 

Sra. Tompkins e seus filhos mereciam receber ajuda, claro, mas isso não queria dizer 
que Anne estava disposta a transformar o relacionamento entre J.B. e sua esposa numa 
segunda  lua-de-mel.  Afinal,  já  que  ela  estava  ocupando  o  lugar  de  Deborah,  uma 
reconciliação poderia trazer-lhe problemas embaraçosos. 

— Não cometa a tolice de pensar que fiquei boazinha de repente, J.B. — Anne 

forçou uma risada sarcástica. 

—  Apenas  considere  o  que  acabei  de  fazer  como  mais  uma  das  minhas... 

excentricidades. 

J.B. suspirou e soltou-lhe as mãos, afirmando: 

—  Acho  que  tem  razão,  o  seu  gesto  não  deve  mesmo  ter  passado  de  uma 

excentricidade. Mesmo assim, para retribuir a bondade que você demonstrou esta noite, 
faço questão de confirmar uma promessa que lhe fiz alguns anos atrás. 

— Que promessa? 

— Eu prometi que nunca mais falaria a respeito daquilo que aconteceu, lembra? 

Pois fique tranqüila, cumprirei a minha palavra. 

Anne não tinha a menor idéia do que ele estava falando, mas achou melhor deixar 

o assunto de lado. Já estava mais que satisfeita em ver que o episódio relacionado com a 
Sra. Tompkins terminara bem. 

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Anne acordou ouvindo uma música transmitida por um rádio ligado num quarto 

próximo  ao  seu.  Dessa  vez,  reconheceu  de  imediato  o  lugar  e  a  época  onde  se 
encontrava.  Teria  sido  impossível  confundir  a  antiga  melodia  orquestrada  com  uma 
gravação de algum concerto de rock dos anos 90. 

Dia dois, e ainda estou aqui, pensou ela enquanto saía da cama espreguiçando-se. 

Depois da cena com a Sra. Tompkins no escritório, na noite anterior, Anne e J.B. 

haviam entrado numa fase de trégua. Ele não permitira que ela fosse mais cedo para o 
quarto;  em  compensação,  o  final do  jantar  não  fora tão  carregado de  tensão quanto o 
início.  J.B.  continuara  vigiando  o  comportamento  de  Anne,  mas  de  um  jeito  mais 
natural.  A certa  altura,  ele  se  mostrara  relaxado  o  bastante  para  contar piadas  para os 
homens e elogiar os vestidos e as jóias das mulheres. Os convidados, sentindo um clima 
menos pesado entre o casal anfitrião, mostraram-se mais animados e alegres, parecendo 
ter esquecido o incidente desagradável provocado pela chegada da Sra. Tompkins. 

Deixando de lado as lembranças da noite passada, Anne espreguiçou-se. Ao olhar 

para  o  relógio  sobre  um  dos  criados-mudos,  levou  um  susto.  Onze  horas!  Nunca 
dormira até tão tarde em toda a sua vida! Dirigiu-se apressada para o banheiro anexo ao 
quarto,  recordando  o  que  a  guia  turística  dissera  a  respeito  da  mansão  Munro,  que 
contava com comodidades raras para a época e região em que fora construída. Nos anos 
20, a maioria das grandes áreas urbanas dos Estados Unidos era beneficiada por casas 
com encanamento interno, rádio e carros. Mas no Estado de Oklahoma, que não podia 
ser  considerado  um  dos  mais  avançados  do  país,  as  pessoas  que  não  pertenciam  à 
mesma classe social de J.B. não sabiam distinguir um Ford de um Packard, nem tinham 
dinheiro para comprar algo tão caro e supérfluo quanto um rádio. 

Enquanto tomava banho, Anne voltou a se preocupar com a situação provocada 

pelo incidente com a Sra. Tompkins. J.B. prometera que não deixaria a mulher enfrentar 
problemas financeiros, mas recusara-se a permitir que sua esposa "mentisse" afirmando 
que  tivera  uma  aventura  com  Roy  Tompkins.  Mas  e  se  Deborah  tivesse  mesmo  sido 
amante de Roy? E se a Sra. Tompkins encontrasse uma prova disso e a mostrasse a J.B? 
Existiria um quarto num hospício à espera de Anne, no futuro? Haveria mais sofrimento 
reservado para J.B. e para a Sra. Tompkins? 

Bem,  não  adiantava  nada  esquentar  a  cabeça  antes  da  hora.  Além  disso,  se  os 

planos de Anne para recuperar o medalhão pudessem ser realizados logo, nem existiria 
motivo para preocupação. 

Anne tentaria encontrar uma outra entrada para os túneis nessa noite, depois que 

todos estivessem dormindo. Pretendia escapulir da mansão sem ser notada e vasculhar 
todas  as  edificações  mencionadas  pela  guia  turística  como  tendo  acesso  aos  túneis. 
Dessa vez, já sabia onde ficavam as edificações. Prestara atenção nelas quando Patrick a 
trouxera de volta para a mansão no dia anterior. 

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Patrick... Anne ficara sabendo na noite passada que Patrick iria acompanhar J.B, 

Wyndham e ela na visita à Fazenda 101. 

Depois do episódio envolvendo a Sra. Tompkins, Anne esforçara-se ao máximo 

na  noite  anterior  para  manter  o  olhar  afastado  de  Patrick.  Contudo,  não  conseguira 
deixar de observá-lo, ansiosa por verificar se ela a fitaria com desaprovação por causa 
do que acontecera. Apesar de o erro ter sido cometido por Deborah, Anne não pudera 
deixar  de  se  sentir  responsável  pelo  que  havia  ocorrido.  E  a  opinião  de  Patrick  a  seu 
respeito era muito importante para ela. 

Curiosamente,  porém,  Patrick  não  a  encarara  com  ar  de  censura.  Limitara-se  a 

olhá-la com uma expressão que só podia ser classificada como auto-recriminação. 

Suportar a culpa por algo que Deborah fizera era difícil para Anne, mas a culpa 

por ter beijado Patrick era dela mesma, de mais ninguém. E isso era mil vezes pior. A 
vergonha  deixara  um  gosto  amargo  na  boca  de  Anne,  e  ela  havia  passado  o  resto  do 
jantar  evitando  o  olhar  de  Patrick.  Não  conseguira  evitar  de  pensar  nele,  porém. 
Pensamentos perturbadores demais para a sua paz de espírito... 

A  certa  altura,  os  convidados  haviam  deixado  a  sala  de  jantar  e  ido  para  uma 

outra  sala  mais  aconchegante.  Anne  juntara-se  ao  grupo  das  mulheres,  e  precisara 
esforçar-se para prestar atenção no que elas diziam. Não que a conversa das convidadas 
fosse aborrecida. Ao contrário, tinha sido intrigante ouvi-las falar de uma nova técnica 
cirúrgica  chamada  lifting  facial  e  escutá-las  discutir  o  enredo  das  peças  de  teatro  às 
quais tinham assistido em Nova York em suas últimas viagens. 

De repente, a conversa das mulheres começara a girar em torno do Dr. Freud e de 

sua nova teoria, que afirmava que o sexo era a força motriz da humanidade. No mesmo 
instante Anne tornara-se refém de pensamentos libidinosos que envolviam um homem 
moreno  que  ela  havia  jurado  esquecer.  Uma  das  convidadas  comentara  que  havia 
consultado um analista europeu; o analista lhe dissera que, para ser uma pessoa feliz e 
satisfeita, ela devia obedecer a sua libido. Uma outra convidada logo concordara com tal 
afirmação,  declarando  que  uma  vida  sexual  desinibida  era  um  fator  fundamental  para 
quem quisesse ter boa saúde mental. 

Lançando a Anne olhares que insinuavam que ela devia ser especialista em levar 

uma vida sexual desinibida, as mulheres haviam passado a discutir uma série de teorias 
sexuais ligadas aos estudos do Dr. Freud. Em determinado momento da conversa Anne 
sentira vontade de sair gritando da sala — mas só depois de agarrar Patrick pelo braço e 
arrastá-lo  consigo  para  qualquer  lugar  onde  pudessem  fazer  amor.  Ela  não  conseguia 
parar de pensar no beijo e nas carícias que haviam trocado, assim como não conseguia 
entender como pudera esquecer quem era, de onde tinha vindo, e o fato de que precisava 
voltar para o futuro. Acima de tudo, sentia-se incapaz de compreender a força da atração 
que Patrick exercia sobre ela. 

E agora, nessa manhã, Anne acordara com a certeza de que Freud tinha razão: era 

impossível ser mentalmente saudável sem obedecer os comandos da libido! Ela passara 
a  noite  toda  sonhando  com  Patrick,  sonhos  durante  os  quais  realizara  todos  os  seus 

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desejos. Havia deixado o bom senso de lado e feito amor com Patrick sem pensar por 
um  único  segundo  em  J.B,  em  Deborah,  em  voltar  para  casa.  Entregara-se  sem 
pestanejar ao prazer de tocar e ser tocada por Patrick, até o êxtase final... 

Balançando  a  cabeça  sob  a  água  morna  do  chuveiro,  Anne  tratou  de  retornar  à 

realidade.  A  satisfação  de  seus  desejos  mais  íntimos  não  passara  disso,  de  um  mero 
sonho. O melhor que tinha a fazer agora era deixar essas tolices de lado e aprontar-se 
para a visita à Fazenda 101. 

 

Maldição, ela  estava  agindo  de  modo  estranho  de  novo!  Até parecia que nunca 

tinha  visto  o  Packard  de  J.B,  quando  na  verdade  ajudara  a  escolhê-lo!  Patrick, 
acomodado a um canto do banco traseiro do automóvel, ficou a observar Deborah com 
os olhos semicerrados. Ela examinou o pequeno tapete que cobria o assoalho do carro, e 
depois  levantou-o  com  a  ponta  do  sapato,  como  se  estivesse  fazendo  uma  inspeção 
geral. 

Deborah  transmitia  a  impressão  de  que  estava  andando  pela  primeira  vez  de 

automóvel desde que J.B. lhe abrira a porta e lhe fizera um sinal para sentar no banco de 
trás,  ao  lado  de  Patrick,  enquanto  Wyndham  e  ele  acomodavam-se  nos  bancos 
dianteiros. Ela havia alisado o estofamento de couro como se nunca tivesse visto nada 
igual na vida. Quando J.B. pisara no botão que dava partida no motor, ela rira baixinho 
feito uma criança. Só ao lançar um olhar meio de esguelha para Patrick é que Deborah 
perdera a expressão de encantamento que lhe iluminava o rosto. 

Patrick não deveria ter ficado irritado com isso, mas ficou. O fato de ver Deborah 

seguindo as regras e agindo como uma moça bem-comportada o incomodava, e muito, 
dando-lhe a sensação de que estava perto de uma pessoa completamente desconhecida. 
Na noite passada, por exemplo, depois do episódio envolvendo a inesperada visitante, 
Patrick esperara ver Deborah sair do escritório com um brilho de rebeldia e desafio no 
olhar, com um sorriso zombeteiro nos lábios. Em vez disso, porém, ela voltara para a 
sala de jantar com uma expressão séria, quase que de remorso. 

Enquanto  observava  a  paisagem  conforme  se  aproximavam  da  Fazenda  101, 

Patrick adivinhou de repente o motivo da sua irritação. Gostaria que tudo permanecesse 
igual ao que sempre fora antes de Deborah sair dos túneis na noite da festa. Não queria 
que  Deborah  se  tornasse  uma  mulher  sensível,  responsável  e  doce,  assim  como 
preferiria  não  ter  experimentado  o  tumulto  de  emoções  que  sentira  quando  a  beijara. 
Desejava  que  tudo  continuasse  como  antes,  sim,  e  por  uma  razão  muito  simples:  era 
fácil manter-se afastado da antiga Deborah, desmiolada e calculista, mas era difícil não 
sucumbir à atração que a nova Deborah lhe despertava. 

Deborah  estava  agindo  agora  exatamente  do  jeito  que  Patrick  gostaria  que  ela 

tivesse agido quando eram namorados. 

E Patrick não estava gostando nem um pouco disso. Ver sinais da mulher que ele 

gostaria que Deborah tivesse sido o deixava confuso e zangado. 

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Causava-lhe  ressentimento  saber  que  uma  simples  pancada  na  cabeça  fora 

responsável  pela  transformação  de  Deborah  na  mulher  que  ele  considerava  ideal. 
Perturbava-o sentir-se atraído por ela outra vez, depois de tudo o que acontecera entre 
ambos. Mas a atração voltara com força total, não havia como negar. Desde que beijara 
Deborah no dia anterior, Patrick não conseguia tirá-la dos pensamentos. 

Por sorte, o Packard aproximou-se da casa-sede da Fazenda 101 bem a tempo de 

interromper os devaneios de Patrick. Pensar em Deborah como algo além da esposa de 
J.B. era alarmante... e perigoso. 

J.B.  desligou  o  motor  do  carro  e  virou-se  para  trás,  sorrindo  para  Patrick. 

Indicando com um gesto a bela casa de dois andares, pintada de branco, perguntou: 

— Este lugar lhe traz boas lembranças, amigo?  

— Sim, muitas — respondeu Patrick antes de acenar para o seu antigo patrão, que 

aparecera na frente da casa. 

George Miller estava vestido a caráter para o rodeio; parecia mais um vaqueiro, e 

não o dono da famosa fazenda. 

J.B. deu um tapinha amigável no ombro de Wyndham, comentando: 

—  Você não  irá  se  arrepender de ter vindo,  Harrison.  Os  seus  camaradas  lá  de 

Boston irão morrer de inveja quando você lhes contar que viu o show Oeste Selvagem. 

— Existem várias companhias que apresentam esse tipo de show viajando pelo 

país,  J.B.  —  retrucou  o  banqueiro,  em  tom  entediado.  —  Eu  mesmo  já  vi  uma 
apresentação dessas na primavera passada. 

Patrick conteve a vontade de rir. Harrison Wyndham não o enganava nem por um 

segundo com o seu falso ar de tédio. J.B. também não se deixara enganar, pois fitou o 
banqueiro com uma expressão malandra, argumentando: 

—  Primeiro  assista  ao  show,  e  depois  venha  me  dizer  se  já  tinha  visto  igual, 

antes. 

Wyndham  pigarreou,  abriu  a  porta  e  desceu  do  carro.  J.B.  também  desceu  do 

veículo e ajudou a esposa a sair. Patrick saiu por último, reparando que Deborah olhava 
ao  redor  como  se  nunca  tivesse  posto  os  pés  na  fazenda.  O  que  estaria  acontecendo, 
afinal?  Será  que  ela  estava  mesmo  com  amnésia?  Deborah  parecia  mais  assombrada 
com  o  que  via  do  que  o  próprio  Wyndham,  que  observava  tudo  com  os  olhos 
arregalados. Ela quase ficou de queixo caído diante dos grupos de caubóis e de índios 
usando cocares de penas coloridas, e pareceu não reconhecer as vaqueiras com as quais 
conversara nas últimas visitas que fizera à fazenda. Enquanto seguia J.B. até o terraço 
da casa-sede, ela virava a cabeça de um  lado para outro como se não quisesse perder 
nenhum detalhe do que acontecia à sua volta. 

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—  J.B.,  eu  já  estava  achando  que  você  não  viria!  O  que  o  fez  sair  daquele 

mausoléu que você chama de mansão? — brincou Miller, enquanto trocava um aperto 
de mão com o magnata. — A notícia de que Will e Tom estão aqui? 

— Quem são Will e Tom? — perguntou Wyndham em voz baixa a Patrick. 

— Will Rogers e Tom Mix — respondeu ele, rindo ao ver a cara de espanto do 

banqueiro. Em seguida, adiantou-se para cumprimentar o dono da Fazenda 101. — Olá, 
Sr. Miller. É um prazer revê-lo. 

—  Não  precisa  mais  me  chamar  de  "senhor",  MacKinnon.  Agora  você  já  tem 

dinheiro bastante para comprar uma dúzia de fazendas maiores que a minha — retrucou 
Miller,  bem-humorado.  Em  seguida,  voltando-se  para  Wyndham,  comentou:  — 
MacKinnon  trabalhou  para  mim  quando  era  garoto.  Talvez  eu  consiga  convencê-lo  a 
participar do rodeio, hoje. 

Harrison  Wyndham  pareceu  ficar  impressionado  com  o  que  ouvira,  exatamente 

como  J.B.  e  Patrick  haviam  esperado.  George  Miller  era  um  bom  amigo  dos  dois,  e 
aceitara com prazer o pedido prévio de ajudá-los a conquistar o interesse do banqueiro 
de Boston. Por mais que ele parecesse ser um simples vaqueiro, a sua bela e imponente 
residência  indicava  que  ele  era  bem-sucedido  nos  negócios.  Miller  construíra  um 
verdadeiro império econômico levando a aura de romance e aventura do Oeste para o 
resto do mundo. E, tanto quanto J.B., ele se preocupava em atrair novos investimentos 
para o Estado de Oklahoma. 

O  dono  da  fazenda  101  cumprimentou  Anne  com  um  galante  beijo  na  mão, 

enquanto dizia: 

—  É  um  grande  prazer  revê-la,  Sra.  Munro.  Acho  que  vou  precisar  colocar 

vendas  nos  olhos  dos  meus  caubóis  outra  vez,  pois  a  senhora  continua  linda  como 
sempre. 

Anne sorriu, encabulada, e Patrick estranhou-lhe o gesto. Deborah nunca ficava 

encabulada! E mesmo que J.B. tivesse lhe pedido para bancar a atriz e fingir, ela jamais 
teria  concordado  com  a  idéia.  Ao  contrário,  a  simples  sugestão  de  que  deveria 
comportar-se bem a teria levado a fazer justamente o contrário. 

Ao notar que Patrick a fitava com ar de censura, Anne parou de sorrir e virou-lhe 

as costas. Ele cerrou os punhos, zangado, mas logo ralhou consigo mesmo. Ridículo! A 
troco  de  que  ficar  zangado,  só  porque  Deborah  parara  de  sorrir?  O  que  ela  fazia  ou 
deixava de fazer não era da sua conta, e ponto final. 

George  Miller  apresentou  Harrison  Wyndham  a  alguns  dos  vaqueiros  que  se 

apresentariam durante o show, e depois o grupo todo dirigiu-se para as arquibancadas 
que cercavam a arena. Um bom número de habitantes da cidade de Munro viera assistir 
ao  espetáculo.  Depois  que  todos  se  acomodaram  nas  arquibancadas  baixas,  o  show 
começou  com  um  desfile  de  caubóis  e vaqueiras, índios, uma  tropa  de  cossacos  e até 
mesmo um trio de palhaços. Patrick procurou relaxar e aproveitar o espetáculo. 

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No entanto, as danças de guerra dos índios, os exercícios de tiro dos cossacos, as 

brincadeiras  dos  palhaços  com  laços  de  corda  e  as  outras  atividades  que  se 
desenrolavam na arena não conseguiram fazê-lo parar de pensar em Deborah. Não eram 
apenas as atitudes dela que pareciam diferentes do normal. Havia algo mais, também. 

Os olhos verdes de Deborah, por exemplo, estavam um tom mais escuro. Ontem 

ele havia se convencido de que apenas imaginara tal fato, mas agora não havia como 
negar as evidências. Os olhos de Deborah estavam mais escuros, sim. Mas como? Por 
quê? 

Apesar  dos  olhares  coléricos  que  Patrick  lhe  dirigia  de  vez  em  quando,  Anne 

estava se divertindo à beça. 

Quando Katy mencionara a visita à Fazenda 101, ela imaginara que iria assistir a 

um  ou  dois  vaqueiros  domando  alguns  poucos  cavalos  ou  laçando  novilhos,  numa 
espécie de rodeio de pequenas proporções, como os que já vira na TV. 

Mas o que estava vendo agora era mil vezes mais emocionante. Junto com o resto 

do público,  ela  rira das brincadeiras dos palhaços,  maravilhara-se  com  a  boa  pontaria 
dos cossacos e ficara encantada com as breves apresentações teatrais contando a história 
da vida dos pioneiros nas planícies de Oklahoma. Isso sem mencionar os atos circenses 
com elefantes, camelos e búfalos. 

Anne gostou especialmente das vaqueiras. Uma delas ficou de pé sobre a sela e 

disparou  tiros  de  rifle  contra  um  alvo  enquanto  seu  cavalo  corria  em  círculos.  De 
repente,  a  vaqueira  caiu.  Anne  soltou  uma  exclamação  de  susto  e  ficou  de  pé,  quase 
pulando dentro da arena para socorrer a mulher. Demorou alguns poucos segundos para 
perceber que a vaqueira não havia caído de verdade; a mulher escorregara de propósito 
na  sela  até  ficar  grudada  à  barriga  do  cavalo,  enquanto  continuava  atirando  contra  o 
alvo! 

Ao final do número Anne aplaudiu a vaqueira e riu, feliz. Ah, se os seus pais e tia 

Shirley  pudessem  vê-la  agora...  Ela  estava  testemunhando  um  show  histórico,  o  que 
apenas contribuía para aumentar a sua excitação. Além disso, depois de dois exaustivos 
dias fingindo ser Deborah Munro, estava adorando a chance de poder relaxar e ser ela 
mesma por algumas horas. 

Quando  a  apresentação  seguinte  começou,  porém,  Anne  voltou  a  ser  dominada 

pela  tensão.  Enquanto  observava  os  caubóis  pulando  na  sela  de  cavalos  bravios  e 
laçando  novilhos  com  chifres  pontiagudos,  tudo  em  que  conseguia  pensar  era  nos 
horríveis ferimentos que os animais podiam causar nos homens. E que condições tinham 
os médicos da década de 20 para socorrer os feridos? 

Refletindo  bem,  os  homens  na  arena  não  eram  vaqueiros,  eram  suicidas  em 

potencial. Enquanto exibiam a sua força e agilidade para o público, corriam o risco de 
que algo muito grave lhe acontecesse. 

E então, de repente, algo muito grave aconteceu. 

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Muitas  das  pessoas  nas  arquibancadas  gritaram  quando  o  último  caubói  a  se 

apresentar foi derrubado da sela pelo novilho que tentava laçar. Anne também gritou e, 
horrorizada,  viu  o  animal  enfurecido  dar  uma  cabeçada  no  peito  do  vaqueiro,  que 
tombou de costas no chão. Finalmente o novilho foi retirado da arena por um grupo de 
participantes do show, enquanto o vaqueiro era levado embora numa maca. Anne não 
sabia  se  o  homem  simplesmente  perdera  a  respiração  e  desmaiara  ou  algo  pior,  mas 
tratou de não perder tempo. 

Pedindo licença às pessoas que estavam sentadas, começou a descer às pressas os 

degraus  da  arquibancada.  Se  o  vaqueiro não  tivesse  apenas  perdido  o  ar,  se  houvesse 
sofrido uma parada cardíaca — como Anne suspeitava, a julgar pela força do impacto 
recebido pelo homem — nenhum médico dos anos 20 saberia o que fazer para salvá-lo. 

— Deborah! — chamou J.B, em tom preocupado. — Onde vai? Está se sentindo 

mal? 

— Sim — respondeu Anne, sem parar de descer os degraus. — A violência da 

cena que acabo de ver me deixou com o estômago embrulhado. 

Deixando a arquibancada para trás, ela olhou ao redor tentando localizar alguma 

tenda que servisse de posto médico ou algo do gênero. 

Em menos de um minuto avistou o que procurava. Dois homens estavam levando 

o vaqueiro para dentro de uma grande tenda encimada por uma bandeirinha vermelha. 
Enquanto corria atrás deles, depois de arrancar dos pés os sapatos de salto de Deborah, 
Anne notou que o show recomeçara; a banda começara a tocar uma música diferente e o 
som de patas de cavalo batendo no chão ecoou pelo ar. Ao alcançar a entrada da tenda, 
ela  foi  abrindo  caminho  por  entre  a  multidão  de  caubóis  e  índios  até  ver  o  vaqueiro, 
colocado em cima de uma mesa, sendo examinado por um médico. 

Usando um estetoscópio de aparência pré-histórica, o médico auscultou o coração 

do vaqueiro. Em seguida, voltando-se para George Miller, que também se encontrava na 
tenda, anunciou: 

— O coração dele parou de bater, George. Sinto muito, não há mais nada que eu 

possa fazer agora, e... 

—  Não!  Afaste-se!  —  gritou  Anne,  aproximando-se.  Ela  jogou  os  sapatos  no 

chão e empurrou o médico para o lado. Depois de fazer um exame rápido para verificar 
se  o  vaqueiro  não  quebrara  nenhuma  costela,  começou  a  fazer-lhe  uma  massagem 
cardíaca junto com respiração boca a boca. 

—  Ei,  espere  um  pouco!  —  protestou  o  médico  quando  viu  Anne  pressionar  o 

peito do vaqueiro com  as  palmas  das  mãos. —  O  que  pensa que  está  fazendo,  minha 
jovem? 

Ignorando o médico, ela puxou o maxilar inferior do vaqueiro para a frente, em 

vez de inclinar-lhe a cabeça para trás, pois temia que ele tivesse sofrido uma fratura no 

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pescoço.  Em  seguida,  apertou  o  nariz  do  homem  e  soprou-lhe  ar  para  dentro  dos 
pulmões através da boca. 

Todos os que estavam dentro da tenda soltaram exclamações de espanto. 

— O que pensa que está fazendo, moça? — repetiu o médico, segurando um dos 

braços de Anne. 

—  Solte-me!  —  ordenou  ela,  em  tom  feroz.  —  Fique  longe  de  mim  e  não  me 

atrapalhe! 

Chocado, o médico obedeceu. Um pesado silêncio tomou conta da tenda. 

Anne  continuou  a  pressionar  regularmente  o  peito  do  vaqueiro  e  a  lhe  fazer 

respiração  boca  a  boca,  checando-lhe  o  pulso  de  minuto  em  minuto.  Vamos  lá,  cara, 
respire. Você tem de respirar, pensou ela, aflita, preocupada com a possibilidade de o 
homem sofrer algum dano cerebral por falta de oxigenação. 

Então,  de  repente,  o  vaqueiro  respirou  fundo.  Anne  afastou-se  um  pouco  e, 

emocionada, observou o milagre que já vira acontecer tantas vezes em sua carreira de 
para-médica:  a  pele  azulada  do  homem  foi  recuperando  aos  poucos  a  cor  normal,  e 
depois de alguns segundos ele abriu os olhos. 

O médico lançou um olhar espantado a Anne e correu para junto da mesa. 

— Clinton? Você está bem? 

O vaqueiro tossiu e gemeu. 

— Sim, ele está bem! — exclamou Anne, feliz. 

— Caramba, eu nunca tinha visto uma coisa dessas, antes! — murmurou um dos 

caubóis presentes. 

Após certificar-se de o pulso do vaqueiro batia em ritmo normal, Anne deu-lhe 

um leve tapinha no ombro, brincando: 

— Faça o favor de não me desmentir, amigo. Você está bem, não está? 

— Estou... Estou sim, moça — respondeu o homem, parecendo confuso. 

— Meu Deus, que milagre — murmurou o médico, encarando Anne. — Como 

foi que você conseguiu ressuscitá-lo? 

George Miller aproximou-se de Anne e fitou-a com assombro. 

— Sra. Munro? Como foi que...? 

Incapaz  de  terminar  a  pergunta  que  tinha  em  mente,  o  dono  da  Fazenda  101 

limitou-se a indicar Clinton com um gesto. 

O homem estava tentando sentar-se. Bom sinal, refletiu Anne; isso significa que 

ele não sofreu nenhum traumatismo na espinha. 

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Só  então  ela  se  preocupou  em  responder  às  perguntas  do  médico  e  de  George 

Miller. Ansiosa por salvar a vida do vaqueiro, utilizara um procedimento médico que as 
pessoas  da  década  de  20  não  conheciam.  Sendo  assim,  como  explicar  o  que  fizera? 
Agira por instinto, sem pensar nas conseqüências do seu ato, e agora tinha de arranjar 
um jeito de sair da enrascada em que se metera. 

Procurando  ganhar  tempo,  recolheu  os  sapatos  que  largara  no  chão  e  tornou  a 

calçá-los. Em seguida, declarou, constrangida: 

— Eu apenas... apenas fiz algo que vi um médico fazer na... na Europa. 

O fazendeiro e o médico trocaram um olhar de incredulidade. 

— É verdade — insistiu Anne. — Uma vez vi um médico europeu socorrer um 

homem no meio da rua e... Bem, eu só imitei o que ele fez. 

De repente, ela se lembrou de J.B. Se ele ficasse sabendo do que acontecera na 

tenda... Pensando em evitar maiores complicações, Anne dirigiu-se ao dono da Fazenda 
101. 

— Posso conversar com o senhor em particular, Sr. Miller? 

O fazendeiro assentiu e seguiu-a para fora da tenda, dizendo: 

—  A  senhora  conseguiu  realizar um  verdadeiro  milagre,  Sra. Munro.  Eu nunca 

tinha visto ninguém ressuscitar um homem, antes! 

— Eu sei, mas... Como já expliquei, fiz apenas o que vi um  médico fazer para 

socorrer  uma  pessoa  que  se  acidentou  na  rua,  lá  na  Europa.  Deve  ser  algum 
procedimento médico novo, ainda pouco conhecido aqui nos Estados Unidos. 

—  Procedimento  médico?  Para  mim  continua  parecendo  um  milagre,  isso  sim! 

Clinton estava morto, e a senhora... 

—  Por  favor,  Sr.  Miller,  vamos  deixar  esse  assunto  de  lado.  A  propósito,  eu 

gostaria de lhe pedir algo. 

— Pode pedir, Sra. Munro. Eu lhe devo gratidão eterna por ter salvo a vida de 

Clinton. O que a senhora quer? 

—  Quero  que  o  senhor  me  ajude  a  manter  em  segredo  o  que  aconteceu  lá  na 

tenda. 

— Manter em segredo? Por quê? 

—  Tenho  os  meus  motivos  para  não  desejar  que  essa  história  se  espalhe,  Sr. 

Miller. Por favor, não comente com ninguém, nem mesmo com J.B, o que aconteceu. Se 
o senhor fizer isso, pode considerar paga a sua dívida de gratidão para comigo. 

— Bem, já que a senhora insiste, farei o que me pede. Mas, mesmo assim... 

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Anne não permitiu que o fazendeiro terminasse a frase. Soltando um suspiro de 

alívio,  agradeceu  a  George  Miller  por  ele  ter  concordado  em  atender  o  seu  pedido  e 
afastou-se depressa na direção das arquibancadas. 

Patrick saiu da tenda e foi para junto de Miller. Assim que Anne sumiu de vista, o 

dono da Fazenda 101 virou-se para o seu ex-empregado e comentou: 

— Por Deus, MacKinnon, creio que testemunhei um milagre, hoje. Você também 

estava lá dentro da tenda? Viu o que aconteceu? 

— Vi. 

— E então, o que achou? 

Patrick não achava nada, mas tinha certeza de uma coisa: Deborah mentira. De 

novo. 

Ele havia escutado sem querer a conversa entre Deborah e o fazendeiro, e sabia 

que ela nunca vira nenhum médico socorrer um homem acidentado em alguma rua da 
Europa. Na verdade, Deborah nunca estivera na Europa. Ela já havia feito vários planos 
para  conhecer  o  Velho  Mundo,  mas  na  última  hora  J.B.  sempre  cancelava  as  viagens 
para puni-la por "mau comportamento". 

—  Não  sei,  George.  Eu  nunca  tinha  visto  nada  parecido,  antes  —  respondeu 

Patrick, por fim. 

O fazendeiro coçou o queixo, murmurando: 

— Quem diria, a Sra. Munro salvou a vida de Clinton... 

Em seguida, ele deixou Patrick sozinho e voltou para o interior da tenda. 

O  vaqueiro  morrera,  e  Deborah,  num  gesto  de  compaixão,  o  ressuscitara.  Ela 

havia soprado ar na boca do homem e feito massagem no peito dele. Incrível! Como é 
que alguém podia resgatar uma pessoa das garras da morte desse jeito? E como é que 
Deborah tivera coragem de fazer o que fizera? 

Patrick jamais esqueceria a cena, nem que vivesse mil anos... 

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10 

 

— Nós vamos demorar muito para ir embora, J.B? — perguntou Anne ao retornar 

para o seu lugar nas arquibancadas. 

— Ir embora? Já? Não vá me dizer que você ainda está se sentindo mal por causa 

do acidente com o vaqueiro! 

—  Não,  eu  já  estou  me  sentindo  bem  melhor.  Mas  o  dia  foi  cansativo,  e  eu 

gostaria de voltar logo para casa. 

—  Você  nunca  foi  de  se  cansar  à  toa,  Deborah,  portanto  não  me  venha  com 

histórias. — Baixando o tom de voz, J.B. prosseguiu: — Estamos aqui para agradar a 
um  possível  parceiro  nos  negócios,  e  não  para  nos  divertir.  Dê  só  uma  olhada  em 
Wyndham. Ele está adorando o show! Não podemos ir embora antes do último número. 
Will Rogers e Tom Mix irão se apresentar, e eu quero que... 

— Espere um pouco. Onde está Patrick? — perguntou Anne de repente, ao notar 

que o lugar do sócio de J.B. esta vazio. 

— Patrick deixou a arquibancada logo depois de você, portanto suponho que deva 

ter ido pedir informações sobre o estado do vaqueiro que se acidentou. Provavelmente 
ele conhece o homem dos tempos em que trabalhou aqui na fazenda. 

Sim,  Patrick  já  havia  trabalhado  na  fazenda.  George  Miller  mencionara  tal  fato 

poucas horas antes. Isso significava que Patrick devia mesmo ter ido até a tenda depois 
do acidente. E se ele fora até lá, com certeza testemunhara o que Anne fizera para salvar 
a vida do vaqueiro! 

Era estranho como tudo o que acontecia com Anne acabava envolvendo Patrick 

de um modo ou de outro. Ela também se preocupava com J.B, claro; seria ótimo, por 
exemplo,  se  ele  não  ficasse  sabendo  do  que  "Deborah"  fizera  na  tenda  até  que  Anne 
voltasse para o futuro. No entanto, quem mais a deixava abalada emocionalmente era o 
ex-amante, e não o marido de Deborah. Será que Anne teria sentido tanta vergonha do 
episódio relacionado à Sra. Tompkins se Patrick não tivesse presenciado a cena? E por 
que ela se esforçava tanto para evitar o olhar dele? Por que tinha sonhos eróticos nos 
quais o sócio de J.B. era a figura principal? 

O  lado  racional  de Anne procurou  convencê-la de  que  a  atração  que sentia  por 

Patrick era uma questão de pura química sexual. O lado emocional, contudo, dizia que o 
interesse que ele lhe despertava estava ligado a algo mais profundo que o sexo. 

Patrick MacKinnon era um homem bom, honrado. Ele beijara Anne, ou melhor, 

Deborah,  no  dia  anterior,  perto  do  riacho.  Mas  logo  admitira  que  havia  cometido  um 
erro  ao  aproximar-se  da  esposa  de  seu  amigo  e  sócio,  e  desde  então  tratara  de  ficar 
longe  dela.  Isso  era  uma  demonstração  clara  de  lealdade  e  decência,  o  que  o  tomava 
ainda mais interessante aos olhos de Anne. 

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Interessante até demais! 

— Com licença... Posso passar? 

Abandonando seus devaneios de lado, Anne olhou para o lado e deu de cara com 

Patrick, que a fitava com uma expressão mista de curiosidade e impaciência. 

— Posso passar? — repetiu ele. — Eu gostaria de voltar ao meu lugar. 

Anne não queria deixá-lo passar, muito menos deixá-lo chegar perto de J.B, mas 

não  teve  outra  opção  além  de  encolher  as  pernas  para  dar-lhe  passagem. 
Disfarçadamente, observou Patrick sentar-se ao lado de J.B. e pôs-se a imagina o que 
ele  iria  dizer  ao  sócio.  Seu  olhar  encontrou  o  de  Patrick  por  um  momento,  e  ela 
adivinhou de imediato que ele vira o que acontecera na tenda. Droga, agora só faltava 
Patrick contar tudo a J.B! 

Fingindo  prestar  atenção  no  que  ocorria  na  arena,  onde  George  Miller 

apresentava Will Rogers ao público, Anne ficou ligada na conversa dos dois. 

— O vaqueiro está bem? — indagou J.B. 

— Milagrosamente, sim — respondeu Patrick. 

— O que houve, ele perdeu a respiração? 

— Não, o caso foi um pouco mais sério. 

— É mesmo? Então foi uma grande sorte o Dr. Kenner ter sido chamado para vir 

trabalhar aqui, hoje. Ele é conhecido por fazer "milagres" para salvar seus pacientes. 

— Sim, é verdade. Mas o Dr. Kenner teve ajuda extra, dessa vez. 

— Ajuda extra? De quem? 

Antes que Patrick tivesse tempo de responder, Anne apressou-se a segurar um dos 

braços de J.B. e apontou para a arena. 

— Will Rogers é mesmo incrível. Veja só o que ele consegue fazer com o laço! 

— comentou ela, antes de dirigir-se ao banqueiro: — O que está achando do show, Sr. 
Wyndham? É fantástico, não é? 

— Sim, é fantástico — concordou o banqueiro, sorrindo. 

—  Will  Rogers  nasceu  em  Oklahoma,  o  senhor  sabia?  —  disse  Anne.  Em 

seguida, perguntou a J.B: — Você já falou para o Sr. Wyndham que há outras pessoas 
famosas  que  também  nasceram  em  Oklahoma?  Aposto  que  ele  adoraria  discutir  esse 
assunto. Isso sem mencionar os fora-da-lei que tinham esconderijos aqui no Estado, em 
tempos passados — acrescentou ela, dando graças a Deus por seu pai ser um historiador 
amador e gostar de contar fatos curiosos sobre o Estado onde nascera. Tomando fôlego, 
tomou a dirigir a palavra ao banqueiro: — Sr. Wyndham, não se esqueça de pedir que 
J.B. lhe fale, mais tarde, sobre os fora-da-lei. 

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—  Tulsa  World,  Sr.  Munro!  —  anunciou  o  rapaz  que  se  aproximou  correndo, 

trazendo consigo uma máquina fotográfica. — Posso tirar uma foto sua e do Sr. Rogers 
para o jornal? 

Anne  reprimiu  um  suspiro  de  impaciência.  Céus,  será  que  nunca  mais 

conseguiremos voltar para mansão?, pensou. Ela havia adorado o show, e quase matara 
J.B. de embaraço ao ficar boquiaberta quando Will Rogers e Tom Mix foram procurá-
los ao final do espetáculo para bater papo. O dia fora divertidíssimo, sem dúvida, mas 
ao  mesmo  tempo  fora  tenso  e  cansativo,  deixando  os  nervos  de  Anne  em  frangalhos. 
Além  de  ter  sido  alvo  constante  dos  olhares  vi-o-que-você-fez-lá-na-tenda-e-quero-
saber-como que Patrick lhe dirigira, ela se lembrara de repente de que não estava em 
segurança  ali  no  meio  da  multidão.  Talvez  o  assassino  de  Deborah  gostasse  do  show 
Oeste  Selvagem  e  tivesse  vindo  até  a  fazenda...  Céus,  como  ela  pudera  esquecer-se 
dessa  possibilidade?  Não  tinha  resposta  para  isso.  Sabia  apenas  que  não  gostava  da 
perspectiva de estar na mira de um criminoso, assim como não gostava da idéia de que 
Patrick pudesse contar a J.B. o que vira na tenda. 

—  Claro  que  pode,  meu  jovem  —  respondeu  J.B.  ao  fotógrafo  do  jornal.  — 

Deborah, venha cá, quero que você fique perto de nós — disse ele a seguir, puxando-a 
pela mão. 

—  Não,  J.B,  por  favor,  devo  estar  com  uma  aparência  horrível.  Prefiro  ficar 

esperando lá no carro. Além disso, não gosto de ser fotografada. 

J.B. e Patrick a encararam com espanto. 

Tarde demais Anne lembrou-se do que a guia turística dos anos 90 dissera: A Sra. 

Munro adorava ser fotografada... 

—  Acho  que  a  pancada  na  cabeça  afetou  o  cérebro  da  sua  esposa,  J.B.  —  riu 

Patrick,  antes  de  acrescentar  num  disfarçado  tom  de  desafio:  —  Ou  será  que  alguém 
colocou uma impostora no lugar de Deborah? 

Anne  encarou-o  com  raiva.  Ora,  mas  que  atrevimento!  Patrick  a  estava 

provocando! Ele devia ter escutado às escondidas a sua conversa com George Miller e 
descoberto que ela não queria que J.B. soubesse que ela salvara o vaqueiro da morte. 
Droga, por que Patrick MacKinnon não cuidava da própria vida e a deixava em paz? 

O próprio Patrick fizera questão de deixar claro que não queria ter nada a ver com 

a  mulher  do  seu  sócio,  e  pedira que  ela  se  mantivesse  afastada  dele.  Pois  bem,  Anne 
obedecera. E agora ali estava ele, parecendo se divertir com a idéia de provocá-la! 

Ajeitando os cabelos com as mãos, Anne dirigiu um sorriso de falsa inocência a 

Patrick e colocou-se entre J.B. e Will Rogers, dizendo: 

—  Você  realmente  me  conhece  bem,  não  é  mesmo,  Patrick?  Eu  só  estava 

bancando a moça mimada, como sempre. Afinal, vocês, homens, quase não me deram 
atenção hoje, por causa do show. E quem pode culpar uma garota por desejar atenção? 

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— Em seguida, semicerrando os olhos e sorrindo para o fotógrafo, ela perguntou: — E 
então, a minha pose está boa? 

O rapaz assentiu e tirou a foto. Anne fitou Patrick com ar de triunfo, mas ele nem 

se abalou. 

Nesse  momento,  Harrison  Wyndham  aproximou-se  de  Will  Rogers  e  estendeu-

lhe uma caneta e um luxuoso bloquinho de anotações com capa de couro. 

— Pode me conceder a honra de me dar um autógrafo, Sr. Rogers? 

Imediatamente Anne voltou a sua atenção para o banqueiro de Boston e para o 

filho mais famoso do Estado de Oklahoma. Para que perder tempo preocupando-se com 
Patrick MacKinnon quando tinha a chance de estar perto do lendário Will Rogers? 

— O seu pedido é que me deixa honrado, senhor — respondeu Rogers. — Diga-

me, o senhor é de Boston? 

— Sim, sou. Como adivinhou? 

— Pelo sotaque, que é inconfundível. 

J.B. deu uma piscadela para Rogers e comentou: 

— Harrison Wyndham é banqueiro, Will. 

—  Verdade?  Meu  pai  também  era  banqueiro,  Sr.  Wyndham,  e  vivia  me 

convidando para trabalhar com ele. 

— Oh, eu não sabia! Isso significa que o senhor quase seguiu uma carreira ligada 

às finanças? 

— Não, eu logo vi que não tinha muito jeito para a coisa. Os únicos clientes que 

eu conseguiria para o banco teriam de ser pegos a laço. 

Todos riram da piada. Em seguida, após uma troca de aperto de mãos com Will 

Rogers  e  George Miller — que  apareceu para  se  despedir  dos  convidados —  Patrick, 
Wyndham, J.B. e Anne entraram no carro para ir embora. 

Anne recostou-se no banco traseiro do Packard e, exausta, fechou os olhos. Sentiu 

que Patrick, sentado a seu lado, a observava. Procurou ignorá-lo, mas depois de alguns 
minutos não conseguiu mais suportar a situação. Abriu os olhos e encarou-o. 

— Você me pediu para ficar longe de você, não foi? — indagou num murmúrio, 

para que J.B. e Wyndham não escutassem. — Pois agora sou eu que lhe peço, Patrick, 
fique longe mim! 

Ele a fitou em silêncio por um instante antes de retrucar também em voz baixa, 

como se estivesse falando consigo mesmo: 

— Será que vou conseguir? 

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Franklin  Thomas  lavou  o  rosto  recém-barbeado  com  água  fria.  Em  seguida, 

fechou a torneira e pegou a toalha que a camareira do hotel deixara pendurada perto da 
pia. Ao olhar-se ao espelho, quase começou a chorar. 

Sem a barba, ficara parecidíssimo com o seu irmão. Ah, Henry, nunca mais serei 

capaz de ver a minha própria imagem sem lembrar de você, pensou, angustiado. 

Gotas  de  água  pingaram-lhe  do  queixo  feito  lágrimas.  Franklin  enxugou-as  e 

depois  jogou a  toalha  dentro da  pia.  Lágrimas  demais  já  haviam  sido  derramadas por 
sua mãe e sua irmã, e por todos os que tinham amado Henry. 

Só  Franklin  não  havia  chorado  e  nem  pedido  a  Deus  que  o  consolasse,  pois 

deixara de acreditar em Deus no dia em que Henry morrera. 

Deus, em sua infinita bondade... Deus, em sua infinita bondade... 

Franklin  recordou-se  das  palavras  ditas  pelo  padre  durante  o  funeral  de  Henry. 

Palavras mentirosas, que o haviam enchido de fúria. Meu irmão só queria servir a Deus, 
mas mesmo assim acabou morrendo! Como esse padre ainda tem coragem de falar da 
"bondade infinita" do Senhor?, ele sentira vontade de gritar. 

Mas não gritara. Apenas dera um beijo de despedida na mãe e na irmã e partira 

atrás da mulher responsável pela morte de Henry, disposto a vingar o irmão. 

Olho por olho, dente por dente... 

Dando uma risada cínica, Franklin vestiu seu casaco. Procurando não pensar mais 

em Henry, saiu do quarto e desceu até a recepção. Pagou a conta e foi para a rua, sem 
pressa.  Seu  plano  era  ir  embora  de  Oklahoma  o  quanto  antes,  mas  não  tão  rápido  a 
ponto  de  dar  a  impressão  de  que  estava  fugindo.  Embora  não  se  importasse  com  a 
possibilidade de ser punido pelo crime que cometera, preferia não ser preso para evitar 
que a sua família sofresse ainda mais. 

Ele comprou a última edição do Tulsa World de um jornaleiro que passava pela 

calçada, e depois fez sinal para um táxi. 

— Para onde quer ir, senhor? — perguntou o motorista. 

— Para a estação ferroviária — respondeu Franklin, entrando no veículo. 

O  táxi  havia  acabado  de  parar  diante  da  estação  de  trens  da  cidade  de  Tulsa 

quando Franklin Thomas viu a foto de Deborah no jornal. 

— Chegamos, senhor — disse o motorista. 

Um  engano.  Tinha  de  ser  um  engano!  Mas  a  legenda  da  foto  era  bem  clara.  A 

foto fora tirada na véspera, na Fazenda 101. 

O  ódio  que  abandonara  Franklin  depois  de  ele  ter  vingado  a  morte  do  irmão 

retornou com força total, trazendo consigo desespero e dor. Mas como era possível? Ele 

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a estrangulara com as próprias mãos! Fizera questão de verificar se não havia nenhuma 
centelha de vida no corpo da mulher antes de abandoná-la no interior da caverna! 

— Já chegamos, senhor — insistiu o motorista. 

—  Sim...  —  murmurou  Franklin,  sentindo-se  zonzo.  —  Quanto...  Quanto  lhe 

devo? 

— Ei, o senhor ficou pálido de repente. Está passando mal? 

— Não, não, estou ótimo. 

Franklin  pegou  a  carteira,  deu  uma  nota  de  cinco  dólares  ao  motorista  e,  sem 

esperar pelo troco, saiu do táxi levando o jornal consigo. 

Morta, pensou, enquanto entrava na estação ferroviária e comprava um bilhete de 

ida para Munro. Eu podia jurar que a vagabunda estava morta. 

 

Patrick  recusou  o  drinque  que  o  garçom  lhe  ofereceu  e  soltou  um  suspiro  de 

cansaço. Embora já fosse bem tarde, a festa que J.B. decidira oferecer em homenagem a 
Harrison Wyndham continuava animada. Entre os convidados havia barões do petróleo, 
fazendeiros milionários e políticos influentes, todos acompanhados pelas esposas. Isso 
sem  mencionar  os  membros  mais  proeminentes  da  sociedade  de  Munro,  pessoas 
elegantes e ricas que pareciam dispostas a beber e se divertir até o raiar do dia. O clima 
festivo devia-se ao sucesso dos planos de J.B. e Patrick para convencer o banqueiro de 
Boston  a  investir  dinheiro  em  Munro  e  em  outras  cidades  de  Oklahoma.  Wyndham 
ficara impressionado  com  tudo o que vira  e ouvira  no  Estado  nos  últimos dias, e não 
estava fazendo segredo disso. 

Irritado  pelo  volume  alto  da  música  tocada  por  um  pequeno  conjunto  de  jazz, 

Patrick  aproximou-se  da  parede  de  vidro  que  dava  vista  para  o  extenso  gramado  nos 
fundos  da  mansão.  Precisou  controlar-se  ao  máximo  para  não  checar  as  horas  pela 
décima vez em seu relógio de bolso. Maldição! Era sócio de J.B. nos negócios, não era? 
Sendo  assim,  por  que  não  estava  se  sentindo  feliz  com  a  perspectiva  de  ver  Munro 
prosperar  ainda  mais?  Por  que,  nos  últimos  tempos,  suas  conquistas  profissionais 
pareciam ter perdido a importância? 

Houvera uma época em que o orgulho de ter alcançado o sucesso significava tudo 

para ele. Uma época em que ele fazia questão de mostrar ao mundo que era um homem 
importante, um "alguém" com "A" maiúsculo. 

Mas será que era mesmo para o mundo que havia desejado provar o quanto era 

bem-sucedido?  Ou  apenas  para  uma  mulher  em  especial?  Uma  mulher  e  seu  marido: 
Deborah e J.B. 

Patrick não se lembrava de jamais ter tomado uma decisão consciente de desistir 

da idéia de possuir uma fazenda. No entanto, recordava-se com precisão da ambição que 
o fizera galgar todos os degraus para chegar ao topo do poder na Ferrovia Munro depois 

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que  J.B.  desposara Deborah.  Mais tarde,  prometera  a  si  mesmo;  depois de  alcançar  o 
topo eu me preocuparei em realizar o sonho de ter uma fazenda. 

Ao longo dos anos, J.B. dissera várias vezes a Patrick que lhe fizera um favor ao 

casar-se com Deborah. Afinal, ela era uma mulher fria, calculista, traiçoeira. E Patrick 
jamais teria conseguido se transformar num bem-sucedido homem de negócios casado 
com  uma  mulher  assim.  Patrick  nunca  fora  ingênuo  a  ponto  de  acreditar  que  J.B. 
desposara  Deborah  só  para  lhe  fazer  um  favor,  mas  acabara  reconhecendo  que  a 
argumentação do seu sócio tinha um certo fundo de verdade. 

Por outro lado, nunca fora criterioso o bastante para tentar entender por que fizera 

tanta questão de ocupar uma posição de poder na Ferrovia Munro... E agora, refletindo 
melhor  sobre  a  sua  vida,  pela  primeira  vez  Patrick  se  deu  conta  de  algo  muito 
importante:  nunca  quisera  provar  nada  para  o  mundo,  quisera  apenas  impressionar  o 
casal  Munro.  Deborah  o  rejeitara,  ferindo-lhe  o  orgulho;  J.B.  não  o  julgara  homem 
suficiente para suportar um "fardo" como Deborah. Mas ele havia mostrado a ambos o 
quanto era forte. Chegara ao topo. Era um homem de sucesso. 

Nesse  momento,  J.B.  aproximou-se  de  Patrick  e  deu-lhe  um  tapinha  no  ombro, 

dizendo: 

— Parece que Wyndham está disposto a falar de negócios ainda hoje. 

— Meus parabéns. Correu tudo conforme você havia planejado, não é? 

— Sim, como sempre. Mas você também merece os parabéns, meu caro. Afinal, 

foi você que deu início às negociações com Wyndham. 

Patrick  olhou  através  do  vidro  para  o  céu  preto  pontilhado  de  estrelas.  Não 

"brilhantes  tremeluzentes",  como  J.B.  gostava  de  descrevê-las  para  os  visitantes  de 
outros estados. Apenas estrelas. 

— Dessa vez não faço questão de ganhar os parabéns, J.B. — retrucou Patrick, 

por fim. 

—  Ora,  e  por  que  não?  Repito,  você  merece  tanto  crédito  quanto  eu  por  ter 

convencido  Wyndham  a  investir  o  dinheiro  do  banco  e  de  seus  clientes  em  Munro  e 
outras cidades do Estado. E então, vamos para o meu escritório? Está na hora de termos 
uma conversa mais séria com Wyndham. 

—  Obrigado,  mas  dessa  vez  prefiro  não  participar  de  conversa  alguma  — 

declarou Patrick, irritado com o tom condescendente de seu sócio. — Estou cansado, e 
não pretendo ficar aqui até o final da festa. 

Harrison Wyndham aproximou-se dos dois, com um charuto nos lábios, uma taça 

de champanhe na mão e um chapéu Stetson na cabeça. Os olhos do banqueiro brilhavam 
de um jeito especial, mas Patrick sabia que não era por causa da grande quantidade de 
bebida que ele já havia ingerido. Não era o champanhe que o deixara intoxicado, e sim a 
perspectiva  de  realizar  negócios  importantes,  lucrativos.  Patrick  sabia  disso  porque, 
olhando-se ao espelho, já vira esse mesmo brilho em seus próprios olhos. 

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— Vamos lá, J.B. — disse Wyndham, que ficava ridículo usando o chapéu que 

George Miller lhe dera de presente. — Estou ansioso para começar a fazer planos para o 
futuro. 

— Eu também estou, amigo — respondeu J.B conduzindo o banqueiro na direção 

do seu escritório, mas não sem antes dirigir um olhar de preocupação a Patrick. 

J.B.  iria  pedir  uma  explicação  para  o  seu  comportamento  inusitado  na  manhã 

seguinte, mas Patrick não estava ligando nem um pouco para isso. Na verdade, chegava 
a  ser  assustadora  a  pouca  importância  que  ele  estava  dando  para  a  opinião  de  J.B.  a 
respeito da sua atitude. 

Virando-se de cosas para a janela, Patrick avistou Deborah do outro lado da sala e 

começou a observá-la. Ela trocou algumas rápidas palavras com J.B. e Wyndham antes 
que eles entrassem no escritório. Em seguida, pediu licença para a idosa senhora com 
quem conversava e seguiu na direção de uma porta que dava para os jardins da mansão. 

Se havia uma  mulher no mundo que Patrick deveria desprezar, essa mulher era 

Deborah. Mas já que ele estava numa noite propícia para reconhecer as verdades mais 
dolorosas, ali estava mais uma: não sentia desprezo por Deborah. Ao contrário, sentia-se 
cada vez mais atraído por ela. Nos últimos oito anos, julgara-se imune à esposa do seu 
sócio. Mas desde que ela saíra dos túneis sob a mansão, poucas noites atrás, passara a 
desejá-la de novo. 

Por quê? 

Anne  foi  até  a  casa  de  hóspedes  sentindo-se  como  uma  espiã  cumprindo  uma 

missão  secreta.  Havia  escolhido  de  propósito  um  vestido  preto  para  usar  nessa  noite, 
pois assim seria mais difícil alguém localizá-la ali fora. Se existisse uma entrada para os 
túneis na casa de hóspedes — e estava certa de que a guia turística afirmara que existia 
—  ela  a  descobriria.  Pena  que  não  pudera  sair  para  explorar  a  casa  na  noite  passada, 
pois J.B. não lhe dera um minuto de sossego. 

Colocando-se  atrás  de  uma  fileira  de  arbustos,  Anne  apressou  o  passo.  A 

conversa de J.B. com Wyndham poderia demorar horas... ou apenas alguns minutos. Por 
precaução, era melhor não perder tempo. 

A fileira de arbustos terminava a alguns metros de distância da casa de hóspedes. 

Anne olhou ao redor para certificar-se de que não havia ninguém por perto. Em seguida 
olhou para a janela do escritório de J.B, que dava para os jardins. As cortinas estavam 
fechadas. Ótimo! 

Segura de que ninguém a observava, correu até o terraço da casa de hóspedes e 

aproximou-se da porta de entrada. Usando o fino abridor de cartas que trouxera enfiado 
no decote do vestido, tanto insistiu que acabou conseguindo soltar a trava da fechadura. 
Soltando um suspiro de alívio, entrou na casa. Fechou as cortinas das janelas da sala e 
só então se atreveu a acender um pequeno abajur. Sabia que fora nesta mesma sala que 
vira  J.B.  pela primeira  vez,  em  1994.  A  lembrança  provocou-lhe  um  arrepio,  mas  ela 

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não  se  deixou  intimidar.  Só  o  que  importava  agora  era  descobrir  a  entrada  para  os 
túneis. 

No corredor entre a sala e o quarto, Anne avistou porta de metal cinza, idêntica à 

que existia dentro da lareira do salão de festas. Pronto, ali estava o que tanto ansiara por 
encontrar! Não havia nenhum cadeado, mas a porta estava trancada do mesmo jeito. E 
dessa vez o abridor de cartas não conseguiu soltar a tranca da fechadura. 

Frustrada,  Anne  voltou  para  a  sala  e  olhou  em  volta,  pensativa.  Se eu quisesse 

esconder a chave daquela porta, onde a colocaria? 

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11 

 

Patrick viu Deborah entrar sorrateiramente na casa de hóspedes e não se orgulhou 

nem um pouco dos pensamentos libertinos que lhe invadiram a mente. 

Afaste-se!  Volte  para  a  festa  e  fique  longe  de  Deborah,  antes  que  seja  tarde 

demais. Você não quer descobrir por que voltou a desejá-la. Você simplesmente a deseja 
e isso é perigoso, interferiu a voz da consciência. 

Mas  já  era  tarde  demais.  Sem  querer,  Patrick  recordou-se  dos  encontros 

clandestinos que tivera com Deborah quando ela ainda estava sob a tutela de J.B. 

Os  dois  eram  tão  jovens  na  época...  Naquele  tempo  Deborah  tinha  cabelos 

compridos e Patrick gostava de acariciá-los, de senti-los deslizando feito seda sobre o 
seu peito nu enquanto faziam amor. 

Amor... Patrick cometera um grande engano ao julgar que Deborah o amava. Na 

verdade  ela  apenas  o  usara,  pois  sempre estivera interessada  em  J.B.  Desde  então ele 
aprendera a diferenciar atração carnal de amor. 

Sim, Deborah era fria... calculista... Mas a mulher que acabara de entrar na casa 

de hóspedes não era nenhuma dessas duas coisas. Ela estava diferente, agora. Mas como 
era  possível?  Patrick  a  vira  salvar  a  vida  de  um  desconhecido,  num  gesto  de  pura 
generosidade. E um dia antes, quando a beijara para provar que ela continuava sendo a 
leviana de sempre, ela lhe pedira desculpas por tê-lo magoado. Como Deborah podia ter 
sofrido  uma  transformação  tão  profunda  e  radical?  Ela  havia  dito  que  a  pancada  na 
cabeça a fizera ver o quanto tinha agido errado até então, mas dera a impressão de estar 
mentindo. 

Patrick lembrou-se dos olhos verdes de Deborah, que pareciam mais escuros que 

antes,  e  refletiu  sobre  as  coisas  que  ela  afirmara  ter  "esquecido".  Recordou-se  da 
sensação inebriante que experimentara quando a beijara perto do riacho, e por um breve 
segundo chegou a alimentar a teoria de que ela não era Deborah. Em seguida, balançou 
a  cabeça  e  quase  deu  uma  gargalhada.  Só  um  louco  acreditaria  numa  teoria  absurda 
dessas! 

Ele se aproximou sem fazer barulho da casa de hóspedes. Abriu a porta, mas não 

entrou  de  imediato  na  sala.  Permaneceu  parado  na  penumbra  do  terraço,  observando 
Deborah. Ela havia feito uma pilha com as malas de Patrick perto da estante de livros 
que  ocupava  uma  parede  inteira.  Empoleirada  em  cima  das  malas,  Deborah  tateou  a 
borda da prateleira mais alta da estante. Depois, tirou alguns livros do lugar e tateou o 
fundo da prateleira. 

Patrick a viu repetir três vezes o mesmo procedimento, até que não agüentou mais 

conter a curiosidade. 

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—  Posso  saber  o  que  você  está  procurando?  —  perguntou,  entrando  na  sala  e 

fechando a porta. 

Anne  soltou  um  grito  de  susto  e  perdeu  o  equilíbrio.  Antes  que  Patrick  tivesse 

tempo de segurá-la, ela caiu no chão. Alguns livros caíram-lhe em cima. 

— Pelo amor de Deus, Deborah! — Patrick aproximou-se dela e tirou o livro que 

lhe  cobria  o  rosto,  vendo  que  o  corte  na  testa  voltara  a  sangrar.  —  Desse  jeito  o  seu 
ferimento  não  vai  sarar  nunca!  —  ele  ralhou,  tirando  um  lenço  do  bolso  da  calça  e 
pressionando-o contra o corte. 

Anne arrancou-lhe o lenço da mão e sentou-se, reclamando: 

— Quer parar com essa mania de se aproximar de mim feito um fantasma, sem 

fazer barulho? É a segunda vez que você faz isso! E não é com o corte na minha testa 
que estou preocupada. Acho... acho que torci o tornozelo. 

Quando Anne fez menção de massagear o tornozelo dolorido, Patrick a impediu. 

— Continue sentada, para que eu possa examiná-la. 

Ele  tirou-lhe  o  sapato  de  salto  alto  do  pé  e  depois  apalpou-lhe  o  tornozelo, 

sentindo um arrepio quando seus dedos tocaram a seda fina da meia que cobria a perna 
escultural. 

— Ai! Não aperte com tanta força — protestou Anne. 

— O tornozelo já está inchando — observou Patrick. — Creio que você não vai 

conseguir andar direito por alguns dias. 

— Droga, era só o que me faltava! E agora, o que vou fazer? 

—  Bem,  é  óbvio  que  você  não  pode  passar  a  noite  toda  sentada  aqui  no  chão. 

Segure-se em mim, vou ajudá-la a... 

— Patrick, cuidado! — gritou Anne de repente, olhando na direção da estante. 

Patrick seguiu-lhe o olhar e viu que um grande e pesado livro estava prestes a cair 

da  estante,  ameaçando  acertá-lo  na  cabeça.  Estendeu  uma  das  mãos  para  apanhar  o 
livro, mas Anne o empurrou para o lado, avisando: 

— O livro vai cair em cima de você! 

Ela tornou a gritar, agora de dor, quando o pesado volume atingiu-lhe o tornozelo 

já machucado. 

—  Maldição!  Eu  ia  pegar  o  livro!  —  resmungou  Patrick.  —  Por  que  me 

empurrou? 

— Agi por instinto — respondeu Anne, gemendo. 

— Instinto de auto-mutilação? — zombou ele, pegando-a no colo e ficando de pé. 

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Anne fez uma careta de dor, mas não falou nada. 

Procurando ignorar  a  excitação  que sentiu  por tê-la  junto de si,  Patrick a  levou 

para  o  quarto  e  a  pôs  na  cama,  tomando  o  cuidado  de  colocar  um  travesseiro  sob  o 
tornozelo  ferido.  Em  seguida,  acendeu  a  luz  do  abajur  que  se  encontrava  sobre  um 
criado-mudo e sentou-se na beirada da cama. 

Anne havia levantado o vestido até a altura das coxas e se inclinado para a frente, 

na tentativa de examinar o tornozelo. 

—  Daqui  não  consigo  ver  se  ele  está  muito  inchado,  por  causa  dessas  meias 

pretas — comentou, evitando olhar para Patrick. 

Disfarçando  o  constrangimento,  enfiou  as  mãos  sob  o  vestido  para  abrir  os 

colchetes da cinta-liga e soltar as meias dos prendedores. Em seguida, tirou as meias e 
jogou-as no chão. 

Ao ver o que ela fazia, Patrick sentiu um arrepio de desejo. Procurando controlar 

o  tremor  nas  mãos,  voltou  a  apalpar  o  tornozelo  de  Deborah.  Mas  foi  incapaz  de 
concentrar-se no exame por causa das emoções conflitantes que o haviam invadido. 

Zangara-se por Deborah tê-lo empurrado quando o livro caíra da estante, mas não 

deixara de notar que ela agira com a mesma generosidade que demonstrara em relação 
ao  vaqueiro  da  Fazenda  101.  E  esse  tipo  de  comportamento,  vindo  de  Deborah,  o 
confundia. Patrick tentou pensar no dia em que Deborah lhe dissera que o havia usado 
para atrair a atenção de J.B, tentou lembrar-se da frieza com que ela o rejeitara, mas não 
conseguiu.  Pôde  apenas  recordar  o  modo  como  ela  correspondera  aos  seus  beijos  e 
carícias lá perto do riacho, o modo como pedira para não ser chamada de Deborah. E 
voltou a sentir a mesma excitação que o dominara naquele dia. 

— Patrick... 

Deborah o chamou com voz baixa e rouca. De repente, ele se deu conta de que 

não estava mais "examinando" o tornozelo machucado, e sim acariciando-o com a ponta 
dos  dedos.  Ao  erguer  a  cabeça  e  encarar  Deborah,  percebeu  que  ela  sabia  o  que  ele 
estava  sentindo.  Percebeu  também  que  Deborah  sentia  o  mesmo  que  ele:  ansiedade... 
desejo... 

Mudando de posição na cama, ela tocou-lhe o rosto e murmurou: 

— Eu também quero você. Tenho a impressão de que o quis durante toda a minha 

vida. Sei que parece loucura mas... 

— Mas isso não está certo — retrucou Patrick. tenso. — Você não me pertence. 

— Mesmo assim, tenho a sensação de que não estamos cometendo nenhum erro. 

Ou melhor, tenho certeza! 

— Deborah, por favor... — murmurou ele com voz rouca. 

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—  Não.  Não  me  chame  de  Deborah  —  protestou  Anne,  abraçando-o.  —  Não 

suporto esse nome. 

Patrick  fitou-a  com  desconfiança,  e  Anne  teve  vontade  de  morder  a  língua  por 

causa  do  que  havia  dito.  Abraçou-o  com  mais  força  e  beijou-o  de  leve  nos  lábios, 
tentando impedi-lo de raciocinar, procurando convencê-lo a amá-la. 

Patrick tocou-lhe os seios e ela gemeu baixinho, o coração disparado dentro do 

peito. Deslizou as mãos para debaixo do paletó de Patrick, soltou os botões da camisa e 
tocou-lhe a pele quente do peito coberto de pêlos macios. 

Após  um  segundo  de  hesitação  Patrick  tirou  o  paletó,  a  gravata  e  a  camisa, 

jogando-os no chão. 

Ansiosa  por  sentir  o  peito  largo  e  musculoso  contra  o  seu  corpo  nu,  Anne 

começou a soltar os botões nas costas de seu vestido. 

— Não. Pode deixar que faço isso — disse Patrick. 

Ele desabotoou rapidamente o vestido, que escorregou dos ombros até a cintura 

de Anne. 

O  sutiã  que  ela  estava  usando  seria  considerado  antiquado  por  um  homem  dos 

anos 90, pois embora fosse preto não era nem rendado e nem transparente. Para Patrick, 
porém, a lingerie devia representar o máximo da sensualidade. Com os olhos brilhantes 
de  desejo,  ele  beijou  e  lambeu  a  parte  superior  dos  seios,  que  o  sutiã  não  cobria.  Ao 
mesmo  tempo,  começou  a  acariciar  os  mamilos  protegidos  pelo  tecido  de  algodão, 
fazendo com Anne suspirasse de prazer. 

— Patrick... Espere um pouquinho... 

Atendendo  ao  pedido,  ele  se  afastou.  Assim  que  Anne  tirou  o  sutiã,  porém, 

abraçou-a com paixão, esmagando os seios macios contra o seu peito nu, e beijou-a na 
boca. Anne correspondeu com ardor ao beijo, envolta numa deliciosa nuvem de luxúria. 

Patrick  devia  estar  se  sentindo  culpado  pelo  que  estava  fazendo  mas, 

estranhamente, não sentia nada além do fogo da excitação a correr-lhe nas veias. 

Minha.  Isso  foi  tudo  que  ele  conseguiu  pensar  antes  de  interromper  o  beijo  e 

deslizar a língua pelo pescoço da mulher que tinha nos braços, enquanto acariciava-lhe 
os seios. 

— Você é minha, esta noite... — murmurou ele, por fim, querendo partilhar seus 

pensamentos com Deborah. 

— Isso também o torna meu. Mas não apenas por esta noite. Sei que existe uma 

ligação muito forte entre nós, porque eu vi você... antes de vir para cá... 

— O quê? 

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— Por favor, não me pergunte nada... Agora não... — respondeu ela, começando 

a abrir os botões da calça de Patrick. 

Ele afastou-lhe as mãos e terminou de desabotoar a calça sozinho, temendo que o 

roçar dos dedos delicados contra o seu membro rijo o fizesse perder o autocontrole antes 
da hora. Depois de livrar-se das calças, dos sapatos e das meias, tirou de vez o vestido 
de Anne e acariciou-lhe as pernas, sussurrando: 

— Você faz idéia do quanto me deixa louco, mulher? 

— Faço, sim, porque você também está me deixando louca. Oh, Patrick... 

Ela gemeu alto quando ele lhe tirou a cinta-liga e começou a beijá-la nas coxas, 

até alcançar o centro da sua feminilidade. Ao sentir a língua quente afagar o ponto mais 
sensível do seu corpo, Anne estremeceu de excitação. Ao chegar ao orgasmo, gritou o 
nome de Patrick e apertou-lhe os ombros com força. 

— Ah, que delícia ouvir você gritar o meu nome desse jeito de novo... — disse 

ele com voz rouca, deitando-se em cima dela. 

— De novo, não. Esta é a nossa primeira vez — sussurrou Anne. 

Patrick  ficou  imóvel,  mas  ela  não  lhe  deu  tempo  de  fazer  nenhuma  pergunta. 

Segurando o membro másculo e rijo com as mãos, murmurou: 

— Quero sentir você dentro de mim... pela primeira vez... 

Delirante de desejo, Patrick ignorou as enigmáticas palavras de Anne e penetrou-

a. Para prolongar ao máximo o momento de prazer, começou a mover-se bem devagar, 
sentindo-se verdadeiramente vivo pela primeira vez em oito anos. 

Quando percebeu que Anne ia alcançar o êxtase de novo, controlou-se ao máximo 

para não acompanhá-la na viagem rumo ao prazer total, a fim de não correr o risco de 
engravidá-la. Só depois que Anne relaxou em seus braços foi que Patrick saiu de dentro 
dela  e,  pressionando  o  sexo  contra  as  coxas  roliças  e  firmes,  permitiu-se  chegar  ao 
orgasmo. 

Minutos  depois,  Patrick  refletiu  sobre  o  que  acontecera.  Já  fizera  amor  com 

Deborah  antes,  mas  nunca  desse  jeito,  com  tanta  urgência  e  paixão...  Virando-se  na 
cama,  fitou-a  com  emoção.  Vasculhou  a  alma  à  procura  da  culpa  que  deveria  estar 
sentindo, mas deparou-se com outro sentimento: amor. 

Céus, estou apaixonado por ela outra vez, pensou, assustado consigo mesmo. 

Anne  viu  que  Patrick  a  fitava  e  sentiu-se  culpada.  Se  não  houvesse  insistido, 

forçado a situação, ele não teria feito amor com ela. Por Deus, como tivera coragem de 
agir com tanto atrevimento? Envergonhada, virou o rosto. 

—  Por  favor,  Deborah,  não  se  arrependa  do  que  fizemos  —  pediu  Patrick, 

acariciando-lhe a nuca. — Por alguma estranha razão, eu não estou arrependido do que 
aconteceu. Talvez eu me sinta culpado quando amanhecer, mas... 

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— Não! — protestou Anne, tornando a encará-lo. — Você não tem motivo algum 

para se arrepender ou sentir-se culpado, pode acreditar. 

— Por que diz isso? Você não pode assumir sozinha a responsabilidade pelo que 

aconteceu. Afinal, se eu não a desejasse tanto, não teríamos feito amor. 

Desejo...  Amor...  Amor!  Esta  última  palavra  ficou  ecoando  na  mente  de  Anne. 

Sim,  ela  amava  Patrick;  sempre  o  amaria.  O  problema  é  que  ambos  pertenciam, 
literalmente,  a  mundos  diferentes.  E  quando  o  inevitável  momento  da  separação 
chegasse, será que ela teria forças para suportar o sofrimento de saber que nunca mais o 
veria? E quanto a Patrick? Como ele se sentiria quando ela desaparecesse sem deixar 
vestígios? 

— Eu não deveria ter seguido você até aqui — declarou Patrick de repente, em 

tom preocupado. 

Anne adivinhou que ele estava pensando em J.B, seu sócio e amigo, e apressou-se 

a dizer: 

— Pare de se torturar. Você não traiu J.B. 

— Não? — retrucou ele, cora um sorriso ao mesmo tempo sarcástico e pesaroso. 

—  Não.  Você  não  o  traiu,  porque  eu  não  sou  a  esposa  de  J.B.  Eu  não  sou 

Deborah! 

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12 

 

—  Ora,  deixe  de  tolices,  Deborah!  —  exclamou  Patrick,  levantando-se  para 

recolher a roupas jogadas no chão. — Tome, vista-se. 

Anne recusou-se a pegar o vestido que lhe estendeu, argumentando: 

— Eu disse a verdade. Não sou a esposa de J.B. E não venha me dizer que nunca 

desconfiou de nada, pois peguei você várias vezes olhando de um jeito esquisito para 
mim e... 

— Eu mandei você se vestir, Deborah. Por favor, obedeça. 

— Não! — protestou Anne aproximando-se dele, fazendo uma careta de dor por 

causa  do  tornozelo  machucado.  —  Não  fuja  da  verdade,  Patrick!  Eu  sei  que  você 
percebeu  algumas  diferenças.  Sei  também  que  viu  o  que  eu  fiz  para  salvar  a  vida 
daquele  vaqueiro  na  Fazenda  101.  Agora  responda,  como  Deborah  poderia  ter  feito 
aquilo? 

—  Você  disse  ao  Dr.  Kenner  que  tinha  visto  um  médico  europeu  socorrer  um 

homem que se acidentou na rua. 

— Pois bem, eu estava mentindo. 

Patrick fitou-a em silêncio por um instante. Em seguida, ao terminar de vestir a 

camisa, declarou: 

— Eu sei que você mentiu. Você nunca viajou para a Europa com J.B. 

— Não? Oh... Então, está vendo? Eu não sou Deborah, e você sabe disso! 

Anne estava sentindo um alívio maior do que imaginara. Ah, como era bom poder 

abrir-se com Patrick... Ainda mais agora, após os momentos de intimidade que haviam 
compartilhado. Teria sido impossível continuar mentindo para ele depois de terem feito 
amor. Além disso, conhecendo a verdade, Patrick não precisaria mais sentir-se culpado 
acreditando que traíra J.B. 

—  Aí  é  que  você  se  engana —  retrucou Patrick,  enquanto vestia  e  abotoava as 

calças.  —  Sei  apenas  que  eu  queria acreditar  que  você  não  era  você  mesma,  só  para 
poder justificar o meu desejo de fazer amor com você outra vez. Por um momento, ao 
ver você entrando aqui na casa de hóspedes, confesso que cheguei mesmo a acreditar 
nessa história maluca. Mas agora... Ambos sabemos que isso é pura fantasia, Deborah. 

—  Tem  certeza?  Então  explique  onde  eu  aprendi  a  fazer  respiração 

cardiopulmonar. 

— Respiração o quê? 

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—  Respiração  cardiopulmonar,  ou  seja,  massagem  cardíaca  combinada  com 

respiração boca a boca. Foi isso o que eu fiz naquele vaqueiro da Fazenda 101. E nem 
Deborah  nem  qualquer  outra  pessoa  da  época  atual  saberia  como  aplicar  esse 
procedimento, porque ele só foi criado depois de mil novecentos e sessenta. 

Patrick encarou-a com uma expressão fácil de decifrar: Ela enlouqueceu de vez. 

— Mil novecentos e sessenta? — repetiu, confuso. 

— Sim. Sei que parece loucura, mas é verdade. O pior de tudo é que Deborah está 

morta. Eu a vi ser assassinada num dos túneis por um homem barbado. 

— Assassinada? 

— Estrangulada, para ser mais exata — explicou Anne, prosseguindo: — Foi o 

medalhão que você deu a Deborah que  me trouxe para o passado. Não sei como isso 
pôde acontecer, sei apenas que de algum modo o retrato de Deborah também teve um 
papel  importante  nessa  viagem  através  do  tempo.  Eu  segurei  o  medalhão  e  toquei  no 
retrato  ao  mesmo  tempo,  e  de  repente...  Abracadabra,  vim  parar  aqui,  na  década  de 
vinte.  É  por isso  que  preciso  recuperar o medalhão.  Só depois  de  encontrá-lo poderei 
voltar para casa. 

— E a sua casa está no futuro? No ano de mil novecentos e sessenta? — indagou 

Patrick, perplexo, sentando-se na beirada da cama. 

— Não, no ano de mil novecentos e noventa e quatro. — Anne suspirou. — Você 

não está acreditando em mim, está? 

—  Para  ser  sincero,  não.  A  meu  ver,  as  possibilidades  são  duas.  Ou  você  está 

mentindo de novo, embora eu não entenda por que resolveu inventar uma história tão 
absurda, ou então a batida que você deu com a cabeça teve conseqüências mais graves 
que um simples caso de amnésia. 

— Eu... admito que menti a respeito disso, Patrick. 

— A respeito do tombo que levou nos túneis? 

— Não, a respeito de estar com amnésia. Só inventei que havia perdido em parte 

a memória para justificar o fato de não saber responder muitas das perguntas relativas 
ao passado de Deborah. Até recuperar o medalhão, eu não podia correr o risco de que 
alguém descobrisse que eu não sou Deborah. 

— Por quê? 

—  Porque  J.B.  ameaçou  me  mandar  para  um  hospício.  Ele  fez  essa  ameaça 

porque  eu,  ou  melhor,  Deborah,  entrou  nos  túneis  acompanhada  por  um  homem. 
Suponho que foi esse homem que assassinou a verdadeira Deborah. — Anne fez uma 
pausa para tomar fôlego e continuou: 

— Parece que Deborah andou irritando J.B. ao longo dos anos, até que finalmente 

ele perdeu a paciência com ela e decidiu interná-la num hospício. Sendo assim, o que 

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você  acha  que  J.B.  faria  se  eu  tentasse  convencê-lo  de  que  não  sou  a  esposa  dele?  E 
evidente  que  J.B.  mandaria  me  internar  o  mais  depressa  possível,  e  daí  eu  jamais 
conseguiria recuperar o medalhão e retornar para o futuro. 

—  Por  Deus,  Deborah,  creio  que  você  perdeu  de  vez  a  razão...  —  murmurou 

Patrick, atônito. 

—  Meu  nome  não  é  Deborah,  é  Anne  Sawyer.  Nunca  fui  casada  com  J.B. 

Também  não  fui  sua  namorada  oito  anos  atrás,  Patrick.  Você  não  traiu  o  seu  sócio  e 
amigo  ao  fazer  amor  comigo,  hoje.  Sendo  assim,  não  permitirei  que  você  se  sinta 
culpado por causa disso. 

Patrick permaneceu calado, imóvel. 

Vendo que não seria capaz de convencê-lo da verdade apenas com palavras, Anne 

decidiu  usar  uma  tática  mais  radical.  Ignorando  a  dor  em  seu  tornozelo,  sentou-se  no 
colo  de  Patrick  e  beijou-o  na  boca,  colocando  todo  o  amor  que  sentia  por  ele  nesse 
beijo. Em seguida, abraçando-o, murmurou: 

—  Eu  não  podia  deixar  que  você  continuasse  acreditando  que  eu  era  Deborah. 

Não  sei  por  que  viajei  no  tempo  e  vim  parar  aqui.  Também  não  sei  por  que  sou  tão 
parecida  com  uma  mulher  da  qual  nunca  tinha  ouvido  falar  antes,  e  não  sei  por  que 
testemunhei o assassinato dela. Sei apenas uma coisa, uma coisa muito importante... 

— O que é que você sabe? 

—  Que  desde  que  vi  você  pela  primeira  vez,  quando  saí  dos  túneis,  me  senti 

atraída  de  imediato.  Ou,  melhor  dizendo,  eu  me  apaixonei  por  você  à  primeira  vista, 
Patrick.  —  Ela  acariciou-lhe  o  rosto  e  sorriu,  antes  de  acrescentar:  —  Existe  algo  de 
muito especial entre nós dois, algo de bom que nos une. Se você não quiser acreditar em 
mais nada do que eu falei, acredite pelo menos nisso: não existe nada de errado ou de 
vergonhoso no nosso relacionamento. 

Soltando um gemido rouco, Patrick abraçou Anne assim que ela terminou de falar 

e beijou-a com paixão. 

Anne  entregou-se  por  completo  ao  intenso  prazer  que  o  beijo  lhe  provocou, 

procurando  não  pensar  no  momento  inevitável  da  separação.  Pedira  a  Patrick  que 
acreditasse na força do sentimento que os unia, mas o relacionamento de ambos seria 
tão breve, tão passageiro... Apenas um instante perdido no tempo... 

Patrick tomou a despir-se e, deitando-se por cima de Anne, tornou a unir o seu 

corpo  ao  dela.  Dessa  vez,  porém,  em  vez  de  paixão  o  rosto  másculo  espelhava 
sofrimento, agonia. Ao perceber isso, Anne ficou com os olhos cheios de lágrimas de 
tristeza. 

— Sinto muito — murmurou Patrick, quando terminaram de fazer amor. — Juro 

que eu queria acreditar que você não é Deborah, mas... 

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— Por favor, não diga mais nada. Ouvir isso de você já é o bastante para mim, 

por enquanto. 

Eles haviam pegado no sono enquanto estavam abraçados. Anne não saberia dizer 

o que a acordou, mas sabia que não podia passar a noite toda ao lado de Patrick, por 
mais que quisesse fazer isso. 

Tomando cuidado para não despertá-lo, soltou-se dos braços dele e saiu da cama. 

Recolheu suas roupas, vestiu-se e, antes de sair do quarto, dirigiu um último olhar ao 
homem adormecido. 

Nesse momento, seu coração se encheu de emoção. Além de atraente e sensual 

Patrick também era sensível e compreensivo, refletiu Anne, lembrando-se da conversa 
que haviam tido antes de adormecerem. 

Ela fizera questão de saber tudo sobre a vida de Patrick antes de ele conhecer J.B. 

e  tornar-se  um  magnata.  Quando  começara  a  falar  Patrick  mostrara-se  meio 
constrangido,  mas  depois  fora  ficando  mais  descontraído  e  contara  episódios  da  sua 
infância, da época em que perdera os pais, dos anos que passara trabalhando na Fazenda 
101. Havia concluído o relato mencionando o curso que fizera na faculdade e o emprego 
que J.B. lhe dera na Ferrovia Munro. 

Patrick  não  perguntara  nada  sobre  o  passado  de  Anne,  mas  mesmo  assim  ela 

havia contado tudo o que lhe acontecera de mais importante na vida. Em seguida, Anne 
falara  das  mudanças  que  aconteceriam  no  mundo.  Patrick  a  ouvira  com  atenção, 
demonstrando curiosidade em relação a coisas como televisores, computadores, viagens 
à Lua, shows de rock, telefones celulares e outras maravilhas tecnológicas. 

Anne suspirou e decidiu que já era hora de voltar para a mansão, antes que J.B. 

desse pela sua falta, saísse à sua procura e a encontrasse ali. 

Ela soprou um beijo na direção de Patrick e foi até a sala da casa de hóspedes. 

Afastando  de  leve  uma  ponta  da  cortina,  olhou  para  fora  pela  janela.  Ainda  estava 
escuro, mas logo amanheceria. Movendo-se tão depressa quanto o tornozelo torcido lhe 
permitia,  seguiu  na  direção  da  porta.  No  meio  do  caminho,  tropeçou  num  livro 
encadernado  em  couro  tingido  de  vermelho,  com  um  coração  dourado  desenhado  na 
capa. Curiosa, abaixou-se. Pegou o livro, abriu-o na primeira página e logo viu que se 
tratava  de  um  diário.  As  primeiras  linhas,  escritas  numa  caprichada  letra  infantil, 
diziam:  Este  diário  pertence  a  Deborah  Richards,  e  foi  um  presente  de  Jonathan 
Bartholomew Munro — 1909. 

Logo abaixo havia um parágrafo: 

Querido  Diário,  hoje  é  meu aniversário. Estou  fazendo dez anos,  e ganhei  você 

de presente do meu novo pai e da minha nova mãe. 

 

Edith,  a  criada  que  costumava  arrumar  os  quartos  em  companhia  de  Katy, 

atravessou a sala na direção da cozinha procurando não fazer nenhum ruído. Estava com 

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fome e pretendia fazer um pequeno lanche. Isso não era crime, era? Claro que não! Mas 
graças às novas regras impostas à criadagem por Simmons, o pomposo mordomo que 
começara  a  trabalhar  na  mansão  há  dois  meses,  Edith  estava  sendo  obrigada  a  se 
esgueirar feito uma criminosa durante a madrugada. 

Antes  da  chegada  de  Simmons,  quando  sentia  fome  durante  a  noite,  Edith  ia 

tranqüilamente até a cozinha e comia à vontade. Não havia problema algum nisso, pois 
sempre  sobrava  muita  comida  depois  dos  fartos  jantares  do  casal  Munro.  O  novo 
mordomo,  porém,  fora  taxativo:  nenhum  empregado  tinha  permissão  para  sair  da  ala 
reservada à criadagem depois de uma certa hora, muito menos para ir até a cozinha fazer 
um lanche. 

Revoltada,  Edith  jurara  a  si  mesma  que  não  obedeceria  as  estúpidas  regras 

impostas  por  Simmons.  Era  só  o  que  faltava!  Além  de  trabalhar  numa  casa  onde  os 
patrões não tinham a menor noção de moral, ainda seria obrigada a passar fome durante 
a noite? De jeito nenhum! 

Ao  passar  diante  de  uma  janela,  Edith  escutou  um  barulho.  Parou  de  andar  e 

prestou  atenção.  Nada.  Deve  ter  sido  imaginação  minha,  pensou.  Já  ia  afastar-se  da 
janela quando avistou uma pessoa atravessando o gramado, vinda da casa de hóspedes. 

— Ora, ora... — murmurou Edith quando reconheceu a figura que se aproximava 

da mansão. — O que será que a Sra. Munro estava fazendo na casa de hóspedes? — A 
criada  sorriu,  maliciosa,  quando  viu  que  a  patroa  estava  toda  despenteada  e  trazia  os 
sapatos nas mãos. — Humm... O que diria o Sr. Munro se visse a esposa nesse estado? 

Edith  pensou  em  Simmons  e  nas  novas  regras  impostas  por  ele.  Em  seguida, 

pensou  no  patrão.  Será  que  o  Sr.  Munro  deixaria  o  mordomo  despedi-la  se  ela  lhe 
contasse que a esposa o andava traindo? 

A empregada concluiu que valia a pena correr o risco, sem dúvida alguma. Ah, 

seria fantástico ver a sua desavergonhada patroa ganhar o castigo merecido! Edith havia 
pensado que Deborah Munro jamais poria os pés na mansão outra vez, depois do que 
acontecera  quatro  anos  atrás.  Imagine  só,  ter  ficado  grávida  de  um  outro  homem  que 
não o próprio marido! O Sr. Munro, porém, limitara-se a manter a esposa afastada por 
tempo  suficiente  para  que  ninguém  soubesse  de  nada...  Mas  Edith  soubera  de  tudo, 
graças à sua mania de escutar a conversa dos patrões escondida atrás das portas. 

Um sorriso maldoso curvou os lábios da criada. Há quatro anos, Deborah Munro 

fora perdoada pelo marido. Mas será que ele a perdoaria agora, se descobrisse que ela 
era amante do Sr. Patrick MacKinnon? 

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13 

 

Ao  ouvir  uma  batida  à  porta  da  sua  suíte,  Anne  fechou  o  diário  que  tinha  nas 

mãos. 

— Quem é? — indagou. 

— Sou eu, Katy. O Sr. Munro me mandou vir chamar a senhora para tomar o café 

da manhã lá em baixo. 

Anne  reparou  pela  primeira  vez  que  um  raio  de  sol  entrava  no  quarto  por  uma 

fresta da cortina, o que significava que já havia amanhecido há algum tempo. Só então 
se deu conta de não havia parado de ler o diário desde que voltara da casa de hóspedes. 
Ah,  e  como  a  leitura  a  enfurecera!  Só  de  pensar  em  encarar  J.B,  depois  de  ter  lido 
algumas das anotações feitas no diário de Deborah, sentia o sangue ferver. 

— Katy, diga a meu marido que prefiro tomar o café da manhã no meu quarto, 

hoje. 

— Sinto muito, senhora, mas o Sr. Munro disse que faz questão absoluta de que a 

senhora desça. O Sr. Wyndham vai embora hoje, e o Sr. Munro quer que a senhora se 
despeça dele. 

Anne resmungou uma praga em voz alta. 

— Desculpe-me, Sra. Munro, mas foi o seu marido que me mandou insistir para 

que a senhora descesse. 

—  Tudo  bem,  Katy,  não  é  com  você  que  estou  zangada.  Pode  dizer  ao  meu 

marido que irei encontrá-lo daqui a pouco, assim que terminar de me arrumar. 

— Sim, senhora. 

Anne  escondeu  o  diário  debaixo  do  colchão  da  cama  e  foi  até  o  banheiro.  A 

imagem  que  viu  refletida  no  espelho  não  a  surpreendeu.  As  olheiras  escuras 
denunciavam que ela havia passado a maior parte da noite acordada. 

E não era para menos! Quem teria sido capaz de dormir depois de ler as coisas 

que Deborah escrevera? Anne ainda não chegara ao fim do diário, mas o que lera até 
agora  já  era  suficiente  para  explicar  por  que  Deborah  se  transformara  numa  mulher 
rebelde,  revoltada.  A  história  da  vida  da  pobrezinha  daria  uma  excelente  tese  de 
doutorado no campo da psicologia! 

Enquanto lavava o rosto, Anne refletiu que promiscuidade era o mínimo que J.B. 

deveria  ter  esperado  depois  do  modo  como  ele  e  sua  primeira  esposa  haviam  tratado 
Deborah. Na opinião de Anne, era um milagre que Deborah não tivesse assassinado J.B. 
por vingança anos atrás. 

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Ao terminar de pentear os cabelos, Anne recordou-se das passagens do diário que 

mencionavam  Patrick  —  as  únicas  passagens  que  a  haviam  feito  sentir  raiva  de 
Deborah. Mesmo tendo tido uma educação deficiente, Deborah não deveria ter tratado 
Patrick com tanta crueldade; afinal, a infância dele também não fora lá muito agradável 
e saudável. 

De  qualquer  modo,  era  J.B.  o  responsável  direto  pelo  que  Deborah  fizera  com 

Patrick. E por isso ele merecia todo o sofrimento que Deborah lhe causara nos últimos 
anos. 

— Ah, aqui está ela, cavalheiros — anunciou J.B, sentado à cabeceira da mesa. 

— Bom dia, Deborah. Você está linda como sempre, se é que me permite um elogio — 
disse ele, ao saudá-la com um gesto de cabeça. 

Isso significa que passei na inspeção?, pensou Anne, irritada, acomodando-se na 

cadeira que o mordomo puxou para ela. Onde estavam os elogios quando Deborah mais 
precisara deles? Por que J.B. nunca elogiara Deborah quando ela ainda era uma menina 
traumatizada  pela  recente  morte  dos  pais,  disposta  a  tudo  para  agradar  a  sua  nova 
família? 

Será que eu sempre vou ter a aparência que tenho hoje, Diário? Espero que não! 

Virgínia vive me dizendo que J.B. sempre reclama das minhas sardas e da cor dos meus 
cabelos. Ah, eu queria tanto que ele me achasse bonita e gostasse de mim! No começo 
até pensei que ele fosse me deixar chamá-lo de "papai". Mas que homem gostaria de ter 
uma filha feiosa como eu? 

— Não precisa mentir, J.B, sei que estou com uma aparência péssima — retrucou 

Anne,  por  fim,  enquanto  se  servia  de  suco  laranja.  —  Oh,  mas  onde  estão  as  minhas 
boas maneiras? Obrigada pelo falso elogio, querido. E, se permite dizer, você está muito 
atraente, como sempre — acrescentou, sarcástica. 

J.B. arregalou os olhos, chocado. Harrison Wyndham pigarreou, constrangido, e 

Patrick fitou Anne com curiosidade. 

— Não seja modesta, Sra. Munro. O seu marido tem razão, a senhora está muito 

bonita — afirmou Wyndham, tentando desanuviar a tensão ambiente. — A propósito, 
ainda  há  pouco  eu  dizia  a  J.B.  que  a  senhora  será  uma  excelente  representante  de 
Oklahoma junto às esposas dos homens de negócios que virão fazer investimentos aqui 
no Estado. 

— O senhor acha, mesmo? 

—  Sim,  Deborah.  Harrison  decidiu  aconselhar  os  clientes  do  banco  a  investir 

dinheiro em Oklahoma. A cidade de Munro, em especial, seria o ponto de partida ideal 
para a expansão dos negócios de muitos homens importantes — explicou J.B, dirigindo-
lhe um olhar do tipo "comporte-se bem, caso contrário eu te esgano!" Em seguida, ele 
comentou com o banqueiro: — Pensei em promover apresentações de música e jogos de 
bridge  para  divertir  as  esposas  dos  seus  clientes,  Harrison.  Deborah  é  uma  excelente 
jogadora de bridge... Não é mesmo, querida? 

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Querido  Diário,  você  é  meu  único  confidente!  Sou  uma  menina  horrível,  um 

fracasso completo aos olhos do meu  tutor. Todo mundo na cidade de Munro o adora, 
claro, e eu também o adoro. O problema é que não sei me comportar em sociedade! Por 
mais que eu me esforce, só o que consigo é deixar J.B. e Virgínia embaraçados! Outro 
dia ouvi J.B. dizer a Virgínia que nunca serei uma boa anfitriã... a menos que a festa seja 
na estrebaria e que os convidados sejam cavalos. Ah, que tristeza... Já estou morando há 
dois anos com J.B. e Virgínia, e a única coisa que aprendi foi cavalgar direito. 

— Errado, J.B. Você sabe muito bem que odeio jogar bridge — alfinetou Anne, 

nem um pouco disposta a deixar passar em branco a oportunidade de vingar Deborah. 
—  Será  que  as  esposas  dos  seus  clientes  sabem  andar  a  cavalo,  Sr.  Wyndham?  — 
indagou a seguir, em tom doce. — Cavalgar é a única coisa que eu sei fazer direito. 

Patrick quase engasgou de susto diante das palavras de Anne, e J.B. ficou roxo de 

raiva  e  vergonha.  Fingindo  não  notar  os  esforços  dela  para  irritar  J.B,  Wyndham 
limitou-se a responder: 

—  Algumas  das  esposas  devem  saber  cavalgar,  sim.  E  as  que  não  souberem 

certamente  gostarão  de  aprender.  A  senhora  deve  ser  uma  excelente  professora  de 
equitação, eu suponho. 

J.B.  pareceu  relaxar  um  pouco  ao  ouvir  a  resposta  do  banqueiro,  mas  nem  por 

isso deixou de fitar Anne com ar de censura. 

Ela o encarou de volta, sem se deixar intimidar. Pretendia fazê-lo pagar por todas 

as  vezes que  magoara  Deborah,  abalando  a  autoconfiança  da  jovem  com  observações 
ferinas, irônicas, maldosas. Vá em frente, J.B, pensou Anne. Continue a me provocar e 
irritar, se quiser. Estou tão furiosa que sou até capaz de estragar o bom relacionamento de 
negócios que você  estabeleceu  a  duras  penas  com  Wyndham.  E  não  sentirei  o  menor 
remorso! 

J.B. tossiu de leve e tornou a voltar a sua atenção para o banqueiro de Boston. 

—  Oh,  sim,  Deborah  é  uma  excelente  amazona,  Harrison.  Foi  ela  que  ensinou 

Patrick a cavalgar puros-sangues... Não é verdade, querida? 

— Sim, é verdade, J.B. 

Nesse  momento,  o  olhar  de  Anne  encontrou  o  de  Patrick.  Ele  não  deixou 

transparecer  nenhuma  emoção,  mas  Anne  sabia  que  Patrick  estava  se  lembrando  das 
aulas de equitação que Deborah lhe dera. Fora J.B. quem havia sugerido que Deborah o 
ensinasse  a  montar  puros-sangues  e,  no  decorrer  das  aulas,  Patrick  se  apaixonara  por 
ela. 

Deborah tinha dezessete anos, na época. Virgínia, a primeira esposa de J.B, havia 

morrido há pouco mais de um ano. Pelo que Anne lera no diário, a essa altura Deborah 
já  tinha  tanto  desprezo  por  si  mesma  que  tornara-se  incapaz  de  amar  alguém.  Certas 
pessoas  guardavam  o  ódio  que  sentiam  dentro  de  si,  mas  com  Deborah  acontecia  o 
oposto. Ela era do tipo que externava suas emoções negativas, e ai de quem estivesse 

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por perto! No entanto, bem lá no fundo, apesar de todo o sofrimento que Virgínia e J.B. 
lhe  haviam  causado,  Deborah  continuara  ansiando  pela  atenção  e  pela  aprovação  do 
tutor. 

Mesmo quando ficou óbvio que J.B. jamais aprovaria o jeito de ser de Deborah, a 

jovem  continuou  insistindo  em  chamar-lhe  a  atenção,  usando  Patrick  como  arma. 
Deborah sabia que J.B. ficaria furioso quando descobrisse que ela estava tendo um caso 
com o rapaz do qual ele tanto gostava. 

Aconteceu o que eu previa, Diário. J.B. descobriu tudo. Você nunca acreditou que 

ele descobriria, não é mesmo? 

Imagino até que você pensou que J.B. iria ignorar o caso, como ignorou todas as 

minhas outras "escapadelas". Mas  dessa vez foi diferente! Ah, o meu plano funcionou 
direitinho...  Amo  J.B.  há  muito  tempo,  Diário,  e  queria  que  ele  me  amasse  também. 
Virgínia já morreu, J.B. precisa de uma nova esposa. E eu serei essa esposa, espere só 
para ver! Jurei a mim mesma que mudarei o meu comportamento. Serei o tipo de mulher 
da qual J.B. precisa, Patrick MacKinnon é o "filho" que ele nunca teve — eu o ouvi dizer 
isso várias vezes. Eu sabia que se ameaçasse fugir com Patrick, J.B. faria qualquer coisa 
para me impedir. E foi o que aconteceu. 

— Bem, preciso ir — disse Wyndham, depois de checar as horas no relógio de 

ouro, que tirou do bolso do colete. — Pode fazer a gentileza de pedir ao seu motorista 
que me leve até a estação ferroviária. J.B? 

—  Esqueça  o  motorista,  Harrison,  eu  mesmo  faço  questão  de  levar  você  até  a 

estação.  No  caminho,  aproveitaremos  a  chance  para  marcar  a  data  da  minha  primeira 
viagem a Boston. 

—  Combinado.  —  O  banqueiro  sorriu  e  dirigiu-se  a  Anne.  —  Foi  um  prazer 

conhecê-la, Sra. Munro. Eu gostaria de lhe agradecer por ter me hospedado em sua casa 
e ter transformado a minha estada aqui num interlúdio tão encantador. 

— Não precisa agradecer, Sr. Wyndham. O prazer foi todo meu — respondeu ela, 

retribuindo o sorriso. 

Harrison  Wyndham  assentiu e  saiu da sala.  Antes de ir  atrás dele,  J.B. encarou 

Anne com ar feroz e murmurou, por entre os dentes: 

— Quero ter uma conversinha com você quando voltar da estação, Deborah. 

Oh,  ótimo!  Talvez  ela  houvesse  exagerado  na  grosseria  com  que  tratara  J.B.  à 

mesa. Mas e daí? Ela estava pouco se lixando! 

Anne observou Patrick limpar a boca o guardanapo e lhe fazer um discreto sinal 

para permanecer calada. 

Poucos  minutos  depois  ambos  ouviram  o  barulho  da  porta  da  frente  sendo 

fechada, e começaram a falar ao mesmo tempo. 

— Precisamos conversar... 

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— Tenho de lhe contar o que... 

Anne calou-se e sorriu para Patrick, sentindo um prazer inexplicável pelo simples 

fato  de  estar  sozinha  com  ele  na  sala.  Toda  a  sua  raiva  desapareceu  como  que  por 
encanto. Ah, como gostaria de poder realizar o sonho impossível de ter um longo futuro 
ao lado de Patrick! Dias, meses, anos na companhia dele... 

— Sim, precisamos conversar — disse ela, por fim. — Mas não aqui. Vá até a 

casa de hóspedes. Irei encontrá-lo daqui a pouco, depois de pegar uma coisa que quero 
lhe mostrar. 

 

Franklin  Thomas  viu  o  Packard  atravessar  os  portões  da  mansão.  J.B.  Munro, 

pensou  ele,  reconhecendo  o  homem  que  dirigia  o  automóvel.  Uma  nuvem  de  ódio 
invadiu-lhe a mente. 

Dizia-se que Munro podia comprar a colaboração e o silêncio de qualquer homem 

no Estado de Oklahoma, e Franklin descobrira há pouco tempo, através do seu pai, que 
isso  era  verdade.  Afinal,  sua  própria  família  fora  uma  vítima  do  poder  do  famoso 
magnata. Franklin imaginara que a decisão de mudar para o Estado do Kansas partira do 
seu pai, mas descobrira que estava enganado. Na verdade, J.B. Munro havia exigido que 
a família Thomas fosse embora de Oklahoma. 

Se Franklin tivesse agido apenas pelo desejo de vingança, teria assassinado J.B. 

também,  e  não  apenas  Deborah.  Mas  parecia  que  a  vagabunda  continuava  viva,  e 
Franklin  queria  justiça.  Não  vingança,  só  justiça.  Ele  olhou  na  direção  da  mansão, 
frustrado  consigo  mesmo  por não ter  feito  o  trabalho  direito. Agora  teria de  partir  do 
ponto  zero,  outra  vez.  Na  noite  da  festa  Franklin  entrara  na  mansão  misturado  a  um 
grupo  de  convidados,  e  não  encontrara  a  menor  dificuldade  para  aproximar-se  de 
Deborah e convencê-la a acompanhá-lo. Tudo o que precisara fazer fora mencionar os 
nomes de Henry e da criança. 

Mas agora a vagabunda já sabia quem ele era, e não cairia na armadilha outra vez. 

A única opção de Franklin, no momento, era ficar à espreita, observando. Mais 

cedo ou mais tarde Deborah Munro acabaria saindo da mansão. Então ele atacaria. E, 
dessa vez, não cometeria nenhum erro. 

 

— Pode me explicar por que ficou provocando J.B. à mesa do café da manhã? 

Anne  fechou  a  porta  da  sala  da  casa  de  hóspedes,  desviou-se  dos  livros  que 

continuavam caídos no chão e aproximou-se do sofá onde Patrick estava sentado. 

—  Bom  dia  para  você  também,  meu  querido  —  disse  ela  com  um  sorriso, 

deixando o diário de Deborah em cima da mesinha de centro. 

Sentando-se ao lado de Patrick, beijou-o na boca, acariciando-lhe os lábios com a 

língua. Ele correspondeu ao beijo com paixão, mas logo em seguida perguntou, tenso: 

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— Como você consegue ficar tão calma? Depois do que fizemos ontem à noite... 

— Eu já disse, nós não fizemos nada de errado — interrompeu-o Anne. — Além 

disso, aprendi a ser boa atriz nos últimos dias. Eu não estou calma, apenas pareço estar 
calma. 

— Do meu ponto de vista você não bancou a boa atriz agora há pouco, quando 

fez de tudo para irritar J.B. 

— Oh, naquele momento eu não estava a fim de parecer calma. Eu estava mesmo 

furiosa com J.B, depois de ter dado uma olhada nisto aqui. — Anne entregou a Patrick o 
livro com o coração dourado desenhado na capa, explicando: — Eu o encontrei no chão 
ontem à noite, antes de ir embora. Deborah deve tê-lo escondido no fundo da prateleira 
mais alta da estante, e quando eu derrubei os outros livros ele caiu junto. Vamos, leia a 
primeira página... Patrick fez o que ela pediu e depois fitou-a, surpreso. 

— Este é o seu diário? 

Anne suspirou. 

— Não, é o diário de Deborah. Tudo o que ela viveu desde que veio  morar na 

mansão sob a tutela de J.B. e Virgínia está relatado aí. 

— E...? 

—  E  foi  por  isso  que  fiquei  tão  furiosa.  O  diário  revela  em  detalhes  o  modo 

traumático como Deborah sempre foi tratada na mansão, especialmente por J.B. Não era 
à toa que Deborah tinha um comportamento tão promíscuo e rebelde. Depois dos abusos 
emocionais que sofreu, era óbvio que a coitada tinha de ficar traumatizada e... Ei, o que 
foi? Por que está me olhando desse jeito, Patrick? 

— Porque não entendi o que você disse. O que significa "traumático" e "abuso 

emocional"? Conheço as palavras, claro, mas não nos contexto em que você as utilizou. 

—  Oh,  esses  são  termos  comumente  usados  pelos  psiquiatras  e  psicólogos  dos 

anos noventa. "Traumático" é tudo o que causa um trauma, ou seja, um choque violento 
capaz  de  desencadear  perturbações  psíquicas.  E  "abuso  emocional"  é  o  que  você 
chamaria  de  "maus-tratos".  Foram  feitas  muitas  descobertas  importantes  sobre  o 
comportamento  humano  desde  os  primeiros  estudos  realizados  por  Sigmund  Freud, 
Patrick. Uma dessas descobertas diz que ninguém pode abusar emocionalmente de uma 
criança,  tratando-a  como  se  não  valesse  nada,  e  depois  esperar  que  ela  se  transforme 
numa pessoa adulta feliz e bem ajustada. 

—  Não  concordo  quando  você  fala  em  "abuso".  J.B.  e  Virgínia  receberam 

Deborah... 

Anne encarou-o, surpresa, e Patrick apressou-se a corrigir o que dissera. 

— Eu me refiro a você, claro. J.B. e Virgínia receberam você na mansão depois 

que os seus pais morreram. Você sempre teve tudo o que quis. Um lar, roupas bonitas 
para vestir, cavalos puros-sangues para montar... 

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— E quanto a amor, Patrick? J.B. e Virgínia nunca deram amor a Deborah, e era 

disso que  ela  mais  precisava.  A  pobrezinha  não teve  culpa  de  ter  ficado  órfã,  mas  os 
dois  a  trataram  como  se  ela  não  passasse  de  um  presente  de  grego.  Eles  tentaram 
transformá-la em algo que ela não era, e depois a culparam por ser revoltada. 

— Parece que os homens e mulheres do seu tempo nunca são responsáveis pelas 

próprias  ações,  se  tudo  o  que  eles  fazem  ou  são  é  por  culpa  das  pessoas  que  os 
maltrataram na infância. 

— Não é bem assim. Na verdade a questão é um pouco mais complicada que isso 

e...  —  Anne  calou-se  de  repente  ao  se  dar  conta  do  que  Patrick  acabara  de  falar. 
Eufórica, exclamou: — Ei, você disse "os homens e mulheres do seu tempo"! Por acaso 
isso significa que você está acreditando em tudo o que lhe contei ontem? 

— Prefiro dizer apenas que a sua história começa a me parecer possível. Quanto 

mais  ouço  você  falar,  mais  fica  fácil  para  eu  acreditar  que  você  veio  de  algum  lugar 
muito  diferente  daqui.  Por  outro  lado,  quando  olho  para  você  vejo  uma  mulher  que 
conheço há anos, e daí fica difícil para eu pensar que... 

Anne  o  interrompeu  com  um  rápido  beijo,  satisfeita  com  o  que  acabara  de 

escutar. Era um bom começo, refletiu ela. Mesmo que no fim Patrick não fosse capaz de 
acreditar totalmente na sua estranha história, já era um grande consolo saber que ele não 
pensaria nela apenas como Deborah. 

— Tudo bem, eu compreendo — murmurou Anne, por fim. — Afinal, às vezes 

até eu acho difícil acreditar no que aconteceu comigo. 

Patrick assentiu com um gesto de cabeça e indicou o diário, indagando: 

— Por que você achou que seria importante me mostrar isto? 

— Bem, eu ainda não li tudo o que está escrito, mas espero encontrar uma pista 

que  me  ajude  a  descobrir  quem  matou  Deborah.  Tenho  a  sensação  de  foi  por  este 
motivo que viajei no tempo e vim parar aqui. Quero dizer, deve existir uma razão lógica 
para o que aconteceu comigo, não é mesmo? Eu me lembro de algo que J.B. falou.. Que 
um dia eu saberia por que ele sentia tão grato em relação a mim... Até encontrar o diário 
de Deborah eu não tinha parado para pensar no assunto, estava preocupada apenas em 
voltar para o futuro. 

—Agora você me confundiu de vez. Do que está falando? 

—  Oh,  desculpe.  Ontem  à  noite  eu  não  lhe  contei  exatamente  como  vim  parar 

aqui, contei? 

— Você mencionou algo a respeito do medalhão e do retrato, mais nada. 

— Nesse caso, deixe-me contar-lhe o resto. Eu encontrei J.B. pela primeira vez 

na minha época. 

— O quê?! 

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— Sei que parece absurdo, Patrick, mas J.B. Munro irá viver até os cento e sete 

anos de idade. De qualquer modo, a minha unidade... Você se lembra que eu lhe contei 
que  sou  para-médica,  não  lembra?  Pois  então,  a  minha  unidade  foi  chamada  para 
socorrer J.B, que havia sofrido um ataque cardíaco. Eu nunca o tinha visto antes, mas 
ele  me  reconheceu.  A  princípio  J.B.  me  confundiu  com  Deborah  e  me  pediu  perdão. 
Pensei que ele estivesse desorientado por causa da dor e da idade avançada. Mas depois 
J.B. disse que não, que eu não era Deborah, que eu era a "outra". E daí ele me chamou 
de Anne. 

Patrick permaneceu em silêncio, e Anne prosseguiu: 

—  J.B.  foi  levado  para  o  hospital,  mas  não  conseguiu  sobreviver  até  o  dia 

seguinte... Antes de morrer, porém, ele pediu a uma enfermeira que me dissesse, que um 
dia eu saberia por que ele se sentia tão grato em relação a mim. 

— A meu ver, se você o socorreu quando ele estava passando mal, era óbvio que 

ele lhe seria grato. O que há de estranho nisso? — observou Patrick. 

— O estranho é que ele já sabia o meu nome, sem que eu nunca o tivesse visto 

antes! No fim, acabei considerando o fato uma  mera coincidência. Quem sabe, talvez 
J.B.  houvesse  conhecido  alguma  Anne  no  passado...  E  então,  meses  mais  tarde,  a 
mansão foi aberta à visitação pública. 

— A visitação pública? 

— Sim. J.B. deixou a mansão de herança para a cidade, pois não tinha herdeiros 

diretos.  A  guia  turística  que  acompanhou  o  meu  grupo  durante  a  visita  nos  contou  a 
história  do  assassinato  de  Deborah.  E  adivinhe  quem  foi  considerado  o  principal 
suspeito do crime? 

— Não faço a menor idéia. 

— Foi você. 

—  Eu?!  —  Patrick  ficou  de  pé  num  pulo.  —  Por  Deus,  eu  não  assassinei 

Deborah! Por que alguém pensaria que... Oh, céus, o que estou dizendo? 

— Eu sei, eu sei... Você não pode acreditar que isso aconteceu porque, se eu sou 

Deborah,  então  não  houve  assassinato  nenhum.  Mas  o  crime  realmente  aconteceu,  eu 
juro! E você foi considerado suspeito porque diziam que na época você e Deborah eram 
amantes. 

— Imagine! Deborah e eu, amantes? Nunca! 

—  O  fato  é  que  você  desapareceu  logo  depois  que  o  corpo  de  Deborah  foi 

encontrado numa caverna dentro dos limites da propriedade. E nunca mais ninguém viu 
você outra vez. 

Enfiando as mãos nos bolsos da calça, Patrick andou de um lado para outro na 

sala e depois parou perto da janela. 

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Embora  ele  estivesse  de  costas,  Anne  percebeu  pela  postura  do  corpo  másculo 

que ele estava tenso, nervoso. 

Depois  de  alguns  minutos,  Patrick  virou-se  para  encará-la.  Ao  ver  a  dor 

estampada nos olhos dele, Anne desejou nunca ter lhe falado sobre o futuro. Mas fora 
obrigada a falar, pois precisava da ajuda de Patrick para cumprir a missão que parecia 
ser a razão da sua viagem no tempo. 

Anne  recordou-se  da  conversa  que  tivera  com  os  pais  naquele  fatídico  dia  dos 

anos  90,  antes  de  sair  para  visitar  a  mansão  Munro.  Seus  pais  haviam  dito  que  ela 
precisava ter vida própria... Que ironia! Ali estava ela, agora, sendo obrigada a viver a 
vida de outra mulher! 

Anne  levantou-se  do  sofá  e  aproximou-se  do  homem  pelo  qual  se  apaixonara 

perdidamente. A idéia de que não teria uma vida inteira para passar ao lado dele partia-
lhe o coração em milhares de pedaços. 

—  Patrick,  eu  não  lhe  contei  tudo  isso  só  para  magoá-lo  —  murmurou  ela, 

acariciando-lhe o rosto. — Oh, eu sei o que você está pensando. Deve ser algo do tipo 
"como posso ficar magoado se tudo o que ouvi não passa de um produto da imaginação 
de Deborah?" Mas a história que lhe contei é a mais pura verdade, Patrick, e no fundo 
você sabe disso, não sabe? 

— Eu... eu quero acreditar em você, mas... 

— Por favor, me escute. Encontrar o diário me ajudou a entender o que aconteceu 

comigo. Não foi só por causa de Deborah. Foi por sua causa que viajei no tempo e vim 
parar aqui, Patrick. 

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14 

 

Patrick não conseguiu decidir se continuava ouvindo, se ia embora enquanto a sua 

sanidade mental ainda estava intacta, ou se mandava Deborah — ou Anne? — sumir da 
sua frente. No fim, limitou-se a fitá-la sem dizer nada, observando os olhos de um tom 
de verde mais escuro que o normal e que eram a única evidência física de que ela podia 
estar falando a verdade. 

Por Deus, como queria acreditar na história maluca que acabara de escutar... Mas 

como poderia? E agora, para piorar a situação, ela estava afirmando que a "viagem no 
tempo" acontecera por causa dele! 

—  Por  que  você  acha  que  é  por  minha  causa  que  veio  parar  aqui?  —  indagou 

Patrick, por fim, vencido pela curiosidade. 

— Porque isso é a única coisa que faz sentido, se pensarmos com um pouco de 

lógica — argumentou Anne. 

— Sentido? Lógica? 

— Oh, está bem, talvez eu não tenha escolhido as palavras mais adequadas para 

explicar o caso. Mas já que você ouviu o que eu tinha a dizer até agora, por que não tem 
mais um pouco de paciência e termina de escutar as minhas loucuras? 

Patrick franziu a testa. Talvez a mulher à sua frente não fosse mesmo Deborah, 

quem  sabe?.  Afinal,  Deborah  Munro  nunca  tivera  muito  senso  de  humor.  Ela  não 
costumava  brincar,  e  às  vezes  até  se  irritava  quando  ele  tentava  fazê-la  rir.  Patrick 
gostou do sorriso que viu nos lábios da mulher ruiva, um sorriso que fazia os olhos dela 
brilharem. Olhos mais escuros do que deveriam ser, repetiu para si mesmo. 

—  Tudo  bem,  pode  falar.  Prometo  escutar  com  atenção  —  concordou  ele, 

sorrindo também. 

— Oh! — murmurou Anne, encantada, acariciando-lhe os lábios com a ponta dos 

dedos. — Gosto tanto quando você sorri... Mas você não faz isso com muita freqüência, 
não é mesmo? 

Acho que não, pensou Patrick. Afinal, que motivos tivera para sorrir nos últimos 

anos? Ganhar cada vez mais dinheiro? Aumentar cada vez mais o império econômico de 
J.B. Munro? 

— Tem razão, não costumo sorrir muito — respondeu em voz alta. 

— Sendo assim, vou considerar uma façanha histórica o fato de tê-lo feito sorrir. 

Patrick beijou-lhe as mãos, declarando com voz rouca: 

— Realmente, foi uma façanha. 

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Não importava se essa mulher que dizia se chamar Anne era ou não uma Deborah 

diferente,  mudada.  Só  o  que  importava  era  que  ele  a  amava.  Talvez  estivesse 
enlouquecendo ao admitir isso, mas nesse caso a loucura não era algo tão ruim quanto 
sempre imaginara que fosse. 

De repente, Anne soltou uma exclamação abafada. 

— O que foi? — indagou Patrick. — Algum problema? 

— Não, eu apenas... Isto é... Corrija-me se eu estiver errada, mas se o modo como 

você  estava  olhando  para  mim  há  poucos  segundos  significa  o  que  eu  penso  que 
significa... Então... 

— Então o quê? — perguntou ele, tornando a sorrir. Sorrir por causa do jeito que 

ela  estava  falando,  sem  terminar  nenhuma  frase;  por  causa  do  jeito  como  ela  havia 
enrubescido. E também porque era bom sorrir outra vez. 

— Então eu... eu também te amo. 

Patrick abraçou-a com força e murmurou, emocionado: 

—  Você  entendeu  certo  o  meu  olhar.  Eu  te  amo,  sim,  e...  Ei,  por  que  está 

chorando? 

—  Oh,  é  horrível...  Quero  dizer,  é  maravilhoso,  mas  é  horrível  também  — 

soluçou  Anne.  —  Eu...  eu  sempre  quis  encontrar  um  homem  como  você,  e  estava 
mesmo precisando de uma vida nova. Agora aqui está você, e eu tenho uma vida nova. 
O problema é que essa é a vida de outra mulher! Não posso continuar fingindo que sou 
Deborah e nem posso ficar com você para sempre. Terei de voltar para o futuro assim 
que  terminar  de  cumprir  a  missão  que vim  realizar  aqui,  embora  ainda  não saiba que 
missão é essa e... Droga, isso não é justo! 

Patrick  enxugou-lhe  as  lágrimas,  sem  saber  o  que  dizer  para  confortá-la.  Toda 

essa  história  de  viver  a  vida  de  outra  mulher,  viajar  no  tempo  e  cumprir  uma  missão 
misteriosa...  Tudo  isso  era  loucura,  não  era?  De  repente,  ele  entrou  em  pânico.  E  se 
fosse tudo verdade? Não iria querer perder a mulher amada para sempre! 

— Acalme-se, querida, por favor. Eu também não quero perder você — declarou 

Patrick. — E para ficarmos juntos para sempre, só há uma solução: contar a J.B. sobre 
nós dois. 

—  Não!  Perdeu  o  juízo,  por  acaso?  Você  não  pode  contar  nada  a  J.B!  — 

protestou Anne, alarmada. 

— É claro que posso. Ou melhor, devo. Eu já o traí, e não quero piorar a situação 

escondendo a verdade dele. J.B. não merece isso. 

— Mas... 

— Não precisa se preocupar, querida. Acho que J.B. concordará com a idéia de 

lhe  conceder  o  divórcio.  Desse  modo  a  sua  versão  da  história  irá  se  transformar  em 

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realidade,  pois  pretendo  ir  embora  de  Oklahoma  com  você  e  ninguém  aqui  me  verá 
outra vez. Então, nós poderemos ficar juntos para sempre. 

— Patrick, eu já lhe disse mais de uma vez, não sou casada com J.B, portanto não 

posso me divorciar dele. E você não o traiu, entendeu? Além disso, essa não é a minha 
versão da história, é o que realmente aconteceu! — retrucou Anne, a tristeza substituída 
pela raiva. Tomando fôlego, prosseguiu: — O diário de Deborah pode me fornecer as 
peças  que  faltam  para  terminar  de  montar  o  quebra-cabeça.  Ela  não  escreveu  apenas 
sobre você, J.B. e Virgínia, escreveu também sobre outras pessoas, amigas e inimigas. 
Não tive tempo de ler o diário até o fim porque J.B. mandou me chamar para o café da 
manhã. Mas acredito que, quando acabar a leitura, terei encontrado uma pista do homem 
que  assassinou  Deborah.  Livrarei  você  de  qualquer  suspeita  relacionada  ao  crime,  e 
você  não  precisará  se  mudar  para  outra  parte  qualquer  do  país,  fugido  da  polícia  — 
finalizou ela. 

—  Você  acha  que  é  essa  a  sua  missão,  aqui?  Descobrir  a  identidade  de  um 

assassino? 

— Creio que sim. Senão, a troco de que eu teria vindo para o passado? A minha 

viagem no tempo não foi um mero acidente. As coincidências são muitas. 

— Que coincidências? 

— A primeira delas é o fato de eu ser parecidíssima com Deborah, embora não 

sejamos parentas. E quanto ao medalhão de ouro? Você deu a Deborah uma jóia que era 
da sua mãe, certo? 

— Sim. 

— Pois no ano de mil novecentos e noventa e quatro, o medalhão foi parar nas 

minhas  mãos.  Eu  nasci  quarenta  e  um  anos  depois  de  Deborah  ter  morrido,  e  acabei 
ganhando da minha mãe uma jóia relacionada a você. Além disso, conheci J.B. horas 
antes  de  ele  morrer.  E  J.B.  pediu  a  uma  enfermeira  que  me  dissesse  que  um  dia  eu 
saberia por que ele se sentia grato em relação a mim. 

— Essa coincidência é fácil de explicar — observou Patrick. — Como eu já falei 

antes, se foi você que socorreu J.B. quando ele passou mal, é óbvio que... 

Anne o interrompeu, categórica: 

—  Aí  é  que  você  se  engana!  Lendo  o  diário  de  Deborah,  descobri  que  você 

sempre  foi  importante  para  J.B,  como  o  filho  que  ele  nunca  teve.  Por  essa  razão, 
acredito que J.B. era grato a mim por eu ter descoberto quem matou Deborah. Eu vi o 
assassino, Patrick, sou a única pessoa que pode identificá-lo! Se eu entregá-lo à polícia, 
você ficará livre de qualquer suspeita. 

— Deborah... 

— Anne. O meu nome é Anne! 

— Está bem... Anne. 

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Ela sorriu, murmurando: 

— Ah, se você soubesse quantas vezes sonhei com o momento em que você me 

chamaria pelo meu nome... Obrigada. Você acaba de me fazer muito feliz. 

Patrick beijou-a de leve no rosto, afirmando: 

— Alegro-me por tê-la feito feliz,  mas isso não muda nada, Anne. Mesmo que 

você  descubra  quem  é  o  tal  assassino,  irei  embora  de  Oklahoma.  Há  tempos  venho 
pensando  no  assunto,  e  agora  tenho  certeza  de  que  essa  é  a  melhor  decisão  a  tomar. 
Vamos, venha comigo. 

 

Edith não conseguiu decifrar a expressão no rosto de J.B. Munro. Ele não ficara 

furioso  com  a  notícia  de  que  a  esposa  o  traía  com  seu  sócio  e  amigo,  como  a  criada 
havia imaginado, mas também não entrara em desespero. Além da cicatriz em forma de 
"C" que começara a pulsar sem parar, J.B. Munro não esboçara a menor reação. 

Edith tentou adivinhar o que significava a aparente apatia do patrão. Talvez ele 

não  houvesse  acreditado  no  que  ouvira  e  estivesse  prestes  a  mandá-la  para  o  olho  da 
rua...  A  criada  torceu  as  mãos,  nervosa.  Embora  vivesse  reclamando  de  trabalhar  na 
mansão, sabia que não encontraria outro emprego onde o salário fosse tão bom.  

J.B.  esfregou  a  cicatriz  com  a  ponta  dos dedos  e  abriu uma  das  gavetas  de  sua 

mesa de trabalho. 

Edith engoliu em seco e balbuciou: 

— Sr. Munro... Espero que... que o senhor não me despeça por causa do... do que 

lhe contei. Eu... 

J.B.  interrompeu  a  fala  da  criada  com  um  olhar  gélido.  Em  seguida,  tirou  da 

gaveta um bloquinho com capa de couro. Abriu-o e começou a escrever algo numa das 
folhas  internas.  Será  que  ele  está  preenchendo  um  cheque?,  perguntou-se  Edith,  em 
pensamento. Pelo que os outros empregados da mansão lhe haviam contado, J.B. Munro 
estava sempre pagando alguém para ficar de boca fechada em relação a um escândalo 
ou outro. 

É uma sorte que o patrão seja rico, refletiu  Edith;  afinal, com a mulher que ele 

tem...  Satisfeita  consigo  mesma  e  com  a  perspectiva  de  ganhar  um  dinheiro  extra,  a 
criada comentou; 

— Fique tranqüilo, Sr. Munro, sei guardar um segredo quando necessário. 

— Sabe mesmo? 

— Sim, senhor. Quando é preciso, sei ficar de boca fechada. 

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Ao  terminar  de  falar  Edith  esticou  o  pescoço,  tentando  ver  quanto  valia  o  seu 

silêncio. Ao ler o valor do cheque, arregalou os olhos. Uma fortuna! O patrão iria lhe 
dar uma fortuna! Ah, como era sortuda! 

—  Aqui  está  —  disse  J.B,  entregando  o  cheque  à  criada.  —  Muito  bem,  agora 

você tem uma hora para fazer as malas e pegar um trem para bem longe de Munro. 

Edith ficou perplexa. 

— O senhor quer que eu vá embora da cidade? Mas... Eu não tenho parentes nem 

amigos em outro lugar. Vivo em Munro desde que nasci e... 

— Com o dinheiro que estou lhe dando você poderá comprar amigos em qualquer 

lugar do mundo. 

— Mas... Por favor... 

— Uma hora, Edith. A menos, é claro, que você queira devolver o cheque. 

— Não! Não, eu... Humm... Já estou indo, senhor. 

—  Ótimo.  Estamos  combinados,  então.  Em  troca  do  cheque,  você  guardará 

segredo  da  história  que  me  contou.  No  entanto,  para  o  caso  de  você  decidir  que  não 
consegue ficar de boca fechada, quero que desapareça da minha cidade. 

 

—  O  Sr.  Munro  irá  recebê-lo  agora,  Sr.  MacKinnon  —  disse  o  mordomo, 

Simmons, abrindo a porta. 

Patrick  respirou  fundo  e  entrou  no  escritório.  Houvera  um  tempo  em  que 

defrontar J.B. o enchia de apreensão. Agora, porém, era apenas a sensação de culpa pelo 
que  acontecera  na  noite  passada  que  o  perturbava.  Tinha  de  contar  a  J.B,  e  agora, 
mesmo que Deborah — ou Anne? — fosse outra. 

Ao  olhar  para  J.B,  que  estava  sentado  à  mesa  de  trabalho,  Patrick  assustou-se 

com a expressão de raiva que viu no rosto do sócio e amigo. Havia se preparado para 
enfrentar  a  fúria  de  J.B,  claro,  mas  depois  de  contar  o  que  acontecera,  e  não  antes.. 
Maldição! Quem teria contado a J.B? 

— Você já sabe, não é? — perguntou Patrick. 

— Sim. Foi uma das criadas que me contou. Ela viu Deborah saindo da casa de 

hóspedes  durante  a  madrugada  —  respondeu  J.B.  De  repente,  sua  raiva  pareceu 
transformar-se  em  pesar.  —  Eu  esperava  que  você  desmentisse  tudo.  Quando  o 
mordomo disse que você desejava falar comigo, rezei para que você tivesse vindo me 
dizer que nada de mais havia acontecido e... 

—  Por  favor,  J.B,  não  fale  assim  —  murmurou  Patrick,  odiando-se  por 

desapontar o homem a quem considerava quase como um pai. — Não quero mentir para 

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você. Deborah e eu passamos parte da noite juntos, sim. E você nem pode imaginar o 
quanto lamento a dor que estou lhe causando. 

— Lamenta? Você lamenta? Ha! Não acha essa palavra um pouco fraca, diante 

das circunstâncias? 

Patrick  permaneceu  calado,  sabendo  que  merecia  ser  tratado  com  sarcasmo  e 

desprezo. 

Dando um soco na mesa, J.B. explodiu: 

—  Você  foi  o  primeiro  da  turma  na  faculdade,  Patrick.  Vamos,  diga  alguma 

coisa! Um homem com a sua inteligência não deveria ter problemas para se comunicar. 
Céus, depois de tudo o que fiz por você! 

— Continuo sendo grato por tudo o que você fez por mim — disse Patrick, por 

fi m, mesmo sabendo que além do seu primeiro emprego na Ferrovia Munro J.B. não 
lhe dera nada de graça; ele tivera de dar duro para chegar onde chegara. 

— Grato? E é desse jeito que você mostra a sua gratidão? Depois de tudo o que 

investi em você, de tudo o que lhe ensinei, você demonstra gratidão sendo desleal? É 
este o pagamento que recebo por ter sido seu amigo por tê-lo acolhido no seio da minha 
família? Por Deus. Patrick, como pôde fazer uma coisa dessas? Como? Por acaso você 
me odeia por ter casado com Deborah? É este o seu jeito de vingar-se por eu ter... 

— Não — interrompeu-o Patrick. — Não fiz nada por vingança. Há muitos anos 

já perdoei o fato de você ter desposado Deborah. 

— Não acredito! 

— Você tem todos os motivos do mundo para não acreditar, mas é verdade. 

— Se é mesmo verdade, então como pôde cometer tamanha estupidez? Imaginei 

que você fosse mais sensato, Patrick. Você nunca foi homem de deixar a integridade e a 
moral  de  lado  por  causa  de  gente  inferior  a  você.  Ainda  mais  uma  vagabunda  como 
Deborah! 

Três dias atrás as palavras de J.B. não teriam insultado Patrick. Nesse momento, 

porém, elas o encheram de revolta. 

— Deborah é sua esposa, homem! E antes disso ela esteve sob a sua tutela, fez 

parte da sua família! Como tem coragem de chamá-la de vagabunda? 

— Porque é verdade, claro — retrucou J.B, surpreso com a reação do sócio. — 

Você,  em  especial,  já  devia  saber  disso.  Deborah  poderia  ter  arruinado  a  sua  vida, 
Patrick, mas eu impedi que isso acontecesse. Não percebe o sacrifício que fiz para evitar 
que o seu brilhante futuro fosse destruído por aquela maldita sem-vergonha? 

Maldita. Sem-vergonha. 

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—  Cale  a  boca,  J.B!  Não  diga  mais  uma  palavra!  —  esbravejou  Patrick, 

contendo-se para não dar um soco no sócio. 

As palavras de Anne — ou Deborah? — voltaram-lhe à mente, fazendo-o refletir 

melhor sobre o passado e o presente. Sempre acreditara que o modo como J.B. tratava 
Deborah  não  era  prejudicial,  que  ele  era  rígido  apenas  para  discipliná-la.  Só  agora 
percebia que J.B. odiava Deborah. 

— Você a despreza, não é mesmo? — perguntou Patrick. 

— Sim. Ela me deu razões de sobra para desprezá-la. 

— Por Deus, homem, durante algum tempo Deborah foi praticamente sua filha! 

—  Ela  esteve  sob  a  minha  tutela,  sim,  mas  e  daí?  Desde  que  chegou  aqui, 

Deborah  só  trouxe  problemas  para  Virgínia  e  para  mim.  —  J.B.  suspirou  antes  de 
declarar:  —  Eu  precisava  de  uma  nova  esposa,  Patrick,  e  precisava  salvar  você  da 
destruição. Cometi um grande erro ao não conservar Deborah longe daqui quando tive a 
chance de fazê-lo. Por sorte, ainda há tempo para corrigir o meu erro. 

Patrick  lembrou-se  de  Deborah  —  ou  Anne?  —  ter  dito  que  temia  que  J.B.  a 

mandasse para um hospício. Céus, ela não havia exagerado nem um pouco! 

— Não, J.B, você não vai afastar Deborah da mansão. Ela irá embora por vontade 

própria, e eu irei junto. Como pode ver, você não é único que pode corrigir os erros que 
cometeu no passado. 

J.B. ficou pálido de espanto. 

— Você enlouqueceu, Patrick? 

— Não seja tolo. É claro que não enlouqueci. 

— Mas então... 

— Ouça, por que não concede o divórcio a Deborah? Pense nela, pelo menos uma 

vez na vida. Deus é testemunha de que se você tivesse tratado Deborah com um mínimo 
de gentileza ao longo dos anos, a situação poderia ser diferente hoje. 

— Ouça você, Patrick! Para mim, é evidente que você perdeu o juízo. Mas tudo 

bem,  estou  disposto  a  perdoar  este  seu  momento  de  loucura.  Sim,  eu  o  perdoarei,  e 
mandarei Deborah para um lugar tão longe daqui que ela nunca mais criará problemas 
para nós. O que me diz, aceita a minha sugestão? Vamos lá, Patrick, não desperdice esta 
oportunidade. Use a sua inteligência, rapaz, caso contrário acabará por arruiná-lo! 

Patrick ficou chocado com a falta de compaixão de J.B. em relação a Deborah. 

Sabia que o casamento dos dois não passava de uma farsa, e já se acostumara a ver o 
sócio tendo ataques de raiva quando Deborah se comportava "mal". Nunca imaginara, 
porém, que J.B. a desprezasse tanto, a ponto de não ter o menor remorso diante da idéia 
de expulsá-la da sua vida. 

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—  Vamos,  aceite  a  minha  sugestão  —  insistiu  J.B.  —  Esqueça  Deborah,  caso 

contrário juro que perderá tudo o que conquistou nos últimos oito anos. 

Em lugar da admiração, do respeito e da amizade que já havia sentido pelo sócio, 

agora Patrick só conseguia sentir piedade. Com a voz carregada de pesar, retrucou: 

—  Pensei  que  a  nossa  conversa  fosse  ser  diferente,  J.B.  Você  disse  que  me 

perdoaria... Mas será que o seu orgulho permitiria que você me desse o perdão? 

—  É  tolice  ser  orgulhoso,  Patrick.  Não  me  interprete  mal;  é  óbvio  que  estou 

zangado e desapontado com você. Mas tenho certeza de que dentro de pouco tempo o 
nosso relacionamento voltará ao normal. 

— Você está desapontado... Levei a sua esposa para a cama, e tudo o que você 

consegue  sentir  é...  desapontamento.  Mas  não  porque  a  sua  esposa  rompeu  os  votos 
sagrados do casamento e o traiu. Você apenas não gostou do que aconteceu porque eu, 
como  um  garoto  desobediente,  atrapalhei  os  planos  que  você  tinha  feito  para  mim, 
certo? 

—  Ora,  e  que  outra  reação  você  esperava  de  mim?  Existem  só  dez  anos  de 

diferença entre as nossas idades, Patrick, mas eu sempre considerei você como um filho, 
e  não  como  um  simples  sócio  nos  negócios.  Quando  vejo  você  querendo  seguir  o 
caminho errado, é evidente que me sinto desapontado. — J.B. ficou de pé e aproximou-
se de Patrick. Colocando as mãos sobre os ombros dele, argumentou: — E assim que os 
pais costumam agir. Eles sempre pensam no bem dos filhos. 

Revoltado, enojado, Patrick repeliu as mãos de J.B. 

—  Por  acaso  os  pais  não  pensam  no  bem  das  filhas  também,  seu  miserável? 

Deborah  não  é  uma  "maldita  sem-vergonha",  muito  menos  uma  "vagabunda"!  Ela 
apenas acreditou que era tudo isso por causa do modo como você a tratou durante esses 
anos todos. Você pode dar ou não o divórcio a Deborah, tanto faz. De um jeito ou de 
outro, ela irá embora daqui comigo. 

—  Não  faça  uma  loucura  dessas,  Patrick  —  implorou  J.B..  —  Deborah  irá 

arruiná-lo, e você sabe muito bem disso! 

— Ao contrário, J.B, Deborah é a única pessoa que pode me salvar — respondeu 

ele, antes de sair do escritório batendo a porta. 

Eu o amo, Diário. Talvez essa afirmação deixe você chocado. Ou talvez não. Talvez, no 

fundo, você já soubesse o tempo todo que existia escondida no meu coração a capacidade de 
amar. Sim, com certeza existe, caso contrário eu não estaria amando agora! 

A princípio pensei que ele fosse apenas um garoto bobo, embora atraente. Eu o 

conheci no campo de  golfe,  onde ele arranjou  um  emprego temporário de  verão para 
ganhar um dinheirinho extra. 

O mais incrível é que ele não sabia quem eu era! Descobri depois que a família 

dele  mudou-se  para  Munro  há  pouco  tempo.  Achei  engraçado  quando  ele  começou  a 

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flertar  comigo.  Imagine  só,  um  garoto  ingênuo  na  idade  de  entrar  para  a  faculdade 
flertando comigo! Não há nada no mundo mais irritante que um rapaz que pensa que 
trocar  alguns  beijos  com  uma  garota  no  banco  traseiro  de  um  automóvel  é  o  supra-
sumo  do  prazer!  O  problema  é  que  naquele  dia  eu  havia  brigado  com  J.B.  por  um 
motivo  que  nem  lembro  agora,  portanto  é  fácil  adivinhar  o  que  eu  fiz,  não  é  mesmo, 
Diário? 

Sim,  você  acertou.  Marquei  um  encontro  com  ele  no  bosque  que  fica  perto  da 

mansão. Dá para acreditar nisso? E ele ainda queria vir me apanhar em casa! Tive de 
dizer  que  o  meu  "pai"  era  muito  severo  e  não  permitia  que  eu  saísse  com  rapazes, 
portanto o encontro precisava ser secreto. 

Ah, Diário, ele me tratou como nenhum outro homem havia me tratado antes! E 

você sabe que eu já tive muitos homens... Nós ficamos conversando. Parece loucura, eu 
sei,  mas  é  verdade;  ele  não  queria  fazer  nada  além  de  conversar.  No  começo  eu  nem 
sabia  o que dizer.  Veja só,  eu,  encabulada,  sem  saber  o  que  falar!  Por  falta  de  outro 
assunto, fiz perguntas sobre a vida dele. Descobri que ele é mais velho do que parece, 
tem  apenas  dois  anos  menos que  eu.  Descobri  também  que  ele  é  muito religioso.  Isso 
me  deixou  constrangida,  e  você  sabe  muito  bem  por  que,  não  é,  Diário?  Fiquei 
esperando  que  um  raio  divino  caísse  sobre  a  cabeça  do  pobrezinho  só  porque  ele 
estava  conversando  comigo.  Fiquei  me  sentindo  culpada  depois  desse  primeiro 
encontro, por não ter contado a ele quem eu era, na realidade. 

Agora, já faz três semanas que o conheço. Sei que ele merece um pouco mais de 

honestidade da  minha parte.  Por outro lado, sei também  que  se  contar a  verdade irei 
perdê-lo...  Por  isso,  continuo  encontrando-o  às  escondidas,  e  o  fiz  jurar  que  não 
contaria a ninguém que estamos "namorando". 

Ontem  à  noite  ele  disse  que  me  amava  e  que  queria  ficar  comigo  para  sempre. 

Ele  me  contou  também  que  quer  ser  pastor  da  igreja  que  freqüenta.  Perfeito,  não  é? 
Deborah e um pastor religioso... Seria cômico, se não fosse trágico. 

Na noite passada, ele me beijou pela primeira vez. E me disse que eu era linda. 

Anne  enxugou  uma  lágrima  que  lhe  escorreu  pelo  rosto  e  fechou  o  diário.  Era 

comovente  descobrir  que  pelo  menos  uma  vez  na  vida  a  pobrezinha  conhecera  o 
verdadeiro  amor.  Depois  de  ter  sofrido  tanto,  ela  bem  que  merecia  um  pouco  de 
felicidade. 

Olhando ao redor, Anne perguntou-se se Deborah não teria escrito essas linhas no 

mesmo quarto em que ela se encontrava agora. Quantas horas Deborah não teria ficado 
ali, deitada na cama, fantasiando a respeito de uma vida ao lado do homem que a achava 
linda?  Será  que  havia  se  olhado  no  espelho  de  moldura  dourada  sobre  a  cômoda  e 
tentado  ver  a  imagem  de  beleza  que  ele  via?  Talvez  não,  pois  ela  deixara  o  diário 
escondido na casa de hóspedes. Ou será que escondera o diário lá mais tarde? 

Anne  queria  saber  mais  sobre  a  vida  de  Deborah.  Estava  curiosa,  claro.  Além 

disso,  ainda  não  descobrira  nenhuma  pista  relacionada  ao  homem  que  assassinara 
Deborah.  Portanto,  era  imperativo  que  continuasse  a  ler  o  diário.  Ao  mesmo  tempo, 

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porém, como teria sido bom se o diário houvesse terminado com aquelas palavras tão 
comoventes: E ele me disse que eu era linda... 

Com um suspiro, Anne reabriu o diário e prosseguiu com a leitura. Durante cinco 

páginas Deborah descreveu mais detalhes do seu relacionamento com o rapaz. Os dois 
continuaram  se  encontrando  em  segredo,  embora  o  jovem  insistisse  em  conhecer  a 
família  da  amada  e  mostrar  que  as  suas  intenções  eram  sérias.  Apesar  de  sentir-se 
culpada por enganar o rapaz, Deborah hesitava em contar-lhe a verdade porque temia 
perder o único amor verdadeiro que conhecera na vida. 

A apreensão de Anne foi crescendo a cada nova linha que lia, pois Deborah tinha 

escrito  que  estava  apavorada  com  a  idéia  de  que  J.B.  pudesse  desconfiar  de  alguma 
coisa. 

E, no parágrafo seguinte, Deborah revelara ao diário que estava grávida. 

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15 

 

Grávida! 

Sentindo  o  coração  disparado,  Anne  verificou  a  data  no  topo  do  parágrafo  que 

acabara de ler. Será que... 

Sim!  Deborah  engravidara  quatro  anos  atrás.  Então  fora  por  isso  que  J.B. 

mantivera  Deborah  afastada  da  mansão!  Era  isso  que  Edith  havia  começado  contar  a 
Katy naquele primeiro dia, antes de ser interrompida pela chegada de J.B! 

Ansiosa, Anne continuou lendo o diário. 

Deborah tinha ficado feliz ao descobrir que esperava um filho. Ao mesmo tempo, 

ficara amedrontada. Se contasse ao amante que estava grávida, destruiria o futuro dele 
como  pastor  religioso.  Se  J.B.  descobrisse  sobre  a  gravidez,  era  o  futuro  dela  mesma 
que passaria a correr perigo. O casamento com J.B. não dera certo, como Deborah havia 
imaginado que daria. Os dois brigavam o tempo todo, por qualquer motivo. 

Para resolver a situação, Deborah tentou convencer o amante de que não podiam 

mais  se  ver,  mas  ele  se  recusou  a  aceitar  o  fim  do  relacionamento.  Quando  Deborah, 
num  gesto  de  desespero,  declarou  que  não  o  amava  mais,  o  rapaz  não  acreditou  e 
ameaçou ir conversar com J.B, supondo que ele era o pai dela, decidido a pedir a mão 
de Deborah em casamento. Finalmente percebendo que o único jeito de afastar o amante 
seria contar-lhe a verdade, Deborah falou sobre o bebê. 

O rapaz não reagiu como ela esperava. Em vez de ficar com raiva ou medo, ele se 

mostrou  feliz.  Chorando  de  emoção,  abraçou  Deborah  e  declarou  que  agora  a  amava 
mais do que nunca. 

Ao ler esse trecho do diário, Anne sorriu. Que sujeito incrível! Para um homem 

dos  anos  20  que  pretendia  ser  pastor  religioso,  até  que  ele  reagira  de  um  jeito  bem 
"moderno"  ao  saber  que  engravidara  a  mulher  com  quem  tinha  um  relacionamento 
considerado pecaminoso na época. Suspirando, Anne, retomou a leitura. 

O amante de Deborah não reagiu tão bem quando ela lhe contou o resto: que era 

casada, que já havia tido outros amantes e tudo o mais. O rapaz ficou ao mesmo tempo 
magoado  e  furioso,  e  foi  com  alívio  que  Deborah  o  viu  ir  embora  do  bosque  onde 
costumavam se encontrar. Ela lamentaria para sempre a perda do único amor verdadeiro 
que conhecera, mas pelo menos teria o consolo de saber que havia feito tudo o que era 
necessário para evitar a ruína do homem amado. 

Os olhos de Anne se encheram de lágrimas de emoção. Pobre Deborah... O que 

acontecera  com  ela  e  com  bebê?  Anne  sabia  que  J.B.  afastara  Deborah  da  mansão, 
graças  ao  mexerico  de  Edith,  mas  não  sabia  o  que  havia  acontecido  depois.  Será  que 
Deborah tivera o bebê? Em caso afirmativo, onde estaria a criança, agora? 

Anne continuou lendo o diário. 

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Para surpresa de Deborah, o seu amante foi procurar J.B. a fim de exigir que ele 

concedesse  o  divórcio  à  esposa,  para  que  os  dois  pudessem  se  casar.  J.B.  ficou 
enfurecido e ameaçou o rapaz, dizendo que preferia arruinar financeiramente a família 
dele a permitir que um escândalo manchasse a boa reputação do sobrenome Munro. O 
rapaz, por sua vez, não se deixou intimidar e retrucou que J.B. podia fazer o que bem 
entendesse;  só  o  que  ele  queria  era  casar-se  com  Deborah,  que  estava  esperando  um 
filho seu. 

Mas  Deborah  sabia  do  que  J.B.  era  capaz.  Sabia  que  ninguém  no  mundo  seria 

capaz de vencer J.B. numa guerra de vontades. Por essa razão, quando J.B. mentiu para 
o rapaz dizendo que ele e Deborah também tinham dormido juntos nos últimos meses, 
ela confirmou a mentira. Fingindo um pouco caso que estava longe de sentir, Deborah 
afirmara que qualquer um dos dois podia ser o pai do bebê que estava esperando. Ao ver 
o desespero de seu amante ela sentiu que morria por dentro, mas fez questão de desferir 
o golpe final dizendo ao rapaz: 

— Para mim tanto faz quem é o pai do bebê, desde que eu possa continuar a viver 

cercada pelo luxo ao qual estou acostumada. E você não é rico o bastante para me cercar 
de luxo, certo? 

Nunca  mais  Deborah  viu  o  rapaz  outra  vez.  Ele  desapareceu,  e  a  família  dele 

aceitou  a  generosa  "oferta"  que  J.B.  lhe  fez  para  ir  embora  da  cidade.  Antes  de  ser 
mandada para um abrigo para mães solteiras, Deborah implorou a J.B. que a deixasse 
ficar com o bebê para criá-lo como se fosse filho dos dois, mas ele não quis nem saber 
da idéia. Em vez disso, J.B. fez planos para entregar a criança ao orfanato vizinho ao 
abrigo. 

O parágrafo seguinte do diário dizia: 

O meu bebê é um menino. Ele é lindo, embora tenha cabelos ruivos como os meus, 

e não cabelos escuros como os do pai. Mas eu insisti para que meu filho tivesse o mesmo 
nome do pai: Henry. 

Havia  mais  parágrafos  depois.  Alguns  falavam  do  sofrimento  de  Deborah  ao 

deixar  o  bebê  no  orfanato,  outros  mencionavam  o  seu  retorno  à  mansão  Munro. 
Deborah quase morrera de tristeza ao dar um beijo de despedida no filho; primeiro fora 
obrigada a separar-se do homem amado, agora era obrigada a abandonar o bebê... 

Deborah voltara para a mansão com o coração cheio de ódio e amargura. J.B. a 

afastara das duas pessoas que ela mais amava no mundo, e ela jamais o perdoaria por ter 
feito isso. 

Sem que J.B. soubesse, Deborah havia continuado a visitar o filho no orfanato. 

Entregava  todo  o  dinheiro  que  conseguia  juntar  à  instituição,  impondo  apenas  uma 
condição: o bebê não devia ser entregue para adoção. 

Anne  fechou  o  diário  com  as  mãos  trêmulas  e  a  mente  em  turbilhão.  A  última 

entrada  do  diário  era  datada  de  seis  meses  atrás,  o  que  significava  que  o  filho  de 
Deborah ainda devia estar no orfanato mencionado. 

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E o nome da criança era Henry. 

Henry. 

O pai de Anne também se chamava Henry. E nascera no mesmo dia que o filho 

de Deborah. 

Anne saiu correndo do quarto, ansiosa para ir ao encontro de Patrick. Encontrou 

Katy  no  corredor,  e  a  criada  avisou  que  J.B.  mandara  chamá-la.  Ignorando  o  recado, 
Anne continuou correndo até chegar à casa de hóspedes. Abriu a porta da sala e quase 
deu um encontrão em Patrick, que estava saindo com uma mala nas mãos. 

— Patrick, você precisa me levar para o Estado de Missouri! — disse ela, sem 

fôlego. 

—  Mudou  de  idéia?  —  perguntou  ele,  largando  a  mala  no  chão.  —  Quer  ir 

embora daqui comigo? 

— Não... Isto é, eu quero ir até o Estado de Missouri, mas só por um dia. E você, 

para onde estava indo com essa mala? Pensei que ainda fosse demorar alguns dias para 
ir embora daqui. 

— Isso foi o que eu lhe disse antes, mas agora... 

— Oh, não! Você contou a J.B. sobre nós? 

— Contei. 

— Céus! Será que você tem noção do que fez? 

— Claro que tenho. Eu fiz apenas algo já deveria ter feito há muito tempo. Além 

disso, uma  das  criadas  viu  você saindo  da  casa de hóspedes  hoje  de  madrugada  e foi 
falar com J.B. Ele já sabia de tudo, antes mesmo de eu abrir a boca. 

—  E  qual  foi  a  reação  de  J.B?  —  indagou  Anne,  aflita.  —  Ele  ficou  muito 

furioso? 

— Ficou, mas só porque eu me recusei a seguir os planos que ele havia feito para 

o meu futuro. Você tinha razão, sabe? J.B. nunca se importou com você. A única coisa 
que o preocupava era a possibilidade de você arruinar a minha vida. — Patrick sorriu e 
acariciou o rosto de Anne, acrescentando: — Mas eu disse a ele que você me salvou. 

—  Você  é  um  bom  homem,  Patrick  MacKinnon.  Ninguém  mais  teria  tido 

coragem de defender Deborah. Talvez você esteja certo... Talvez ir para longe de J.B. 
seja o melhor para você. 

— Você é o que pode existir de melhor para mim, querida. E mesmo que você 

não concordasse em partir comigo, eu arranjaria um jeito de afastá-la de J.B. 

Anne  estremeceu  e  aninhou-se  nos  braços  de  Patrick.  Abraçou-o  com  força, 

emocionada. Não tinha mais a sensação de estar levando a existência de outra mulher, 
pois agora sabia que, assim como Deborah havia encontrado o grande amor da sua vida, 

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ela também encontrara o seu grande amor. O problema era que mais cedo ou mais tarde 
também seria obrigada a abandonar o homem amado, como acontecera com Deborah. 

— Patrick, eu terminei de ler o diário de Deborah — disse Anne, de repente. — 

Ela... teve um filho. 

— O quê?! Um filho? 

— Sim. Lembra-se de quando Deborah passou quase um ano longe da mansão, 

quatro anos atrás? Pois então, J.B. a mandou para um abrigo de mães solteiras no Estado 
de Missouri. Ela permaneceu lá até o nascimento do bebê, um menino. 

— Um filho... — murmurou Patrick, incrédulo. — Mas por que J.B. mandaria a 

esposa para um abrigo de mães solteiras? Ele sempre quis ter um filho, e... 

—  J.B.  não  era  o  pai  do  menino  —  explicou  Anne.  Antes  que  Patrick  pudesse 

dizer qualquer coisa, ela prosseguiu: — Não tenho tempo agora para tentar convencê-lo 
mais uma vez de que não sou Deborah. Só o que posso lhe dizer por enquanto é que o 
filho de Deborah é mais uma das coincidências que já mencionei antes. O menino deve 
estar com uns três anos de idade, e ainda se encontra no orfanato em que J.B. mandou 
colocá-lo, no Estado de Missouri. E eu preciso vê-lo para ter certeza de uma coisa. 

— Você quer que eu a leve até lá? 

— Quero. 

— E depois? 

—  Não  sei.  Mas  se  o  menino  for  quem  eu  estou  pensando  que  ele  é,  serei 

obrigada, mais que nunca, a voltar para o futuro. 

 

Franklin Thomas sentiu o sangue gelar nas veias ao ver a mulher no interior do 

luxuoso automóvel que atravessou os portões da mansão. A mesma mulher que julgara 
morta e cujo corpo abandonara dentro uma caverna. Mas ali estava ela, viva, acomodada 
no banco do passageiro, conversando com o homem moreno que dirigia o automóvel. 

Dando partida no motor do automóvel que comprara assim que chegara a Munro, 

Franklin começou a seguir o outro veículo. Em algum momento, de algum modo, teria 
de separar Deborah Munro do homem que a acompanhava e matá-la. 

— Sra. Munro, como vai? 

A mulher sentada atrás da escrivaninha de mogno levantou-se da cadeira com um 

sorriso nos lábios. Ela usava os cabelos presos num coque e usava roupas simples mas 
elegantes. A pequena placa de bronze sobre a escrivaninha identificava a mulher como 
"Sra. Phillips". 

A Sra. Phillips aproximou-se. Cumprimentou Anne com um aperto de mão, fez 

um aceno com a cabeça na direção de Patrick e em seguida comentou: 

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— Que bom vê-la novamente, Sra. Munro. Fazia tempo que a senhora não vinha 

até aqui. Precisamos conversar sobre um assunto muito importante relacionado ao... 

— Quero ver Henry — disse Anne, interrompendo-a. — Ele ainda está aqui, não 

está? 

— Sim, é claro, mas... 

— Discutiremos o tal assunto importante mais tarde, se não importa. 

As  palavras  de  Anne  soaram  bruscas,  mas  ela  estava  tão  ansiosa  para  ver  o 

menino que nem se deu conta disso. Seu pai... O filho de Deborah podia ser o seu pai! 
Durante a viagem de três horas entre Munro e a pequena cidade na divisa dos Estados 
de Oklahoma e Missouri, ela não conseguira pensar em outra coisa. 

— Como preferir, Sra. Munro. Com licença, vou buscar Henry. 

A Sra. Phillips saiu da sala. 

Anne fitou Patrick, tentando decifrar a expressão que dominava o rosto másculo. 

Ele permanecera calado durante toda a viagem. E agora, o que estaria pensando? Será 
que passara a acreditar que Deborah e Anne realmente eram duas mulheres diferentes? 
Ou teria concluído que "Deborah" enlouquecera de vez? 

Bem, pelo menos ele estava ali, a seu lado, e isso já era um bom sinal. 

—  A  Sra.  Phillips  me  reconheceu,  Patrick.  E  ela  foi  buscar  o  menino.  Isso 

significa  que  tudo  o  que  Deborah  escreveu  no  diário  é  verdade  —  disse  Anne,  de 
repente. 

— Eu sei que é. Por acaso pensou que eu não havia acreditado em você? 

—  Confesso  que  não  sei  mais  o  que  pensar.  Você  ficou  calado  durante  toda  a 

viagem... 

— Fiquei calado para refletir melhor sobre tudo o que está acontecendo. E sabe o 

que foi que eu concluí? Que estou com medo de que tudo o que você me contou seja 
mentira, pois quero muito ter certeza de que você é mesmo Anne, e não Deborah. Por 
mais  absurda  que a sua história  pareça, quero que  ela seja verdadeira.  —  Baixando o 
tom de voz, Patrick acrescentou: — E sabe por quê? Porque estou apaixonado por Anne, 
e quero passar o resto da minha vida ao lado dela. 

— Eu também te amo, querido, mas nós nunca... 

Anne interrompeu a frase no meio e virou-se para trás ao ouvir o barulho da porta 

da sala sendo aberta.  A  Sra.  Phillips  entrou,  acompanhada  por  um  garotinho  ruivo  de 
três anos de idade. 

Oh,  céus,  pensou  ela  quando  o  menino  sorriu  de  alegria  ao  vê-la.  Já  havia 

considerado  a  possibilidade  de  o  filho  de  Deborah  ser  o  seu  pai,  e  agora  ali  estava  a 
confirmação que procurava. Mas como? Como era possível? 

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—  Mamãe!  —  exclamou  o  garotinho,  correndo  para  abraçá-la.  —  A  senhora 

voltou! 

Anne abaixou-se e o recebeu de braços abertos, procurando esconder as lágrimas 

que lhe subiram aos olhos. 

— Sim, eu voltei — murmurou com voz rouca de emoção. — Vamos, deixe-me 

olhar para você. 

Ela notou que os olhos do menino eram  verdes como os seus — e como os de 

Deborah...  Então  era  essa  a  conexão!  Finalmente  Anne  entendeu  por  que  era  tão 
parecida  com  Deborah.  Sua  avó...  Deborah  era  sua  avó!  —  Quem  é  ele,  mamãe?  — 
perguntou Henry, baixinho, apontando para Patrick. 

Tentando ocultar o choque que a sua descoberta lhe provocara, Anne respondeu: 

— Este é Patrick, um amigo meu. ... Patrick, este é Henry. 

—  Prazer  em  conhecê-lo,  Henry  —  disse  Patrick,  trocando  um  aperto  de  mão 

com o menino. 

Anne  sentiu  um  aperto  no  coração  ao  ver  o  modo  como  o  garotinho  sorria  e 

apertava  a  mão  de  Patrick.  Maldito  seja você, J.B. Munro, pensou,  revoltada;  maldito 
seja por ter afastado o menino da mãe! 

—  Puxa,  Henry,  como  você  é  forte!  —  brincou  Patrick.  —  Quase  esmagou  a 

minha mão! 

— Sou o menino mais forte daqui, senhor — afirmou Henry, com orgulho, antes 

de virar-se para Anne. — Vamos brincar nos balanços, mamãe, como a gente sempre 
faz? 

— Sim, querido, vamos. 

— Que bom! Adoro balançar! 

Anne  teria  sido  capaz  de  ficar  empurrando  o  balanço  no  qual  Henry  estava 

sentado durante horas, mas o sol já se punha no horizonte e o estômago do garotinho 
começara  a  roncar  de  fome.  Ela  pensou em  sugerir  a  Patrick que  se  hospedassem  em 
algum  hotel  e  fizessem  uma  segunda  visita  ao  orfanato  no  dia  seguinte,  mas  de  que 
adiantaria isso? Ficar mais um dia na cidade serviria apenas para adiar o inevitável. 

De  braço  dado  com  Patrick,  Anne  voltou  para  o  escritório  da  Sra.  Phillips 

enquanto uma funcionária do orfanato levava Henry para o refeitório. 

Vendo que Patrick a olhava com ar preocupado, Anne o tranqüilizou: 

— Não se preocupe comigo, eu estou bem. 

E  era  verdade,  pois  tivera  a  chance  de  participar  de  um  milagre:  conhecer  o 

próprio  pai  quando  ele  ainda  era  criança.  E  Henry  também  ficara  feliz  em  rever  sua 

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"mãe"  outra  vez.  Sim,  um  milagre...  Uma  experiência alegre,  e não uma  ocasião para 
lágrimas. 

No  escritório,  a  Sra.  Phillips  os  convidou  a  sentar  e  abordou  o  tal  assunto 

importante que mencionara antes. 

— Sra. Munro, a senhora não faz idéia do quanto as suas visitas são boas para 

Henry.  Ele  é  uma  das  crianças  mais  bem-ajustadas  que  temos  aqui  no  orfanato,  com 
certeza por causa das visitas que a senhora lhe faz. Nenhuma das outras mães vêm ver 
os filhos, a senhora sabe. 

Desde que suspeitara de que o filho de Deborah era seu pai, Anne não deixara de 

pensar sobre o fato de ele ter ido parar num orfanato. Se houvesse sabido antes que seu 
pai  fora  adotado,  teria  feito  mais  cedo  a  conexão  entre  ela  mesma  e  Deborah.  No 
entanto, ou seu pai não se lembrava de ter sido adotado ou então preferira manter o fato 
em segredo. 

— Sim, Henry parece ser um menino feliz — disse ela, por fim. 

—  Ele  é  feliz,  sem  dúvida  —  concordou  a  Sra.  Phillips.  —  No  entanto,  devo 

pedir-lhe  que  reconsidere  a  decisão  de  não  permitir  que  ninguém  o  adote.  Sei  que  a 
senhora ama o seu filho, mas ele se encontra numa situação peculiar demais. As doações 
que a senhora tem feito ao orfanato são bastante generosas, e todos aqui lhe são gratos 
por isso. Mantivemos a nossa promessa e nunca contamos ao seu marido que a senhora 
costuma vir visitar Henry. No entanto, existem dois casais que estão muito interessados 
em  adotar  o  menino.  As  duas  famílias  são  ótimas,  tenho  certeza  de  que  a  senhora  as 
aprovaria. Seria bom para Henry se a senhora reconsiderasse a sua decisão e o deixasse 
ser  adotado.  Ele  precisa  de  uma  família  de  verdade,  embora  todos  aqui  no  orfanato 
gostem muito dele e lhe dêem atenção e carinho. 

Anne  encarou  a  mulher, incapaz de  pronunciar uma  única palavra.  Henry  era o 

filho  de  Deborah,  mas  Deborah  estava  morta.  Ele  também  era  o  pai  de  Anne.  Com 
certeza não estava nas mãos dela a decisão de permitir que Henry fosse adotado ou não, 
Tudo  aconteceria  naturalmente,  claro.  Seu  pai  seria  adotado  por  Charles  e  Esther 
Sawyer  e  seria  irmão  de  Shirley.  Mas  e  se  Charles  e  Esther  não  estivessem  entre  os 
casais que queriam adotá-lo? O que poderia fazer nesse caso? 

—  Sra.  Phillips,  pode  nos  dar  licença  por  um  minuto?  —  pediu  Patrick,  de 

repente. — Preciso conversar a sós com a Sra. Munro. 

— Por favor, fiquem à vontade. — A mulher levantou-se e indicou duas pastas 

que  estavam  em  cima  da  escrivaninha.  —  Se  quiser,  pode  dar  uma  olhada  nisto,  Sra. 
Munro. Aqui estão as fichas preenchidas pelos dois casais que querem adotar Henry. 

Assim  que  a  Sra.  Phillips  saiu  da  sala,  Anne  abriu  a  primeira  pasta,  contendo 

fichas referentes a Emma e Seth Johnson. Ela franziu a testa. 

—  Deborah,  você  não  precisa  entregar  o  seu  filho  para  adoção  —  declarou 

Patrick, tirando-lhe a pasta das mãos. 

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— Eu sou Anne, não Deborah. E é óbvio que preciso... 

— O menino já tem uma mãe: você. Você o ama e quer ficar com ele, certo? Pois 

é  simples  resolver  a  situação.  Não  volte  para  junto  de  J.B.  Tire  Henry  do  orfanato  e 
mude-se comigo para outra parte do país. 

—  Ah,  Patrick,  será  que  você  nunca  vai  acreditar  em  mim?  —  suspirou  Anne, 

pesarosa.  Ela  pegou  a  segunda  pasta,  dizendo:  —  Quero  mostrar-lhe  algo.  Algo  que 
talvez finalmente o convença de que eu não inventei essa história toda. Você ainda não 
adivinhou quem é Henry? 

— Ele é seu filho, qualquer um pode ver isso. 

— Aí é que você se engana. Henry não é meu filho, é meu pai. 

Anne  abriu  a  segunda  pasta,  rezando  para  que  as  fichas  contidas  ali  dentro 

confirmassem  o  que  ela  dissera.  E  confirmavam:  os  nomes  dos  seus  avós  estavam 
escritos nas fichas. 

— Charles e Esther Sawyer... — Patrick leu em voz alta, assombrado. 

— Antes que você me pergunte qualquer coisa, quero lhe dizer que não vim até 

aqui  antes  para  olhar  o  nome  do  casal  a  fim  de  usá-lo  na  minha  história  —  afirmou 
Anne. — Você ouviu o que a Sra. Phillips falou. Ela mencionou os dois casais como se 
eles fossem uma novidade, e não como algo que eu já sabia. Isso significa que tudo o 
que eu lhe contei é verdade, Patrick. Você queria acreditar em mim? Pois agora pode 
acreditar. 

Ele balançou a cabeça, incrédulo. Só então Anne se lembrou de que tinha mais 

provas para confirmar o que dizia. Enfiou a mão no bolso do casaco que estava vestindo 
e tirou a sua carteira de motorista e as moedas que pegara na calça jeans antes de pedir a 
Patrick  que  a  trouxesse  até  o  orfanato.  Na  hora,  pensara  apenas  que  poderia  usar  o 
dinheiro  para  comprar  uma  passagem  de  trem  caso  Patrick  se  recusasse  a  trazê-la. 
Depois,  ficara  tão  concentrada  pensando  no  passado  trágico  de  Deborah  e  no  seu  pai 
que até se esquecera da carteira de motorista em seu bolso. 

— Dê uma olhada nisto. — Ela entregou o documento a Patrick. — A foto está 

horrível, claro, mas dá para ver que sou eu. Leia o nome escrito aí: Anne Sawyer. Agora 
veja a data de nascimento: mil novecentos e sessenta e seis. E a foto é colorida, reparou? 
Se nada mais for capaz de convencê-lo depois disso... 

Patrick examinou o documento com atenção e em seguida sorriu, murmurando: 

— Por Deus, é verdade... É tudo verdade! 

— Oh, até que enfim! — exclamou Anne, rindo, beijando-o na boca. 

Ele correspondeu com paixão ao beijo, finalmente sentindo-se livre de qualquer 

sentimento de culpa em relação a J.B, sentindo-se livre para amar a mulher que nunca 
fora Deborah, que nunca o magoara. 

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— Eu te amo, Anne Sawyer — declarou ele, emocionado, depois do beijo. 

Anne sorriu, sabendo que jamais se esqueceria desse momento. O que quer que 

acontecesse dali para a frente, ela guardaria para sempre na lembrança as cinco palavras 
que Patrick acabara de pronunciar. 

—  Eu  também  te  amo,  Patrick  MacKinnon  —  disse  ela,  com  voz  rouca  de 

emoção. — Lembre-se sempre disso, não importa o que aconteça. 

 

Eles  estavam  voltando  para  Oklahoma.  Com  certeza  iam  retornar  à  mansão 

Munro, refletiu Franklin Thomas, seguindo-os de longe. 

Ficara furioso quando vira o casal entrar no orfanato. Seu irmão Henry lhe havia 

falado sobre o filho que gerara, mas nunca soubera que a criança tinha sido deixada num 
orfanato. O próprio Franklin só soubera disso através de Deborah, antes de atacá-la nos 
túneis. 

Mas  ele nunca imaginara que  Deborah  Munro  fosse visitar  o menino.  Afinal,  a 

troco de que uma mulher tão egoísta e irresponsável iria preocupar-se com o garoto? O 
coração de Franklin se encheu de ódio ao pensar que Deborah ainda estava viva para 
poder visitar o filho, ao passo que Henry jazia morto num túmulo frio. 

Ele  havia  sentido  vontade  de  assassinar  Deborah  lá  mesmo,  no  orfanato,  mas 

preferira não correr nenhum risco desnecessário. Seria mais seguro matá-la na mansão. 

Patrick parou o automóvel sob o pórtico e desceu para abrir a porta do passageiro 

para Anne. 

Anne... Ele apertou-lhe de leve a mão num gesto de carinho e conforto. Durante a 

viagem,  procurando  esquecer  a  tristeza  causada  pelo  fato  de  ter  deixado  Henry  no 
orfanato, Anne começara a contar histórias da vida do seu pai. O garotinho ruivo iria 
crescer e transformar-se num homem bom, honesto, responsável e amoroso. 

Conforme  se  aproximaram  da  mansão,  porém,  Patrick  havia  notado  que  Anne 

voltara a ficar triste, parecendo a ponto de chorar a qualquer instante. Como agora, por 
exemplo. 

—  Você  está  preocupada  com  a  idéia  de  contar  a  J.B.  o  que  aconteceu  com 

Deborah? — indagou ele. 

—  Não.  Estou  mais  preocupada  com  o  soco  que  darei  em  J.B.  se  ele  reagir  à 

notícia  com  desdém.  Depois de  ter  lido  o  diário  de  Deborah, imagino  que  ele não vá 
ficar muito abalado ao saber que a esposa está morta. 

—  Tem  razão.  E  bem  provável que  isso aconteça pois, na verdade,  J.B. odiava 

Deborah. 

— E você, Patrick, ainda sente raiva dela? 

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— Depois de tudo o que você me contou a respeito de Deborah, como eu poderia 

continuar  sentindo  raiva?  Pena  que  eu  não  sabia  de  tudo  na  época.  Talvez  as  coisas 
tivessem sido diferentes, então. 

— Sim, talvez... Mas nesse caso eu não teria tido a chance de conhecer você, não 

é mesmo? Posso parecer egoísta falando isso, mas de certo modo fico até contente por 
as coisas não terem sido diferentes. É horrível eu me sentir feliz às custas da tragédia 
que se abateu sobre a minha avó, mas... Deborah teve Henry para amar, e eu tive você. 

—  Por  que  usou  o  verbo  no  tempo  passado,  Anne?  Por  acaso  está  me  dizendo 

adeus? 

— Sim. Eu tenho de voltar para a minha própria época — respondeu ela, a voz 

embargada de lágrimas. 

— Por causa do seu pai, que está doente e precisa de você? 

— Não só por causa disso. Na verdade, creio que não tenho outra opção. Não sou 

uma expert em viagens no tempo, mas acho que a natureza não permitiria que eu ficasse 
aqui. Até ver o meu pai, eu não tinha nem parado para pensar que existe outro motivo 
pelo qual não posso continuar vivendo nos anos vinte. 

— Que motivo é esse? 

— Sou filha de Henry. Não posso existir aqui, na época dele, se nasci quarenta e 

um anos no futuro. Você entende isso, não entende? 

— Não. Só o que eu sei é que quero que você fique aqui comigo. 

— Ah, meu amor, eu também gostaria muito de ficar, mas... 

— Vou vestir as roupas que estava usando quando vim parar aqui — disse Anne, 

enquanto se dirigia para o quarto de Deborah na companhia de Patrick. — Depois, você 
pode me ajudar a entrar nos túneis para procurarmos o medalhão. Talvez até lá J.B. já 
tenha voltado, e então explicarei tudo a ele. 

— Talvez J.B. não volte tão cedo, e você tenha de passar mais algum tempo aqui 

— observou Patrick, esperançoso. 

Anne  fitou-o, sorrindo,  e deu-lhe  um  beijo.  Em  seguida,  quando  já  ia  entrar no 

quarto, Katy apareceu correndo. 

— Oh, Sra. Munro, que bom que a senhora chegou! O Sr. Munro ficou furioso 

quando descobriu que a senhora tinha saído. Mal pude acreditar no que estava vendo, o 
Sr.  Munro  parecia  ter  enlouquecido!  Ele  pegou  uma  faca  e  rasgou  a  tela  inteira,  e 
depois... 

— Acalme-se, Katy, por favor. Desse jeito não estou entendo nada. Conte direito 

o que aconteceu. 

— Bem... O Sr. Munro... — a criada lançou um olhar na direção de Patrick. 

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— Pode falar na frente do Sr. MacKinnon, não tem problema — tranqüilizou-a 

Anne. 

—  Se  a  senhora  acha...  Bem,  como  eu  ia  dizendo,  o  Sr.  Munro  parecia  ter 

enlouquecido.  Ele  xingou  a  senhora  de  tudo  quanto  foi  nome  e  jogou  uma  porção  de 
coisas contra a parede. O Sr. Munro insistiu comigo para eu dizer para onde a senhora 
tinha ido, e quando eu respondi que não sabia ele ficou mais furioso ainda. Imagine só, 
o seu marido pegou uma faca e rasgou a tela inteirinha! 

— Que tela, Katy? 

— Aquela que estava no salão de festas. 

— No salão de festas...? 

—  Sim,  aquele  retrato  bonito  onde  a  senhora  aparecia  usando um  medalhão  de 

ouro.  —  respondeu  a  criada,  apontando  para  dentro  do  quarto  de  Deborah.  —  O  Sr. 
Munro  me  mandou  trazer  o  retrato  e  todas  as  coisas  que  são  da  senhora  aqui  para  o 
quarto.  Ele  me  mandou  também  trancar  a  porta  e  jogar  a  chave  fora.  Depois,  o  Sr. 
Munro  saiu  da  mansão  como  se  todos  os  demônios  do  inferno  estivessem  atrás  dele! 
Perdoe-me o atrevimento, Sra. Munro, mas talvez seja bom a senhora ir embora agora e 
passar algum tempo longe daqui. Se o seu marido encontrá-la aqui quando voltar, não 
sei o que será capaz de fazer. 

Empalidecendo, Anne entrou às pressas no quarto. 

—  Oh,  não!  —  gritou  ao  ver  o  retrato  colocado  em  cima  da  cama  junto  com 

outros quadros e objetos pessoais de Deborah. — Dê só uma olhada nisso, Patrick! Meu 
Deus, o que vou fazer agora? 

Patrick dispensou Katy e correu para junto de Anne. O retrato fora retalhado com 

uma faca, como a criada dissera. 

—  Não  dá  nem  para  ver  o  medalhão...  Como  poderei  voltar  para  o  futuro?  — 

indagou Anne, horrorizada. 

— Sinto muito, querida — disse Patrick, com sinceridade. 

Se  o retrato  fora  destruído, então  Anne seria obrigada a  continuar nos  anos 20, 

com ele. Mas isso não o deixava feliz, pois sabia que para Anne o mais importante era 
voltar  para  o  futuro,  para  o  próprio  bem  dela.  E  como  ele  poderia  ser  feliz  vendo  a 
infelicidade da mulher amada? 

—  Talvez  Deborah  esteja  usando  o  medalhão  em  algum  outro  quadro  ou 

fotografia — sugeriu Patrick, mas logo em seguida balançou a cabeça, aflito. — Não, 
não adiantaria nada... A mágica, ou seja lá o que fez você viajar no tempo devia estar 
toda concentrada no retrato que foi destruído. E agora que Deborah está morta, nem é 
possível copiar o retrato e... 

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—  Ei,  espere!  —  Anne  arregalou  os  olhos,  —  Deborah  morreu,  mas  eu  estou 

viva! E sou praticamente idêntica a ela! Diga-me, Patrick, o pintor que fez o retrato vive 
em Munro? 

— Não, mas... No momento ele está morando aqui na propriedade, no ateliê dos 

artistas.  J.B.  o  contratou  para  pintar  alguns  quadros  para  a  casa  que  mandei  construir 
para mim. 

Anne correu a abrir a porta do guarda-roupa de Deborah e começou a arrancar os 

vestidos dos cabidos até encontrar o que procurava. 

— Achei! — exclamou, aliviada. — Foi esse o vestido que Deborah usou quando 

posou  para  o  retrato.  Talvez  a  gente  consiga  refazer  a  mágica  da  viagem  no  tempo, 
Patrick! 

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16 

 

Não  fazia nem  quinze  minutos que  Patrick  havia  saído  do  quarto quando  Anne 

ouviu o barulho da porta se abrindo. Ela saiu do banheiro enfiando a barra da camisa 
para dentro da calça e levou um susto; J.B. estava parado no meio do quarto. 

Ao vê-la, ele empalideceu violentamente e estremeceu. 

—  Você  está  bem?  —  perguntou  Anne,  preocupada.  J.B.  recuou  um  passo, 

balbuciando com voz fraca: 

— Você... você está morta... Encontrei o seu corpo... lá na caverna... 

Oh, não! Ele havia encontrado Deborah! 

— J.B., escute, eu não sou Deborah. Tentei lhe dizer isso na noite em que saí dos 

túneis, lembra-se? 

Anne  tentou  se  aproximar,  mas  ele  continuou  recuando  até  que  suas  costas 

encontraram a parede. 

— Você... você não é ela? Mas então... quem...? Apesar de ter ficado com muita 

raiva de J.B. depois de ler o diário de Deborah, nesse momento Anne sentiu pena. Os 
olhos dele estavam vermelhos e inchados, indicando que havia chorado. E agora ele a 
encarava como se estivesse diante de um fantasma. 

Anne o segurou pelo braço e o conduziu até uma poltrona, usando um tom de voz 

suave para acalmá-lo. 

— Venha, J.B, sente-se um pouco. Nas linhas do seu destino não está escrito que 

você vai morrer de ataque cardíaco aos quarenta e poucos anos de idade, pode acreditar 
no que lhe digo. 

Depois  que  ele  praticamente  desabou  sobre  a  poltrona,  Anne  tomou  fôlego  e 

começou a explicar o que acontecera. 

— Acalme-se, J.B. Você não está vendo o fantasma de Deborah. O meu nome é 

Anne Sawyer. Sei que você vai achar a minha história absurda, mas... 

 

Franklin  Thomas  viu  o  homem  moreno sair da  mansão,  depois  esperou  durante 

quarenta  e  cinco  minutos,  até  ter  certeza  de  que  o  sujeito  não  retornaria  tão  cedo. 
Nervoso, enxugou as palmas suadas das mãos nas pernas das calças. Não podia perder a 
calma,  agora.  Tinha  de  pensar  em  seu  irmão  Henry  deitado  no  caixão  e  lembrar  que, 
dessa vez, não podia falhar. A sua missão de justiceiro devia ser cumprida. 

Ele  se  esgueirou  pelo  jardim  até  entrar  na  mansão.  Atravessou  o  hall  vazio  e 

correu  até  a  primeira  sala  do  andar  térreo.  Ao  ouvir  as  vozes  de  Deborah  e  de  um 

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homem, assustou-se. Escondeu-se atrás de um sofá de encosto alto e esperou que os dois 
passassem.  Arriscando-se  a  dar uma  espiada,  viu que  eles  caminhavam  na  direção do 
salão de festas. 

— É difícil de acreditar — dizia o homem. 

— Mas é verdade, J.B. Você viu a minha carteira de motorista, viu o corpo dela. 

E quando Patrick voltar, ele poderá confirmar o que aconteceu em Missouri. Patrick leu 
o  nome  que  estava  nas  fichas  referentes  ao  casal.  —  Uma  pausa,  e  então:  —  Você 
precisa ler o diário dela, e então entenderá por que... 

As vozes foram se distanciando. Franklin seguiu atrás, tomando cuidado para não 

ser  visto  nem  pelo  casal  nem  por  algum  empregado  que  porventura  aparecesse.  Com 
muita  sorte,  conseguiu  chegar  até  o  salão  de  festas  sem  que  a  sua  presença  fosse 
detectada. Tornando a esconder-se, dessa vez atrás de uma poltrona, ele viu Deborah e 
J.B. entrando na enorme lareira. Escutou barulho de chaves, de uma porta se abrindo. 

Olhando ao redor para certificar-se de não havia mais ninguém no salão, correu 

até a lareira. Se não estivesse enganado, o casal descera até os túneis por uma entrada 
diferente  daquela  que  ele  conhecia  —  a  entrada  que  Deborah  lhe  mostrara  quando 
estava ansiosa para receber notícias de Henry, pensando que o seu antigo amante ainda 
estava vivo. 

Deborah e J.B. eram os responsáveis pela morte de Henry. Os dois! Franklin não 

se importava mais de deixar um ou dois corpos sem vida nos túneis. Afinal, J.B. Munro 
era  tão  culpado  pelo  que  acontecera  quanto  a  sua  esposa  vagabunda.  Tirando  um 
revólver do bolso do paletó, Franklin Thomas entrou na lareira e começou a descer a 
escada que levava aos túneis. 

O  medalhão  estava  perto  do  primeiro  degrau  da  escada,  onde  Anne  sabia  que 

estaria. Ela se abaixou, pegou a jóia e mostrou-a a J.B. 

— Viu só? O medalhão estava onde eu disse que estaria. A correntinha deve ter 

arrebentado quando eu caí e bati a cabeça. 

— Humm, estou me lembrando desse medalhão. Patrick o deu de presente a ela. 

Mas como uma jóia e um retrato puderam... 

— Não sei — respondeu Anne, sem esperar pelo final da pergunta. 

Era  incrível,  mas  ela  não  estava  se  sentindo  nem  um  pouco  feliz  por  ter 

encontrado o medalhão. Ali estava a jóia, na palma da sua mão. A jóia que era a sua 
passagem de retorno para os anos 90. Ou, pelo menos, parte da passagem. O retrato teria 
de  ser  copiado,  e  ainda  assim  Anne  não  tinha  certeza  de  que  a  mágica,  como  dissera 
Patrick, voltaria a funcionar. 

Se funcionasse, ela retomaria para o futuro, para junto da sua família, para o seu 

emprego  como  para-médica,  —  em  resumo,  voltaria  para  o  que  considerava  ser  o 
"mundo real". Há pouquíssimos dias, teria dado cambalhotas de alegria ao recuperar o 
medalhão. Agora, porém, ela o trocaria de bom grado por uma certidão de nascimento 

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com  uma  data  bem  anterior  a  1966  —  uma  data  mais  próxima  dos  anos  20,  por 
exemplo. Desse modo, não precisaria abandonar Patrick MacKinnon. 

Ao  pensar  nisso,  Anne  sentiu-se  culpada.  Desde  quando  a  saúde  de  seu  pai 

deixara de ser a coisa mais importante do mundo para ela? 

—  Você  disse  que  viu  o  homem,  não  é?  —  disse  J.B.,  interrompendo-lhe  os 

pensamentos. — Antes de partir, é melhor você descrever a aparência do sujeito, para 
que eu possa mandar a polícia atrás dele. 

— Sim, claro. Eu já havia mesmo decidido que... 

—  Ela  não  irá  descrever  a  aparência  de  ninguém  —  intrometeu-se  uma  voz 

masculina vinda do alto da escada. 

Anne soltou um gritinho de susto e deu um encontrão em J.B. quando ambos se 

viraram ao mesmo tempo na direção da voz. 

— Quem está aí? — perguntou J.B. 

— Pergunte à sua esposa — respondeu Franklin Thomas, descendo a escada com 

um revólver na mão direita. — Ela e eu nos encontramos aqui nos túneis poucas noites 
atrás. Foi um encontro memorável, diga-se de passagem. 

— Você o conhece? — indagou J.B. a Anne. 

— Eu não sou Deborah, lembra? — ela sussurrou em resposta. 

Não conseguia ver direito o rosto do homem por causa de uma lâmpada acesa que 

lhe ofuscava a visão. Mas o revólver na mão dele deu-lhe uma boa indicação de quem 
podia ser o sujeito. 

— É ele? É o assassino? — indagou J.B. em voz baixa. 

— Acho que sim. Mas parece que ele tirou a barba... 

Nesse  momento,  Franklin desceu  mais  um  degrau  e  a  lâmpada  iluminou-lhe de 

frente o rosto. 

Anne soltou uma exclamação de surpresa. O sujeito era parecido com o pai dela, 

embora tivesse feições mais duras. 

— Afastem-se da escada — ordenou Franklin, aproximando-se. 

Anne não saiu do lugar. 

— Quem é você? — questionou ela. 

Se ia morrer, queria pelo menos saber o nome do seu carrasco e o motivo que o 

levara a matá-la. 

—  Não  banque  a  engraçadinha,  Deborah.  Você  ouviu  a  minha  ordem,  agora 

mexa-se! 

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— Não vou arredar o pé daqui enquanto você não me disser quem é — insistiu 

Anne, com voz trêmula de medo. — Se quiser me matar, terá de me matar aqui mesmo. 
Mas acredito que você não queira atirar tão perto da porta, pois algum empregado pode 
ouvir o disparo, certo? Muito bem, diga quem é e eu me afastarei da porta. 

— Você me parece familiar — disse J.B. ao homem, ao mesmo tempo em que 

abraçava Anne num gesto protetor. — Quem... 

— É claro que eu lhe pareço familiar, uma vez que meu irmão era tão parecido 

comigo que muita gente pensava que éramos gêmeos — retrucou Franklin, apontando o 
revólver para a cabeça de J.B. — Mas você já destruiu tantas pessoas na sua vida que 
nem distingue mais uma vítima da outra, não é mesmo, seu filho da mãe? Agora andem, 
vamos! Os dois! 

— Seu irmão? — instigou Anne, sem mover-se um só milímetro. 

Ela já sabia agora quem era o irmão do homem, claro. Se o irmão era parecido 

com o sujeito que segurava o revólver, ele só podia ser o pai do filho de Deborah, ou 
seja, o avô de Anne. E o homem ameaçador à sua frente era o tio de seu pai, ou seja, seu 
tio-avô. 

— O que aconteceu com Henry? Por acaso você quer nos matar por causa dele?_ 

ela perguntou em seguida, mas uma vez tentando ganhar tempo. 

— Não se atreva a pronunciar o nome do meu irmão, sua vagabunda! Você foi a 

responsável pela morte dele! 

— Henry... Agora me lembro... — murmurou J.B, antes de indagar ao homem: — 

O seu irmão morreu, então? 

— Ele se matou! — vociferou Franklin. 

— Oh, Deus... Não... 

Anne  fechou  os  olhos,  recordando-se  do  modo  como  Deborah  descrevera  o 

amante  em  seu  diário:  um  homem  bom  e  generoso,  honrado  e  religioso.  Ele  amara 
Deborah, apesar de tudo, e fora o único a dizer que ela era linda. 

— Sim! — esbravejou Franklin. — Ele se suicidou por sua causa, mulher! Henry 

se matou porque não conseguia viver sem você, sua cadela! 

Uma  revolta  profunda  tomou  conta  de  Anne.  Deborah  não  tinha  sido  nenhuma 

"cadela"!  Disposta  a defender sua  antepassada,  que tanto havia  sofrido  na  vida,  Anne 
protestou: 

— Não ofenda a memória Deborah desse jeito! Ela amava o seu irmão, e o seu 

irmão a amava! 

No mesmo instante Franklin deu-lhe um tapa que a jogou longe de J.B. Ela bateu 

contra a parede do túnel e ouviu o ruído do revólver sendo jogado no chão. Segundos 
depois, duas mãos fortes a agarraram pelo pescoço, começando a sufocá-la. 

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Anne escutou os gritos de J.B. e viu que ele tentava arrancar o assassino de perto 

dela.  Mas  J.B,  desacostumado  a  exercícios  físicos,  não  era  páreo  para  um  homem 
enfurecido  como  Franklin  Thomas.  A  visão  de  Arme  escureceu,  e  ela  percebeu  que 
estava prestes a perder a consciência. Ia morrer como Deborah morrera: estrangulada. 

Foi  então  que  as  mãos  assassinas  soltaram-lhe  o  pescoço.  Anne  caiu  no  chão, 

tossindo,  os  olhos  cheios  de  lágrimas.  Ao  olhar  para  cima,  esperou  ver  J.B.  Mas  era 
Patrick quem estava ali na frente, com o revólver nas mãos. Pelo jeito, ele havia batido a 
coronha da arma contra a cabeça do assassino, fazendo o homem desmaiar. 

Entregando o revólver a J.B, Patrick ajoelhou-se e abraçou Anne. 

— Ah, meu amor... Graças a Deus cheguei a tempo! Você não estava no quarto 

quando voltei. Procurei-a pela casa toda, aposento por aposento. Quando vi o cadeado 
no  chão  do  salão  de  festas,  perto  da  lareira,  pensei  que  você  tivesse  descido  até  aqui 
sozinha  e  vim  procurá-la.  Quando  vi  aquele  homem  com  as  mãos  no  seu  pescoço... 
Céus, eu não suportaria perdê-la, querida! 

Anne correspondeu ao abraço, enxugando na camisa de Patrick as lágrimas que 

lhe escorriam pelas faces. Lágrimas de amargura e pena por todo o sofrimento pelo qual 
Deborah e Henry haviam passado. Chorava também por Patrick e por si  mesma,  pois 
seriam obrigados a se separarem apesar do amor que sentiam um pelo outro. 

Ela  avistou  o  medalhão  no  chão,  onde  havia  caído  quando  Franklin  a  atacara. 

Pegou-o, com mãos trêmulas, e mostrou-o a Patrick. 

— Eu o encontrei — soluçou. — Encontrei o maldito medalhão... 

 

—  Como  posso  pintar  o  retrato  se  ela  não  pára  de  se  mexer,  Sr.  Munro?  — 

reclamou o pintor, dirigindo um olhar fulminante a Anne. — A sua esposa era capaz de 
ficar  imóvel  durante  horas,  mas  a  sua  cunhada  parece  que  tem  bicho-carpinteiro  no 
corpo! 

— Falvo, meu caro, como artista sensível que é ,  você deveria ser o primeiro a 

saber  que  as  pessoas  têm  temperamentos  diferentes.  Anne  pode  ter  uma  incrível 
semelhança física com a... irmã, mas sempre teve um gênio oposto ao dela. 

—  É  verdade  —  concordou  Anne,  mais  uma  vez  disposta  a  defender  Deborah, 

embora numa situação bem mais agradável. — Deborah sabia posar, eu não paro de me 
mexer. Ela sabia cavalgar e vestir-se com elegância, ao passo que eu sou um desastre 
em  cima  de  uma  sela  e  não  consigo  nem  diferenciar  um  modelo  de  Chanel  de  um 
modelo de Lanvin. Isso sem mencionar... 

— Já chega, Anne, não precisa dar mais exemplos — riu J.B, saindo de perto do 

pintor e aproximando-se dela. 

Falvo gemeu e revirou os olhos. 

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— A luz, Sr. Munro! O senhor está bloqueando a passagem da luz! Oh, assim é 

impossível  trabalhar...  O  senhor  exigiu  que  eu  fizesse  uma  réplica  exata  do  primeiro 
retrato, com as mesmas cores, a mesma luz e a mesma composição, certo? Pois então, 
por favor, não dificulte ainda mais o meu trabalho, eu lhe imploro! 

— Tudo bem, Falvo, não precisa ficar nervoso — disse J.B, saindo da frente da 

luz.  Em  seguida,  cochichou  para  Anne,  repetindo  uma  frase  que  a  ouvira  falar  na 
véspera; — Acho que ele precisa de um Valium, coitado. 

— Pare com isso, J.B, assim você vai me fazer rir — protestou ela. 

Assumindo um tom mais sério, ele mudou de assunto: 

—  Terminei  de  ler  o  diário  de  Deborah  e...  Confesso  que  estou  com  remorso. 

Olho à minha volta, vejo todas as coisas que sempre considerei importantes, e sinto-me 
envergonhado, arrependido. Eu devia ter dado mais valor às pessoas que me cercavam, 
principalmente no que diz respeito a Deborah. Quando penso no quanto ela deve ter me 
odiado... 

—  Sim,  Deborah  deve  tê-lo  odiado,  às  vezes.  Eu  mesma  cheguei  a  odiar  você 

depois de ler o diário — admitiu Anne. — Por outro lado, se eu achasse que você era 
um  "caso  perdido",  jamais  teria  lhe  mostrado  o  diário.  Seria  como  jogar  pérolas  aos 
porcos. 

Arriscando-se a levar mais uma bronca do pintor, ela virou o rosto para fitar J.B. 

Sorrindo, argumentou: 

— Sei que você pode ser generoso, quando quer. Lembro-me muito bem da noite 

em  que  aquela  mulher  interrompeu  o  nosso  jantar.  Você  me  prometeu  que  não  a 
deixaria passar por dificuldades financeiras e...  

— Srta. Anne, por favor... — resmungou Falvo. 

Ela ignorou o pintor e continuou falando: 

—  Também  pude  perceber  o  quanto  você  era  generoso  ao  observar  o  seu 

relacionamento  com  Patrick  e  ver  o  modo  como  você  se  preocupa  em  dinamizar  a 
economia  da  cidade  que  fundou.  Não  é  só  com  o  seu  império  particular  que  você  se 
preocupa, J.B, mas também com as pessoas que vivem na cidade. 

—  Se  sou  tão  generoso  quanto  você  diz,  por  que  não  me  preocupei  mais  com 

Deborah? Céus, quando penso no modo como a tratei... Eu nunca me dei conta do que 
estava fazendo com ela. Pensei que seguir uma disciplina rígida fosse o melhor jeito de 
educar  uma  criança.  Meu  pai  era  um  homem  severo,  e  no  entanto  eu  me  tornei  um 
adulto equilibrado. 

— Tem certeza, J.B? 

Ele sorriu, sem graça. 

— Bem, pelo menos eu achava que era equilibrado. Agora, no entanto... 

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— J.B, ouça com atenção. O maior erro que você poderia cometer agora seria sair 

dessa história toda sem ter aprendido nada. Você errou ao tratar Deborah como tratou, 
ao dar prioridade a coisas que deveriam ter ocupado um segundo plano. Mas agora você 
está arrependido, e o melhor que tem a fazer daqui para a frente é viver segundo novos 
padrões  de  comportamento.  O  que  passou,  passou,  portanto  pare  de  se  atormentar  e 
tente ser feliz. 

—  Como  poderei  ser  feliz,  Anne?  Perdi  todo  mundo.  Deborah...  Patrick...  Até 

você vai embora, amanhã. 

A simples menção de sua partida e do nome de Patrick, Anne sentiu um aperto no 

coração. Não via o amado há dois dias, desde que ele viera despedir-se. Ao contrário de 
J.B, Patrick não ligara a mínima para as broncas do pintor; pusera-se ao lado de Anne 
enquanto ela posava, sem se importar com o fato de estar "bloqueando a luz", sem se 
importar com quem pudesse ouvir o que tinha a dizer. 

— Eu te amo, Anne Sawyer — ela havia declarado com a voz rouca de emoção e 

um  brilho  de  angústia  no  olhar.  —  Eu  gostaria  de  passar  o  resto  da  minha  vida  com 
você, repetindo todos os dias que te amo, mas sei que não é possível. Sabia que vir até 
aqui para me despedir seria doloroso, e no entanto eu tinha de vir, nem que fosse para 
vê-la pela última vez... 

Anne balançou a cabeça e procurou afastar a lembrança que lhe partia a alma em 

mil pedaços. 

— Sinto muito — desculpou-se J.B, enxugando com a ponta dos dedos a lágrima 

que escorreu pelo rosto de Anne. — Você também vai perder alguém muito importante, 
não é mesmo? 

— Sim, é verdade... Mas não se esqueça do que eu lhe disse, J.B. Você ainda tem 

muitos anos de vida pela frente. A decisão é sua. Ou você passa o resto dos seus dias 
lamentando o passado ou utiliza tudo o que aprendeu para mudar o seu jeito de ser. — 
Ela  forçou  um  sorriso.  —  Acho  que  você  vai  escolher  a  segunda  opção,  certo?  De 
algum  modo,  não  consigo imaginá-lo  como  sendo  o tipo  de homem  que  perde tempo 
com lamentações. 

— Obrigado — murmurou J.B. — Por tudo. 

—  Não  há  o  que  agradecer  —  respondeu  Anne,  levantando-se  da  cadeira  onde 

estava  sentada  há  mais  de  três  horas.  Em  seguida,  aproximando-se  do  pintor, 
argumentou:  —  Sei  que  você  vai  ralhar  comigo,  Falvo,  mas  não  agüento  mais  ficar 
imóvel e... Oh! — exclamou ela, quando o seu olhar pousou sobre o retrato. 

— "Oh"? Depois de todo o trabalho que tive, isso é tudo o que a senhorita tem a 

dizer? 

— É... é incrível! Ficou igualzinho ao outro! 

Anne estendeu a mão para tocar o retrato. O pintor deu-lhe um tapinha no braço, 

protestando: 

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— Não toque nele! Quer borrar a tinta? 

Ela  recolheu  a  mão,  mas  não  porque  Falvo  lhe  dera  uma  bronca.  O  zumbido... 

Acabara  de  ouvi-lo  de  novo  ao  aproximar  os  dedos  da  tela...  Isso  significava  que  a 
mágica funcionaria outra vez. 

— O que foi, Anne? — indagou J.B, preocupado. — Você empalideceu. Está se 

sentindo mal? 

— Não, eu estou bem — mentiu ela antes de sair da sala de pintura do estúdio 

dos artistas. 

Será que teria forças para seguir o mesmo conselho que dera a J.B? Teria forças 

para não ficar lamentando o passado e tentar ser feliz novamente? 

— O retrato está pronto, então? — perguntou J.B, olhando a tela pela milésima 

vez. 

— Sim — respondeu o pintor. 

— É impressionante! Ficou idêntico ao primeiro! Meus parabéns, Falvo. Você é 

um gênio! 

—  Obrigado,  Sr.  Munro.  A  propósito,  eu  ainda  não  lhe  agradeci  por  ter  me 

pedido para pintar este retrato pela segunda vez, a fim de substituir o que foi danificado. 
É  uma  honra  saber  que  o  meu  trabalho  é  considerado  em  tão  alta  estima.  Ao  mesmo 
tempo,  suponho  que  tenha  sido  a  memória  da  sua  adorável  esposa  que  motivou  o 
pedido, também. 

— É verdade — concordou J.B. 

O retrato serviria para a viagem de retorno de Anne, mas serviria também como 

uma homenagem póstuma a Deborah. 

De repente, J.B. reparou em algo que não havia notado antes. 

—  Falvo...  Essa  sombra...  —  murmurou  ele,  apontando  para  a  tênue  mancha 

cinza perto do ombro da mulher retratada. 

— Sim? 

— Oh, não importa. Creio que havia uma sombra igual no outro retrato. 

— É claro que havia. 

— Está bem. E, mais uma vez, obrigado. Você fez um excelente trabalho. 

Falvo  esperou  que  J.B.  saísse  da  sala  para  começar  a  limpar  os  seus  pincéis, 

lembrando-se  das  exigências  do  magnata  há  três  dias:  O  retrato  precisa  ser  idêntico, 
Falvo! As mesmas cores, a mesma luz, a mesma composição! Ele cumprira as ordens, 
claro, mas na medida do possível. Afinal, não era uma máquina, era um artista! Jamais 

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poderia  ter  deixado  de  incluir  no  retrato,  por  exemplo,  a  sombra  da  tristeza  do  Sr. 
MacKinnon quando ele viera se despedir da srta. Anne. 

Anne  percorreu  a  mansão  de  ponta  a  ponta  pela  última  vez,  numa  espécie  de 

despedida, deixando  por último  o  salão  de  festas.  Sabia que poderia voltar  a visitar  a 
luxuosa residência no futuro, se quisesse, mas preferia guardar na lembrança os detalhes 
da aparência do lugar como ele era agora, nos anos 20. As salas, os quartos e banheiros, 
a cozinha... Até mesmo o Packard, na garagem, merecera uma última visita. 

— Jeans, camisa e tênis... Vejo que já está vestida para viajar. 

O olhar de Anne dirigiu-se para J.B, que estava parado à porta do salão de festas. 

— Sim, já estou pronta para partir — disse. 

— Patrick também vai embora hoje. 

— Você conversou com ele, J.B? — indagou, sentindo-se estranhamente calma; 

não tinha mais lágrimas para chorar. 

— Conversei. Patrick ainda não sabe para onde vai. Acho que ele irá andar meio 

sem rumo por aí, mas acabará voltando para cá um dia. O que não falta em Oklahoma 
são fazendas e, imagine só, Patrick comentou que gostaria de ser fazendeiro! 

—  Isso  não  seria  tão  ruim,  seria?  —  perguntou  Anne,  enquanto  o  magnata  se 

aproximava  dela.  —  Lembre-se  do  que  aprendeu,  J.B.  Os  seus  negócios  são  tão 
importantes quanto os seus relacionamentos pessoais. Antes de mais nada Patrick é seu 
amigo, e que diferença faz se ele vai deixar de ser seu sócio? Se ele se tornar fazendeiro, 
pelo menos você o terá sempre por perto. 

— Tem razão. Ah, irei sentir muitas saudades suas, Anne... Mas você disse que 

vamos nos reencontrar no futuro, não disse? 

— Sim, iremos nos ver de novo. 

Ela ouviu um zumbido alto e virou-se para olhar o retrato pendurado na parede às 

suas costas. 

— Está escutando, J.B? 

— Escutando o quê? 

— Um zumbido... Foi esse mesmo barulho que ouvi antes de viajar no tempo pela 

primeira vez. 

— Não, não estou escutando nada. 

—  Bem...  Acho  que  chegou  a  hora  da  minha  viagem...  —  Fitando  J.B,  Anne 

acariciou-lhe  de  leve  a  pequena  cicatriz  em  forma  e  "C"  e  comentou:  —  Quando 
cheguei aqui, reconheci você por causa da cicatriz. 

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— Foi Deborah que me "deu" essa cicatriz de "presente". Ela jogou um prato em 

mim quando cancelei pela terceira vez os seus planos de ir conhecer a Europa. 

Anne sorriu, depois ficou séria. 

— Adeus, J.B. Procure ser feliz, e diga a Patrick que... 

— Anne! 

Ela interrompeu a frase no meio e arregalou os olhos, atônita. Patrick acabara de 

entrar  no  salão,  usando  a  mesma  roupa  que  usara  no  dia  em  que  haviam  trocado  o 
primeiro  beijo,  perto  do  riacho.  O  coração  de  Anne  começou  a  bater  mais  forte,  ao 
mesmo tempo em que o zumbido em seus ouvidos ficou mais forte. 

— Vou deixá-la agora, Anne — disse J.B, sua voz quase inaudível por causa da 

intensidade do zumbido. — Adeus, minha querida, e obrigado por tudo. 

Assim  que  J.B.  se  afastou  Patrick  aproximou-se  de  Anne,  com  um  brilho  de 

desespero nos olhos negros como uma noite sem luar. 

— Não vá ainda, Anne. Por favor, fique mais um pouco — ele implorou. 

Oh, Deus, dê-me forças para abandonar esse homem que eu amo tanto, pensou ela, 

sabendo que a separação era inevitável. Em voz alta, porém, limitou-se a declarar: 

— Eu preciso ir, Patrick. Você sabe disso. 

— Sim, eu sei. Mas eu tinha de vê-la uma última vez, pelo menos. Fui cavalgar 

agora de manhã, tentando descobrir um jeito de podermos continuar juntos. Pensei em 
levá-la para longe daqui, mas... 

— Mas eu não posso ficar, Patrick. Adeus... E lembre-se, eu te amo... Sempre vou 

te amar... 

— O quê? Não ouvi o que você disse, Anne. Fale mais alto! 

Ela estremeceu de espanto, uma semente de esperança brotando de seu coração. 

—  Patrick,  por  acaso  você  está  escutando  um  zumbido  forte?  J.B.  não  ouviu  o 

zumbido, mas você está ouvindo... 

— É claro que estou! Parece até que tem um trem vindo na nossa direção. 

Anne o abraçou e beijou, sentindo-se a ponto de explodir de felicidade. 

—  Acho  que  isso  significa  que  você  pode  ir  comigo  para  o  futuro,  Patrick! 

Lembra-se da história que lhe contei? Depois que Deborah foi assassinada, você nunca 
mais  foi  visto  de  novo.  Talvez  seja  possível!  Eu  não  posso  ficar,  mas  talvez  você 
possa... 

Patrick ficou boquiaberto e olhou primeiro para Anne, depois para o retrato. 

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—  A  menos  que...  Patrick, é  isso o que você quer?  Abandonar  a  sua época, os 

seus amigos e tudo o que possui? Se você não quiser... 

— É claro que eu quero, meu amor. Afinal, só poderei ser feliz ao seu lado, seja 

lá onde for! 

Excitada,  Anne  segurou  a  mão  dele.  Juntos,  aproximaram-se  ainda  mais  do 

retrato. 

— Toque no meu medalhão e no retrato ao mesmo tempo — ela explicou. — E se 

por acaso não der certo... Se você ficar para trás... Saiba que eu te... 

Patrick a calou com um beijo apaixonado e depois murmurou: 

— Vai dar certo, tenho certeza. 

Anne  dirigiu  um  último  olhar  ao  salão  de  festas  e  recordou-se  do  dia  em  que 

chegara  aos  anos  20.  Tomou  a  ouvir  o  conjunto  de  Jazz  e  a  ver  as  pessoas  rindo  e 
dançando,  como  se  estivesse  assistindo  a  um  filme  antigo.  Tivera  a  extraordinária 
chance de conhecer um mundo diferente do seu, um mundo saído dos livros de história, 
mas agora era hora de voltar para casa. 

Ela  olhou  para  Patrick  e  sorriu.  Juntos,  seguraram  o  medalhão  de  ouro  e,  ao 

mesmo tempo, tocaram o medalhão pintado no retrato. 

Antes de ser envolvida pela escuridão, Anne teve a impressão de ouvir ao longe a 

voz de J.B. lhe dizendo adeus. 

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EPÍLOGO

 

 

Anne  duvidava  que  existisse  no  mundo  visão  mais  bela  que  a  de  Patrick 

MacKinnon  vestindo  jeans  e  camisa  de  flanela  xadrez,  cavalgando  pelos  campos  de 
Oklahoma  num  garanhão  baio.  Ela  adorava  seu  marido,  e  todos  os  dias  dirigia  uma 
prece de agradecimento aos céus por ter tido a chance de trazê-lo consigo do passado. 

Ela sorriu ao pensar no quanto essas cavalgadas matinais faziam bem a Patrick, 

ajudando-o a relaxar. Embora ele nunca reclamasse de nada, era óbvio que a pressão de 
ajustar-se a um mundo novo e desconhecido o deixava estressado. Patrick estava indo 
bem  no  curso  de  economia  no  qual  se  matriculara,  numa  faculdade  próxima.  Mas  só 
Anne  e  os  poucos  membros  de  sua  família  que  conheciam  a  verdadeira  data  de 
nascimento  de  Patrick  sabiam  o  quanto  ele  precisava  se  esforçar  para  ter  sucesso  nos 
estudos. Patrick passava horas mergulhado nos livros, tentando apreender as mudanças 
que haviam ocorrido no mundo dos negócios desde a sua época. Ele também lia muitos 
livros  de  história,  tecnologia  e  ciência  para  ficar  por  dentro  das  transformações 
ocorridas depois dos anos 20. 

Patrick  dizia  achar  tudo  fascinante,  e  Anne  sabia  que  ele  estava  sendo  sincero. 

Por  outro  lado,  sabia  também  que  ele  não  estava  fazendo  tudo  o  que  fazia  pensando 
apenas em si mesmo. Patrick queria proporcionar um bom nível de vida para a esposa e 
para  os  filhos  que  ambos  pretendiam  ter,  mas  logo  descobrira  que,  em  1994,  ser 
fazendeiro  exigia  um  investimento  altíssimo  de  capital.  E  como  ele  não  tinha  esse 
capital, decidira voltar a ser um homem de negócios. Embora não fosse isso o que mais 
gostava de fazer, era nisso que ele era bom. 

Ah,  nunca  conheci  ninguém  tão  teimoso  quanto  o  meu  marido,  refletiu  Anne, 

tornando  a  sorrir  enquanto  observava  Patrick.  Pela  centésima  vez  ele  estava  tentando 
ensinar ao cavalo, batizado de Cherokee II, alguns truques e passos que Anne vira no 
show Oeste Selvagem, na Fazenda 101. 

Sim, sem dúvida alguma, Patrick MacKinnon dava à palavra "teimosia" um novo 

significado! 

Ao avistar Anne sentada na cerca do curral, Patrick conduziu Cherokee para perto 

dela. Desmontou, fazendo um floreio, e cochichou para o cavalo: 

— Incline-se! Vamos, incline e cabeça e dobre as pernas dianteiras! 

Cherokee  ignorou  a  ordem  e  Anne  começou  a  rir.  Patrick  largou  as  rédeas  do 

cavalo e abraçou-a com força antes de dar-lhe um beijo carregado de paixão. 

— Humm, você fica tão sexy usando essa camisa — murmurou Anne segundos 

depois, abrindo os dois primeiros botões para acariciar-lhe o peito. 

— Por acaso está querendo me despir em público, mulher? — brincou ele. — No 

meu tempo, homens sem camisa eram considerados uma indecência. Mas o mundo está 

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tão mudado agora, não é mesmo? Gosto de rock'n roll, por exemplo, só que ainda não 
consigo  entender  por  que  os  cantores  das  bandas  gostam  de  se  apresentar  seminus, 
dançando feito índios selvagens. Esse tipo de coisa é um grande choque cultural para... 

—  ...para  alguém  que  veio  da  Era  do  Jazz,  como  você  —  completou  Anne, 

divertida.  —  Ah,  meu  querido,  você  não  imagina  como  é  engraçado  ouvir  você,  às 
vezes, falar igualzinho ao meu pai! 

— Tolice, garota, sou um cara ligado em novidades. O jazz é legal, mas prefiro 

um  som  mais  heavy  metal  —  disse  ele,  usando  algumas  das  novas  expressões  que 
aprendera  nas  últimas  semanas.  —  E  então,  gostou  do  meu  discurso?  —  indagou  a 
seguir, com uma piscadela marota. 

— Achei demais! — riu Anne, brincalhona. 

Os dois voltaram a se beijar, envoltos numa nuvem de desejo e sensualidade, mas 

o som de um carro que se aproximava os fez despertar para realidade. 

— Parece que temos visita — comentou Patrick, indicando o BMW branco que 

subia a estradinha do pequeno sítio que tia Shirley lhes dera de presente de casamento. 

O homem que saiu do carro minutos depois trajava um elegante terno Armani e 

trazia nas mãos um buquê de flores e uma pasta executiva de couro. 

— Você é Anne MacKinnon? — perguntou o homem de longe, enquanto fechava 

a porta do BMW, com o pé. 

—  Eu  mesma!  —  respondeu  ela,  olhando  para o  buquê de  flores  e  depois para 

Patrick, murmurando: — Preparou alguma surpresa para mim, querido? 

— Não. Talvez o seu pai tenha decidido lhe mandar flores. Mas é estranho, o cara 

não parece ser um simples entregador. Ele parece mais um executivo yuppie. 

— É verdade. Além disso, meu pai não mandaria ninguém me entregar flores, ele 

viria trazê-las pessoalmente. 

Henry Sawyer havia se recuperado muitíssimo bem do segundo ataque cardíaco 

enquanto  Anne  estivera  "viajando",  e  agora  os  seus  hobbies  preferidos  eram  a 
jardinagem e a genealogia. Henry havia demorado para acreditar na história que Anne e 
Patrick lhe contaram. Mas depois que os dois o convenceram de que tudo era verdade 
ele se transformara num ávido pesquisador da árvore genealógica da família Munro — à 
qual nunca soubera que pertencia, pois não se lembrava de ter sido adotado e seus pais 
nunca tinham lhe dito nada a respeito. 

O  homem  desconhecido  se  aproximou  do  casal  e  entregou  o  buquê  de  flores  a 

Anne. Vendo que ela procurava pelo cartão do remetente, foi logo dizendo: 

— Não adianta procurar, não há cartão nenhum. Permita que eu me apresente... 

Meu  nome  é  Brandford  Tompkins.  Sou  advogado,  sócio  do  escritório  Tompkins  & 
O'Brien.  —  Virando-se  para  Patrick,  Brandford  cumprimentou-o  com  um  aperto  de 
mão. — Você deve ser o marido de Anne, certo? 

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— Sim, sou eu — respondeu ele, desconfiado. 

Tia Shirley resolvera o problema da identidade de Patrick arranjando-lhe novos 

documentos, mas não através de canais reconhecidos pela lei. Os documentos haviam 
custado  caro  e  eram  perfeitos,  ninguém  jamais  descobriria  que  eram  falsos.  Mesmo 
assim, Patrick achava melhor ser prudente. 

— Ótimo! — Brandford abriu a pasta de couro e pegou um envelope que trazia o 

nome de Anne escrito na frente. — Há tempos eu estava esperando por esse dia, pois 
não  sou  do  tipo  que  gosta  de  surpresas  ou  mistérios.  Quando  era  pequeno,  eu  nunca 
resistia à tentação de xeretar os presentes de Natal que meus pais deixavam escondidos 
no armário. 

— Surpresas? Mistérios? Do que está falando? — indagou Anne, curiosa.  

—  Quem  lhe  mandou  essas  flores  foi  J.B.  Munro  —  respondeu  o  advogado, 

sorrindo. 

— J.B. Munro?! Mas... como...? 

— Compreendo o seu espanto. Afinal, o Sr. Munro morreu há um ano. Acontece 

que o meu escritório é o responsável pela administração dos bens que ele legou à cidade 
de Munro. Na verdade, o escritório já cuidava de parte dos negócios do Sr. Munro bem 
antes  de  ele  falecer.  Foi  o  Sr.  Munro  que  incentivou  o  meu  avô  a  abrir  o  escritório, 
depois  de  pagar  os  estudos  dele,  mas  essa  é  uma  outra  história.  De  qualquer  modo, 
todos  os  bens  que  o  Sr.  Munro  deixou  já  foram  distribuídos  entre  os  herdeiros 
designados, com exceção de um. — Brandford deu o envelope a Anne, acrescentando: 
—  O  Sr.  Munro  deixou  instruções  para  que  isto  lhe  fosse  entregue  depois  do  seu 
casamento. 

— Oh, céus... — murmurou Anne, trocando um olhar com Patrick. 

Ela abriu o envelope e, junto com Patrick, leu a carta que havia lá dentro. 

Querida Anne, querido Patrick: 

Depois  que  vocês  se  foram,  não  passei  um  único  dia  da  minha  vida  sem  me 

lembrar de vocês com muito carinho. Pensei num jeito de ajudá-los a serem tão felizes 
quanto eu fui graças à lição que me ensinaram, e espero ter encontrado a solução mais 
adequada. Pedi aos meus advogados que só lhe entregassem a parte da herança que lhe 
deixei  depois  do  seu  casamento  com  Patrick,  Anne.  Eu  já  sabia  o  que  ia  acontecer 
assim que vocês partiram para o futuro. Por favor, não sejam orgulhosos e aceitem o 
meu  presente.  Conheço  você  como  se  fosse  meu  filho,  Patrick,  e  finalmente  consegui 
entender e aceitar o fato de que você nunca tinha sido feliz trabalhando com finanças. 
Sendo assim, use o dinheiro para comprar aquela fazenda com a qual sempre sonhou. 
Quanto a você, minha querida Anne, trate de ser tão feliz quanto desejou que eu fosse. 
E eu consegui mesmo ser feliz, pode acreditar. Com amor, 

Jonathan Bartholomew Munro, Munro, Oklahoma, 1980. 

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Anne e Patrick fitaram-se com os olhos cheios de lágrimas de emoção, e depois 

encararam o advogado. 

Brandford  entregou  um  cheque  a  Anne.  Ao  ler  o  valor  escruto  no  cheque,  ela 

soltou uma exclamação de espanto. Era dinheiro mais que suficiente para comprar cinco 
fazendas enormes! 

—  Eu  tinha  muita  curiosidade  em  conhecê-la,  Anne  —  disse  o  advogado, 

sorrindo. — Eu conhecia a maioria dos amigos do Sr. Munro, mas nunca tinha ouvido 
falar  em  você.  O  que  despertou  a  minha  curiosidade,  de  fato,  foi  o  valor  elevado  do 
cheque. 

— A avó de minha esposa foi uma grande amiga de J.B. — explicou Patrick. 

— Oh, compreendo... Bem, o Sr. Munro sempre foi um homem muito generoso. 

Vejam o caso do meu avô, por exemplo. O Sr. Munro nem o conhecia direto, e mesmo 
assim pagou os estudos dele. — Depois de checar as horas em seu caro relógio de pulso, 
o advogado despediu-se. — Com licença,  mas preciso ir embora para tratar de outros 
compromissos. Adeus, e parabéns pelo presente que acabaram de ganhar! 

Assim que Brandford Tompkins partiu, Patrick abraçou Anne. 

— É bom saber que J.B. conseguiu ser feliz — disse ela, comovida. — Eu meu 

preocupava tanto por causa dele! 

— Eu também me preocupava, querida. 

— Tompkins... Tompkins... Esse sobrenome me parece familiar, por que será? 

—  Você  não  lembra?  Esse  era  o  sobrenome  da  mulher  que  foi  procurar  J.B. 

depois de ter sido abandonada pelo marido. 

— Oh, é verdade! J.B. havia prometido cuidar da mulher e dos filhos dela. Pelo 

visto, ele cumpriu a promessa. 

— Pois então, esse advogado que veio nos ver deve ser neto de um dos filhos da 

Sra. Tompkins. 

— Tem razão. — concordou Anne. — J.B. era tão generoso... E você também é, 

meu amor. Aposto que já está pensando em ajudar alguém com parte do dinheiro que 
J.B. nos deixou, não é mesmo? 

— Sim. Mas estou pensando em outra coisa, também. 

— No quê? 

— Em agradecer. — Patrick olhou para o céu e gritou: 

—  Obrigado,  J.B,  você  deve  ter  adivinhado  que  eu  ia  achar  difícil  aprender  a 

trabalhar com microcomputadores! — Em seguida, puxando Anne pela mão, brincou: 

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— Vamos lá, agora que você vai ser mulher de um fazendeiro, é melhor aprender 

a andar a cavalo! 

 

 
BRENNA TODD 

adora desafios. Cada livro que ela escreve tem uma temática nova, 

envolvente. Seus heróis e heroínas são pessoas que poderíamos encontrar na rua — ou 
numa aventura capaz de nos fazer voltar no tempo. O Enigma do Medalhão é uma 
dessas histórias, trazendo um toque mágico de "e se fosse possível...?" para um 
acontecimento da vida cotidiana, além de incluir uma boa dose de romance para deixar 
as leitoras com água na boca. Brenna vive em Oklahoma com o marido e dois filhos.